A Senpai CoelhinhaVolume 15 – Capítulo 3 – Capítulo 3: O trem das 22h50 de Fujisawa, com destino a Kamakura
Capítulo 741
Na manhã seguinte, 10 de abril Sakuta saiu de casa no horário para assistir à primeira aula. Quem dirigia era a Mai, e ele estava no banco do passageiro, com os olhos fixos na placa do carro à frente. Quatro números sob os kanji de Shonan.
Eram só os dois.
Eles trocaram um “bom dia”, e Sakuta passou o resto do trajeto falando.
Ele contou em detalhes todas as coisas estranhas que tinham acontecido recentemente.
E também a verdade chocante que a fantasia de coelho revelou na noite anterior.
Nada daquilo era fácil de acreditar, mas ele foi minucioso, contando tudo para a Mai.
Com as mãos no volante, tudo o que Mai fazia era responder ocasionalmente com um “Ah?”. Ela não fez nenhuma pergunta.
Quando ele terminou de atualizar tudo, já tinham se passado vinte minutos.
O sinal à frente ficou verde.
Mai acelerou, fazendo o carro avançar, e só então voltou a falar.
“Então o motivo de eu achar que era a Touko Kirishima na verdade não tem relação com as outras mudanças que estão acontecendo ao seu redor.”
“Acho que isso foi parecido com o que aconteceu com você no ensino médio.”
“Quando ninguém conseguia me perceber?”
Sakuta assentiu.
“Todo mundo agia como se você não estivesse lá, e logo realmente pararam de te ver. Como todos achavam que você era a Touko Kirishima, você acabou se tornando ela.”
Se todo mundo acredita que o branco é preto, então é.
Isso é algo que acontece todos os dias.
“Mas o resto tudo o que foi reescrito na verdade é por sua causa?”
“Segundo a fantasia de coelho.”
“Porque a sua crença na Síndrome da Adolescência é forte demais…” Mai-san murmurou, mais para si mesma.
“……”
“Acho que entendi essa parte.”
“……Entendeu?”
Surpreso, ele virou o rosto para ela. Ainda com os olhos na estrada, ela respondeu ao olhar dele.
“Pelo menos, você já encontrou mais casos disso do que qualquer outra pessoa. Se você convive constantemente com o inexplicável, com o tempo isso vira o seu novo normal. Faz sentido.”
Mai girou o volante, entrando no estacionamento perto do campus, bloqueando a luz do sol.
“Talvez,” disse Sakuta, embora isso não significasse que ele concordava.
Para ele, aquilo era normal, o que tornava difícil perceber a diferença em relação aos outros.
Mas a realidade parecia confirmar a análise de Mai.
Fora do estacionamento, Sakuta seguiu em direção à faculdade, com os passos um pouco arrastados.
Mas, como Mai estava ao lado dele, ele não podia simplesmente andar cabisbaixo.
Eles esperaram na passagem de trem perto dos portões do campus e depois atravessaram os trilhos juntos.
Havia um fluxo disperso de estudantes vindo da estação para as aulas do primeiro período.
Sakuta e Mai se juntaram a esse fluxo, passando pelos portões e entrando no campus.
Enquanto caminhavam pela alameda arborizada, naturalmente atraíam muitos olhares. Mai Sakurajima era uma atriz famosa, e estava andando abertamente com o namorado, então isso já era comum. Mas naquele dia não era só isso, a transmissão ao vivo do show na noite anterior claramente tinha aumentado ainda mais a atenção. A verdadeira Touko Kirishima tinha aparecido para provar que não era a Mai.
(R/Levi: Sakuta, que Deus te proteja da inveja que eu sinto de você.)
“A Miori vai ter um dia difícil.”
“É.”
Ela provavelmente já estava cercada.
O fluxo de estudantes virou à direita na alameda, indo em direção ao prédio principal. Sakuta ia seguir com eles, quando viu alguém parado mais adiante entre as árvores.
Uma universitária de vestido, com um casaco militar jogado sobre os ombros.
Eles tinham acabado de falar dela. Miori estava ali, observando o movimento de pessoas.
Os olhares deles se encontraram.
Miori pareceu levemente surpresa e então começou a caminhar na direção de Sakuta.
Ele saiu do fluxo de pessoas, avançando pela alameda arborizada.
“Sakuta?” Mai perguntou, confusa. Seus passos hesitaram, mas ela foi atrás dele.
Aquilo tudo parecia estranho.
Por que Miori estava apenas parada ali?
Por que ela tinha se surpreendido quando seus olhares se encontraram?
Por que ninguém demonstrava interesse em Miori Mitou, agora que sabiam que ela era Touko Kirishima?
Sakuta já tinha passado por coisas assim antes.
Era igual ao que aconteceu com Mai no ensino médio.
Também já tinha acontecido com ele.
Então, sua dúvida logo deu lugar a um mau pressentimento.
“Mitou?” ele chamou, com a voz tensa.
“Azusagawa. Você consegue me ver.”
Só isso já respondia às perguntas dele…
…mas não oferecia nenhuma solução. Sua dúvida apenas se transformou em um problema maior. Ele estava sendo puxado para um turbilhão ainda mais profundo de confusão.
“Ninguém mais consegue te ver?”
Ele sabia que perguntar não adiantaria, mas precisava confirmar.
“Aparentemente não,” Miori respondeu com um sorriso sem jeito. Não havia muito mais o que dizer.
Ele ficou ao lado dela, observando o fluxo de estudantes.
Ninguém olhava na direção dela.
Miori acenou levemente. Nenhuma reação.
Acenou com as duas mãos. Mas ninguém reagiu.
Algumas pessoas olharam para Sakuta. Ninguém olhou para Miori. Ninguém conseguia vê-la. Ela já não era mais percebida.
“Eu estava planejando ser o centro das atenções também,” disse ela, soltando um suspiro, tentando manter uma postura firme.
“Hum, Sakuta,” disse Mai antes que Miori terminasse. “A Miori está com a gente?”
Ela estava a uns três metros de distância, olhando para ele com desconfiança.
Seus olhos percorriam os lados, claramente sem encontrar Miori em lugar nenhum.
Ele sentiu o corpo congelar.
“Você também não consegue ver ela?!”
Ele nem tentou esconder o choque.
Nenhuma compreensão surgiu no rosto de Mai. Só dúvida.
“Ela tá bem aqui!” disse Sakuta, apontando mas o olhar de Mai passou direto por Miori. Vagou por um instante e depois voltou para Sakuta.
“……”
“……”
Nem Miori nem Mai disseram mais nada.
Os três apenas ficaram ali, parados, perdidos.
Sakuta sabia o que era aquilo; já tinha entendido… mas nenhuma palavra vinha à mente.
Miori apenas mordeu o lábio.
Quem quebrou o silêncio primeiro… foi Mai.
“Então acho que é verdade,” murmurou, como se estivesse ligando os pontos.
“O que é verdade?” ele perguntou.
O olhar de Mai subiu do chão até o rosto dele.
“Você é o observador, Sakuta.”
Ela sustentou o olhar dele, repetindo uma expressão que ele tinha usado no carro.
Algo que a fantasia de coelho havia dito e que claramente fazia sentido para ela naquela situação.
“Eu não consigo mais ver a Miori,” disse, com um leve tom de tristeza na voz.
Era evidente que aquilo a abalava.
Mas não era só decepção. Havia também um calor suave ali, como a luz do sol da manhã.
Sakuta não fazia ideia de como ela conseguia ter aquela expressão em uma situação tão complicada.
No começo, ele não entendeu o que ela queria dizer.
“……”
Como ele não respondeu, Mai continuou.
“Quando você era criança, já viu monstros nas manchas do teto?”
“……”
Aonde ela queria chegar? Ele ainda estava completamente perdido.
“Mas, conforme você cresce, aquilo vira só manchas comuns.”
“É… eu podia jurar que tinha uma mulher de cabelo comprido lá, e fazia questão de não olhar praquele lado quando ia dormir. E em algum momento, simplesmente parei de perceber ela.”
“Essas coisas sempre acabam virando histórias engraçadas de infância.”
Mai estava olhando diretamente nos olhos dele.
“……É.”
“O mesmo acontece com a Síndrome da Adolescência.”
“……”
Quando ele ficou em silêncio, ela manteve o olhar firme.
“Eu não consigo mais ver o que você vê, Sakuta.”
“……”
O olhar dela não vacilou nem por um instante.
“Eu queria que nós dois pudéssemos ver as mesmas coisas.”
As palavras dela eram firmes do começo ao fim.
Sem rodeios, sem suavizar nada, sem o menor sinal de hesitação.
Ela falou direto ao coração dele.
“Eu espero que a gente consiga.”
O sinal tocou. Faltavam cinco minutos para o início das aulas.
“Eu vou indo na frente.”
Ela mostrou o sorriso caloroso de sempre e voltou a se juntar ao fluxo de estudantes. Logo, estava novamente no meio da multidão. A postura ereta, o jeito elegante de andar chamando a atenção de todos ao redor sem esforço.
“……”
Sakuta só conseguiu ficar olhando ela ir embora.
Pouco depois, Mai desapareceu dentro do prédio, saindo do campo de visão dele.
“Ela quis dizer ‘cresce’, sabe,” disse Miori, vendo que ele continuava parado.
“……Eu entendi.”
Era basicamente isso.
Bem a cara da Mai.
Aquilo mexia com ele e, ao mesmo tempo, o fazia se sentir exposto. Doía demais até para rir de si mesmo. Seus sentimentos estavam confusos, e seus pensamentos giravam sem parar.
Uma sensação incômoda corria pelo corpo dele. Mas, não importava para onde fosse, não havia saída.
“Ei, Azusagawa,” chamou Miori. O único ponto que ainda o mantinha conectado à realidade.
“Vai me consolar?”
Miori balançou a cabeça.
“Você tá livre hoje à noite?”
Ele não esperava por isso. Demorou um pouco para responder.
“Que horas, exatamente?”
“Dez e cinquenta.”
Específico demais.
“Que horário é esse?”
“O último trem de Fujisawa para Kamakura. Pela Enoden.”
“E o que tem?”
“Eu vou estar nesse trem, indo para um outro mundo possível.”
Miori falava com o mesmo tom de sempre. Mas as palavras… eram tudo, menos comuns.
“……”
Mas Sakuta entendeu na hora o que ela queria dizer. Ficou completamente em silêncio.
“Você pode se despedir de mim? Como amigo?”
“Foi aquele idiota da fantasia de coelho que colocou isso na sua cabeça?”
Era a única explicação que ele conseguia pensar.
“Na estação de Ofuna, hoje de manhã, uma fantasia de coelho que só eu conseguia ver me deu isso.” Miori tirou um envelope branco simples de dentro da bolsa. Havia uma carta dentro, com várias páginas.
Ele reconheceu a caligrafia.
Era a dele.
E nela estava tudo o que ele e o coelho tinham conversado na noite anterior.
“Então você entendeu tudo, Mitou?”
“Não diria que entendi tudo, mas sei que existem outros mundos, e que originalmente eu existia em todos eles ao mesmo tempo. E também entendi que há mundos que estão em apuros por causa da minha ausência.”
“E você tá bem com isso?”
“Eu também preciso devolver a Touko nesses mundos. Não dá pra jogar isso nas costas de todas as Mais.”
“……Mesmo assim.”
“Mas saber que eu estava vendo mundos diferentes também tem seu lado bom,” disse ela, antes que ele continuasse.
“Tipo?”
“Quer dizer… agora que eu parei de fugir, talvez valha a pena tentar encontrar um mundo onde a Touko ainda exista.”
Talvez ela achasse. Talvez não. Provavelmente não tinha como saber.
Mas, ainda assim, Sakuta assentiu.
“É… deve ter.”
“Tudo o que eu encontrei foi você, Azusagawa.”
“E você ficou feliz com isso?”
“Sim, a gente teve bons momentos.”
“Uma pena não podermos ter mais. E justo agora que a gente virou amigo.”
“Não é grande coisa. Não é como se fosse um adeus definitivo.”
“Provavelmente depende de mim se a gente vai se encontrar de novo, Miori.”
“Vai acontecer quando você derrotar o monstro no teto. Quero dizer, não importa em qual mundo seja, eu existo.”
“Verdade.”
Ele concordou em voz alta, mas por dentro não tinha tanta certeza.
Se tudo que foi reescrito voltasse ao normal, ele não sabia o que aconteceria com ele.
Se fizesse o que o coelho disse e rejeitasse a Síndrome da Adolescência… se aceitasse que aquilo não era real, então talvez todas as conexões que ele construiu por causa disso simplesmente deixassem de existir.
Não havia garantia nenhuma de que ele sequer lembraria de ter conhecido Miori.
Por isso, ele não podia fazer promessas.
“Então te vejo lá hoje à noite,” disse Miori, e saiu andando contra o fluxo de estudantes, em direção à saída do campus. Ninguém percebeu. Ninguém sequer olhou. Era como se ela não existisse.
Sakuta ficou observando até ela desaparecer de vista, incapaz de mover um músculo.
2
Depois que Miori foi embora, Sakuta seguiu para a sala da primeira aula, chegando por pouco tempo. Entrou pela porta no fundo do terceiro andar e ocupou um lugar vazio perto da janela.
A sala estava meio vazia; apenas cerca de 30% dos assentos estavam ocupados.
Olhando ao redor, não viu ninguém conhecido. A maioria eram alunos de outros cursos.
A aula estava prestes a começar.
Com os olhos na janela, ele tentou organizar os pensamentos, sem sucesso.
“Então você vai tirar licença pra dar aula,” disse uma voz ao lado.
Ele levantou o olhar.
Nodoka estava sentada ao lado dele.
“Toyohama. Vai ser uma idol que também pode dar aula legalmente?”
Era uma aula de orientação sobre como conseguir licença para lecionar.
Ou seja, Nodoka estava ali pelo mesmo motivo que ele.
“A minha irmã sabe disso?” ela perguntou, tirando um caderno e um estojo da bolsa.
“Pretendo contar pra ela em algum momento, então fica só entre a gente.”
“Por que esse segredo todo?”
Ela lançou um olhar irritado para ele.
“E por que você tá brava com isso?” ele rebateu.
“Porque ela ficou curiosa.”
“Curiosa com o quê?”
“‘Eu sei que o Sakuta quer ser professor, mas ele nunca fala sobre isso.’”
“Essa é a minha Mai. Tá sempre ligada.”
Era por isso que Nodoka tinha começado com “Então você vai”.
“E qual é o problema?”
“Não tem problema nenhum.”
“Tem algum motivo pra você não ter contado.”
“Não exatamente. Eu pensei em tirar a licença primeiro e depois ver o que fazer. Só ainda não tinha chegado a contar pra ela.”
“Então você podia simplesmente ter dito isso.”
Ele não tinha como discordar.
“……Justo.”
Assim que Nodoka venceu a discussão, uma professora entrou na sala.
“Esta é a sessão de orientação para obtenção de licença de ensino. Quem estiver aqui para isso, pode se sentar.”
O burburinho na sala cessou.
A orientação durou pouco menos de uma hora, terminando ainda com trinta minutos restantes.
Nodoka guardou os papéis na bolsa e levantou.
“Fala com ela,” disse, cravando o último golpe e saiu sem esperar resposta. Sakuta ficou observando ela ir embora. Vários outros alunos na sala faziam o mesmo.
“Ela é bonita pessoalmente também!”
“Ué, achei que você fosse fã da Zukki.”
“Também curto a Doka.”
Ele conseguia ouvir comentários aleatórios ao fundo.
Alguns estavam olhando para ele, só porque estavam sentados juntos. Não era uma sensação agradável. Ele fingiu não perceber e saiu da sala.
Ele não tinha tempo pra esse tipo de coisa.
3
A sala antes da aula de estatística do segundo período estava como sempre.
Grupos de quatro ou cinco pessoas conversavam animadamente. Outros estavam sozinhos, rindo do que viam no celular. Alguns já estavam dormindo sobre as mesas.
Takumi viu Sakuta entrando e acenou para ele.
Sakuta se sentou ao lado dele.
E voltou a observar aquele cenário familiar.
Os garotos na frente discutiam um reality show romântico que tinha passado na noite anterior. Quem ficou com quem, quem era mais bonito, com quem gostaria de sair… qualquer coisa que viesse à cabeça.
Uma conversa mais “real” do que o próprio reality.
Mas, no estado em que Sakuta estava, parecia que havia um vidro separando ele de todo mundo.
Ele estava sentado na sala, mas nem parecia que estava ali de verdade.
Nada ao redor parecia real.
Nenhuma sensação parecia concreta.
Tudo parecia um sonho… ou uma ilusão.
E, dentro da cabeça dele, dúvidas giravam sem parar, puxando todos os outros pensamentos para dentro daquele turbilhão.
Quanto daquela sala era realmente real?
Quantas daquelas pessoas estavam “erradas”?
Se ele não podia confiar no que via, então em que poderia acreditar?
“Ei, Fukuyama.”
“Que foi?”
“O que é ser adulto?”
“……Aconteceu alguma coisa?”
Takumi claramente não esperava essa pergunta, e demorou um pouco para responder.
“A Mai acabou de mandar eu crescer.”
“……”
Takumi ficou paralisado, com a boca meio aberta. Era evidente que aquilo não só o pegou de surpresa, como também o abalou.
“Pesado isso,” disse ele, fazendo uma careta depois de um bom tempo. “Se a Nene me falasse isso, eu começava a chorar na hora.”
“Mas a Mai realmente mandou essa.”
Takumi fez outra careta.
“Bom, falando no geral… independência financeira dos pais?”
“Isso não vai acontecer tão cedo.”
Ele ainda tinha três anos de faculdade pela frente.
“Então… cuidar de si mesmo?”
“Eu já cozinho e limpo desde o ensino médio.”
“Então… ir sozinho num restaurante de sushi de verdade? Daqueles que não são de esteira?”
“Vou ter que tentar isso.”
“Outras coisas desafiadoras… tipo casas de soba famosas, bares pequenos que você nem consegue ver o interior…”
Takumi estava se empolgando, mas depois de um tempo, ficou com uma expressão mais séria.
“Mas, pela minha experiência… eu diria que é cuidar da pessoa que você ama.”
Havia um tom amargo no sorriso dele, provavelmente por causa do período em que não conseguiu fazer isso. Sakuta sabia bem. Durante meses, Takumi chegou a esquecer que sua namorada Nene Iwamizawa sequer existia.
“Grande conselho vindo de alguém que nem lembrava da Nene, né?”
Ele riu, tentando aliviar o clima.
“Mas justamente por você ter passado por isso, o que você diz soa convincente.”
Nesse ponto…
“Vocês dois estão se divertindo? Sobre o que estão falando?” Uzuki apareceu de repente.
Ela se jogou na cadeira à frente de Sakuta e se virou completamente para encará-lo.
“Hirokawa…”
“Hum?”
“O que você faria se aquela proposta de show solo no Budokan fosse, na verdade, um sonho?”
Uzuki estava tão perto que ele poderia tocá-la.
Aquilo não era uma ilusão.
E ele não conseguia se convencer de que aquilo era resultado dele reescrevendo a realidade.
“Eu pensaria: ‘Tive um sonho muito bom!’”
Uma resposta totalmente a cara da Uzuki.
Não importava como ele olhasse, ela era real.
A mesma Uzuki de sempre.
“Essa é a minha Zukki.”
“E eu ficaria ainda mais motivada em fazer esse sonho se tornar realidade.”
Ela juntou as mãos, apertando uma contra a outra.
Até essa situação hipotética já deixava ela animada.
“Nem um pouco decepcionada?”
“Ah, um pouco. Mas o objetivo do Budokan é chegar lá por conta própria.”
Uma convicção forte, guardada no coração dela. Bem típico da Uzuki.
“Isso é ainda mais a sua cara.”
Ele realmente não conseguia mais distinguir o que era real e o que não era.
Mas ouvir ela falar despertou um novo impulso dentro dele.
Ele guardou o caderno e o estojo.
“Azusagawa?” chamou Takumi quando ele se levantou.
Sakuta colocou a mochila nas costas.
“Você vai matar aula?” perguntou Uzuki.
“Vou sair pra me encontrar.”
“……Hã?” Takumi ficou olhando, sem entender.
“Quer que eu vá junto?” Uzuki sorriu.
“Não. Isso eu preciso fazer sozinho.”
“Beleza, beleza. Boa sorte!”
Ela se levantou e deu um tapa no ombro dele. Isso só o deixou ainda mais determinado, então ele disse: “Responda a chamada por mim!” e saiu correndo da sala.
4
O sinal do segundo período tocou bem quando ele saiu do prédio.
Alguns alunos atrasados corriam na direção oposta.
“Droga, corre!”
“Ouvi dizer que esse professor marca atraso como falta!”
“Por isso eu falei pra correr!”
Sakuta corria com a mesma intensidade, mas na direção contrária, subindo o caminho arborizado e saindo pelo portão do campus.
A estrada até a estação tinha poucos estudantes espalhados. Ou eles não tinham aula naquele período, ou simplesmente desistiram… ninguém parecia com pressa.
Só Sakuta corria como se algo estivesse atrás dele.
Não era exatamente horário de pico, então a estação Kanazawa-hakkei estava vazia. O clima na plataforma era tranquilo. Mas, assim que ele chegou, um trem expresso rápido com destino a Sengakuji encostou.
Sakuta deixou o impulso levá-lo direto para dentro, logo atrás da mulher que estava esperando na porta.
O interior do trem também estava vazio.
Ele podia sentar em qualquer banco longo vermelho, mas mesmo depois que o trem partiu, Sakuta ficou perto da porta.
Depois de um ano na faculdade, ele já estava acostumado com a paisagem passando pela janela.
A maior parte eram casas; as lojas ficavam concentradas perto das estações.
A mente dele estava completamente presa naquela vista.
Então, quando uma voz atrás dele disse “Matando aula?”, ele se assustou.
Era a mulher de casaco azul-claro de primavera. A mesma que estava à frente dele na porta.
Olhando melhor, ele percebeu que a conhecia.
Uma aluna do quarto ano da faculdade: Nene Iwamizawa.
Por baixo do casaco, ela usava uma blusa branca simples. A maquiagem era leve, discreta. Ele estava tão acostumado com o visual dela de “Mamãe Noel de minissaia” que não a reconheceu de imediato.
“Iwamizawa… você não tá em um encontro?”
O namorado dela, Takumi, ainda estava na aula de estatística.
“Vou até Yokohama tirar uma foto profissional para uma inscrição.”
Com um tom meio entediado, ela se sentou na ponta do banco vazio.
“Procurando emprego?” ele perguntou, ainda de pé.
“O que mais seria?”
“Então você vai tentar ser apresentadora.”
O visual mais formal combinava bastante com o padrão de apresentadoras.
“Alguém me acordou de um sonho, me trouxe de volta para realidade e disse que eu posso ser o que quiser. Apresentadora ou qualquer outra coisa.”
Nene cruzou as pernas, exibindo um sorriso sarcástico.
“Acha que consegue?”
“Provavelmente não nas emissoras principais.”
Ela deu de ombros, mas seu tom não era de desespero. Soava mais como uma avaliação realista das próprias capacidades.
O trem parou na estação Kanazawa-bunko. Algumas pessoas desceram, e quase o mesmo número entrou. O vagão ainda estava relativamente vazio.
O trem partiu novamente, e mais bairros residenciais passaram pela janela. Ruas tranquilas, cheias de casas.
“E você? Tá matando aula por quê?” perguntou Nene, olhando para ele.
Mas, neste momento, os olhos de Sakuta estavam no mapa acima da porta. A próxima parada era Kamiooka. Era ali que a linha Keikyu, a que ele estava, se conectava com o metrô municipal de Yokohama.
O olhar dele se fixou no fim daquela linha.
Nos kanji de Shonandai.
“Já sei pra onde eu vou, Iwamizawa. Tudo graças a você não estar vestida de Mamãe Noel de minissaia.”
Enquanto respondia, o trem começou a desacelerar.
A estação Kamiooka estava chegando.
“Vou descer aqui.”
O trem parou.
“Certo. Então seja grato.”
Nene acenou com os dedos, e Sakuta saiu rapidamente pelas portas.
Ele não conhecia bem aquela estação. Só costumava passar por ela indo para a faculdade. Precisou conferir as placas e seguiu até a plataforma do metrô.
Quando saiu do campus, ele não tinha destino nenhum.
Só tinha sentido que não era hora de ficar sentado em sala de aula.
Mesmo dentro do trem, ainda não sabia para onde ir.
Mas, entre a ex-Mamãe Noel de minissaia e o mapa acima da porta, ele acabou percebendo, ainda que inconscientemente.
Sakuta pegou a linha azul, rumo ao último ponto: estação Shonandai.
O lugar onde ficava a biblioteca em que ele encontrou pela primeira vez a garota coelho.
Meia hora depois, ele desceu do trem e já estava nas ruas de Shonandai.
Com o metrô, a linha Odakyu Enoshima e a linha Sotetsu Izumino passando por ali, era uma área movimentada para quem trabalha fora. Muitas cidades ao longo da linha Odakyu tinham um clima parecido.
“Acho que era… por aqui?”
Buscando nas memórias, ele seguiu em direção à biblioteca.
Já tinha vindo ali uma vez, para pegar um livro para a Kaede panda. Como tinha vindo de bicicleta para economizar na passagem, não conhecia bem a região da estação.
Mas havia pontos familiares o suficiente para guiá-lo e, pouco tempo depois, ele encontrou um grande parque.
Ali, os prédios já eram menores, e o clima era mais tranquilo. Vasculhando as ruas com atenção, ele logo encontrou a biblioteca.
“……”
Só de ficar na entrada, memórias vieram à tona.
Mas como fazia muito tempo, ele sentiu uma estranha ansiedade.
Ignorando isso, abriu a porta e entrou.
Foi recebido pelo silêncio característico de uma biblioteca.
Ar parado. Cheiro de livros.
Ele sentia a presença de outras pessoas, mas ninguém falava.
Não parecia que a disposição das estantes tinha mudado muito.
Ele avançou, olhando o saguão, andando entre os corredores como se pudesse encontrar respostas ali.
Observou cada pessoa presente.
Como se estivesse procurando uma “bunny girl”.
(N/T:ABSOLUTE CINEMA)
(N/R: Cinema!)
Claro que ela não estaria ali.
Mai estava na faculdade, assistindo aula. Todos estavam olhando para ela. Não havia motivo para ela ser uma bunny girl agora. Ele nunca a encontraria ali.
Ele atravessou o salão e parou entre duas estantes.
Não havia mais onde procurar.
Ele veio atrás de algo, mas não encontrou nada.
Nenhuma resposta.
Nenhuma garota coelho e, na verdade, Mai já não conseguia mais ver Miori.
Era ali que Sakuta estava.
Aquilo era a realidade.
E era por isso que ele não sabia se devia ir para a esquerda ou para a direita.
Se devia seguir em frente ou voltar.
Tudo o que via era aquele corredor estreito entre as estantes.
Então, uma mochila vermelha passou rapidamente pelo fim do corredor.
Uma garotinha do primeiro ano estava carregando.
Ele já tinha visto aquela menina antes. Ela era muito parecida com a Mai quando era atriz mirim.
Ela apareceu três corredores à frente e desapareceu atrás de outra estante.
“Espera!” a chamou por impulso, saindo correndo atrás.
Ele disparou imediatamente, fazendo um barulho enorme.
Era pra ter alcançado ela rápido.
Mas quando olhou ao redor da estante… não havia ninguém.
“……?”
Será que ele estava vendo coisas?
Não, era ela.
Ele tinha certeza.
Então ouviu uma voz atrás dele.
“Você se perdeu de novo, moço?”
Era inconfundível. Ele se virou.
“……”
A garotinha da mochila estava bem ali, olhando para ele com curiosidade.
“Dessa vez eu tô bem perdido mesmo.”
Muito provavelmente, ele era o único que conseguia vê-la.
Tudo o que ele tinha vivido até ali deixava isso claro.
“Mesmo sendo adulto?”
“Já me disseram que eu não sou maduro o bastante pra ser chamado de adulto.”
“Hum… posso ajudar em algo?” perguntou uma bibliotecária. Ela devia ter ouvido ele falando sozinho e o olhava de forma estranha.
Ela claramente não conseguia ver a menina à sua frente. Ele estava certo.
“Desculpa, estava falando sozinho.”
“Silêncio na biblioteca, por favor.”
“Certo.”
A bibliotecária empurrou um carrinho de livros e foi embora.
Assim que ela saiu de vista, ele sussurrou:
“Você é um monstrinho do teto bem fofinho.”
(R/Levi: EU pegava ela e guardava num potinho, de tanta fofura)
“Eu não gosto de monstros!” disse ela, abraçando um livro ilustrado de peixes contra o peito.
“Então você pode me ajudar a me livrar do meu?” ele perguntou, estendendo a mão.
Ela pensou por um instante, então sorriu e segurou a mão dele.
“Posso!” disse.
5
Eles pegaram um trem local da linha Odakyu até Fujisawa. Não havia mais ninguém no vagão.
Sakuta se sentou no meio de um banco vazio, e a menina da biblioteca se acomodou ao lado dele, ainda com a mochila.
O trem partiu, balançando suavemente.
E, acompanhando esse ritmo, Sakuta começou a falar.
“Quando eu estava no ensino fundamental, eu precisei acreditar. Na Síndrome da Adolescência, quero dizer.
A Kaede de repente apareceu com cortes pelo corpo todo… e ninguém mais acreditava nela.”
Sakuta encarava o banco vazio à frente. No reflexo da janela, conseguia ver a garotinha da mochila balançando as pernas e piscando para ele.
“E eu não acho que essa tenha sido a escolha errada.”
As feridas no corpo da Kaede eram reais. Tudo aquilo foi real para eles.
As marcas ficaram profundas no coração, no corpo e na memória.
“Eu vi muitas outras coisas estranhas. No ensino médio, encontrei a Mai na biblioteca quando ninguém mais conseguia vê-la. Entrei na simulação de futuro da Koga. Depois tiveram duas Futabas. A Toyohama e a Mai trocaram de corpo… e tudo aquilo com a Makinohara e a Shouko realmente aconteceu.”
Assim como aquilo, ali e agora.
Só Sakuta conseguia ver a garota da mochila.
Ninguém tinha olhado para ela na biblioteca. Nem no caminho até a estação.
Eles passaram pela cabine da polícia, pelas catracas… e ninguém além dele sequer percebeu sua existência.
Ela estava sentada em silêncio, segurando a mão dele. Seus pés não alcançavam o chão, então suas pernas ficavam balançando no ar.
Ela não era um sonho nem uma ilusão.
Para Sakuta, ela só podia ser real.
“Então eu não posso negar tudo isso.”
“Por quê?” a menina perguntou, olhando para ele.
“Porque… seria o mesmo que dizer que nada disso aconteceu.”
“Se você não quer, então não precisa negar.”
“Queria que fosse tão simples assim.”
“Não é?”
“Alguém que eu amo e que se parece muito com você me disse uma coisa.”
Sakuta desviou o olhar da garota e voltou a encarar a janela.
“O quê?”
“Ela quer ver as mesmas coisas que eu vejo.”
“Isso é difícil.”
“É por isso que eu estou perdido.”
O trem chegou à estação de Fujisawa.
As portas se abriram, mas Sakuta não se levantou.
Ele não tinha um destino.
Enquanto tentava encontrar um motivo para se levantar, a garotinha da mochila pulou do banco.
“Vamos,” disse ela, puxando a mão dele.
Ele se levantou sem resistir, e ela o puxou para fora do trem.
“Pra onde a gente vai?”
“Pra um lugar onde você tem memórias,” disse a garota, puxando ele pela plataforma até um trem prateado da linha Odakyu Enoshima. As telas dentro do vagão indicavam destino: Katase-Enoshima. Ao lado, havia um anúncio do novo Aquário de Enoshima.
Era uma manhã de segunda-feira, mas o aquário estava cheio. Na bilheteria, um garotinho gritava: “Quero ver os golfinhos!”, enquanto um casal olhava os cartazes dizendo: “As lontras são tão fofas.”
Por impulso, Sakuta comprou um ingresso para a menina da mochila e entrou. O funcionário conferiu os ingressos, mas só o dele. A garota ficou parada com o próprio ingresso na mão, piscando, sem reação.
Lá dentro, em vez de aquários, havia uma escadaria cujo topo não dava pra ver. Eles começaram a subir, um degrau de cada vez, curiosos com o que os esperava. Aquilo aumentava ainda mais a expectativa de encontrar as criaturas marinhas.
Ao chegarem ao segundo andar, estavam cercados por peixes do mundo inteiro. Divididos em várias áreas, nadavam tranquilamente em seus tanques. Mais adiante, encontraram um aquário que mostrava o crescimento dos peixinhos (whitebait).
O caminho seguia adiante, descendo suavemente. Em certo ponto, até o teto virou um aquário, um túnel de arraias. Ao passarem por baixo delas, com aquelas “expressões” que pareciam sorrir, a vista se abriu.
Um grande tanque mostrava a vida marinha da Baía de Sagami.
Um cardume de sardinhas dançava ali dentro, refletindo a luz como estrelas no céu.
“A Mai disse mais uma coisa…”
“……?”
A menina olhou para ele, curiosa.
“Foi aqui que ela percebeu pela primeira vez que as pessoas não conseguiam vê-la.”
“Você nunca tinha vindo?”
“Já. Num encontro falso, fingindo ser o namorado de alguém.”
“……?”
A garota inclinou a cabeça, sem entender.
“Alguns aquários são iguais… mas tem muita coisa nova também.”
Um menino passou correndo, gritando: “Quero ver as capivaras!”, seguido por uma mãe gritando: “Não corre!”
Não havia capivaras ali quando ele veio com a Tomoe.
“A gente vai ver as capivaras?”
“E o show dos golfinhos!”
“Esse é obrigatório mesmo.”
“Vamos!”
A garota da mochila puxou a mão dele, animada.
Eles assistiram ao show de golfinhos inteiro juntos e ficaram no aquário por uma hora e meia. Quando saíram, já passava das duas da tarde.
O sol começava a descer no horizonte, e, sob aquela luz suave, eles caminhavam pela praia. Seguiam rumo oeste ao longo da costa, em direção a Kugenuma.
No mar, dava para ver surfistas flutuando, como folhas levadas pela água.
De vez em quando, um deles era levado até a areia e voltava remando, em busca da próxima onda.
Mais acima na areia, longe da água, um grupo de jovens jogava vôlei de praia. Tinham mais ou menos a idade do Sakuta. Um deles escorregou na areia, caiu sentado, e a bola acertou bem na cabeça dele. Todo mundo caiu na risada.
Naquela parte da praia, havia algumas rochas surgindo do mar. Uma delas parecia exatamente uma tartaruga gigante. Se tartarugas realmente fossem daquele tamanho, poderiam facilmente aparecer em um filme de kaiju.
Sakuta observou aquela paisagem enquanto subiam as escadas até um deck de concreto.
“Eu já vi os fogos daqui uma vez.”
Ele olhou de volta para Enoshima.
“Sozinho?”
“Com a Futaba e o Kunimi. Depois que ela voltou a ser uma só.”
“……”
A garota parecia confusa de novo.
“Você não entendeu, né?”
“É uma das suas memórias?”
“É. Uma bem importante.”
“Então cuida bem dela!”
Tudo que ele conseguiu fazer foi dar um sorriso meio sem jeito.
No fundo, ele concordava. Mas a Síndrome da Adolescência era a origem de tudo que estava dando errado, e ele precisava negar isso. Mesmo que isso significasse que a Rio nunca tivesse se dividido em duas e que eles nunca tivessem visto aqueles fogos juntos.
Então, em vez de responder, ele perguntou:
“Você vai comigo em mais um lugar?”
“Claro!”
Como sempre, uma multidão de turistas atravessava a ponte Benten rumo a Enoshima.
Sakuta parou diante das lanternas de dragão, no início da ponte.
“Era aqui que você queria vir?”
“Sim.”
Mesmo agora, ainda doía estar ali.
Inverno, segundo ano do ensino médio.
Véspera de Natal e um raro dia de neve em Enoshima.
Olhando para trás, ele não conseguia encontrar nenhuma decisão mais difícil, nada mais doloroso.
Para proteger seu futuro com a Mai, ele havia escolhido abrir mão do futuro da Shouko.
Uma memória dolorosa demais.
Mas não uma que ele quisesse esquecer.
Sakuta sabia que aquela experiência teve um papel enorme em moldar quem ele era.
Ele não queria negar a Síndrome da Adolescência e fazer aquele momento deixar de existir.
Também não conseguia simplesmente abandonar todas aquelas memórias quentes e importantes.
6
O sol se pôs, mas Sakuta ainda estava diante das lanternas de dragão.
Ele ficou pensando o tempo todo.
O que era certo?
O que não era?
Que escolha deveria fazer?
Mas, por mais que pensasse, não encontrava resposta.
Em algum momento, percebeu que a garota da mochila não estava mais ali.
“Onde ela foi?”
Ele olhou ao redor, mas não viu nenhuma criança.
“Acho que já é tarde demais pra crianças ficarem por aqui…”
O sol já tinha se posto. O vento estava ficando mais frio.
Só Sakuta conseguia vê-la.
Ele ainda sentia a pequena mão dela na sua.
Dedinhos tão pequenos que só conseguiam segurar dois dos dele.
Ela tinha feito o possível para não soltá-lo.
Ele olhou ao redor mais uma vez.
E seu estômago roncou.
“Ah, é… eu esqueci de almoçar.”
Ele voltou para a estação Katase-Enoshima, guiado pelo som do próprio estômago. Havia um trem esperando, então ele entrou e voltou para Fujisawa um lugar onde já tinha vivido tanto que parecia o próprio quintal de casa.
A estação estava cheia de estudantes e trabalhadores voltando para casa, e Sakuta abriu caminho pela multidão, indo até o restaurante familiar onde trabalhava.
Era o lugar mais fácil para comer alguma coisa.
Ele abriu a porta e entrou, e a Kaede panda vestida com uniforme de garçonete o recebeu.
“Ah, é você,” acrescentou, escondendo imediatamente o sorriso profissional.
“Você tá trabalhando hoje?”
Ela falava como se estivessem na sala de casa.
“Só vim comer alguma coisa.”
“Sozinho?” A expressão dela ficou mais fechada.
“Vou sentar naquela mesa,” disse ele, ignorando a pergunta e apontando para uma mesa perto da entrada.
Ele abriu o cardápio e começou a olhar.
“Amanhã eu também tenho turno, então só volto pra casa depois.”
“Hoje não?”
“É seu aniversário, né? Não vou atrapalhar você e a Mai. E, falando sério, você devia estar comendo sozinho? Não tem planos?”
“Como eu disse, é só um lanche. Pulei o almoço e tô morrendo de fome.”
Ele apontou para o “Ramen Tradicional” no cardápio.
“Isso não é um lanche,” disse Kaede.
“Só traz.”
“Já trago.”
Kaede anotou o pedido, fez uma reverência e saiu.
Sem pensar muito, ele a observou se afastando.
Ela estava ficando com os pais em Yokohama… mas isso acabaria amanhã.
Ele não podia continuar assim.
Se as duas Kaedes se encontrassem, não dava pra saber o que aconteceria. Ele precisava resolver isso antes.
“Mesmo sem o problema da Mitou, não dá pra simplesmente ficar parado.”
Eram quase 18h20.
Miori partiria às 22h50.
Ele não tinha muito tempo.
Ele comeu o ramen, pagou e saiu. O movimento do jantar estava começando, então não podia ficar ali e também não tinha tempo a perder.
Sakuta tinha coisas a fazer.
Enquanto caminhava de volta para a estação, uma garota baixa que vinha na direção dele chamou:
“Ah, Senpai!”
Era a Tomoe, voltando da faculdade.
“Vai trabalhar agora?” ele perguntou.
“Por que você tá aqui?”
“Procurando a mim mesmo.”
“Você, de todos?”
Tomoe inclinou a cabeça, confusa. Claramente, a ideia não fazia sentido pra ela.
Ignorando isso, ele perguntou:
“Koga, você nunca ficou em dúvida entre outras faculdades?”
“Ah, claro que sim. Por quê?”
“Como eu disse, tô refletindo sobre a vida. Achei que podia ajudar.”
“Hmm…”
Ainda meio desconfiada, ela o olhou com atenção, tentando entender o que ele queria.
Mas, pela primeira vez, Sakuta não tinha segundas intenções. Não havia nada escondido.
Tomoe percebeu isso. Mesmo assim, ainda achou estranho, mas respondeu:
“Eu fiquei entre essa aqui e uma faculdade feminina na cidade. Só decidi no último segundo.”
“Por quê?”
“Porque estudar na mesma faculdade que você ia ser meio… complicado.”
“Ah, qual é.”
“Eu achei que já estava na hora de seguir em frente depois do que a gente passou.”
Ela fez um biquinho, meio incomodada.
“Eu quero um namorado meu tipo a Nana.”
O olhar dela desviou.
“Entendi.”
“Você é irritante, sabia?!”
“Só quis dizer que… você tá crescendo, Koga.”
“O quê? Você tá tirando sarro de mim agora?”
Ela entendeu errado.
“Isso me ajudou. Valeu.”
“Ajudou como?!”
“Você não tem que trabalhar? Não começa às sete?”
Tomoe olhou o celular e soltou um grito.
“Ah! Faltam cinco minutos! Tchau, Senpai!”
Ela saiu correndo.
Sakuta nem ficou olhando ela ir. Apenas seguiu na direção oposta.
Mas não foi para a estação.
Seus passos o levaram a outro prédio no caminho: o cursinho onde ele trabalhava.
Um rosto familiar já estava esperando o elevador.
Rio percebeu a aproximação dele e olhou de relance.
Os dois ficaram lado a lado, observando os números descendo do cinco.
“Ouvi dizer que você tá numa situação complicada,” disse Rio depois de um tempo. “A Sakurajima-senpai deixou de ser a Touko Kirishima, mas todo o resto ainda tá alterado?”
“Basicamente, sim.”
As portas do elevador abriram.
Confirmando que não havia mais ninguém, eles entraram e apertaram o botão do quinto andar.
“Você sabia, Futaba?”
“……”
O elevador começou a subir, balançando levemente.
“Que eu tava errado sobre a Síndrome da Adolescência da Mitou.”
“……”
“Que era eu quem estava reescrevendo a realidade.”
“Eu considerei essa possibilidade. Mas não tinha certeza.”
“Mas você disse que não podia ajudar. Mesmo podendo.”
Os dois olhavam para frente, sem se encarar.
“Você sempre escolhe as formas mais indiretas de falar as coisas,” disse Rio, com um leve riso.
“Você ainda quer deixar as coisas assim?”
“Quero.”
A voz dela não vacilou. Era sincera.
“Bom, se tudo voltar ao normal, pode ficar à vontade pra reclamar comigo.”
“Você já encontrou uma forma de fazer isso?”
“Aparentemente, eu só preciso negar a Síndrome da Adolescência.”
O elevador chegou ao quinto andar.
“Eu não acho que essa seja a única solução.”
As portas se abriram.
“……?”
“……”
Ele olhou para ela, mas Rio não respondeu.
“Acho que eu tenho medo de ser feliz,” ela murmurou. Então entrou no cursinho.
“A Futaba realmente tem o talento de complicar tudo,” Sakuta disse em voz baixa.
Ele entrou logo atrás, e Sara apareceu na sala livre.
“Sakuta-sensei!”
“Você tá com a Futaba hoje?”
“Tô sim! E você?”
“Só passei aqui rapidinho.”
“Ah, certo! Sakuta-sensei, tenho uma novidade.”
Toda sorridente, ela se aproximou, como se fosse contar um segredo.
“Semana que vem vai chegar um professor estagiário. Você vai fazer isso também ano que vem?”
“Acho que só no ano seguinte.”
“Ahh, que pena. Eu queria estar na sua turma!”
“Duvido que fosse ser tão divertido assim.”
“Mas isso não te deixa feliz?”
“Como assim?”
“Pelo menos tem uma aluna por aí animada pra te ter como professor.”
Ela abriu um sorriso vitorioso.
“É… acho que você tem razão.”
Aquilo realmente fez ele se sentir um pouco melhor.
“Himeji! Hora da aula!” chamou Rio. Ela já estava com o jaleco branco de professora e caminhava em direção às cabines de estudo.
“Ah, já vou! Até mais, Sakuta-sensei.”
Ela acenou e saiu correndo atrás da Rio.
“Não corre na escola.”
“Eu sei!”
As duas desapareceram dentro de uma cabine.
7
Sakuta saiu do cursinho e pegou o elevador para descer. Quando as portas se abriram, havia uma família esperando do lado de fora, Shouko, usando o uniforme do colégio Minegahara, acompanhada dos pais.
“Ah!” ela soltou, ao vê-lo.
Sakuta saiu do elevador. Por puro reflexo, perguntou:
“O que você tá fazendo aqui?”
Ele fez um leve cumprimento para os pais dela. Eles já tinham se encontrado antes.
“Podem subir. Eu alcanço vocês já,” disse Shouko, fazendo sinal para os pais entrarem no elevador. Eles acenaram para Sakuta e entraram. As portas se fecharam, levando-os ao quinto andar.
“Você vai estudar na nossa escola?”
“Eu pretendo seguir medicina, então achei melhor começar a me preparar o quanto antes.”
“Ah.”
Ele nem precisava perguntar o motivo da escolha.
O transplante de coração já explicava tudo.
“Eu ainda não tenho certeza se quero ser médica, mas um diploma na área ajuda muito em trabalhos voltados a cuidar de pessoas com condições graves também.”
“Bom, pra coisas de ciência, você devia fazer as aulas da Futaba-sensei.”
“Pretendo,” Shouko respondeu com um sorriso.
Era exatamente o mesmo sorriso que a Shouko mais velha tinha no dia em que salvou o Sakuta.
Uma memória distante, mas cheia de calor.
Um momento essencial que tinha sustentado ele.
“……”
“Sakuta?”
“Hmm?”
“Você tá encarando. Eu tô te lembrando do seu primeiro amor?”
(N/T: kkkk é a best girl não tem como)
“Você me lembrou de algo importante. Algo que a Shouko me ensinou.”
A gentileza que ele recebeu naquele dia ajudou a moldar quem ele era.
E continuaria moldando.
Sentimentos que mantinham seu coração aquecido.
Era como um lembrete do que realmente importava.
Ele precisava guardar isso, não importava o que acontecesse no futuro.
E, pra isso, havia algo que ele precisava fazer.
“Desculpa, tenho que ir, Makinohara você acabou de me dar uma ideia.”
“Fico feliz em ajudar, Sakuta.”
O elevador chegou novamente, e as portas se abriram.
Shouko entrou, e Sakuta saiu apressado em direção à estação.
Subiu as escadas da passarela de pedestres de dois em dois degraus.
Olhou o relógio no centro já eram quase sete e meia.
A essa hora, a maioria das pessoas era de trabalhadores voltando para casa. Poucos estudantes do ensino médio ainda estavam por ali.
Sakuta atravessou a multidão direto até uma loja de eletrônicos.
A passarela levava à entrada do segundo andar. De fora, dava pra ver as luzes fortes lá dentro.
E, lá dentro… ele viu a última pessoa que esperava encontrar.
A Kaede panda, vestida com o uniforme escolar.
“Kaede?”
“S-Sakuta?!”
Ela parecia ainda mais surpresa que ele.
“Você normalmente já estaria em casa a essa hora.”
“Não é verdade! Eu só não cheguei ainda porque não consigo decidir o que comprar pra você de aniversário!”
Ela tentou esconder o pacote atrás das costas.
“Entendi… então você tava até agora escolhendo meu presente.”
“Era pra ser surpresa!”
“Te encontrar aqui a essa hora já é uma surpresa.”
“Então eu vou achar um presente que seja uma surpresa ainda maior!”
Ela tentou se virar para ir embora.
“Espera, Kaede,” disse ele. “Em vez de um presente chocante, posso te perguntar uma coisa?”
“Perguntar o quê, Sakuta?”
Ela inclinou a cabeça, curiosa.
“Hipoteticamente… se existisse um mundo muito parecido com o nosso, e fosse lá que você realmente pertencesse, o que você faria?”
“……”
A pergunta veio do nada, e ela só ficou olhando para ele, sem reação.
Era compreensível.
Foi totalmente inesperado.
Se ela tivesse entendido o que ele quis dizer só com aquela frase, ele até desconfiaria que ela tinha poderes psíquicos. Ele pensou em encerrar ali e dizer pra ela esquecer o que ele tinha falado.
Mas antes que pudesse…
“Eu ia querer voltar pra casa,” ela disse.
Com uma expressão séria.
Olhando direto nos olhos dele.
Falando com sinceridade. CASA.
Agora foi ele quem ficou sem reação.
“Eu encontrei isso no meu quarto ontem à noite,” disse Kaede, tirando um diário da mochila. Era parecido com o que ele tinha dado para a Kaede panda no ensino fundamental, mas de outra cor.
Na capa, estava escrito: Kaede Azusagawa. Em kanji.
“De acordo com esse diário, meu transtorno dissociativo foi curado em novembro do terceiro ano do fundamental. Diz que todas as minhas memórias voltaram.”
“……”
“Eu adoraria curar essa condição. Tenho certeza que você ficaria aliviado.”
“……”
Ele não sabia o que dizer.
Sabia muito bem o que aquilo significava.
Curar a condição dela significava que a Kaede original voltaria.
E isso significava que essa Kaede desapareceria.
“Então eu…. Eu quero voltar pro meu verdadeiro irmão.”
Havia um leve traço de medo ali. Medo de desaparecer.
Mas a decisão dela não vacilou.
Havia um brilho nos olhos dela. Ela já tinha escolhido seu caminho.
E a decisão dela foi o empurrão final que ele precisava.
Ele deu um passo à frente, e as palavras saíram sem nem pensar:
“Entendi. Deixa comigo. Eu vou garantir que você consiga entregar esse presente pra ele.”
“Obrigada, Sakuta!”
8
“Eu tenho uma coisa pra resolver.”
“Eu vou estar esperando você em casa!”
“Vai com cuidado.”
“Pode deixar!”
Abraçando o presente contra o peito, Kaede foi embora. Sozinho, Sakuta seguiu mais para dentro da loja de eletrônicos.
Ele olhou o guia de departamentos, encontrou o que queria e desceu pela escada rolante até o primeiro andar.
Não demorou para achar.
Ele estava na seção de smartphones, cercado por modelos de todas as cores imagináveis.
Levou vários minutos escolhendo a operadora, mais alguns escolhendo o modelo, e ainda mais tempo analisando contratos, documentos e pagamento.
No total, levou quase uma hora e meia.
Mas, finalmente, ele tinha o que veio buscar.
Um pequeno dispositivo retangular, do tamanho da palma da mão.
Um smartphone.
(N/T: kkkkk que foda)
O celular dele.
“Vai levar assim mesmo?” perguntou a atendente, empurrando a bandeja com o aparelho na direção dele.
“Sim.”
Ele pegou o aparelho, sentindo o leve peso na palma da mão. Depois, ela entregou uma sacola com a caixa vazia.
“Volte sempre!”
Os funcionários, educados, se despediram, e Sakuta saiu para a rua. Eram nove horas, horário de fechamento.
Enquanto os funcionários fechavam a loja, Sakuta ligou o celular. Tocou no ícone de chamada e digitou, de memória, um número de onze dígitos.
“……”
Ele levou o celular ao ouvido, escutando o toque chamar.
Nenhum sinal de alguém atender.
Depois de alguns toques, caiu na caixa postal. Uma mensagem padrão começou a tocar.
“Mai, sou eu. Sakuta. Acabei de comprar um celular, então você é a primeira pessoa pra quem eu tô ligando. Agora vou encontrar a Mitou, e depois queria te ver.”
Com isso, ele desligou.
Guardou o celular no bolso.
Um instante depois, ele vibrou.
Sakuta pegou de novo e conferiu. Era uma mensagem.
De Mai.
‘Entendi. Vou estar em Shichirigahama.’
Ele respondeu:
‘Obrigado.’
Dessa vez, guardou o celular de vez e subiu as escadas da passarela.
Já passava das nove, mas a estação ainda estava cheia. A temperatura tinha caído, e o ar estava frio. Todos caminhavam apressados, olhando pra frente, querendo chegar em casa.
Sakuta entrou na estação e foi até os armários.
Tirou uma caneta preta da mochila, colocou ela junto com a caixa do celular em um armário vazio.
Por coincidência, era o mesmo armário que Mai tinha usado para guardar a roupa de coelhinha.
Isso fez ele sorrir.
Levado por esse momento, ele saiu pelo lado sul da estação.
Passou pela loja de departamentos Odakyu e seguiu até a estação Fujisawa da Enoden. Passou o cartão na catraca e foi para a plataforma.
Já era tarde, e quase não havia passageiros.
Ele caminhou devagar pela plataforma vazia, ouvindo o eco dos próprios passos. Sempre tinha ido ali em horários cheios, então aquele silêncio era algo novo.
Sentou-se em um banco vazio.
Miori tinha dito que chegaria às 22h50.
Ainda faltava uma hora e meia.
Sakuta esperou pacientemente.
Um trem chegou, verde e creme, com um estilo retrô.
As portas se abriram, e passageiros vindos de Kamakura desceram, enquanto os que estavam ali embarcaram.
Dava pra ver que o trem ainda estava vazio. Difícil de acreditar — normalmente ficava lotado.
Chegou a hora da partida, e ele saiu devagar.
Outro trem veio.
E depois outro.
O tempo parecia passar aos poucos.
A cada trem que chegava, menos pessoas embarcavam e desembarcavam, e o silêncio da estação só aumentava.
Às 22h40, Sakuta era o único ali.
Então, um trem chegou.
Algumas pessoas desceram.
E, entre elas, Sakuta viu uma fantasia de coelho.
Era impossível não notar aquele rosa.
Ikumi estava com ele.
Eles viram Sakuta e caminharam até ele pela plataforma.
A fantasia de coelho parou bem na frente do banco onde ele estava.
“Você veio impedir a Miori Mitou?”
“Claro que não. Eu vim me despedir dela.”
“Pronto pra negar a Síndrome da Adolescência?”
“Não tô com vontade alguma”
“……”
O coelho ficou em silêncio, tentando entender o que aquilo significava.
“E também não vou esquecer.”
“Então qual é o plano? Vai deixar o mundo continuar alterado?”
“Vou transformar a Síndrome da Adolescência em boas lembranças.”
“……”
“Essa não é a resposta certa?” disse Sakuta, olhando direto para o coelho.
“Acho que você vai descobrir.”
O coelho deu alguns passos em direção às catracas.
Justo quando Miori passou por elas.
Ela encostou o cartão e entrou na plataforma.
“Oi, Akagi.”
“……O quê?”
Um raro momento em que Ikumi realmente se surpreendeu.
“Você disse o que queria dizer pro outro eu?”
Isso fez ela olhar para as costas do coelho.
“Disse. Falei que sempre odiei ele.”
“E aí?”
“Ele não soube como reagir.”
Um leve sorriso surgiu nos lábios dela.
“Imagino que tenha sido bom,” disse Sakuta, com um pequeno riso.
Miori se aproximou dele.
“Você tá de bom humor,” comentou.
“O trem já vai sair. É o das 22h50 pra Kamakura, né?”
Sakuta se levantou do banco e fez menção de entrar no trem.
“Você também vai?” ela perguntou.
“Vou encontrar a Mai em Shichirigahama depois.”
Com isso, Sakuta entrou no trem da Enoden antes de qualquer outra pessoa.
Sakuta e Miori sentaram juntos no pequeno banco no final do vagão. O coelho e a Ikumi ficaram no outro vagão, dando espaço a eles. Ainda dava pra ver os dois sentados perto da porta de conexão.
O último trem com destino a Kamakura saiu de Fujisawa e logo parou na estação Ishigami. Ninguém entrou ou saiu, então ele partiu novamente. O mesmo aconteceu em Yanagikoji, Kugenuma e Shonankaigankoen.
Eventualmente, parou na estação Enoshima.
“Mitou, me dá sua mão.”
“Por quê?” ela perguntou, mas estendeu a mão.
Sakuta tirou uma caneta preta do bolso e escreveu um zero na palma dela — depois os outros dez dígitos, um por um.
Miori observou o tempo todo.
Quando ele terminou, o trem voltou a andar.
Mesmo assim, ela não tirou os olhos do número.
Só olhou pra ele quando o trem entrou na parte de trilho urbano.
“Você comprou um celular,” disse ela, um pouco contrariada.
Sakuta tirou o celular novo do bolso e mostrou.
“O mais barato.”
“Ontem você era totalmente contra isso.”
Parecia ser esse o motivo da irritação dela.
“Reclama com o eu de ontem.”
“Você é insuportável.”
Miori caiu na risada.
Não havia mais ninguém no vagão, então a risada ecoou, meio vazia.
Mas ela não parecia se importar.
Quando parou de rir, disse:
“Então acho melhor eu te passar o meu também.”
Sorrindo, ela tirou algo da bolsa.
Um retângulo do tamanho da palma da mão. Um smartphone.
O mesmo modelo que o dele.
“Você também comprou um.”
“O mais barato.”
Ela falou isso de propósito, como se estivesse se gabando. Digitou o número que ele tinha escrito na mão dela.
Logo depois, o celular novo dele vibrou uma vez.
Apareceu um (1) ao lado do ícone de telefone. No histórico de chamadas, havia um novo número de onze dígitos começando com zero. Ele salvou como Miori Mitou.
“Me liga assim que você voltar.”
“Pode levar anos pra trazer a Touko de volta em todos os mundos.”
“Não importa quantos anos leve, eu ainda vou ser sua amiga.”
“……É.”
Mitou ficou pensando nisso.
“Bom, pelo menos trocamos contato,” disse ela, levantando o celular.
O trem passou pelo semáforo de Minegahara.
“Próxima estação: Shichirigahama,” anunciou uma voz feminina.
Com o som dos trilhos rangendo, o trem entrou na estação e parou silenciosamente.
“……”
Sakuta se levantou sem dizer mais nada.
Ele já tinha dito tudo o que precisava.
As portas se abriram.
E, quando ele estava prestes a descer…
“Azusagawa,” chamou Miori, com seu tom habitual.
“……”
Ele se virou.
“Eu postei a versão completa daquela música. Se quiser me ver de novo, escuta ela.”
Ela deu um sorriso tímido.
Sincero, mesmo que um pouco sem jeito.
“Então eu vou ouvir todo dia,” respondeu ele, com o coração aquecido.
E ele falava sério.
“Eu vou indo,” disse Miori, com uma calma firme.
“Vai lá. Quando você voltar, eu vou estar um pouco mais maduro,” ele respondeu no mesmo tom.
Ele desceu do trem e seguiu em frente com a própria vida.
As portas se fecharam.
Ele se virou e observou o trem partir.
Seus olhos o acompanhavam enquanto ele se afastava.
Ao longe, ouviu o som do sinal de um cruzamento o mesmo perto do colégio Minegahara. Ele tinha escutado aquele som todos os dias por três anos inteiros.
Um vagão após o outro desapareceu naquela direção.
Era um trem curto, com quatro vagões.
Logo, ele já não conseguia mais vê-lo.
Restava apenas o som do sinal à distância.
E, pouco depois, até isso cessou.
O silêncio tomou conta da estação de Shichirigahama.
Sakuta tinha sido a única pessoa a descer ali.
E não havia ninguém esperando o trem chegar.
Não havia funcionários naquela hora.
Então ele estava completamente sozinho na estação.
De pé na plataforma, com os olhos fixos no lugar onde o trem estava, Sakuta encarava a distância na direção de Kamakura.
Ele não sabia quanto tempo ficou ali assim.
Só voltou a si quando uma voz disse:
“Então ela foi embora.”
Ele sentiu aquela pequena mão na sua novamente.
Olhou para baixo e encontrou a menina da mochila.
Ela estava ao lado dele na plataforma, segurando sua mão.
“Foi a coisa certa a fazer.”
“Mesmo que você talvez nunca mais a veja?”
“Vai dar certo.”
“O que te faz ter tanta certeza?”
“É como os monstros no teto quando eu era criança. Quando você cresce, eles não parecem mais monstros.”
“……”
A garota olhou para ele de forma estranha.
“Então não existem mais monstros?”
“Não.”
“Todo mundo vai embora,” ela disse, abaixando a cabeça.
“……Isso não é verdade.” Sakuta se virou para ela. “Eu disse que vai dar certo, não disse?”
“……?”
“Mesmo que não pareçam mais monstros, as marcas no teto ainda estão lá. Elas nunca desaparecem.”
Só a sua perspectiva mudou. E isso é apenas uma mudança.
Não significa que as marcas deixaram de existir.
“As marcas ainda estão lá. Eu posso olhar para elas quando quiser e lembrar de como eu via um monstro nelas. Então já está na hora de você também ir para casa.”
Ele ouviu o som da passagem de trem novamente. Ele tinha atravessado aquele lugar tantas vezes no ensino médio.
“Você vai ficar bem sozinho?”
“Eu tenho a Mai comigo. Tenho a Kaede e nossos pais. A Futaba e o Kunimi. Também a Koga. A Toyohama e a Zukki. Na faculdade tenho o Fukuyama, e tenho meus alunos do cursinho. A Akagi está por aí e a Makinohara voltou para a cidade. É praticamente uma festa.”
Um trem com destino a Fujisawa estava chegando vindo de Kamakura.
Aquele trem retrô verde e creme era bem a cara do Enoden.
“Por favor…. Não se perca de novo.”
A garota soltou a mão dele.
O trem parou, e as portas se abriram.
Ela entrou dando pulinhos no vagão.
Então se virou para Sakuta.
“Tchau!” disse, acenando com um sorriso.
“É. Tchau.”
Sakuta acenou de volta.
As portas se fecharam.
O trem partiu.
A garota continuava acenando.
Sakuta também continuou acenando.
Até o trem desaparecer de vista.
À noite, Shichirigahama tinha cheiro de mar.
O vento parecia cantar.
Sakuta deixou a estação vazia, caminhando sozinho em direção à beira do oceano.
Desceu aquela ladeira suave. Aquela estrada familiar levava direto à praia. Logo, ele chegou à Rota 134. Parou no semáforo perto da loja de conveniência , aquele que sempre demorava uma eternidade para abrir. Mas, dessa vez, o sinal abriu na hora.
Do outro lado da estrada, não havia nada entre ele e o mar.
Ele desceu as escadas até a praia.
A areia afundava levemente sob seus pés.
Uma lua bonita brilhava no céu noturno, iluminando tudo com suavidade. E logo Sakuta viu alguém parado numa pequena ponte sobre um riacho que desaguava no mar.
“Mai,” chamou ele, aproximando-se dela.
“Engraçado. A vista daqui já traz lembranças,” disse Mai, olhando para a direita, na direção de Enoshima.
“Pois é.”
Ele olhou para trás e ainda conseguia ver o colégio Minegahara. Os dois estudaram lá, e aquela paisagem estava profundamente ligada à época do ensino médio deles.
Agora tudo aquilo fazia parte do passado. Sem perceberem, tinha se transformado em boas lembranças.
Ele e Mai estavam na mesma sintonia.
“Então, Mai…”
“O quê?”
“Eu estou pensando em tirar licença para ser professor.”
“Vou dar aula em algum ensino médio por aí.”
“Eu fico feliz que tenha encontrado algo que te deixe feliz”
A voz da Mai era suave e acolhedora. Então, o olhar dela se voltou para ele.
“Que tipo de professor?” ela perguntou.
“O tipo de professor que escuta quando um aluno está confuso por causa de uma garota vestindo uma roupa exótica e sugestiva de coelhinha que só ele consegue ver. Mesmo que eu não consiga vê-la. Eu vou acreditar… acreditar mesmo que ninguém mais dê ouvidos”
“Você vai ser bom nisso.”
“Será?”
“Eu garanto.”
“Bom, se você garante, então vou ter que me esforçar.”
“……”
“……”
A conversa foi se apagando. Mas os olhos deles ainda diziam tudo.
“Sakuta.”
“O quê?”
“Feliz aniversário.”
“Um pouco atrasado, Mai.”
“No ano que vem, eu falo no exato momento em que o dia virar.”
Mai deu um passo mais perto e colocou a mão na dele.
Os dedos deles se entrelaçaram enquanto olhavam para o mesmo oceano.
O mesmo céu, a mesma lua.
Os dois estavam vendo as mesmas coisas e dando o próximo passo juntos.
Eles caminharam até a areia.
Deixando duas fileiras de pegadas para trás.
Traduzido por Moonlight Valley
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