Peças Sobre um Tabuleiro — Capítulo 14: Volume I – Capítulo 14 – Capítulo 14: Foco

Peças Sobre um Tabuleiro
Cap. 14
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Peças Sobre um Tabuleiro

Volume I – Capítulo 14 – Capítulo 14: Foco

Capítulo 14

2.597 palavras~11 min de leitura

Infelizmente, a ansiedade era algo comum na minha vida. Mas o que eu estava sentindo naquela manhã… era um patamar diferente.

— Está tudo bem, filha?

Meu estômago parecia apertado, minhas mãos e pés não paravam quietos e, de tempos em tempos, eu precisava conferir o relógio mesmo sabendo que quase nenhum tempo tinha passado. É claro que minha mãe ficaria preocupada ao me ver desse jeito.

— Estou um pouco nervosa.

Eu estava sentada no sofá da sala e só me levantava quando era estritamente necessário. Depois de todo o trabalho que tive para conseguir aquela roupa, a última coisa que queria era amassar ou sujar.

Minha mãe se sentou do meu lado.

— O que está te deixando nervosa?

— Como posso explicar… Tenho medo de dar tudo errado, sabe? Sei que é besteira…

Sem pedir licença, ela começou a fazer carinho no meu cabelo.

— Eu não acho que seja besteira. É um ambiente novo pra você. Acho que nunca te vi indo tão longe da sua zona de conforto.

O carinho da minha mãe conseguiu aliviar um pouco a pressão no estômago. Mas isso era um tratamento, não a cura. Eu precisava encontrar uma maneira de lidar com aquela sensação sem depender dela sentada ao meu lado durante o evento.

— Eu fiz meditação todos os dias no clube, pratiquei todas aquelas dicas que você me deu… Não entendo por que não consigo ficar calma.

— Lembra do que eu sempre digo? Só os monges conseguem ficar completamente calmos o tempo todo.

— Mesmo assim… Achei que, se seguisse suas estratégias, conseguiria ficar que nem você, tranquila mesmo sob pressão.

Ela soltou uma risadinha.

— Por que você está rindo?

— Fico feliz de saber que consigo fingir tão bem.

— Fingir?

— Eu sofro igual a qualquer pessoa. As dicas que te ensinei servem principalmente pra você não sofrer antes da hora. Quando o grande dia chega, a ansiedade é praticamente inevitável.

— Então não tem como eu parar isso que estou sentindo…

— Se eu disser que tem, vou estar mentindo. Mas você pode escolher o que fazer com essa ansiedade.

— Como assim?

Ela pensou por alguns segundos.

— Imagina que tem uma pessoa chata sentada do seu lado no ônibus. Você não vai sair do lugar só porque ela está te incomodando, certo?

— Claro que não.

— Então o que você faz?

— Hum… Ignoro?

— Exatamente. Você coloca fones de ouvido, olha pela janela, pensa em alguma coisa…

— Então minha ansiedade é uma pessoa chata?

— Das bem insistentes.

— Faz sentido…

— Pessoas chatas odeiam ser ignoradas. Às vezes elas até tentam incomodar mais, mas ninguém consegue ser chato pra sempre. Dá muito trabalho.

— Certo. Eu só preciso tratar minha ansiedade como uma pessoa chata.

— Isso mesmo. Pare de ficar brigando com sua ansiedade. Vai ligar a TV, escutar uma música, jogar um joguinho… ou deixa eu te ajudar.

— Me ajudar? Como?

Ela levantou as mãos devagar, com um sorriso suspeito.

— Mãe…?

— Uma sessão intensiva de distração!

Os dedos dela atingiram minha cintura.

— Hahahahaha! Para! Para!

O trabalho da minha mãe envolvia decisões importantes e reuniões em que uma escolha errada poderia afetar o rumo da empresa. Se alguém tinha propriedade para falar sobre nervosismo antes de um momento decisivo, era ela.

As cócegas só pararam quando meu celular vibrou sobre a mesa. Peguei-o na mesma hora.

Uma mensagem da Daniela: “Chegamos!!!”

— Elas estão aqui — avisei.

Quase no mesmo instante, ouvi a porta da frente abrir.

Meu pai entrou carregando sacolas do mercado. Antes mesmo de tirá-las das mãos, olhou para nós com uma expressão intrigada.

— Vocês viram que tem uma limusine na frente de casa?

— Uma limusine? — minha mãe repetiu.

“Será que…”

Os dois me acompanharam até a porta. Assim que abrimos, confirmei que meu pai não tinha exagerado. Havia mesmo uma limusine estacionada bem na frente de casa.

O chofer desceu do veículo e abriu a porta traseira.

— E aí, Yuuko!

Lá estava Daniela, em seu traje de gala, agindo como se chegar de limusine fosse a coisa mais normal do mundo.

“Então esse era o plano dela…”

Meus pais se despediram com abraços e beijos na testa. Eu me sentia uma criançona fazendo isso, mas não recusaria o amor deles por nada.

Enquanto eu caminhava até o carro, minha mãe pediu:

— Cuidem bem da Yuuko!

— Pode deixar, dona Hanamura! — Daniela fez um joinha.

O interior da limusine era tão espaçoso que Esmeralda estava tranquilamente deitada. Mesmo com esse espaço, eu me sentei toda encolhida.

Olhei discretamente para as meninas. Daniela, Beatrice e até a Esmeralda estavam à vontade com suas vestes elegantes. Com certeza elas nem precisaram se esforçar para achar uma roupa que combinasse com sua nobreza natural.

Comparada a elas, eu me sentia um patinho feio.

— Tá tudo bem com você, Yuuko? — Daniela perguntou.

— S-Sim! Claro!

Beatrice inclinou um pouco o corpo.

— Não é o que parece.

— É que… é que…

Muitas coisas estavam remexendo meu coração — e uma dessas eu nem podia contar.

— Quer chá? — Beatrice ofereceu.

— Tem chá aqui?

Ela apontou para um pequeno balcão embutido na lateral do carro. Recipientes de porcelana estavam presos em compartimentos próprios para não saírem voando a cada curva.

Beatrice abriu uma gaveta, retirou uma xícara com pires e depois ergueu um dos recipientes — um bule.

— Açúcar?

— Duas colherzinhas…

Ela serviu o chá e misturou o açúcar com toda a delicadeza do mundo.

— Voilà.

Encarei a xícara.

Naquele estado, eu tinha certeza de que bastaria encostar nela para derrubar o chá e dar prejuízo para todas nós.

— Pode pegar, Yuuko — Daniela disse. — Essa limusine tem uma suspensão especial. Você não vai derrubar.

Beatrice aproximou a xícara ainda mais.

O aroma chegou às minhas narinas. Era familiar…

Sem eu perceber, meus dedos relaxaram e o ritmo do meu coração diminuiu um pouco.

“Só por sentir a fumacinha do chá?”

É óbvio que eu aceitaria aquela bebida mágica.

Tomei um pequeno gole.

— Hmmm! É camomila?

— Oui!

Daniela me observou por alguns segundos.

— Ficou mais calma agora?

— Deu pra perceber?

— Um pouco. Mas relaxa, você não é a única. Todas nós estamos nervosas. Exceto a Esmeralda, claro.

Esmeralda continuava dormindo como um anjinho.

— Foi por isso que eu trouxe o chá.

— Foi uma ideia genial da Bia. Mas eu também sou uma gênia.

— Por quê?

— Porque euzinha tive a ideia de alugar uma limusine, sem pitaco de ninguém.

— É impressionante, sim. Mas você não acha que é um pouco… exagerado?

— Claro que não. Tem espaço pra todo mundo e, de quebra, vamos chegar em grande estilo.

Enquanto tomava mais chá, percebi que faltavam duas pessoas.

— Onde estão a Rachel e a professora Bardin?

— Estamos indo buscar elas agora.

— Então a Rachel concordou em participar no fim das contas?

Daniela fez uma expressão confiante demais.

— Não exatamente.

— Como é?

— Ela não confirmou com todas as letras. Mas tenho certeza que vai estar esperando na porta quando chegarmos.

Dito e feito.

Quando a limusine parou na frente do prédio, Rachel estava esperando na entrada.

Ela olhou para nosso veículo. Parecia não acreditar no que estava vendo.

Quando o chofer abriu a porta, Daniela saiu e foi até a americana.

— E aí, Rachel? Vai entrar ou não?

— Por que você está dentro de uma limousine?

— Como você esperava que eu colocasse seis pessoas num carro só?

— Eu achei que a professora ia dirigir, alguma coisa assim.

— Bora logo. Senão vamos nos atrasar.

Rachel se negava a entrar.

— Hey! Let go of me!

Daniela resolveu o problema segurando-a pela mão e puxando-a para dentro.

Por último, fomos buscar a professora Bardin.

— Quer chá, irmã?

— Hoje sou sua professora.

— Que isso, professora — Daniela protestou. — Nem estamos na escola.

— Estamos em uma atividade escolar e eu sou a supervisora de vocês. Mas aceito o chá.

Depois disso, a viagem ficou surpreendentemente agradável. Conversamos, ouvimos música no sistema de som e Daniela passou tempo demais alternando as cores das lâmpadas de neon.

Um dos assuntos foi a roupa que cada uma estava usando. Recebi alguns elogios, mas, quando perguntaram como eu adquiri a minha, inventei que tinha comprado fazia tempo, durante um passeio com minhas amigas, e que só nunca tinha encontrado uma ocasião boa para usar.

Rachel reclamou em todas as oportunidades, Esmeralda continuou deitada, Beatrice serviu mais chá e eu… eu percebi que não estava pensando tanto no evento. A ansiedade ainda estava ali, sentada em algum lugar dentro de mim. Mas, por alguns minutos, eu parei de dar ouvidos a ela.

Foi assim que chegamos à entrada do Queen’s Promenade.

O estacionamento, que da última vez tinha me passado uma impressão de abandono, estava bem iluminado e cheio de carros. Até a placa que indicava os estabelecimentos de cada andar tinha ganhado uma extensão especial:

QUEEN CHESS OPEN — 3º ANDAR

Entrada apenas com ingresso previamente adquirido.

Na porta do clube, uma das garçonetes estava atuando como hostess. Ela conferiu nossos ingressos e chamou outra funcionária para nos acompanhar até a mesa.

O interior do Queen’s Promenade estava quase irreconhecível.

As janelas tinham sido fechadas, a iluminação habitual estava mais baixa e alguns canhões de luz recortavam o salão e o palco. Câmeras grandes, daquelas usadas para gravar filmes e programas de TV, estavam posicionadas de frente para a área principal, enquanto um fotógrafo circulava entre as mesas procurando bons ângulos.

“Será que eu vou sair nessas imagens? Tomara que eu não estrague.” — Ri de mim mesma.

A identidade do lugar estava conservada, mas agora tinha um ar de cerimônia importante.

O salão estava cheio. Todos seguiam algum nível de traje esporte-fino: alguns mais próximos do casual, outros prontos para assistir um casamento.

A variedade de pessoas também chamava a atenção. Havia homens e mulheres de todas as idades, pessoas que pareciam ser de outros países, casais acompanhados dos filhos, grupos de amigos… E também vi muitos dos rapazes que eu tinha visto na minha última visita.

A garçonete parou em uma mesa próxima ao palco. Beatrice apontou para uma pequena placa apoiada sobre ela.

— Está reservado.

A funcionária olhou para nós por cima, como se procurasse alguém.

— Vocês estão com a Rachel Sharp, certo?

— Sim — Daniela respondeu. — Ela está bem aqui.

Rachel virou o rosto.

— Então está tudo certo. Essa mesa foi reservada para vocês.

— Nossa, que chique!

Daniela retirou a placa sem a menor cerimônia e se sentou.

Nós acabamos fazendo o mesmo, aceitando aos poucos a ideia de que, pelo menos naquela noite, éramos pessoas importantes.

— Viu só, Rachel? Eu disse que eles não estavam bravos com você.

Rachel cruzou os braços e passou uma perna sobre a outra.

— Shut up.

Enquanto eu ainda admirava nossa mesa reservada, ouvi alguns sussurros vindos do lado.

— Olha… é a Rachel-sama.

— Ela veio mesmo!

— E agora? O que a gente faz?

— O Evandro falou pra não incomodar ela por enquanto, lembra?

— Mas eu queria tanto um autógrafo…

Olhei discretamente na direção das vozes.

Era uma mesa ocupada por alguns dos rapazes que estavam presentes no dia em que Rachel foi endeusada.

Ainda faltava bastante tempo para o início da cerimônia, então tivemos que encontrar alguma coisa para fazer. Conversamos, comentamos sobre a decoração, observamos as pessoas chegando…

Até que Daniela notou movimento em uma mesa próxima da nossa, que também estava reservada.

— Gente, gente, olha só! — Daniela chamou nossa atenção.

Beatrice cobriu a boca com as mãos. Rachel e Esmeralda, por outro lado, mal reagiram.

A professora Bardin olhou na direção indicada.

— O que tem eles?

Daniela se virou para ela como se a resposta fosse óbvia.

— São os convidados especiais!

Eduardo da Rocha eu reconheci na mesma hora. Os outros exigiram um pouco mais de esforço. Precisei comparar mentalmente os rostos com as fotos que apareciam na propaganda do evento.

— Olha ali seu irmão, Rachel! Olha!

— Yeah, yeah. Eu já vi.

A professora olhou para Rachel.

— Não vai cumprimentá-lo?

— Por que eu faria isso?

— Porque vocês são irmãos? E penso que vocês não têm tantas oportunidades de conversar pessoalmente.

— Isso aqui é uma competição. Ambos temos que nos concentrar e esquecer nosso parentesco.

Daniela fez uma expressão conformada.

— Coisa de irmão, professora.

Assim que os grandes mestres se sentaram, algumas pessoas das mesas adjacentes criaram coragem para pedir um aperto de mão e trocar algumas palavras rápidas. Era provável que, se o ambiente fosse um pouco menos solene, formariam uma fila para pedir autógrafos.

Alguns minutos depois, uma voz conhecida chamou nossa atenção.

— Daniela?

A referida se virou.

— Olha só quem apareceu!

Ela se levantou e abraçou Yulia. Beatrice e eu fomos logo depois.

— Eu não fazia ideia de que você viria.

— Eu…

Yulia olhou para mim de relance.

— Eu também não esperava encontrar vocês aqui.

Daniela então apontou para as duas integrantes do clube que Yulia ainda não conhecia.

— Essas aqui são a Rachel Sharp e a Esmeralda Albacete.

— Eaí… — Esmeralda falou com quase nenhuma força.

— Hello.

— Rachel? Como o mundo é pequeno!

— Vocês se conhecem?

— Não faz muito tempo que disputamos o mesmo torneio.

— Indeed.

— E quem ganhou?

— Nenhuma de nós — Rachel respondeu.

— Que pena…

— Mas a Rachel terminou em segundo lugar.

— O que continua não sendo a mesma coisa que vencer.

Depois, foi a vez da professora ser apresentada.

— E essa é a supervisora do nosso clube, professora Émilie Bardin.

Yulia fez uma breve reverência.

— Prazer em conhecê-la.

— O prazer é meu.

— Vamos pegar uma cadeira pra você se juntar a nós.

— Agradeço, mas já tenho um lugar.

— Você tem uma mesa reservada também?

— Seria bom, mas não é isso.

Yulia apontou para trás da mesa dos convidados especiais.

— Vou ficar bem ali.

Seguimos a direção do dedo dela.

Era uma cadeira vazia numa mesa imediatamente atrás dos grandes mestres.

— Bem do ladinho deles?! — eu reagi.

— En fait, é melhor que a nossa mesa — Beatrice reconheceu.

— Que sortuda você é…

— Não vou negar. Se quiserem falar comigo, estarei lá.

Yulia se despediu e caminhou até sua mesa. Daniela acompanhou cada passo dela com os olhos.

Assim que se sentou, a russa começou a conversar com Eduardo da Rocha como se fossem amigos de longa data.

— Eu não posso ser derrotada desse jeito!

— Derrotada em quê? — perguntei.

Sem explicar nada, Daniela marchou na direção dos grandes mestres.

— O que essa doida vai fazer? — A professora perguntou.

Quando chegou perto da mesa, ela disse:

— Com licença!

Todos olharam para ela.

— Posso apertar a mão de vocês?

Os jogadores se entreolharam, alguns achando graça da situação, mas ninguém recusou.

Daniela apertou a mão de um por um com uma tensão que não era do feitio dela. Depois retornou com uma cara que eu nunca vi antes.

Ela se sentou e determinou:

— Nunca mais vou lavar minhas mãos!

Rachel fez uma careta.

— Se você não lavar, vai ficar doente! — Beatrice alertou, em tom de bronca.

A professora ainda tentava entender a dimensão daquilo tudo.

— Até parece que apertou a mão dos seus idols favoritos…

Daniela apenas sorriu de orelha a orelha. Depois, passou a agir como se o dia tivesse valido a pena só por ter apertado a mão daqueles jogadores.

Mais uns minutos se passaram, até que os refletores se ajustaram sobre o palco e os amplificadores emitiram aquele rangido de microfone sendo ligado.

Uma voz feminina disse:

— Senhoras e senhores, a cerimônia está prestes a começar. Pedimos que permaneçam sentados.

As pessoas se sentaram e as conversas paralelas cessaram.

A voz continuou:

— Recebam com uma salva de palmas seu anfitrião: Evandro Mendonça!

Uma onda de palmas contínuas percorreu o salão.

Sob a luz dos refletores, um homem de terno branco subiu ao palco com um microfone na mão. Era o mesmo homem que começou a história da Rachel se tornar a “rainha do clube”.

Naquele momento, ele era o centro das atenções.

Fim da leitura

Capítulo 14 concluído

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