O Segredo no LuarVolume 2 – Capítulo 17 – Capítulo 17: O Lugar Onde a Lua Aprende Sobre Contratos
Capítulo 17A noite caiu sobre Okinawa trazendo uma brisa bem mais fresca, que fazia as folhas das palmeiras ao redor da residência Gekkou sussurrarem no escuro. O som do mar, agora invisível sob o céu sem lua, ditava o ritmo calmo da casa. O aroma do peixe grelhado que compraram no mercado de Makishi ainda pairava no ar quando dois pares de passos firmes ecoaram no deque de madeira da entrada.
Yoru e Jun haviam finalmente chegado.
Hanako os recebeu na porta principal com os braços cruzados e um aceno de cabeça direto, sem muitas formalidades. Jun, o pai dos gêmeos Haru e Hana, trazia uma expressão cansada da viagem, mas um olhar profundamente focado. Após os cumprimentos iniciais e um jantar rápido onde a fachada de férias perfeitas foi mantida diante de Chika, os adultos e os adolescentes iniciados recolheram-se brevemente na sala dos fundos para traçar a estratégia da noite.
— A Chika não pode desconfiar de absolutamente nada do que estamos fazendo aqui — Jun começou, a voz baixa e séria, olhando diretamente para o grupo. — Por isso, precisamos dividir as atenções de forma eficiente.
Hanako assumiu o comando, apontando com o queixo para a sala de estar. — Yoru, Ryuu, Haru. Vocês três ficam aqui. Inventem um jogo, joguem videogame, façam o que for preciso, mas mantenham a Chika totalmente distraída e entretida na casa.
Ela então se virou para as garotas. — Luna, Hana. Vocês vêm comigo e com o Jun. Vamos para a área mais isolada da praia. Está na hora de termos a conversa que foi adiada desde o incidente em Quioto.
Luna sentiu um frio sutil na espinha, mas assentiu. Sob o pretexto de darem uma caminhada noturna ao centro para trazer alguma sobremesa, o quarteto deixou a casa silenciosamente, caminhando pela areia escura até alcançarem uma clareira entre as rochas de coral, onde o barulho das ondas abafava qualquer som vindo da residência.
Jun parou, virando-se de frente para Luna. Hana postou-se ao lado do pai, adotando aquela sua postura analítica de sempre, com os braços para trás.
— Luna — Jun começou, o tom de voz calmo, mas carregado de solenidade. — Durante o ataque do lobo que aconteceu um tempo atrás você ativou algo que a maioria dos clãs passa a vida inteira tentando compreender. Sob o estresse do perigo real, você realizou um Reiteki Keiyaku — um Contrato Espiritual.
Luna levou a mão ao peito de forma involuntária, tocando o pingente de lua sob o tecido de sua roupa. — Eu sei que aquela criatura está presa em mim de alguma forma… Mas eu ainda não entendo o que ela realmente é.
— O lobo que te atacou é o que chamamos de Reiteki Sonzai, uma Entidade Espiritual — Jun continuou, a voz linear cortando o vento marítimo. — Eles são seres constituídos puramente de energia espiritual. Nascem a partir da alta concentração de energia em um ponto específico, sendo sua natureza e forma física regidas pelo ambiente no qual foram gerados. No caso dele, a forma é Animalesca, já que ele assume a forma de um lobo. E o nível de poder… ainda não consegui estipular ao certo, mas considerando o estrago em Quioto, não é algo que possamos subestimar.
Luna engoliu em seco, sentindo o peso daquela revelação assentar em seus ombros.
Ao seu lado, Hana observava tudo em silêncio, gravando cada detalhe.
— Mas se ele é feito de energia pura, como é possível enfrentá-lo? Ele pode ser morto? — Luna perguntou, os olhos arroxeados fixos no reflexo escuro da água.
— Não. Entidades espirituais não são seres vivos, Luna. Portanto, não podem ser mortas — Jun continuou, cruzando os braços. — Porém, por serem feitas de energia espiritual, caso essa se esvaia por completo, elas não conseguirão mais manter sua existência, desaparecendo completa e definitivamente. Mas o que aconteceu com você não foi uma eliminação, foi o contrato que eu mencionei.
Hana deu um meio passo à frente, complementando o pai com precisão cirúrgica: — Algumas pessoas, que possuem um talento especial, são capazes de criar um vínculo com algum ser espiritual — e com apenas um. Ao realizar esse contrato, o contratante se torna capaz de utilizar as habilidades da entidade, bem como invocar uma forma física dela para ser utilizada em batalhas ou outras atividades. Mas, para isso ocorrer, é necessário um receptáculo.
— Algum item, arma ou acessório deve ser utilizado no momento do pacto para abrigar a consciência do ser espiritual. — Continuou Jun. — E, no seu caso, é o pingente. O problema é que, caso esse item seja destruído, o controle sobre a entidade se torna infinitamente mais difícil. Pode chegar ao ponto de quebrar o contrato por completo caso você não consiga contê-lo por conta própria. Na verdade, as únicas maneiras de encerrar um vínculo como esse é com a destruição do receptáculo… ou com o seu falecimento. — Disse, mostrando a seriedade do assunto.
O som das ondas quebrando nas rochas pareceu subitamente mais alto na mente de Luna. Ela levou os dedos trêmulos até o metal do colar.
— Quando o contrato é realizado, o poder espiritual da entidade é fundido ao do contratante, deixando-o muito mais poderoso — Jun alertou, o tom de voz tornando-se ainda mais solene e sombrio. — Contudo, caso o contratante chegue a morrer possuindo um contrato ativo, seu poder espiritual inteiro vai para o ser espiritual, fazendo com que ele se torne permanentemente mais forte. Além disso, se você morrer, ele permanecerá selado no item de contrato até que este seja destruído, já que não conseguirá mais tomar uma forma física por conta própria se sua consciência estiver contida ali dentro.
Hanako, que estava encostada em uma rocha de coral um pouco mais afastada, deu um passo à frente. O luar ralo da noite de Okinawa delineou seu rosto severo.
— Agora você entende a gravidade da sua situação, Luna? — Hanako interveio, a voz cortante. — Na madrugada, você achou que o seu maior problema era apenas a dificuldade de acender o filamento do Círculo Externo contra o frio da maré. Mas a verdade é que, toda vez que você tenta puxar a energia do seu Gaien, você está mexendo no mesmo reservatório onde o poder desse lobo foi fundido, ou seja, seu controle sobre o círculo externo deve ser perfeito.
A mestre parou bem diante da sobrinha, os olhos arroxeados iguais aos de Luna faiscando.
— Portanto — continuou Hanako, cruzando os braços —, eu vou te ensinar absolutamente tudo o que for possível para que você fique impecável no controle do fluxo de espírito do seu Círculo Externo. Não temos tempo para hesitações ou autopiedade.
Luna olhou para a tia, surpresa com a mudança repentina de tom, que passou da ameaça para uma promessa firme de mentora.
— Até o fim desta semana, — Hanako estipulou, apontando um dedo firme na direção do pingente no peito de Luna — nós vamos buscar o próximo passo. Nós vamos tentar liberar a sua primeira técnica de liberação espiritual. Você vai aprender a usar essa força a seu favor, e não o contrário.
A menção de uma “primeira técnica” fez o coração de Luna dar um salto. Na estrutura das artes místicas, manifestar uma técnica própria do Círculo Externo era o marco que transformava um iniciante em um mago real. Era o momento onde a energia bruta finalmente ganhava forma e propósito.
— Técnica de liberação…? — Disse Luna, um tanto confusa.
— Seishin Kaihou Gijutsu, ou Técnicas de Liberação Espiritual. — Explicou Jun. — São técnicas que utilizam sua energia espiritual para gerar diversos efeitos no mundo material. De forma simples, pense nelas como feitiços de um mago.
— Um feitiço… — Luna murmurou, a determinação timidamente começando a empurrar o medo para escanteio.
— Sim — Jun assentiu, aproximando-se das duas com um olhar encorajador. — Mas para isso, o seu fundamento precisa ser perfeito. A dosagem que você treinou na madrugada é a chave. Sem ela, a habilidade vai simplesmente colapsar.
Hana deu um passo à frente, ajustando a postura enquanto observava o horizonte escuro. — Estatisticamente, manifestar uma técnica sob a influência de um contrato instável dobra o risco de rejeição. Mas, se você sobreviver ao processo, o vetor de poder resultante será consideravelmente maior do que o de um mago comum. Eu estarei registrando os dados do seu progresso diariamente, Luna.
— Entendido — Luna respondeu, erguendo a cabeça, os olhos arroxeados brilhando com a mesma intensidade que os da tia. — Eu vou conseguir.
— Ótimo — Hanako sorriu, aquele sorriso de canto de boca que sempre significava que o treinamento seria dez vezes mais difícil do que o esperado. — Então vamos voltar para casa. Temos um plano de distração para checar, e algo me diz que os meninos devem estar implorando por socorro a essa hora.
— Nós também faremos a nossa parte — Jun interveio, dando um passo à frente com um olhar sereno, mas profundamente focado. — Eu ajudarei você a buscar manifestar o espírito com quem fez o contrato de forma ideal, Luna. Não queremos que você apenas o contenha como uma ameaça, mas que aprenda a canalizar essa essência em perfeita sincronia com a sua própria energia. Se fizermos isso do jeito certo, a sua primeira habilidade surgirá de forma natural, eu também tenho um contrato, então posso te ajudar.
Enquanto o quarteto dava meia-volta e começava a caminhar pela areia escura em direção às luzes calorosas da casa de veraneio, o peso do destino de Luna parecia um pouco mais leve. O monstro ainda estava lá, mas agora, ela tinha um mapa e uma semana para aprender a dominar a tempestade.
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Os quatro dias seguintes passaram como um borrão coreografado entre a exaustão mística e a encenação perfeita de um verão inesquecível. Para manter a bolha de normalidade de Chika, o grupo se dividiu em uma rotina quase milimétrica que exigia o máximo de todos.
Durante o dia, as redes sociais de Chika eram inundadas de fotos vibrantes. Havia registros do grupo devorando tigelas gigantes de Okinawa Soba em tavernas locais, rindo enquanto tentavam tocar o sanshin sob a tutela de idosos simpáticos, e explorando as ruínas de castelos antigos cercados por árvores verdejantes. Nessas horas, Haru era o alvo principal da câmera — e da atenção — de Chika. A timidez inicial do rapaz havia cedido espaço para um companheirismo leve.
Mas quando a noite caía e Chika finalmente adormecia, exausta de tanto passear, a residência Gekkou mudava de atmosfera.
As madrugadas na praia isolada tornaram-se o verdadeiro campo de batalha de Luna. Sob a supervisão implacável de Hanako e o olhar atento e técnico de Jun, o treinamento havia atingido um nível de intensidade que testava os limites físicos e mentais da jovem herdeira do clã Gekkou.
No segundo e no terceiro dia, o foco foi puramente o fluxo e a dosagem do Espírito. Luna passava horas com a água do mar batendo em seu corpo, tentando acionar o Círculo Externo sem permitir que a frieza do oceano ou a queimação do contrato a fizessem perder o controle. Jun passava instruções constantes sobre como sincronizar sua respiração com o bater das ondas, ensinando-a a moldar a energia de forma “fluida”, simulando o comportamento da própria água para camuflar a presença do lobo. Hana permanecia a poucos metros de distância, segurando uma prancheta espiritual, anotando cada oscilação e medindo os picos de pressão mística no ambiente.
No quarto dia, a mudança foi visível.
Luna já não caía de joelhos tossindo água salgada. Suas mãos ainda tremiam pelo esforço, mas as linhas prateadas que subiam por seus braços agora piscavam com menos violência, obedecendo ao comando de sua mente de forma mais cadenciada. O pingente em seu peito, embora ainda emitisse pulsações quentes nas madrugadas, parecia aceitar a nova “relação de forças” que estava sendo construída.
Agora, na quinta noite da viagem, o ar na praia parecia eletrizante. Faltavam apenas dois dias para o fim da semana estipulado por Hanako, e o cansaço acumulado pesava nos olhos de Luna. No entanto, a postura dela diante do mar escuro era completamente diferente daquela garota assustada do início da viagem.
Ela estava pronta para o teste definitivo: buscar criar sua própria habilidade com esse poder adquirido.
Luna estava de pé na areia, respirando fundo, preparando-se mentalmente para mais uma rodada de exaustão mística. Antes que ela pudesse dar o primeiro passo em direção à água, Hanako descruzou os braços e caminhou até a sobrinha.
— Chega de tentar moldar energia bruta de forma desleixada por agora, Luna. Você já provou que tem força, agora precisa de engenharia — disse a mestre, enfiando a mão no bolso do short jeans e puxando um objeto pequeno que reluziu sob a luz das estrelas. — Pegue isso.
Ela depositou na palma de Luna uma pulseira delicada, feita de um metal prateado fosco que parecia estranhamente quente ao toque, nela havia adornos de pequenas luas prateadas.
— Uma pulseira? — Luna murmurou, correndo os dedos pelo objeto.
— É um presente meu para você — Hanako sorriu de canto, adotando um tom um pouco mais suave, embora ainda firme. — Tentar canalizar o poder do seu Círculo Externo usando apenas as mãos vazias é como tentar focar a luz do sol sem uma lente. É muito mais difícil ter foco, especialmente para pessoas que não têm muita experiência ou aqueles que querem mais foco em seus feitiços, optam por essa alternativa. Através de um objeto místico, a sua energia ganha um ponto de vazão canalizado. Fica mais seguro.
— Uma ferramenta… — Hana comentou um pouco mais atrás. Ela estendeu a própria mão direita, revelando uma pulseira própria que havia ganho de seu pai, que também se tornava em uma varinha da cor do ébano — Eu também utilizo uma varinha para facilitar na execução e na precisão das minhas habilidades, Luna. Não é algo obrigatório para manifestarmos nossos poderes, mas estatisticamente reduz o desperdício de energia espiritual. Para a sua situação atual, é um catalisador indispensável.
Jun assentiu, observando a cena com os braços cruzados e um olhar de aprovação. — A Hana tem razão.— Ele comentou calmamente — Com a pulseira, você não precisa se preocupar em controlar a dispersão da energia pelo corpo todo ao mesmo tempo. Foque tudo em um único ponto.
Luna olhou para a pulseira e a prendeu em seu pulso esquerdo. O metal se ajustou perfeitamente à sua pele. Ela fechou os olhos, inspirou a brisa salgada e, pela primeira vez em quatro dias, acionou o interruptor do Círculo Externo sem medo.
Clique.
O fluxo de espírito correu por seus canais espirituais. Mas, em vez de se espalhar de forma violenta e queimar seus braços com as linhas prateadas de sempre, a energia foi puxada instantaneamente, como um redemoinho, direto para o pulso esquerdo. Os olhos arroxeados de Luna se acenderam em um brilho vivo.
No segundo seguinte, um estalido metálico ecoou na praia.
A pulseira se desfez em anéis de luz prateada e se estendeu, moldando-se e solidificando-se na mão de Luna até se transformar em uma simples varinha prateada, leve e perfeitamente equilibrada. A superfície do objeto reluzia com o mesmo tom arroxeado místico que emanava dos olhos da garota.
Luna ergueu a varinha, maravilhada. O peso em seu peito parecia ter encontrado um equilíbrio perfeito; a queimação do contrato do lobo havia sumido, sendo substituída por uma pressão focada e limpa na ponta do objeto prateado.
— Muito melhor, não é? — Hanako exclamou, estalando os dedos com entusiasmo. — Agora sim, Luna! Chega de desculpas. Com essa varinha na mão, você tem exatamente dois dias para me mostrar a sua primeira habilidade. Vamos ao trabalho!
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