Peças Sobre um Tabuleiro — Capítulo 15: Volume I – Capítulo 15 – Capítulo 15: Abertura

Peças Sobre um Tabuleiro
Cap. 15
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Peças Sobre um Tabuleiro

Volume I – Capítulo 15 – Capítulo 15: Abertura

Capítulo 15

2.408 palavras~10 min de leitura

Quando as palmas cessaram, Evandro Mendonça levou o microfone à boca.

— Boa noite, senhoras e senhores!

A voz dele se espalhou pelo salão.

— Antes de qualquer coisa, quero agradecer a cada um de vocês por reservar três dias da própria vida para participar de um projeto que, sejamos sinceros, começou do nada. Quem aí esperava que fosse aparecer um super torneio independente no Japão?

Ninguém se manifestou.

— Muita gente está acompanhando nossa transmissão pela internet, mas vocês compraram ingressos, vestiram a melhor roupa, saíram de casa… e alguns até atravessaram o oceano só para estar aqui. Então é justo eu prometer uma coisa: vamos fazer esses três dias valerem a pena.

Aplausos espontâneos surgiram.

— Para quem ainda não nos conhece, nós somos o Queen’s Promenade, um dos poucos espaços no Japão criados especificamente para reunir pessoas em torno do xadrez ocidental. Quando eu e meu sócio começamos a procurar investidores para construir esse lugar, todos faziam a mesma pergunta.

Ele mudou a voz, imitando um homem muito sério:

— “Por que diabos alguém abriria um clube de xadrez no Japão? E em Akihabara, ainda por cima?!”

A imitação gerou risadas no público.

— A resposta é simples. O xadrez ocidental ainda ocupa um espaço relativamente pequeno por aqui, e isso é fácil de entender. O Japão já tem uma tradição fortíssima em outro jogo da mesma família: o shogi. Enquanto que no ocidente e em parte da Ásia o mercado do xadrez é bem estabelecido, aqui nós vimos um terreno fértil, pronto para receber sementes de uma cultura que já tem séculos de tradição e casos de sucesso. Até aí, alguns investidores conseguiam acompanhar meu raciocínio. Mas quando eu chegava na parte de Akihabara…

Mais risadas vieram.

— Até hoje não entendo por que essa parte assustou tanto as pessoas. Quer dizer… talvez eu entenda um pouco.

O público riu mais uma vez.

— Mas, pra mim, fazia todo sentido. As pessoas que frequentam Akihabara buscam experiências novas, legais, que não encontrariam em outro bairro. Olha só que lugar perfeito para introduzir o xadrez! Mas não… não importava quanto eu explicasse, ninguém acreditava no nosso sucesso.

Ele abaixou a cabeça, deixando um silêncio meio pesado. Mas, de repente, ele se endireitou e ergueu um dedo indicador.

— Exceto uma pessoa. Uma única pessoa além de nós acreditou que essa proposta poderia funcionar não só como negócio, mas como um espaço capaz de ajudar o xadrez a crescer nesse país. Essa pessoa está sentada bem ali.

Ele apontou para uma das mesas.

— Uma salva de palmas para Takumi Saionji, o homem que fez nosso clube ser possível!

Um rapaz de óculos — que eu lembrava de ter visto na outra visita — ficou sem saber como reagir.

— Beleza! Vamos deixar o sentimentalismo de lado e partir para o que interessa!

Uma enorme tela branca desceu sobre a parede atrás do palco. No teto, um projetor ligou e fez uma imagem aparecer no espaço em branco. Eram três blocos:

DIA 1 — DIA 2 — DIA 3

— Vou resumir como tudo vai funcionar. No primeiro dia, que é hoje, vamos fazer um “esquenta coletivo”, pra todo mundo entrar no clima.

Embaixo do título “DIA 1”, apareceu um… tabuleiro pegando fogo?

— Amanhã, as atividades continuam coletivas, mas vão exigir um pouco mais de movimento. Então venham com roupas confortáveis, como se estivessem indo pra academia. Combinado?

A próxima imagem a aparecer foi de um homem com roupas de ginástica, apoiado em um peão com quase o tamanho dele.

— No terceiro dia, vamos diminuir o ritmo. Teremos competições menos agitadas, mas não menos divertidas. E, infelizmente, também chegará o momento mais triste deste evento…

Ele levou uma mão ao peito.

— A cerimônia de encerramento.

A última imagem a aparecer foi de dois enxadristas chorando durante uma partida. Porém, em vez de nos deixar tristes, algumas pessoas riram, inclusive eu.

A tela mudou novamente. Dessa vez, para uma tabela com três letras gigantes:

A — B — C

— Nossa missão é dar oportunidade para todo mundo se destacar, independentemente do nível de habilidade. Por isso teremos uma classificação geral com três divisões: A, B e C.

Ele olhou para o público.

— Isso parece familiar, não parece? Levanta a mão aí quem acompanha futebol. Pode ser na América, na Europa, onde for.

Várias pessoas levantaram a mão, inclusive Daniela e Beatrice.

— Só eu e a Bia assistimos futebol aqui, gente?

— Assisto só a Copa — a professora respondeu.

— Eu também — me posicionei, para não ficar de fora.

— Não ligo pra outros esportes — Rachel declarou.

— Então vocês já devem saber como funciona a famosa tabela de pontos corridos. Mas, pra quem não sabe, em cada divisão há três áreas: a zona de cima, a do meio e…

As faixas vermelhas brilharam.

— … A temida zona de rebaixamento.

Ele foi apontando para cada faixa, conforme explicava.

— Ao longo das rodadas, vocês receberão pontos. Quem terminar na zona de cima, essas zonas verdes, vai subir para a próxima divisão. Quem terminar nas zonas vermelhas, vai descer para a divisão anterior. Dependendo de onde vocês estiverem quando o evento terminar, receberão uma premiação diferente. Opa! Eu ouvi “premiação”? Pois é, galera. Temos prêmios pra todo mundo, até mesmo pra quem terminar no fim da tabela.

Daniela esfregou as mãos, por algum motivo.

— E, antes que os jogadores mais sérios pensem que vieram aqui só para brincar, alguns desafios do terceiro dia vão valer rating FIDE.

Esse foi o máximo de detalhes que recebemos sobre o funcionamento do evento.

Evandro consultou alguma coisa fora do palco e anunciou:

— Convidados especiais, façam o favor de subir aqui!

Sob uma nova onda de aplausos, os quatro grandes mestres deixaram a mesa e formaram uma linha ombro a ombro no palco.

— Mais palmas! Mais palmas para esses quatro homens que desceram do Monte Olimpo do xadrez para nos agraciar com sua presença!

— Que exagero… — Rachel murmurou, enquanto batia palmas sem vontade nenhuma.

Daniela, por outro lado, estava quase deslocando o ombro de tanto aplaudir.

Esmeralda, que até então tinha acompanhado boa parte da cerimônia com seus costumeiros olhos semicerrados, mudou de postura quando Eduardo da Rocha tomou seu lugar na fila. Vindo dela, se endireitar na cadeira equivalia a saltar de pé.

— Levanta a mão quem conhece esses caras!

Quase todo o salão obedeceu. Eu li um pouco sobre eles na internet, então também levantei minha mão.

O xadrez profissional era uma pirâmide que afunilava bruscamente a cada ponto de rating. Os quatro mestres em cima do palco estavam em um seleto grupo conhecido como “super GMs”, enxadristas que ultrapassaram a barreira dos 2700 pontos no xadrez clássico.

Evandro observou a floresta de braços.

— Caramba… vocês são famosos mesmo.

Os quatro reagiram de maneiras diferentes.

— Nesse caso, não vou ficar aqui lendo currículos que todo mundo já conhece. Prefiro que cada um pegue o microfone e responda uma pergunta simples: por que vocês estão aqui.

Eles concordaram.

— Só tem um pequeno problema. O único de vocês que fala japonês é o Eduardo. Então vou precisar da ajuda da nossa talentosíssima tradutora em tempo real.

Evandro olhou para o lado do palco.

— Hisayuki-chan!

Uma das garçonetes apareceu sob mais aplausos, acenando para o público com os trejeitos de uma idol.

Ela recebeu o microfone e se posicionou ao lado dos mestres. O primeiro era Hans.

Meu olhar foi automaticamente para Rachel. Ela estava fria como uma estátua.

Hans falou alguma coisa em inglês e devolveu o microfone.

— Ele disse que veio aqui para visitar a adorável irmãzinha dele, que também vai participar do evento.

Awwwwwn…

Todos ficaram comovidos com a suposta declaração.

Hans olhou confuso para a “tradutora”. Rachel quase pulou da cadeira.

— What?! Não foi nada disso que ele disse!

Ninguém deu ouvidos para a contestação da Rachel.

— Ela traduziu o que está escondido no coração dele! — Daniela brincou, dobrando de tanto rir.

— Shup up!

Rachel grunhiu de raiva.

O próximo, Fabricio Caruso, recebeu o microfone com uma expressão desconfiada.

Depois que ele falou, a tradutora afirmou:

— “Eu vim porque não aguentava mais o Evandro me implorando de joelhos”.

O público riu, obviamente.

— P-P-Pera aí! Não foi bem assim! — Evandro protestou. — Nah, deixa pra lá. Pode continuar.

O próximo foi Aaldrik Giriya. Ele abriu um sorriso e disse:

— For the same reason as Fabricio.

Quem entendia inglês começou a rir antes mesmo da tradução.

— “Pelo mesmo motivo do Fabricio”.

Hisayuki nem tentou inventar dessa vez.

— Gente, precisava me humilhar desse jeito? — Evandro continuou a piada.

Por último, veio Eduardo.

— Quer ser traduzido?

— De jeito nenhum.

Ele pegou o microfone e falou em japonês:

— Estou aqui mais pra me divertir com vocês.

Palmas surgiram do nada.

Enquanto eu acompanhava os aplausos, notei Esmeralda se inclinando para frente e estreitando os olhos de um jeito diferente.

— Se divertir, né… — ela murmurou.

Ao pegar o microfone de volta, Evandro disse:

— Ouviram? Ele é tão talentoso que isso aqui vai ser brincadeira de criança pra ele.

Da distância que eu estava, deu para ouvir Eduardo reclamar, mesmo sem o microfone.

Mal o evento tinha começado e já estava muito diferente do que eu imaginei. Não era um show de comédia, mesmo assim ri tanto que meus olhos se encheram de lágrimas.

Rachel, por outro lado, se manteve neutra o tempo todo.

— Rachel, vou te inscrever numa competição de ficar séria.

— Why?

— Como você consegue não rir?

— Porque nada do que vi até agora teve graça.

No palco, Evandro começou a olhar ao redor com uma expressão exageradamente pensativa.

— Gente… tem alguma coisa estranha aqui, não tem?

Ninguém respondeu.

— O nome desse clube é “Queen’s Promenade”, mas só tem “kings” no palco. Cadê as “queens”?

Algumas vozes concordaram.

— Não se preocupem. Vamos resolver isso.

A tela atrás dele mudou mais uma vez. Um pódio apareceu no centro. No degrau mais alto, uma coroa de rei e outra de rainha dividiam o primeiro lugar. No segundo, uma coroa menor, de três pontas, ficava ao lado de uma tiara elegante. Não existia terceiro lugar.

— Entre nossas premiações especiais, vamos coroar um rei, uma rainha, um príncipe e uma princesa. Rei e rainha podem ser qualquer participante. Naturalmente, esperamos que os enxadristas mais experientes dominem essa disputa. Por isso criamos o príncipe e a princesa. Esses títulos serão disputados apenas entre os amadores.

Beatrice e Daniela ficaram sorridentes ao ouvir a explicação dos títulos de príncipe e princesa.

— Não se animem muito — Rachel avisou. — Com certeza tem amadoras melhores que vocês.

Elas fizeram cara feia para Rachel.

— Teremos outras categorias também, mas, se eu explicar tudo agora, vocês vão começar a torcer para a cerimônia acabar.

Ele abriu os braços.

— Então basta saber uma coisa: deem o melhor de vocês. Vai valer a pena!

A apresentação terminou com mais palmas e gritos de animação.

Depois de tantas explicações, chegamos no tal “esquenta coletivo”.

As garçonetes começaram a circular pelo salão carregando caixas compridas. De dentro delas, tiravam tabuleiros de xadrez. Mas não eram tabuleiros comuns.

Beatrice foi a primeira a perceber:

— Um tabuleiro inteligente!

— Inteligente? — Eu perguntei.

Daniela se ofereceu para explicar:

— É um tabuleiro eletrônico que funciona como jogar no Luchess, só que com peças de verdade. Dá pra jogar presencialmente ou contra alguém à distância.

— E ele registra os movimentos automaticamente — Beatrice acrescentou.

— É sério?

Ela assentiu.

Daniela continuou:

— Quando você joga à distância, algumas versões conseguem até reproduzir os movimentos do adversário no próprio tabuleiro.

— Que legal!

— Mas por que estão distribuindo esse tipo de chessboard?

Como se tivesse ouvido a pergunta, Evandro chamou a atenção de todos.

O telão mostrou vários tabuleiros conectados por linhas.

— Cada mesa será um time. Vocês jogarão contra outro time sem saber quem está do outro lado.

Algumas pessoas começaram a cochichar.

— E tem mais: quem está acompanhando pela internet também vai participar. O público online será dividido em equipes e entrará no mesmo sistema.

Na tela, apareceram pequenos ícones representando espectadores.

— Aqui no salão, vocês vão discutir entre si e decidir o próximo movimento. Os times online farão isso por votação. O controle de tempo será de um minuto por lance. Mas isso seria muito fácil, não é?

“Seria?”

— Então nossos quatro grandes mestres também vão participar.

Os mestres se entreolharam.

— Eles vão circular entre as mesas e, quando chegarem até vocês, terão o direito de escolher o movimento da equipe que tem a vez. A equipe é forçada a aceitar o movimento que eles escolherem. Três deles tentarão ajudar.

Na tela, três silhuetas ficaram verdes. Uma quarta ficou vermelha.

— Um estará tentando sabotar todo mundo.

O burburinho aumentou mais ainda.

Daniela bateu as mãos sobre a mesa.

— Isso vai ser muito divertido!

Esmeralda abriu um pequeno sorriso.

— Está ficando interessante…

A professora Bardin levantou a mão.

— Eu também tenho que participar?

— Seria bom — Beatrice respondeu.

Rachel apoiou um cotovelo sobre o encosto da cadeira.

— Já que vamos jogar juntas, tentem não atrapalhar, alright?

Esmeralda virou lentamente o rosto para ela.

— Eu ia pedir a mesma coisa pra você.

— What? Eu sou a melhor nessa mesa.

— Você sabe distinguir se um grande mestre está ajudando ou sabotando?

— Of course. É só eu encontrar o melhor lance. Se ele fizer outra coisa, está sabotando.

Esmeralda soltou um suspiro.

— Pobrezinha…

— O que você disse?

— Você está subestimando a inteligência deles.

— Volta a dormir. É o que você faz de melhor.

Enquanto as duas começavam mais uma de suas discussões, inclinei-me na direção da Beatrice.

— Acho que não vamos ser muito úteis, né?

Daniela ouviu.

— Claro que vão!

— Vamos?

— Melhor dizendo: esse jogo vai ser útil pra vocês. É praticamente um treino com grandes mestres de bônus.

— Albuquerque-san é especialista em enxergar o copo meio cheio… — a professora comentou.

A preocupação se transformou em empolgação. Certamente eu erraria muito. Mas, cercada por aquelas pessoas, os erros já não pareciam tão assustadores.

Enquanto conversávamos, Evandro realizou um sorteio longe dos nossos olhos. Cada grande mestre recebeu um papel e pôde conferir apenas a própria função.

Esmeralda observou os quatro com atenção.

— Droga…

— Que foi?

— Será que todos eles jogam pôquer?

— Do que você tá falando?

Sem dar tempo para Esmeralda responder, Evandro ergueu o microfone.

— Todo mundo pronto?

O salão respondeu em coro.

Os grandes mestres desceram do palco e se posicionaram em pontos diferentes do salão, como corredores esperando o tiro de largada.

Beatrice ajeitou as peças. Daniela alongou os dedos. Rachel se inclinou sobre o tabuleiro. Esmeralda finalmente parecia completamente acordada.

Eu respirei fundo.

Evandro levantou a mão.

— Três…

Meu coração acelerou.

— Dois…

Olhei para minhas companheiras de equipe.

— Um…

A mão dele desceu.

— VALENDO!

Fim da leitura

Capítulo 15 concluído

Volume I – Capítulo 15 – Capítulo 15: Abertura