Vejo Você Quando a Neve CairVOLUME ÚNICO – Capítulo 47
Capítulo 47Depois de um café da manhã rápido com torrada e um rolinho de ovo, subimos na motoneta dela.
Miyazono dirigia como uma louca. Acelerador todo aberto, com um olho fechado enquanto bocejava. Passei meus braços ao redor da cintura dela e me segurei como se minha vida dependesse disso.
Chegamos à estação e quase caí no chão quando desci da moto. Miyazono me olhou com curiosidade.
— Você nunca andou de motoneta antes?
— Já andei… mas o jeito que você dirige é insano.
— Hmmmm… mas todo mundo dirige assim, não?
— Não…
— Mas se não tem ninguém na estrada, não faz sentido ir um pouco mais rápido?
…
Compramos as passagens e entramos no trem de apenas um vagão. Tínhamos o vagão inteiro só para nós.
— Nunca andei num trem de um vagão só — comentei.
— Sério? É o único tipo de trem que eu vejo por aqui.
— Os trens de Tóquio são bem mais longos e sempre lotados.
— Heee… queria poder ir pra Tóquio.
— Se você for, posso te mostrar a cidade.
— Sério?
— Claro. Eu te devo uma mesmo.
— Ehh? Me deve pelo quê?
— Sem você, a tia Reiko poderia ter me enterrado na neve.
— Hmm, é verdade. Você teria morrido tantas vezes sem mim~
De alguma forma, ela parecia feliz ao dizer isso.
O trem parou em Sakusa e descemos. Segui Miyazono para fora da estação e acabamos num espaço aberto em frente a ela.
— Você sabe onde fica a redação do Kimiyama Times? — perguntei.
— Achei que você soubesse?
Ficamos em silêncio por um momento.
— Vou pesquisar — disse, pegando o celular.
— Espera.
— O quê?
— Antes de irmos atrás dos seus jornais, vamos fazer compras primeiro.
Ela apontou para o shopping AEON do outro lado da rua. Tinha uma roda-gigante no telhado. Eu já tinha visto rodas-gigantes em shoppings em fotos, mas era a primeira vez que via uma ao vivo.
Concordei, mesmo querendo ir direto para a redação do jornal. Ela tinha me dado comida e abrigo, então o mínimo que eu podia fazer era atender ao pedido dela.
Entramos no shopping e ficamos andando. Era um shopping de subúrbio comum. Não era tão chique quanto os de Tóquio, mas servia bem aos moradores locais.
Enquanto caminhávamos, Miyazono me lançou um olhar de lado.
— Yamato-kun, quando foi a última vez que você comprou roupas novas?
— Não tenho certeza… talvez há um ano?
Eu usava o uniforme da escola quase o tempo todo e não saía muito nos fins de semana, então não precisava de muitas roupas. Além disso, se vestir bem era caro para um estudante do ensino médio.
Ela suspirou.
— É por isso que a economia do Japão está em recessão.
— Hã? Por quê?
Ela apontou para mim.
— Suas contribuições para a economia estão atrasadas.
— Mas eu trabalho meio período.
— Não basta só ganhar dinheiro. Você precisa gastar também. O consumo ostensivo é a espinha dorsal da economia!
— Certo…
Ela me arrastou para algumas lojas e me fez experimentar várias roupas. Tive que admitir que as combinações que ela montava ficavam boas, então acabei comprando algumas. Nesse ponto, eu podia gastar um pouco mais, já que tinha chegado em Sakusa. Só precisava garantir que sobraria dinheiro suficiente para voltar a Tóquio.
Depois, Miyazono me levou para o terraço e entramos na roda-gigante.
O interior da cabine era tão pequeno que nossos joelhos quase se tocavam quando sentamos de frente um para o outro. Miyazono encostou na janela e ficou olhando a cidade.
— Quando eu era criança, essa roda-gigante parecia a maior coisa do mundo, e a vista se estendia até o fim do horizonte. Mas agora, tudo parece menor.
— Todo mundo cresce um dia.
Ela me olhou.
— Você cresceu?
— A tia Reiko me colocou em forma.
— Mais como ela quase te matou de tanto trabalhar e eu te trouxe de volta à vida.
Ela sorriu.
Concordei.
Ela olhou novamente pela janela.
— Essa é a única roda-gigante em que já entrei. Passei a vida inteira aqui. Nunca nem fui para Tóquio. Às vezes me pergunto se vou ficar aqui para sempre, nesse cantinho do Japão.
— Algumas pessoas viajam o mundo depois que terminam o ensino médio. — falei — Talvez você possa fazer o mesmo.
— Vou para Tóquio primeiro antes de pensar no resto do mundo.
Ela olhou para mim e sorriu, mas era um sorriso triste. Senti que havia algo que ela queria dizer, palavras que pairavam dentro daquela pequena cabine, mas que permaneciam em silêncio.
Lá embaixo, Sakusa seguia seu ritmo. Carros indo e vindo, ônibus chegando ao terminal, pessoas vivendo suas vidas.
Descemos da roda-gigante e Miyazono disse:
— É melhor encontrarmos a redação do Kimiyama Times.
Comentários do capítulo 47
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.