Verme (Parahumanos #1) NovelCAPÍTULO 253 - Chapter 253: Scarab 25.2
Capítulo 253“Desculpa… eu estou… tão…”
Ele não terminou a frase.
Eu pude sentir ele desacelerando, usando os insetos que eu havia plantado na roupa dele. Parei e esperei por ele.
“Tudo bem, Theo. Você está me ajudando.”
“Não parece,” ele disse. Ele se curvou, com as mãos nos joelhos.
Eu esperei ele recuperar o fôlego.
“Vou acabar enjoando,” acrescentou.
Eu dei um passo para trás. “A chance de correr, de qualquer jeito, já vale. Não são muitos que topam me encontrar às sete para correr, muito menos seis semanas seguidas. A Grace é atlética, mas enjoou rápido.”
Ele murmurou algo que não consegui entender.
“Como?”
“Eu não sou atlético.”
“Está melhorando. Acabamos de fazer duas quadras. Não é ruim. Mais ou menos pelo que eu tinha quando comecei.”
“Não acho justo contigo fazer sofrer por tanto que eu sou ruim.”
“Tudo bem. É bom sair um pouco. Dá trabalho ter que arranjar alguém pra vir comigo se eu quero sair sem motivo algum. Se eu não faço exercício aqui, uso a esteira na sede. Não se sinta obrigado, se não estiver gostando.”
“Não estou. É… é bom. Quero ficar em forma.”
“Então, nesse caso, não se preocupe. Ambos estamos ganhando,” eu disse.
Ele deu mais alguns passos antes de se curvar de novo, ainda respirando ofegante.
Senti um puxão de empatia, ao mesmo tempo em que tentava esconder um sorriso. “Vamos lá. Caminhamos uma quadra, depois tentamos correr outra, e o restante do caminho a gente caminha.”
Ele ainda estava respirando forte, mas concordou.
Por um momento, senti saudades de Brockton Bay. Não era a cidade mais bonita, nem a mais agitada. Nem a mais nada. Já tinha várias coisas acontecendo ao redor do portal, mas não era uma cidade com muito a seu favor, e nem antes de toda aquela série de eventos que devastaram a orla, criaram uma cratera d’água no canto noroeste do centro e deixaram uma faixa da cidade tão destruída por efeitos aleatórios e terrivelmente perigosos que precisou ser cercada por muralhas.
Talvez eu não tivesse sentido isso se não tivesse crescido lá, mas gostava do equilíbrio em Brockton Bay. A facilidade de ter tudo ao alcance, como shoppings, centros comerciais, cinemas. Era uma cidade grande o bastante. E ao mesmo tempo, tinha espaço suficiente para acordar cedo, quando nem todo mundo estava na rua, e ter Brockton Bay só pra mim.
Chicago não era assim. Era movimentada, e num ritmo que atrapalhava. Pessoas já estavam acordadas se eu acordasse às seis para correr. Algumas ainda estavam acordadas da noite anterior, passando a noite toda em baladas ou coisas do tipo. Tudo parecia levado ao extremo: dramas, opiniões, ideias. Ficava mais difícil me identificar com as pessoas de Chicago, ou com seus motivos. Um pouco mais difícil de me colocar no lugar de qualquer um.
Eu me sentia apertada. Não sou uma pessoa social na essência, e estar aqui, assim, nunca poder estar sozinho e em paz, me incomodava. Eu gostava de passar algum tempo sozinho, com a internet ou um bom livro, até um ruim livro, só pra acalmar minha cabeça, colocar meus pensamentos em ordem. Não é que eu não goste de pessoas, ou de companhia, mas demais é demais, e aqui não tenho espaço pra respirar.
Seja eles conscientes disso ou não, os diretores do PRT haviam encontrado uma forma adequada de castigar. Espero que não vá além disso. Fiz o que pediram, estou passando despercebida, e mesmo sem planejar ficar por ali, acho que eles não tinham motivo pra dificultar mais minha vida. Suspeitava que meus celulares e computador estavam sendo espionados, então tomei cuidado com o que navegava e como me comunicava.
Com sorte, eles vão esquecer de mim até eu estar ativa de novo. Ainda mais se tudo correr bem, não precisarei me preocupar com eles por muito tempo. O diretor de Toronto, aquele que eu não conseguia reconhecer, já saiu do cargo. Wilkins e West continuam atuantes, mas a mulher na ponta da mesa está sob investigação.
Existem coisas acontecendo nos bastidores, e a especulação está em alta na página Parahumans Online. O nome do Satyrical apareceu. Pelo que pude perceber, os capes de Vegas ficaram rebeldes, e aparentemente estão mirando nos elementos mais corruptos do PRT.
Não tinha certeza exata de como me sentir quanto a isso, mas não reclamei se alguém estivesse derrubando meus inimigos por mim, especialmente se fosse de uma maneira mais ou menos segura e legítima.
“Ei,” disse Theo.
Me virei para olhá-lo.
“Quando você lidou com os Nove no Matadouro lá em Brockton Bay, você enfrentou o Jack Slash, né?”
“Sim. Mais ou menos.”
“Mais ou menos?”
“Ele não luta de verdade, a não ser que esteja com o pessoal dele e a luta seja injusta. Na maior parte do tempo, eu ficava arrastando ele pra lá e pra cá, tentando não ser morto no processo.”
Ele franziu a testa.
“Preocupado?” perguntei. “Você vai ter ajuda.”
“Ele também vai ter,” Theo lembrou.
“Verdade.”
“Eu… não sou bom nisso. Tudo que Kaiser era, eu não sou.”
“Isso não é ruim. Ele era um idiota. Você não é.”
Theo conseguiu um sorriso fraco. Era difícil entender exatamente como ele reagiria às coisas. Quando está encurralado, frente a uma ameaça séria, mostra coragem. Eu o tinha visto em patrulha, e apesar das preocupações, ele seguia em frente. Mesmo contra o Behemoth, numa situação quase como a primeira vez dele de traje. Mas falar sobre a família dele, ainda não consigo definir o que ele diria ou faria.
Aquele sorriso fraco, era genuíno? Eu tinha machucado ele, deixado numa posição em que queria defender a família, mas não podia por causa do que eles eram?
“Não me encaixo no molde típico de cape,” disse Theo.
Resisti à vontade de dizer que eu também não, mas não disse nada. Conhecia um conselho que ouvi da Tecton, e decidi escutar. “Você está nervoso. Qualquer um ficaria.”
“Correr, não sinto a diferença,” ele disse.
“Ganho lento, mas existe.”
“O treinamento ajuda,” afirmou. “Sinto que estou melhorando de verdade.”
“Quer treinar quando a gente voltar?”
“Não tenho muito tempo antes de patrulhar. Uma corrida rápida?”
“Claro. Vamos lá. Uma quadra, se precisar vomitar, pode vomitar, e depois a gente volta caminhando.”
Ele fez um som entre um engasgo e um gemido, mas me acompanhou quando partimos.
Correndo primeiro, depois caminhando, pegamos uma rota diferente na volta, diferente da ida. As árvores à beira do lago estavam em chamas com as cores do outono, e consegui ver um punhado de estudantes universitários e pessoas mais velhas reunidos, curtindo a tranquilidade do lago, na temperatura perfeita. Tranquilo.
Isso dava pra entender. Eu teria adorado me sentar ao lado do lago, se tivesse oportunidade. O problema era que eu nunca tinha essa chance. Estava presa à agenda de outras pessoas, minhas saídas tinham que ser na companhia de alguém, e ninguém parecia muito interessado em sair só pra sentar na beira do lago.
Como forma de penitência, era bem leve, mas o efeito daquela restrição tava me desgastando mais do que a cela tinha conseguido.
Chegamos à sede do PRT, uma das duas em Chicago. Era estreita, robusta, e não muito bonita, mas tinha uma estátua no topo que foi bancando por um antigo membro, Stardust.
Dentro, seguimos até o andar superior, onde ficavam os quartos dos Maquinistas e a ‘central’, como chamavam os outros. Era um nome que me lembrava prisão, e isso me fazia pensar nela mais como uma área comum ou um lounge.
“Ginásio?” perguntei.
“Sim,” Theo respondeu. “Deixa eu colocar minhas coisas. Te encontro lá.”
Conectei-me à rede de insetos que tinha no meu laboratório, retirando uma variedade de moscas, besouros e baratas, depositando os que tinha coletado durante a corrida. Não eram muitos, mas não precisava de muito. Uns três ou quatro clones de enxame.
Parei na cozinha para pegar talheres, depois desci um andar até o ginásio.
Golem chegou um minuto depois, vestido com seu traje. Tinha mudado desde a primeira versão, agora com uma camada de seda de aranha e armadura pesada por cima. Usava uma máscara com expressão neutra, quase séria, e decorações em formato de leque na cintura e nos ombros, as aberturas entre as lâminas pintadas de branco, com uma estrutura de metal mais escura no quadro e nas bordas.
O consultor de imagem deve estar tendo ataques de nervo, sem dúvida, mas o mais importante era fazer o Golem ser eficaz. Estávamos chegando lá. A aparência ficaria pra depois.
“Oi,” Kirk nos cumprimentou, entrando quando Golem chegou. Usava uma camiseta e calças de yoga, e tava transpirando. A cabeça raspada, pele negra marcada. “Vocês estão treinando?”
“Treinamento,” eu disse. “Não exatamente uma luta de verdade.”
“Posso assistir?”
Olhei pra Golem, “Tá tudo bem pra você?”
“Sou eu quem vai me embaraçar, quer dizer.”
“Acho que você já passou do ponto de se envergonhar,” eu disse.
“Pode assistir se quiser, Annex. Não me importo em ajudar a limpar depois,” Golem falou. “Não prometo nada especial.”
“Não tem problema,” respondeu Kirk. “Tô curioso pra ver como você tá.”
Entramos.
A área era dividida: de um lado, equipados de aparelhos de musculação, de outro, uma área livre para luta, dança e o que mais quiséssemos. No canto, pilhas de painéis com diferentes níveis de acolchoamento, bem empilhados.
Seguimos para a área livre, mas não colocamos nenhum acolchoado no chão. Meus insetos entraram pelos ventiladores e pela passagem do corredor ao lado, preenchendo o espaço, cobrindo toda a superfície.
Os insetos se consolidaram formando uma figura humana, e Golem agiu. Seus dedos passaram pelas hélices brancas na cintura, depois ele enfiou uma mão por dentro. Uma mão de concreto saiu do chão para dissipar o enxame.
Um pouco lento, mas não ruim.
Outra parte do enxame se consolidou numa isca grosseira, e Golem a apertou num punho de concreto. Dessa vez mais rápido. Os insetos escaparam pelos espaços entre os dedos enquanto a mão recuava para a superfície do chão.
Cada painel do leque era feito de um material diferente. Concreto, aço, granito, madeira. Materiais comuns ao alcance. Os menos comuns, a um gesto. Agora, dois de uma vez. Dois alvos para acertar. Golem pegou um com a mão direita, enquanto eu movimentava o outro, já que ele tentou pegá-lo com a esquerda. Ele não foi rápido o suficiente, o ângulo não ajudou.
Peguei uma faquinha de manteiga do bolso do short, levantei-a acima da cabeça.
Golem observou. Enfiou as pontas dos dedos na parte superior de um painel, o polegar na parte de baixo. Duplicatas dos dedos surgiram na faca, formando metade de um punho que fechou na borda. A faca virou um porrete, sem faca de corte.
Joguei o instrumento de lado e comecei a criar mais iscas.
Fingi um movimento, agora, enganando-o sobre onde meus clones estavam se movendo. Ele lutou, mas conseguiu acertar alguns golpes. Libélulas e insetos mais rápidos formaram um corpo mais móvel, e eu evitei os golpes, até ele começar a criar mãos que surgiam de braços que já estavam saindo do chão: barreiras ramificadas pra limitar os movimentos. Tentei simular o efeito geral desses obstáculos, e Golem aproveitou pra dar um golpe final, esmagando outro enxame de isca..
“Bata mais forte neles agora,” eu disse. Correndo, tentei elevar minha expectativa. Aqui, fiz o mesmo por Golem.
Seus movimentos ficaram mais violentos. Uma mão segurou um enxame e depois puxou contra o chão, mergulhando de volta na superfície. Os insetos foram esmagados contra o campo de distorção espacial, e o número do meu enxame caiu bastante.
Outro foi esmagado contra a parede, mas as superfícies eram de materiais diferentes, e a mão não podia simplesmente sumir de volta pra dentro. Desta vez, um estrondo alto, fazendo Kirk e eu cambalearem. Tive que virar a cabeça pra não entrar poeira nos olhos.
Juntei meu enxame formando uma figura grossa, não uma pessoa, mas algo maior, maior que o Crawler, menor que a Echidna, bípede.
Ele acertou, e eu o refiz.
“Bata mais forte,” eu incentivei.
Ele acertou de novo, fechando duas mãos, como se estivesse apertando. Mas o corpo do monstro não tinha substância. Juiz de valor que ele não estivesse causando dano suficiente, e refiz a figura.
O monstro avançou contra ele.
Aproximei-me um pouco, elevando a voz. “Vamos lá, Theo! Bate mais forte!”
Golem caiu um pé, quando uma das pernas entrou no piso de concreto. Uma réplica da bota dele surgiu do chão, com pregos. A velocidade e força eram suficientes pra levantar um dos cachorros da Rachel, então ajudei, movendo o ‘corpo’ do monstro de enxame, levantando-o.
Enquanto a perna subia, o Golem tinha uma perna quase até o joelho encostada no chão, ele empurrou uma mão no leque, causando um braço cair do teto, bem acima da plataforma pontiaguda que era a bota dele. Minha criação ficou presa entre os dois, e a colisão foi forte o bastante pra fazer Kirk e eu tropeçarmos. Tive que virar a cabeça pra não entrar poeira nos olhos.
“É… isso—” Golem começou.
Antes que terminasse, eu tinha uma segunda faca de manteiga na mão, ponta pressionada contra a garganta dele.
“Fique atento às ameaças,” eu disse.
“Não é muito justo,” comentou Kirk. “Jogando sujo.”
“Não,” Golem respondeu. A voz dele tremia, o que era estranho, considerando que eu não estava fazendo nada que fosse realmente ameaçador. Algo mais o abalou. Teria ele levado a lição mais a sério? “É bom. É exatamente o tipo de lição que preciso aprender. É por isso que estou treinando.”
“Jack vai mandar alguns bandidos assustadores pra você,” eu disse. “Mas ele vai estar procurando uma brecha. Sempre, sempre olhe pra trás. Não esqueça de cuidar dos seus amigos também. Você provavelmente não vai morrer se fizer isso, mas pode desejar estar morto, ao ver o que Jack e sua gangue fazem com eles.”
Golem retirou o braço da placa, mas a perna dele era mais difícil de soltar do chão. Quando se levantou, a perna que saía do chão virou mais ou menos definitiva. Em outra área, pontas de dedos saíam do chão. Além delas, as ‘árvores’ de mãos que formaram barreiras. Sem nem precisar pedir, Kirk deu um passo à frente, seu corpo se liquefez ao entrar na superfície, suavizando tudo como se nunca tivéssemos estado lá.
Quando terminou, apareceu para avaliar o trabalho.
“Obrigado,” eu disse.
“Interessante de assistir. Descobrindo maneiras de aplicar seu poder?”
“Mais ou menos. Truques pro repertório dele, construindo familiaridade com as habilidades, atacando pra reconhecer ameaças e atacar sem hesitação quando preciso.”
“Você realmente acha que o Jack vai acordar de um sono criogênico só pra lutar contra um garoto que nem tinha poderes na última vez em que se enfrentaram?”
“Sim,” eu disse. “Acredite se quiser, pelo o que sei dele, faz sentido.”
“Huh.”
“Você concorda, né?” perguntei. “Com o plano?”
Kirk assentiu. “Parece meio louco, mas não faz mal, dado o risco.”
“Fim do mundo,” disse Golem.
“Fim do mundo,” concordei. “Vamos colocar o máximo de gente possível, seja pra evitar, ou pra suavizar o impacto.”
“Contanto que a gente consiga descobrir o que é isso,” disse o Golem.
“Pois é,” eu disse. “Você disse que tinha patrulha logo?”
“Às oito e vinte. Depois, escola. Nos vemos à tarde?”
“Sim,” respondi. Fui para a área comum, sentando no primeiro lugar vago no computador. Grace estava lá, mas usando uniforme escolar e com deveres espalhados ao redor.
“Não diga uma palavra,” ela me mandou, claramente irritada.
“Não ia dizer,” respondi.
Entre na tela, fiz login e fui recebido pelo wallpaper personalizado.
C/D: Endbringer
-3:21:45:90
C/D: Fim do Mundo
593:19:27:50
O primeiro contando pra cima, o outro pra baixo.
Já se passaram três dias desde a estimativa de chegada do Simurgh ou do Leviathan. O Behemoth chegou antes, mas qualquer fator que tenha causado isso não está valendo aqui.
Faz sentido eles não manterem o cronograma anterior. Desde que o Simurgh chegou, passaram-se cerca de três meses e meio entre cada ataque.
Esses próximos dias e semanas diriam muito. Os Endbringers vão mudar de tática? A programação vai continuar acelerada, com o Behemoth surgindo em sete a dez meses?
Ou algo totalmente diferente?
Meus olhos caíram no segundo relógio. A contagem regressiva.
593:19:25:23
■
“Tá brincando?” perguntei assim que as portas do elevador se abriram. Cuff estava do outro lado, esperando.
“Ela apareceu,” disse Cuff. “Não aqui, aqui, mas ela apareceu.”
Estava de traje completo, a mochila de voo carregada, uma caixa isolada com meus insetos debaixo do braço, e meu telefone na mão. Estava gelada até a alma, as lentes embaçadas com a adaptação da temperatura externa para a interna.
Não precisei perguntar quem. Sabia muito bem. Era uma questão que rondava a cabeça de todo mundo: Qual, onde?
Retirei a máscara enquanto a seguia até a área comum, e estendi a mão para aceitar os óculos que meus insetos já estavam trazendo, colocando-os. As mesmas imagens eram exibidas em cada tela.
O Simurgh, sua silhueta mal visível entre as nuvens.
“Que cidade?” perguntei.
“Não é uma cidade,” disse Tecton.
Claro que a cena mudou. Água. Costeira?
Não. Água demais.
Ocêano. Ela atacando o oceano?
Fechei os olhos ao perceber o texto na parte inferior de uma matéria: BA178 sob cerco.
De todos os locais sensíveis do mundo, a Cada apareceu justamente numa aeronave de passageiros.
“Vamos—” comecei a perguntar.
“Não dá,” disse Tecton. “Sem terra firme, e nenhum de nós voa.”
“Eu voo,” disse, mas já imaginava a resposta seguinte.
“Veículos e equipamentos de gênio não vão adiantar. É fácil ela interferir,” disse Tecton.
“Recebemos ordem de cima. Só aviões naturais decolando,” acrescentou Wanton.
“Estamos atrasados pra participar de qualquer jeito,” disse Grace. “Não acho que vá ser uma luta longa, arrastada, com muitos mortos. O aviso foi quase zero. É como se ela tivesse caído do nada, direto no alvo mais próximo.”
Eu pensei na insistência do Armstrong de usar a nossa vitória, formar uma grande força para uma nova vitória decisiva, em vez de aparecer em grupos menores, com a inevitável perda de força.
Tanto essa espera, toda aquela inquietação, vendo o relógio de contagem regressiva passar bem além da data estimada, e a gente nem pode lutar. Não sabia bem como me sentir quanto a isso.
Assisti na tela enquanto o Legend, a Alexandria e o Eidolon enfrentavam o Simurgh. Ela evitava o pior desses ataques, principalmente com a única cobertura disponível — o avião.
Metade das telas mostrava as mesmas imagens, embora fossem canais diferentes, organizações diferentes. A outra metade trazia informações: rota de voo, os passageiros a bordo.
Se fosse algo especial aqui, quem saberia seria o Simurgh.
Meus colegas de equipe não falaram muito enquanto assistíamos a luta. Num instante, tudo mudou. Os heróis passaram a tentar atacar o avião, e o Simurgh começou a tentar defendê-lo.
Por onze minutos, ela conseguiu, usando sua telecinese para mover a aeronave, suas asas e corpo para impedir que fosse danificada.
Começou um incêndio na cabine do navio quando o Eidolon atacou o Simurgh com um poder de distorção da realidade, com relâmpagos, fogo, luz distorcida e gelo. Instantaneamente, ela jogou a aeronave de lado, deixando-a capotar, queimar e tombar antes de tocar a água e quase se desintegrar.
Depois disso, o Simurgh ascendeu, indo até as nuvens. Algumas capes tentaram seguir, mas o Scion não estava entre elas.
“Quanto tempo durou a luta?” perguntei.
“Muito pouco, o suficiente pra o Scion não aparecer,” foi tudo que Wanton respondeu.
“Quarenta minutos?” perguntou Tecton. “Mais ou menos quarenta minutos.”
Eu tinha passado mais da metade desse tempo correndo de volta pra sede, na esperança de não perder minha corrida. Agora isso. Era uma piada de péssimo gosto.
“Agora, a gente espera,” disse Grace. “E, se der sorte, a gente descobre o que ela acabou de fazer.”
Era isso. Quase uma decepção, mais que um alívio. Não podia dizer que ela estava passando a rasteira na gente, porque era a Simurgh. Pudera, era a mais devastadora de todas as ofensivas até então. Só saberíamos quando fosse tarde demais.
Nenhum ferido de gravidade, tirando os que estavam na aeronave. Ninguém relatou mortes de heróis, mas dava pra perceber na filmagem que não tinha sido uma perda significativa. Poucos capes estavam lá, e não tinha visto nenhum morrer.
Mesmo assim, senti uma irritação irracional, se é que dá pra chamar assim.
Virei e me afastei. Soltei a alça da caixa de incubação do ombro, peguei com a mão e a transfiri pro suporte da mochila de voo. Assim não precisava parar ou me abaixar pra colocar a caixa na base da escada. Mas não fui pro meu quarto ou meu laboratório. Desci as escadas, em vez disso.
Fiquei feliz de ver que a Mrs. Yamada ainda não tinha ido embora. As coisas dela estavam embaladas, mas ela se acomodou no escritório, lendo um livrinho. Uma TV ligada no canto, mudo, mostrando o que acontecia com o Simurgh.
“Taylor.”
“Você tem um minuto?”
“Claro.”
Ela se levantou, foi até a porta e fechou. Eu não percebi que tinha deixado aberta.
“Foi o melhor que podíamos esperar, dada a situação agora,” eu disse, “e me sinto ainda pior do que me senti em Nova Délhi.”
“Você estava se preparando pra isso, antecipando, por um tempo. Mentalmente, se preparou pra mais perdas, se fortaleceu. Isso desgasta, e você foi privada de uma chance de fazer algo.”
Meu celular vibrava. Olhei a tela. Meu pai. Enviei uma mensagem avisando que estava bem.
“Desculpa,” falei, guardando o celular. “Era meu pai.”
“Não precisa se desculpar. É um bom sinal você procurar ele, ou vice-versa.”
“É falta de educação,” eu disse. “Mas tudo bem. Voltando ao que estávamos conversando, estou quase me sentindo… desarmada?”
“Desarmada. Boa palavra.”
“Tenho tentado aproveitar a paz, o fato de a PROTEG e os outros lidarem com os mais perigosos, os Folk, os Royals, os Condenados. Mas vinha me dizendo que tudo se resumiria à luta contra o Endbringer. Que eu ia participar, acordar, lutar.”
“Não seria melhor se você não precisasse?”
“Não,” eu disse. Olhei para minhas mãos de luva. “Não. De jeito nenhum.”
“Você veio de um lugar difícil, e, como conversamos, se reinventou. Talvez sua identidade esteja bastante ligada à sua ideia de si mesma como uma guerreira.”
“Talvez,” respondi. “Mas, seja verdade ou não, isso não muda como eu me sinto.”
“Muitos ao redor do mundo devem estar sentindo o mesmo. É bem possível que ela tenha calculado tudo pra causar esse efeito.”
Assenti.
“Qual seria o melhor cenário, Taylor, se tudo fosse do jeito que você espera lá no fundo? O que aconteceria?”
“Que acontecesse Nova Délhi,” eu disse, exceto sem as perdas severas. Perderíamos pessoas, algum lugar se danificaria, mas acabaria matando outro Endbringer.”
“Isso é realista, acha?”
“Não,” eu respondi. “Sei que não é. Passamos décadas sem matar um, e é idiota imaginar que pudemos matar dois seguidos.”
“Qual uma expectativa mais razoável?”
“Que ela apareça, a gente lute, e consiga fazer ela fugir sem muitas baixas.”
“E em qualquer uma dessas possibilidades, você se vê numa posição importante? Talvez tão importante quanto foi em Nova Délhi?”
“Eu… Talvez?”
Ela não insistiu em nada, nem fez uma pergunta de acompanhamento. Aproveitei pra refletir.
“Sim,” finalmente respondi. “Talvez não num papel tão grande. Não é uma realidade, mas quero ajudar.”
“Se a Simurgh quiser derrubar nossa moral, essa seria uma forma de fazer isso,” disse Mrs. Yamada. “Depois de Nova Délhi, muitos capes queriam fazer diferença, querer ser heróis. A escolha do local, a luta rápida, o foco estreito, tirou essa oportunidade de todos. Não só de você.”
“Preciso ficar mais forte,” eu disse. “Deveria estar entre as pessoas que estão por aqui, prontos pra esse fim do mundo que foi previsto. Mas aqui, não tenho chance de atuar.”
“Você consegue conversar com seus superiores? Com a Revel?”
“Deixei indícios de que poderia atuar como acompanhante nas patrulhas. Mas ninguém aceitou. Ninguém comigo. Tentaram pegar Golem, porque é educado demais, trabalha feito um cão, e sua força é boa. Eu, sou boa, mas acabo sendo parceira mais que parceira de apoio.”
“Você treinou com Golem.”
“Sim.”
“Tenho certeza que você merece parte do crédito pelas melhorias dele.”
“Não estou—” comecei, mas me fiz parar. Muita emoção na minha voz. Mais calma, falei: “Não estou procurando reassurance, nem elogios. Só…”
Procurei uma forma de terminar a frase.
“Vamos usar a frase ‘Eu sinto porque’ para explicar melhor minhas emoções.”
algo está vindo e vai ser feio, e não estou preparada. A cada dia que passa, sem nada acontecer, me sinto menos preparada.”
“Imagino que seus colegas também se sintam assim. Você já falou do que eles estão passando. O Golem provavelmente vai ser atraído pelo Jack Slash em algum momento. A Cuff tem dificuldade com a mão direita, e está tendo que reaprender a escrever e a digitar. Não estou falando de nada confidencial, só do que você contou nas nossas sessões anteriores.”
“Sei que o Golem tem seu apoio, e eles todos têm, de alguma forma. Sobre a Cuff, sei que sua equipe está dividindo a carga de ajudar na papelada dela. Isso demonstra muita coisa.”
“Apoiando um ao outro.”
“Soa clichê, mas acho que há uma verdade nisso. Vocês têm motivos legítimos pra temer o que vem pela frente. Mas lembre-se de que não estão sozinhos nisso. Talvez você tenha atingido um teto, no seu crescimento e desenvolvimento, por enquanto. Mas ainda pode avançar, ajudando seus companheiros, ajudando-os a enfrentar seus demônios e a aprimorar suas habilidades.”
“Sim,” eu disse. “Mas não parece o suficiente.”
“Pode não ser, mas é construtivo. Talvez você se sinta menos desarmada se focar nas ferramentas e, por assim dizer, nas armas que tem à disposição.”
“Quem sabe,” respondi. “Mas odeio me sentir indefesa.”
“Parte do motivo de você se sentir assim é porque está esperando que as oportunidades venham até você. Esperou pelo Endbringer, pra mostrar seus talentos em ambientes de estresse extremo. É bom, acho, que tenha esperado, tido um momento pra respirar. Acho que deveria tentar manter essa paz, porque pode ajudar a entrar numa cabeça melhor.”
Era um conselho semelhante ao que o Glenn deixou na despedida, mas eles discordavam em um ponto. A Mrs. Yamada teria ficado mais feliz se eu mantivesse isso pra sempre. Glenn, por outro lado, queria me ver atuando.
Era hora de agir, qualquer que fosse o que a Mrs. Yamada dissesse.
“Obrigada,” eu disse.
“Você está se sentindo um pouco melhor?”
“Na verdade, não,” admiti. “Nem tenho certeza de entender todos os meus sentimentos. Mas acho que agora tenho um plano melhor, de verdade. Obrigada.”
“É o que estou aqui pra fazer. Ou pelo menos, por mais uma hora, depois volto pra Boston. Estarei por aqui na próxima sexta, depois de completar outra missão.”
“Legal,” disse. “Fico feliz que tenha vindo hoje.”
“Eu também,” ela respondeu.
Quando me levantei, ela também se levantou. deu um passo à frente e me abraçou.
Não tinha certeza se era algo tão comum, mas uma vez comentei sobre como recebi poucos abraços na vida, e de que alguns que dei ou recebi foram momentos importantes pra mim; ela perguntou se eu queria um abraço dela.
De alguma forma, virou costume, ao final de nossas sessões. Dei um leve sorriso ao nos despedirmos.
Forcei meu caminho de volta para a área comum e sentei no computador. Os outros ainda monitoravam as telas maiores, enquanto os heróis defensores congelaram a carcaça parcialmente submersa do avião e se preparando para medidas de quarentena.
Qualquer que fosse o motivo desse ataque, duvidava que fosse fácil entender logo de cara.
Então, sentei na frente do computador e fiz login. Os timers continuaram a correr.
Depois de atualizar o timer da última ataque, ele marcou:
C/D: Endbringer
149:22:59:59
C/D: Fim do Mundo
579:07:14:53
Descontando lentamente.
Mrs. Yamada tinha razão, refleti, enquanto abria os arquivos dos chefões locais e senhores da guerra. Estava me prejudicando esperando que oportunidade surgisse sozinha. Se fosse agir como Glenn sugeriu, de fazer um movimento calculado, precisava agir, ao invés de esperar uma nova chance como tivemos em Nova Délhi.
Olhei para os outros e me perguntei se era melhor manipulá-los ou convencê-los a entrar na jogada. Manipulação quase é mais gentil, porque isenta eles de culpa. Basta garantir que estamos no lugar certo na hora certa, atraindo uma força local pra uma luta, com um plano já na cabeça…
Não.
Chevalier’s Protectorate, com seus altos e baixos, sempre foi mais sobre honestidade. Queria explorar os pontos fortes da Skitter, sua frieza, mas também desejava ser uma heroína. Isso foi a essência do que consegui em Nova Délhi.
“Tecton,” chamei, ao ver uma foto de um supervilão de máscara com um rosto invertido. Um poder estabelecido, na cidade há quase dez anos.
Será que é muito consolidado? Não queria iniciar outro fiasco como na ABB. Há vantagens em ser transparente. Pode fazer perguntas, receber feedback.
“O que foi?”
“Tem algo que quero conversar com você.”
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