O Cuidador da Ojou-samaVolume 11 – Capítulo 3 – Capítulo 3: A Ojou-sama Perfeita
Capítulo 75COMO DE COSTUME, depois de terminar minhas tarefas de criado pela manhã, segui para o quarto de Hinako.
Nos últimos dias, a água usada na limpeza estava cada vez mais gelada. A mansão Konohana era sempre impecável, mas eu já sabia que, por trás daquela aparência perfeita, havia um trabalho de limpeza extremamente pesado.
Limpar os tapetes e os objetos de decoração exigia conhecimentos específicos, então eu ainda não podia cuidar dessa parte. Isso me fez perceber que devia haver muitas outras pessoas desempenhando tarefas difíceis das quais eu nem fazia ideia, e que eu vinha me beneficiando do esforço delas sem sequer notar.
Quanto aos membros da família Konohana, que eram os maiores beneficiados por todo esse trabalho, não era como se ignorassem isso. Muito pelo contrário. Tanto Kagen-san quanto Hinako tinham plena consciência das pessoas que os sustentavam nos bastidores. Talvez fosse justamente por isso que ambos se dedicassem tanto a viver cada dia da melhor forma possível.
E Hinako, apesar de todas as suas excentricidades, trabalhava mais do que a maioria das pessoas. Se esse era o caso, não seria estranho que ela tivesse algumas preocupações...
Foi a essa conclusão que cheguei antes de dormir na noite anterior.
Então bati à porta de seu quarto.
— Hinako, estou entrando.
Eu não esperava uma resposta, mas resolvi avisar mesmo assim.
Muito bem. Hora de começar o dia acordando a Hinako. Ou era o que eu pensava.
— Sim.
Ao ouvir sua resposta do outro lado da porta, congelei. Não... impossível. Ela já está acordada?
A Hinako?
...Hã?
Ela acabou de responder "sim"?
Em um único instante, minha mente foi inundada por perguntas. Será que eu escutei errado? Talvez eu ainda estivesse meio dormindo. Pensando nisso, abri a porta.
— Bom dia, Tomonari-kun.
A princesa de cabelos cor de âmbar estava parada diante de mim, banhada pela luz suave da manhã. As cortinas já estavam abertas. A cama estava perfeitamente arrumada.
Sua camisola não tinha um único amassado, seus longos cabelos estavam cuidadosamente penteados, não havia sequer um vestígio de baba no canto da boca, e ela até estava usando os chinelos corretamente.
— É uma manhã agradável, não é?
— Hã?
Será que eu ainda estava sonhando? Tudo o que eu pretendia fazer naquela manhã já havia sido feito.
Não… Esse nem era o verdadeiro problema. O que estava acontecendo? Por que a versão perfeita da ojou-sama Hinako estava aqui?
— Tomonari-kun, aconteceu alguma coisa?
— Ah... n-não...
De repente, fiquei nervoso e perdi completamente as palavras.
— Fufu.
Ao ver minha reação, Hinako sorriu com elegância.
— Você está particularmente engraçado hoje, Tomonari-kun.
Seu rosto delicado, bonito como o de uma boneca, desabrochou em um sorriso suave, como uma flor. Mesmo acostumado a vê-la todos os dias, não consegui desviar os olhos.
Ela é tão fofa… Ela sempre foi fofa, mas...
Não. No que eu estava pensando?
Empurrei imediatamente aqueles sentimentos impróprios para alguém em minha posição de cuidador para o fundo da mente.
Essa foi por pouco. Aquela mudança inesperada quase fez minha razão desaparecer.
— A propósito, Tomonari-kun… — Enquanto eu tentava desesperadamente me recompor, Hinako mexeu os dedos de forma inquieta e disse: — Hum... eu gostaria de me trocar logo...
— Me perdoe!!
Saí correndo do quarto. Assim que fechei a porta, belisquei minha própria bochecha.
Doeu.
Então não era um sonho. Só recorri a uma reação tão clichê porque a cena que eu acabara de presenciar parecia absurda demais para ser real.
— Itsuki-san, aconteceu alguma coisa?
Enquanto eu ainda me perguntava se existia a menor possibilidade de tudo aquilo ser um sonho, Shizune-san, que passava pelo corredor, falou comigo.
— Shizune-san...!! A Hinako virou uma verdadeira ojou-sama...!!
— Acredito que a Ojou-sama sempre tenha sido uma ojou-sama.
— Não foi isso que eu quis dizer!!
Como eu não conseguia explicar direito, apenas apontei para a porta. Shizune-san inclinou levemente a cabeça antes de bater.
— Ojou-sama, com licença.
Como seria um problema caso Hinako estivesse se trocando, dei alguns passos para trás. Ainda assim, consegui ouvir a conversa através da porta entreaberta.
— Ah, Shizune. Bom dia. Poderia me ajudar a trocar de roupa?
— Eh?
Shizune-san ficou quase tão surpresa quanto eu.
— O-Ojou... Ah... trocar de roupa... S-Sim... eu... ajudarei...
— Fufu. Você também está engraçada hoje, Shizune.
Era fácil imaginar o sorriso elegante estampado no rosto de Hinako. Logo depois, a porta se fechou enquanto Hinako trocava a camisola pelo uniforme escolar.
Alguns minutos depois, ela voltou a se abrir, e Hinako saiu acompanhada de Shizune-san.
— Tomonari-kun, obrigada por esperar. Vamos juntos ao refeitório?
Eu não consegui responder nem com um "sim". Apenas caminhei em silêncio ao lado dela. Shizune-san aproximou-se discretamente e sussurrou em meu ouvido.
— Itsuki-san... o que está acontecendo?
— Eu não sei. Sinceramente... eu não faço a menor ideia.
Shizune-san, que normalmente era sempre tão calma, estava completamente desnorteada. Mas eu também estava no meu limite, sem condições sequer de fingir tranquilidade.
Os dois seguimos pelo corredor de boca aberta. No caminho para o refeitório, cruzamos com uma empregada carregando um copo vazio.
Como sempre, ela fez uma profunda reverência.
— Bom dia, Ojou-sama.
— Sim, bom dia.
CRASH!!
O copo caiu de suas mãos e se estilhaçou no chão. Hinako demonstrou preocupação com a empregada e voltou a caminhar normalmente. Pouco depois, cruzamos com outra empregada, desta vez carregando um vaso de flores.
— Bom dia, Ojou-sama.
— Sim, bom dia.
CRASH!!
O vaso também caiu e se despedaçou. Isso era ruim. O estrago estava se espalhando.
As empregadas que haviam cometido aquela gafe diante de Hinako estavam tão chocadas com sua atitude que se esqueceram até mesmo de pedir desculpas.
Até Shizune-san, que normalmente já estaria repreendendo as duas, permaneceu em silêncio, incapaz de se recuperar do choque.
CRASH!! SLAM!! THUD!! BAM!!
A mansão estava excepcionalmente agitada naquela manhã.
Haha...
Quanto será que já tinham acumulado de prejuízo?
Espero que tudo volte ao normal depois que eu dormir e acordar. Caminhando completamente absorto, quando percebi já havia chegado ao refeitório. Alguém já estava sentado à mesa.
— Bom dia. É raro ver vocês por aqui a essa hora.
Enquanto tomava seu café da manhã, Kagen-san lançou um rápido olhar em nossa direção. Antes que eu ou Shizune-san conseguíssemos responder ao cumprimento, Hinako falou:
— Bom dia, pai.
………..
Kagen-san, que estava prestes a levar uma garfada de salada à boca, simplesmente congelou.
Seu corpo endureceu como uma estátua de pedra e, então, movendo-se como uma máquina enferrujada, virou lentamente o rosto para Hinako.
— Kagen-sama, por favor, mantenha a calma.
— Estou bem. Não perderei a compostura. Carrego a responsabilidade pela vida de oitocentos mil funcionários do Grupo Konohana. Não posso dar um mau exemplo aos meus subordinados ficando abalado por uma coisa dessas.
Kagen-san parecia estar tentando convencer a si mesmo. E, como havia declarado, sua expressão logo voltou ao normal.
Mas… Kagen-san… Seu garfo...!!
Ele tremia tanto que pedaços de salada voavam para todos os lados. A toalha ao redor dele já estava completamente encharcada de molho.
— Shizune, explique o que está acontecendo. Seja breve.
— Segundo Itsuki-san, a Ojou-sama está assim desde que acordou esta manhã. A causa ainda é desconhecida, mas, até ontem à noite, ela estava agindo normalmente.
O olhar de Kagen-san voltou-se para mim. Parecia esperar que eu também tivesse alguma explicação.
Perfeito. Havia uma hipótese que eu queria apresentar.
— Não sei se essa é realmente a causa, mas... nos últimos dias, Hinako parecia estar tendo dificuldades com sua atuação. É possível que o papel da peça tenha influenciado sua personalidade habitual e provocado esse comportamento estranho.
— Comportamento estranho...
Kagen-san repetiu minhas palavras em voz baixa. Era óbvio, só de olhar para ela, que algo estava diferente. A questão era entender exatamente o quê. Em que estado Hinako se encontrava naquele momento?
Tentei organizar meus pensamentos.
— Talvez ela simplesmente não consiga mais sair do personagem de "ojou-sama perfeita".
Ao ouvir minha hipótese, Kagen-san permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— Se for esse o caso, ela pode ir para a academia.
Fazia sentido. Enquanto continuasse interpretando perfeitamente uma ojou-sama impecável, não haveria nenhum problema de aparência.
Ainda assim, aquela decisão me surpreendeu. Kagen-san era do tipo que só agia depois de analisar todos os riscos. Jamais imaginei que ele permitiria que a atual Hinako, completamente imprevisível, aparecesse em público.
— Falta pouco para o festival cultural. Quero que ela participe de todos os ensaios sem exceção.
— Mas, com a habilidade da Hinako, ela poderia faltar um dia e ainda assim...
— Em um ambiente de equipe, a atitude do líder pode transformar tudo em um paraíso ou em um inferno. A ausência de Hinako certamente teria um impacto negativo.
Então ele estava preocupado não apenas com Hinako, mas também conosco, os alunos da Classe A. Como Kagen-san disse, se Hinako desaparecesse da turma justamente agora, seria inevitável que o moral de todos caísse.
Ninguém demonstrava isso, mas era impossível que não estivessem nervosos diante da responsabilidade de apresentar a principal atração do festival cultural.
Sem dúvida, muitos problemas eram evitados simplesmente porque Hinako estava presente. Kagen-san voltou seus olhos para mim.
— Itsuki-kun. Como responsável por cuidar dela, você consegue dar suporte à Hinako nesse estado enquanto estiverem na academia?
Encarei seu olhar por alguns segundos.
— Vou fazer o possível.
— Estou contando com você.
E foi assim que acabei indo para a academia acompanhado da versão perfeita da ojou-sama Hinako.
◆
O comportamento de Hinako não mudou nem mesmo dentro do carro. Assim que o veículo começou a andar, ela disse ao motorista:
— Conto com você.
O pobre homem quase provocou um acidente.
Com um sorriso sereno, Hinako observava a paisagem passando pela janela, claramente ansiosa para chegar à academia.
Enquanto eu permanecia em silêncio, observando seu perfil, Shizune-san, sentada no banco do passageiro, fez um discreto gesto com a mão para que eu me aproximasse.
Inclinei-me em sua direção. Ela falou tão baixo que Hinako não conseguiria ouvir.
— Quando vocês entrarem na academia, nossa vigilância não poderá mais acompanhá-los. Por favor, mantenha contato comigo regularmente.
— Entendido. Serei tão cuidadoso quanto fui no meu primeiro dia como cuidador dela.
— É o melhor. Enquanto vocês estiverem na academia, investigaremos os sintomas da Ojou-sama na mansão.
Parecia que ambos havíamos recuperado um pouco da calma.
— Vocês dois estão compartilhando muitos segredos hoje.
Hinako falou de repente. Ela olhou para mim e para Shizune-san enquanto inflava as bochechas de forma adorável.
— Não vou insistir... mas fico um pouco triste por estar sendo deixada de fora.
— Ugh...
— Kuh...
Shizune-san e eu soltamos um gemido ao mesmo tempo. Meu coração doeu.
...Então era isso. Essa era a verdadeira ojou-sama perfeita.
Uma jovem talentosa, excelente tanto nos estudos quanto nos esportes, admirada por todos.
E, ao mesmo tempo, dona de um coração puro e inocente, como a primeira neve do inverno, ainda intocada por qualquer impureza. Quanto mais eu me aproximava daquela aura limpa e cristalina, mais sentia que as partes sombrias dentro de mim eram purificadas.
Pouco antes da entrada da academia, o carro parou. Foi a minha vez de descer do carro primeiro.
— Itsuki-san, por favor, mantenha a Ojou-sama sob vigilância o tempo todo.
— Sim.
O carro seguiu em direção à academia, deixando-me para trás. Como de costume, o plano era caminhar um pouco e encontrar Hinako perto do portão da escola. Ainda assim, um estranho pressentimento tomou conta de mim, fazendo com que eu apressasse o passo em direção ao ponto de encontro.
Talvez seja apenas um medo infundado, como Kagen-san acredita, mas...
Na realidade, enquanto Hinako permanecesse daquele jeito, não haveria grandes problemas. Na verdade, o único problema éramos nós, que conhecíamos sua verdadeira personalidade e estávamos completamente desnorteados.
Para quem não a conhecia, nada parecia diferente. Ninguém na academia perceberia qualquer mudança. Pelo contrário...
A Hinako de agora talvez fosse, no sentido mais literal da palavra, perfeita. Assim, não existia o risco de sua natureza preguiçosa escapar por acidente.
A Hinako de agora era, sem dúvida alguma, a ojou-sama perfeita. Pelo menos para a família Konohana.
— Konohana-san.
Assim que avistei Hinako logo depois do portão da escola, chamei por ela.
— Bom di—
— Bom dia, Konohana Hinako!!
Antes que eu pudesse alcançá-la, alguém apareceu diante dela. Era a presidente do conselho estudantil, dona dos característicos cachos loiros impecáveis...
Tennouji-san.
— Fiquei sabendo que você foi escolhida novamente para o papel principal da peça deste ano. Admito que é frustrante, mas eu tinha certeza de que você, minha rival, conquistaria o papel! Como presidente do conselho estudantil, farei o meu melhor para que o festival cultural seja um sucesso. Então, por favor, brilhe o máximo que puder!
Tennouji-san incentivou Hinako com entusiasmo. Ela realmente era uma boa pessoa. Faltando tão poucos dias para o festival cultural, provavelmente tinha vindo justamente para apoiá-la, imaginando o quanto Hinako devia estar cansada física e mentalmente.
No Festival Cultural da Academia Kiou, interpretar o papel principal significava carregar, ainda que temporariamente, uma responsabilidade comparável à da presidência do conselho estudantil.
Por estar vivendo esse mesmo peso, Tennouji-san certamente queria dar forças à sua rival. Uma ojou-sama perfeita certamente perceberia a gentileza por trás daquelas palavras.
Mas Hinako apenas piscou várias vezes.
— Ugh... A Tennouji-san logo de manhã brilha demais... meus olhos não aguentam…
— Hã?
Os olhos de Tennouji-san se arregalaram. Provavelmente eu estava fazendo exatamente a mesma expressão.
O que foi que ela acabou de dizer...? A Hinako realmente falou isso...?
— Tô com sono... Quero voltar pra casa...
— UOOOOOOOOOOHHHHHHHH!!
Gritei com todas as minhas forças para abafar aquelas palavras.
...Não faço ideia se funcionou.
Eu estava completamente enganado...!!
Eu tinha pensado que Hinako simplesmente havia ficado presa no papel da ojou-sama perfeita e não conseguia mais voltar ao normal.
Mas não era isso. A personalidade da ojou-sama perfeita e a verdadeira Hinako haviam simplesmente trocado de lugar...!!
Olhando para Tennouji-san, que continuava paralisada, forcei meu cérebro a trabalhar na velocidade máxima.
O que eu faço?
O que eu faço?
O que eu faço?
Como vou consertar isso?!
Aquela era, sem dúvida, a maior crise desde que me tornei responsável por cuidar de Hinako.
— A-A Konohana-san está ensaiando a atuação dela neste momento!!
Mesmo sentindo meu rosto se contorcer de nervosismo, consegui explicar.
— Na peça deste ano, ela interpreta uma personagem extremamente preguiçosa. Como é um papel bem diferente do do ano passado, ela decidiu aproveitar até o tempo durante o dia para praticar... aparentemente.
Eu estava inventando um monte de bobagens no desespero, mas, pelo menos, aquilo fazia algum sentido.
Por favor… Caia nessa...!!
— Que espírito admirável...!! Que dedicação impressionante!!
Ainda bem que a Tennouji-san era tão fácil de convencer...!!
Um suspiro de puro alívio escapou dos meus lábios ao perceber que ela havia acreditado.
— Bom... então nós vamos para a sala de aula!
Olhei rapidamente para Hinako, que ainda esfregava os olhos de sono. Para evitar que ela deixasse escapar mais alguma coisa, segurei sua mão e me afastei dali o mais rápido possível.
No entanto, em vez de seguirmos diretamente para a sala de aula, fomos nos esconder atrás de alguns arbustos, em uma parte mais isolada do jardim da escola, e entrei em contato com Shizune-san.
"Shizune-san! Temos um problema! A Hinako voltou a agir como uma preguiçosa!"
"Isso não seria o normal... Não, espere. Justamente hoje, isso é um problema..."
Contei a Shizune-san tudo o que havia acabado de acontecer. Depois de alguns instantes de reflexão, ela me deu novas instruções.
"Kagen-sama está em uma reunião de negócios e não poderá ser contatado imediatamente... Se você ainda consegue contornar a situação, permaneça ao lado da Ojou-sama."
"...Então não tem problema continuarmos na academia?"
"Desde que seja possível, sim."
Shizune-san também entendia que estávamos em uma situação extremamente delicada, como caminhar sobre uma corda bamba.
Encerrei a ligação.
...Eu também queria corresponder, na medida do possível, à confiança que Kagen-san havia depositado em mim.
Era assustador, mas eu precisava observar a situação por mais um tempo.
— Para que lado mesmo fica a sala de aula?
Assim que entramos no prédio da escola, Hinako perguntou, olhando ao redor com expressão perdida. A verdadeira Hinako era absurdamente acomodada.
Mesmo quando era perfeitamente capaz de fazer alguma coisa, se não tivesse vontade, simplesmente não fazia. Nem sequer se dava ao trabalho de pensar no assunto.
Quando era absolutamente obrigada, acabava reunindo forças para agir, mas era evidente que, naquele momento, ela não tinha a menor intenção de fazer isso.
Em resumo… A verdadeira Hinako era preguiçosa e adorava ser mimada.
— É por aqui.
— Nngh...
Segurando sua mão, conduzi Hinako até a sala. Nossa interação era exatamente igual à que tínhamos na mansão.
Mas eu não podia esquecer… Ali era a academia. Não podia chamá-la de "Hinako", como fazia em casa.
Os olhares estão me matando...
Incontáveis pares de olhos atravessavam meu corpo. A flor perfeita e inalcançável da Academia Kiou, Hinako, estava sendo conduzida pela mão por um estudante.
Para quem visse de longe, parecia até que estávamos de mãos dadas. Eu queria explicar a situação imediatamente, mas seria impossível fazer isso toda vez que alguém nos encarasse.
De qualquer forma, eu teria que explicar tudo para meus colegas de classe. Depois disso, só restava torcer para que a história se espalhasse sozinha.
— Hehe... A mão do Itsuki é quentinha...
Hinako sorriu de maneira despreocupada e inocente, como uma criança. Em contraste com toda aquela tensão, meu coração acabou se acalmando.
Para mim...
Essa Hinako era uma companheira tranquila, diante de quem eu podia agir naturalmente. Por um instante, senti como se estivéssemos de volta à mansão.
A tensão começou a desaparecer dos meus ombros. Mas cerrei os dentes e forcei meu corpo a permanecer alerta.
◆
— E foi isso o que aconteceu.
Assim que chegamos à sala, tratei de explicar toda a situação antes que surgissem mal-entendidos desnecessários.
— Entendi... Então ela está ensaiando para a peça...
Taishou murmurou enquanto nossos colegas se reuniam ao redor.
— Se eu não tivesse ouvido essa explicação, acho que teria desmaiado.
Taishou e os demais voltaram seus olhares para o fundo da sala. Hinako cochilava tranquilamente sobre a carteira.
A mesma Hinako que sempre se sentava com a postura impecável, olhando para a frente com uma expressão elegante e digna...
Agora apoiava o rosto sobre a mesa, quase dormindo. A aluna exemplar da Academia Kiou, admirada por todos, havia se transformado, da noite para o dia, em alguém completamente relaxado, fazendo sem qualquer cerimônia aquilo que ninguém na escola ousava fazer.
Ao observar o espanto estampado no rosto dos meus colegas, comecei até a me perguntar se mostrar Hinako daquele jeito não estava causando o efeito contrário.
— Hum... Konohana-san. Desculpe interromper seu ensaio, mas... tem uma matéria da aula que eu realmente não estou entendendo. Você poderia me ensinar...?
Uma das alunas aproximou-se de Hinako. O pedido de ajuda provavelmente era sincero. Mas parecia mais uma tentativa de confirmar se Hinako realmente estava bem.
Como a melhor aluna da academia, ela costumava ajudar outros estudantes com frequência. Era uma cena comum. Só que hoje...
— Não... Tô com sono...
Hinako lançou apenas um rápido olhar para a garota e voltou a abaixar a cabeça. Um murmúrio percorreu toda a sala.
— C-Caramba... Nem parece atuação...!!
— A Konohana-san realmente está levando o papel a sério este ano...!!
Ainda bem que todo mundo da turma era fácil de convencer...
...Não.
Não era exatamente isso. A Hinako de agora só estava sendo aceita graças à reputação que construiu ao longo dos anos.
Como sempre demonstrou ser uma jovem elegante, refinada e impecável, ninguém sequer cogitava que aquele pudesse ser seu verdadeiro jeito de ser.
Todos estavam convencidos de que ela só poderia estar atuando. A Hinako de agora era sustentada pela confiança que havia conquistado ao longo do tempo.
Mas confiança… Por mais sólida que pareça… Também pode desmoronar.
Se aquela situação continuasse, mais cedo ou mais tarde todos começariam a desconfiar.
"...Será que essa é a verdadeira personalidade dela?"
Isso precisa voltar ao normal antes que chegue a esse ponto...
Um suor frio escorreu pelas minhas costas enquanto observava Hinako, que já havia caído em um sono profundo.
— Eu entendo que ela esteja ensaiando para a peça… — Asahi-san comentou, olhando para Hinako completamente largada sobre a carteira. — Mas... o que ela pretende fazer durante as aulas?
Essa era… uma excelente pergunta.
E a resposta, que ninguém conseguia imaginar, logo se revelou.
◆
Primeira aula. Língua Japonesa.
Fukushima-sensei, que também era a professora responsável pela Classe A, iniciou a aula normalmente. No entanto, poucos minutos depois, percebeu que havia algo errado.
— H-Hum... Konohana-san...?
Ela interrompeu a explicação e chamou Hinako. Desde o início da aula, Hinako permanecia completamente debruçada sobre a carteira.
Pensando bem...
Ela já estava exatamente assim antes mesmo da aula começar.
— T-Tenho certeza de que não é o que parece, mas... você não está dormindo... está? A Konohana-san dormindo durante a aula... isso é... impossível... não é...?
Fukushima-sensei aproximou-se da carteira de Hinako, repetindo a pergunta várias vezes, como se buscasse confirmar o que via diante dos próprios olhos.
Mas Hinako sequer percebeu sua aproximação.
...Zzz...
Acho que até ouvi um leve ronco.
Fukushima-sensei esfregou os olhos com as duas mãos. Esfregou. Olhou para Hinako.
Esfregou de novo. Olhou outra vez. Mas, por mais que conferisse, a cena diante dela não mudava.
— Com licença. Parece que há algum problema com os meus olhos, então vou me retirar mais cedo.
Dizendo isso, Fukushima-sensei saiu da sala de aula. Os alunos começaram a cochichar entre si.
Mesmo assim, Hinako continuou profundamente adormecida.
Isso é muito ruim… Meu estômago começou a doer logo na primeira aula.
Por enquanto, eu precisava explicar a situação para Fukushima-sensei.
Seria cruel simplesmente deixá-la daquele jeito. Saí da sala e corri atrás dela.
— Fukushima-sensei!
— Tomonari-kun, podemos conversar mais tarde? Estou indo ao oftalmologista.
— Na verdade...
Expliquei toda a situação para Fukushima-sensei, que ainda parecia completamente abatida.
— E-Então era isso que estava acontecendo...
Ao ouvir que Hinako estava apenas ensaiando para seu papel na peça, Fukushima-sensei enxugou discretamente uma lágrima que escorria pelo rosto.
— Ainda bem... Achei que minhas aulas tinham deixado de ser interessantes...
Isso era preocupante. A imagem de Hinako era tão impecável que ninguém sequer cogitava a possibilidade de ela estar errada.
Quando uma aluna perfeita, modelo para toda a escola, de repente começa a agir como uma delinquente...
Será que as pessoas automaticamente concluem que o problema está nelas mesmas?
Parecia que eu estava assistindo a um experimento de psicologia.
Depois de recuperar a compostura, Fukushima-sensei voltou para a sala e retomou a aula.
…………
E, dali até o horário do almoço, precisei repetir exatamente a mesma explicação para os professores das três primeiras aulas.
◆
Quando chegou a hora do almoço, Hinako permaneceu sentada em sua carteira.
Com toda a calma do mundo, tirou a marmita da mochila. Normalmente, nós dois íamos até o terraço do antigo prédio do conselho estudantil para almoçar sozinhos.
Mas, ao que tudo indicava, hoje isso não aconteceria. Considerando que a Hinako de agora era exatamente igual à da mansão, fazia sentido. Se pudesse evitar dar um único passo, ela evitaria.
— Então a Konohana-san traz marmita...
— Eu jurava que um chef particular entregava o almoço dela ou algo assim...
Ela sempre carregava sua marmita normalmente. De onde será que surgiu esse boato? Será que imaginavam que ela apenas levava o recipiente vazio e um chef aparecia para enchê-lo?
Assim como aconteceu com Fukushima-sensei, a imagem de Hinako era tão perfeita que as pessoas criavam suposições nobres e completamente fora da realidade, em vez de pensar nas explicações mais comuns.
Elas simplesmente não conseguiam enxergá-la como uma garota normal. Será que esse também era o poder de tantos anos interpretando a ojou-sama perfeita? Enquanto pensava nisso, Hinako aproximou-se da minha carteira com a marmita nas mãos.
— Itsuki... Me dá comida... faz "aaah"...
— Ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei, ei!?
Entrei tanto em pânico que acabei tentando disfarçar da forma mais estranha possível. Os olhares atravessavam meu corpo como lanças. Taishou me encarava com um olhar que dizia claramente: "Você nos traiu?"
Asahi-san, por algum motivo, parecia extremamente triste. Kita arregalou os olhos, completamente chocado. E Suminoe-san também me lançava um olhar acusador, como se dissesse: "Seu traidor..."
...Por quê...?
— T-Tem alguma cena dessas em Hamlet? Hahaha... Hahaha...
Forcei uma risada para tentar disfarçar. Em compensação, minha testa estava encharcada de suor frio.
Será que existe uma cena assim?
Alguns colegas começaram imediatamente a folhear seus roteiros.
Por favor...
Que exista pelo menos uma cena parecida! Qualquer coisa semelhante já serviria!
Shizune-san...!! Me ajuda, Shizune-san...!!
Eu não vou aguentar… meu coração vai parar...!!
◆
— Você teve um dia difícil, não foi?
Depois das aulas. Assim que entrei no carro da família Konohana, as primeiras palavras de Shizune-san foram de compaixão.
Ela falou pouco. Mas seu rosto demonstrava uma pena genuína. Pela primeira vez, parecia compreender de verdade o estresse pelo qual eu estava passando.
— Conseguiu disfarçar a situação?
— De alguma forma... Mas não acho que isso vá funcionar por muito mais tempo.
Enquanto respondia, lancei um olhar para Hinako, sentada ao meu lado.
— O que foi, Tomonari-kun?
Em algum momento durante o dia, Hinako havia voltado a ser a ojou-sama perfeita. Hoje, até deixei de participar das atividades do conselho estudantil para encontrá-la mais cedo. O trabalho estava se acumulando, mas, naquele momento, Hinako era minha prioridade.
Se ao menos conseguíssemos descobrir a causa...
Shizune-san aproximou-se discretamente e sussurrou em meu ouvido.
— Conversei com o médico. Ao que tudo indica, trata-se de algo psicológico. A ojou-sama sempre teve uma constituição em que seu estado emocional afeta facilmente sua condição física...
Enquanto ela falava, nós dois continuávamos observando Hinako. Normalmente, ela estaria dormindo durante o trajeto de carro. Mas agora permanecia sentada com a postura impecável, as costas perfeitamente eretas. Exatamente como durante as aulas na academia.
— Como estão os ensaios da peça? — perguntou Shizune-san.
No momento, tínhamos dois desafios pela frente. O primeiro era esconder o comportamento estranho de Hinako para que ninguém percebesse. O segundo era garantir que a peça fosse um sucesso.
Nenhum dos dois podia ser negligenciado. Mas, quanto à peça...
— Não há problema algum.
Lembrei-me do ensaio realizado na sala de aula depois do fim das aulas. Hinako participou da prática normalmente.
Quando interpretava Ofélia, ela parecia conseguir representar perfeitamente a ojou-sama impecável de sempre. E sua atuação como o outro lado de Ofélia...
A personalidade preguiçosa… Estava mais refinada do que nunca.
Graças a isso, meus colegas agora estavam convencidos: "O treino dela durante o dia realmente está dando resultado!"
Nesse ritmo, provavelmente conseguiríamos esconder a condição de Hinako por mais algum tempo.
— O cenário da peça também está quase pronto. Parece que um dos alunos responsáveis pela direção chegou a visitar o teatro de Shakespeare em Londres, e eles planejam recriar uma atmosfera autêntica.
A escala daquilo continuava absurda como sempre. Pelo que ouvi, alguns colegas haviam ido conhecer o Globe Theatre, onde as peças de Shakespeare eram originalmente apresentadas.
Entre os convidados que compareceriam ao festival cultural da Academia Kiou, certamente haveria pessoas familiarizadas com a atmosfera original.
Eles queriam impressioná-las. A atuação de Hinako, que já era considerada perfeita, havia se tornado ainda mais refinada.
Naquele dia, senti claramente o entusiasmo dos meus colegas, que queriam aproveitar aquele momento de impulso. Pensando agora, talvez tenha valido a pena trazer Hinako para a escola, mesmo que tenha sido uma decisão um pouco arriscada.
...O fato de ela conseguir interpretar Ofélia normalmente significa que, para Hinako, atuar na peça é algo completamente separado, não é...?
Originalmente, Hinako possuía dois estados.
A ojou-sama perfeita. E sua versão preguiçosa.
Eu tinha me preocupado que a atuação como Ofélia pudesse se misturar com seu estado atual e acabar virando uma bagunça. Mas esse medo acabou sendo completamente infundado. Isso significava que o verdadeiro problema de Hinako não era a peça.
A peça havia sido apenas o gatilho. Provavelmente, ela estava oscilando entre as duas personalidades que vinha interpretando até então: a ojou-sama perfeita e a garota preguiçosa.
Não havia dúvidas de que ela estava preocupada com sua atuação. Mas, para ela, interpretar Ofélia era algo completamente separado.
— Chegamos.
Hinako falou enquanto olhava pela janela. O carro parou. Pelo visto, havíamos chegado à mansão.
O motorista abriu a porta, e descemos um por um. Enquanto caminhávamos em direção à entrada, um jardineiro que cuidava do jardim percebeu a presença de Hinako e fez uma bela reverência.
— Bem-vinda de volta, ojou-sama.
— Sim. Estou de volta.
Hinako respondeu com um sorriso de tirar o fôlego. Provavelmente Kagen-san havia explicado a situação aos empregados. Não houve nenhum acidente como o vaso quebrando naquela manhã.
Mesmo assim, o jardineiro ficou completamente paralisado, com a boca aberta de espanto. Então...
— Linda...
Com apenas aquela palavra, ele colocou para fora toda a emoção que sentia.
Eu entendia… Eu realmente entendia muito bem aquela sensação. Mesmo que eu já estivesse acostumado a vê-la, a Hinako de agora emanava uma beleza excepcional. Era preenchida por um charme diferente da fofura habitual dela.
Depois de atravessarmos a entrada e entrarmos na mansão, meus olhos encontraram os de Shizune-san.
O que deveríamos fazer agora?
Enquanto trocávamos olhares, Hinako voltou-se para nós.
— Posso ir para o seu quarto agora, Tomonari-kun?
— Hã!?
Minha surpresa saiu automaticamente.
— N-Não, agora talvez seja um pouco...
— Por quê? Nós sempre fazemos isso, não fazemos?
É verdade, mas...!! Eu tinha uma forte resistência em deixar essa Hinako entrar no meu quarto. Será que meu coração aguentaria...!? Ele já estava sendo levado ao limite de uma forma completamente diferente daquela na academia...!!
...Espere um momento.
Uma ideia brilhante surgiu em minha mente, e minha cabeça finalmente esfriou. Se eu passasse algum tempo com ela exatamente como costumávamos fazer… será que Hinako não voltaria ao normal?
Eu poderia deixá-la dormir no meu quarto até o jantar. Poderíamos jantar de maneira tranquila.
Tomar banho juntos… e, durante esse processo, talvez a personalidade preguiçosa original dela retornasse?
Ainda havia esperança.
— Então, vamos para o meu quarto?
— Sim.
Hinako sorriu como um girassol.
……….
Era esperança. Mas uma esperança tão brilhante quanto o próprio sol. Se eu não tomasse cuidado, acabaria me queimando.
Fui para meu quarto acompanhado de Hinako. Dessa vez, parecia que eu não precisava segurar sua mão. A Hinako atual era uma ojou-sama perfeita. Não havia como ela se perder.
Assim que chegamos ao quarto, fui imediatamente até minha mesa.
— B-Bem... eu vou estudar um pouco, então você pode relaxar na cama, Hinako.
— ? Na cama, você disse?
Hinako inclinou a cabeça com curiosidade e sentou-se de maneira elegante sobre minha cama.
…………
O que está acontecendo?
Com Hinako sentada na minha cama, meu coração estava disparado.
Pensando com calma...
É natural ficar nervoso quando uma garota da minha idade entra no quarto de um garoto, não é? Quando é a Hinako preguiçosa, eu não fico tão consciente disso. Mas com a Hinako atual...
Não consigo escapar desses sentimentos completamente normais.
Vou apenas me concentrar nos estudos. Com esse pensamento, comecei a preencher freneticamente meu caderno com fórmulas. Assim que minha mente começou a se acalmar um pouco, uma mecha de cabelo macio, da cor de âmbar, entrou no canto da minha visão.
Bem ao meu lado, Hinako observava meu caderno.
— Hinako!?
— Desculpe. Eu atrapalhei você?
Apenas balancei a cabeça em silêncio. Meu coração estava acelerado.
Meu coração... meu coração ia explodir...!!
— Ah, essa fórmula está um pouco incorreta.
— Hã?
— O jeito correto é... assim.
Hinako pegou um lápis mecânico e escreveu com naturalidade no meu caderno. Era uma questão que deveria ser relativamente difícil, mas ela aparentemente percebeu o erro com apenas um olhar. A inteligência que ela normalmente demonstrava na academia continuava intacta.
— Obrigado.
— Não há de quê.
Depois de devolver o lápis ao lugar, Hinako ficou olhando diretamente para o meu rosto.
— Você sempre se esforça tanto, Tomonari-kun... Eu acho isso... muito admirável, sabe?
......!
Meu coração começou a bater ainda mais rápido. Minha mente só conseguia pensar em Hinako.
Naquele momento, com a cabeça completamente vazia, eu sentia que poderia mergulhar em uma felicidade absoluta apenas olhando para o rosto dela.
Calme-se... eu...!!
Havia uma emoção prestes a explodir dentro do meu peito. Eu lutei desesperadamente para contê-la.
Meu orgulho como cuidador dela. O desejo de um homem de não ser facilmente influenciado… E, acima de tudo, o sorriso preguiçoso da verdadeira Hinako, que passou pela minha mente.
Se eu começasse a nutrir sentimentos por essa Hinako de agora… Isso não seria uma traição à verdadeira Hinako?
Eu não podia afirmar com certeza que não sentia nada. Enquanto segurava o peito tentando me acalmar, ouvi uma batida na porta. Shizune-san entrou depois de abrir a porta.
— O jantar está pronto.
Já estava na hora? Fechei meu caderno e fui para a sala de jantar acompanhado de Hinako.
Sinceramente, fui salvo pela chegada de Shizune-san. Ficar sozinho com Hinako naquele momento era perigoso demais.
— Vocês chegaram.
Quando entramos na sala de jantar, Kagen-san já estava sentado à mesa. A princípio pensei que fosse coincidência, mas ele ainda não havia começado a comer. Pelo visto, estava esperando para jantar conosco.
O motivo, é claro, provavelmente era porque queria verificar como Hinako estava. Sentei-me ao lado de Kagen-san, com Hinako ao meu lado. Então os empregados, que aguardavam em silêncio, começaram a se movimentar.
Os pratos foram servidos um após o outro.
O jantar começou.
◆
O jantar daquele dia parecia ser italiano. Enquanto comia a clássica entrada, uma salada Caprese, observei Hinako.
Como esperado, seus modos à mesa eram perfeitos.
Recentemente eu havia superado minha própria insegurança, mas ainda assim, ao ver Hinako e Kagen-san se movimentando, parecia que eles estavam em um nível completamente diferente.
Uma etiqueta de primeira classe era tão magnífica quanto um músico tocando seu instrumento. Os talheres de prata, segurados pelas mãos esquerda e direita, desenhavam belos rastros de luz.
O leve som dos pratos se tocando lembrava a melodia de um violino. Observando seus movimentos, parecia que a faca, o garfo, a taça e até mesmo a comida no prato brilhavam.
Uma culinária de primeira classe era elevada a um nível ainda maior por uma etiqueta igualmente impecável.
— Hinako, como estão os ensaios?
Kagen-san perguntou enquanto dava um pequeno gole em seu vinho.
— Estão indo bem. Acredito que meu avô também ficará satisfeito.
— Entendo. Mas não baixe a guarda. O chefe da família fez questão de comparecer desta vez. Você deve considerar que nem mesmo uma falha em um milhão será permitida.
O olhar de Kagen-san sobre Hinako ficou levemente mais sério. A antiga Hinako provavelmente teria reclamado com uma expressão cansada.
Depois disso, talvez resmungasse um pouco no meu quarto ou fosse dormir emburrada.
Porém, a Hinako de agora...
— Vai ficar tudo bem — Hinako respondeu com uma voz digna. — Afinal, eu sou uma filha da família Konohana.
……..
Os olhos de Kagen-san se arregalaram. Naquele momento, ele viu nela algo que brilhava intensamente como o futuro sucessor do Grupo Konohana.
◆
Depois do jantar, continuei estudando. Hinako não estava comigo. Normalmente, passaríamos algum tempo juntos depois do jantar até que ela fosse dormir.
Mas hoje era diferente.
Ela terminou a lição de casa, mas disse que havia algumas coisas que queria estudar por conta própria...?
Essa era uma frase que a Hinako de sempre jamais diria.
Pensando novamente sobre isso, a Hinako como uma ojou-sama perfeita era extremamente impressionante. Por seus movimentos serem sempre calmos e elegantes, era difícil perceber, mas ela era uma pessoa que estava constantemente em atividade.
Ela nunca parava. Sempre estava fazendo alguma coisa. Até mesmo na academia, antes disso tudo acontecer, provavelmente alguém chamava por ela durante todos os intervalos, e ela respondia prontamente.
Coloquei o lápis mecânico sobre a mesa e respirei fundo. Graças à ajuda de Hinako, consegui terminar a meta de estudos daquele dia mais cedo.
Lembrei-me da expressão de Kagen-san durante o jantar. Dentro de Hinako, certamente existia o potencial digno de alguém que herdaria o Grupo Konohana.
O que Kagen-san havia pensado ao ver aquilo?
…..Para Kagen-san, talvez essa Hinako de agora fosse a versão ideal.
E talvez ele não fosse o único a pensar assim. Quantos empregados haviam se encantado por Hinako em apenas um dia? Não seria estranho que muitos deles pensassem: "Não está tudo bem assim?"
Provavelmente havia mais do que alguns que sentiam exatamente isso. Uma Hinako capaz de ser uma ojou-sama perfeita do começo ao fim, sem nenhuma diferença entre sua aparência e seu verdadeiro eu.
Certamente havia pessoas que enxergavam isso como o ideal.
...Será que pensar que as coisas não estão bem do jeito que estão é apenas o meu próprio egoísmo?
Quando terminei de estudar… Quando finalmente concluí tudo o que precisava fazer, minha mente começou a ser tomada por todo tipo de pensamento.
Foi então que ouvi uma batida na porta. Quem apareceu do outro lado era Shizune-san. Ela havia vindo ao meu quarto várias vezes naquele dia. Considerando o estado atual de Hinako, era evidente que nenhum de nós dois estava agindo como de costume.
— Itsuki-san, a Ojou-sama está chamando por você.
— ? Já vou.
Hinako estava estudando em seu quarto naquele momento, mas será que precisava de alguma coisa?
Enquanto me perguntava o motivo, fui até o quarto dela. Bati na porta e entrei.
Hinako estava se levantando da cadeira. Os materiais de estudo sobre a mesa já estavam guardados. Pelo visto, ela havia acabado de terminar seus estudos.
— Hinako, você precisava de alguma coisa?
— Sim. Eu estava pensando que já está na hora de entrarmos.
Entrarmos? ...Entrarmos onde?
Inclinei a cabeça, confuso. Hinako soltou uma pequena risada.
— Ah, você...
— O banho. Nós sempre tomamos banho juntos, não é?
Ela disse algo completamente absurdo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu realmente havia pensado que talvez devêssemos continuar fazendo as coisas normalmente, mas...
Nós vamos tomar banho juntos...!? Com a Hinako de agora… No banho, juntos...!?
Isso é mesmo permitido...!?
◆
— Ufa.
O vapor passava diante dos meus olhos e do meu nariz. Quando abaixei as pernas, ouvi o som da água se movimentando. O cheiro familiar de rosas preenchia o ambiente.
Sentados na borda da enorme banheira impecavelmente limpa, estávamos Hinako e eu.
— Isso é relaxante, não é?
— É. É sim.
Eu estou dentro de uma banheira com ela————!!
Uma sensação de culpa crescia dentro de mim sem parar!!
O que eu faço...?
Eu não consigo olhar para Hinako.
No canto da minha visão, vi o biquini branco que ela usava e, involuntariamente, desviei o olhar. Algo que eu já havia visto tantas vezes antes agora parecia algo que eu não deveria estar olhando.
...Não dá!!
Eu não vou aguentar!!
— C-Como está a temperatura da água!? Não está um pouco quente demais!?
— Agora que você mencionou, parece um pouco quente mesmo.
— E-Eu vou ajustar!!
Meu corpo estava mais quente do que a própria água. Eu sentia que enlouqueceria se continuasse daquela forma, então me afastei de Hinako à força.
No painel próximo ao vestiário, reduzi a temperatura da água em um grau. Na verdade, a temperatura estava exatamente igual à de sempre.
Não havia necessidade alguma de diminuí-la.
Minha cabeça não conseguiu esfriar em tão pouco tempo.
Voltei lentamente para perto de Hinako, como um boi caminhando devagar.
As costas delicadas de Hinako despertavam em mim uma vontade de protegê-la. Uma mecha de cabelo âmbar molhado caía sobre seu ombro. Uma gota de água escorria lentamente por sua pele bela.
Mantendo uma distância um pouco maior do que antes, sentei-me ao lado dela. Hinako, achando aquilo estranho, aproximou-se de mim.
Instintivamente, afastei-me um pouco. Hinako se aproximou novamente. Tentei me afastar mais uma vez.
Então...
— Tomonari-kun.
Hinako me encarou fixamente.
— Por que você não quer se aproximar de mim hoje...?
…………
Ela olhava para mim com uma expressão semelhante à de uma criança solitária vendo seus pais partirem. Eu não queria deixar Hinako triste. Mas, com a Hinako de agora fazendo aquela expressão...
Era tudo o que eu conseguia fazer para manter minha sanidade.
Calma...
Eu pensei a mesma coisa durante o Management Game...!!
Eu também preciso aceitar essa Hinako...!!
Naquela época, pensei isso depois de ver Hinako administrando a empresa com seriedade.
Hinako tinha dois lados. E, se eu queria apoiá-la como seu cuidador, precisava estar ao lado dos dois.
Eu queria compreender ambas as Hinakos. Queria que ambas confiassem em mim.
— Você poderia lavar meu cabelo como sempre faz?
— S-Sim.
Eu estava tão nervoso que respondi usando uma linguagem formal sem perceber.
O momento em que eu conseguia me acalmar apenas dizendo a mim mesmo para manter a calma já havia passado há muito tempo.
Shinto Mekkyaku...
A partir daqui, eu precisava esvaziar minha mente.
(N/SLAG: Shinto Mekkyaku (心頭滅却) é uma expressão budista que significa "eliminar as perturbações da mente".)
Se eu não conseguisse… Meu coração iria explodir.
Fui para trás de Hinako e levantei delicadamente seus cabelos macios como seda. A pele branca que antes estava escondida pelos fios ficou exposta.
Vou ignorar o cheiro agradável que já vinha antes mesmo de usar o shampoo.
Vou ignorar a sensação de sensualidade que vinha da nuca dela.
Não pense nisso.
Não pense nisso.
Não pense nisso.
— Ah... faz um pouco de cócegas.
Por favor… Pare...
Não me deixe ainda mais louco...
Neste momento, eu estava seriamente considerando pedir a Shizune-san uma poção que me tornasse impotente...
— Você sempre está me ajudando, Tomonari-kun.
Hinako falou de repente, em um tom tranquilo.
— Você consegue lavar o próprio cabelo, não consegue?
Pelo menos...
A Hinako de agora conseguia. Eu sempre cuido da Hinako. Mas, às vezes, não tenho certeza se estou realmente ajudando-a no verdadeiro sentido da palavra. Lavando o cabelo dela dessa forma...
Até que ponto consigo aliviar o peso da vida que ela carrega?
— Tomonari-kun.
Hinako segurou meu braço delicadamente e virou-se para mim.
— Por favor... olhe mais para mim.
— H-Hinako...?
Fiquei completamente sem reação quando Hinako aproximou o rosto. Meu reflexo estava dentro dos olhos dela. E, provavelmente, o rosto de Hinako também estava refletido nos meus olhos.
— Olhe com mais atenção... então você vai entender.
— E-Entender o quê...?
Para mim, que ainda estava confuso, Hinako declarou:
— Você vai entender o quanto está me salvando.
Hinako disse isso sorrindo. Eu fiquei sem palavras.
— Eu sei que você está sempre pensando em mim, Tomonari-kun. Você não foi ao conselho estudantil hoje apenas para poder ficar ao meu lado, não foi?
— Isso é...
O motivo pelo qual não consegui confirmar imediatamente era porque eu não queria ser alguém que impunha sua própria bondade aos outros.
Mas, na realidade… Era exatamente como Hinako havia dito.
— Eu sei... o quanto você está se esforçando para permanecer ao meu lado, Tomonari-kun.
Hinako falou enquanto juntava delicadamente as mãos próximas ao peito. Como se estivesse protegendo e valorizando um tesouro precioso guardado ali.
— Tudo... tudo isso chega até mim. Eu consigo sentir. Eu só queria dizer isso a você.
Nos olhos de Hinako, apenas eu estava refletido. A única pessoa que ocupava aquele olhar era eu.
Tenho certeza de que acontece o mesmo comigo. Neste momento… Nos meus olhos, apenas Hinako está refletida.
— Vou lavar meu corpo agora.
Hinako se levantou. Enquanto caminhava em direção ao chuveiro, ela olhou para trás uma vez.
— Embora, na verdade, eu gostaria que você lavasse meu corpo também.
— N-Não, isso já é demais—!?
— Estou brincando — Hinako soltou uma risadinha. — Obrigada por tudo.
A gratidão sincera em sua voz chegou até mim. A pessoa diante dos meus olhos deveria ser apenas Hinako usando a máscara de uma ojou-sama perfeita.
Mas aquelas palavras… Sem dúvida alguma, vinham do fundo do coração dela.
A Hinako de agora deveria ser apenas uma atuação. Uma falsa imagem.
Mas as emoções que saíam de sua boca eram completamente reais.
……..
Ela não é uma farsa. Mesmo tentando aceitar os dois lados de Hinako, talvez, em algum lugar dentro do meu coração, eu ainda estivesse dando mais importância a um deles.
Mas isso estava errado. As duas eram a verdadeira Konohana Hinako.
A ojou-sama perfeita dentro de Hinako era uma atuação.
Mas não era uma mentira. Finalmente consegui entender isso. Aquela atuação que ela manteve por tanto tempo acumulou incontáveis memórias.
E essas memórias formaram um conjunto completamente novo de valores dentro dela… permitindo que ela dissesse coisas que sua personalidade original não conseguiria dizer.
Permitindo que sentisse coisas que sua personalidade original talvez nunca experimentasse.
Para Hinako...
O papel de uma "ojou-sama perfeita" talvez fosse algo muito maior do que eu jamais havia imaginado.
Tão grandioso...
Que poderia até mesmo ameaçar dominar quem ela realmente era.
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