A Senpai CoelhinhaVolume 14 – Capítulo 4 – Capítulo 4: Duas Linhas Paralelas, Nunca se Cruzando
Capítulo 711
Sábado, 8 de abril.
Naquela manhã, Sakuta foi acordado pelo som da chuva caindo lá fora.
Saiu da cama se arrastando e abriu as cortinas, desanimado.
Aquilo não era uma chuvinha de abril.
“Dia perfeito pra uma viagem de carro”, resmungou, sentindo-se tão cinzento quanto as nuvens acima.
Ele foi até a sala de estar e encontrou Kaede, de pijama de panda, preparando o café da manhã.
Quando o viu, ela chamou, com um sorriso animado:
“Bom dia, Sakuta!”
Sobre a mesa estava o café da manhã de sempre, além de duas marmitas. Ela devia estar deixando esfriar antes de colocar as tampas.
“Você fez almoço?”
“Agora eu sou do terceiro ano do ensino médio, então consigo fazer isso antes do café da manhã!”
“Mas hoje é sábado.”
“O Clube dos Animais vai ao zoológico ver os pandas!”
“Então é por isso das marmitas. Uau. Você ainda está fazendo croquetes de caranguejo com creme?”, ele perguntou, espiando.
Os croquetes alongados descansavam sobre uma cama de alface.
“Esses são congelados.”
“E esses nuggets de frango com cara tão boa?”
Ele apontou para o prato ao lado.
“Comida congelada deliciosa!”
“E o omelete enrolado?”
“Esses eu fiz!”
“Mal posso esperar pelo almoço.”
“Vai estar ótimo!”
Kaede era, sem dúvida, uma pessoa matinal. Ela saiu às oito horas, toda animada e cheia de energia.
“Estou indo, Sakuta!”
“Manda um oi pros pandas por mim.”
Kaede vestia o uniforme da Minegahara, indo para o ensino médio. Ela disse que queria estudar na mesma escola que ele — e agora estava ocupada com as atividades do clube.
Mesmo que aquilo fosse apenas uma ilusão criada pela Síndrome da Adolescência, ele não conseguia evitar o que sentia diante daquela realidade. Aquilo o deixava com o coração aquecido. E, como sabia que essas emoções eram reais, não podia fingir que não estavam acontecendo.
Depois que Kaede saiu rumo ao zoológico, Sakuta lavou a louça e cuidou da roupa. Limpou a caixa de areia da Nasuno e escovou seu pelo.
Ainda tinha bastante tempo antes do encontro combinado com Miori, então tirou da mochila que usava na faculdade o planejador de horários e se sentou à mesa da sala, encarando os programas das disciplinas com cara fechada.
Primeiro, anotou todas as matérias obrigatórias, depois começou a preencher os espaços com optativas. Também acrescentou as disciplinas necessárias para obter a licença de professor.
Isso consumiu um tempo surpreendente e, quando percebeu, o relógio já marcava onze da manhã.
Ele almoçou cedo — comeu cada pedaço da marmita que Kaede tinha preparado para ele.
Trocou de roupa no quarto, pegou um guarda-chuva e saiu.
A chuva tinha diminuído um pouco, mas ainda caía de forma constante.
Com o som da chuva batendo no guarda-chuva, Sakuta caminhou até a Estação Fujisawa, desviando das poças.
Passou pelas catracas da JR e desceu até a plataforma. Havia mais ou menos a mesma quantidade de pessoas esperando em cada direção.
O trem no sentido do centro chegou primeiro. Sakuta entrou e desceu uma estação depois, em Ofuna.
Subiu as escadas e saiu pela área principal de catracas. Aquilo ficava dentro da área coberta pelo passe que ele tinha comprado para a escola — bem conveniente.
Ele olhou em volta procurando Miori, mas não havia sinal dela.
Para não atrapalhar a passagem, foi para o lado da cabine verde.
O fluxo de pessoas era relativamente baixo. Ainda havia um número razoável de passageiros desembarcando quando um trem chegava, mas naquele horário a estação nunca ficava cheia demais para encontrar alguém.
Ele saberia quando Miori aparecesse.
O relógio estava prestes a marcar meio-dia.
O ponteiro se moveu, e oficialmente era doze em ponto.
Nenhum sinal de Miori.
“……”
Ele conferiu a saída da estação, primeiro à esquerda, depois à direita.
Miori não tinha chegado.
Checou mais uma vez a saída da direita — o lado leste da estação — e depois a da esquerda — o lado oeste.
Enquanto repetia isso, o tempo avançava.
Agora eram 12:05.
Ainda nada à vista.
Dez minutos se passaram, depois quinze, depois vinte.
Quando o relógio marcou 12:25, Sakuta deixou brevemente o portão sul e foi até outra saída, contornando o lado de fora da estação.
Subiu as escadas até os portões norte, mas não havia sinal de Miori.
Para ter certeza absoluta, ele também verificou os portões do Monotrilho de Shonan.
Tudo o que ele tinha dito fora: “Me encontra nos portões da Estação Ofuna.”
Ele esperava que ela estivesse apenas aguardando em uma saída diferente. Parecia até estranhamente plausível que Miori fosse, de propósito, esperar nos portões do monotrilho.
Mas, infelizmente, ela não estava em lugar nenhum perto do Monotrilho de Shonan.
Dando de ombros, Sakuta voltou para a saída principal, ao sul.
Ela já estava quarenta minutos atrasada.
“Talvez ela não venha.”
Aquilo já estava muito além de chegar “um pouquinho atrasada”.
O melhor era assumir que aquilo era deliberado. Intencional.
Era possível que ele esperasse o dia inteiro e, ainda assim, ela nunca aparecesse.
Ciente dessa possibilidade, Sakuta decidiu aguentar firme.
A essa altura, ele já esperava na Estação Ofuna havia bem mais de uma hora.
Agora eram 1:26.
Ele já tinha desistido de observar ao redor.
Apenas encarava o vazio.
Mais dez minutos se passaram…
“Uau, ele ainda está aqui.”
Uma fala sem emoção veio de bem perto.
Sakuta se virou em direção à voz.
A pessoa que ele estava esperando finalmente tinha chegado. Ela usava uma jaqueta militar sobre um vestido de gola. O cabelo estava meio preso, de forma solta, como se tivesse acabado de sair do banho. Ao encarar sua expressão entediada de sempre, Sakuta conseguiu ver seu próprio reflexo nos olhos dela.
“Sabe, Mitou.”
“O quê?”
“É sério que essa é a primeira coisa que você diz depois de aparecer uma hora e trinta e seis minutos atrasada?”
“Desculpa, eu só não sabia o que vestir”, ela explicou, soando como uma namorada atrasada para um encontro. “Mas quem espera tudo isso? Eu só vim pra confirmar se você já tinha ido embora.”
“A Mai esperou uma hora e trinta e oito minutos no nosso primeiro encontro.”
(N/T: eu lembro disso KKKK, aí o Sakuta diz “isso é impossível, uma mulher madura e charmosa como a Mai-san jamais esperaria um homem durante todo esse tempo! Eu aposto que é uma IMPOSTORA!”)
(Revisor/Levi: Isto está no terceiro ep da primeira temporada se não me engano ”)
“O que diabos você estava fazendo?”
“Trocando chutes na bunda com uma garota do ensino médio e levando bronca da polícia.”
“Isso é ridículo”, Miori gargalhou.
A risada dela sempre parecia sincera.
E, ao mesmo tempo, não deixava ninguém se aproximar.
“Azusagawa”, ela disse, ficando ao lado dele.
“O quê?”
“Você quer que eu dê um passo à frente, né? Que diga a todo mundo que eu sou a verdadeira Touko Kirishima?”
Os olhos dela estavam voltados para a multidão da estação.
“Se você não fizer isso, a Mai vai acabar se tornando ela de verdade.”
“Todo mundo parece feliz com isso. Tá tudo bem.”
“Não tá tudo bem”, ele insistiu.
“Mas isso não está machucando ninguém.”
Miori não recuava.
“Se a carga de trabalho da Mai aumentar ainda mais, eu nunca mais vou conseguir flertar com ela.”
“Ah, entendi. Isso é realmente uma preocupação séria”, ela disse, sem soar nem um pouco preocupada.
“Mitou, você fica de boa com isso?”
“De boa com o quê?”
“Com a Mai roubando a Touko Kirishima de você.”
Sakuta olhou diretamente nos olhos dela, e Miori desviou o olhar — mas sem qualquer sinal de constrangimento.
“A Touko amava a Mai. Ela ficaria encantada.”
Não soava como uma desculpa.
Mas também não parecia que ela realmente acreditava nisso.
“Então foi isso que você cantou?”
“……”
“Não é.”
“Antes, posso perguntar uma coisa?”
“O quê?”
“Não era pra gente dar uma volta de carro?”
“Eu reservei um carro.”
Eles poderiam conversar melhor dentro do carro.
Sakuta saiu na frente, afastando-se dos portões e seguindo em direção à saída leste da estação.
Na locadora, ele começou se desculpando por não ter buscado o carro no horário da reserva.
“Desculpa, minha namorada chegou atrasada”, disse, usando Miori como desculpa
(N/T: se a Mai souber disso kkkkk….)
Ela esperava do lado de fora da loja e, quando percebeu que ele estava olhando, sorriu e acenou. Ela não conseguia ouvir nada do que ele dizia, mas ainda assim interpretava perfeitamente o papel de “namorada”.
Ele apresentou a carteira de motorista, ouviu as explicações de praxe e saiu com as chaves. Um compacto pequeno e ágil os aguardava.
Sakuta sentou no banco do motorista, e Miori foi para o do passageiro.
Eles saíram do estacionamento da locadora e seguiram pela Estrada Ofuna Nishi-Kamakura. O Monotrilho de Shonan corria sobre suas cabeças e, de vez em quando, eles o alcançavam ou eram ultrapassados por ele. Às vezes, ficavam praticamente lado a lado, o que dava um certo clima de disputa à viagem.
Até Miori comentou: “Uau, o monotrilho tá bem do nosso lado!”
“Você dirige muito desde que tirou a carteira?”
“Não. Não tenho vontade.”
“Por causa da sua amiga que foi atropelada?”
“……”
(N/T: direto e reto, sem rodeios, simplesmente o melhor protagonista de todos!)
Miori não respondeu. Apenas continuou olhando para fora, pela janela.
Por um tempo, eles seguiram no mesmo ritmo do monotrilho.
A chuva tinha parado.
“A Touko sempre me perguntava a mesma coisa.”
“……”
“‘Miori, eu quero que você cante as músicas que eu escrevo.’”
O carro parou no sinal vermelho.
O barulho do motor cessou, deixando apenas os dois em silêncio.
“Mas eu sempre dizia não”, ela sussurrou.
“……”
Sakuta manteve os olhos no semáforo, sem dizer nada.
“Ela insistiu tanto que a gente acabou brigando por causa disso.”
“……”
“A gente ficou uma semana inteira sem se falar. Foi a primeira vez que algo assim aconteceu.”
“……”
O sinal ficou verde.
Sakuta arrancou com o carro.
A paisagem passou correndo dos dois lados. Os carros na pista contrária cruzavam rapidamente.
Pelo canto do olho, ele via Miori encarando a janela do passageiro. Do banco do motorista, não conseguia ver a expressão no rosto dela.
“A gente ia fazer as pazes naquele dia.”
“No dia em que ela morreu?”
“Sim. Véspera de Natal. Dividir um pão de curry e voltar a ser amigas.”
Miori soltou um som que era meio riso, meio suspiro.
Ela tinha dito pouco demais para que ele conseguisse entender os sentimentos por trás daquilo.
Podia ser arrependimento. Podia ser luto. Não tinha como saber ao certo. O estado de espírito de Miori era insondável. Ele não conseguia enxergar aquelas Profundezas. Qualquer verdade que existisse ali estava fora do alcance de Sakuta.
Chegava a parecer que talvez não houvesse emoção alguma ali.
E era por isso que Sakuta não sabia o que dizer.
Com as mãos no volante, ele percebeu seus lábios se movendo sozinhos.
“Bom… então você pode dividir um pão de curry comigo hoje.”
Ele olhou de relance para ela.
“Eu tô com bastante fome”, ela disse, desviando dele. “Consigo comer dois fácil.”
“Então a gente compra quatro e divide. Isso ainda conta como dividir, né?”, ele respondeu, sem hesitar.
“Ah, você é insuportável”, Miori gargalhou.
Por mais que o carro se enchesse de risadas, a distância entre eles nunca diminuía. Quanto mais Miori parecia se divertir, mais isso ficava claro para Sakuta. Era quase dolorosamente óbvio.
Eles pararam em uma loja para comprar quatro pães de curry. O pedido deles esgotou todo o estoque da loja.
Eles tinham seguido o monotrilho até a Estação Nishi-Kamakura, mas então viraram para o sul, em direção à costa.
Em Koshigoe, entraram na Rota 134 e seguiram com o oceano à direita. Chegaram bem perto de Kamakura e depois retornaram, como se quisessem apreciar aquela vista mais uma vez.
Agora, estavam no estacionamento de Shichirigahama.
Sakuta e Miori haviam saído do carro e caminhavam pela praia.
Enquanto isso, comiam os pães de curry.
“Cuidado com os falcões.”
Três aves de rapina circulavam pelo céu. Havia uma boa chance de estarem de olho na comida deles.
“O barulho das ondas é bem alto”, comentou Miori.
Estava mais forte do que o normal. Alto o suficiente para abafar qualquer coisa dita em voz baixa.
Enoshima ficava à direita deles.
Em um dia limpo, seria possível ver o Monte Fuji ao longe.
Mas o céu estava nublado, então não havia sinal dele.
Felizmente, a chuva recente tinha parado.
Sakuta se concentrou em terminar o pão de curry antes que os falcões vencessem. Ele comprou um chá engarrafado e deu um gole, depois ficou encarando o horizonte, a alguns quilômetros de distância.
Por fim, falou:
“Quando eu estava no terceiro ano do ginásio, minha irmã — ela é dois anos mais nova que eu — virou alvo de bullying.”
“Ela acabou desenvolvendo a Síndrome da Adolescência.”
Miori caminhava dois, três passos à frente. Ela lançou um olhar na direção dele.
“As palavras dos colegas cortavam a pele dela como facas. A Síndrome da Adolescência fazia o corpo dela sangrar de verdade, ou deixava hematomas… Ninguém acreditava em mim. Nem os professores, nem os colegas, ninguém.”
“……”
Miori não disse nada. Mas manteve os olhos nele.
“Eu não queria mais ter nada a ver com aqueles idiotas. Vim até aqui e joguei meu celular no oceano.”
A voz dele estava um pouco mais alta, disputando espaço com o vento e o som do mar.
“Você não devia jogar lixo na água.”
A Mai disse praticamente a mesma coisa. ‘Você devia usar uma lixeira.’
Muito tempo tinha passado desde então.
“Devo assumir que você se livrou do seu celular porque acha que sua mensagem causou o acidente da Touko Kirishima?”, Sakuta perguntou.
“Não”, ela respondeu, seca.
“Então por quê?”
“Porque todo mundo da escola sabia o quanto a gente era próxima. Ficavam me bombardeando de mensagens. ‘Você está bem?’ ‘Força!’ ‘Tô aqui se precisar.’ Eu enjoei disso e joguei o celular fora.”
“Bem a sua cara.”
“Eu sei”, Miori disse, satisfeita.
“Se os caras estavam preocupados com você, isso devia deixar algumas garotas com ciúmes.”
“Eu sou essa desgraçada”, ela disse.
Ela reconheceu o ponto e riu de si mesma. Muitas vezes, sorria de um jeito que parecia um pouco instável.
“Então, Mitou.”
“Hm?”
“Você me perguntou outro dia se eu já tinha matado alguém.”
“E daí?”
“Eu já.”
“Chama a polícia!”
“No meu segundo ano do ensino médio, no dia vinte e quatro de dezembro… eu deveria ter morrido.”
“……?”
Miori se virou para encará-lo, com um leve brilho de interesse nos olhos. Ele percebeu que agora tinha a atenção dela e continuou.
“Um carro derrapou no gelo perto da travessia de Enoshima e deveria ter me atropelado.”
“……”
“Se eu não tivesse acordado, meu coração teria sido transplantado para uma garota do ensino fundamental.”
“Então eu estou falando com um fantasma agora?”
Miori riu da própria pergunta. Era óbvio que não era verdade.
“Nós mudamos o futuro. Com a Síndrome da Adolescência. Refizemos as coisas para chegar a uma nova possibilidade.”
“……”
Sakuta olhou diretamente nos olhos dela. Queria que Miori soubesse que ele falava sério. Ela precisava acreditar.
Miori sustentou o olhar. Piscou várias vezes. Levou um tempo para digerir aquilo. Dava para perceber que ela estava refletindo.
“O que aconteceu com a garota que deveria ter recebido o seu coração?”
“A primeira pergunta dela foi direta ao ponto central da questão.”
“Ela encontrou outro doador e está muito bem.”
“Ah”, murmurou Miori, assentindo. “E o doador dela foi a Touko”, acrescentou, meio para si mesma.
“Foi”, disse Sakuta. Ele assentiu devagar, de forma firme. “Então talvez a morte da Touko Kirishima tenha sido culpa minha.”
“……”
Sakuta encarou Miori de frente.
Esqueceu até de piscar.
Nenhum dos dois se mexeu. Era como se o tempo tivesse parado.
O silêncio durou menos de dez segundos.
Mas pareceu uma eternidade.
Por fim, o olhar de Miori baixou um pouco.
“Essa é uma história sobre você fazer mais um ‘recomeço’ e salvar a Touko?”, perguntou, com a voz neutra. Sem esperança, sem expectativa. Apenas uma expressão séria no rosto, que fazia a pinta abaixo do olho se destacar ainda mais.
“Já me disseram que isso não é possível. Dá pra voltar do futuro para o presente, mas não do presente para o passado.”
Aquilo, por si só, mal explicava a situação. E ele sabia que não soaria muito convincente.
Mas, por algum motivo, Sakuta tinha certeza de que a única coisa que Miori precisava ouvir era a conclusão.
Ela não precisava da teoria nem da lógica. Só dos fatos.
“Então por que me contar tudo isso?”
Não havia frustração em sua voz. Apenas objetividade. Ela estava verificando as intenções dele, com os olhos novamente fixos nele.
“Não é óbvio?”
“É?”
“Não dá pra ser amigo guardando segredos.”
“Acho que deixei minhas intenções bem claras outro dia.”
Miori pegou uma conchinha da praia. Metade de um molusco. Brincou com ela entre os dedos.
“Quando a Touko morreu, eu não fiquei nem um pouco triste”, murmurou. “Não chorei nada.”
“……”
Mesmo agora, não havia lágrimas. A voz dela não tremia.
“Foi tipo: ‘Ela morreu? Que diabos?’”
Ela continuava sendo a mesma Miori.
“Eu fui ao funeral, depois voltei para a escola sem ela, e nada parecia real. Uma parte de mim achava que ia vê-la no dia seguinte.”
Soava como se ainda sentisse isso.
“Mas você nunca mais viu.”
“É. E o próximo Natal chegou. Nessa altura, ninguém mais falava da Touko.”
“……”
“Então eu pensei que deveria cantar as músicas que a Touko deixou. Ela queria que eu cantasse.”
“Enviei a primeira no aniversário da morte dela.”
Vinte e quatro de dezembro. Véspera de Natal.
“Teve um resultado surpreendentemente bom”, disse Miori, colocando a concha na beira da água. “E eu ainda tinha mais músicas dela.”
Na areia molhada, a concha logo foi engolida pelas ondas e levada embora. Para algum outro lugar. Assim como a Touko tinha deixado Miori.
“Fui lançando uma por uma.”
Os olhos de Miori estavam no oceano.
“Muita gente dizia: ‘Eu amo a Touko Kirishima.’”
No horizonte.
“Falavam sobre a ‘Touko Kirishima.’”
Sakuta sentiu que as palavras dela não eram dirigidas a ninguém em especial.
“Mas não era essa Touko que eu queria ver.”
“……”
“Por mais que eu cantasse, isso não trazia ela de volta pra mim.”
“Foi por isso que você parou?”
“Também porque as músicas acabaram. Lancei a última na véspera de Natal, um ano depois de começar.”
“E mesmo assim, músicas da Touko Kirishima continuaram surgindo.”
“Isso eu realmente não esperava.”
Várias pessoas começaram a se declarar Touko Kirishima, cantando como ela.
Miori esboçou um sorriso culpado.
Mas logo ele deu lugar ao sorriso de sempre, com os olhos novamente voltados para o horizonte.
“Azusagawa.”
“O quê?”
“Você ainda quer ser amigo de uma garota sem coração, que não derramou uma lágrima pela morte de uma amiga?”
“Quero.”
“Sério?”
“E você?”
“Eu?”
Miori se virou para encará-lo. O rosto dele se refletia em seus olhos.
“Eu posso ter causado a morte da sua amiga”, ele disse. “Isso impede a gente de ser amigos?”
“……O que é que eu quero, afinal?”
Foi uma resposta evasiva. O olhar dela fugiu para o mar. Um jeito bem típico da Miori de escapar do assunto.
Mas também soava sincero.
A superfície do oceano não brilhava, mas mesmo assim ela semicerrava os olhos, como se procurasse ali o formato das próprias emoções.
Se estivesse só tentando despistá-lo, teria encontrado um jeito mais eficaz.
“Eu só quero ver a Touko de novo.”
A voz dela era tão baixa que o vento e o barulho das ondas quase a engoliram.
E, de novo, soou como algo dito do fundo do coração.
“Foi por isso que você reescreveu a realidade, Mitou?”
“……Por volta da época em que parei de cantar, comecei a acordar de manhã e perceber que as coisas estavam um pouco diferentes.”
“……”
“As cortinas ficavam num tom de azul mais claro. Minha caneca favorita de gato tinha um cachorro do lado. Eu tinha um professor diferente.”
“Era isso que você queria?”
Ela não assentiu nem negou com a cabeça.
Em vez disso…
“Se a realidade estava sendo reescrita, eu queria uma em que a Touko Kirishima ainda estivesse viva. Pena que não deu.”
O tom dela nunca mudou.
“Por que no passado? Você não quer isso ainda?”
“Minha realidade parou de ser reescrita faz um tempo.”
“Quando…?”
“No outono passado. Quando te conheci naquela festa das matérias obrigatórias, Azusagawa.”
“……”
Ele não esperava ouvir seu nome ali e piscou, visivelmente confuso.
Miori pareceu gostar daquela reação.
“O que você fez comigo?”, ela perguntou.
“Você fala como se tivesse certeza de que a culpa é minha.”
“Foi a primeira vez que conheci um Azusagawa sem celular.”
“Parece que você conheceu muitos outros ‘eus’.”
“Conheci. Um Azusagawa que usava óculos, outro que fazia medicina — tinha até um que era super descolado. Eu fiquei curiosa sobre o namorado da Mai, então fui falar com você toda vez que a realidade era reescrita. Devo ter conhecido pelo menos cinquenta versões.”
“Algum deles virou seu amigo?”
“Nenhum sequer.”
“Então eu vou ser o primeiro. Que honra.”
“Se isso acontecer.” Miori falou como se fosse apenas uma espectadora. Eram palavras ocas, vazias. “Então é isso, Azusagawa.”
“Isso o quê?”
“Existe algum jeito de você arranjar uma realidade em que a Touko esteja viva?”
“Em troca, você vai se apresentar como a verdadeira Touko Kirishima?”
“Quer selar com promessa de dedinho?”
Ela ergueu o dedo mindinho.
“Não. Eu confio em você”, ele disse.
“Ah, você é insuportável!”, ela falou, rindo de verdade.
Ainda sorrindo, acrescentou: “Tenho um turno agora, então é melhor eu ir.”
Ela acenou em despedida.
“A gente tá de carro. Eu te levo.”
“Eu trabalho ali mesmo.”
“Onde?”
“No café do estacionamento.”
Miori virou as costas para o mar e foi embora. Subiu as escadas perto do quebra-mar. Sakuta a observou em silêncio.
Cada um seguiu sua própria linha. Caminhos que avançavam em frente, sem jamais se cruzar. Esse era o estado atual da relação entre eles.
2
Sakuta devolveu o carro alugado em Ofuna antes das cinco. Depois disso, pegou a Linha Tokaido e voltou para Fujisawa.
Levou menos de cinco minutos.
Ele seguiu os outros passageiros até a plataforma, subiu as escadas e passou o cartão nas catracas. Seus pés o levaram até a saída norte, mas, em vez de ir para casa, ele seguiu em direção ao cursinho perto da estação.
Sakuta não tinha aula naquele dia, mas, numa tarde de sábado como aquela, imaginou que a Rio estaria lá. Ele queria perguntar a ela sobre a Miori.
Ao se aproximar do prédio, viu alguém muito alto perto dos elevadores.
Toranosuke Kasai.
O garoto tinha quase um metro e noventa.
“Estudo individual?”, Sakuta perguntou.
“Hm? Ah, Azusagawa-sensei. Basicamente isso. Queria revisar o simulado.”
O elevador chegou, e os dois entraram.
Toranosuke apertou o botão. O elevador começou a subir, e ele soltou um longo suspiro.
“Desanimado?”
“Tô indo.”
“Resultado do teste não foi bom?”
“Bem ruim.”
“Então o sonho virou realidade”, Sakuta murmurou.
“……?” Toranosuke franziu a testa.
Assim como a Tomoe e a Sara, ele não lembrava da hashtag do sonho.
“Bom, a prova de verdade ainda tá a quase um ano. Não deixa isso te afetar. Na primavera do meu terceiro ano, meu simulado foi simplesmente horrível.”
“É…”
Claramente, ele não estava bem. Parecia meio desligado.
Assim que entraram no cursinho, ficou claro que não era só por causa do simulado.
Quando as portas se abriram, Toranosuke cumprimentou a área dos professores.
Sakuta foi logo atrás, mas o garoto parou de repente, e ele quase esbarrou nele.
“Ei… o que foi?”
Ele se inclinou para o lado, tentando ver o rosto de Toranosuke. O olhar dele estava fixo em algo entre o espaço livre e a área dos professores.
Sara estava no balcão, fazendo uma pergunta à Rio. Ela respondia com atenção, apontando algo nas anotações. Os olhos de Toranosuke estavam em Rio, e ele parecia ainda mais sério do que ela.
“Deve ser difícil se apaixonar pela namorada de um veterano do seu time de basquete.”
A realidade havia sido reescrita, mas os sentimentos de Toranosuke por ela não. Se algo, as mudanças no relacionamento entre Rio e Yuuma só tinham deixado tudo ainda mais complicado.
“Eu não… a Futaba-sensei é só…”
Ele gaguejou numa negação, mas sem muita convicção.
“Muito obrigada, Rio-sensei!”, disse Sara, fechando as anotações de uma vez. Foi nesse momento que as duas perceberam Sakuta e Toranosuke.
“Vou para as salas de estudo individual”, disse este último, saindo de cena rapidamente.
Pouco depois, Sara se aproximou.
“Sakuta-sensei, você nem tem aula hoje, né? O Yamada e o Yoshiwa estavam falando em ir para Kamakura.”
“Eu vim por causa da Futaba.”
“Eu vou dar aula agora para a Himeji.”
Rio saiu da área dos professores, sem demonstrar incômodo.
“Eu espero você terminar.”
“Depois da aula, vou jantar com o Kunimi.”
“Que horas?”
“Oito.”
Eram seis. As aulas duravam oitenta minutos, então ela terminaria às 7:20.
“Me dá esses quarenta minutos.”
“...Não posso garantir nada, mas posso tentar te dar esses minutos comigo. Mas vai ter um juros caro, Azusagawa...”
Ela não parecia nem um pouco motivada. Muito pelo contrário.
Ele imaginava o motivo.
“Obrigado”, ele disse.
Sara observava tudo com interesse, mas Sakuta fingiu não perceber.
3
Quando Sakuta terminou de contar tudo, as xícaras de café dos dois já estavam vazias.
Eles estavam sentados no balcão de um café absurdamente sofisticado perto do cursinho. Pelas janelas de vidro, tinham uma ótima vista do movimento na rua.
O lugar tinha licença para vender bebida alcoólica, e um casal na casa dos vinte e poucos anos, sentado mais ao fundo, ria alto demais. Deviam ser clientes habituais; os funcionários conversavam animados com eles.
“Isso é tudo o que aconteceu comigo nos últimos dias.”
Mai dizendo ser Touko Kirishima, a Kaede panda esperando por ele em casa, todo tipo de mudanças estranhas e a descoberta de que a verdadeira Touko Kirishima já estava morta havia muito tempo. E que ela tinha sido a doadora da Shouko. Por fim, o fato de que a Miori Mitou, da faculdade, era a verdadeira cantora usando o nome Touko Kirishima.
“O que você acha disso?”
Rio tinha escutado em silêncio, mas então suspirou. Seu olhar estava voltado para as pessoas do lado de fora, embora não parecesse realmente enxergá-las.
“Você disse muitas coisas difíceis de acreditar, mas aceitando tudo por ora… o que você pretende fazer?”
O tom de Rio soava como um teste.
“Boa pergunta.”
“Você quer a Sakurajima-senpai de volta?”
“Bom, claro.”
Provavelmente esse era seu objetivo principal.
“Ou você quer se redimir com a Miori Mitou e com a Touko Kirishima?”
“……”
Ele não tinha uma resposta pronta para isso. Sakuta desviou o olhar do rosto de Rio para a rua.
“Eu não acho que tenha culpa alguma em relação à Mitou.”
Ele não tinha certeza se mudar o futuro tinha causado o acidente da Touko. Pelo menos não de acordo com a explicação de Rio sobre o efeito borboleta.
“Então o que você acha?”
Ele pensou um pouco e chegou à mesma conclusão.
“Acho que eu quero ser amigo dela.”
Não apenas no sentido superficial da palavra. “Amigo” já não significava a mesma coisa depois de descobrir que a Touko tinha sido a doadora da Shouko. Ainda assim, era a única palavra que ele tinha para descrever sua relação com a Miori.
“Você quer desfazer tudo o que foi reescrito?”
A última pergunta de Rio vinha carregada de um significado pesado. Era impossível não notar a queda na temperatura. Sakuta tinha certeza de que não era só impressão.
Havia tensão em sua voz. O ar ao redor deles parecia crepitar.
Ele não precisava se perguntar o porquê.
Se tudo voltasse ao normal, a vida de Rio seria reiniciada. Rio e Yuuma voltariam a ser apenas amigos, não estariam mais namorando.
Então Sakuta deixou a pergunta sem resposta e fez outra.
“Se a Mitou continuar reescrevendo tudo, você acha que, algum dia, ela vai encontrar uma realidade em que a Touko Kirishima esteja viva?”
“Eu não acho.”
Rio não hesitou de verdade.
“Com base em quê?”
“A maioria das mudanças que você percebe se relaciona às postagens com a hashtag #sonhando, feitas antes da reescrita da realidade.”
Isso era bem evidente.
“É verdade. Houve sonhos sobre a Mai dizendo ser a Touko Kirishima, sobre as duas Kaedes, sobre você e o Kunimi.”
E também sobre o mau resultado do simulado do Toranosuke, e sobre o Kento e a Juri se aproximando.
“E, antes da realidade ser reescrita, eu te disse o que esses sonhos eram.”
“Visões de um outro mundo possível.”
Rio assentiu.
“Temos que assumir que esses sonhos permitiram que alguém enxergasse essas possibilidades e as transformasse em realidade.”
(N/T: basicamente um demônio de Laplace numa escala gigante)
“Em outras palavras, se ninguém sonhou com a Touko Kirishima viva, então não há como reescrever a realidade do jeito que a Mitou quer?”
“Quem deveria estar sonhando com a Touko Kirishima é ela.”
“É.”
Se fosse isso mesmo que a Miori desejava.
“Nesse caso, ela não quer realmente vê-la de novo”, disse Rio.
Uma virada completa de raciocínio.
Mas não inesperada.
“……”
Sakuta percebeu que concordava, e isso fez sua expressão se fechar.
“Vejo que você chegou à mesma conclusão, Azusagawa.”
O jeito da Miori tinha plantado essa ideia em sua cabeça.
E, se Rio estava apontando a mesma coisa, ele não podia simplesmente ignorá-la.
“A Síndrome da Adolescência quase sempre concede o desejo de quem a manifesta”, disse ele.
“Exatamente.”
“A Mitou diz que quer ver a Touko Kirishima, mas ainda assim nunca a encontrou.”
“Talvez ela esteja fugindo.”
“Da Touko Kirishima?”
Rio assentiu, olhando para as próprias mãos.
“Ou, pelo menos, da morte da Touko Kirishima.”
O comportamento da Miori sugeria isso. Era difícil entender o que ela realmente sentia, difícil saber onde estava seu coração — e isso tinha levado Sakuta a essa impressão.
Eles ficaram em silêncio. Então o celular de Rio vibrou sobre a mesa.
Ela deu uma olhada.
“Kunimi?”
“Uhum. Ele já está chegando.”
Em menos de um minuto, eles viram o rosto dele do lado de fora. Yuuma os avistou pela janela e acenou.
Rio se levantou.
“Olha, Azusagawa”, disse ela, sem encará-lo.
“Oi?” respondeu ele, mantendo os olhos em Yuuma.
“É até aqui que eu vou.”
Ela deixou isso bem claro.
“Já é o suficiente.”
Sakuta tentou sorrir, mas não conseguiu.
Ele sabia para onde aquilo levava, e por isso não teve forças para fingir.
“Eu gosto mais assim”, disse Rio, observando Yuuma chegar à porta. Ele sorria, feliz, sem perceber nada fora do comum. Para ele, era apenas mais uma noite agradável.
“Eu vou indo”, disse Rio, sem esperar resposta.
Ela se juntou a Yuuma na porta, e os dois seguiram em direção à estação.
Yuuma ainda se virou uma vez, acenando para Sakuta.
O retrato da felicidade.
E aquilo apertou seu peito.
4
Sakuta ficou sentado por um tempo depois que Rio e Yuuma foram embora. Quando finalmente saiu do café, deixou a área iluminada da estação e seguiu pela rua que percorria quase todos os dias.
Andou devagar, refletindo sobre as palavras de Rio.
“Eu gosto mais assim.”
Vê-la ao lado de Yuuma o fez perceber que sentia o mesmo.
Essa consciência diminuiu seu ritmo. Ele queria organizar seus sentimentos antes de chegar em casa. E, por isso, prolongou o caminho de volta.
O que normalmente era uma caminhada de dez minutos levou vinte.
Ele chegou ao prédio ainda sem ter clareza dos próprios pensamentos.
Ainda existia um conflito interno extremamente confuso dentro dele.
Ele entrou no elevador, com a cabeça a mil.
Quando abriu a porta de casa e disse “Cheguei”, o “eu gosto mais assim” ainda ecoava em sua mente.
“Sakuta, bem-vindo de volta!”, disse Kaede, vindo recebê-lo.
Só então ele conseguiu sair daquele turbilhão de pensamentos.
“Eu dei oi pros pandas por você!”
Ela tinha cumprido a missão que ele havia dado.
Ao ver aquele sorriso inocente, ele acabou perguntando:
“Você gosta mais assim?”
(N/T: ESSA DOEU KKKKK……..)
“Assim como?”, perguntou ela, inclinando a cabeça. Inclinou tanto que o corpo inteiro acompanhou o movimento.
“Não é nada, esquece.”
Ele tirou os sapatos e entrou no apartamento.
“Eu quero ficar com meu irmão pra sempre!”
Não era uma frase incomum. Kaede dizia coisas assim com frequência.
(N/T: todo mundo prefere a Kaede panda né, aposto que até o Sakuta prefere ela kkkk)
(Revisor/Levi: Vão me crucificar, Mas eu prefiro a outra)
Mas o sorriso dela era tão radiante que acendeu algo dentro dele. O calor percorreu seu corpo, acumulando-se atrás dos olhos.
“……”
“Sakuta?”
Ele estava à beira de chorar.
A única coisa que impediu as lágrimas foi o toque do telefone.
Ele foi até a sala.
O visor mostrava o número da Shouko.
“Eu atendo”, disse a Kaede, pegando o telefone. “Aqui é o Azusagawa.”
“Sakuta? Sou eu, a Shouko.”
“Eu ia te ligar. Sobre a Mitou.”
“Então quer se encontrar agora?”
“Agora?”
Ele olhou o relógio. Eram oito e meia.
“Tem uma coisa que eu quero te mostrar.”
O tom dela era sério. Calmo, mas firme. Devia ser algo importante.
“Tá bom”, disse Sakuta.
A voz dele ecoou pela linha.
Ele encontrou Shouko no mesmo restaurante da Estação Fujisawa onde trabalhava meio período. Quando entrou, viu-a sentada em um box perto da janela, acenando para ele.
O lugar estava só pela metade, numa noite tranquila. Sakuta pediu apenas o drink bar e se sentou de frente para Shouko.
“Obrigada por vir.”
“Imagina, eu cheguei agora há pouco.”
“Então, o que você queria me mostrar?”
“……”
Quando ele foi direto ao ponto, Shouko lançou um olhar estranho.
“O quê?”
“O que aconteceu com você, Sakuta?”
“Como assim?”
“Não é do seu feitio ignorar uma frase clássica de encontro.”
“……”
Essa doeu.
“Mais cedo, a Futaba me disse que gosta mais assim”, confessou ele, achando que não valia a pena esconder.
“……Consigo entender como isso mexeria com você.”
“Eu cheguei em casa e a Kaede estava me esperando… e acho que entendo o ponto da Futaba.”
A Tomoe estudando na mesma escola que ele, a Uzuki continuou a frequentar as aulas — nenhuma dessas mudanças era exatamente ruim. Na verdade, eram até bem-vindas.
“Nesse caso, você quer deixar tudo como está?”
“Eu preciso trazer a Mai de volta ao normal.”
O resto era uma escolha difícil. Havia prós e contras. Alguns ele simplesmente não conseguia decidir.
Shouko pareceu satisfeita com a resposta e seguiu adiante.
“Você conversou bem com a Miori? Vocês saíram para dar uma volta, né?”
“A Mitou disse que queria ver a Touko Kirishima de novo. Mas, quando eu contei isso pra Futaba, ela sugeriu o contrário.”
“Ela não quer vê-la?”
“Não sei por que a Mitou se sentiria assim, mas, pela situação…”
“Nesse caso, ainda bem que te liguei hoje.”
“Hm?”
“Era isso que eu queria te mostrar.”
Shouko tirou da bolsa o diário de troca entre a Touko e a Miori. Aquele que a mãe da Touko tinha lhe dado. Ela o colocou sobre a mesa e folheou as páginas.
Até parar na que procurava.
A data escrita ali era 24 de dezembro.
“O dia em que a Touko Kirishima morreu?”
“Sim, aquela véspera de Natal.”
Sakuta sentiu como se reconhecesse a escrita.
Ao observar melhor, percebeu que eram letras de uma música da Touko Kirishima.
A mesma que a Mai cantou no palco no dia 1º de abril.
“Fico feliz por ter te conhecido.
Mas não é assim que eu vejo as coisas.
Minha alma gêmea já não está mais por aí.
Ainda assim, todas as canções de amor que ouvimos dizem o mesmo.
Nós vamos nos encontrar de novo.
Não tenha medo de se perder.
Levante-se, escancare essa porta e saia para fora.
Mas o futuro não é garantido.
Amanhã estarei sozinha outra vez.
Sem ninguém para dividir as coisas.
Esse vazio oco no meu coração.
Se eu tiver que me sentir assim…
Eu queria nunca ter te conhecido.”
Abaixo da letra estava o título da música: “Turn the World Upside Down”.
Aquela era a última entrada do diário de troca. Todas as páginas seguintes estavam em branco.
“Essa foi a anotação da Touko Kirishima?”
“Tenho certeza. As caligrafias delas são bem diferentes.”
As letras da Miori eram afiadas e angulosas, enquanto as da Touko eram mais arredondadas.
“A Mitou disse que deveria encontrar a Touko Kirishima naquele dia.
Elas tinham brigado na semana anterior e iam fazer as pazes.”
“Mas a Touko sofreu um acidente a caminho de encontrar a Miori.”
“Sim.”
“Então, na mente da Miori, essa letra virou as últimas palavras da Touko.”
Shouko tocou na última linha da música.
“……‘Eu queria nunca ter te conhecido.’”
“Exatamente.”
“É um bom motivo pra ela estar fugindo. Se a sua melhor amiga dissesse isso, ia doer.”
“Mas eu acho que ela está interpretando isso errado”, argumentou Shouko.
“Como assim?”, perguntou Sakuta, sem entender bem.
“Tem algo que eu preciso contar à Miori sobre essa letra.”
“……”
“Sakuta”, disse Shouko, olhando-o diretamente nos olhos.
Ele já sabia o que ela diria a seguir, então preferiu ficar em silêncio.
“Me leve até a Miori Mitou.”
Fim do volume 14
Um dos melhores volumes dessa série!
Traduzido por Moonlight Valley
Link para o servidor no Discord
Entre no nosso servidor para receber as novidades da obra o quanto antes e para poder interagir com nossa comunidade.
Comentários do capítulo 71
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.