Vejo Você Quando a Neve CairVOLUME ÚNICO – Capítulo 14
Capítulo 14Miyazono agarrou minha manga. Ela não soltava. Vi que ela estava ponderando algo em sua mente.
Obedecer ao cliente ou dar uma desculpa diplomática? Quais são as chances da desculpa funcionar? Quais são as chances de isso ofendê-lo? O quanto ele queria conversar? Valia a pena resistir?
Mas, acima de tudo:
Quais eram os riscos de enviar o funcionário menos experiente para o campo de batalha?
Miyazono soltou minha manga. Enviar o funcionário menos experiente (e o único recém-contratado) para o campo de batalha não era uma decisão sensata. Mas Miyazono deve ter chegado à conclusão de que desobedecer à insistência na voz do homem era uma linha que ela não queria cruzar.
Miyazono foi para a cozinha e eu fui lutar sozinho.
— Senhor, sinto muito pelo que aconteceu há pouco.
Ele apoiou o cotovelo na mesa e colocou o queixo na palma da mão. Por um momento, o homem não disse nada. Seus olhos estavam fixos em mim, me examinando, me sondando.
O que diabos eu devo fazer agora?
Olhei furtivamente para a cozinha. Não podia pedir ajuda a Miyazono. Fazer aquele arroz com enguia do zero levaria pelo menos trinta minutos. Estava por minha conta.
— Você não é daqui, é? — perguntou o homem.
— Como você sabe disso?
— Qual é o seu nome?
— Yamato Satoshi.
O homem olhou para mim sem expressão alguma.
Ele disse:
— É fácil perceber que você não é daqui. É a sua aparência: seu cabelo, sua pele, suas roupas, aquele brilho nos seus olhos. Você é um garoto da cidade.
Eu não sabia bem o que dizer, mas ele continuou à dizer.
— As crianças que crescem por aqui têm uma aparência diferente. Elas sonham com a cidade, mas só vão lá de viagem uma ou duas vezes na vida. Parecem mais duronas, um pouco mais rudes.
Sim, ele definitivamente está me insultando. Será que foi porque eu o flagrei com seu amante?
Mas ele era o cliente e, portanto, eu tive que ficar calado.
— Crianças da cidade e do campo realmente têm uma aparência diferente. As crianças do interior parecem mais inocentes porque não sabem como a vida na cidade pode ser impiedosa. Acho que você é mais inteligente. Acho que é porque as escolas em Tóquio são melhores. As cidades também são mais competitivas, então há mais pressão para estudar. Mas crianças como ela, que ficam no interior... elas permanecem puras. A menos que realmente queiram ir para a cidade para perseguir seus sonhos. E então, geralmente, seus sonhos são destruídos. Isso me faz pensar: em todos os meus anos esquiando, nunca vi um garoto da cidade como você vir para o interior trabalhar. Por que você está aqui?
Evitei o contato visual. Ele estava fazendo uma pergunta pessoal, o que os clientes às vezes fazem. É natural. Mas ele ainda é um cliente.
O quanto devo contar a ele?
— Fui enviado para cá para ajudar minha tia durante as férias de inverno. — respondi.
— Você não precisa estudar? Quero dizer, para os exames de admissão à universidade?
— Não vou entrar na Todai, mas vou ficar bem.
Eu tinha notas um pouco acima da média, com uma consistência inabalável. Mas não contei isso a ele.
Miyazono voltou com duas bandejas carregadas com duas grandes tigelas de arroz com enguia. Uma em cada mão. Suas mãos não tremiam. Ela era mais forte do que parecia.
Não tinham se passado nem quinze minutos. Ela deve ter se movido como o vento dentro da cozinha.
— Obrigado, vou levar isso para o quarto. — disse o homem.
— Senhor, elas são bem pesadas. Eu as levo até o seu quarto. — disse Miyazono.
— Pelo menos deixe-me levar uma. Eu me sentiria mal por deixar uma garota carregar algo tão pesado sozinha.
Ele pegou uma bandeja dela e os dois saíram da sala de jantar. Ele olhou para trás, na minha direção.
— Ah, certo, esqueça o que você viu hoje.
Eu acenei com a cabeça em concordância.
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