O Segredo no LuarVolume 2 – Capítulo 15 – Capítulo 15: O lugar Onde a Lua Treina
Capítulo 15O visor do celular acendeu no escuro, vibrando silenciosamente às quatro e quinze da manhã. Luna esticou o braço rapidamente, desligando o alarme antes que o som pudesse romper o silêncio do quarto.
Ela permaneceu imóvel por alguns segundos, ouvindo a respiração pesada e compassada de Chika no futon ao lado. A amiga dormia em uma posição caótica, com um braço jogado para fora das cobertas e o biquíni amarelo que pretendia usar mais tarde estrategicamente pendurado na cabeceira da cama.
Luna suspirou baixinho, sentindo o peso do sono tentar puxá-la de volta. Com cuidado, ela se levantou. Vestiu um short jeans curto, daqueles confortáveis de ficar em casa, e puxou uma camisa preta larga, que ficava um pouco folgada em seus ombros e contrastava com a palidez de sua pele. O colar de lua, escondido sob o tecido escuro da camisa, parecia emitir uma pulsação fria contra o seu peito, como se também estivesse despertando.
Ela abriu a porta de correr milimetricamente, segurando o fôlego para que a madeira não rangesse, e pisou no corredor externo. O ar da madrugada em Okinawa era surpreendentemente fresco, embora ainda carregasse aquela umidade salina peculiar.
Ao chegar perto da transição para a varanda principal, ela viu que não era a primeira a acordar.
Ryuu estava encostado na pilastra de madeira, vestindo uma regata escura e calças de moletom leves. Ele observava o mar, que ainda era uma massa escura e misteriosa sob o céu tingido de um azul-índigo profundo. Ao ouvir os passos leves de Luna, ele virou a cabeça. Seu olhar desceu pelo short curto e pela camisa larga dela antes de se fixar em seus olhos arroxeados.
— Você está adiantada — Ryuu disse, a voz num sussurro baixo, adequada para o silêncio da casa.
— Não queria correr o risco de me atrasar e ter que pagar o dobro de flexões para a minha tia — Luna respondeu, aproximando-se e apoiando-se no parapeito ao lado dele. Ela abraçou os próprios braços, sentindo o vento leve da praia arrepiar sua pele. — Está mais frio do que eu esperava para Okinawa.
— É o oceano antes do amanhecer — Ryuu explicou, virando-se de frente para ela. Seus olhos examinaram o rosto de Luna, procurando sinais de cansaço ou hesitação. — Como você está se sentindo? Conseguiu dormir alguma coisa depois daquela conversa?
Luna olhou para as próprias mãos, lembrando-se do que Hanako havia dito sobre a tia de Chika e sobre a responsabilidade de manter a normalidade da amiga.
— Para ser honesta, minha cabeça não parou de girar. É estranho pensar que a tia dela sabe de tudo. Toda aquela alegria da Chika, os planos dela para as férias… parece tão frágil agora. Como se fôssemos os guardas de um castelo de areia que pode sumir na próxima onda.
Ryuu deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O calor que emanava dele era reconfortante no meio daquele sereno frio da madrugada.
— Não pense nisso como um fardo que te afasta dela, Luna — ele disse, a voz firme, transmitindo uma segurança que fez o coração dela desacelerar. — Pense nisso como o motivo pelo qual estamos aqui. A tia dela confia em nós para sermos o escudo. E eu… eu confio em você.
Luna ergueu os olhos para ele. No escuro da varanda, as feições de Ryuu pareciam mais maduras, destituídas de qualquer hesitação.
Ryuu estendeu a mão, hesitando por uma fração de segundo antes de tocar suavemente o ombro dela, o tecido largo da camisa preta se movendo sob seus dedos.
— Se você fraquejar, eu estarei logo atrás de você na areia. Lembra? Eu sou a sua âncora. Não vou deixar a corrente te levar.
Antes que Luna pudesse responder, o som de passos firmes e rítmicos ecoou do deque de madeira atrás deles. O rabo de cavalo prateado de Hanako balançava de um lado para o outro enquanto ela avançava pela penumbra, com um sorriso de canto que indicava que ela tinha ouvido, se não as palavras, pelo menos o tom da conversa.
— Muito bonitinho o momento dos pombinhos apaixonados — a voz de Hanako cortou o clima, fazendo Luna dar um pequeno sobressalto totalmente corada junto com Ryuu. — Mas o sol não espera pelos românticos. Cinco minutos para o amanhecer. Para a areia, os dois!
O cascalho fino da praia machucava levemente a sola dos pés descalços de Luna. À medida que avançavam, o mar de Okinawa se mostrava como uma massa escura e ruidosa sob o céu tingido de azul-índigo. Hanako não permitiu que ela entrasse na água imediatamente. Em vez disso, parou na areia compacta da arrebentação, onde a espuma branca morria.
A silhueta alta da mestre, com o longo rabo de cavalo prateado balançando firmemente com o vento marítimo, emanava uma autoridade severa. Ela se virou para os dois adolescentes, os olhos prateados brilhando na penumbra.
— Antes de você dar o primeiro passo nesse mar, Luna, precisamos consertar a sua base — começou Hanako, a voz firme cortando o som das ondas. — Seu pai te ensinou a mecânica do que corre nas suas veias? Você sabe o que é a energia mística que tenta despertar?
Luna piscou, surpresa pela pergunta direta.
— É… a nossa força espiritual? — arriscou.
— Superficial demais — Hanako estalou a língua, cruzando os braços. — O espírito de cada pessoa possui atributos. Esses atributos são elementos da natureza que regem principalmente quem você é: sua personalidade, seus pensamentos, suas opiniões e suas atitudes. Não é apenas energia; é a sua identidade. Quanto maior a concentração de um atributo no seu espírito, maior a influência dele em tudo o que você faz. E o atributo mais abundante, aquele que está em maior concentração, é o que chamamos de Seishin no Honshitsu — a Essência do Espírito. Ou, para os íntimos do combate, o seu Atributo Verdadeiro.
Ryuu permanecia um passo atrás, ouvindo em silêncio absoluto. Ele conhecia a teoria, mas a forma como Hanako falava — como uma veterana de guerra — dava um peso diferente às palavras.
— Esses atributos são classificados em três grupos, divididos por ordem de raridade e profundidade no seu ser — continuou Hanako, dando um passo na direção de Luna, a diferença de altura fazendo-se notar. — O Círculo Médio (Chuuen), o Círculo Externo (Gaien) e o Círculo Interno (Uchien). No seu caso, o seu Atributo Verdadeiro reside no Círculo Externo, o Atributo da Lua. É um poder raro, místico, passado hereditariamente entre os membros do clã Gekkou, mas vejo que você ainda trata seu Atributo como um motor desligado.
Luna piscou, os olhos prateados refletindo a pouca luz da madrugada. A complexidade daquilo tudo pesava em sua mente.
— Eu não sei como alcançá-la, Tia Hanako. Quando tento procurar essa energia dentro de mim, é como tatear no escuro. Não sinto Atributo nenhum.
Hanako soltou um suspiro curto, balançando a cabeça em negação. Ela olhou de relance para o garoto ao lado.
— Ryuu. Mostre para ela como você faz.
Ryuu deu um passo à frente, aproximando-se de Luna. O vento marítimo agitou o tecido de sua regata escura. Ele parou bem diante dela.
— Feche os olhos, Luna — pediu Ryuu, a voz mansa, agindo como um porto seguro contra o barulho do oceano.
Luna obedeceu. O som das ondas quebrando na areia pareceu recuar um pouco, dando espaço para a respiração ritmada de Ryuu bem à sua frente.
— Agora, esqueça o mar ao seu redor e olhe para dentro — continuou ele. — Imagine o seu espírito como uma projeção geométrica. Quero que você desenhe três círculos concêntricos na sua mente, um dentro do outro.
Luna franziu levemente a testa, concentrando-se. Na escuridão de seus pensamentos, ela começou a esboçar as linhas.
— O primeiro é o menor de todos, bem no centro, pequeno e profundo. Esse é o seu Círculo Interno, o Uchien — explicou Ryuu. — Logo ao redor dele, desenhe um círculo um pouco maior, a camada intermediária. Esse é o Círculo Médio, o Chuuen. E, por fim, contornando tudo, imagine o maior de todos. Uma linha ampla, que abraça as outras duas e se expande até a borda do seu ser. Esse é o seu Círculo Externo. O seu Gaien. É onde a Lua reside.
Na mente de Luna, a imagem tridimensional se formou. Três anéis perfeitos, mas que até o momento permaneciam apagados, cinzentos e inertes.
— Eles estão aí, mas estão desligados — a voz de Hanako ecoou, assumindo o controle da instrução. — O que você deve fazer não é tentar empurrar a energia do nada. Não funciona assim. Você precisa acioná-los. Luna, foque toda a sua atenção apenas no círculo maior. Esqueça os dois do meio, mesmo que você tente acioná-los, não terá resposta se não tiver afinidade. Olhe apenas para a linha do Círculo Externo.
Luna fixou sua mente no anel mais distante.
— Agora — comandou Hanako —, imagine esse círculo externo acendendo. Não como um incêndio, mas como uma lâmpada. Um clique. O filamento esquentando e brilhando em uma fração de segundo. Dê o comando. Ligue o interruptor.
“Ligue…”, Luna mentalizou.
No centro de sua consciência, ela visualizou sua própria mão alcançando a imensa linha cinzenta do Círculo Externo e girando uma chave.
Click!
O efeito foi instantâneo e físico. Na escuridão de sua mente, o círculo maior acendeu-se em um estalo de luz prateada, brilhando como uma lâmpada fluorescente de alta potência. No mundo real, os olhos de Luna se abriram abruptamente. Suas pupilas dilataram-se e uma onda de calor violenta, mas incrivelmente nítida, subiu por sua espinha, espalhando-se pelos ombros e descendo até a ponta dos dedos.
A camisa preta larga começou a ondular sutilmente, impulsionada por uma pressão invisível que emanava de sua pele. Luna não estava apenas sentindo uma emoção forte que liberava seu poder por instinto; ela havia encontrado o painel de controle. Ela havia sentido o círculo.
— Ela conseguiu — murmurou Ryuu, dando um passo involuntário para trás, sentindo a mudança drástica na pressão espiritual ao redor dela.
— Ótimo — Hanako deu um sorriso de canto, os olhos brilhando de satisfação ao ver o contorno lilás que começava a surgir discretamente sob a pele da sobrinha. — Você acabou de ligar o motor, Luna. Agora, o verdadeiro desafio começa: manter essa lâmpada acessa na voltagem certa, sem deixar a luz apagar e sem deixar o circuito queimar. Para a água. Agora!
Luna engoliu em seco. Sentindo o corpo vibrar com aquela nova e estranha sensação de calor elétrico correndo pelos braços e pernas, ela deu os primeiros passos na água gélida de Okinawa.
O choque térmico do mar da madrugada foi imediato. No momento em que a água salgada bateu em suas canelas, o frio cortante enviou um pulso de alerta direto para o seu cérebro, abalando sua concentração.
Piscou.
Na mente de Luna, a lâmpada prateada do Círculo Externo oscilou violentamente e apagou. O calor sumiu num estalo, e o frio do oceano pareceu congelar seus ossos instantaneamente.
— Já apagou? — a voz de Hanako ecoou, implacável. — O mar não é um chão de dojo estático, Luna. Ele se move, ele gela, ele faz barulho. Foque de novo!
Luna firmou os pés na areia submersa, a barra do short curto já ficando ensopada. Ela fechou os olhos, respirou fundo e mentalizou o clique.
Click!
A luz acendeu novamente, o calor prateado subindo pela camisa preta larga. Ela deu mais um passo para o fundo. A água subiu pelas coxas, atingindo a altura do quadril. Mas então, uma onda mais forte veio pela frente, batendo contra sua barriga e desequilibrando seu corpo. O susto físico quebrou o foco.
Apagou.
— Droga… — Luna murmurou, tremendo, os dentes batendo enquanto a ressaca da onda tentava puxar seus pés.
— Você está tentando se isolar do mar, e esse é o erro — Ryuu instruiu da areia seca, dando um passo à frente, os olhos fixos em cada reação dela. — Se você lutar contra o frio ou contra o impacto, sua mente vai priorizar o reflexo do corpo e esquecer o círculo. Você tem que aceitar o ambiente e manter o interruptor ligado.
— É fácil falar… — Luna arfou, limpando a espuma salgada que espirrou em seu rosto.
Ela tentou pela terceira vez. Click. A lâmpada brilhou. Ela se concentrou em distribuir a energia mística uniformemente por seus canais espirituais, estendendo o fluxo até a ponta dos dedos. Por três segundos, o calor a protegeu do frio da água. Mas manter aquela voltagem exata exigia um esforço mental exaustivo. Luna começou a tensionar demais os músculos, espalhar aquelas chamas pelo interior de seu corpo, aumentava seus sentidos momentaneamente, era possível sentir uma vantagem física.
Em vez de uma lâmpada estável, ela injetou energia demais. Na sua mente, o círculo brilhou com uma intensidade ofuscante, instável.
— Cuidado! Está sobrecarregando! — alertou Ryuu.
Uma dor aguda, como uma agulhada térmica, fisgou o abdômen de Luna. O excesso de energia mística começou a colidir contra seus próprios canais espirituais. O susto da dor interna fez com que ela cortasse o fluxo bruscamente por puro instinto de sobrevivência.
Apagou de novo.
Desta vez, o recuo da energia fez suas pernas fraquejarem de verdade. Ela perdeu o equilíbrio e caiu de joelhos na água rasa, afundando as mãos na areia submersa enquanto uma onda pequena cobria seus ombros.
— Huff… huff… — Luna tossia, o cabelo prateado colado ao rosto, completamente encharcada e exausta. Ela havia falhado mais vezes do que conseguido manter a luz acesa por meros segundos.
Hanako caminhou até a beira da água, olhando para a sobrinha caída com um olhar clínico, sem um pingo de pena, mas também sem decepção.
— Foram três quedas e apenas alguns segundos de estabilidade — analisou a mestre. — Para o primeiro dia, você pelo menos localizou o disjuntor. Mas o oceano é um adversário paciente, ele vai continuar te derrubando até que você aprenda a…
Clic-clac.
O som nítido de uma fechadura de alumínio correndo veio da direção da casa de veraneio, seguido por um bocejo longo e dramaticamente ruidoso que cortou toda a seriedade mística da praia.
— Yaaawn... Luna-chi? Ryuu-kun? Onde vocês foram parar tão cedo? Credo, que frio é esse aqui fora? — Disse Chika, enquanto procurava seus amigos que não estavam dentro de casa.
A voz sonolenta de Chika ecoou da varanda.
— Corta o plano!— sussurrou Hanako, virando-se com a velocidade de um raio. — Se ela perguntar, vocês saíram para ver o nascer do sol e você escorregou no mar!
Luna nem teve tempo de responder. O cansaço físico que pesava em seus ombros desapareceu instantaneamente, substituído por uma descarga pura de adrenalina adolescente. Ela saltou da água, com a camisa preta encharcada grudando ao corpo e pesando o triplo do normal.
— Rápido, pelos fundos! — Ryuu murmurou, agarrando o pulso de Luna para ajudá-la a calçar os chinelos de qualquer jeito na areia antes de saírem em disparada.
Eles contornaram a cerca de pedra de coral da propriedade segundos antes de a silhueta sonolenta de Chika aparecer na quina da varanda principal. A garota de cabelos rosados coçava os olhos, segurando uma caneca de gatinho e usando um pijama folgado de pandas.
— Ué… tia Hanako? — Chika piscou, vendo a mulher alta, de rabo de cavalo prateado impecável, parada calmamente à beira-mar, cruzando os braços como se estivesse apenas apreciando a brisa matinal. — O que a senhora está fazendo acordada a essa hora? E cadê a Luna e o Ryuu-kun? Achei que tinha ouvido a voz deles.
Hanako soltou uma risada descontraída, uma atuação digna de prêmio, mudando sua postura de mentora implacável para a de uma tia de férias em um piscar de olhos.
— Ah, bom dia, Chika! Eu sempre acordo cedo para fazer minha caminhada. E os dois… bem, eles inventaram de vir ver o nascer do sol. Mas a sua amiga é uma desastrada de primeira categoria. Escorregou na primeira onda e foi parar direto na água de roupa e tudo. Devem estar entrando pela cozinha agora para não molhar o tatame.
— Mentira! — Chika soltou uma risada alta, a sonolência sumindo de seu rosto murcho. — A Luna-chi caiu no mar? Eu preciso ver isso!
Enquanto isso, na cozinha da casa de veraneio, o caos silencioso estava instalado. Luna tentava torcer a barra da camisa larga sobre a pia sem fazer barulho, enquanto Ryuu procurava desesperadamente por um pano de chão para apagar as pegadas molhadas que ela havia deixado no corredor de madeira.
— Essa foi por muito pouco — Luna sussurrou, os dentes ainda batendo de frio, mas rindo baixo da própria desgraça.
— É — Ryuu respondeu, estendendo uma toalha seca para ela com um meio sorriso divertido no rosto. — Mas se acostume. Pelo que conheço da sua tia, esse foi só o primeiro de muitos banhos de mar forçados que você vai tomar antes do café da manhã.
Luna pegou a toalha, cobrindo o cabelo úmido, enquanto ouvia os passos saltitantes de Chika se aproximando pelo corredor, gritando seu nome. O primeiro dia em Okinawa estava apenas começando.
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