Sinph StarVolume I – Capítulo 31 – Capítulo 31: Dissonante
Capítulo 32— Entrem logo, não vamos deixar toda a diversão para aqueles três!
— Você não está preocupado que eles sumiram?
— É, você tá até rindo!
Não posso negar, até eu consigo perceber que meu sorriso está gigante. Qual é, não é todo dia que consigo me divertir assim! Estamos dentro da gruta. Faz umas três horas que os outros entraram e desapareceram. Não foi fácil arrastar esses dois comigo. Toda hora uma complicação ou reclamação. Parecem até Maria.
— Vocês não estão nem um pouco animados? Qual é, pessoal, vamos nos divertir!
— Bom, não posso negar que estou feliz de termos ficado com Allastor e não com Reid.
— Eu também.
Consegui ouvir os dois dando uma pequena risada. Sinceramente, eu percebi a presença daqueles três sumindo assim que entraram na caverna, poderia ter entrado sozinho e deixado Trevor e Valkyrie lá fora, mas ei? Cadê a diversão nisso? A parte mais divertida de uma masmorra nova é o sentimento de liberdade, seguido do desconhecido.
— Valky, use aquele feitiço de lamparina de novo. Esse aqui já está se apagando. Trevor, feitiço de localização.
— Certo. — Foi dito em uníssono.
A criaturinha do feitiço de lamparina era muito adorável, uma pena que a de Valky durasse somente uma hora.
— Nada. Sem sinal dos três.
— Tudo bem. Acho que vamos ter que fazer à moda antiga. Vocês ainda não conseguem sentir esse cheiro de metal?
— Não. Mas sinto um cheiro de lavanda.
— E eu só sinto um bem forte de tabaco.
Que coisa mais esquisita. Não sinto cheiro algum que não esse de... metal. Quase como de sangue velho. Se essa for uma daquelas que nos traz cheiros traumáticos, provavelmente vou sentir o cheiro de carne podre característico de campos de batalha daqui a pouco. Se esse for o caso, lavanda e tabaco parecem curiosos.
— Vamos seguindo. Pelos meus sentidos, mais esqueletos estão parados no próximo corredor. Valky, se importa?
— Ah, claro. Bola de fogo saindo!
Ela realmente é a melhor dos três na magia. Honestamente, sempre apreciei a magia, em especial, a magia de fogo. Sempre me via hipnotizado com os feitiços de Jin, nos tempos de ouro. O grupo de esqueletos foi instantaneamente carbonizado, igual aos outros últimos três grupos.
— Vocês estão se saindo bem, estou orgulhoso! — Meu nariz me traiu, o cheiro de carne podre chegou. — Acho que estamos chegando perto do que quer que seja que comanda isso aqui, o cheiro de vocês mudou?
— Allastor?
— Straph?
Ele... ele está ali, de pé. Straph, naquela capa de seda branca com detalhes pretos. Sem... sem as cicatrizes.
— Onde estamos, Allastor? Não gosto desse lugar.
— Estamos em... Riverthorn.
Estamos, de algum modo, não mais na cripta. Estamos em Riverthorn, no cume do Adestrador.
— Allastor, você parece surpreso em me ver.
— Eu... isso não é real. Você não é real.
— Me diga, Allastor, valeu a pena? Todas as pessoas que matou, todos os que sofreram. Será que não... poderia ser diferente?
A aparência de Straph mudou. Agora estava do modo que eu me lembrava de meu... amigo. Aquela gigantesca ferida, a ferida que eu causei.
— Eu sinto muito, Straph. Poderia ter sido diferente. Eu poderia ter ido atrás de você naquela noite. Poderia ter te pedido pra voltar.
— Você sabe que não, Allastor. Estávamos fadados a nos separar. Me diga, você já percebeu que sou algo derivado de sua memória, mas poderia me dizer se Sean está vivo?
Eu não consegui fingir uma cara boa. Straph instantaneamente a reconheceu.
— Entendo. Foi em uma batalha?
— Sean morreu fazendo o que amava, Straph. Salvando pessoas.
— Eu... fico feliz com isso, Allastor. Uma pena que o destino nos separou.
— Str...
Antes que eu pudesse dizer o que sentia, a visão se perdeu. Estou de volta na masmorra. As crianças estão paradas, com os olhos centrados para dentro. Imagino que eu mesmo estava assim. Tentei estender a mão no garoto elfo. A lavanda que antes rondava Trevor agora o envolvia por inteiro. O garoto não piscava.
—
Esse cheiro forte de lavanda. Está quase me sufocando, não sei como ainda não vomitei. Minha mãe odeia esse cheiro.
— Anda, Trevor! Me ajuda aqui.
Eu... meu irmão? Onde nós...
— Anda logo, mamãe vai ficar furiosa quando perceber que derrubei o perfume. Pega um pano!
Meu irmão está aqui, na minha frente. Ele... é maior do que eu, quer dizer, lógico que é, ele sempre foi. Mas por que eu estou tão... baixo?
— Eu sabia que não deveríamos brincar aqui, estou ferrado!
Nós estamos na antiga casa. Antes da guerra.
— Atonis?
— O que foi, Trevor? Anda logo, molha o pano!
Eu me ajoelhei e comecei a limpar o chão. Céus, minha mãe vai matar a gente.
— Pronto, vamos correr. Se ela nos achar aqui dentro, vamos ser os culpados.
— Vamos? Mas eu não der... — Meu irmão me puxou pela mão.
Nós sempre corríamos assim. Eu tinha esquecido disso. É divertido.
— Acho que estamos bem, mamãe não nos viu correndo.
Meu irmão é muito maneiro. Ele sempre dá essa risadinha e aponta com o dedão para sua bochecha quando faz algo errado.
— Tem algo de errado, Trevor? Você tá meio calado hoje. Tá com medo da mamãe?
— Eu... é, sim. Tô com medo dela. Atonis, quantos anos você tem?
— Realmente tem algo de errado com você. Não vai me dizer que se esqueceu até do meu aniversário. Você estava lá! Tenho dezesseis agora, seu irmãozão já é um adulto!
Deze... pera, essa é a idade que ele...
— Atonis! Cadê você?
— Ferrou! Corre, Trevor!
A gente correu por mais algum tempo. Nossa casa era bem... grande. Sempre foi assim? Quer dizer, claro, o que que eu tô falando? Nós sempre fomos ricos. Mas tem algo de diferente. Meu quarto não era assim.
— Trevor, me escuta!
A voz de meu irmão me trouxe de volta. Ele está de joelhos, na entrada da casa. Uma mochila está aos seus pés. Eu... me lembro desse dia.
— Você tem que me prometer que vai cuidar deles.
— Você não pod...
— Presta atenção, Trevor! Não posso continuar aqui parado enquanto nosso povo é morto. Preciso lutar, sempre soube que teria.
— Não vá, irmão! — Senti minha garganta contraindo e minha visão se embaçar.
— Me promete, Trevor! Você vai ser mais forte que eu, eu sei disso! Me promete que não vai deixar o papai entrar na guerra.
Eu me lembro desse dia. Quero morrer. Minha visão está muito embaçada, não consigo ver nada. Quando abro os olhos, ele está lá, pendurado naquela corda.
—
— Trevor! Já chega.
O garoto está tremendo. Sou obrigado a acordá-lo. Ele pisca muito lentamente depois de sair do transe. E então vomita. A lavanda já saiu de perto dele. Fico ali, passando a mão nas suas costas. Não quero saber o que foi e duvido que vá me contar. Ficamos assim por algum tempo. Demora um pouco para que ele se levante. Trocamos olhares. Nunca o vi pior. Ele desvia os olhos o tempo todo, o suficiente para que eu não diga nada.
— Trevor, respira. Já passou. Estamos na cripta.
O garoto limpou a boca com as costas da mão. Não disse nada. Nem me olhou. Tudo bem. Fiquei ali, de joelhos, esperando. O tempo que fosse preciso.
Foi quando o cheiro mudou. A lavanda tinha ido embora com o vômito, mas o tabaco... o tabaco agora estava mais forte. Muito mais forte. E vinha de Valkyrie.
Ela não estava chorando. Seus olhos estavam abertos, fixos em algo que eu não podia ver. Suas mãos tremiam. Mas seu rosto... seu rosto estava duro. Zangado. Como se estivesse prestes a gritar com alguém.
O cheiro de tabaco impregnou a sala.
—
Que cheiro forte. Papai tem esse cheiro. Acho que fica mais forte quando ele está bravo. Eu tenho que cuidar do bebê, mamãe me pediu pra olhar ele de vez em quando. Agora eles não ligam mais pra mim, só pra esse... bebê chato. O que que tem de legal nele? Ele só chora. Minha vida era tão mais legal antes dele.
— Valkyrie! Cuidado com essa mamadeira. Deixa esfriando antes de dar pro Yuri.
Ain, o bebê Yuri não pode tomar mamadeira muito quente! Ain, o Yuri não pode comer sozinho! Coisa chata.
Se ele só sumisse, a mamãe teria mais tempo pra brincar comigo! Ai, essa mamadeira já esfriou demais.
— Vamos, Yuri, hora de comer.
A mamadeira abriu. Eu não sei como, eu podia jurar que estava apertada. Antes que eu pudesse fazer algo, todo o leite quente caiu... nele. O bebê gritou de dor, muito alto.
— Valkyrie! O quê?!
Mamãe foi a primeira a aparecer. Ela me empurrou pra longe e ajudou o bebê, me machuquei no empurrão, mas ela nem ligou.
— Saia daqui! Pro seu quarto, agora!
Ótimo! Pelo menos assim eu não preciso cuidar do bebê. E eu já estou acostumada a ficar no meu quarto mesmo. Sempre fico lá, ninguém mais brinca comigo nessa casa, nem lá fora. Sinto que estou começando a chorar. Demora muito tempo até alguém aparecer. Eu não esperava que fosse meu pai.
— Posso entrar?
— A casa é sua, não tenho como falar nada mesmo!
— Olha a boca. O que aconteceu?
Meu pai está com aquele cheiro forte. Muito mais forte.
— Eu ia dar a mamadeira pro bebê e ela abriu! Achei que ela estava apertada.
Meu pai não me respondeu de imediato. Ficou me encarando.
— Tem algo de errado, Valky? Tem algo que você queira me falar?
— Todo mundo só liga pro bebê agora, ninguém mais liga pra mim, tudo é sobre o Yuri. A mamãe me empurrou bem forte e nem ligou que eu me machuquei! Olha o meu braço! Eu queria que ele morresse! Aí minha vida pod...
Meu pai me deu um tapa na cara, um com força. Agora eu me lembro. Como poderia esquecer?
— Você não pode pensar assim! Como pode dizer algo assim?
Minha visão está embaçada pelas lágrimas. Lágrimas de ódio. Minha mão acaricia onde meu pai me bateu.
— Eu... eu queria morrer! Eu queria só morrer pra deixar vocês e aquele bebê em paz! Daí ninguém mais ia ligar pra Valkyrie mesmo, ninguém mais liga!
— Escuta, Valky, meu amor. Me perdoa. O papai não queria fa...
— Sai daqui! Sai do meu quarto! EU TE ODEIO! SOME DA MINHA VIDA!
—
— Valky! Acorda!
A garota está tremendo, com lágrimas... diferentes das de Trevor. Uma veia pulsa bem intensamente em sua testa.
— Valkyrie, sou eu, Allastor! Escuta, não foi real. Olha, Trevor está ali!
— Eu... não foi real? — A garota deu um tapa fraco na sua bochecha esquerda. — Eu não... quero falar disso.
— Ninguém quer.
Ela me olhou. Não era raiva de mim. Era raiva do que tinha visto. Mas eu estava ali, e ela precisava de um alvo. Segurei o olhar. Ela desviou primeiro.
Trevor ainda estava pálido, encostado na parede. Dois adolescentes destruídos por dentro. E a Cripta ainda não tinha terminado conosco.
— Podemos ir agora? — Valkyrie perguntou, e era uma ordem, não um pedido.
— Claro. Mas antes...
O piano voltou a tocar.
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