O Reino das Sete Magilâminas — Capítulo 3: Volume 1 – Capítulo 1 – Capítulo 1: A Cerimônia

O Reino das Sete Magilâminas
Cap. 3
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O Reino das Sete Magilâminas

Volume 1 – Capítulo 1 – Capítulo 1: A Cerimônia

Capítulo 3

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Se quiser ver a magia da primavera, vá assistir aos preparativos para a cerimônia de admissão da Academia de Magia Kimberly.

Há muitos anos, as pessoas repetiam essa frase, geralmente em tom sarcástico. Partindo de Galatea e seguindo para o leste, depois de atravessar duas montanhas, chegava-se a um caminho conhecido como Estrada das Flores, que levava até o campus. Naquela época do ano, uma abundância de árvores floridas desabrochava por completo, incluindo as cerejeiras. Era uma paisagem que certamente parecia apropriada para encher os novos alunos de esperança enquanto seguiam em direção aos portões da academia.

Ainda assim, de um ponto de vista lógico, aquela era uma visão bastante estranha. Por mais que alguém vasculhasse os arredores, não encontraria uma única pétala prestes a desabrochar ou já murcha e caída. Milhares de plantas se espalhavam por quase um quilômetro ao longo da Estrada das Flores, desde árvores até arbustos. Seria mesmo possível que todas elas convenientemente decidissem florescer ao mesmo tempo?

— Ah... Até mesmo『Jack, o Que Nunca Floresce』, está coberto de belas flores.

A antiga cerejeira tinha mil anos de idade. Ao erguer os olhos para aquela árvore, que praticamente servia como símbolo da Estrada das Flores, Oliver soltou um profundo suspiro.

Antes de avançarem para o último ano, os alunos do sexto ano de Kimberly precisavam passar por uma prova: garantir que todas as plantas ao longo daquele caminho estivessem em plena floração no dia da cerimônia de admissão. O evento havia recebido apelidos como Sabá¹ Sombrio e Maior Espetáculo de Comédia do Inferno. Essa era a verdade por trás daquela “magia da primavera”. Para quem observava de fora, tratava-se de uma paisagem fantástica e raríssima; porém, assim que tudo terminava, os alunos do sexto ano reclamavam em uníssono, chamando aquilo de “a tradição mais idiota de todas”.

— Ei, você! Sua camisa está saindo da calça!

— Tire esses pelos de gato da sua capa!

— Trouxe um lenço? Já foi ao banheiro? Não fique segurando! Caso sinta que vai explodir de repente, avise um monitor!

Com os caules esticados, as dálias repreendiam incessantemente os novos alunos que passavam por elas. Entre todos os seres vivos espalhados ao longo daquele caminho, eram sem dúvida as mais tagarelas. Infelizmente, os estudantes que caminhavam nas extremidades da longa fila não tinham como escapar dos olhares intrometidos daquelas chamadas “plantas orgulhosas”, capazes de pensar e falar.

— Ora, ora, ora!

Uma flor de outro canteiro chamou Oliver de repente, pegando-o desprevenido. Seu estame tremia enquanto ela falava.

— Mas que rapaz nervoso você é!

— ...Eu pareço nervoso?

Ao perceber que havia sido escolhido como alvo, Oliver examinou a própria aparência. Vestia calças azul-escuras e uma camisa cinza coberta por uma túnica preta. Presos à cintura, estavam um cajado branco e um athame embainhado. Para um garoto de quinze anos, sua altura era bastante comum, pouco abaixo de um metro e cinquenta e cinco, assim como seus cabelos pretos, lisos e de comprimento mediano. Não havia absolutamente nada de marcante em sua aparência. Ele era um típico calouro de Kimberly.

— Parece, sim. Não sei do que está com tanto medo, mas pode relaxar um pouco! Esta é a sua cerimônia de admissão! Ao menos tente aproveitar... não importa o tipo de futuro horrendo que possa estar esperando por você.

— Agradeço o conselho, madame. Mas devo avisá-la de que, caso não pare logo, acabará quebrando o próprio caule.

— Ora essa!

A dália, que vinha acompanhando o ritmo de Oliver, percebeu que havia se esticado demais e retornou ao canteiro. Oliver suspirou e voltou a caminhar.

— Afinal, elas estão tentando nos confortar ou nos assustar? Podiam escolher uma coisa ou outra — comentou uma aluna que caminhava ao lado dele.

Oliver virou o rosto e encontrou uma garota pequena e graciosa, com cachos delicados. Exceto pela saia, seu uniforme era idêntico ao dele. Portanto, ela também era uma maga em formação.

— ...Ahem.

Ela provavelmente precisara reunir uma boa dose de coragem para dizer qualquer coisa, pois o nervosismo estava estampado em seu rosto. Oliver sorriu, tomando o cuidado de guardar na memória a primeira pessoa que havia falado com ele.

— Pois é, não é mesmo? — respondeu. — Você já tinha visto plantas orgulhosas antes?

Ao ouvir sua resposta amigável, ela relaxou.

— Nunca algumas que tagarelassem por tanto tempo. As da minha terra são muito mais fofas e simples.

— Ha-ha! Não deem atenção às dálias. Comparadas às da propriedade da minha família, elas não passam de folhas farfalhando ao vento — disse uma terceira pessoa atrás deles.

Oliver e a garota mal haviam começado a conversar quando se viraram e encontraram um rapaz de cabelos castanhos curtos. Embora provavelmente tivesse a mesma idade que os dois, ele era bastante alto.

— Esse tipo de flora mágica desenvolve personalidades diferentes dependendo das propriedades mágicas do solo onde cria raízes. Ouvi dizer que as daqui são particularmente desagradáveis. Por isso os alunos mais velhos sofrem tanto todos os anos.

Ele explicou tudo com segurança. Ao observar seu rosto e suas mãos bronzeadas, Oliver concluiu que sua família provavelmente trabalhava com agricultura mágica.

— Daqui a seis anos, seremos nós que teremos de lidar com isso — brincou Oliver. — Dizem que os alunos responsáveis são avaliados pela quantidade de flores que Jack apresenta no dia da cerimônia de admissão.

— Ah, o famoso Maior Espetáculo de Comédia do Inferno? Pelo que estou vendo, Jack está em plena floração. Os atuais alunos do sétimo ano devem ser bastante talentosos — comentou a garota de cabelos cacheados.

Os três ergueram os olhos para a imponente cerejeira coberta de flores. À primeira vista, ela não parecia ser nada além de uma árvore extremamente antiga. No entanto, ao observarem com mais atenção, perceberam que as saliências e os padrões de sua casca lembravam o rosto de um velho adormecido. Será que aquele ancião das plantas orgulhosas também falava e se movia como as dálias?

— Sem querer desrespeitar o senhor Jack nem sua rara floração completa, há outra coisa chamando minha atenção neste momento — disse o rapaz alto, desviando o olhar para a frente da fila.

Oliver e a garota de cabelos cacheados seguiram seu olhar. Então, o rapaz abaixou a voz.

— ...O que vocês acham daquilo?

Ele apontava para o centro da fila, onde estava uma garota vestida de maneira muito diferente dos demais alunos. Da cintura para baixo, ela usava uma peça de tecido folgada, algo entre uma calça e uma saia longa. Na parte de cima, vestia uma espécie de manto, preso diante do peito por uma faixa. Em sua cintura, carregava uma espada curva.

Nenhum dos três conhecia os nomes oficiais daquelas peças, mas sua aparência singular fez com que a mesma palavra surgisse na mente de todos.

— ...Uma samurai, é?

— Uma garota samurai?

— Certo. Então eu não estava enganado.

Agora que os três haviam chegado à mesma conclusão, o rapaz soltou um murmúrio pensativo. Como a garota estava longe demais para que pudesse chamá-la, ele ficou na ponta dos pés para observá-la melhor.

— Isso é muito mais raro do que uma dália falante. O que uma samurai de Azian² está fazendo na cerimônia de admissão de Kimberly?

Oliver concordou em silêncio. Ele e os outros dois estudantes vinham da União, uma federação formada por diversas nações. A distância entre a União e Azian era tão grande que as relações diplomáticas entre ambas eram praticamente inexistentes. Tudo o que Oliver e os demais sabiam sobre aquele continente vinha de histórias raras trazidas por navios mercantes e de fragmentos culturais levados de volta por aventureiros mais curiosos. Naturalmente, essas informações limitadas haviam dado origem a fantasias completamente romantizadas. Por isso, aos olhos deles, Indus, Chena e Yamatsu³ acabavam sendo colocados no mesmo saco.

— Bem, se ela está na fila conosco, também deve ser uma caloura, certo?

— E quanto ao uniforme dela? Aquela katana em sua cintura não parece um athame. Será que é o uniforme de alguma academia de Azian?

— Pare de encarar, seu bobo. Tenho certeza de que ela tem seus motivos. Talvez a transferência tenha sido repentina demais e a alfaiataria estivesse fechada — repreendeu a garota de cabelos cacheados.

Oliver assentiu.

— Kimberly recruta crianças com aptidão mágica no mundo inteiro, não apenas aqui em Yelgland. Ela deve ser uma dessas promessas internacionais... assim como você.

A garota de cabelos cacheados foi pega de surpresa. Ela congelou por um instante, enquanto seus olhos se arregalavam cada vez mais.

— C-como assim? Você já percebeu? Eu tinha certeza de que havia dominado perfeitamente o idioma.

— Ainda resta um leve sotaque na forma como você pronuncia as vogais “a” e “o”. Imagino que venha do norte, talvez dos arredores de Farnland.

— ...Droga, você me pegou. Lá se foi a minha surpresa durante as apresentações — murmurou ela com amargura, fazendo um biquinho.

Oliver sorriu, um pouco culpado, antes de observar a cena ao redor.

— Parece que há muitos alunos vindos de fora da União. Aquela garota é a única de Azian, porém. Faz sentido, considerando que a maioria dos países de lá sobre os quais temos conhecimento é fechada à magia. Encontrar crianças talentosas deve dar um trabalho e tanto.

— Hmm... Como será viver sem magia? Nossa, nem consigo imaginar.

— Ao menos deve ser mais fácil cuidar das plantas.

Enquanto a garota de cabelos cacheados falava, a samurai parecia contemplar maravilhada um grupo de dálias tagarelas. O contraste era tão engraçado que Oliver acabou deixando escapar uma risada.

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— Uau, olhem só! Um desfile inteiro de fauna mágica!

Depois de deixarem a Estrada das Flores para trás e atravessarem os enormes portões da academia, os estudantes chegaram ao campus. O rapaz alto soltou uma exclamação, e Oliver seguiu seu olhar.

— Uau... — murmurou.

Belos unicórnios, grifos abrindo orgulhosamente as asas e fafnirs cujas escamas douradas cintilavam sob a luz do sol... Uma fila ordenada de criaturas mágicas, algumas muito maiores do que seres humanos, desfilava pelo pátio.

— Que espetáculo! Isso é Kimberly para vocês. Primeiro, impressionam a gente com as plantas; depois, vêm com os animais!

O rapaz alto não era o único admirado. Os outros estudantes também não fazia qualquer esforço para esconder a empolgação por assistirem àquela apresentação de camarote. A fila dos alunos do primeiro ano parou temporariamente. Afinal, aquela era uma oportunidade perfeita para contemplar o desfile com mais atenção.

O rapaz alto continuou soltando exclamações animadas até finalmente perceber que a garota ao seu lado franzia a testa com seriedade. Ele se virou para ela.

— Qual é o problema? — perguntou, confuso. — Relaxe um pouco. Não dá para ver algo assim em qualquer lugar.

— Eu sei. Mas não consigo comemorar ao ver isto — respondeu a garota de cabelos cacheados, apontando para uma parte do desfile.

Oliver e o rapaz alto seguiram a direção indicada por ela. Uma criatura mágica humanoide, musculosa e com cerca de três metros de altura, caminhava pesadamente pelo pátio usando apenas as vestes mais simples. Era um troll, uma espécie de semi-humano.

— Estão vendo? Estão obrigando aquele troll a desfilar como se fosse apenas mais uma fera mágica.

— Hmm? É, acho que sim.

— Ninguém vê qualquer problema nisso? — perguntou a garota, exaltada.

O rapaz alto lançou-lhe um olhar inexpressivo.

— Qual seria o problema? Trolls selvagens são criaturas perigosas, mas podem se tornar animais de criação valiosos quando colocados para trabalhar desse jeito. São bastante úteis para carregar coisas.

— Suspiro... Você precisa estudar mais — lamentou a garota diante da falta de conhecimento dele.

Ela apontou o indicador em sua direção e continuou:

— Está ouvindo? Segundo as pesquisas do grande sábio Rod Farquois, humanos e semi-humanos compartilham um ancestral em comum quando voltamos trezentos mil anos na história. Entende o que isso significa? Nossas espécies possuem um parentesco distante!

O rapaz alto recuou diante do sermão, mas ela não lhe deu trégua.

— Você sabe quais espécies de semi-humanos já receberam direitos civis?

— H-hum... Os elfos, certo?

— Correto. Existem mais dois—

— Os anões e os centauros — interrompeu alguém bruscamente.

Os dois se viraram, surpresos, e encontraram um garoto baixo segurando um livro grosso. Ele soltou uma fungada desdenhosa e os encarou por trás dos óculos com uma expressão arrogante e irritada.

— Isso é conhecimento básico. Não precisam repetir tudo. E, caso pretendam continuar conversando entre si, poderiam falar um pouco mais baixo? Estão atrapalhando minha leitura.

— Hã? Ah... desculpe.

A garota de cabelos cacheados abaixou a cabeça por instinto. Ninguém pensou em repreendê-lo por estar lendo em um momento como aquele.

— Aqueles são grifos... Não, hipogrifos? O formato das asas não tem nada a ver com as ilustrações do meu livro. É bom que aquele maldito livreiro não tenha me passado a perna... — murmurou o garoto de óculos, alternando o olhar entre o livro e o desfile de criaturas mágicas.

Observando-o pelo canto dos olhos, a garota pigarreou e recuperou a compostura.

— ...Ahem. Correto. É isso. Kobolds, sereias, goblins, harpias, pigmeus... Na biologia mágica, existem muitos seres vivos classificados como semi-humanos, mas apenas três espécies receberam direitos civis. E devo acrescentar que isso é algo bastante recente. Há vinte anos, os centauros eram tratados da mesma forma que os trolls: meros animais de carga, valorizados por sua capacidade de transportar objetos pesados.

Enquanto falava, ela rapidamente voltou à postura anterior. Oliver acompanhava sua explicação com interesse.

— No entanto, quando investigamos suas origens, descobrimos que os trolls se separaram de nosso ancestral em comum ainda muito depois do que os centauros. Esse é um fato acadêmico comprovado por diversas pesquisas. Mesmo assim, embora os centauros agora sejam considerados “humanos”, continuamos tratando os trolls como escravos. Não acha que isso é errado?

Ela voltou a apontar o dedo para o rapaz alto. Ele cruzou os braços e refletiu por alguns instantes.

— Espere um pouco — respondeu. — Não sou nenhum especialista, mas não é exagero colocar elfos, centauros e trolls no mesmo grupo? Trolls não sabem falar nem escrever. São músculos ambulantes. Além disso, atacam humanos. E você quer que a gente os trate como parentes?

— Você está certo quanto às limitações deles. Mas discordo de seus outros argumentos. Essa imagem dos trolls como criaturas brutas surgiu somente depois que os humanos começaram a subjugá-los e usá-los em nossas guerras. Eles foram domesticados à força e tiveram suas vontades distorcidas.

Oliver assentiu para si mesmo. Trolls eram fortes e resistentes, sem serem inteligentes demais nem estúpidos demais. Por essas razões, era praticamente inevitável que os magos acabassem utilizando-os como servos.

— Está querendo dizer que trolls selvagens não atacam pessoas? Desculpe, mas isso é uma baita mentira. Lá na minha terra, trolls ferem um monte de gente todo ano.

— É claro que eles vão revidar quando alguém invade seu território. O mesmo vale para elfos e centauros. É uma questão de limites — rebateu a garota, estufando o peito como se tivesse encerrado a discussão.

O rapaz alto, porém, não ficou convencido.

— Limites? A população deste país não para de crescer. Caso não desmatemos as montanhas, não teremos como criar novos campos nem construir outras cidades. E, já que tocamos nesse assunto, o que me diz desta academia onde você está prestes a estudar? Antes da construção do campus, este lugar era habitado por outros semi-humanos.

— Urgh... E-esse é um exemplo extremo. Não estou tentando rejeitar o desenvolvimento. Só acho que deveríamos reconhecer que eles têm o direito de viver em seus próprios territórios...

— Será mesmo? — interrompeu o rapaz. — Caso nossas posições fossem invertidas, acha que eles tratariam os humanos com tanta empatia? Será que simplesmente nos deixariam ir embora com uma advertência gentil para não invadirmos o espaço deles, só porque nós também temos o direito de viver?

— Urk—

As palavras ficaram presas na garganta da garota quando o argumento atingiu um ponto delicado. Agora, ela havia sido colocada contra a parede. O rapaz alto também não lhe deu qualquer trégua.

— Estou falando por experiência própria, mas trolls são assustadores pra caramba para quem mora no campo. Eles já destruíram nossas plantações. Por isso minha família espalha armadilhas para afastá-los e, às vezes, vai caçá-los nas montanhas. Mas meus pais nunca me deixaram acompanhar. Basta um único erro de alguém inexperiente para acabar morto.

Isso também era verdade, pensou Oliver, observando a reação da garota. O rapaz alto tinha experiência pessoal com o assunto, o que dava peso às suas palavras. Incapaz de encontrar um contra-argumento adequado, ela mordeu o lábio e permaneceu em silêncio, frustrada.

— ...Não é assim — murmurou de repente.

Ela abaixou a cabeça e inflou as bochechas em um biquinho. Até mesmo seu tom de voz havia se tornado completamente infantil.

— ...O nosso não é assim. O troll da minha família... Patro é gentil e forte. Ele nunca, nunca foi violento comigo. Sempre que me encontrava chorando, deixava que eu subisse em seus ombros... Não estou mentindo. Trolls são criaturas gentis.

— Uau, isso é incrível. Nunca ouvi falar de trolls cuidando de crianças. Seus pais devem tê-lo adestrado muito bem.

O rapaz alto parecia sinceramente impressionado, mas Oliver levou a mão ao rosto. Aquilo não era nada bom, ainda que o garoto não tivesse pretendido soar sarcástico. Conforme esperado, a expressão da garota de cabelos cacheados imediatamente se transformou em um olhar cortante.

— Adestrado?! É só assim que você consegue enxergá-los?! É por causa de pessoas como você que os trolls têm medo dos humanos!

— O quê?! — rebateu ele. — Você é quem está tratando trolls selvagens como se não fossem grande coisa! Você nunca viu um deles deixar um cocô gigantesco em cima de uma plantação que acabou de destruir! Aqueles negócios parecem pequenas montanhas! Apareça lá em casa algum dia que eu mostro pra você! Isso com certeza vai fazê-la mudar de ideia!

Cada lado devolvia os golpes do outro na mesma medida. Aquilo já não era uma discussão, mas uma simples briga entre crianças. Os demais calouros ao redor desviaram os olhares para procurar a origem daquela gritaria. Ao lado deles, o garoto de óculos, que havia continuado lendo durante todo aquele tempo, finalmente não conseguiu mais conter sua irritação.

— ...Não me obriguem a repetir. Se pretendem discutir, ao menos façam isso em silêncio—

— Chega de barulho aí! Que confusão é essa?

Uma voz atravessou o burburinho da multidão, e o mar de pessoas se abriu para permitir a passagem de uma aluna. Ela mantinha a postura perfeitamente ereta, e nem um único fio de seu uniforme estava fora do lugar. Sua pele possuía um raro tom de café, mas o que realmente chamava a atenção eram seus cabelos dourados. Os inúmeros cachos em espiral estavam tão impecavelmente arrumados que pareciam reluzir como ouro verdadeiro.

— O fato de a cerimônia de admissão ainda não ter começado não significa que podem se comportar como crianças! Assim que atravessamos aqueles portões, tornamo-nos alunos de Kimberly tanto em nome quanto na prática! Como estudantes de uma instituição tão tradicional, devemos nos esforçar para ser exemplos de conduta desde já!

Seu tom era tão altivo quanto sua aparência. Era difícil acreditar que estavam sendo repreendidos por alguém da mesma idade. No entanto, os dois estavam tão envolvidos na discussão que suas palavras sequer foram registradas.

Em vez disso, voltaram seus olhares exaltados para a intrusa.

— Ótimo, uma terceira pessoa. Ei, você—

— O que pensa quando olha para aquele troll?!

Apontando para o troll, eles a arrastaram para a discussão. A garota dos cachos em espiral foi pega de surpresa.

— O-o quê? Estão se referindo ao troll Gasney que faz parte do cortejo? — perguntou, confusa, desviando o olhar para o objeto da discussão.

Seus olhos se estreitaram levemente, adquirindo um brilho perspicaz.

— Bem, pelo que consigo avaliar a esta distância, parece ser um espécime excelente. Sua estrutura óssea, sua altura e aquela musculatura... Ele deve ser capaz de realizar trabalhos pesados por mais trinta anos sem qualquer dificuldade. Kimberly emprega apenas os melhores familiares. Qualquer pessoa que oferecesse menos de três milhões de belcs por ele no mercado seria motivo de riso.

Os olhos dos estudantes se arregalaram diante da resposta inesperada. A garota dos cachos em espiral voltou-se para os novos alunos e, aparentemente percebendo o próprio equívoco, cruzou os braços em sinal de compreensão.

— Ah, entendo. Vocês discordavam quanto à avaliação dele? Sim, eu deveria ter imaginado que gostariam de conhecer a opinião de uma maga a respeito de seu verdadeiro valor. Mas juro pela honra de minha família que aquele é um Gasney de raça pura. Certamente não possui nenhuma mistura com o sangue dos violentos Krand ou dos atarracados Ellney... Embora pareça um pouco inquieto, o que admito ser um tanto preocupante.

Ela lançou um breve olhar ao troll antes de voltar a encarar os dois estudantes e prosseguir com orgulho:

— Permitam-me acrescentar que, ao escolher um troll de qualidade, devem analisar primeiro a linhagem do criador, antes mesmo de realizar uma avaliação individual. Já ouvi a história de um pobre coitado que comprou de um criador sem procedência um troll de temperamento selvagem, apenas para vê-lo desenvolver chifres com o passar dos anos. Quando investigaram o caso, descobriram que ele possuía sangue de ogro—

— ...

— ...

O rapaz alto e a garota de cabelos cacheados ficaram em completo silêncio, incapazes de encontrar uma oportunidade para interrompê-la. O conhecimento daquela garota já era impressionante por si só, mas sua habilidade para avaliar trolls fez com que ambos percebessem — especialmente a garota de cabelos cacheados — que sua cultura e seus valores eram tão diferentes que qualquer discussão seria impossível naquele nível.

— O que foi? Por que ficaram em silêncio? Não queriam saber mais sobre o troll?

A garota dos cachos em espiral inclinou a cabeça com curiosidade, enquanto o clima constrangedor entre os três se tornava cada vez mais intenso.

Oliver, que até então apenas observava a situação, começou a entrar em pânico. Aquilo não estava tomando um bom rumo, especialmente pouco antes da cerimônia de admissão. Depois de refletir por alguns instantes, decidiu intervir antes que a situação piorasse.

— ...Ahem. B-bem, de qualquer forma, teremos bastante tempo para debates acadêmicos mais tarde. Hoje é a nossa cerimônia de admissão. Deveríamos estar comemorando. Não seria bom aparecer por lá com expressões tão carrancudas, certo?

Ele retirou a varinha branca presa à cintura. Então abriu o maior sorriso que conseguiu para demonstrar suas intenções amigáveis. Com a garganta apertada pelo nervosismo, sua voz saiu aguda:

— Então, hum... olhem só isto e tentem se animar um pouco, está bem?

Ele sacudiu a varinha e entoou em voz alta:

— Comarusal!

No instante seguinte, uma enorme juba surgiu repentinamente na parte de trás de sua cabeça com um puf.

— Hã?

— Uau!

Os dois responsáveis pela discussão arregalaram os olhos, surpresos.

Isso! Funcionou!, pensou Oliver.

No entanto, a garota de cabelos cacheados correu até ele.

— Uau! Você consegue lançar um feitiço de transformação? Isso é muito avançado!

— Nossa, estou impressionado por você ter conseguido limitar o efeito à juba — comentou o rapaz alto. — Tentei usar esse feitiço uma vez, e meu rosto ficou igual ao de um gato do nariz para baixo. Entrei em completo desespero.

Os dois comentavam enquanto tocavam e examinavam sua juba com a mais absoluta curiosidade. Surpreso com a reação deles, Oliver abriu um sorriso sem jeito e perguntou:

— ...Hum, vocês não acharam engraçado?

— Hã? Hmm, é mais que...

— Eu só estou impressionado. Dá para ver que exige habilidade.

Ambos responderam com sinceridade, sem qualquer traço de malícia. Oliver deixou os ombros caírem, decepcionado.

Dessa vez, a garota dos cachos em espiral se aproximou dele.

— Você é bom. Essa foi a sua versão do “Lanarusal” do senhor Bridge, certo?

— V-você conhece a apresentação dele? — gaguejou Oliver.

— Sim, também adoro comédia mágica. Parece que temos um interesse em comum. Na primeira vez que vi essa piada, fiquei quase uma hora segurando a barriga de tanto rir — respondeu ela, soltando uma risadinha ao recordar a cena.

O ânimo de Oliver afundou ainda mais. Ela quase havia morrido de rir com a piada original, mas sua versão não conseguira arrancar nem sequer uma risadinha.

— ...Desculpe. Finjam que não viram isso.

— Hã? Por quê?! Foi incrível! Fiquei realmente impressionada!

Mas os elogios entraram por um ouvido e saíram pelo outro. Oliver se curvou sob o peso esmagador da derrota. Até mesmo a bela juba que havia se esforçado tanto para aperfeiçoar balançava tristemente ao vento.

— E-ei, não fique tão deprimido. Ao menos ninguém está mais discutindo, certo? — acrescentou depressa o rapaz alto.

Depois de se recuperar, Oliver finalmente endireitou a postura. Desfez a juba com outro encantamento e voltou-se para a garota dos cachos em espiral.

— Enfim, está resolvido. Desculpe pelo transtorno.

— Sim, desde que todos tenham chegado a um entendimento.

A garota dos cachos em espiral sorriu graciosamente e assentiu. Satisfeita por considerar a situação encerrada, girou sobre os calcanhares.

— O desfile já chegou aproximadamente à metade. Em breve, nossa fila também voltará a avançar. Por favor, mantenham-se em ordem para que todos possamos chegar à academia sem incidentes.

Com isso, ela partiu com passos elegantes. Enquanto a observavam se afastar, Oliver desviou o olhar para a frente da fila.

— Parece que os primeiros alunos já começaram a andar. Ela tinha razão: logo teremos de nos despedir do desfile.

— Espere, já está acabando? S-só mais um pouquinho.

A garota de cabelos cacheados inclinou ainda mais o corpo para fora da fila e fixou intensamente o olhar em uma parte específica do desfile.

— Eu também queria ficar, mas temos que ir — disse o rapaz alto. — Provavelmente teremos um monte de oportunidades para ver esse tipo de coisa em Kimberly.

— Eu sei, mas... não consigo simplesmente abandonar aquele pobre troll! Ele realmente parece inquieto — respondeu ela, sem desviar os olhos da criatura.

A avaliação da garota dos cachos em espiral devia tê-la deixado bastante preocupada. Os dois rapazes deram de ombros. Afinal, não precisavam começar a andar imediatamente.

No entanto, assim que desviaram os olhos dela...

— Iaas.

— Hã?

Uma estranha sensação de formigamento percorreu as pernas da garota de cabelos cacheados. De repente, contra a própria vontade, seu corpo saltou para fora da fila e começou a correr em linha reta.

— Ei! O que você está fazendo?!

— Pare! Não se aproxime do desfile!

Os dois rapazes gritaram, percebendo a situação tarde demais. As pernas da garota, porém, não paravam. Felizmente, ela ainda mantinha o controle da cabeça e a sacudiu de um lado para o outro.

— E-eu sei! Mas não consigo parar! Minhas pernas estão se movendo sozinhas! — gritou de volta, com a voz estridente.

Ao perceberem que algo estava errado, os dois rapazes dispararam ao mesmo tempo. Correram o mais rápido que puderam em direção a ela, passando como flechas pelo grupo de estudantes atônitos. À medida que se aproximavam do desfile, notaram algo que fez seus olhos se arregalarem.

— ...?! Ei! É impressão minha ou aquele troll está vindo para cá?! — berrou o rapaz alto, confuso.

Ele apontava para a enorme criatura que havia sido o assunto da discussão anterior. Seu corpo gigantesco fazia o chão tremer a cada passo enquanto avançava pesadamente na direção deles.

E, logo atrás...

— Grrrrrr!

— Rrrrarf!

Dois wargs haviam se separado do desfile e corriam atrás do troll. Wargs possuíam um forte instinto para preservar a ordem da manada. Por isso, eram utilizados de maneira semelhante aos cães empregados por pastores. Seus latidos repetidos alertavam o troll para que retornasse imediatamente ao grupo.

O imenso semi-humano, porém, não parou. Ele ignorou completamente as criaturas.

Um dos wargs perdeu a paciência e tentou recorrer à força. Abocanhou o tornozelo do troll com mandíbulas poderosas o bastante para quebrar o pescoço de um ser humano.

— Hmph!

No instante seguinte, um punho enorme atravessou o ar e atingiu o warg em cheio, reduzindo-o a uma massa retorcida de carne e ossos.

— Mas o quê—?!

— ...!

Os restos disformes do warg preencheram o espaço entre o punho do troll e o chão. A visão brutal da carne esmagada e dos ossos voando fez o rapaz alto estremecer. Enquanto corria ao lado dele, Oliver se recordou de uma curiosidade que havia aprendido muito tempo atrás.

Qual criatura mágica matou o maior número de seres humanos?

Era uma pergunta famosa. Por instinto, um mago ingênuo provavelmente responderia dragões ou behemoths, mas a realidade era bem diferente. Criaturas mágicas de tamanha categoria não habitavam os mesmos espaços que os seres humanos.

Então, qual seria a resposta correta?

Muitos talvez ficassem decepcionados ao descobrir que se tratava de uma criatura extremamente familiar: os kobolds. Graças à sua extraordinária capacidade reprodutiva e ao forte instinto de matilha, ocupavam o primeiro lugar. Na terceira posição estavam os bogeys, que usavam sua inteligência maliciosa para enganar humanos. Sozinhas, essas criaturas não representavam uma ameaça significativa. Mesmo assim, eram responsáveis por mais de dez mil mortes humanas todos os anos. A maioria de suas vítimas era composta por pessoas sem magia, mas também não era raro que magos fossem vítimas do azar.

E então havia o segundo lugar...

Embora não possuíssem a ferocidade nem a capacidade reprodutiva das criaturas mencionadas anteriormente, sua força física e obstinação eram incomparáveis. Tinham o intelecto equivalente ao de uma criança humana de sete anos, mas jamais se deveria esquecer que esse intelecto vinha acompanhado de um corpo com mais de três metros de altura. Criaturas de porte semelhante podiam ser caçadas com armadilhas, mas essas criaturas eram capazes até mesmo de preparar as próprias armadilhas ocasionalmente.

— ROOOOOAAAAARRR───!

Tratava-se, naturalmente, dos trolls, os taciturnos vizinhos da humanidade. Seus corpos grandes e musculosos, aliados a uma inteligência limitada, fazia deles candidatos perfeitos a servos. Por isso, os humanos haviam invadido seus territórios com o objetivo de domesticá-los.

Como a garota de cabelos cacheados dissera, trolls não atacavam humanos por puro prazer. Ainda assim, corpos continuavam a se acumular todos os anos — e a maioria das vítimas havia encontrado seu fim ao tentar capturar um troll.

— Gyaooow!

A enorme mão do troll agarrou o segundo warg e o esmagou antes mesmo que ele tivesse a oportunidade de reagir. Seu uivo de morte ecoou nos ouvidos dos rapazes, enquanto aquela realidade sangrenta os atingia em cheio.

— ...C-caramba...

— É. Ele enlouqueceu...!

No instante em que aceitou o que estava acontecendo, Oliver retirou o athame da bainha em sua cintura. Diferentemente da varinha branca que havia usado pouco antes, tratava-se de uma espada curta que também cumpria a função de varinha. Aquela lâmina estava inseparavelmente associada aos magos modernos. Sacá-la significava que uma luta estava prestes a começar.

À frente dos dois rapazes, a garota de cabelos cacheados ainda parecia não compreender a situação em que se encontrava.

— O-o-o que está acontecendo?! O que está havendo—? Uáh!

De repente, suas pernas desobedientes pararam completamente. Impulsionada pelo próprio embalo, ela caiu de maneira espetacular. Incapaz de se apoiar a tempo, rolou várias vezes pelo chão até finalmente parar com a cabeça enfiada na grama.

— Urgh... Finalmente parei... Ai!

Seu alívio durou apenas um segundo. Uma dor intensa atravessou seu tornozelo direito, agora livre do feitiço. Durante a queda, ela o havia torcido com força. A dor era tão forte que tudo o que conseguia fazer era se sentar.

— Hã...?

Bem diante de seus olhos erguia-se uma muralha de músculos esverdeados, alta como uma pequena montanha. Um par de olhos injetados de sangue e repletos de ódio a encarava de cima. O corpo do troll arfava, transbordando hostilidade.

Aquela criatura não se parecia em nada com o troll de quem ela havia se afeiçoado em sua terra natal.

— ...Ah... A-ah...

— Corra! Levante-se e corra agora! — gritou Oliver, apontando a ponta de seu athame para o troll.

A garota, porém, não conseguia se mover. Mais do que o ferimento, era o medo que a paralisava. Seu corpo estava tão rígido que ela mal conseguia respirar.

A perna do semi-humano se ergueu. Grossa como a de um elefante, preparava-se para esmagá-la sem piedade.

— Droga, não vou chegar a tempo! — praguejou Oliver.

Ela estava longe demais para que pudesse ajudá-la.

Ainda assim, Oliver estava prestes a lançar um ataque mágico desesperado quando...

— Haaaah!⁴

Ninguém poderia ter previsto o que aconteceu em seguida.

Com bravura, uma figura saltou entre o troll e a garota de cabelos cacheados.

— ...?!

O ar vibrou com a força daquele grito. No instante seguinte, Oliver teve a sensação de que o mundo havia virado de cabeça para baixo.

Diante da garota de cabelos cacheados estava a jovem de Azian. Surpreendido por sua presença imponente, o troll hesitou por um instante.

— ...Só pode ser brincadeira. Aquela samurai fez um troll parar no mesmo lugar só com um grito — comentou o rapaz alto, enrijecido, também com o athame em mãos.

Completamente alheia ao espanto dos dois e ainda encarando cuidadosamente o troll, a garota de Azian dirigiu-se à jovem atrás dela.

— Consegues levantar-te e correr?

Nota: Já adiantar aqui e estabelecer essa nota, Nanao Hibiya e uma Samurai, por tanto, como uma samurai ela tem vícios linguísticos dos samurai de falar como Sessha (拙者/pronome Eu antigo) e Degozaru (でござる/verbo Ser antigo no fim das frases), os deixando bem formais/educados, já que eles também eram guerreiros com Clans e da realeza japonesa que serviam a Xoguns/Imperadores, usado até a Era Edo. Para quem está acostumado com animes feudais que retratam samurais já vai sacar; mas deixarei um vídeo que explicam também o uso:

1. Yume: https://youtu.be/02a7Ky6p1-k?t=343

2. 123 Japonês: https://youtu.be/B8QpzWEXC0g?t=111

Seu yelglês⁵ estranhamente formal possuía uma entonação incomum. A garota de cabelos cacheados recobrou os sentidos e tentou se levantar depressa, apenas para perceber que suas pernas haviam cedido por completo.

— N-não consigo. Minhas pernas estão dormentes...! Esqueça-me e vá embora! Caso contrário, nós duas vamos—

— Hmm. Entendo — respondeu a garota de Azian, sem demonstrar grande preocupação.

Seus olhos continuavam fixos no troll,

— Muito bem. Nesse caso, permaneça atrás de mim.

Em seu movimento seguinte, ela levou a mão direita à lâmina presa ao quadril esquerdo e, com um gesto fluido, retirou-a da bainha.

— Uff... Uff... E-ela sacou a katana. Aquela samurai pretende lutar? — perguntou uma voz diferente.

Surpreso, Oliver olhou para trás e encontrou o garoto de óculos de antes, ofegante após correr atrás deles. A garota dos cachos em espiral, que também havia percebido que algo estava errado, vinha logo atrás dele. Sem perder tempo, ela se colocou à frente dos rapazes.

— Não sejam tolos! Precisamos fazer alguma coisa! — gritou, apontando seu athame para o troll. — Eu atrairei a atenção dele. Enquanto isso, vocês dois devem escapar! ...Tonitrus!

Ela entoou o encantamento, e o athame em sua mão direita brilhou, disparando uma luz ofuscante pela ponta. Mais veloz do que uma flecha, o feixe atravessou o ar e atingiu o troll diretamente no peito, explodindo em faíscas.

— Grr. Grrr!

Infelizmente, a enorme criatura não pareceu abalada. O rosto da garota dos cachos em espiral se contraiu em uma expressão frustrada.

— Não acredito. Acertei-o em cheio, e ele nem sequer olha para mim?!

— Não foi forte o bastante! Vamos ajudar! Flamma!

— Fl... Flamma!

O rapaz alto e o garoto de óculos também lançaram bolas de fogo de seus athames quase simultaneamente. Uma atingiu o ombro do troll, enquanto a outra acertou sua bochecha. Ambas deixaram pequenas marcas de queimadura, mas foram igualmente ineficazes. O troll continuava com os olhos fixos na garota de Azian à sua frente.

— Espere, nem mesmo acertar o rosto funcionou? — perguntou o garoto de óculos, perplexo.

— Não fique aí parado. Faça alguma coisa! — gritou o rapaz alto para Oliver.

Oliver, porém, balançou a cabeça, ainda mantendo o athame preparado.

— ...Não adianta! Só conhecemos feitiços básicos. Não importa quantos lancemos, para aquele troll serão mais fracos do que picadas de mosquito!

Depois de colocar em palavras aquela verdade cruel, Oliver vasculhou a mente em busca de uma solução.

O que deveriam fazer?

Por algum milagre, a garota samurai mantinha o troll à distância. Contudo, enquanto a garota de cabelos cacheados não conseguisse se mover, ambas certamente acabariam esmagadas. Para piorar, eles não possuíam poder mágico suficiente para atrair a atenção do troll. Bastava um movimento errado para que qualquer um que se aproximasse também fosse abatido.

Eles eram impotentes.

O que poderiam fazer?

— Só existe uma saída! Vou me aproximar e mirar no olho! — declarou a garota dos cachos em espiral, avançando.

Oliver conseguiu segurá-la pelo ombro bem a tempo.

— Espere um instante. Tenho uma ideia. Vocês conseguem usar um feitiço de vento?!

Assim que as palavras deixaram sua boca, as pernas de Oliver começaram a tremer sob o peso da responsabilidade que estava assumindo.

A garota dos cachos em espiral ergueu uma sobrancelha, desconfiada.

— É claro. Mas de que serviria uma brisa fraca?

— Sozinha, de nada. Mas, caso todos trabalhemos juntos, teremos uma chance maior de derrotá-lo — respondeu Oliver, tentando esconder o próprio medo.

Se não possuíam meios de ferir diretamente o troll, aproximar-se sem um plano apenas aumentaria o número de vítimas. A questão era como evitar isso e, ainda assim, resolver a situação. Ao considerar todos os feitiços que conhecia, Oliver encontrou apenas uma resposta.

— Comprimam o vento mais forte que conseguirem. Quando eu der o sinal, liberem naquela área no ar. Vou concentrar todas e lançá-las diretamente contra o troll.

— Você pretende usar um feitiço de focalização...? Sei que é habilidoso, mas o que isso resolverá?

— Caso eu pare para explicar, aquelas garotas morrerão. Por favor, apenas sigam minhas instruções!

Oliver insistiu enquanto erguia o athame. A garota dos cachos em espiral o observou por alguns segundos e então, com uma expressão decidida, posicionou-se ao lado dele.

— ...Percebo que está falando sério. Muito bem, estou sob suas ordens!

— Sério mesmo...?

— Ai, ai...

O rapaz alto e o garoto de óculos tomaram seus lugares, um de cada lado de Oliver, com os athames preparados. Assim que todos ficaram prontos, Oliver moveu sua lâmina para sinalizar o início.

— Impetus!!!

Os três entoaram o encantamento em uníssono. O vento começou a girar ao redor de um ponto no ar. Depois de identificar sua posição, Oliver gritou:

— Certo! Não importa o que aconteça, continuem lançando o feitiço! ...Tibia!

Com seu encantamento, ele moldou o vento em rotação na forma de um enorme instrumento invisível. Um som estridente começou a ecoar, e Oliver moveu seu athame para controlá-lo.

Naquele momento, não passava de um ruído incômodo. Contudo, caso alterasse o fluxo do vento, poderia transformar o som de inúmeras maneiras.

— O quê...?

— ...?!

Enquanto os outros três escutavam, o som que reverberava dentro do instrumento começou a mudar gradualmente. O guincho agudo que perfurava seus ouvidos tornou-se um rugido grave, capaz de fazer suas entranhas tremerem.

Um medo inexplicável tomou conta deles, fazendo seus corpos estremecerem. A garota dos cachos em espiral reconheceu o som.

— Isso é... o rugido de um dragão?!

— Estou apenas usando um feitiço de trombeta de alerta para imitar o som! Mas o rugido de um dragão continua sendo o rugido de um dragão, mesmo quando é falso! Não importa o quanto você seja estúpido; é impossível ignorar algo que está acima de você na cadeia alimentar!

A mente de Oliver estava inteiramente concentrada no controle do som. Diante da resistência esmagadora do troll, a solução que encontrara não estava no poder destrutivo de um feitiço, mas em seu impacto psicológico.

Sua estratégia consistia em estimular o instinto de fuga gravado no cérebro de todos os semi-humanos:

Fuja dos dragões!

Enganado pela ilusão de que havia um dragão verdadeiro por perto, o troll se sobressaltou e virou-se na direção deles.

— Atraí a atenção dele! — gritou Oliver depressa ao perceber que seu plano havia funcionado. — Corram todos! Eu cuido do resto!

Ele estava preparado para brincar de perseguição com o troll.

Entretanto, não estava nem um pouco preparado para o que aconteceu em seguida.

A garota de Azian entrou em ação.

— Hup──

Ela saltou do chão, girando o corpo no ar, e aterrissou sobre o joelho do troll, que permanecia constantemente flexionado para sustentar sua enorme massa. Usando-o como apoio, saltou repetidas vezes pelo corpo da criatura até finalmente impulsionar-se a partir de seu ombro e alcançar uma altura impressionante.

— Unngh?!

Ao perceber que algo estava errado, o troll girou seu braço direito, grosso como o tronco de uma árvore. No entanto, errou o golpe, atingindo apenas uma pequena parte da barra das roupas da jovem.

Distraído pelo feitiço conjunto, seu corpo gigantesco permaneceu vulnerável por apenas um instante.

Acima da cabeça do troll, a garota de Azian ergueu sua lâmina.

— Yaaaaaah!

Colocando todo o impulso, o peso do próprio corpo e sua magia em um único golpe, ela atingiu o topo da cabeça do semi-humano.

— Gaaah!

Um estrondo ressoou pelo pátio, semelhante ao som de um gongo atingido por um tronco. Espasmos percorreram o corpo do troll enquanto seus olhos reviravam. Sem forças nas pernas, ele lentamente caiu de joelhos antes de tombar de maneira descontrolada.

Alguns segundos se passaram.

Oliver e os demais apenas observaram, surpresos demais para dizer qualquer coisa.

— O quê...?

As palavras tropeçaram na boca de Oliver e desapareceram antes que pudessem formar qualquer frase coerente.

Os estudantes permaneceram boquiabertos enquanto a garota de Azian aterrissava após desferir o golpe decisivo.

— ...Hooo... — exalou ela.

Oliver prendeu a respiração.

Os cabelos da garota estavam brancos.

Antes negros com reflexos azulados, agora haviam adquirido uma tonalidade completamente oposta: um branco puro, banhado por uma luz tênue.

— Innocent Color...⁶ — murmurou a garota dos cachos em espiral.

Oliver já ouvira muitas histórias sobre aquele fenômeno. Tratava-se de uma reação peculiar, observada apenas em magos que possuíam tanto uma circulação mágica intensa quanto uma estrutura capilar cristalina, capaz de permitir o fluxo ininterrupto de partículas mágicas. Era um dom extremamente raro, quase sagrado.

Com o fim da batalha, a circulação mágica da garota Azian retornou gradualmente aos níveis normais. Diante dos olhos deles, seus cabelos voltaram à coloração negra original.

De repente, a lâmina escapou de sua mão.

— ...Estou sentindo um formigamento, como se tivesse acabado de ser atingida por um raio. Que crânio espesso. Nunca testemunhei nada parecido — murmurou a garota, um tanto admirada, enquanto observava suas mãos dormentes.

Então, voltou-se para a garota de cabelos cacheados, que ainda a encarava atônita, e perguntou:

— Estás ferida?

— Hã? Hum...

— Hmm. Vejo que machucou a perna. Dê-me apenas um instante para que eu recupere a sensibilidade nas mãos e me oferecerei como seu meio de transporte. Peço desculpas, mas neste momento não conseguiria segurar nem sequer uma pedrinha — continuou, sacudindo as mãos.

Em seguida, desviou o olhar para Oliver e os demais, que estavam a certa distância. Com um tom amigável, dirigiu-se a eles:

— Ah, vós quatro. Agradeço pela assistência. Vocês me proporcionaram a abertura ideal.

Sua expressão então assumiu um ar de profunda curiosidade.

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— Em especial, aquele brado. Quem foi o responsável por tal feito? Foi bastante intenso. Devo admitir que quase sujei minhas roupas antes mesmo do início da cerimônia de admissão.

A partir dali, a situação foi resolvida rapidamente.

Inspiradas pela fúria do troll, algumas das criaturas mágicas presentes em outras partes do desfile também começaram a se rebelar. No entanto, foram imediatamente subjugadas pelos professores e pelos alunos mais velhos de Kimberly.

Oliver e os demais calouros foram informados de que só haviam sido obrigados a lidar com o problema por estarem em uma posição particularmente desfavorável. Em outras palavras, haviam sofrido um azar terrível logo no início do ano letivo.

— Isto está demorando uma eternidade — lamentou a garota Azian em meio ao burburinho dos calouros reunidos no Grande Auditório.

Depois de garantirem que a garota de cabelos cacheados fosse encaminhada à enfermaria, os professores haviam conduzido os estudantes dispersos de volta às respectivas filas.

Por causa disso, Oliver acabou separado dos outros companheiros — com exceção da garota Azian. Agora, os dois estavam sentados lado a lado.

— É difícil permanecer imóvel depois de contemplar uma estrada repleta de flores monstruosas e um desfile de demônios de todos os tipos à luz do dia. Ainda assim, aqui estamos nós, obrigados a apenas sentar e esperar. É um tanto decepcionante, não concordais, meu senhor?

Aparentemente entediada, ela vinha bombardeando Oliver com perguntas durante todo aquele tempo. Um pouco hesitante, ele respondeu da maneira mais direta possível:

— ...Caso estivéssemos seguindo o cronograma original, a cerimônia já teria começado. Infelizmente, houve um acidente e alguém se feriu. Mesmo que tenha sido apenas um ferimento leve, o atraso era inevitável.

— Oh? Alguém se feriu em um acidente? Eu não fazia a menor ideia.

Ela pareceu genuinamente surpresa. Confuso, Oliver franziu a testa.

— ...Do que está falando? Já se esqueceu de que derrubou aquele troll?

— Hã? Estás dizendo que aquilo foi um acidente?!

Os olhos dela se arregalaram em choque. Levando uma das mãos ao queixo, soltou um murmúrio pensativo.

— Entendo... Eu simplesmente presumi que fosse algum tipo de teste aplicado aos novos alunos.

— Duvido que até mesmo Kimberly fizesse algo tão absurdo. As pessoas morreriam antes mesmo de terem a oportunidade de demonstrar suas habilidades.

— Hmm... De fato. Eu também teria corrido perigo sem sua ajuda — declarou a garota com naturalidade.

A expressão de Oliver tornou-se repentinamente séria.

— ...Espere um pouco. Está dizendo que enfrentou aquele troll sem nenhum tipo de plano?

— Plano? Ha-ha-ha! É claro que não! Tudo aconteceu rápido demais para isso. Assim que empunhei minha lâmina, meu único pensamento foi: “Como posso matar esta criatura?”. Seus pontos vitais estavam altos demais para que eu pudesse alcançá-los. No entanto, caso passasse por baixo dele e golpeasse suas pernas, colocaria em risco a garota que estava atrás de mim. Além disso, minha espada atual nem sequer possui fio de corte. Ora, eu me encontrava em uma situação bastante complicada.

Pessoas quase haviam morrido durante aquela luta, mas ela falava sobre o ocorrido como se fosse uma piada. Quanto mais alegremente explicava a situação, mais sombrio se tornava o humor de Oliver.

— E sua resposta para essa “situação complicada” foi usar os membros do troll como degraus enquanto ele estava paralisado para conseguir atingir sua cabeça? Está falando sério? Isso foi imprudente demais. Você teria morrido caso eu tivesse cometido qualquer erro com meu feitiço.

— De fato. Ainda assim, sobrevivi a uma experiência mortal logo em meu primeiro dia. Isso é um bom presságio.

A garota cruzou os braços e assentiu para si mesma. Enquanto isso, Oliver levou uma das mãos à testa.

Qual era o problema dela? Embora falassem o mesmo idioma, ele simplesmente não conseguia compreendê-la.

— Silêncio, novos alunos! A diretora chegou! — anunciou a voz de um professor.

Os estudantes, que conversavam animadamente até aquele momento, imediatamente fecharam a boca. Assim que o silêncio foi restabelecido, uma mulher surgiu diante do púlpito.

Ninguém a viu subir as escadas.

Em um instante, não havia ninguém ali. No seguinte, ela simplesmente apareceu no espaço que antes estava vazio.

— Sou a diretora Esmeralda. Antes de tudo, permitam-me pedir desculpas por minha incompetência ao supervisionar a cerimônia de hoje.

No instante em que sua voz extremamente formal alcançou os ouvidos dos alunos, todos endireitaram a postura por instinto.

Seus olhos possuíam a cor do jade e reluziam como a lâmina mais afiada. Seu vestido longo passava gradualmente do azul ao preto, como as profundezas de um lago. Em sua cintura, dois athames se cruzavam.

Tudo isso se combinava para conferir-lhe uma beleza assustadora, sem um único traço de leveza capaz de tranquilizar a plateia.

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— Como já sabem, algumas das criaturas mágicas do desfile de boas-vindas escaparam de nosso controle e feriram uma nova aluna. No entanto, elas foram rapidamente subjugadas, e a estudante em questão já recebeu o tratamento necessário. Garanto pessoalmente a competência do médico desta academia. Amanhã, ela poderá acompanhar as aulas com todos vocês sem qualquer problema.

A notícia deveria ter trazido alívio. No entanto, para os novos alunos, aquela mulher era ainda mais assustadora do que o troll que haviam enfrentado pouco antes.

Nem mesmo a garota Azian parecia imune à sua presença. Ela cerrou o punho, esforçando-se para não se deixar intimidar.

— ...Basta contemplá-la para que eu comece a suar. Ela é uma verdadeira mestra.

— Por favor, pare de falar agora mesmo — implorou Oliver, praticamente em um sussurro.

Ao mesmo tempo, ele observou que o desconhecimento da garota a respeito da diretora era mais uma prova de que ela vinha de muito longe. Não existia um único mago em toda a União que desconhecesse o nome daquela bruxa de Kimberly. Sua fama — e sua infâmia — estendia-se muito além das fronteiras da União.

— Como dispomos de pouco tempo, pouparei vocês do preâmbulo e passarei diretamente à apresentação. Esta é a Academia de Magia Kimberly, onde estudarão durante os próximos sete anos. Os dois princípios que norteiam o espírito desta instituição são “liberdade” e “resultados”. Naturalmente, ambos pressupõem responsabilidade individual. Portanto, uma maneira mais simples de expressá-los seria: “Sua vida e sua morte estão em suas próprias mãos”. Isso é tudo.

Os estudantes, que já estavam intimidados, engoliram em seco.

Aquelas não eram palavras que esperavam ouvir de uma professora.

A diretora prosseguiu sem demonstrar qualquer perturbação.

— Isso não foi uma metáfora. Em média, oitenta por cento dos alunos que ingressam em Kimberly conseguem se formar após sete anos. Então, para onde acham que vão os outros vinte por cento? Os mais afortunados são expulsos por má conduta ou abandonam a academia devido às notas baixas. No entanto, esses casos são raros.

Um calafrio percorreu a espinha de Oliver.

Ele sabia muito bem que a diretora não estava tentando assustá-los. Estava apenas transmitindo a verdade.

— Alguns ficam permanentemente desfigurados após experimentarem feitiços de maneira imprudente. Alguns desaparecem depois de serem atraídos por um chamado misterioso. Outros enlouquecem e cometem assassinatos em massa, obrigando os próprios colegas a pôr fim às suas vidas. Existem diversas maneiras pelas quais seus caminhos podem terminar. No mundo da magia, chamamos esse fenômeno de “ser consumido pelo feitiço”. E isso acontecerá com vinte por cento de vocês ao longo dos próximos sete anos — declarou a bruxa.

Não como uma advertência, mas como um fato.

Os estudantes estremeceram. Toda a empolgação provocada pelo ingresso na academia havia desaparecido. Alguns deles já tinham lágrimas nos olhos.

A diretora contemplou todos da mesma maneira e continuou:

— Isso aconteceu dois anos atrás. Aconteceu no ano passado. E continuará acontecendo no futuro. Sabem por quê? Porque é isso que significa trilhar o caminho da magia.

A bruxa fez essa afirmação sem qualquer hesitação. Ela não questionava se aquilo era bom ou ruim.

Era simplesmente a realidade.

— O trabalho de um mago consiste em se familiarizar com o mal: senti-lo, compreendê-lo e controlá-lo. Portanto, o risco de ser consumido estará sempre presente. Não há como obter sucesso em sua busca pela feitiçaria sem enfrentar perigos. Os esforços realizados pela humanidade ao longo da história foram o que nos permitiram alcançar o progresso atual. Jovens e velhos, homens e mulheres... seguimos avançando incansavelmente, mesmo enquanto cadáveres se acumulam ao nosso redor.

Ela explicava aos futuros alunos o que significava ser um mago, determinada a gravar aquela mensagem em suas mentes logo no primeiro dia, para que jamais confundissem a verdadeira natureza do caminho da magia.

— Tendo essa história em mente, repito: sua vida e sua morte estão em suas próprias mãos. Ainda assim, tentem deixar algum resultado para trás. Sei que noventa por cento de vocês são tolos que jamais conquistarão qualquer destaque no mundo da magia, mas deposito minhas esperanças nos dez por centos restantes. Façam todo o esforço concebível para integrar esse grupo. Quando um tigre morre, deixa sua pele para trás. Sejam o tigre. Caso contrário, nem mesmo seus ossos permanecerão neste lugar.

Um silêncio desolador tomou conta do Grande Auditório.

O discurso havia terminado, mas ninguém tentou aplaudir. A maioria dos estudantes lutava desesperadamente contra as emoções que começavam a transbordar.

Eu não deveria ter vindo para cá.

Era isso que seus instintos gritavam.

Não lhes restava outra alternativa senão cerrar os dentes e reprimir qualquer sinal de fraqueza.

— Isso é tudo o que tenho a dizer. Depois da cerimônia, outro professor fornecerá mais detalhes sobre a vida no campus. No entanto, caso tenham alguma dúvida a respeito do que acabei de explicar, este é o momento de perguntar.

Obviamente, ninguém estava em condições de erguer a mão.

Como antes, os estudantes conseguiram responder apenas com o silêncio.

A bruxa abriu a boca para prosseguir quando...

— Diretora-dono! Com sua permissão!

...uma voz a interrompeu de maneira completamente inesperada.

Oliver congelou ao perceber que ela viera diretamente de seu lado. Tremendo de pavor, desviou lentamente o olhar e viu o braço direito da garota Azian erguido em direção ao teto.

— Muito bem. O que deseja perguntar? — respondeu prontamente a diretora a partir do púlpito.

A garota endireitou a postura o máximo que conseguiu para se tornar visível em meio à multidão. Em seguida, dobrou o dedo médio e pressionou sua articulação contra a própria têmpora.

— Recomendo massagear este ponto de pressão quando estiver com dor de cabeça, senhora!

O silêncio voltou a dominar o auditório. Dessa vez, porém, em vez de temor e desespero, havia apenas perplexidade.

— ...Isso foi uma pergunta?

— Não, trata-se de uma recomendação. A senhora parece estar sofrendo bastante — respondeu a garota com um sorriso radiante.

A perplexidade dos estudantes se transformou em completo espanto. Durante alguns segundos, a bruxa encarou o rosto inocente da garota Azian com algo próximo do ódio. Então, desviou discretamente o olhar.

— ........Caso isso seja tudo, prosseguiremos com a cerimônia — declarou após uma longa pausa.

Toda a imponência que havia se esforçado tanto para estabelecer estava agora em frangalhos. A garota apenas sorriu satisfeita, contente por ter transmitido sua mensagem.

Depois de alternar repetidamente o olhar entre as duas, Oliver levou a mão à testa.

— Sua... idiota... — murmurou, exausto.

— Não, realmente funciona! Experimente e verá, meu senhor.

— Sua idiota! — repetiu Oliver.

Por sorte, conseguiu manter a voz baixa o bastante para não ser repreendido por falar fora de hora.

Sem se deixar abalar, a diretora deu continuidade à cerimônia.

— Não precisam ficar tão apreensivos. O banquete de boas-vindas está prestes a começar — disse ela, com muito menos tensão do que antes.

Em silêncio, ergueu um athame acima da cabeça.

— Vamos, subam. Tomem seus lugares.

No instante em que ela pronunciou essas palavras, os corpos dos estudantes perderam todo o peso.

— Uau!

— Aaaah?!

Gritos e exclamações confusas misturaram-se enquanto os alunos flutuavam pelo ar. Antes que pudessem se chocar contra o teto, desaceleraram suavemente, giraram de cabeça para baixo e foram acomodados com perfeição em seus assentos.

O teto era decorado por uma série ordenada de mesas e cadeiras.

— Até que enfim vocês chegaram aqui em cima... Sejam bem-vindos a Kimberly, calouros novinhos em folha!

— A diretora é assustadora demais, não é? Vocês já escreveram seus testamentos? Hmm?

— Ei, não os assuste! Não se preocupem, vamos nos divertir muito!

De repente, as grandes mesas ficaram cobertas por um banquete colorido que se estendia até onde a vista alcançava. Ao redor delas, os alunos mais velhos formavam uma fileira, dedicando-se completamente à recepção dos novatos.

Depois de observar os arredores, a garota Azian ergueu o olhar com uma expressão vazia.

— Que estranho! Nossos assentos foram transportados para o teto.

— ...É um feitiço de inversão. Há um círculo mágico envolvendo todo o salão para reduzir o tempo necessário ao encantamento — explicou Oliver, em parte para si mesmo, tentando acalmar o coração acelerado.

Aquilo lhe provocara um belo susto.

Infelizmente, a recepção dos novos alunos mudava todos os anos. Essa era uma das poucas coisas sobre as quais ele não havia conseguido reunir informações antes de chegar ao campus.

Oliver olhou para o novo “teto” acima deles e viu que a diretora e diversos professores continuavam no mesmo lugar.

— Como manda a tradição, agora estão autorizados a conversar entre si. Comam, bebam, divirtam-se e conheçam aqueles que em breve serão seus colegas de classe — anunciou calmamente a diretora aos alunos de cabeça para baixo.

Esse foi o sinal para que a celebração começasse de verdade.

Os veteranos entoaram um feitiço em uníssono. Jarras repletas de bebida surgiram no ar, voando acima das cabeças dos estudantes e enchendo todos os copos.

— Vamos, pessoal! Bebam, bebam! Este suco de uva branca é tão delicioso que deveria ser ilegal! Os clurichauns da destilaria da academia criaram esta obra-prima!

— Podem esquecer o que a diretora disse, está bem? Não foi completamente mentira, mas ela exagerou bastante. No mínimo, não precisam se preocupar com nada disso até o quarto ano. Além disso, nós, veteranos, estamos trabalhando duro para tornar a vida de todos mais segura!

Alguns calouros ainda hesitavam em participar, mas os veteranos se esforçavam para manter o ambiente animado e acolhedor. Graças à energia deles, a festa de boas-vindas rapidamente ganhou vida.

— Ah, encontrei vocês! ...Eeei, por aqui! — chamou uma voz familiar.

O rapaz alto que havia participado do incidente com o troll apontava para Oliver e gritava de longe. Ao ouvirem o chamado, a garota dos cachos em espiral e o garoto de óculos se aproximaram apressadamente.

Com exceção da garota de cabelos cacheados, que estava ferida, o pequeno grupo estava reunido novamente.

— Ah, finalmente nos encontramos outra vez. Hoje foi uma verdadeira provação, não acham? — comentou a garota dos cachos em espiral.

— Ah, oi, pessoal. Obrigado novamente pela ajuda de antes. Eu não teria conseguido colocar aquele plano em prática sozinho.

Oliver aproveitou a oportunidade para agradecer diretamente aos três por terem colaborado com sua estratégia contra o troll.

— Não foi nada — respondeu o rapaz alto, assentindo.

— Hmph.

O garoto de óculos soltou uma fungada desdenhosa e desviou o olhar.

A garota dos cachos em espiral sorriu e aceitou serenamente os agradecimentos de Oliver.

— Como a diretora permitiu que conversássemos, por que não nos apresentamos? Na verdade, antes disso, tenho uma proposta. Não se importam?

— Claro. O que seria?

— Por que não vamos visitar aquela garota na enfermaria? Pelo que disseram, seu ferimento já foi curado. Parte meu coração pensar que ela ficará de fora da comemoração por causa de um acidente tão inesperado.

Era uma sugestão razoável, mas também havia bons motivos para hesitar. Enquanto Oliver pensava em como responder, o garoto de óculos interveio com sua habitual franqueza:

— ...É melhor deixá-la em paz. Ela foi atacada por um dos trolls que tanto ama logo em seu primeiro dia. Mesmo que seu ferimento já tenha sido tratado, talvez ainda não tenha superado o choque.

— Talvez você esteja certo. Ainda assim, acredito que é justamente em momentos assim que devemos estender a mão. Quando ficam sozinhas, as pessoas podem acabar afundando na tristeza. Ter alguém com quem conversar talvez lhe faça bem — respondeu a garota dos cachos em espiral sem hesitar.

Ambos tinham razão à sua maneira. Oliver não conseguia decidir o que fazer.

De repente, a garota Azian, que passara os últimos minutos olhando para “cima”, juntou-se à conversa.

— Parece-me que essa preocupação já não se faz necessária.

Os demais também ergueram os olhos e soltaram uma exclamação. Lá embaixo, no chão onde estiveram pouco antes, estava a garota de cabelos cacheados.

Não demorou para que a diretora movesse sua varinha do alto do púlpito e fizesse a jovem flutuar pelo ar.

— Hã? Uá— Aaaah?!

Ela caiu diretamente na direção deles e aterrissou suavemente nos braços estendidos da garota Azian. Mantendo a postura impecável, a samurai sorriu para a jovem, que permanecia completamente paralisada de medo.

— A jovem interessada acaba de retornar.

— D-desculpe! Vou descer agora mesmo! — exclamou a garota de cabelos cacheados, afastando-se depressa com o rosto completamente vermelho.

Hesitante, o rapaz alto dirigiu-se a ela:

— Ei, tem certeza de que está bem? Ouvi dizer que seu tornozelo foi curado, mas, hum...

— Ah, sim. O médico disse que participar da festa faria bem para o meu ânimo — respondeu ela, forçando um sorriso.

Antes que alguém pudesse questioná-la, tratou rapidamente de agradecer:

— Além disso, obrigada a todos por me salvarem. Eu queria ao menos dizer isso antes que o dia terminasse.

— Acho que dois de nós merecem um pouco mais de agradecimento do que os outros — comentou o rapaz alto com um sorriso.

Ele se virou para Oliver, que apenas conseguiu sorrir sem jeito. A garota Azian, por sua vez, cruzou os braços e ergueu orgulhosamente a cabeça.

Cada um aceitou a gratidão à sua maneira.

— Não há necessidade de agradecer, senhorita. Sou uma guerreira.

— Foi um primeiro dia cheio de azar, não foi? Mas você está viva. Isso é um alívio — disse Oliver, soltando um suspiro.

Seu gesto estava tão carregado de emoção que a garota de cabelos cacheados entrou em pânico e se desculpou imediatamente.

Oliver garantiu que ela não tinha motivo algum para pedir desculpas.

Ao perceber que a conversa havia chegado a uma pausa, a garota dos cachos em espiral tentou animar o grupo novamente.

— Agora que estamos todos reunidos, já passou da hora de nos conhecermos melhor. Não se importam caso eu comece?

Os outros cinco assentiram. Orgulhosa, ela estufou o peito.

— Ahem. Sou Michela McFarlane, filha mais velha dos antigos e nobres McFarlane do sul de Yelgland. As pessoas mais próximas me chamam de Chela. Como tenho certeza de que também nos tornaremos próximos, podem me chamar assim.

— Então você é uma McFarlane, é? Imaginei que fosse por causa do cabelo. Sempre quis perguntar se esse penteado é algum tipo de maldição lançada sobre seu clã.

— Uma maldição? Como ousa?! Este penteado gracioso e, ao mesmo tempo, imponente é a marca de minha família! A reação adequada seria desmaiar diante de tamanha beleza!

Chela girou o tronco para enfatizar seus adorados cachos.

A garota de cabelos cacheados ficou completamente encantada. Quando percebeu que todos haviam voltado os olhos para ela, começou sua apresentação com nervosismo.

— Ah! Hum... Meu nome é Katie. Katie Aalto. Alguns de vocês já perceberam, mas sou uma intercambista de Farnland, ao norte. Gosto de criaturas mágicas... Bem, na verdade, gosto de todos os animais. Caso todos nós nos tornemos amigos, não me importarei se me chamarem apenas de Katie, eu acho — disse ela com um sorriso gentil.

Após uma breve pausa, o rapaz alto tomou a palavra.

— Ah, é a minha vez? Sou Guy Greenwood. Não vou mentir e dizer que minha família é famosa nem nada do tipo, mas nossa fazenda mágica existe há gerações. Sujo as mãos na terra desde antes de aprender a falar, então acho que entendo uma coisa ou outra sobre plantas. Caso algum de vocês queira experimentar vegetais saborosos, é só me avisar. Posso mandar trazê-los diretamente de nossos campos — declarou, batendo no próprio peito.

Em seguida, chegou a vez do garoto de óculos, que estava ao lado de Guy.

— ...Eu também preciso me apresentar, é? ...Meu nome é Pete Reston. Meus pais não possuem magia, portanto não tenho nenhuma linhagem antiga. Fiz o exame seis meses atrás e descobri que havia sido aprovado há dois meses. Foi então que decidi me matricular.

— Então ingressou graças à cota para pessoas sem magia, correto? Deve ter se esforçado muito. Eles não aceitam qualquer pessoa — elogiou Chela com entusiasmo.

— Não precisa exagerar. Não pretendo me tornar muito próximo de nenhum de vocês.

— Ora, mas que poço de simpatia.

— Vim para cá a fim de estudar as artes mágicas, não para me distrair com um bando de tagarelas. Ao menos memorizarei seus nomes, mas não tentem ficar de amiguinhos comigo.

Pete soltou uma fungada desdenhosa e desviou o olhar, como se quisesse reforçar sua posição.

No entanto, ao perceber que Oliver o encarava, encolheu-se cautelosamente.

— O-o quê? Por que está olhando para mim?

— Ah, eu só fiquei impressionado com o livro que estava lendo. É Introdução à Magia para Pessoas sem Magia, de Alfred Werner, não é? — perguntou Oliver, apontando para o volume debaixo do braço de Pete.

Os olhos do garoto se arregalaram de surpresa.

— V-você conhece?

— Conheço? É uma obra-prima! Já li esse livro mais vezes do que consigo contar. Ele usa exemplos únicos para explicar com muita habilidade questões instintivas que podem facilmente confundir magos filhos de pessoas sem magia. O conteúdo é bastante prático, e os contos curtos entre os capítulos são engraçados.

— E-eu sei, não é? Aquela conversa com o juiz mágico no final do terceiro capítulo foi especialmente genial—

Foi então que Pete percebeu que os demais também o encaravam. Imediatamente, tentou disfarçar sua empolgação.

— ...D-de qualquer forma, não estávamos nos apresentando? Não mude de assunto. Você é o próximo!

Ele deu um leve empurrão em Oliver para incentivá-lo a falar.

— Hmm, está bem — respondeu Oliver sem oferecer muita resistência. — Meu nome é Oliver Horn. Minha família possui duas gerações de magos, mas, devido a certas circunstâncias, vivo com meus parentes, os Sherwood, desde criança. Meus primos estudam em Kimberly, então já ouvi muitas histórias sobre este lugar. Além disso, hum... Ah! Não conheço muitos feitiços sofisticados, mas gosto de pensar que sou razoavelmente bom em lançar e adaptar encantamentos.

Ele ficou um pouco constrangido ao dizer a última parte.

Chela assentiu.

— Eu sabia. Nunca tinha visto alguém usar Tibia para reproduzir o rugido de um dragão. Esse feitiço de focalização já é difícil de controlar por si só, portanto foi impressionante vê-lo fazer aquilo com pessoas que havia acabado de conhecer. Além disso, demonstrou presença de espírito ao elaborar um plano em uma situação tão perigosa. Aos meus olhos, Oliver, você é de primeira classe.

— Ah, eu fiquei muito mais impressionado com sua potência mágica. Sinceramente, não imaginei que conseguiríamos produzir algo daquela intensidade nem mesmo com quatro pessoas. Mas agora faz sentido, sabendo que você é uma McFarlane.

— ...Aquilo quase fez meu coração saltar pela boca... Eu até me molhei um pouquinho... — murmurou Katie.

— Hmm? Disse alguma coisa, Katie? — perguntou Guy, desconfiado.

— Não! Fique quieto! — gritou Katie, com o rosto levemente avermelhado.

Satisfeita ao ver que todos conversavam com tanta naturalidade, Chela voltou-se para Oliver.

— A propósito, Oliver, por que não mencionou a comédia mágica durante sua apresentação? Percebi que deve ter praticado bastante.

— Ngh...! N-não é algo que eu possa chamar orgulhosamente de especialidade. Além disso, já fracassei com ela antes. Finja que não viu aquilo.

Os ombros de Oliver caíram ao se lembrar do desastre de algumas horas atrás.

Chela soltou uma risadinha antes de desviar os olhos para a única pessoa que ainda não havia se apresentado.

— Então temos eu, Katie, Guy, Pete e Oliver... Naturalmente, falta você.

Com isso, a atenção de todos se voltou para o maior enigma do grupo.

Como se mal tivesse conseguido se conter até aquele momento, a garota Azian iniciou sua apresentação com entusiasmo:

— De fato! Sou Hibiya Nanao, filha de uma família de samurais de Tourikueisen, em Yamatsukuni. Segundo o costume de vossa terra, meu nome seria Nanao Hibiya. Cerca de meio ano atrás, fui designada para a retaguarda durante uma batalha que culminou em nossa derrota. Pouco antes de nosso fim, fui salva por um mago chamado McFarlane-dono, que passava pelo local. Ele me convidou para estudar em Kimberly, e foi assim que vim parar aqui hoje!

Chela paralisou. Ainda mantendo um sorriso gracioso nos lábios, perguntou sem jeito:

— ...Espere um instante. Você disse McFarlane?

— Sim. E que coincidência ser também o seu sobrenome, Chela-dono... Hmm? Pensando bem, os cabelos dele também eram bastante parecidos com os vossos!

Ao perceber esses pontos em comum, Nanao voltou a examinar Chela com atenção. A garota levou uma das mãos à testa e suspirou.

— ...Não é coincidência alguma. Provavelmente, era meu pai. Ele trabalha aqui como professor temporário. Estávamos nos perguntando para onde havia viajado a trabalho. Quer dizer que foi até Azian em busca de talentos? Jamais teria imaginado — murmurou, exausta.

Aquela revelação oferecia um vislumbre bastante esclarecedor de sua vida familiar, mas ninguém ousou investigar mais a fundo.

Enquanto Chela mergulhava em seus pensamentos, Pete fez uma pergunta a Nanao:

— Presumo que seus pais também não possuam magia. Nesse caso, você prestou o exame como eu?

— Hmm? Não. Não participei de qualquer teste de conhecimentos. No máximo, estudei o idioma de vocês sob a rígida orientação de um tutor particular enviado pelo McFarlane-dono.

— ...Então foi aceita sem prestar o exame?

— Mais especificamente, os professores de Kimberly possuem uma prerrogativa especial para indicar alunos. Cada um pode nomear apenas um estudante, dois no máximo. Meu pai deve ter usado sua indicação para trazer Nanao — explicou Chela, já recuperando a compostura.

Pete, que havia seguido o caminho convencional e sido aprovado no exame, franziu a testa.

Ao perceber que o clima começava a azedar, Katie tratou rapidamente de mudar de assunto.

— Hum... Quanto às suas roupas, imagino que não tenha havido tempo suficiente para confeccionar seu uniforme sob medida?

— Hmm. O McFarlane-dono me informou ontem à noite que isso havia lhe escapado da memória. Por isso, vesti o traje formal de meu país, na esperança de que fosse adequado. Ele foi confeccionado para minha cerimônia de maioridade, e gosto muito dele.

Nanao estufou orgulhosamente o peito. Com profunda curiosidade nos olhos, Katie se aproximou dela.

— Nunca vi roupas confeccionadas assim. O tingimento do tecido é muito bonita... Posso tocar?

— Naturalmente, não me oponho. E, porventura, eu também poderia tocar seus cabelos? Seu volume me fascina. O que costuma comer para que cresçam dessa maneira?

As duas começaram a trocar elogios alegremente enquanto examinavam as roupas e os cabelos uma da outra.

Ao lado delas, Chela lançou orgulhosamente seus cachos em espiral para trás.

— Ahem! Caso estejam tão curiosas, também podem tocar meus cabelos.

— Talvez em outra ocasião, quando eu tiver luvas grossas à disposição.

— O-oh, entendo... Espere um pouco, eles não são afiados nem nada parecido!

Uma espécie de intercâmbio cultural rapidamente se iniciou entre as três garotas.

— Muito bem, então — disse Guy em voz baixa, apoiando as mãos na cintura. — Agora todos conhecemos os nomes e os rostos uns dos outros, certo? Então vamos voltar a aproveitar a festa! Meu pobre estômago não para de roncar desde que senti o cheiro desse banquete.

— Ah, sim. Também estou com fome. Presumo que esta seja a minha porção?

— ?! Espere, Nanao! Não sei como chegou a essa conclusão, mas essa quantidade de rosbife seria suficiente para alimentar pelo menos vinte pessoas!

— O quê? Certamente estás brincando. Eu conseguiria comer tudo isso sozinha sem dificuldade.

Nanao inclinou a cabeça, confusa, enquanto erguia um enorme pedaço de carne.

Sua resposta provocou em Oliver a maior dor de cabeça que ele já havia sentido na vida. Ele caminhou imediatamente até ela.

— Isso confirma tudo! Você não sabe absolutamente nada sobre nossa etiqueta à mesa, não é? Antes de qualquer coisa, sente-se! Segure um garfo e uma faca, coloque o guardanapo e coma somente o que estiver em seu prato! Até aprender, eu mesmo servirei sua comida!

Oliver obrigou Nanao a se sentar, colocou os talheres em suas mãos e começou a preparar um prato para ela.

Depois de enchê-lo com uma porção equilibrada de carne, legumes e frutas, preparou outro e colocou a comida diante de Nanao.

Os olhos dela brilharam.

— Ora, como isto ficou animado. Nanao, olhe para cá! Permita-me ensiná-la a se comportar com perfeição à mesa! — anunciou Chela em voz alta, movendo o garfo e a faca sobre o prato.

Sua habilidade ao lidar com carnes e legumes era impecável, mas o que realmente impressionou os demais foi a destreza com que descascava laranjas e peras. Nanao e Katie observavam maravilhadas.

Do outro lado da mesa, Pete e Guy começaram a discutir as vantagens e desvantagens do uso de pesticidas mágicos na agricultura.

Somente depois que o apetite de Nanao finalmente foi saciado, Oliver conseguiu se juntar ao grupo reunido ao redor da mesa barulhenta.

Sabá Sombrio - O sabbat ou sabá das bruxas, também referido como sábado das bruxas ou aquelarre, é o nome dado a uma reunião daqueles que praticam bruxaria e outros ritos associados.

Azian / Eijia = Continente da Asia

Indus, Chena = India & China

Yamatsu / 日の国 (Yamatsukuni) = Pais do Sol / Japão

É semelhante ao nome do mundo real "Nihon" (日本国), que é a palavra japonesa para o país Japão.

Yamatsu é o equivalente ao Japão no mundo de Nanatsuma. Seu nome deriva de "Yamato", um dos nomes históricos do Japão. Mais especificamente, o país parece ser inspirado no Japão durante o Período Sengoku, um longo período de guerras entre clãs e dinastias que ocorreu aproximadamente entre os séculos XV e XVII d.C. (o volume 1 começa no ano 1532 do Grande Calendário).

— Haaaah! - Escrito originalmente como Katsu (喝ァッ) escrito com 喝 vem de uma expressão budista para quebrar ilusões, afastar pensamentos mundanos ou despertar a consciência. Ele vem de ser dito aos alunos budistas pra dar uma bronca neles; nada a ver com explosões mais comum em Shounen (Deidara & Bakugou). Vai ser comum em alguns momentos pela frente dito pela Nanao Hibiya.

yelglês = Inglês (Britânico)

Innocent Color - O 無垢の純白/Innocent Color (イノセントカラー/むくのじゅんぱく), significa algo tipo "branco puro e imaculado", e depois vem イノセントカラー (Furigana/Ruby Text); Que é o costume de escrever uma expressão em japonês e dar uma leitura estilizada em Katakana.

Fim da leitura

Capítulo 3 concluído

Volume 1 – Capítulo 1 – Capítulo 1: A Cerimônia