O Reino das Sete MagilâminasVolume 1 – Prólogo
Capítulo 2Há muito tempo, alguém disse certa vez
— Quanto mais brilhantes as estrelas, mais escura é a noite em que ela cai.
Fazia algum tempo desde a última vez que ela vira uma lua nova, e isso a fez se lembrar daquela frase. É claro que ela não era tão presunçosa a ponto de se considerar uma “estrela” em qualquer sentido da palavra. Aqueles que a conheciam, porém, certamente a considerariam uma. Ela se preparava perfeitamente para cada caçada, independentemente de seu alvo ser humano ou besta. Mesmo que fosse caçar uma estrela, seus preparativos fariam todas as caçadas anteriores parecerem insignificantes.
E era com esse mesmo nível de preparação que seus perseguidores a encurralavam naquela noite. Eles pareciam absolutamente convencidos de sua vitória, levando-a a pensar sinceramente:
Entendo... essas pessoas realmente seriam capazes de apagar uma estrela.
— Kh...!
Enquanto corria entre as árvores, com a sede de sangue em seu encalço, garras gigantes surgiram da escuridão, dilacerando tudo em seu caminho. Ela girou instantaneamente e sacou seu athame¹ para bloquear o ataque, mas não conseguiu desviar a força do impacto, sendo lançada para o alto.
No instante em que seus pés deixaram o chão, criando uma abertura, outro conjunto de garras avançou em um golpe de acompanhamento.
— Haaaah!
Firmando um passo no ar, ela contra-atacou com as lâminas em ambas as mãos, abatendo a garra gigantesca antes que ela pudesse despedaçar sua presa. Assim que os ataques cessaram, ela aterrissou e partiu para a ofensiva.
— ?!
Uma névoa negra avançou de repente, interrompendo-a. Um calafrio percorreu seu corpo, e ela saltou para trás antes mesmo que seus olhos registrassem o que estava acontecendo. Ainda assim, foi lenta por um fio. A névoa roçou seu ombro esquerdo.
Um arrepio desagradável percorreu todo o seu corpo, fazendo cada pelo se eriçar. Mas ela não tinha tempo para pensar nisso naquele momento.
— Fortis Flamma Maxime!
Um vermelho carmesim caiu do céu como grandes ondas nascidas de um mar de fogo, transformando instantaneamente as árvores ao redor em cinzas devido ao calor intenso e avançando diretamente em sua direção.
A garota preparou os athames em ambas as mãos e girou as duas lâminas, fazendo as chamas rodopiarem sem parar. Ela dispersou o fogo e desviou parte da onda de calor. Sob as chamas, o solo transformou-se em um caldeirão borbulhante de lava.
Somente o chão diretamente sob seus pés permanecera intacto, deixando-a sobre uma pequena ilha.
— Estou impressionado por você ter sobrevivido. Mas nós dois sabemos que resistir é inútil.
Era a voz de um homem, carregada de zombaria.
A garota ergueu os olhos para o céu escuro, agora intensamente iluminado por uma luz pálida: uma lua enorme em uma noite de lua nova.
Naturalmente, aquilo não era um corpo celeste.
Era uma esfera de luz criada por magia, um feitiço básico que até uma criança poderia conjurar com estudo suficiente. Ela não conseguiu impedir o próprio corpo de estremecer. Qualquer um capaz de transformar um simples feitiço de iluminação em uma lua temporária certamente possuía uma quantidade absurda de poder.
Seis sombras apareceram no céu, iluminadas pela falsa lua.
Uma estava sobre uma árvore especialmente alta, enquanto outra montava uma vassoura. Havia até uma repousando sobre o ombro de um gigante misterioso.
Os caçadores de estrelas observavam-na de cima, de seus poleiros.
— ...!
De repente, seu ombro esquerdo começou a coçar de forma incontrolável onde a névoa negra a havia tocado. Ela sequer teve tempo de reagir antes que uma gargalhada estridente ecoasse de dentro de suas roupas.
Rasgando o tecido com uma mordida, surgiu um rosto humano grotescamente distorcido, do tamanho aproximado do punho de uma criança.
Sem hesitar, ela cortou o tumor que surgira em seu corpo juntamente com parte do próprio ombro. A massa de carne caiu no chão com um ruído úmido.
Uma das sombras observando lamentou:
— Ahhh, como você é cruel por me cortar assim! Estou sozinha, tão sozinha! Deixe-me me tornar uma só com você!
Sua voz tremia como a de uma ovelha com a traqueia esmagada. A sombra parecia ao mesmo tempo uma menina e uma velha, chorando e rindo simultaneamente.
Talvez já tivesse abandonado tais distinções há muito tempo.
Não passava dos murmúrios insanos de um espírito maligno, agarrando-se aos resquícios da fala humana.
— Então você é a portadora da luz, hein? Deve ser uma grande honra, sua velha bruxa.
A voz era feminina e transbordava hostilidade.
Recortada contra a luz pálida havia uma silhueta estranha e voluptuosa, claramente não humana, especialmente da altura dos ombros para cima.
Seus braços cresciam de formas bizarras, possuindo cinco articulações cada e garras gigantescas, afiadas como lâminas temperadas fundidas aos dedos.
Até mesmo a parte que havia sido cortada durante o confronto anterior estava se regenerando diante dos olhos dela.
— ......
A sombra ignorou a provocação, permanecendo em silêncio enquanto erguia seu cajado bem alto.
Aquela imensa reserva de mana parecia estar sendo usada apenas para manter aquela esfera de luz suspensa. A iluminação que os envolvia transformava-os em silhuetas, tornando impossível distinguir seus rostos, mas, pela postura rígida e impecável, ela percebeu que se tratava de alguém extremamente austero.
— Fique à vontade para tentar! Kya-ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha!
A gargalhada enlouquecida saiu da voz de um velho, mas carregava uma inocência quase infantil.
A criatura gigantesca sobre a qual a pequena sombra estava montada rangeu ao se levantar, erguendo-se muito acima do solo. Então estendeu ambas as mãos enormes em direção à garota, como uma criança tentando capturar um gafanhoto.
— Gladio!
Ela atacou diretamente as palmas da criatura no exato momento em que elas se fechavam sobre ela.
Incontáveis blocos de terra, antes mantidos imóveis, despencaram no chão. Em seguida, a garota saltou para cima do que agora não passava de um longo toco e correu por sua extensão.
Seu olhar fixou-se no inimigo e—
— ■■■. — Pare
Seu corpo congelou.
Aquilo não era uma maldição.
Ela estava presa por algo muito mais primordial.
Outra sombra surgiu, e ela a encarou em choque.
— Bom trabalho prendendo ela, velho. Isso vai doer!
A sombra não humana encurtou a distância entre elas num instante.
Com força avassaladora, lançou suas garras gigantescas para baixo e cravou o punho em sua presa sem a menor hesitação.
Um som surdo ecoou quando carne e ossos foram esmagados.
Incapaz de resistir ao impacto, a garota foi arremessada violentamente contra o chão.
— Gahhhhhhh! Isso doeu, droga!
Mas isso não significava que ela tivesse ficado parada recebendo o golpe.
A sombra não humana soltou um urro quando seu braço direito, decepado na altura do ombro, caiu em pedaços.
Uma pequena lembrança do confronto anterior.
— ...! Haaah!
Ela chutou o ar para evitar cair no lago de lava.
Ao tocar o solo, rolou para amortecer o impacto.
Felizmente, havia conseguido salvar a própria vida.
Mas os ferimentos que sofrera eram impossíveis de ignorar.
Todas as suas articulações tremiam.
O sangue escorrendo de seus olhos tingia sua visão de vermelho.
Seu ombro ainda sangrava devido ao tumor que havia removido, sem mencionar os inúmeros outros ferimentos espalhados pelo corpo.
Ela já havia ultrapassado o limite da dor.
Mesmo assim, sorriu.
O fato de ainda estar viva era quase uma piada.
Ela sabia que, enfrentando seis inimigos sozinha, não tinha qualquer chance de vencer.
Até mesmo sua esperança de minimizar as perdas e escapar era extremamente frágil.
Ainda assim, desistir jamais passou por sua mente.
Durante sua vida como maga, enfrentara inúmeras batalhas sem esperança.
Esta era apenas um pouco mais desesperadora do que as anteriores.
Só isso.
— Ahhhhh!
Mais do que qualquer outra coisa, ela havia decidido que sua vida seria a última a ser vivida daquela maneira.
Tudo o que deixasse inacabado acabaria sendo imposto às gerações futuras.
Essa determinação lhe concedia força, e seus joelhos se recusavam a ceder.
A mana elevou-se dentro dela, correndo por suas veias e despertando seu corpo devastado.
— Por aqui!
Uma voz familiar alcançou seus ouvidos ao mesmo tempo em que um clarão atravessava o campo de batalha.
A brilhante luz mágica rasgou a escuridão da noite, tornando tudo branco diante de seus olhos.
Naquele breve instante de confusão, enquanto todos ainda estavam desorientados, alguém segurou sua mão e começou a correr.
Elas atravessaram a floresta escura por algum tempo até que uma abertura no chão surgiu diante delas.
As duas saltaram para dentro e continuaram avançando sem tropeçar nem por um segundo.
O caminho se dividia inúmeras vezes.
Somente quando já não conseguiam sentir os caçadores em seu encalço é que finalmente pararam.
— ...Você... me salvou. Nunca imaginei que conseguiria escapar daquele inferno.
Ela falou entre respirações pesadas enquanto observava o ambiente ao redor.
Estavam nas profundezas de uma caverna, mas graças às lâmpadas de cristal espalhadas pelas paredes, o local era relativamente iluminado.
Alguém havia preparado aquilo com antecedência.
— Eles não nos seguiram... o que significa que você conseguiu esconder este lugar deles. Foi você quem criou essa rota de fuga? Impressionante. Como...?
No instante em que começou a agradecer sinceramente, uma dor ardente atravessou suas costas.
— Emmy...?
A sobrevivente chamou o nome de sua companheira com a voz trêmula.
Atordoada, baixou o olhar para o próprio peito.
A ponta de uma lâmina projetava-se para fora dele.
Era um athame, ensanguentado após atravessar seu coração.
— Me desculpe... Esta era a única opção...
A voz chorosa veio de trás dela.
E então, de repente, ela compreendeu tudo.
Não haviam sido apenas seis caçadores de estrelas tentando matá-la.
O papel daquela garota era desferir o golpe final.
— Mas não se preocupe. Não vou permitir que eles obtenham nem mesmo um fragmento da sua alma.
À medida que as forças abandonavam seu corpo, ela caiu para trás, sendo acolhida por um abraço gentil.
Mesmo tendo sido apunhalada, ainda conseguia sentir o amor genuíno de sua traidora.
E era justamente por isso que jamais havia desconfiado dela até aquele momento.
— Eu a admirei e amei por tanto tempo. Agora ficaremos juntas para sempre, senpai.
Os olhos da garota eram um abismo.
Preenchidos por uma escuridão infinita, faziam até mesmo o céu negro do lado de fora parecer insignificante em comparação.
À medida que sua consciência se desfazia, ela podia sentir sua alma sendo engolida por aquele vazio.
1 - Um athame (ou athamé) é uma faca ritual usada em tradições esotéricas e pagãs, especialmente na Wicca.
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