Verme (Parahumanos #1) Novel — Capítulo 212: CAPÍTULO 212 - Chapter 212: Scourge 19.7

Verme (Parahumanos #1) Novel
Cap. 212
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Verme (Parahumanos #1) Novel

CAPÍTULO 212 - Chapter 212: Scourge 19.7

Capítulo 212

6.228 palavras~27 min de leitura

Os heróis assumiram posições e abriram fogo contra Echidna. A diferença entre isto e as batalhas anteriores era notável. Pequena, mas perceptível. Os capes não se comunicavam e o trabalho em equipe vinha falhando por causa disso. Capes como a garota do relâmpago vermelho e o Historiador estavam lutando para encontrar pessoas com quem usar seus poderes.

Não queria que mais ninguém corresse ou voasse de cabeça para a linha da teia, então reuni meus insetos mais inofensivos e inúteis em um aglomerado espesso ao redor de cada pedaço de linha, até que cada fio parecesse uma barra preta de meio pé de largura.

Clockblocker apareceu ao meu lado. Estava em boa forma de combate, embora não parecesse com isso, com seu traje danificado.

“Tem algo que eu possa fazer?” ele perguntou. “Mais alguma coisa preparada?”

Eu balancei a cabeça. “Ela dissolve a linha se ela tocar sua pele, e o ritmo da luta está muito frenético. Alguém acabaria se machucando.”

“Entendi,” ele disse.

Ele não se moveu de onde estava. Passou um minuto enquanto Echidna era bombardeada. Ela ainda não tinha atingido sua força máxima, não podia clonar muitos capes e parecia hesitante em avançar ou fazer movimentos bruscos, com a possibilidade de haver mais linha.

“Por que você não me contou?” Clockblocker perguntou.

“Que eu tinha algo em mente?” perguntei. “Acho que uma parte de mim achava que, se você descobrisse o que eu estava fazendo, não teria congelado a arma.”

“Isso não é justo. Acho que não te dei motivos para pensar que sou vingativo assim.”

“Não realmente,” admiti. “Talvez eu não quisesse que ela percebesse sua estratégia ou fizesse algo que Eidolon pudesse notar. Não tenho certeza do porquê, não completamente.”

“Então você não está realmente fazendo nada que esses caras lá fora não estejam. Quando tudo se resume, você é suspeito de nós, assim como somos de vocês.”

“Talvez,” admiti. “É… muita coisa pra assimilar. O que você faz a partir de agora?”

“Não sei,” disse Clockblocker.

Uma série de círculos concêntricos verdes neon explodiu para fora de um ponto no céu acima, ondulando até desaparecer além de cada horizonte. Eidolon tinha enfrentado uma clonagem de Alexandria, e tudo que ele tinha feito parecia ter acabado com ela. Resta uma.

Echidna vomitou uma massa de clones, e eu acrescentava meus insetos ao fogo de artifício que os heróis lançavam contra ela.

Alguns escaparam do perímetro frouxo que os heróis haviam estabelecido e foram rapidamente abatidos a tiros.

“Acho que a Tattletale te contou os detalhes do meu poder?” ele perguntou.

“Como assim?”

“O alcance? Surpreende-me você saber que funcionaria através de peças interligadas. Apesar de, eu mal saber se poderia empurrar tão longe. Acho que isso faz desse um dos raros dias em que meu poder está funcionando na máxima eficiência? Mas você, de alguma forma, sabia que isso acontecería?”

Olhei por cima do ombro para Tattletale. Ela estava saindo da van e era acompanhada por Faultline, Labirinto e quatro membros dos Viajantes: Sundancer, Ballistic, Genesis na cadeira de rodas e um garoto loiro que se parecia, mas não exatamente, com Oliver na aparência. Tattletale trocava palavras com Regent. Recebendo uma atualização?

“Você não está respondendo,” observou Clockblocker.

“Não tenho certeza do que você quer que eu diga.”

“Sim, Clockblocker,” ele acrescentou com uma nota de voz de falsete, inclinando um pulso a um ângulo de noventa graus enquanto levantava a mão para a boca, “Claro que sabemos mais sobre como seus poderes funcionam do que você. Como mais poderíamos vencê-lo tantas vezes?”

Ele deu uma risada fingida de uma mulher da alta sociedade, uma risada que era falada tanto quanto pronunciada. Uma cape próxima, que reconheci como Astrologa da equipe de Nova York, lançou um olhar sujo para nós, antes de voltar a convocar projéteis do céu.

“Eu não tenho esse jeito,” comentei, tentando não parecer tão irritado quanto realmente estava.

“Achei que combinava mais com uma das senhoras do crime de Brockton Bay,” disse ele.

Fiquei um pouco assustado ao ver esse lado de Clockblocker, ou mais que ele estava mostrando isso pra mim. Era humor como mecanismo de enfrentamento? Ou tentativa de humor como mecanismo de enfrentamento, pra ser mais preciso? Acho que sim, vindo do cara que escolheu Clockblocker como nome de capa. Mas deixar que eu veja qualquer coisa além do duro defensor da paz era algo diferente. Uma demonstração de confiança, abaixar um pouco a guarda?

Ou talvez fosse apenas um mecanismo de enfrentamento, e ele tinha um monte de coisa pra lidar. Há uma hora atrás, ele provavelmente achava que tinha todo um futuro planejado, uma carreira na Wards que transitaria para uma no Protetorado, com fundos, fama e todas as vantagens e papéis que pudesse precisar para esconder sua verdadeira identidade. Agora ninguém tinha ideia de como isso terminaria.

Outra explosão de círculos no céu. A segunda Alexandria-clone estava fora de combate. Legend e Eidolon desceram na direção de Echidna, mantendo uma distância mais segura.

Qualquer coisa que Eidolon estivesse usando contra os clones, levando em consideração a área coberta e o fato de estar aparentemente tirando Alexandria de ação, sugeria um tipo de ataque que não podia ser usado perto do chão, pois poderia nivelar bairros inteiros da cidade.

Tattletale alcançou-me. Os outros de sua comitiva ficaram para trás.

“Foi você duas?” ela perguntou. Apontou para Echidna, cujo corpo tinha lados esquerdo e direito que não batiam perfeitamente.

“Sim,” respondi.

“Percebe que, se você fizer sacrifício dramático, o Grue não vai conseguir suportar? Ele depende de você como muleta por enquanto. Não pode simplesmente tirar-lhe isso no meio do caminho.”

“Ele é mais forte do que você está dizendo,” murmurei. Olhei para Clockblocker, bem consciente de que ele estava ouvindo. Tattletale também estava, o que indicava que ela tentava comunicar algo. “Podemos terminar essa conversa em outro lugar?”

“Que tal eu te deixar sozinho?” ofereceu Clockblocker. “Eu queria estar disponível caso você queira repetir a manobra, mas você acha que não dá mais pra fazer isso.”

“Não exatamente,” admiti. “Mas obrigado.”

“Me avise se precisar de mim,” respondeu.

A Alexandria segurava uma viga de ferro carbonizada pelo fogo, recolhida de um prédio próximo que havia caído. Ela não voava, mas andava à diante, confiando no tamanho e na presença da viga para abrir caminho entre os capes ali presentes.

Com as costas retas, o queixo erguido, enquanto seus subordinados a observavam. Seu traje preto, felizmente, escondia as manchas e as marcas mais evidentes do vômito do Noelle.

Ela balançou a viga na direção de Echidna como quem bate um taco de baseball, e Echidna foi jogada ao chão e bateu de cara numa parede de um prédio. A viga não se curvou como o semáforo tinha feito. Era uma peça de metal feita pra ajudar a sustentar edifícios.

Echidna abriu uma boca, sem dúvida para vomitar, e Alexandria virou o ferro, empurrando uma ponta para dentro da boca aberta e passando por ela, a outra ponta atravessando o estômago da criatura.

Antes que Echidna pudesse reagir ou revidar, Alexandria voou direto para cima, juntando-se a Legend e Eidolon.

Como ataque, não foi uma mudança de jogo. Mais alguma coisa? Um símbolo? Um gesto para nós?

Echidna rugiu, avançou, só para bater em um campo de força. O campo se quebrou e ela parou na hora, a viga cravada ainda mais fundo nela.

Fazer uma previsão de força máxima seria mentira. Muitos estavam feridos demais. Ainda assim, conseguimos prendê-la. Eu via Noelle no lombo de Echidna, inclinando a cabeça para me olhar. Por algum sinal ou conhecimento compartilhado, Echidna obedecia à recomendação de Noelle, evitando movimentos bruscos, suportando cada ataque ao invés de correr de cabeça na teia de seda congelada.

Com justiça, ela ainda tinha uma leve vantagem. Nenhum dos nossos ataques estava realmente desacelerando ela. Ela se curava mais rápido do que conseguíamos feri-la, e nossa lado estava ficando cansado, gastando recursos. Não estávamos tendo baixas, mas também não estávamos vencendo a luta.

Com nossa desorganização atual, era só questão de tempo até ela gerar outro clone capaz de virar o jogo.

“Precisamos acabar com ela,” eu disse.

“Sundancer provavelmente conseguiria, mas precisaria ser convencida. Labirinto vai montar uma estrutura enquanto esperamos pelo Scrub,” respondeu Tattletale.

“Onde está ele?”

“É perigoso ter ele andando de carro. Colocamos em outro, e ele detonou o motor. Montamos um trenó e ele deve chegar em breve, dependendo de quantas vezes precisarem parar para trocar a corrente,” ela explicou.

“Ele vai abrir a porta?”

“Abrir é provavelmente a palavra errada.”

“Qual é a palavra certa?”

“Diria que é mais como usar um aríete do que uma maçaneta.”

“Com dimensões,” eu acrescentei.

“Por meio de dimensões. Derrubar a porta, não a casa toda.”

“Não vejo a diferença entre as duas,” critiquei. “Quem diz que uma área é uma coisa ou outra?”

“Isso,” disse Tattletale, “é missão do Labirinto.”

Vi o Labirinto, com Faultline ao lado, aparentemente orientando o procedimento. Arcos e altas paredes surgiam como ondas, encaixando-se umas às outras conforme se encontravam. Parecia uma igreja, mesmo que em diâmetro de apenas quatro passos.

“Você acha que será mais fácil para o Scrub atravessar.”

“Tenho certeza,” afirmou Tattletale.

“Como você atravessa até o lugar certo?”

“Isso, disse ela, “é algo que vamos ter que confiar na sorte e em uma hipótese fundamentada.”

“Não é muito tranquilizador,” comentei. “O que está acontecendo? Estou preocupado. Quase foi atingido duas vezes? Provocando a Tríplice? Gastando quanto for preciso para trazer Faultline pra cidade, depois do prejuízo financeiro de tentar o golpe do soldado contra o Coil? E agora isso? O buraco dimensional?”

“É assim que eu opero.”

“Sim, já fui imprudente antes, levei um golpe do Jack, provoquei a Glory Girl. Mas isso está demais, elevando o nível a um décimo primeiro.”

“No fim, saímos por cima em ambas as ocasiões.”

“Não era necessário. Existiam outras maneiras de lidar com esses momentos.”

“Não tanto quanto você pensa,” respondeu Tattletale.

Echidna rugiu novamente, cada boca emitindo um som diferente, somando-se num ruído dissonante que fez quase todo mundo conter a respiração. Weld rasgou seu caminho para longe de seu lado, com dois capes na mão.

Ainda havia cinco reféns dentro, notei. Vi Weld subir de volta e cair no chão. Ele não voltou para buscar mais.

Tattletale me puxou pelo braço e nos conduziu de volta, afastando-nos da luta, para onde teríamos mais privacidade para conversar. Usei meus insetos para guiar alguns capes às linhas de trás em direção a clones que tinham voado para um beco. Era estranho, atuar numa perseguição a alta velocidade enquanto permanecíamos parados, mas os capes estavam se aproximando do alvo mesmo assim.

“Estou apenas procurando respostas,” disse a ela. “Esse buraco dimensional, provocar os heróis, gastar um bocado de dinheiro que tenho certeza que vocês não têm. Eu... consigo entender que vocês possam estar se sentindo um pouco perdidos, sem foco. Talvez isso soe como imprudência. Eu também estou assim. A gente derrotou o Coil, e tanto do que fizemos nos últimos tempos foi com esse objetivo. Então, entendo se você não souber exatamente para onde ir agora.”

“Mas você conversou com os heróis e teve isso pra te ajudar a se descobrir, entender sua posição,” disse Tattletale. “Eu não.”

“Só isso? Você precisa falar com alguém?”

“Não. Não é exatamente isso,” ela suspirou. “Sim. Meio que. É só parte do que estou tentando. Quem diabos vou procurar que entenda as coisas do jeito que eu entendo? Você realmente acha que vou procurar um terapeuta e sentar pra ser desmontada mais rápido do que ele consegue me decifrar?”

“Você poderia falar comigo,” sugeri.

“Não quando você é parte do problema, aquilo que eu precisaria superar.”

“Isso não é justo,” avisei.

“Não, não é,” ela admitiu.

Echidna vomitou uma enxurrada de clones na linha de defesa. A reação foi só um pouco mais lenta do que deveria. As equipes ainda não estavam operando como equipes. Legend e Eidolon ofereciam fogo de apoio de cima, mas estavam distantes, de uma maneira bem diferente de Tattletale e eu.

“Não é você,” disse Tattletale. “É mais a ver com minha relação com você.”

“Não é o momento de você declarar seu amor eterno por mim, é?”

Ela deu uma risada curta. “Não.”

“Então, o que é? Ou vai ser mais uma secreto que você guarda?”

“Todos os bons segredos estão sendo descobertos de qualquer maneira, ou pelo menos foi o que Regent disse. Eu imaginava que fossem, pra registro. Uma das razões de eu ter me comportado como eu me comportei foi pra deixar a gente numa boa posição, caso as coisas boas aparecessem.”

“Não tenho certeza se acredito nisso,” disse eu.

“Você não precisa. Foi só uma parte. E eu entendo se uma explicação mais aprofundada for devida, mas preciso colocar isso na minha cabeça, entender até o ponto de conseguir compartilhar sem que saia errado.”

“Seu evento gatilho?” perguntei.

“É parte disso. Mas podemos deixar isso pra depois, quando rasgarmos um buraco na realidade e pararmos o pseudo-Endobringer?”

“Só me diga que isso não é mais uma hipótese fundamentada.”

“Não é. Exceto pela parte de que talvez possamos encontrar o universo certo.”

“Quando você diz que não é uma hipótese fundamentada, é porque tem certeza ou porque é uma hipótese não-fundamentada?”

“Eu estou em grande parte certo.”

Ela segurou minha mão e me puxou na direção da van que trouxe. A igreja do Labirinto tinha se expandido bastante, e Scrub tinha se mantido muito calado, mantendo a distância, junto com Gregor, Newter, Shamrock e Spitfire. Pareciam um pouco machucados, com queimaduras, escoriações e bandagens. A Tattletale tinha tirado eles de algum serviço?

“Ei, F,” ela disse, sorrindo.

Faultline não retribuiu o sorriso. “Você sabe que, se não recebemos nosso pagamento, vou te localizar, te espancar até deixar você às mãos das autoridades, e te deixar amarrado pra todo mundo buscar?”

“Você vai receber seu pagamento assim que eu tiver acesso a um computador que a Shatterbird não tenha destruído,” Tattletale respondeu. “De boa.”

“Tenho sérias dúvidas,” Faultline disse. Ela olhou para Echidna, “Mas posso analisar essa situação, e entendo se aqui há uma certa urgência. Como funciona isso?”

“Muito simples,” Tattletale explicou. “Primeiro, precisamos fazer a estrutura do Labirinto ficar segura. Depois, eu te mostro.”

Faultline lançou um olhar para ela, depois correu até o lado do Labirinto, desviando de uma parede que surgia do chão para se encaixar na estrutura maior. O solo ao redor da torre semelhante a uma igreja tinha mudado, com uma decoração ornamental que parecia com flores artificiais. As pétalas eram folheado de ouro, os caules do metal preto-cinza, ferro. Os espinhos, notei, eram reais, como agulhas, saindo do chão. Um terreno perigoso pra pisar.

Enquanto Faultline conduzia o Labirinto para longe do perigo, coloquei uma mão no ombro de Tattletale para chamar sua atenção. “Tem certeza?”

“Tenho uma teoria. Com as pistas sobre os passageiros que recebemos há pouco tempo, sobre os poderes, como as coisas funcionam, estou tendo a percepção do quadro maior. Acho que poderia passar uma década pensando nisso, mas o básico? Acho que há muitos poderes que são muito mais versáteis do que o seu portador imagina, porque eles nunca têm oportunidade de usá-los ao máximo.”

Acima de nós, Legend finalizava um ataque de um cape, abrindo uma ferida no lado da Noelle. Grace pulou na direção da parada do laser, pegou um cape exposto pelo ataque do Legend e conseguiu se libertar, levando o cape junto com ela.

Outro cape exalou uma nuvem de vapor que poderia ser ácido, na direção da Noelle, aparentemente para retardar a cicatrização da ferida. Mas pouco mudou.

“Baseado no quê?” perguntei a Tattletale.

“Tudo faz parte de um todo,” ela respondeu, distraída. O foco dela estava nos outros. “Scrub! Chegue mais perto da torre! Todo mundo, recuem! Labirinto, não use mais seus poderes! Segure a onda!”

Cabeças se viraram. As pessoas sem dúvida perceberam a torre, mas agora algo estava acontecendo.

Scrub deu um passo adiante, e uma de suas explosões rasgou o ar. Outra apareceu logo depois, cruzando uma parte da rua alterada.

Como um gás no ar que foi aceso, tudo explodiu em um piscar de olhos. Num instante, virou um vazio branco, tão indefinido quanto a escuridão do Grue, perceptível pelas bordas, mas sem profundidade ou dimensão. Ele tinha deslocado toda a estrutura, assim como o que estivera alterado no chão, e nada voltou.

A porta tinha sido arrancada da moldura.

Para se ver, eu quase esperava uma rajada de vento enquanto o vazio do outro lado sugasse tudo, como um vácuo espacial. Mas só senti uma brisa enquanto o ar fluía para dentro.

Alexandria aterrissou ao nosso lado, com força suficiente para quase me fazer perder o equilíbrio. Todos os olhos que não estavam em Echidna estavam agora em nós.

“O que você fez?”

“Criei um buraco,” disse Tattletale.

“Parece. Você não perguntou? Não pensou nas consequências disso? Feche agora.”

“Quem disse que podemos fechar?” ela perguntou.

“Você é uma tola,” disse Alexandria. Ela colocou uma mão ao redor do pescoço de Tattletale. Poderia ter a matado com um aperto, mas não fez. Uma ameaça.

“Tenha cuidado,” rosnou um cape na periferia da cena. Não reconheci o homem. Vestia um traje laranja com garras de metal vermelhas. Alexandria se virou para olhar para ele, e ele acrescentou: “Nem há tanto tempo sua parceira nos chamou de todos idiotas.”

Ao fundo, Echidna berrou. Lutava feio na direção da multidão, mas as linhas de batalha estavam se firmando, agora. Nosso lado não tinha sido pego de surpresa desta vez, e os únicos capes ao alcance dela eram aqueles que ela não podia absorver. Os demais ficavam bem atrás.

Ela não era uma Endbringer, no final das contas. Seria impossível prender alguma delas assim, ganhar vantagem. Elas tinham outras ferramentas, formas de exercer pressão independentes de suas próprias habilidades. Behemoth gerava tempestades e radiação de fundo, Leviathan tinha as ondas, a Simurgh sua scream.

“Não foi ele,” disse Alexandria. “Não foi Eidolon que falou aquilo.”

“Quase lá,” disse a cape. “Deixe ela ir. Você não pode mandar em autoridade que não possui.”

“A partir de agora, eu ainda sou a Diretora Chefe do PRT, e sou a líder da equipe do Protetorado que supervisiona a maior cidade dos EUA. Isso não mudou. No fim do dia, enfrentarei as consequências, mas por ora, continuo no comando.”

“Sua autoridade não vale nada se eles não aceitarem,” disse Tattletale, encarando Alexandria nos olhos. “Me solte.”

“Não posso deixar que isso vá adiante.”

“Se você não percebeu,” ela disse, “não há mais onde ir. Já praticamente acabou. O que resta agora é descobrir se essa foi uma jogada útil que acabamos de fazer, ou uma realmente útil.”

“Útil?” perguntou Alexandria.

“No pior dos cenários, é um lugar onde podemos deixar Echidna. Um lugar onde ela não poderá ferir ninguém.”

“Ou?”

“Ou o Labirinto descobre que pode trabalhar com isso.”

O buraco ficou distorcido, cores se consolidando em formas. Vi Faultline ao lado do Labirinto, com os braços cruzados.

“O Labirinto… o shaker do doze,” disse Alexandria.

“Esse mesmo,” confirmou Tattletale. “Quer deixar ela passar a garganta?”

Alexandria soltou, mas deixou as mãos nos ombros de Tattletale. A ameaça implícita ainda estava lá, só não tão imediata.

“É profundo,” disse o Labirinto. Sua voz vinha como se fosse de longe. “Tem tanta coisa lá. Mundos que eu não criei.”

“Tudo partes de um todo,” murmurou Tattletale. “Certo, Labirinto. O mundo que procuramos não é muito profundo. Na verdade, está bem perto da superfície. Quando você empurrar para dentro dele, vai parecer mais fácil. Como um caminho que alguém já percorreu mais de uma vez.”

“Tem dois assim.”

Se não fosse pelos meus insetos, eu teria deixado passar. Alexandria reagiu, tencionando o corpo, uma leve retidão nas costas.

Logo atrás de nós, Echidna rugiu e se lançou contra a barreira de gelo e campos de força ao seu redor.

Olhei para Alexandria. “O quê?”

“Eu não disse nada,” ela respondeu. Suas mãos ainda estavam nos ombros de Tattletale.

Você não precisava, pensei. Mas não tinha ideia de como usar essa informação, e não queria distrair ninguém do assunto principal.

“Olhe,” disse Labirinto. “Um é assim…”

A imagem mudou. Eu não era o único que se virou para ver melhor pela janela. A paisagem do outro lado era diferente, as colinas verdes que eram Brockton Bay antes da colonização, as praias ao longe. Haviam casas, mas eram baixas e quadradas, meio cobertas pela vegetação.

Mais uma leve reação de Alexandria.

“…E aqui está o outro.”

Outra paisagem. Uma cidade, como Brockton Bay, com prédios diferentes. Integra, sem avarias. Parecia uma estrada secundária, pouco usada. Aparentemente, as ruas daquela Brockton Bay estavam em lugares diferentes.

“Terra Alfa,” disse Tattletale.

O mundo dos Viajantes?

“Você é louca?” perguntou Alexandria. “Tem sanções, tratados, truces. Se abrir esse buraco para Terra Alfa, pode desencadear uma guerra entre universos.”

“Se essa guerra fosse possível,” disse Tattletale, “Já teria acontecido. A possibilidade de um outro mundo cheio de recursos é grande demais pra deixar passar. Claro, nosso lado tem mais poder de fogo bruto, por uma centena de vezes, mas do lado deles também há bombas nucleares. É uma guerra de soma zero.”

“Você não entende no que está se metendo.”

“Entendo que acidentes acontecem, e todo mundo que escuta vai chamar essa abertura interuniversal de acidente, porque mantém as coisas pacíficas. Eu também entendo que isso mantém Brockton Bay na história. Qualquer outra circunstância, as pessoas vão continuar querendo destruir essa cidade, aceitar que é caro demais reconstruí-la, que a criminalidade manda nela. Eles vão criar uma montanha de projetos de lei até que as pessoas certas estejam no poder, os contatos certos sejam feitos, e Brockton Bay seja demolida e asfaltada.”

“Ainda pode acontecer,” disse um cape.

“Ah, claro, teoricamente,” concordou Tattletale. “Mas há basicamente duas opções aqui. Ou espalhamos a notícia, e toda uma subindústria explode ao redor dessa portinha, acessando e trocando informações entre mundos, pesquisas, um monte de outras coisas, uma cidade cheia de residentes que enfrentaram desastres atrás de desastres consegue trabalho, reconstrói suas casas, e acaba tendo uma segunda chance.”

“Ou fazemos segredo,” completei, “E não ganhamos nada disso.”

“Ou fazemos segredo,” concordou Tattletale. “Fazemos o que Alexandria quer, e tudo fica em segredo, do jeito que a grande organização malvada gosta.”

Vi os capes ao nosso redor prestando atenção. Dez, quinze, de cidades de toda a América e Canadá.

“Você não faz ideia do que está fazendo,” disse Alexandria.

“De ferrar com vocês?”

“Está colocando tudo em risco. Todos nós, este mundo. Mesmo se ignorarmos a chance de uma primeira guerra interdimensional—”

“Traidora!” alguém gritou do lado, cortando ela.

Alexandria virou a cabeça para tentar identificar quem tinha falado. Dei a impressão de que ela não estava acostumada a ser insultada. Mais capes se aproximaram. Miss Militia recuou, mas mantinha os olhos na placa onde Echidna estava presa. No lado oposto, Gregor a Caracol acompanhava Sundancer e Ballistic até a periferia da área.

“Não posso deixar de concordar com Alexandria,” disse Faultline. “Isso é imprudente.”

“Mais que um pouco,” concordou Tattletale. “Mas acho que você não ouviu a história toda. Só ouvi de segunda mão, e estive com vocês desde a hora que seu helicóptero chegou. Quando encontramos o Newter pela última vez, vocês estavam procurando pistas sobre a Cauldron. Ainda procuram?”

Faultline fez um gesto com os olhos, então olhou para Alexandria. “Por quê?”

“Nem dez minutos atrás, a versão malvada do Eidolon admitiu sua culpa plena. A Tríplice, grande parte do alto escalão do Protetorado. Sequestraram pessoas de outros universos, fizeram experiências com elas pra descobrir fórmulas que induzem poderes, deixaram elas aqui. Pode ajudar a entender por que todo mundo olha para Alexandria com desconfiança.”

Faultline olhou para Alexandria. “Foi fácil demais descobrir isso assim.”

“Não é a história completa,” disse Tattletale, “nem pela metade. Mas deve ajudar na sua decisão de se aliar ou não a ela.”

Faultline franziu o cenho. “Não... Talvez ela seja a responsável por trás dos panos. Está bem. Mas isso não muda o fato de que ela pode estar certa. Melhor deixar o Labirinto procurar outro universo pra conectar. Talvez um onde uma montanha bloqueie o outro lado do portal, se não conseguirmos fechar isso.”

“Por que você tem que ser tão racional?” perguntou Tattletale. “Isso é o pior dos dois mundos.”

“Não é guerra,” retrucou Faultline.

“Parou,” disse Chevalier. Pessoas se abriram para dar espaço a ele entrar na clareira. “Tem outras preocupações. O acordo que me foi explicado foi que os Viajantes fariam o possível para eliminar Echidna. Se não der, encontramos uma forma de movê-la através do lapso e deixá-la num lugar inóspito, onde ela não possa fazer mal. Essa é a nossa prioridade número um.”

Houve um murmúrio de concordância.

“Quer voltar pra casa, Sundancer? B-man?” perguntou Tattletale. “Genesis? Oliver?”

Ballistic, Genesis e Oliver olhavam para a abertura. Sundancer balançou a cabeça, negando.

“O quê?”

Sundancer falou, “Eu... não é mais minha casa, né? Eu não sou eu. Não posso voltar ao que era antes. Eu matei pessoas. Acidente, mas matei. Tenho poderes. Se for pra lá, não serei mais a Marissa. Serei... Sundancer. Ficarei famosa. Se alguém descobrir, ou se tiver uma imprensa que interliga os mundos, e eles ficarem sabendo…”

“Eles não precisam saber,” disse Tattletale.

“Eu não... não sei se consigo.”

Falei: “Tá falando em voltar pra casa, ou em matar a Noelle?”

“Ela... ela era minha melhor amiga.”

“Ela não é mais Noelle,” eu disse.

Sundancer balançou a cabeça.

“Vai,” disse Tattletale. “Ela não está feliz assim. Faz isso, e volta pra casa. Dá um abraço na sua mãe, inventa uma desculpa pra explicar por que desapareceu, e volta à vida normal. Nunca use seus poderes de novo, se quiser. Tenta convencer-se de que tudo isso nunca aconteceu.”

“Não é tão fácil assim.”

“Não. Mas é bem melhor do que ficar aqui, não é?” perguntou Tattletale.

“Ela é minha amiga.”

“Era,” eu disse. “Tem uma grande diferença.”

Sundancer olhou para o monte de gelo, rochas e campos de força. Echidna empurrava suas garras através das barreiras, apenas para serem reforçadas.

“Ela... ela tem alguém dentro dela?”

“Tem—” Tattletale começou. Antes que ela terminasse, tuquei um inseto na boca dela e desci pela garganta, fazendo ela engasgar.

“Não,” eu menti. “Tenho acompanhado com meus insetos. Weld e os outros tiraram todo mundo.”

Salvou o máximo possível. Se Weld tivesse desistido e ninguém mais tivesse conseguido libertar os poucos ainda presos, era isso.

Ninguém me corrigiu. Sabiam, mas não falaram nada.

Sundancer abaixou a cabeça. Começou a se aproximar de Echidna, com as mãos em concha na frente.

“Vá!” gritou Chevalier. “Saia do caminho!”

Capas começaram a recuar. Trabalhos finais de reparo foram jogados na pilha de rochas, gelo e força, antes de os capes se virarem e correrem.

Demorou alguns segundos até Sundancer formar o mini-sol. Quando fez isso, segurou-o sobre a cabeça, deixando-o crescer a cada segundo.

Tive que recuar enquanto o calor me atingia. Notei como o gelo começava a derreter, mesmo a cem passos de distância.

Echidna rugiu e tentou se lançar contra sua prisão temporária. Rochas e gelo derretido escorriam. Ela começou a escalar para se libertar, até que o topo do corpo ficou exposto. Capes abriram fogo à distância, rasgando seus braços anteriores, limitando sua mobilidade. Alexandria deixou Tattletale no chão, soltou sua capa e voou para ajudar a manter Echidna presa.

“Marissa!” berrou Echidna, sua voz gutural, saindo de cinco bocas diferentes. “Marte! É cedo demais! Quero matá-los! Quero matar todos! Matar este mundo! Destruir este universo que fez isso comigo! Ainda não, Marte!”

O sol voou pra frente, derretendo o pavimento enquanto se deslocava, até envolver Echidna, Alexandria e a prisão de gelo e pedra.

Ficou ali por quase um minuto, um zumbido ensurdecedor pelo calor, crepitações e estalos.

O sol faiscou e se apagou. Echidna não estava mais lá. Só partes de seus pés ainda tocavam o chão, ossos e garras carbonizadas de preto, se desfazendo e decayendo como qualquer parte dela faria ao se desconectar do núcleo que a alimentava.

Alexandria permanecia no meio de tudo isso, ofegante. Seu traje havia queimado, sobrando apenas as peças metálicas, incluindo capacete, cinto e roupa metálica, cada uma tão quente que derretia e escorria pela pele.

Mas Sundancer já virara de costas, sem vontade de ver aquilo. Ela puxou a máscara e a jogou de lado. Seus cabelos loiros caíam pelos ombros, cobrindo metade do rosto olhar para baixo.

Peça por peça, ela foi removendo seu traje, sem se importar em nada com a multidão observando. Cada pedaço descartado afundava na terra derretida ao seu redor ou soltava fumaça ao tocar nela. Quando terminou, só usava uma camisola e shorts de terry. O chão ainda brilhava e fumegava com o calor extremo enquanto ela se aproximava, ficando frio e sólido na sua passagem.

Entrou no portal sem dizer uma palavra, olhando ao redor, confusa. Caminhou mais alguns passos, passando pelo lado do portal como se fosse uma esquina, fora de vista.

Os demais Viajantes seguiram logo depois. Oliver e Genesis pareciam apenas pessoas comuns, sem traje ou forma monstruosa, respectivamente. Simplesmente atravessaram.

Ballistic hesitou por alguns segundos. “Trickster?”

“Já temos ele sob custódia. Vai para a Jaula das Pássaras,” disse Chevalier.

“Ótimo. Porque não o queremos,” respondeu Ballistic.

Ele passou pelo portal, ainda de traje.

“Você consegue fechar isso?” perguntou Faultline, quando Ballistic desapareceu de vista.

“Não, na verdade,” respondeu Labirinto. “Posso escolher outro mundo. Assim não há guerra. Ou faz como disse, acha um lugar onde uma montanha cobre o buraco.”

“Fique à vontade,” disse Tattletale, sorrindo. “Na verdade, isso até pode ser ainda mais útil. Imagina como Brockton Bay poderia ficar importante, se tivéssemos um mundo inteiro desabitado pra explorar recursos, e Brockton Bay fosse a entrada?”

Faultline franziu a testa. “Vocês nos usaram.”

“Eu contratei vocês. Não é minha culpa se não pediram dinheiro suficiente.”

Faultline colocou o braço nos ombros do Labirinto. “Você consegue achar um mundo sem pessoas?”

“Posso... sim. Tem um cheio de árvores. Estou procurando por todos os lados, não encontro ninguém. Nem do outro lado dos oceanos. Só animais.”

“Serve,” ela disse. Olhou para Tattletale. “Não para você. Só não quis deixar ela responsável por um Endobringer achar um mundo indefeso.”

“Muito obrigada, de qualquer forma,” respondeu Tattletale, sorrindo.

Faultline apenas fez uma expressão séria e conduziu o Labirinto para longe.

“Espere,” alguém chamou.

Weld, com o garoto de pele vermelha e Gully ao lado. Eles alcançaram a equipe de Faultline.

Se trocaram alguma palavra, não tive chance de ouvir. Não dava para esperar que os ‘monstros’ servissem ao Protetorado. Faultline era uma figura conhecida, alguém que, pelo que todos sabiam, sempre tratou bem as pessoas que agora começaram a parecer com as criadas na Cauldron.

Nem fazia ideia de pra onde eles iriam a partir dali, mas certamente teriam algo para conversar.

Eu tinha mencionado pra Tattletale que me sentia perdido, depois de deixar Dinah ir embora. Desligado, acho que foi a palavra que usei. Todos aqui agora se sentiam assim, de alguma forma. O futuro nunca foi tão incerto.

Vi Alexandria na beira do caminho, de costas, olhando na direção da Lisa.

“Posso subir?”

apontuei para a porta e ela seguiu meus movimentos enquanto ela passava por Charlotte e subia as escadas. Chegou ao balcão e saiu para pular na ponta da grade do lado oposto a mim.

“Eu controlo o terreno onde o buraco para o outro universo está,” disse Tattletale. “Ou, melhor, a inscrição falsa do Coil, e posso manipular isso pra que eu tenha controle sobre ele.”

Assenti. “A reunião? Decidiram?”

“Legend foi o primeiro a sair. Depois, Alexandria e Eidolon. Os heróis ainda estavam conversando quando saí.”

“Está bem,” respondi. Isso não dizia muito, não exatamente, mas era melhor que o outro cenário. Quanto mais tempo eles permanecessem na conversa, mais as emoções arrefeceriam.

De modo estranho, até torcia para que a Cauldron tivesse força suficiente pra silenciar algumas vozes irritadas. Só podia desejar que fossem poucas e suficientemente dispersas pra que a história não chegasse ao público.

“Rex,” disse Tattletale.

“Hm?”

“O nome dele era Reggie, mas ele entrou em esportes no ensino médio. Começaram chamando ele de Rex, até todo mundo usar o nome. Não quero ser ofensiva, mas vocês eram meio opostos em vários aspectos. Ele era um cara popular, encantador.”

“Seu namorado?”

Ela riu, uma risada curta. “Meu irmão.”

“Ah.”

“Minha família tinha bastante dinheiro, acho que já havia mencionado isso.”

“Sim.”

“Quando você é tão rico, tem pessoas trabalhando pra você fazendo tarefas domésticas e lidando com coisas que você normalmente faria com sua família, às vezes é difícil continuar sendo uma família, sabe?”

Na verdade não, pensei, mas assenti.

Ela me olhou estranhamente, mas não me chamou atenção por isso. “Chega uma hora que seu irmão mais velho, que era tão legal, só passa tempo com você porque é seu dever como irmão. E quando você percebe isso, dói. Parece uma ofensa. Acho que percebi isso mais ou menos na época do ensino médio. Parei de aceitar aquelas ‘ofertas de irmão’ como brincadeira. Éramos irmão e irmã, morávamos na mesma casa, estudávamos na mesma escola. Nossos caminhos se cruzavam, mas não interagíamos. Era como se fossemos estranhos. Ele era aquele que estava na abastada turma dos mais velhos, e eu me ressentia por isso.”

“Por não ser um irmão de verdade?”

Lisa deu de ombros. “Não sei. Mais por agir como um irmão do que por não ser de verdade. Por ser o garoto popular, o favorito, o herdeiro dos negócios da família.”

“O que aconteceu?”

“Comecei a perceber que ele tava em maus lençóis. Os sorrisos pareciam falsos, ele ficava mais bravo. Tinha algo guardado dentro dele.”

“O que era?”

Ela deu de ombros. “Pensei tanto nisso que acabei criando possibilidades. Minha cabeça viajava longe, perdendo o fio da meada. Mesmo com meus poderes, não consigo adivinhar.”

“E algo aconteceu?”

“Gradualmente, ele foi se afastando, mais e mais. Fingia mais sorrisos, ficava mais bravo, mais impetuoso. E até que um dia, se matou.”

Perto dali, algumas crianças gritavam e brincavam, uma atirando pellets de chocolate na outra. A vítima gritava de dor.

Meus insetos percorreram o garoto com os chocolates, e os dois pararam imóveis. Olharam ao redor, procurando, mas não conseguiam me ver. Então correram para um beco próximo, esqueceram a briga.

“Desculpe,” falei.

“Eu também,” suspirou Lisa. “Passei tanto tempo tentando entender, mas não consegui. Achava que o atleta era gay, mas não era isso. Era alguma outra coisa. Mencionei à minha família que tinha percebido algo, depois, e começaram a me culpar. Estavam de luto, mas isso não justifica, né?”

Assenti.

“Me chamaram de burra, de idiota,” ela desviou o olhar. “Foi demais, uma sensação de estar numa panela de pressão, onde tudo girava em volta dele, e sempre tinha aquela sensação, de que todo mundo sabia que eu sabia alguma coisa e não falei nada, não tentei ajudar. Acho que tive meu evento gatilho enquanto dormia, virando de um lado pro outro, sonhando com isso. Aí, de repente, acordo e começo a entender as coisas, com uma enxaqueca insuportável. Se eu tivesse descoberto antes que eram poderes, talvez fosse mais discreta, mas meu pai percebeu. Mudou tudo. Fingiu carinho, escondeu os sentimentos reais, tudo pra me fazer usar meus poderes em benefício da família.”

Ela deu de ombros. “Já via tanta coisa feia, mesmo antes de descobrir os poderes. Ver mais, perceber quando as pessoas estão fingindo, quando tudo ainda tá confuso por causa do suicídio do Rex? Era demais. Peguei mais dinheiro do que devia, e fugi.”

“E o Coil achou você.”

Ela assentiu. “E eu te achei também. Olhei pra você, e percebi o que estava acontecendo. Não demorou pra notar que você tinha aquela mesma aura do Rex. Talvez eu tenha feito o que pude pra te salvar porque não consegui salvar ele.”

“Mais cedo, você disse que não podia falar comigo porque eu era o problema.”

“Vi isso quando você puxou o gatilho, acabou com o Coil. Você salvou a Dinah, e descreveu como se sentia à deriva depois disso. Mas você encontrou uma nova motivação. Podia lutar contra a Echidna. Salvar a cidade. Eu? Quando você atirou no Coil, percebi que tinha acabado. Eu tinha ajudado você a sair da mesma armadilha de desespero que o Rex vivia. Não sei se o caminho que te ajudei a seguir foi bom ou ruim, mas eu tinha terminado.”

“Mas por que ser imprudente? Por que correr riscos?”

“Porque fiz o que tinha que fazer, ajudei você, e ainda me sinto aquela criança idiota, obcecada por ela, que deixou o irmão mais velho morrer. Não foi intencional, mas talvez eu ache que precise aumentar as apostas. Fazer algo dramático. Mostrar que, com esses capes tão inteligentes quanto Alexandria e Faultline por aí, ainda posso ser a pessoa mais inteligente da sala.”

“E você se acha a pessoa mais inteligente?” perguntei.

Ela olhou para a cidade ao longe. “Talvez — talvez quando o comércio interuniversal começar. Consegue imaginar? Com eu e você como os principais? O mundo todo vai nos prestar atenção.”

Desci do corrimão, rodeei o Atlas enquanto ia até Lisa. Envolvi meus braços nela, e ela retribuiu o abraço.

Enfiei meus papéis no aperto das mãos.

Fim da leitura

Capítulo 212 concluído

CAPÍTULO 212 - Chapter 212: Scourge 19.7