A Senpai CoelhinhaVolume 15 – Capítulo 2 – Capítulo 2: A Canção-Resposta Continua a Ressoar
Capítulo 731
O carro saiu do estacionamento da equipe da Yokohama Arena, seguindo de volta pelo mesmo caminho em direção a Fujisawa. Já dava para ver o Entroncamento de Hodogaya logo à frente.
Ninguém disse uma palavra desde que a viagem começou.
Miori estava no banco de trás, olhando pela janela exatamente como na ida. Mas a atmosfera era completamente diferente. O penteado meio preso agora estava solto, e a maquiagem tinha passado de natural para maquiagem de palco.
As roupas também eram outras. Sakuta tinha dado a ela uma jaqueta da equipe, que agora estava jogada sobre os ombros, por cima do figurino.
No banco do passageiro, Shouko estava concentrada no celular, rolando o feed. Sakuta conseguia ver várias postagens.
“Desculpa fazer você esperar, mas vou deixar a Makinohara em casa primeiro”, disse ele.
O relógio do carro marcava quase oito horas. Shouko respondeu “Obrigada”, e Miori murmurou um “Tanto faz”.
Eles entraram na via expressa.
O velocímetro subiu rapidamente conforme o carro acelerava. Quando atingiram uma velocidade estável, Shouko falou:
“Pelo que estou vendo, a Mai fez um ótimo trabalho conduzindo o resto da transmissão.”
“Essa é a minha Mai.”
“Nossa Mai”
As duas disseram isso ao mesmo tempo.
“O show no Red Brick Warehouse foi uma pegadinha de Primeiro de Abril. O plano sempre foi fazer uma revelação surpresa hoje. Já pesquisei, e os sites de notícias já estão publicando matérias sobre o show de hoje.”
“Rápidos, hein.”
‘Mai Sakurajima era falsa! Quem é a verdadeira Touko Kirishima?!’
“Falsa” era puro clickbait. Mas se isso ajudasse a espalhar a verdade sobre Touko Kirishima, tudo bem. Quanto mais gente soubesse, melhor.
“As gravações do show já estão nos sites de streaming. As visualizações estão disparando.”
“Tomara que isso acabe com a confusão sobre a Mai.”
Pelo menos, Mai já não acreditava mais que era Touko Kirishima. Só isso já o deixava extremamente aliviado.
“Que bom”, disse Miori, soltando um suspiro de alívio.
“Mas também estão falando de você, Miori.”
“Como assim?”
‘Ela estuda na minha faculdade!’ ou ‘Essa é a Miori Mitou! A gente faz o mesmo curso!’ Tem bastante coisa assim.”
“……”
Miori não respondeu.
Seu rosto continuou voltado para a janela, sem demonstrar emoção.
“Amanhã você vai ser cercada na faculdade.”
“Talvez eu fique em casa.”
“Se fizer isso, só vai piorar no dia seguinte.”
“É… faz sentido.”
Ela riu, mais para si mesma do que para os outros. Soava como a Miori de sempre. Isso convenceu Sakuta de que tinha feito a escolha certa. Ele tinha feito algo bom e esse pensamento trouxe um leve sorriso ao seu rosto.
“Isso não tem graça”, disse Miori, franzindo os lábios.
“Eu não estou rindo.”
“Estava, sim.”
“Não estava.”
“Estava, sim!”
Eles ficaram discutindo por um tempo enquanto o carro seguia rumo a Fujisawa.
Sakuta parou perto do parque próximo à sua casa por volta das oito e meia.
“Tá bom aqui?”, perguntou ele, enquanto Shouko soltava o cinto.
“Sim, obrigada por me trazer. Eu consigo ir andando daqui.”
Ela saiu do carro, e Sakuta também desceu. Estava sentado há um tempo e queria se alongar um pouco.
“Hum… Mitori”, disse Shouko do lado de fora. Miori abaixou o vidro do banco de trás. “Achei melhor te devolver isso.”
Shouko tirou um caderno da mochila.
O diário de troca de Miori e Touko.
Os olhos de Miori se fixaram nele.
“Depois do acidente, eu fui até a casa da Touko. Só uma vez. A mãe dela me deixou entrar no quarto. Disse que eu podia pegar qualquer coisa que precisasse. Mas eu não queria ver aquela última página de novo… então deixei o quarto diário lá.”
“Você ainda não quer?”
“É meio doloroso, sabe? Eu achava que conhecia a Touko melhor do que qualquer um.”
Com um sorriso sem jeito, Miori estendeu a mão e pegou o diário.
Depois, o abraçou contra o peito.
“Estou feliz por ter conhecido a Touko.”
Essas palavras não eram para os ouvidos do Sakuta.
Nem eram para a Shouko.
Eram para a garota que já não estava mais ali para ouvi-las.
Aquele pequeno conjunto de palavras estava cheio de ternura e calor.
Todos os sentimentos da Miori estavam contidos naquela única frase.
“Bom, boa noite!” disse Shouko, inclinando a cabeça. Ela seguiu em direção à sua casa, virando-se uma vez para acenar. Sakuta acenou de volta.
Logo, Shouko sumiu de vista.
Sakuta voltou para o carro, fechou a porta e colocou o cinto de segurança.
“Estação Ofuna?” ele perguntou.
“Azusagawa,” disse Miori. Não era nem um sim, nem um não.
“O quê?” ele perguntou, em tom suave.
“A gente pode fazer uma parada?”
“Quer ir em algum lugar?”
“Enoshima.”
Sem responder, ele ligou o motor.
2
Em seguida, ele estacionou no estacionamento administrado pela Associação de Turismo de Enoshima.
“Vou me trocar. espera lá fora.”
Miori ainda estava com a roupa de palco, então fez ele sair primeiro.
Ele se afastou o suficiente para não parecer suspeito, e cinco minutos depois, a porta se abriu. Miori apareceu com o vestido de antes, usando o casaco militar por cima. Ela até tinha arrumado o cabelo de volta no meio preso de sempre.
Mas, por algum motivo, estava esfregando a barriga.
“A Mai é magra demais. Achei que ia rasgar aquela roupa.”
(N.R.: Madeira fina, o prego entra mais fácil)
“Vou falar pra ela comer mais.”
“Imagino que você ia querer um pouco mais pra segurar quando abraça.”
“Um pouco? Tenta bastante.”
Eles saíram do estacionamento, passando pelas luzes das barracas que vendiam frutos do mar grelhados na hora. Seguiam em direção à estrada principal de Enoshima, que levava até o santuário.
O sol já tinha se posto, mas ainda havia turistas por ali. Um casal jovem tirava fotos na ponte Benten, mostrando uma para o outro e rindo felizes.
Sakuta e Miori passaram direto por eles, seguindo para a subida do santuário. Já estava um pouco tarde para alguém estar subindo naquele horário. Todos os outros estavam descendo. Pareciam cansados; talvez tivessem ido até Chigogafuchi, no fundo de Enoshima, o que exigia subir e descer muitas escadas.
Indo contra o fluxo das pessoas, Sakuta e Miori continuaram subindo.
Havia lojas de lembranças, casas de dumplings e restaurantes ao longo do caminho, mas todas estavam fechadas. Até a loja que vendia senbei com polvo que sempre tinha fila estava com as portas abaixadas.
N/R: Sembei é um tipo de aperitivo de arroz japonês. Eles são feitos em vários formatos, tamanhos e sabores, normalmente salgados, mas às vezes doces. O sembei é muitas vezes comido com chá verde como um aperitivo e oferecido a visitas como uma cortesia.
A escada rolante Enoshima Escar, que levava turistas até o topo mediante pagamento, já não estava funcionando.
Eles teriam que subir aquelas escadas por conta própria.
Miori não parecia se importar, então Sakuta colocou o pé no primeiro degrau.
“Primeira vez em Enoshima?” ele perguntou, enquanto ela dava o primeiro passo.
“Primeira vez à noite. Segunda vez no geral.”
“Com quem você veio antes?”
Ele já tinha quase certeza da resposta, por isso perguntou.
“Com a Touko, na viagem de formatura do ensino fundamental.”
Exatamente o que ele esperava.
“A Touko disse que queria ver onde os filmes da Mai foram gravados,” disse Miori. Ela já começava a ficar um pouco ofegante.
“Vocês também foram até Shichirigahama?”
“Fomos. Pegamos ônibus e trem desde a nossa cidade. Quatro horas pra ir e quatro pra voltar.”
Miori fez uma careta ao lembrar do cansaço. Mas sua voz soava calorosa.
O sorriso em seus lábios deixava claro que agora aquilo era uma lembrança querida.
Eles continuaram subindo por um tempo, até chegarem ao patamar intermediário, onde ficavam as fontes para lavar as mãos. A essa altura, os dois já estavam sem fôlego. Seguiram o procedimento adequado, lavaram as mãos e retomaram a subida.
Um passo de cada vez.
Devagar, mas constante.
Finalmente, deram o último passo e se viram diante do santuário principal. Enoshima tinha três santuários, e o primeiro que os visitantes encontravam era o Hetsumiya, dedicado a Tagitsuhime.
Muitas pessoas visitavam o local, mesmo durante a semana, mas naquele horário havia apenas dois ou três casais por ali.
“Foi até aqui que eu e a Touko chegamos.”
Miori se virou, olhando a paisagem atrás deles. Através das árvores, dava para ver o caminho que tinham subido e a grande ponte lá embaixo.
“Vocês levaram quatro horas pra chegar aqui e voltaram tão cedo? Pelo menos deviam ter ido até o mirante lá em cima.”
A maioria dos visitantes de Enoshima fazia isso.
“A Touko queria, mas a viagem de volta levava quatro horas, e o último ônibus é surpreendentemente cedo… então eu convenci ela de que poderíamos voltar outra vez.”
Mas, infelizmente, isso não aconteceu.
“Se eu soubesse que isso ia acontecer, não teria me preocupado com o tempo. A gente devia ter ido até o topo. Eu queria mostrar pra Touko tudo que essa ilha tem a oferecer. Até pegar fila para aqueles biscoitos de polvo.”
Com os olhos na paisagem, Miori expressou seus arrependimentos.
Eles ficaram em silêncio por um momento. Dez segundos se passaram. Vinte. Depois de um tempo assim, os dois se viraram de volta para o santuário e caminharam até ele.
Miori jogou uma moeda, e Sakuta fez o mesmo.
Ele juntou as mãos, como ela estava fazendo.
Mas não fez nenhum pedido.
Ele não conseguia pensar em nada que valesse a pena pedir.
“……”
Sem dizer nada, eles se afastaram do santuário e seguiram mais para dentro da ilha.
“O que você acha que a Touko pediu?”
“Vir aqui com você de novo, Mitou.”
“E o que você acha que eu pedi?”
“Conseguir pegar o ônibus a tempo.”
Miori não disse se ele estava certo ou não.
“Só metade desses desejos se realizou,” ela disse, com uma risada leve.
“Eu diria que é uma taxa de sucesso bem boa.”
“Você é irritante.”
Miori caiu na risada.
O riso dela se dissolveu na quietude da noite em Enoshima. Só as árvores ao redor ouviram. Talvez a lua redonda acima de suas cabeças. Não havia mais ninguém nas escadas que levam ao próximo santuário, o Nakatsumiya.
Ao ver mais escadas, Miori fez uma careta, mas não reclamou.
“A Touko gostou muito daquela viagem,” ela começou. “‘É igualzinho ao filme!’, ela disse.”
Miori parava de vez em quando para recuperar o fôlego.
‘Essa é a praia por onde a Mai caminhou!’ Ela tirou um monte de fotos.”
Miori falava devagar enquanto compartilhava essas memórias.
“Ela se divertiu tanto.”
Depois de um tempo, as escadas acabaram, e eles chegaram ao Nakatsumiya. Rezaram no santuário vazio e seguiram ainda mais adiante.
Mais escadas os esperavam.
Miori lançou um olhar irritado para elas.
“Se a gente subir, tecnicamente chegamos ao topo da ilha,” disse ele.
Ela lançou aquele olhar irritado na direção dele.
Então suspirou e começou a subir também, cansada demais para falar.
Tanto Sakuta quanto Miori estavam totalmente focados em manter os pés em movimento. Sem fôlego, mas se forçando a continuar, como se parar para descansar fosse admitir derrota.
No topo, finalmente pararam, recuperando o fôlego.
Havia suor na testa dele, escorrendo também por dentro das roupas.
Miori também ficava enxugando a testa.
Quando conseguiram respirar um pouco melhor, Miori deu alguns passos à frente, meio instável. Parecia estar sendo atraída pelo Jardim Samuel Cocking, onde ficava o Sea Candle, o símbolo de Enoshima, perto do Mirante.
Esse jardim ficava cheio de luzes no inverno e tinha diferentes exposições de flores a cada estação.
Sendo um ponto turístico popular, normalmente era lotado mas não naquela noite. Já tinha passado do horário de funcionamento, e os portões estavam fechados.
“Eu achei que ia poder compensar as oportunidades que perdi,” disse Miori, fazendo uma careta, olhando para os portões fechados.
“Você pode voltar outra vez. Quando quiser,” disse Sakuta, seguindo em frente, afastando-se do Jardim Samuel Cocking.
Ele atravessou o espaço aberto até parar em um deck com vista para o oceano. Não se comparava à vista do Sea Candle, mas ainda assim dava para ver bem a Praia de Kugenuma e as luzes de Chigasaki. As luzes vermelhas e brancas dos carros na Rota 134 formavam um fluxo contínuo ao longo da costa.
“Você vem comigo de novo, Azusagawa?” perguntou Miori, olhando a paisagem.
“Quando o Escar estiver funcionando.”
“Você não pode simplesmente dizer isso e depois sumir.”
Ela estava dando um passo importante com aquelas palavras.
“Isso deixaria a Mai triste, então pretendo viver bastante.”
Ele não iria desaparecer como Touko Kirishima desapareceu.
“Você é muito irritante!” Miori riu, entendendo o que ele quis dizer.
Não havia nada de falso naquele sorriso.
“Fazia tempo que eu não falava tanto sobre a Touko,” ela murmurou, apoiando os braços no corrimão do deck.
“Ficou feliz por ter falado?”
“Fiquei. Mas também não consigo acreditar.”
“Por quanto tempo passou?”
Com os olhos voltados para baixo, Miori balançou a cabeça.
“……A Touko virou uma lembrança.”
“……”
“Acho que isso quer dizer que eu aceitei a morte dela.”
Ela parecia pesar cada palavra, como se estivesse conferindo os próprios sentimentos.
“Eu me formei no ensino médio, fui pra faculdade, segui sozinha…”
Soava como se estivesse tentando entender algo dentro de si.
“Eu segui com a minha vida como se não importasse que ela se foi. É isso que eu não consigo acreditar.”
As palavras dela se perderam no céu da noite, como se fossem destinadas a algum lugar muito, muito distante.
Ela olhava para as próprias mãos apoiadas no corrimão, com um olhar triste. Naquele momento, parecia profundamente sozinha.
Miori parecia estar se segurando por um fio, como se a solidão e a tristeza pudessem transbordar a qualquer instante.
“Azusagawa.”
“O quê?”
“Quando a Touko morreu… em vez de fugir, eu devia ter tentado de novo, como você fez?”
“……”
Ele não tinha uma resposta para aquilo. Não podia concordar, discordar, nem oferecer consolo. Era algo que ela guardou por muito tempo, sem conseguir compartilhar com ninguém.
O simples fato de dizer aquilo em voz alta já tinha um significado.
Sakuta percebeu que o fato de aquelas palavras terem chegado até ele já era a resposta que ela precisava.
E ela mesma confirmou isso logo em seguida.
“Enfim…,” disse ela, com um sorriso meio sem graça.
“Mitou.”
“Mm?” Ela se virou para ele.
“Pode me chamar a qualquer hora…”
Ele não tirou os olhos da paisagem, mas suas palavras foram diretas até ela.
“…qualquer hora que quiser falar sobre a Touko Kirishima.”
“Acho que nem preciso perguntar o motivo.”
“É pra isso que servem os amigos.”
Ele fez questão de usar aquela palavra.
“Me diz, Azusagawa.”
“O quê?”
“Você tá pronto pra comprar um comigo?”
“Comprar o quê?”
Miori estava olhando para um casal que tirava selfies no mirante. O que significava que havia um celular nas mãos deles, brilhando.
“Se é ‘a qualquer hora’, então você vai precisar de um jeito de eu entrar em contato.”
“Justo.”
Ele estava menos relutante do que imaginava.
“Pode ser útil pra marcar a próxima ida a Enoshima.”
“Vou pensar no caso.”
Essas palavras saíram mais por hábito do que por outra coisa.
“Aff, esse cara nunca vai comprar um.”
Ela riu da falta de decisão dele.
Ele mesmo fez uma careta por causa disso.
E por um tempo, eles ficaram ali, sob a luz do luar. Logo depois desceram as escadas.
"E quando vocês vieram naquele dia,isso foi tudo que vocês viram?" ele perguntou.
"Foi," Miori respondeu. "A gente já tava exausta."
"Faz sentido."
Eles ficaram um tempo em silêncio, olhando a paisagem.
A brisa noturna soprava suave, carregando o cheiro do mar.
Lá embaixo, as luzes da cidade se espalhavam como um tapete brilhante.
"E aí?" Sakuta perguntou.
"O quê?"
"Você disse que queria parar aqui."
"Ah..."
Miori caminhou até a frente do santuário.
Parou diante da caixa de oferendas.
Por um instante, só ficou ali parada.
Então pegou uma moeda.
O som do metal ecoou quando caiu lá dentro.
Ela juntou as mãos.
Fechou os olhos.
Rezou em silêncio.
Sakuta observava de lado, sem dizer nada.
Depois de alguns segundos, ela abriu os olhos.
"E aí? Fez um pedido?" ele perguntou.
"Fiz."
"E vai me contar qual foi?"
"Nem pensar."
"Fria."
"Regra básica de pedido. Se contar, não se realiza."
"Isso é superstição."
"Mesmo assim."
Ela deu de ombros.
Mas havia algo diferente nela.
Algo mais leve.
"Vamos voltar?" ela disse.
"Já?"
"Eu… eu já resolvi…. Resolvi tudo o que tinha que resolver aqui."
Ela virou de costas para o santuário.
Sem hesitar.
Sakuta a seguiu.
Desceram os degraus em silêncio.
Agora, o fluxo era o contrário — quase não havia mais ninguém subindo.
Só eles dois descendo.
"Azusagawa."
"O quê?"
"Obrigada."
Ele olhou para ela.
"Por quê?"
"Por tudo."
Ela não entrou em detalhes.
Mas não precisava.
"De nada."
Eles continuaram andando.
O som dos passos ecoava nos degraus de pedra.
"Então... a gente é amigo agora?" Sakuta perguntou.
"Você ainda tá nisso?"
"Preciso de confirmação."
"Você é insistente."
"Isso é um sim?"
Miori pensou por um segundo.
"Talvez."
"Isso é basicamente um sim."
"Não se empolga."
Mas ela estava sorrindo.
E dessa vez— não parecia forçado.
3
Sakuta e Miori saíram de Enoshima pouco antes das dez. Eles correram de volta para o estacionamento ao lembrarem que a polícia estava prestes a fechar a Ponte Benten.
A viatura já estava lá quando passaram. O carro alugado seguiu em direção à estação Shonan-Enoshima do monotrilho.
“Posso te levar até Ofuna.”
“Não, tô com vontade de andar de monotrilho,” Miori insistiu.
O carro parou em frente à estação deserta, e Miori desceu.
“Te vejo na faculdade amanhã,” disse ela, inclinando-se pela porta.
“Te vejo lá,” ele respondeu.
Miori acenou com um sorriso e fechou a porta.
Parecia que ela tinha resolvido algumas coisas dentro de si. Ela observou enquanto Sakuta se afastava de carro.
Ele começou a seguir de volta para Fujisawa. Precisava devolver o carro na locadora perto da estação.
“Volte sempre!” disse o funcionário depois de verificar se havia algum dano.
Sakuta saiu da locadora.
Já eram quase dez e meia.
A essa hora, num domingo, a estação estava bem mais vazia do que nos dias de semana.
Sakuta estava prestes a seguir seu caminho habitual para casa quando ouviu um nome que conhecia.
“Você viu o vídeo? Não era a Mai Sakurajima!”
“A Touko Kirishima, né? Vi sim!”
Duas garotas universitárias, aparentemente um pouco bêbadas.
Dois caras andando atrás delas entraram na conversa. “E a Mai Sakurajima?” “Ela não é a Touko Kirishima.” “Eu ainda não vi isso! Me mostra!” “Você tem seu próprio celular.” “Ah-ha-ha-ha!”
Parecia que estavam voltando de algum encontro e estavam meio animados.
Eles desapareceram dentro da estação.
“As coisas voltaram ao normal.”
A própria Mai disse que não era a Touko Kirishima. Ele tinha ouvido isso.
A Síndrome da Adolescência da Miori tinha reescrito a realidade, então aquelas mudanças deveriam ter sido revertidas hoje.
Tudo deveria estar normal de novo.
Se ele fosse para casa, a Kaede panda não estaria lá.
(N/T: nunca esqueceremos a Kaede panda ✊🏻)
Ele sabia disso…
Sempre soube que isso ia acontecer, mas pensar nisso de forma tão clara deixou suas pernas pesadas e um aperto no peito.
Ele abaixou a cabeça, olhando para o chão.
“Hmm? Senpai?” uma voz chamou.
Ele ergueu o olhar.
“Eu achei que era você!” disse Tomoe, aproximando-se animada. “Por que você tá fora até tão tarde?”
“Eu que devia perguntar isso, Koga. Vai pra casa.”
“Eu tava trabalhando!” ela retrucou, inflando as bochechas. “Agora eu tô na faculdade. Posso trabalhar até mais tarde.”
“Ah, é… verdade.”
Sakuta a observou melhor.
“Q-que foi?”
“Tá gostando da faculdade?”
“Tô me acostumando ainda. É muito difícil decidir o que vestir!”
Esse era bem o tipo de problema da Tomoe.
“E você tem que montar sua própria grade de horários.”
Ela ainda parecia presa nisso.
“É um saco mesmo,” ele concordou.
“Mas eu tenho a Nana comigo, então ajuda. E acho que tecnicamente você também tá lá.”
“……”
Aquele comentário casual incomodou ele um pouco. Na verdade, mais do que um pouco. Se a amiga dela, Nana Yoneyama, e o próprio Sakuta estavam lá… isso significava o que ele estava pensando?
“……Ei, Koga.”
Ele sentiu o corpo ficar tenso.
“O quê?”
O coração dele estava disparado.
“Então você estuda na mesma faculdade que eu?”
Ele quase hesitou ao perguntar. Sua voz saiu rouca.
“Hã? De novo isso?”
Ela revirou os olhos.
Mas então franziu a testa.
“Você tá bem?” perguntou, genuinamente preocupada.
Ela olhou para ele de baixo pra cima. Não parecia entender o que a pergunta dele significava. Claramente, não via nada de errado no que tinha dito.
A reação dela estava deixando Sakuta tonto. Havia uma grande discrepância entre as percepções deles.
A Mai tinha voltado ao normal.
Mas a realidade da Tomoe ainda estava reescrita.
E isso levantava uma nova preocupação.
Se a realidade da Tomoe ainda estava alterada, então talvez a dos outros também estivesse.
O primeiro rosto que veio à mente foi o da Kaede panda.
Ela podia ainda estar em casa.
E esse pensamento fez o medo tomar conta das pernas dele. Era como se estivesse com os pés afundados em um pântano.
“Desculpa, Koga. Surgiu uma coisa. Vai com cuidado pra casa!”
Dizendo isso, ele se virou e saiu correndo.
“Ah, senpai!” ela gritou, mas ele já tinha ido.
Desceu as escadas da passarela.
Batendo o pé no chão enquanto esperava o sinal abrir.
Atravessou a faixa.
Passou pela ponte sobre o rio Sakai.
Desceu correndo a longa e tranquila ladeira, ofegante.
O coração batendo tão forte que doía.
E não era só falta de ar.
O pânico tinha tomado conta dele, como se algo o estivesse perseguindo. Uma névoa densa encobria sua mente. Um medo invisível apertava seu peito. Ele lutava por ar, os pulmões implorando por descanso. Mas continuou correndo. Não podia parar.
Ele precisava chegar em casa o mais rápido possível.
Chegar e confirmar.
Sakuta percorreu uma distância que normalmente levaria dez minutos em apenas cinco.
Saiu disparado do elevador e freou bruscamente diante da porta.
Tentou recuperar o fôlego.
Nenhum som vinha de dentro.
Tudo o que ele conseguia ouvir era sua própria respiração irregular.
Ele tirou a chave do bolso e a colocou na fechadura, com a mão tremendo.
Lá dentro estava escuro e silencioso.
Mas, quando começou a tirar os sapatos, viu um par de mocassins marrons na entrada.
“Esses são da Kaede…”
Então ouviu um miado vindo da sala, e um instante depois, Kaede apareceu vestindo um conjunto de pijama de panda com capuz.
“Bem-vindo de volta, Sakuta!”
Ela levantou as duas mãos para cumprimentá-lo.
“Então você é a Kaede…?”
A voz dele saiu rouca.
“Quem mais eu seria?”
Ela se inclinou, confusa com a pergunta. A dúvida parecia transparecer em todo o corpo dela.
Ele ficou surpreso.
Não fazia ideia de por que a Kaede original não tinha substituído essa.
Mas essa não foi a primeira emoção que sentiu ao vê-la.
“A Mai não era a Touko Kirishima coisa nenhuma! Que reviravolta!” Kaede falou animada, completamente alheia.
Mais do que qualquer coisa, Sakuta sentiu alívio.
Essa Kaede ainda estava ali. Ela tinha permanecido.
E ao perceber isso, uma nova onda de pânico veio junto. Seus pensamentos começaram a girar, como se tentassem esconder o fato de que aquilo o deixava feliz.
A Kaede ainda estava ali.
Esse era um fato.
O que significava apenas uma coisa.
Aquilo ainda não tinha acabado.
A Mai tinha voltado ao normal, mas algumas realidades ainda estavam reescritas.
Como a da Tomoe e a da Kaede.
Quem mais?
“Sakuta?” Kaede perguntou, inclinando-se mais perto. Ela estava confusa com o fato de ele estar parado na porta.
“Não é nada. Cheguei.”
Ele tirou os sapatos e entrou, indo direto para a sala em busca de respostas.
Seus passos o levaram até o telefone fixo.
Apoiando o fone no ombro, ele discou o número da Rio.
Ela não atendeu na primeira vez.
“……”
Nem na segunda.
“……”
Na terceira vez, o toque parou, e a chamada foi atendida.
“O que foi, Sakuta?”
Não era a voz da Rio, mas a de um homem. Ele reconheceu na hora — era Yuuma Kunimi.
“Por que você atendeu, Kunimi? Eu liguei pra Futaba.”
“Ela tá ocupada.”
“Com o quê?”
“Resolvendo um problema de física. Pra aula que ela vai dar amanhã.”
“E você tá fazendo o quê?”
“Me esforçando bastante assistindo minha namorada trabalhar.”
(N/T: kkkkk é o goat né)
(N.R.: Tá aí um esforço que eu nunca vou ter, porque não tenho namorada.)
Aquilo soava como um momento feliz.
(N/T: eu quero um momento assim na minha vida)
“Então o que você quer, Sakuta?”
“Você já me disse tudo o que eu precisava saber.”
O fato de Yuuma chamar a Rio de namorada praticamente respondia todas as dúvidas dele.
“Desculpa interromper.”
Yuuma começou a responder, mas Sakuta ignorou e desligou.
“O que isso significa…?”
“Sakuta? O que tá acontecendo?”
Kaede estava abraçando a Nasuno, olhando pra ele com curiosidade.
Mas Sakuta não tinha respostas.
Ele não fazia ideia do que estava acontecendo.
Queria que alguém explicasse.
Perguntas enchiam sua mente, formando um congestionamento nenhuma conseguia avançar. Ele nem sabia por onde começar a pensar.
A mente de Sakuta simplesmente travou.
Então o telefone tocou.
Por um momento, ele achou que Yuuma estivesse retornando a ligação. Afinal, ele tinha desligado na cara dele.
Mas não era isso.
O número no visor não era da Rio nem do Yuuma.
Mas ele reconheceu.
Ele pegou o telefone e levou ao ouvido.
“Akagi?” perguntou, inclinando-se.
“Sim. Faz um tempo.”
A voz da Ikumi era muito mais calma do que Sakuta estava se sentindo. Mas a escolha de palavras dela o incomodou.
“A gente se viu no festival uma semana atrás.”
Não era tempo suficiente pra dizer “faz um tempo”.
“Kamisato estava preocupada com você. Disse que você ficou incomunicável depois daquilo,” ele comentou, lembrando-se tardiamente.
Antes mesmo de terminar a frase, Ikumi falou por cima dele:
“Eu não falo com este Azusagawa há quatro meses.”
Quatro meses?
Aquilo fez um clique na cabeça dele. E explicava o “faz um tempo”.
“……Você é a Akagi do outro mundo?”
“Você pode sair um pouco? Tem alguém que eu quero que você conheça.”
“Quem?”
“Ele disse que estamos no parque onde você deu uma surra na sua kouhai.”
(N/T: o lendário dia que aconteceu na primeira temporada onde ele chuta a bunda da Koga )
Aquilo era uma frase carregada. Um convite carregado.
“……Entendi. Tô indo.”
O dia já tinha sido cheio, mas claramente ainda não tinha acabado com ele.
4
Em menos de uma hora, o dia viraria. Era um horário em que a maior parte do tranquilo bairro de Sakuta já estava dormindo.
Ele disse à Kaede que sairia por um instante e começou a caminhar pela rua — sem cruzar com uma única pessoa até chegar ao parque.
Uma vez, ele e uma certa kouhai tinham brigado feio ali.
Os postes de luz eram a única fonte de iluminação.
Ele entrou no parque mal iluminado e viu alguém parado perto do colorido brinquedo de escalada.
Ikumi Akagi. A garota que tinha acabado de ligar para ele. Mas não a do seu mundo.
Ela o viu se aproximando e assentiu.
Nenhum dos dois disse nada. A mente de Sakuta já estava focada no banco sob o poste de luz.
A figura ali era maior do que qualquer pessoa.
Era uma fantasia de mascote de coelho rosa, bem familiar.
E aquela cabeça enorme se virou ao som dos passos de Sakuta.
Claramente havia alguém dentro dela.
“A Mitou era a Touko Kirishima,” disse Sakuta, sentando-se ao lado do coelho.
“Eu já sei disso,” respondeu uma voz desconhecida.
A voz soava estranha.
Mas muito parecida com a dele.
“Eu resolvi o problema da Mitou. A Mai voltou ao normal. Mas o resto do mundo ainda está reescrito.”
“Eu também sei disso.”
“E agora a outra Akagi tá aqui. E você também. O que tá acontecendo?”
“Primeiro, deixa eu te corrigir em uma coisa.”
“O quê, exatamente?”
“Miori Mitou não é quem está reescrevendo a realidade.”
“……?”
Aquilo realmente virava tudo de cabeça para baixo.
“Então quem é?”
A pergunta óbvia.
A cabeça do coelho balançou, inclinando-se um pouco na direção dele.
“É você, Sakuta Azusagawa.”
(N/T: ABSOLUTE CINEMA)
“?!”
“A Síndrome da Adolescência da Miori Mitou era algo completamente diferente,” acrescentou o coelho, antes que Sakuta conseguisse reagir.
“Isso não faz sentido. A própria Mitou disse! Toda manhã, ela acordava em uma realidade diferente!”
Ele estava argumentando por puro reflexo.
“Essa era apenas a forma como ela percebia.”
“O que isso quer dizer?”
“Eu suspeito que, originalmente, uma única Miori Mitou existia simultaneamente em todos os mundos possíveis.”
“Simul… Em todos?”
Repetir aquilo em voz alta ajudou um pouco a processar o conceito.
Enquanto organizava os pensamentos, ele perguntou ao coelho:
“Então existe exatamente a mesma Mitou no seu mundo também?”
“Sim. No meu mundo havia uma Miori Mitou idêntica, com as mesmas memórias e experiências. Mesmo que eu e a Akagi sejamos um pouco diferentes em cada mundo — tanto nas nossas escolhas quanto nas nossas personalidades. Em outras palavras, pode-se dizer que, dentre todos os mundos, existe apenas uma Miori Mitou.”
“……”
“Se ninguém tivesse percebido isso, Miori Mitou teria continuado existindo em todos os mundos ao mesmo tempo. Como uma partícula cuja posição não pode ser definida sem observação.”
“Então, se você não sabe onde ela está, ela pode estar em qualquer mundo… certo?”
“Essa é a lógica, pelo menos.”
“Mas alguém percebeu…”
E o coelho já tinha dito quem foi.
“Você veio para o meu mundo, e eu fui para o seu. Sakuta Azusagawa passou a saber que múltiplos mundos existem. Então o que acontece se nós dois observarmos a Miori Mitou ao mesmo tempo?”
“Isso significaria que existem duas versões dela.”
“Mas só pode existir uma única Miori Mitou.”
“Então você tá dizendo que, enquanto eu estou observando a Mitou, é impossível observá-la em outros mundos possíveis? Porque isso seria uma contradição.”
“Na verdade, Miori Mitou já não pode mais ser observada no meu mundo.”
Era isso que significava a mensagem transmitida pela Ikumi no dia do festival.
“Supondo que eu tenha entendido até aqui, como isso prova que sou eu quem está reescrevendo a realidade? A Mitou não continuaria sendo quem tem essa capacidade?”
“Naturalmente, Miori Mitou é metade da causa. Existir simultaneamente em todos os mundos significa que ela também tem a capacidade de observá-los. Ela já conhece todos os mundos que existem. Em outras palavras, todos os mundos se cruzam em um único ponto — Miori Mitou. Ela provavelmente atua como uma espécie de portal, através do qual possibilidades diferentes da sua realidade se tornam perceptíveis para as pessoas do seu mundo. E isso acabou sendo compartilhado através da hashtag #dreaming.”
“……”
“Você também teve um sonho, não teve?”
“Tive.”
“E viu as postagens com a #dreaming.”
“Vi e ouvi. Vários sonhos diferentes.”
“Eles permitem que você observe, de forma inconsciente, outros mundos possíveis.”
“Então, como resultado das minhas observações… você acha que fui eu que reescrevi o mundo?”
“Acho. E de uma forma que te beneficia.”
“……”
“As pessoas interpretam as coisas da forma que querem.”
Aquilo não era fácil de aceitar.
Ele nem tinha certeza se entendia completamente.
Mas tinha absoluta certeza de que a realidade ainda estava alterada.
“E as suas alterações afetaram o meu mundo.”
“……?”
“Kunimi e Futaba. No meu mundo, eles começaram a namorar no outono passado. Isso foi reescrito — agora o Kunimi ainda está com a Kamisato.”
“Então a sua realidade foi puxada para a minha, enquanto a minha foi para a sua?”
“Essa é a suposição mais natural. Provavelmente coisas parecidas estão acontecendo em outros mundos possíveis.”
“A Mitou disse que conheceu várias versões de mim. Acho que ela falou algo como cinquenta?”
“O que significa que existem pelo menos essa quantidade de mundos possíveis.”
“E todos eles estão se misturando…?”
O coelho assentiu lentamente.
“Então como eu faço pra colocar tudo de volta?”
“Simples.”
O coelho se levantou.
“Pare de agir como o observador.”
Os olhos de plástico, sem emoção, encararam Sakuta de cima.
“!”
Aquilo foi perturbador o suficiente para fazê-lo pular de pé.
Ele deu dois ou três passos para trás, mas o coelho avançou meio passo.
Quando tentou recuar ainda mais, alguém se colocou entre os dois.
Ikumi.
Ela ficou na frente do coelho, como se estivesse protegendo Sakuta.
“Você disse que só ia conversar,” disse ela, encarando o coelho com um olhar duro.
“Tô brincando,” respondeu o coelho, rindo. “Isso seria um último recurso.”
Aquilo não parecia nada engraçado.
“Queria que isso também fosse uma piada.”
Um suor frio escorria pelas costas de Sakuta. Ele estava extremamente tenso.
“Então resolva isso agora. Antes que mais versões de nós venham de outros mundos possíveis.”
“Uma versão de mim já é mais do que suficiente.”
“Algumas delas podem tomar medidas mais drásticas do que eu.”
“Isso não tem graça nenhuma.”
“Se existem as duas Kaedes neste mundo, então provavelmente há algum mundo por aí onde não existe nenhuma. Você acha que algum Sakuta Azusagawa aceitaria isso?”
“……”
Ele não aceitaria. Por isso ficou em silêncio.
Talvez o coelho estivesse certo, e outros Sakutas viessem atrás dele. Vestindo suas próprias fantasias de coelho.
“Só posso te dizer mais uma coisa.”
O coelho olhou diretamente nos olhos dele.
“……”
Sakuta sustentou o olhar em silêncio.
“Refute a Síndrome da Adolescência agora.”
“……”
Aquilo nem fez sentido de imediato.
Ele não entendia o que aquilo significava.
Era como se a outra versão dele estivesse falando uma língua desconhecida.
“O que você disse?”
A voz dele saiu rouca.
“Refute a Síndrome da Adolescência agora,” repetiu o coelho.
Palavra por palavra.
A frase ecoava na mente de Sakuta.
“Refute a Síndrome da Adolescência agora.”
“Se você deixar de perceber a Síndrome da Adolescência, vai deixar de ser o observador.”
“……”
“E o problema será resolvido.”
“……Você tá falando sério?”
“Claro. A Síndrome da Adolescência não existe.”
“Eu não posso fazer isso depois de tudo…!”
Ele tentou controlar as emoções, mas sua voz tremia.
“Depois de tudo que eu e a Kaede passamos, quando mais ninguém acreditava na gente…. Você devia saber disso!”
Sua irritação só aumentava.
“Conhecer a Shouko, depois a Mai…! Tudo por causa da Síndrome da Adolescência! Como eu posso simplesmente negar isso agora?!”
Ele achava que o coelho entenderia.
Podiam não concordar em tudo, mas ambos eram Sakuta Azusagawa. Tinham vivido experiências parecidas, compartilhavam memórias semelhantes.
“Tudo isso está na sua cabeça. Até essa conversa — você só está tendo um sonho estranho. Não é real.”
Mas quanto mais Sakuta se exaltava, mais fria ficava a voz do coelho.
E isso só o deixava ainda mais irritado.
“Então eu devo simplesmente esquecer tudo o que aconteceu? Me convencer de que não foi real?”
“Essa é uma solução.”
“O que ia sobrar de mim, então?”
“……”
O coelho não tinha uma resposta para isso.
Ele ficou encarando Sakuta, procurando as palavras certas.
“Conversar com você deixou uma coisa clara,” disse após alguns segundos. “De todos os Sakuta Azusagawa, você é o que mais acredita na Síndrome da Adolescência.”
“……”
“Pelo menos, posso dizer que eu nunca mais encontrei um caso disso depois do ensino médio. Até me envolver no seu.”
(N/T: tô em choque)
O coelho olhou de relance para Ikumi. A troca de lugares dela tinha sido o gatilho, e ele vinha usando ela para enviar mensagens.
“O dia tá prestes a virar,” disse o coelho. Ele estava com um celular na mão.
Ikumi pegou o dela e conferiu a hora.
O relógio na tela dela marcava meia-noite. O longo dia 9 de abril finalmente tinha acabado, e o dia 10 havia começado.
“10 de abril é…” Ikumi ergueu o olhar para o coelho rosa.
“Feliz aniversário, Sakuta Azusagawa. Agora você tem vinte anos.”
Ele ouviu palmas vindo de dentro da fantasia de coelho. Um som oco ecoando pelo parque.
Mas não havia nada de feliz naquilo.
As emoções dele se recusavam a se acalmar.
Tudo em que acreditava tinha sido negado, e seu mundo inteiro parecia virado de cabeça para baixo.
“……”
Ele queria dizer alguma coisa.
Mas nenhuma palavra saía.
O turbilhão dentro dele estava sendo abafado por uma voz pequena e silenciosa no fundo da sua mente.
Ele não estava convencido.
Mas começava a entender o que o coelho tinha dito.
Afinal, o que era a Síndrome da Adolescência?
Ao se fazer essa pergunta, chegou a uma espécie de resposta.
Era uma ilusão causada por emoções instáveis.
Algo que deveria desaparecer conforme você cresce.
Tinha um fim.
E, pela primeira vez, ele foi forçado a perceber que estava bem na beira desse limite.
Essa sensação de instabilidade era o que o deixava tão inquieto.
As luzes de um carro passaram pelo parque.
O coelho e Ikumi olharam naquela direção.
Só Sakuta permaneceu imóvel.
O som do carro logo diminuiu, mas não porque foi embora ele havia parado ali perto.
Ele ouviu a porta se abrindo.
E depois se fechando.
Alguém se aproximou por trás deles, com passos hesitantes.
“Sakuta?” chamou uma voz.
Ele ergueu o olhar e se virou.
Mai estava na entrada do parque.
“O que você tá fazendo aqui?” perguntou, confusa com a cena.
“A Akagi trouxe um coelho,” ele disse, voltando-se para onde estavam.
Mas não havia nenhum sinal da fantasia rosa. Ikumi também tinha sumido.
“Um coelho? Akagi? Do que você tá falando?”
Mai estava se aproximando.
“Eles estavam aqui agora há pouco. Disseram que a realidade ainda está reescrita… e que é tudo culpa minha.”
Ele olhou ao redor mais uma vez, mas não havia sinal deles.
“Eles estavam aqui.”
Aquilo foi a gota d’água, e o corpo dele perdeu as forças, desabando no banco.
Mai se aproximou e segurou as mãos dele.
“Você me conta a versão completa amanhã. Vamos pra casa,” disse ela.
No dedo dela, havia o anel em formato de coração que ele tinha comprado.
Ele podia sentir o calor dela em suas mãos.
Um calor suave, que se espalhava.
“Você é real, Mai?”
Essas palavras saíram carregadas de ansiedade.
Mai soltou as mãos dele e puxou sua cabeça contra o peito dela.
“Isso parece falso pra você?”
O calor dela o envolveu.
Ele conseguia ouvir o coração dela batendo.
“Não parece.”
Sakuta envolveu as costas de Mai com os braços, agarrando-se a ela.
Ela era real.
E por isso, ele não queria soltá-la.
Traduzido por Moonlight Valley
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