Vejo Você Quando a Neve CairVOLUME ÚNICO – Capítulo 15
Capítulo 15Esse encontro tenso com o hóspede não diminuiu nem um pouco a curiosidade de Miyazono. Na verdade, foi mais como jogar querosene em uma fogueira acesa.
Acontece que o homem com quem me deparei se chamava Takeshi-alguma-coisa. Esqueci a parte final do nome dele. Miyazono disse que ele estava hospedado por um longo período.
O que ele tá procurando nessas montanhas? Ele não tem um emprego?
Lembro-me de meu pai dizer que, mesmo que você tenha férias da empresa, é difícil sair de férias porque fica preocupado com o trabalho se acumulando no escritório. Então, como diabos esse cara tem tempo e dinheiro para isso?
Vou deixar para Miyazono descobrir...
Mais tarde, Miyazono me contou que a garota que estava com ele era, de fato, uma estudante universitária. Ela trabalhava meio período na empresa e se apaixonou pelo chefe.
Perguntei como ela tinha descoberto, e Miyazono disse que, quando levou as bandejas para o quarto, o homem (Takeshi-alguma-coisa) recebeu uma ligação e foi até o corredor para atender. Ela ficou cara a cara com a garota no quarto e puxou conversa.
Simples assim…
Miyazono tinha dezesseis anos e conseguia conversar com tanta facilidade com um adulto de vinte e poucos anos e extrair esse tipo de informação pessoal dele em apenas alguns minutos.
Acho que, se há algo que ela quer saber, nada a detém.
Gostaria de poder pedir a Miyazono para usar sua inteligência para desvendar a morte de Yuki. Mas eu também era bastante esperto, então descobri uma maneira de levar a investigação adiante.
Se eu partisse do princípio de que havia um assassinato, então haveria provas. Eu só precisava perguntar se havia algum caso de assassinatos relatados ou de uma garota que tivesse desaparecido repentinamente no passado. Certamente haveria uma reportagem no jornal local sobre isso. Em um lugar pequeno como este, um assassinato seria a maior notícia da década.
Não consegui ver Yuki nos dias seguintes porque a tia Reiko me manteve ocupado e colocou Miyazono diretamente responsável por mim.
Esfregamos o chão juntos, limpamos os banhos e a cozinha. Tudo o que podia ser limpo, nós limpamos. Isso me fez pensar para onde tinha ido todo o pessoal fixo. Era alta temporada e, de repente, o Hana no Sato estava contando principalmente com dois funcionários temporários.
Certa tarde, tínhamos terminado de limpar o banheiro do andar de baixo e era a vez de limpar o saguão, mas Miyazono não subiu. Em vez disso, sentou-se nos bancos ao lado das máquinas de venda automática que ficavam do lado de fora dos banhos internos. Lá, os hóspedes podiam sentar-se e desfrutar de uma bebida após o banho quente, antes de voltarem para o quarto. Era um dos pequenos e sutis confortos de um ryokan.
Perguntei a Miyazono por que não íamos para o andar de cima.
— O saguão está tão limpo quanto possível. Só precisamos passar o aspirador e reorganizar os chinelos. Podemos nos dar ao luxo de fazer uma pequena pausa aqui embaixo.
O que era estranho. Miyazono nunca desobedecia às instruções da tia Reiko daquela maneira. Miyazono disse:
— O banheiro não vai precisar de muita limpeza na próxima semana.
— Por quê?
— Eu dei uma olhada no livro de contas. Na próxima semana, teremos uma onda de turistas estrangeiros. E os turistas estrangeiros geralmente se sentem desconfortáveis em ficar nus na frente de estranhos e usar um banho compartilhado.
— Acho que é porque isso geralmente só é feito no Japão.
— Você sabe por que temos isso no Japão?
— Nunca pensei nisso.
— No passado, quando os senhores da guerra queriam conversar com o inimigo, precisavam de uma maneira de garantir que nenhuma das partes tivesse armas. A única maneira de garantir isso era fazer com que todos tomassem banho juntos completamente nus. Não dá para esconder armas se você não estiver vestindo nada.
— Deve ter havido um cara que tentou enfiar uma faca no traseiro antes de ir tomar banho — eu disse.
Miyazono ficou me encarando por um momento e depois caiu na gargalhada.
— Sério, Yamato-kun, você é o único capaz de dizer algo assim com uma cara séria.
Ela tirou uma pequena bolsa de moedas.
— Escolha algo na máquina de venda automática, por minha conta. Não é como se a tia Reiko estivesse te pagando muito.
— Ela não me paga nada.
— Exatamente.
Dei-lhe um sorriso envergonhado, levantei-me e olhei para a máquina de venda automática.
Já tinha dado chá com leite e chocolate quente para a Yuki. Tinha uma lata de suco de laranja na reserva. Havia mais cerca de dez bebidas na máquina de venda automática.
— Vou levar o café com leite. — eu disse.
Ela comprou duas latas de café com leite. Uma para mim e outra para ela. Nós nos sentamos. O zumbido da máquina de venda automática preenchia o silêncio. Ao nosso lado havia algumas pias e espelhos que os hóspedes podiam usar para verificar o cabelo e a maquiagem. Tudo estava limpo e no lugar certo. Não toquei na minha bebida. Em vez disso, perguntei a Miyazono:
— Existem lendas ou histórias de terror nesta vila? Tipo... assassinatos, por exemplo.
— Por que você pergunta? Você encontrou um cadáver na floresta?
— Não, mas às vezes me pergunto... Toda vila tem seus próprios mitos, lendas e histórias de terror. Fico imaginando o que esta vila pode estar escondendo.
Miyazono me lançou um olhar.
— Isso tem alguma coisa a ver com suas idas à floresta?
Silêncio. Por fim, Miyazono disse:
— Mesmo que você encontre um cadáver, é melhor não falar nada sobre isso.
— Por quê?
— Os chineses tinham um ditado antigamente: as montanhas são altas e o imperador está longe.
— O que você quer dizer?
— Aqui nas montanhas, o povo do campo lida com os incidentes por conta própria. Pode-se dizer que eles têm seu próprio sistema de justi-
Alguém estava descendo as escadas. Miyazono terminou sua bebida. Ela disse:
— Vamos voltar ao trabalho.
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