Vejo Você Quando a Neve CairVOLUME ÚNICO – Capítulo 46
Capítulo 46Saí da estação e caminhei por uma estrada vazia cercada de arrozais. Ao longe, ouvia-se de vez em quando o som de um carro passando pela via principal.
Esse lugar realmente ficava no meio do nada. Era ainda mais rural que a vila da tia Reiko. Não era à toa que Miyazono queria sair daqui.
Depois de um tempo, cheguei a um aglomerado de casas que ladeavam a estrada. Os telhados eram verde-escuros e havia um silêncio absoluto ao redor das construções, mesmo sabendo que havia pessoas morando ali. Entre as casas, encontrei um ponto de ônibus com uma velha loja de doces ao lado.
Olhei o horário do ônibus. Passava um a cada hora.
…
Entrei na dagashiya. Vendia sorvete, bebidas, doces e batatas fritas. Não sabia que lojas assim ainda existiam; achava que tinham desaparecido numa era passada e sido substituídas por lojas de conveniência.
— Oh, bem-vindo.
Uma senhora idosa estava atrás do balcão. Usava um lenço na cabeça e vestia um simples quimono azul-escuro.
— Olá.
Peguei uma garrafa de água e um sorvete.
— São duzentos ienes.
— Duzentos —
— Sim, jovem?
— Nada não.
Eu ia dizer que estava bem barato. Preços assim não existiam em Tóquio.
Paguei pela água e pelo sorvete.
— Receio que o último ônibus do dia já tenha saído — disse a senhora.
— Ah…
— Quer que eu chame um táxi?
— Na verdade, vim visitar alguém, mas não sei onde ela mora.
— Oh, qual é o nome dela? Talvez eu conheça.
— Miyazono… Haruka.
Era a primeira vez que falava o primeiro nome dela. Soou um pouco estranho.
— Miyazono Haruka… ah, Haruka-chan! Claro que conheço. Você é namorado dela?
— Não, sou só um… amigo que trabalhou com ela no emprego de meio período no inverno. Eu estava indo para Sakusa e decidi descer em Odori para visitá-la.
— Hmm… achei que tinha visto Haruka-chan andando com um garoto. Tinha certeza de que eles estavam de mãos dadas, mas meus olhos já não são o que eram antes.
De mãos dadas com um garoto? Miyazono arrumou namorado? De alguma forma, era difícil imaginá-la num relacionamento romântico.
— Onde ela mora?
— Logo ali na rua, depois dessas casas. Procure a casa grande à direita.
— Entendido, muito obrigado.
Fiz uma reverência e saí da loja.
Caminhei pela rua e continuei andando, mas por mais que procurasse, não havia nenhuma casa grande à direita. Só havia grama e arrozais dos dois lados da estrada. Se não tivesse cuidado, poderia acabar tendo uma insolação com esse calor.
Finalmente, meia hora depois, encontrei uma casa grande do lado direito.
Toquei a campainha e ninguém atendeu.
Droga…
Eu estava sem água e levaria mais de meia hora para voltar andando até a estação.
Eu deveria ter ficado no trem e continuado direto para Sakusa.
De repente, ouvi o som de um motor. Virei-me e vi uma garota numa motoneta parando.
— Yamato-kun? O que você está fazendo aqui?
Ela tirou o capacete.
— Miyazono!
Soltei um suspiro de alívio.
Expliquei a ela que tinha vindo para a região de Nagano, estava hospedado no ryokan da tia Reiko e estava a caminho de Sakusa quando decidi descer em Odori para visitá-la.
— Você veio me visitar? Deveria ter me avisado!
— Não tenho seu LINE.
— Ah, verdade. Nunca trocamos contatos.
Miyazono desceu da motoneta e me convidou para entrar.
A casa tinha tanto quartos de estilo ocidental quanto japonês. Nos fundos havia um jardim e um galpão de ferramentas.
— Meus pais estão viajando com amigos, então sou só eu aqui.
Em outras palavras, estávamos sozinhos.
— Você parece faminto. Só tenho sobras, se não se importar.
— Muito obrigado. Estou morrendo de fome.
— Nossa, não precisa ser tão formal.
Dez minutos depois, eu estava olhando para uma montanha de arroz com curry.
Miyazono sentou-se à minha frente, com os cotovelos na mesa e o queixo apoiado na mão. Ficou me observando comer. Olhei para ela. Estava bem bronzeada.
— É bem estranho você aparecer do nada. — disse ela.
— É?
— Hm! Pelo que você falou no inverno passado, achei que fosse ficar em Tóquio para sempre.
Acho que realmente passei essa impressão. Tia Reiko também ficou surpresa ao me ver.
— Você está encharcado de suor. Quer tomar um banho? — perguntou Miyazono.
Balancei a cabeça.
— Não vou ficar muito tempo. Preciso chegar em Sakusa.
— Por quê?
Contei a ela sobre o Kimiyama Times em Sakusa e que estava atrás de alguns jornais.
Ela disse:
— Hoje é domingo. Os escritórios estão fechados. E aposto que você não reservou hotel.
— Bom… acho que não…
— Você não quer ficar perdido por aí, né? O que vai fazer? Dormir num cyber café?
— Não planejei tão longe.
— Que tal ficar na minha casa?
Será que isso era realmente ok? Ter outro garoto dormindo na casa dela enquanto os pais estavam fora e ela tinha namorado era meio…
— Tem certeza? — perguntei.
— Uhum! — Ela apontou para o relógio na parede. — Você acabou de perder o último trem mesmo.
Em outras palavras: eu estou preso aqui.
Olhei para ela. Uma vez ouvi que garotas ficam mais bonitas quando arrumam namorado.
Ou era o contrário? Ficam mais bonitas quando estão solteiras? Miyazono parecia diferente do inverno passado?
Ela inclinou a cabeça.
— O que foi? Tem alguma coisa no meu rosto?
— Nada.
Ela me deu uma toalha, shorts e uma camiseta e mandou eu tomar banho.
— Vocês garotos sempre ficam cheirando no verão!
— Desculpa…
Eu cheirava tão mal assim?
Sempre achei que me alimentava bem o suficiente para evitar o cheiro de velho,na verdade, eu nem era velho. Cheirei a mim mesmo.
Não, acho que estou normal…
Miyazono riu e deu um tapa no meu ombro.
— Estou brincando! Brincando! Só estava te provocando. Comparado ao meu pai, você não cheira nada.
Depois do banho, fiquei andando pela casa vazia procurando Miyazono. Acabei encontrando ela trabalhando no jardim dos fundos. Havia uma pequena horta com couves-flores crescendo, pés de tomate subindo em direção ao céu, até uma fileira de morangos.
Sentei no chão e fiquei observando ela trabalhar.
Inevitavelmente, meus olhos acabaram pousando nas pernas dela. Ela se virou e acenou. Acenei de volta.
— Quer me ajudar? — perguntou.
— Não.
— Termino em um minuto. — Ela pegou uma mangueira e regou sua pequena plantação.
Um minuto depois, ela sentou ao meu lado na varanda.
— Vou pegar uma bebida pra você. — falei.
— É só olhar na geladeira.
Levantei, fui até a cozinha e peguei uma bebida bem gelada. Miyazono agradeceu e deu um longo gole de Pocari Sweat.
— Você plantou tudo isso? — perguntei, apontando para a horta.
— Fiquei entediada no verão, então decidi fazer alguma coisa.
— Agora entendo um pouco por que você queria trabalhar com a tia Reiko. — comentei.
— Hã? Como assim?
— Realmente não tem muita coisa pra fazer por aqui.
— Nééé? Aposto que você não acreditou em mim quando contei isso no inverno. Quer dizer, esse lugar é bonito. Pessoas da cidade vêm pra cá só pra respirar o ar. Mas pra quem mora aqui, é muito chato.
— Notei que nem tem loja de conveniência por aqui. E o ônibus passa só uma vez por hora.
— Ônibus? Ah, então você deve ter encontrado a vovó.
— A senhora da loja de doces é sua avó?
— Não, não. Todo mundo só chama ela assim.
— Entendi.
— Quer ver uma coisa incrível?
— Claro.
Nós nos levantamos e ela me levou até a sala. Mostrou uma televisão gigantesca.
— Esse é o último modelo da Sony Bravia — disse ela. — Até convenci meu pai a fazer upgrade pra conexão 5G pra eu poder assistir filmes em 4K.
— …
— Fala alguma coisa, Yamato-kun! Não é legal?
Havia um brilho nos olhos dela.
— Não é um pouco exagerado?
— E daí? O cinema mais próximo fica a mais de quarenta minutos. Melhor ficar em casa assistindo filmes.
— Hmm, faz sentido.
Depois, Miyazono colheu alguns legumes da horta e fez o jantar. Quando terminamos de comer e lavar a louça, sentamos para assistir a um filme.
— Você disse que visitou a tia Reiko? — perguntou Miyazono.
— Sim.
— Como ela está?
— Acho que ela deve estar um pouco solitária, já que quase não tem ninguém lá no verão. Acho que ela quer visitar a irmã, minha mãe, em Tóquio. Mas como é a dona, não pode deixar o ryokan.
— Hmm…
Ela me olhou de lado.
— Ouvi dizer que você visitou a tia Reiko com alguns amigos.
Ergui uma sobrancelha.
— Como você sabe disso?
Ela deu de ombros.
— Tenho meus meios.
Não disse nada, e ela esperou. Ela devia ter algum contato com tia Reiko. Senão não teria como saber.
— Sim, vim com uns amigos. Mas eles já voltaram para Tóquio.
Ela me olhou e apertou os lábios. Parecia que queria perguntar mais alguma coisa, mas estava hesitando.
— Vamos assistir ao filme. — disse ela, ligando a TV.
Passamos a noite toda assistindo filmes. Aprendi que Miyazono estava certa. Ter uma televisão gigantesca com conexão 5G era realmente incrível. Até filmes de super-heróis comuns ficavam mais interessantes numa tela tão grande. Era quase como estar no cinema.
No final, acabamos dormindo no sofá, espalhados, sem cobertor, como um bando de crianças.
Quando acordei de manhã, a cabeça de Miyazono estava descansando na minha barriga.
Movimentei a cabeça dela com cuidado. Ela se mexeu e abriu um olho.
— Bom dia. Você pode continuar dormindo. Vou me trocar e ir embora.
— Você vai para Sakusa?
— Sim.
Ela se sentou e esfregou os olhos.
— Você pode continuar dormindo. — repeti.
— Eu vou com você.
— Não quero te dar trabalho.
— Não é trabalho nenhum. A menos que você prefira ir sozinho?
Pensei por um momento e balancei a cabeça.
— Companhia é sempre bem-vinda.
— Ótimo.
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