Todas Essas Heroínas Perdedoras! — Capítulo 40: Volume 4 – Capítulo 4 – Capítulo 4: Prólogo de um Garoto de 16 Anos

Todas Essas Heroínas Perdedoras!
Cap. 40
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Todas Essas Heroínas Perdedoras!

Volume 4 – Capítulo 4 – Capítulo 4: Prólogo de um Garoto de 16 Anos

Capítulo 40

7.329 palavras~32 min de leitura

NA MANHÃ DE 25 DE DEZEMBRO, a luz do sol e o ar frio da manhã atravessavam a fresta entre as cortinas.

Ainda meio adormecido, puxei o futon de volta sobre mim. Aquele dia era meu aniversário, Natal e também a cerimônia de encerramento do semestre.

Que dia cheio.

Meu despertador ainda não tinha tocado, então resolvi aproveitar o conforto do futon por mais um pouco...

— Feliz Natal, onii-sama! Feliz aniversário!

Junto com a animação de Kaju, o estampido de um lança-confetes ecoou pelo quarto.

Então é isso. Sentei-me na cama enquanto esfregava os olhos.

— Bom dia…. Kaju. Você já está tão animada logo de manhã.

— Sim, porque hoje é um dia memorável. Agora, onii-sama, por favor, levante-se logo.

Kaju girou sobre si mesma, fazendo a barra de seu vestido vermelho esvoaçar.

— Espere, Kaju, essa roupa...

— Sim! Kaju tentou se vestir de Papai Noel para entrar no clima do Natal. O que achou?

Kaju usava um vestido de Papai Noel e uma tiara com chifres de rena.

— É, ficou fofa. Mas o Natal não era proibido aqui em casa?

— Sim, está correto. Porque Kaju tinha a mesma dúvida todos os anos.

Kaju sentou-se corretamente na minha cama.

— Mesmo sendo seu aniversário, por algum motivo o mundo só favorece o Natal. Kaju vinha lutando contra esse mundo injusto. Era como se fosse Natal contra onii-sama.

Meu inimigo era bem poderoso.

— No entanto, Kaju percebeu uma coisa. E se o mundo estivesse, na verdade, celebrando você, onii-sama? Kaju pensou que todas aquelas iluminações espalhadas pela cidade talvez fossem para você. Depois de pensar nisso até de manhã, Kaju finalmente fez as pazes com o Natal.

— Fico feliz que vocês tenham se reconciliado. Agora vá dormir.

Espera. Se ela só tinha aceitado o Natal naquela manhã, então...

— Quando você comprou essa fantasia de Papai Noel?

— Por algum motivo, essa roupa estava no fundo do armário da mamãe...

— Certo, pare por aí. Vamos fingir que eu não ouvi isso.

Informação demais para processar tão cedo.

— Como as férias de inverno de Kaju começaram hoje, Kaju vai colocar suas habilidades em prática e preparar um banquete para o jantar. O prato principal será um frango vermelho de Mikawa assado inteiro, então aguarde ansiosamente.

— Heh, agora isso parece algo pelo qual vale a pena esperar.

— Sim! De certa forma, hoje é o dia de uma nova partida para você, onii-sama. Kaju ficou um pouco surpresa, mas vai apoiá-lo com todas as suas forças!

— Nova partida...? Hoje é meu aniversário, mas isso não é um exagero?

Kaju juntou as mãos diante do peito com uma expressão séria.

— Kaju também ficou muito surpresa ontem à noite. Mas, se foi sua escolha, Kaju vai apoiá-lo!

...Do que diabos ela estava falando? Ontem à noite eu apenas voltei para casa, tomei banho normalmente e fui dormir.

— Não me diga, Kaju. Você me seguiu ontem à noite, seguiu?

Quando falei isso meio em tom de brincadeira, Kaju assentiu levemente.

— Sim. Kaju só estava curiosa para saber quem onii-sama tinha convidado.

— Hã? Você estava mesmo espionando!?

— Aquela garota é da Tsuwabuki, não é? Kaju se lembra de tê-la visto no acampamento de treinamento de verão!

O acampamento de verão do Clube de Literatura. Se bem me lembrava, Kaju também tinha participado de um intercâmbio do conselho estudantil em Toyohashi nos mesmos dias. Mesmo não havendo nada entre Shikiya-san e eu, era um pouco constrangedor que alguém da família nos tivesse visto juntos...

— Kaju, acho que você está entendendo tudo errado. Eu não estou saindo com ela, certo?

— Kaju sabia! Então, para você, onii-sama, ela é um interesse romântico, não é!?

Kaju se aproximou ainda mais, com as bochechas coradas.

— Muitas coisas podem acontecer, mas Kaju está do seu lado, onii-sama!

— Ela é apenas uma veterana da minha escola, não é nada disso. Agora saia da cama.

— Sim! Por favor, cultive esse amor com calma! Desta vez, Kaju observará tudo de perto!

Entendo. Isso ajuda muito. Nesse momento, Kaju soltou um enorme bocejo e esfregou os olhos sonolentos.

— Kaju, você quase não dormiu ontem à noite, não foi? Não se preocupe com o jantar e vá descansar direito.

— Kaju também precisa assar um bolo de três andares, então não haverá tempo suficiente se não começar agora. Além disso, o frango fica mais gostoso quando é abatido pela manhã!

Hã? Você vai abater um agora? Está brincando, certo?

— Seu irmão mais velho fica perfeitamente satisfeito só com um bolo! E um único andar já basta!

— Mas, mas, onii-sama, isso não seria um pouco solitário? Afinal, um frango caipira inteiro assado, abatido pela manhã...

— Então acho que gostaria de comer bolinhos de arroz salgados, tofu e talvez uma salada de legumes.

Pelo menos hoje eu era vegetariano. Kaju inflou as bochechas de insatisfação, mas então murmurou baixinho:

— Um travesseiro de braço.

— Hã?

— Onii-sama, se me der um travesseiro de braço, Kaju será uma boa menina e irá dormir.

Desde que Kaju entrou no ensino fundamental II, dormir juntos na mesma cama tinha sido proibido em nossa casa, mas... suponho que daquela vez não havia problema. Deitei-me na cama e estendi um braço para o lado.

— Então só até você pegar no sono, Kaju.

— Sim, onii-sama!

Kaju mergulhou na cama e se acomodou ao meu lado.

— Ehehe, faz tempo que Kaju não dormia assim com você, onii-sama.

— A última vez foi quando você estava no ensino fundamental I, então já faz uns dois anos, não é?

— KaJu aChA qUe sIm.

Por que ela estava falando desse jeito? Não me diga que vinha entrando escondida no meu futon sem que eu percebesse...? Enquanto considerava interrogá-la sobre isso, sua respiração logo se tornou lenta e regular. Ela quase não tinha dormido na noite anterior. Não era surpresa que tivesse adormecido tão rápido.

Ah, se o despertador tocasse, Kaju acordaria. Estiquei o outro braço e desliguei o alarme. Agora eu só precisava tomar cuidado para não voltar a dormir. Mas não havia como eu dormir enquanto servia de travesseiro para Kaju, então fechar os olhos por um instante não faria mal.

Afinal, eu estava cansado por causa do dia anterior. Mas, de alguma forma... o futon estava tão quente. Será que era porque eu estava dormindo ao lado de Kaju...? Só mais um pouquinho...

Não tem problema se eu dormir, certo...? Eu... coloquei o despertador...?

E assim, meu prêmio de frequência perfeita desapareceu como bolhas de sabão, porque me atrasei justamente no último dia do segundo semestre.

*

A cerimônia de encerramento também terminou sem problemas. O discurso do diretor foi tão longo quanto sempre, e os avisos sobre as férias de inverno foram cinco vezes mais detalhados do que qualquer sermão da Amanatsu-sensei.

Os membros do conselho estudantil estavam trabalhando junto com o Clube de Radiodifusão durante a cerimônia e ainda permaneciam ocupados com a limpeza. Tiara-san verificava os equipamentos enquanto tentava afastar uma Shikiya-san excessivamente grudenta.

Em outras palavras, Shikiya-san não estava trabalhando.

...As duas talvez tivessem passado por muita coisa, mas parecia que finalmente tinham encontrado o lugar ao qual pertenciam. Observei distraidamente o congestionamento na saída do ginásio. Como as turmas estavam sendo liberadas em ordem, começando pelos alunos do terceiro ano, ainda demoraria um pouco.

Enquanto eu estava afastado dos meus colegas de classe, Yanami veio e se posicionou ao meu lado.

— Nukumizu-kun, é raro você se atrasar.

— Acabei voltando a dormir por um momento. Pedalei minha bicicleta o mais rápido que pude, mas não consegui chegar a tempo.

— Espera, você não vinha de trem? Se a bicicleta é mais rápida, por que não usa ela sempre?

— Porque é cansativo. No verão faz calor e no inverno faz frio, não é?

Ignorando completamente minha resposta com um simples "uhum", Yanami baixou a voz.

— Mais importante, Nukumizu-kun. O que aconteceu ontem à noite?

— Eu te mandei mensagem pelo LINE ontem, não mandei? Disse que provavelmente tinha dado tudo certo.

— Não, não. Existe um limite para ser vago. "Provavelmente" ou "eu acho"... se fosse possível emagrecer só com isso, ninguém sofreria para perder peso.

Do que ela estava falando?

— Estou dizendo que não sei mais nada além disso. Ontem não era exatamente uma situação em que eu pudesse pedir detalhes para a Shikiya-senpai.

Por algum motivo, Yanami franziu a testa e me lançou um olhar acusador.

— Espera. Você não ia apenas fazer aqueles dois se encontrarem ontem? Você saiu para um encontro com a Shikiya-senpai?

— Não foi um encontro. Nós apenas tomamos chá em um café.

— Isso é um encontro. Um café na noite da véspera de Natal é totalmente um encontro. Então, enquanto eu passava a noite contando os dígitos de pi, você estava se divertindo por aí, Nukumizu-kun.

Contando os dígitos de pi na véspera de Natal...?

— Isso é divertido?

— Você acha que eu estava fazendo isso porque queria?

Então por que fazer algo assim? Yanami me lançou um olhar ameaçador.

— Estou falando sério. Comprei uma tabela de pi com um milhão de dígitos para sobreviver à noite da véspera de Natal. Quando você chega mais ou menos na metade, todas as coisas ruins simplesmente desaparecem. Da próxima vez eu empresto para você.

Eu não tinha nenhum problema tão grave assim. Se fosse para escolher um momento em que eu precisaria disso, seria justamente agora.

A multidão no ginásio começava a diminuir. Yanami deu um passo para o lado, reduzindo a distância entre nós.

— Nukumizu-kun, sobre depois da aula hoje...

— Ah... tem a festa de Natal, não tem?

Yanami assentiu levemente.

— Ainda estou em dúvida se vou participar ou não. Eu vou pedir a autorização da sua irmã para você, então que tal irmos juntos?

— Mas sinto que eu ficaria deslocado numa festa de Natal. E também não teria com quem conversar.

Ao ouvir isso, Yanami chutou a ponta do meu sapato com uma expressão descontente.

— Você tem a mim, não tem?

Bem, isso era verdade, mas eu conseguia imaginar perfeitamente ela se empolgando junto com todo mundo enquanto eu não conseguia me enturmar de jeito nenhum. Mesmo assim, eu odiaria preocupar os outros e fazê-los sentir que precisavam me fazer companhia...

Enquanto procurava uma maneira adequada de recusar, meus olhos encontraram Shikiya-san caminhando de forma instável pela lateral do ginásio, carregando uma caixa de som nos braços.

Era bom vê-la trabalhando, mas ela parecia perigosamente desequilibrada. O cabo pendurado da caixa de som parecia prestes a se enrolar em suas pernas a qualquer momento. Ah, por que ela estava andando na diagonal? Ela vai bater na parede...

Ah, droga. Por que aquela garota me fazia me preocupar tanto?

— Nukumizu-kun, o que foi?

Deixando para trás Yanami, que ainda dizia alguma coisa, comecei a caminhar na direção de Shikiya-san sem nem perceber. Ao mesmo tempo em que apressei o passo, Shikiya-san pisou no cabo e perdeu o equilíbrio.

A caixa de som caiu no chão com um estrondo alto, atraindo os olhares de todos no ginásio. E, no centro daqueles olhares, eu estava segurando Shikiya-san em meus braços.

— Senpai, você está bem!?

Nos meus braços, Shikiya-san piscou lentamente seus longos cílios, surpresa.

— Estou bem... E a caixa de som...?

— Quem se importa com a caixa de som...?

Parei de falar no meio da frase. Nossa posição parecia exatamente a pose final de uma dança de salão. Centenas de alunos da Tsuwabuki estavam olhando para nós.

— A-Ah... consegue ficar de pé sozinha!? Certo, vou soltá-la agora!

Quando tentei me afastar às pressas, Shikiya-san fez o contrário e passou os dois braços ao redor do meu pescoço.

— Ei, senpai!?

— Por que... você veio me salvar?

— Hã? Bem... porque você parecia estar cambaleando, então achei que poderia ser perigoso.

— Então você... estava me observando de perto...?

Uma suave fragrância de maquiagem pairava no ar. Fitando-me com seus olhos claros, ela hesitou por um instante antes de continuar:

— Você... quer sair comigo...? — sussurrou. As palavras doces deslizaram pelo ambiente como uma carícia na nuca.

Por alguns segundos, o silêncio dominou o lugar. Então, uma onda de agitação percorreu os estudantes ao redor, espalhando-se como ondulações sobre a superfície da água.

No centro daquela comoção, repeti as palavras de Shikiya-san na minha cabeça como se fossem problema de outra pessoa e então balancei a cabeça freneticamente.

— N-Não! Não é isso! Seria muita presunção da minha parte... ou melhor, seria falta de respeito!

— Não é...?

— S-Sim!

Quando respondi com a voz falhando, Shikiya-san murmurou em seu tom habitual e monótono:

— Entendo... então eu entendi... errado...

E ficou em silêncio. Os alunos ao redor observavam tudo à distância enquanto cochichavam entre si. Que atmosfera era aquela? Será que eu tinha acabado de estragar tudo...? Enquanto permanecia imóvel, coberto de suor frio, Tiara-san abriu caminho pela multidão e correu até nós.

— Espere, Shikiya-senpai! O que você está fazendo em público!?

Tiara-san arrancou Shikiya-san dos meus braços à força. Enquanto eu suspirava aliviado por ter sido resgatado, ela lançou um olhar feroz em minha direção.

— N-Nukumizu-san! Você realmente dá em cima de qualquer uma que aparece! Eu o julguei completamente errado!

— Não, não. Eu apenas a segurei porque ela estava prestes a cair. Senpai, diga alguma coisa.

Shikiya-san assentiu levemente e olhou para o rosto de Tiara-san.

— Agora é... a vez da Tiara-chan...

— O quê!? Eu não tenho nada...

Hã? Ainda tinha mais alguma coisa? Enquanto eu observava assustado, Shikiya-san ergueu o queixo de Tiara-san com a ponta dos dedos.

— Quer que eu... diga por você...?

— Não precisa! N-Nukumizu-san!

Corando intensamente, Tiara-san posicionou-se firmemente diante de mim.

— Ah, sim. O que foi?

— Tenho algo para conversar com você depois da aula hoje, então, por favor, deixe sua agenda livre!

— Hã? Bem, eu não me importo, mas...

— N-Não crie expectativas estranhas, entendeu!? Eu entro em contato depois!

Depois de dizer isso, Tiara-san pegou Shikiya-san pela mão e saiu dali. ...Então, o que acabou de acontecer? Completamente atordoado, apanhei a caixa de som do chão para escapar dos olhares ao redor.

O corpo frio de Shikiya-san. O calor escondido em seu interior ainda permanecia em minhas mãos.

— Com licença... alguém sabe onde devo levar esta caixa de som...?

Minhas palavras fracas foram engolidas pela agitação ao redor. Traição amorosa. Massacre. Triângulo amoroso. Palavras perturbadoras ecoavam por toda parte. Espera... o que eu faço agora...? Ao procurar ajuda ao redor, encontrei Yanami.

...Ah.

Ela desviou o olhar.

Enquanto eu permanecia sem saber o que fazer, Konuki-sensei apareceu com seu jaleco branco esvoaçando.

— Muito bem, todos. Voltem logo para suas salas. A reunião de classe vai começar.

Enquanto dispersava os alunos que continuavam ali, a professora fez um gesto para mim.

— Traga essa caixa de som para cá. Venha comigo.

— Ah, sim!

Salvo. Desculpe por ter desejado que a senhora não se aproximasse tanto de mim antes.

Enquanto guardava a caixa de som numa prateleira atrás do palco, para onde ela havia me guiado, Konuki-sensei encostou o corpo nas minhas costas por trás.

— Você tem passado por muita coisa, não é? Se forem preocupações relacionadas a relacionamentos, por que não conversa com esta professora aqui?

— Não, realmente não há nada. E é verdade, então por favor pare de sussurrar no meu ouvido.

Retiro o que disse. Por favor, não chegue tão perto, sensei. De preferência, mantenha dois metros de distância.

— Fique tranquilo. Sou bastante tolerante quando o assunto é esse. Quer que eu lhe apresente um aplicativo exclusivo que divide virtualmente sua conta do smartphone em cinco?

— Ah... estou bem, obrigado. Então, com licença.

Quando tentei sair discretamente...

— Ei, Nukumizu-kun.

A professora me chamou com um tom sério, diferente do habitual.

— O que foi?

— Eu também passei por muita coisa quando tinha a sua idade. Claro, eu levava tudo a sério à minha maneira juvenil, mas...

Ela exibiu um sorriso gentil.

— Hoje, acho que gostaria de ter enfrentado essas coisas de forma mais direta.

— Sensei...

Konuki-sensei assentiu profundamente, como se compreendesse tudo.

— Então, Nukumizu-kun. Encare isso de peito aberto. Nu não apenas no corpo, mas também no coração...

— Nossos corpos nem chegaram a ficar frente a frente para começo de conversa.

Interrompi rapidamente antes que ela continuasse.

— Ara, ainda não? Também sou boa em dar conselhos nessa área. Então, o que pretende fazer?

— Não vou fazer nada. Mas... obrigado.

Ela certamente estava preocupada comigo à sua maneira. Retribuí com um sorriso sem jeito.

— De nada. Faça o seu melhor, Nukumizu-kun.

Deixando para trás uma piscadela digna de especialista, Konuki-sensei saiu dos bastidores do palco. Como se estivesse esperando por aquele momento, meu celular emitiu um som de notificação. Eu havia me esquecido de colocá-lo no modo silencioso. Ainda bem que não tocou durante a cerimônia de encerramento...

Aliviado, peguei o aparelho e vi uma mensagem de Tiara-san.

O assunto era simplesmente: "Com licença", e o conteúdo era tão conciso quanto a própria Tiara-san.

"Depois da aula, Parque Mukaiyama Oike. Vou devolver aquele item, então estarei esperando na ponte."

*

A última reunião de classe do segundo semestre.

Ao fechar meu boletim nada impressionante, relembrei o incidente ocorrido no ginásio. Shikiya-san havia me perguntado: "Você... quer sair comigo...?"

O que teria acontecido se eu tivesse respondido que sim...? Balancei vigorosamente a cabeça para afastar aquele pensamento. Não havia como algo tão bom acontecer comigo. Boa jogada da minha parte evitar um final ruim.

Recuperando a compostura, olhei ao redor da sala. Yanami fazia barulho com suas amigas, Yakishio estava largada sobre a carteira e o casal exibicionista Himemiya continuava exatamente igual ao primeiro semestre.

Quando me senti reconfortado pela familiaridade daquela paisagem, percebi que vários colegas estavam me observando de relance.

...O quê? Tem uma joaninha na minha cabeça ou algo assim?

Hakamada apoiou uma das mãos sobre minha carteira.

— Nukumizu, aquilo foi incrível.

— Hã? O quê exatamente?

— O que aconteceu no ginásio. Achei que você estivesse se dando bem com aquela veterana do conselho estudantil, mas também tem algo acontecendo com a vice-presidente, é?

Hã? Do que ele estava falando? Sentindo os olhares ao meu redor, virei a cabeça e vi várias pessoas desviarem os olhos apressadamente.

— Hum... isso é um completo mal-entendido. Não tenho nenhum tipo de relação estranha com aquelas duas.

Hakamada assentiu compreensivamente e deu um tapinha no meu ombro.

— Entendo. É complicado, não é? Sempre existem pessoas espalhando rumores irresponsáveis.

É. E uma delas estava bem na minha frente.

— Bem, eu sei que você não é esse tipo de cara. Mesmo assim, é melhor deixar seus sentimentos claros antes que seja tarde.

Depois de dizer isso, Hakamada voltou para seu lugar. Esse foi o último "olha quem fala" do ano… Esperando a agitação causada pela entrega dos boletins diminuir, Amanatsu-sensei bateu palmas.

— Certo, pessoal. O momento dos presentes de Natal acabou. Sentem-se logo.

Todos obedeceram imediatamente. As férias de inverno só começariam depois que aquilo terminasse. Quando a sala finalmente ficou em silêncio, Amanatsu-sensei começou a falar com um tom grave.

— Ontem também fiquei fazendo hora extra na véspera de Natal. Quando fui ao supermercado pouco antes de fechar, os bolos já estavam com adesivos de cinquenta por cento de desconto.

...Era com esse tipo de assunto que encerraríamos o ano? Amanatsu-sensei fechou os olhos e continuou solenemente:

— Sabem, o Natal de verdade é hoje. Não acham que colocar desconto nos bolos ontem foi um pouco cedo demais? Um bolo de Natal continua perfeitamente bom dois ou três dias depois, não continua?

A sala mergulhou num silêncio absoluto. O vento bateu nas janelas, fazendo-as tremer. Em meio à confusão dos alunos, Amanatsu-sensei abriu lentamente os olhos.

— Para provar isso, decidi comer o bolo que comprei na véspera de Ano-Novo.

Por favor, não faça isso. Ignorando nossa preocupação, ela bateu o diário de classe sobre a mesa do professor com força.

— Muito bem! Essas são minhas palavras de despedida para vocês! Não façam nenhuma loucura só porque estão de férias, ouviram!?

Um grande coro de comemoração ecoou pela sala. Uma sala de aula que não mudava. As mesmas reclamações de sempre. Mas hoje havia algo diferente em comparação ao primeiro semestre. Eu tinha completado dezesseis anos.

*

Depois que a reunião de classe terminou, o assunto dominante na sala passou a ser a festa de Natal. Pelo que parecia, cerca de dois terços da turma participariam, enquanto muitos alunos, como eu, não tinham nada a ver com aquilo.

Pendurei a bolsa no ombro e me levantei. Foi então que ouvi uma conversa entre Yanami e Himemiya-san.

— Você realmente não vai conseguir ir à festa de Natal, Anna?

— Eu queria muito ir também, mas realmente não posso escapar das atividades do Clube de Literatura. Desculpe.

Hmm. Então Yanami não iria? Mas que atividade do Clube de Literatura era essa de que ela estava falando? Será que ela ainda achava que haveria uma reunião de estratégia hoje?

Ela claramente queria participar da festa. Seria ruim simplesmente ignorá-la e ir embora. Aproximei-me da zona de exclusão de doze quilômetros formada por Yanami e Himemiya.

— Yanami-san, hoje não tem atividades do clube.

— Hã?

A expressão de Yanami congelou instantaneamente. Ao mesmo tempo, o brilho ao redor de Himemiya-san pareceu aumentar.

— Nukumizu-kun, isso é verdade? Yay, Anna!

— Ah... veja bem. Ainda temos que fazer a revista do clube, não temos? E ela nem foi impressa ainda.

Enquanto falava, Yanami piscava um dos olhos freneticamente. Hm? O que ela estava fazendo? Achei que estivesse tentando mandar algum sinal para alguém, mas não havia ninguém atrás de mim...

— Nós só imprimimos coisas para a recepção dos calouros e para o Festival Tsuwabuki. Desta vez não temos nenhum trabalho específico.

— A-Ah... é mesmo?

— Que bom! Então você também pode ir à festa de Natal, Anna!

Sorrindo radiante, Himemiya-san agarrou o braço de Yanami. Eu não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas era bom ver todos felizes.

— Bem, então eu já vou indo.

Quando estava prestes a sair, Yanami segurou minha bolsa. Espera. O que era aquilo? Ela estava me encarando com olhos de assassina.

— Você também vai, não é, Nukumizu-kun?

— Já tenho um compromisso com a Basori-san, então vou passar dessa vez. Bem, Yanami-san, feliz Ano-Novo.

Ela estava assustadora demais. Precisava ir rapidamente para o local combinado. Saí da sala em passos rápidos e olhei para trás uma última vez. Yanami estava sendo arrastada por Himemiya-san enquanto mantinha a expressão vazia de um peixe morto.

...Então, no fim das contas, Yanami realmente queria ir à festa de Natal. Mesmo tendo hesitado tanto. O coração de uma mulher era realmente um mistério.

*

Mukaiyama Oike.

Ficava perto do centro da cidade de Toyohashi, a cerca de quinze minutos de bicicleta da Escola Tsuwabuki. Se eu dissesse que tinha aproximadamente o tamanho de três campos do Nagoya Dome, daria para entender o quão grande era.

(N/SLAG: O Nagoya Dome é um estádio de beisebol localizado em Nagoya, no Japão, foi inaugurado em 1997, tem capacidade para 38.414 espectadores)

Havia calçadões e parques bem cuidados ao redor do lago, e durante a temporada das cerejeiras recebia muitos visitantes. Mas, em um dia comum de inverno, o lugar estava praticamente deserto.

Depois de estacionar minha bicicleta ao lado do centro cultural, segui pelo calçadão em direção ao lago. Uma longa ponte atravessava sua parte central e, pelo que ouvi dizer, tinha mais de cem metros de comprimento.

O ponto de encontro era justamente naquela ponte. Por que ela havia feito questão de me chamar para um lugar daqueles? Mesmo que o item em questão fosse um livro BL, ela poderia simplesmente devolvê-lo na sala do clube ou atrás do prédio da escola.

Embora estivéssemos falando da Tiara-san, eu não achava que ela pretendesse tirar minha vida... certo? Ao sair do calçadão, uma enorme extensão de água se abriu diante dos meus olhos. A longa ponte, cujo pilar exibia a inscrição "Ponte Oike", alargava-se ligeiramente perto da margem oposta.

Havia até um banco ali. Forçando a vista, consegui distinguir alguém sentado nele. Um arrepio percorreu meu corpo quando o vento oeste atravessou a superfície do lago. Eu não conseguia imaginar ninguém além de Tiara-san saindo naquele frio.

Respirei fundo e comecei a atravessar a ponte. A garota ao longe usava um casaco e um cachecol vermelho sobre o uniforme. Será que ela já tinha me visto? Ela se levantava e sentava repetidamente, demonstrando inquietação.

À medida que sua figura ficava maior diante dos meus olhos, até eu comecei a ficar nervoso.

Hoje era Natal.

Chamar alguém do sexo oposto para um lugar deserto num dia desses… Se aquilo fosse uma comédia romântica, algum grande acontecimento seria inevitável. Normalmente, pelo menos. Quando finalmente me aproximei, Tiara-san curvou a cabeça como se estivesse esperando impacientemente.

— Muito obrigada por ter vindo até aqui.

— Não me importo, mas por que me chamou para um lugar como este?

Perguntei, fingindo naturalidade. Tiara-san olhou ao redor com uma expressão triunfante.

— Não existe lugar melhor do que este quando se quer conversar longe dos olhares alheios e sem o menor risco de alguém ouvir algo que não deveria, certo?

O local podia ser visto de qualquer ponto ao redor do lago, mas era verdade que, daquela distância, ninguém conseguiria distinguir quem estava falando nem sobre o quê. Afinal, o lago era do tamanho de três Nagoya Domes.

— Entendo isso, mas uma sala de karaokê ou algo parecido não teria servido?

— E quem foi que trouxe uma garota sem permissão da última vez?

— Aquilo foi a Yakishio agindo por conta própria... sim, desculpe.

...É, essa era a Tiara-san de sempre. Enquanto pensava nisso, Tiara-san ergueu o olhar e me encarou.

— Então, Nukumizu-san. O que foi aquilo no ginásio?

— Hã? Aquilo o quê...?

Não me diga que ela ouviu minha conversa com Konuki-sensei.

— Estou falando do que aconteceu com a Shikiya-senpai! Independentemente de vocês irem namorar ou não, por que a conversa acabou tomando aquele rumo!?

— Eu também não sei. Quer dizer, estamos falando da Shikiya-san.

— Bem... isso realmente é verdade.

Tiara-san aceitou minha desculpa desesperada com facilidade. Foi mais fácil do que imaginei.

— Deixando isso de lado. Já que me chamou até aqui, posso assumir que cumpri minha promessa?

— Sim. Embora, para ser sincera, eu não estivesse esperando por isso.

Essa garota realmente era grosseira.

— Como veterana da Tsukinoki-san, eu só queria que você compartilhasse o problema delas. Então, honestamente, nunca imaginei que aquelas duas realmente se reconciliariam. Sou grata por isso, mas...

Tiara-san começou a mexer inquieta nas mãos e abaixou o olhar.

— Aconteceu alguma coisa?

— Tenho a impressão de que o senso de distância da Shikiya-senpai em relação a mim ficou absurdamente próximo. Não aconteceu nada estranho ontem à noite, aconteceu?

— Se está falando do tipo de coisa com que você parece preocupada, acho que está tudo bem, Tiara-san.

— E que tipo de preocupação você acha que eu tenho? Além disso, por favor, não me chame pelo primeiro nome.

Com uma expressão descontente, Tiara-san estendeu um saco de papel com as duas mãos.

— Eu disse que devolveria o livro, não disse? Eu cumpro minhas promessas.

— Hum... isso aqui é...?

Era volumoso demais para conter apenas um doujinshi. Confuso, peguei a sacola e encontrei um pacote embrulhado em papel vermelho.

— Mas tem outra coisa aí dentro além do doujinshi — Desviando o olhar, Tiara-san murmurou baixinho. — Isso é para você….

...Por quê?

Engoli as palavras que estavam prestes a escapar. Antes de eu sair de casa naquela manhã, Kaju havia me dado uma verdadeira aula sobre as "Regras para Receber Presentes". Jamais imaginei que teria a oportunidade de colocá-las em prática tão cedo. Hum... se eu me lembrava corretamente, a primeira regra era...

— Uau, fico muito feliz. Tem certeza de que posso aceitar isso?

...Demonstrar alegria enquanto expressava surpresa. Essa era a prioridade máxima.

— S-Sim. Ficarei em apuros se criar expectativas exageradas, mas é algo dentro do orçamento de um estudante do ensino médio.

— Não, sério. Estou muito feliz. Posso abrir?

— E-Eu não me importo particularmente.

...Continuar demonstrando felicidade enquanto mostrava interesse pelo conteúdo. Só depois vinha a parte de abrir o presente. E o importante era abrir com cuidado. Segundo Kaju, rasgar a embalagem sem cerimônia era um comportamento travesso permitido apenas para meninos do ensino fundamental.

— Hum, o que era mesmo para eu fazer depois disso?

Tiara-san me lançou um olhar desconfiado quando murmurei aquilo sem querer.

— Com licença? O que exatamente quer dizer com isso?

— Ah, não é nada. ...Ah.

Dentro do pacote havia um cachecol verde.

— Hã? Tem certeza de que posso ficar com isso? É realmente bonito.

Quando deixei escapar meus pensamentos sinceros, Tiara-san, cujo rosto estava vermelho até as orelhas, começou a falar rapidamente enquanto mantinha os olhos baixos.

— C-Como eu disse, isto é estritamente um símbolo de gratidão! Usei o salário mínimo da província de Aichi como referência, calculei o valor correspondente ao seu trabalho e este foi o resultado!

Ao que parecia, eu mantinha uma relação empregatícia com Tiara-san.

— Então não acabou ficando bem caro?

— Bem... isso... hum... eu descontei a parte referente à "experiência gratificante", então não precisa se preocupar!

Então eu estava sendo explorado por paixão sem sequer perceber.

— Nesse caso, aceitarei com gratidão.

Segundo os ensinamentos de Kaju, ao receber uma peça de roupa, eu deveria… Enrolei o cachecol em volta do pescoço e sorri para Tiara-san.

— É muito quentinho. Obrigado.

— H-Hein!? S-Sim! Hum... porque ele contém lã!

Tiara-san estava estranhamente agitada. Eu tinha feito exatamente como fui instruído. Será que errei alguma coisa...? Enquanto observava Tiara-san com certa apreensão, percebi que ela também usava um cachecol vermelho.

— Pensando bem, Basori-san, o seu cachecol é uma versão de outra cor deste aqui?

— F-Foi apenas coincidência! A loja Apita só vendia esse modelo de cachecol!

— Não estou reclamando nem nada. Eu também gosto da cor verde.

— B-Bom... fico feliz em ouvir isso...

Tiara-san pareceu finalmente se acalmar. Já estava na hora de encerrar aquilo. Então, se minha memória não falhava, a frase final era...

— Muito obrigado. Sempre que eu olhar para este cachecol, vou me lembrar de você, Tiara-san. Vou guardá-lo com carinho.

...Perfeito. Com isso, eu havia executado o método de Kaju para receber presentes de maneira impecável. Enquanto eu relaxava os ombros, aliviado com meu desempenho, o rosto de Tiara-san ficou tão vermelho que parecia prestes a soltar vapor.

E ela tremia da cabeça aos pés.

— Com licença? — Murmurando quase inaudivelmente, Tiara-san falou sem levantar a cabeça. — Não se empolgue demais.

— Desculpe?

— N-Não se empolgue demais!

Tiara-san ergueu o rosto e me encarou com os olhos marejados, pressionando o dedo contra meu peito.

— Escute aqui! Isto é apenas um símbolo de gratidão! Só aconteceu de estarmos na época do Natal, então a embalagem acabou ficando assim!

...Espera. Por que ela estava brava? Como eu imaginava, a técnica da Kaju era avançada demais para mim. Eu deveria ter praticado primeiro com a Komari...

— Tudo bem, tudo bem, eu entendi. Então se acalme.

— Não, você não entendeu nada! Esta é uma ótima oportunidade. Precisamos ter uma longa conversa sobre a reabilitação do Clube de Literatura...

Hã? Espera, ainda tinha mais assunto? Enquanto eu era empurrado contra o corrimão da ponte pelo ímpeto dela, uma melodia suave chegou aos meus ouvidos.

— Ah, meu celular está tocando. Posso atender?

Não sabia quem era, mas aquela pessoa tinha acabado de me salvar. Virando as costas para Tiara-san, tirei o celular do bolso. O nome do meu salvador exibido na tela era...

Anna Yanami.

...Talvez eu não tivesse sido salvo coisa nenhuma. Yanami deveria estar bem no meio da festa de Natal. Para ser sincero, eu só tinha um péssimo pressentimento sobre aquilo. Quando apertei o botão para atender, ouvi uma música de karaokê e as risadas de vários garotos e garotas.

— Alô?

Nenhuma resposta. Ao fundo, aplausos e gritos de animação serviam como trilha sonora. Tudo bem, posso desligar, certo? Quando estava prestes a encerrar a chamada...

— Me ajuda….

Um sussurro sombrio de Yanami misturou-se ao barulho.

— Hã? Hum, Yanami-san?

Bip. Bip. Bip. Bip. Hã? A ligação caiu. Ela morreu? Enquanto rezava pela alma de Yanami, virei-me novamente para Tiara-san.

— Hum... aconteceu alguma coisa?

— Bem, não é nada tão sério...

Como se interrompesse minhas palavras, meu celular começou a emitir vários sons de notificação em sequência. Ao olhar de relance para a tela, vi mensagens surgindo uma após a outra.

A remetente era Yanami. Ela estava viva.

"Você não vem para a festa de Natal?"

"Está super divertida."

"E apareça logo."

Não. Eu não cairia nessa. Não havia absolutamente nenhuma chance de aquilo terminar bem. Enquanto eu fechava meu coração para aquelas mensagens, novos ataques chegaram.

"Onde você está?"

Viu só? No fim das contas eu realmente cairia numa armadilha. Mas, se eu não fosse, provavelmente teria problemas depois...

— Desculpe, Basori-san. Fui convocado para a confraternização da turma, então preciso ir logo.

— Ah, entendo. Desculpe por tê-lo chamado tão de repente.

Balancei a cabeça para Tiara-san, cujo ímpeto havia desaparecido de repente.

— Eu é que devo me desculpar. Muito obrigado pelo cachecol!

Olhei deliberadamente para o relógio e saí dali às pressas.

*

Muita coisa aconteceu, mas consegui recuperar o doujinshi em segurança. Com isso, eu poderia aproveitar minhas férias de inverno sem preocupações. Depois de descer da ponte e retornar ao calçadão, confirmei que não havia ninguém por perto antes de espiar dentro da sacola.

Lá dentro estava o exemplar artesanal da revista. Aquela aparência ameaçadora, coberta por uma quantidade absurda de post-its, não deixava dúvidas: era o doujinshi BL de pessoas reais da Tsukinoki-senpai.

Quando o peguei, percebi que os post-its estavam repletos de comentários escritos em letras minúsculas. Por que ela devolveu isso sem remover nada...? Folheando o livro, encontrei inúmeras ilustrações. E elas eram realmente boas.

Se eu sou o seme, então este aqui sou eu...

Hahaha...

Isso era incrível...

Ops.

Agora não era hora de ficar lendo aquilo com calma. Enviei rapidamente uma mensagem pelo LINE para Tsukinoki-senpai informando que havia recuperado o livro. Kaju provavelmente já estava preparando a comemoração do meu aniversário em casa. Assim que verificasse a situação de Yanami, precisaria voltar correndo.

Se me lembrava corretamente, no ano anterior ela tinha preparado simulados para mim por causa dos exames de admissão. Resolvi as questões junto com Kaju, e a lembrança de vencer por uma margem apertada e preservar a dignidade de irmão mais velho ainda estava fresca na minha mente.

Pensando que também deveria entrar em contato com Kaju, tirei o celular do bolso. Nesse exato momento, o toque começou a tocar.

Na tela apareceu o nome:

Koto Tsukinoki.

Resposta rápida. Mas será que ela estava estudando para os vestibulares direito?

— Alô? O que aconteceu?

— Como assim "o que aconteceu"? Então você realmente fez aquilo ontem, não foi?

Ela foi direto ao assunto. Sorri e afastei o celular do rosto.

— Sim, eu fiz. Posso desligar agora?

— Estou brincando. Obrigada.

Compartilhamos uma breve risada e então retomamos a conversa.

— Desculpe. Achei que não era da minha conta. Mas, como acabei arrastando aquelas duas do conselho estudantil para a história, não tive escolha.

— Naturalmente. Eu tenho muitos pedidos de desculpas para fazer também, mas vou relevar seu caso amoroso com Shintaro, então que tal ficarmos quites?

— O Tamaki-senpai ficou seriamente deprimido ontem, sabia? Vá consolá-lo depois.

— Ara, eu já o consolei bastante. Afinal, as noites de inverno são longas.

— Ouvir você se gabando da sua vida amorosa custa uma taxa extra, sabia?

Ao que parecia, aqueles veteranos ficariam bem. Passei por uma mulher passeando com seu cachorro e fiquei em silêncio por um momento. Senpai, que também havia se calado para acompanhar meu ritmo, voltou a falar em voz baixa.

— Nukumizu-kun, muito obrigada. Desta vez eu realmente refleti sobre minhas ações.

— Sim. Estou contando com isso.

— Fique tranquilo. Eu realmente refleti com sinceridade. Refleti do fundo do coração. Tanto que reescrevi aquele romance e adicionei a Shikiya ao elenco de personagens. Vou enviar para você mais tarde.

— Senpai, você não refletiu absolutamente nada, refletiu?

Baixei a guarda. Mas estávamos falando da Koto Tsukinoki. Suspirei e estava prestes a desligar quando a voz apressada dela continuou.

— Espere! Eu realmente refleti. A partir de agora não vou mais usar mídia física, e também pensei em impedir a disseminação colocando senha. Aliás, a senha são os últimos quatro dígitos do nome do arquivo.

— Vá estudar para os vestibulares. O que pretende fazer se só o seu namorado entrar na universidade? Aquele cara vai acabar descobrindo o quanto é popular, sabia?

— Vou me esforçar nos estudos.

Ainda bem que ela entendeu. Desliguei o telefone e me espreguicei longamente. Agora então… Que tal ir até onde Yanami estava? Ter coragem de cair numa armadilha...

Era isso que se chamava orgulho masculino.

*

Relatório do Clube de Literatura — Edição Secreta

"Professores e Alunos São o Sabor do Mel" Por Koto Tsukinoki

A Academia Real de Magia Xarvit.

Uma das instituições de ensino mais prestigiadas de todo o continente. Dois homens caminhavam pela longa estrada de pedra que levava ao enorme prédio da escola. Um deles usava roupas japonesas e vestia um hakama.

De tempos em tempos, olhava ao redor com inquietação, claramente desconfortável. Sua mão esfregava constantemente a barba por fazer em seu rosto.

— Ei, Mishima-kun. Nós realmente vamos entrar? Não ouviu dizer que existe um demônio aqui que devora pessoas?

— Você foi expulso da Vila dos Elfos. Não tem para onde ir, tem?

Já cansado daquela conversa, o outro homem — vestido com um uniforme militar cáqui — respondeu como alguém que já havia repetido aquilo inúmeras vezes.

— Você fala isso, mas pessoas reencarnadas não deveriam receber pelo menos os direitos mínimos para viver? Banimento não é uma punição cruel demais?

— De que direitos você está falando depois de se jogar nos braços de uma mulher elfa? Você deveria agradecer só por ainda estar vivo.

Diante do argumento irrefutável de Mishima, Dazai pareceu abalado, mas rebateu como uma criança.

— Mas, cara, foi a primeira vez que ouvi dizer que elfos não se afogam. O único que quase morreu fui eu. Parece até que fui enganado.

— Afinal, eles são parentes dos espíritos. O fato de você ter sido salvo já foi um bônus, Dazai-san.

Mishima soltou um suspiro exagerado e acelerou o passo com suas botas militares. O velho mau hábito de Dazai-san havia se manifestado novamente. Era a única conclusão a que Mishima podia chegar. Quando estava perto de uma mulher, aquele homem se tornava completamente inútil.

Foi exatamente por isso que Mishima também abandonou sua vida despreocupada de aventureiro para acompanhá-lo. Quando parou e ergueu os olhos, viu duas altas torres se estendendo em direção ao céu. Por intermédio de Kawabata, Dazai e Mishima se tornariam professores naquela instituição.

Dazai observou o prédio da escola com uma expressão cansada.

— Esta escola é bem sofisticada. Será que a cantina serve bebida alcoólica?

— Você ainda está falando esse tipo de coisa? Se continuar se comportando mal, vão acabar jogando você para os wyverns, então tome cuidado.

— Não me ameace. Ainda assim, faz tempo que só vejo homens por aqui.

Dazai franziu a testa e olhou ao redor. No mundo da magia, talento era tudo. Diziam que, desde que alguém possuísse poder, não havia barreiras entre homens e mulheres. Apesar disso, apenas garotos usavam o uniforme daquela escola.

— Esta é uma escola exclusivamente masculina. Não existem alunas aqui.

Dizendo isso casualmente, Mishima aproximou-se de uma pequena estátua de um diabrete ao lado do caminho de pedra. Quando ergueu uma carta lacrada retirada do bolso do peito, a estátua estremeceu e começou a se mover.

— Ei, isso é perigoso….

Dazai recuou antes mesmo de terminar a frase. A estátua ambulante pegou a carta com a boca e levantou voo, batendo suas asas de pedra.

— Muito bem. Agora é só esperar até que nosso guia chegue.

Mishima bateu as mãos uma na outra como quem acabara de terminar uma tarefa e voltou-se para Dazai, que ainda parecia assustado. Ao longe, ouviu-se o rugido de uma fera, semelhante ao som de um enorme gongo sendo golpeado. Dazai empalideceu ao olhar na direção do som.

— Espera aí. Aquela história de virar comida de wyvern era brincadeira, não era?

— Infelizmente, nunca conheci ninguém que tenha sido devorado. Bem, basta não causar problemas.

Sem conseguir discernir se Mishima estava falando sério ou brincando, Dazai apenas assentiu em silêncio.

*

A sala do conselho estudantil ficava no último andar da academia. Diante de sua ampla janela, dois estudantes observavam o exterior. O presidente do conselho estudantil, Hibari Hokobaru.

Alto e esguio, possuía olhos límpidos tão cruéis quanto os rumores diziam. Ao seu lado estava uma beleza fria capaz de congelar qualquer um que a contemplasse.

— Aqueles são os novos professores? De onde vieram esses reencarnados com roupas tão estranhas?

Hokobaru perguntou ao rapaz ao seu lado.

— Ambos são do... Japão... da Era Showa...

Quem respondeu em voz baixa foi o secretário do conselho estudantil, Yumeji Shikiya. Quando inclinou a cabeça levemente, sua franja suavemente ondulada caiu sobre o rosto.

— Japão de novo, hein? Era Showa... que época estranha.

Os dois reencarnados podiam ser vistos pela janela. O homem com uma espada de um só fio presa à cintura vestia roupas não muito diferentes das deles. O outro usava uma vestimenta de frente sobreposta presa por uma faixa, lembrando as roupas de uma tribo oriental.

Enquanto observava os dois, Hokobaru teve a sensação de que os olhos assustados daquele homem de aparência oriental estavam voltados para ele.

Não.

Isso não deveria ser possível.

A sala do conselho estudantil estava protegida por uma magia de ocultação. Era impossível entrar ou enxergar o interior a partir de fora.

Desde o dia em que fora manipulado por aquele homem, ele vinha se preocupando demais. Os dedos frios e delicados de Shikiya envolveram a mão do presidente, que esboçava um sorriso amargo.

— Pare com isso. Hoje devemos dar as boas-vindas aos professores primeiro. Precisamos gravar as regras desta academia em seus corpos, não é?

Aquilo devia ser apenas mais uma de suas provocações habituais. Pensando assim, Hokobaru sorriu. Mas seu corpo enrijeceu instantaneamente. A fórmula mágica que surgiu nos olhos pálidos de Shikiya era...

"Restrição".

O sorriso de Hokobaru congelou.

— S-Shikiya... o que significa isso...?

Sem responder, Shikiya apenas apertou com mais força a mão que segurava. Hokobaru conseguiu afastá-la com dificuldade, mas não conseguiu desviar o olhar daqueles olhos pálidos. Foi então que o som de palmas ecoou do outro lado da sala.

— Como esperado do presidente. Conseguir se mover mesmo sob o feitiço do Shikiya-senpai.

— Essa voz... Nukumizu...?

A magia de ocultação lançada naquela sala era uma das Doze Formas da Magia Perfeita transmitidas pela academia. Não havia como alguém entrar sem que ele percebesse. Com apenas uma exceção. Ser convidado por alguém que estivesse dentro.

— Uma festa de boas-vindas para os professores? Por favor, permitam-me participar também.

Nukumizu atravessou silenciosamente o grosso carpete e passou um braço pela cintura de Hokobaru.

— Nukumizu, seu desgraçado! O que pensa que está fazendo, roubando minha liberdade com truques tão covardes...?!

— Ora, o feitiço de contenção do Shikiya-senpai já deveria ter sido desfeito. Se está sendo segurado por mim agora, é por sua própria vontade, presidente... Assim como naquele dia.

— Naquele dia foi você quem me forçou!

Nukumizu segurou o queixo de Hokobaru e ergueu seu rosto à força.

— Ah, presidente... essa expressão. Mostre-me mais dela.

Shikiya, que observava silenciosamente atrás deles, estalou os dedos. As paredes pulsaram. Videiras de rosas brotaram delas e se enrolaram nos quatro membros do presidente.

— O quê!? Shikiya, você...!

— Por favor, não culpe o senpai. Ele apenas deseja ver a mesma paisagem que você, presidente. Estou apenas realizando esse modesto desejo.

Shikiya aproximou o rosto do presidente imóvel até quase encostar seus lábios nos dele.

— Presidente... eu estou com você... então...

As videiras de rosas apertaram o corpo de Hokobaru enquanto ele lutava para se libertar, arrancando um gemido de seus lábios.

— Tsc! Nukumizu, você acha mesmo que sairá impune depois de fazer algo assim!?

— Mas você está ansioso por isso, não está? Não me parece que esse tremor seja apenas medo.

Estendendo a mão até o peito de Hokobaru, Nukumizu arrancou brutalmente os botões de sua camisa. Um sorriso cruel surgiu em seu rosto.

Muito antes de qualquer outra pessoa, uma festa de boas-vindas — ou melhor, um banquete — apenas entre os estudantes estava prestes a começar…

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui

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Fim da leitura

Capítulo 40 concluído

Volume 4 – Capítulo 4 – Capítulo 4: Prólogo de um Garoto de 16 Anos