Amor Invisível Sob o Céu NoturnoAmor Invisível Sob a Noite de Muitas Cores – Capítulo 3 – Capítulo 3: Família
Capítulo 16♪
Como já era verão, perguntei à minha mãe se eu poderia ajudar mais nas tarefas domésticas, e ela respondeu com entusiasmo: “Claro, Koharu, faz parte do seu treinamento para ser uma boa esposa.”
Assim que comecei, percebi que até para algo tão simples quanto lavar roupa, havia muito o que aprender.
A posição dos botões da máquina de lavar, onde colocar o sabão, a quantidade a usar e assim por diante, tudo precisava ser memorizado e feito corretamente.
“Veja, as peças que podem ir na secadora vão no ciclo de lavagem e secagem, e para roupas mais delicadas, use o ciclo de lavagem a seco e depois pendure-as para secar.”
Minha mãe me ensinou.
“Toque aqui.”
“Sim.”
“Você pode colocar isso na secadora.”
“Sim.”
“Agora, toque aqui.”
“Sim.”
“Você lava isso a seco.”
Ela me ensinou a diferenciá-las pela textura. Achei que tinha muita coisa para lembrar, mas aí a mãe disse…
“Bem, não tem problema se você lavar a roupa, mesmo que cometa alguns erros. Um pouco de sabão geralmente basta. Tudo bem se for feito com cuidado,” minha mãe sorriu.
Eu estava passando pano no chão depois de lavar a roupa quando…
“Koharu~”
“Sim?”
“Que tal você cozinhar da próxima vez e convidar o Sorano-kun para almoçar?”
“Hã? Sério?”
“É melhor ter um objetivo, não é?” Ela passou o braço pelos meus ombros.
“Ótimo!”
“Do que o Sorano-kun gosta?”
“Ele gosta de curry~”
“Fufufu, isso é tão a cara do Sorano-kun.”
“Perfeito.”
“Vamos praticar,” disse minha mãe, dando um tapinha no meu ombro.
E assim começou meu treinamento intenso.
Aperte o botão no canto superior direito para ligar o aparelho. O segundo botão da esquerda para a direita é para o modo de lavagem e secagem.
A entrada para detergente fica no meio, para o sabão em pó, e à direita, para o amaciante. Geralmente, uma tampa de cada é suficiente. Insira o dedo na tampa do sabão em pó e verifique a quantidade pelo tato.
“Mãe, estou pronta para lavar roupa!”
“Sim, sim!,” respondeu minha mãe, aproximando-se.
“Vamos conferir.”
“Por favor, verifique bem!”
Hoje decidi me desafiar a lavar a roupa sozinha. Apesar de ser um desafio, como é uma máquina de lavar e secar combinada, ela faz tudo, até secar, com apenas um toque de botão. Mas eu tive que colocar as roupas íntimas em um saco de malha, separar as roupas, decidir qual botão apertar, quanto detergente usar e onde — eram muitos passos a seguir.
“Está tudo certo com o detergente, e não tem nada que não possa ir na secadora. Perfeito! Você conseguiu, Koharu!” Minha mãe pegou minha mão.
“Que ótimo! Agora esta máquina de lavar também é minha.”
“Como assim, ‘também é sua’? Hahaha.”
“Com esta máquina de lavar, eu poderia até lavar de olhos fechados.”
“Incrível, incrível! Koharu, você tem um talento incrível!”
“Que tal eu tentar lavar a louça da próxima vez?”
“Então, vamos para a cozinha? Posso te ajudar?”
“Quero ser capaz de fazer mais coisas por mim mesma e também enfrentar o desafio de morar sozinha~”
“Não se preocupe muito, estarei com você o tempo todo.”
Assim ela sorriu.
Achei divertido ver como as coisas que eu conseguia fazer aumentavam aos poucos.
♪
“Hoje, a mãe e eu fizemos hambúrgueres. Você gostaria de ficar para a janta?”
“Hã? Sério?”
“Não se preocupe. Pensei que você também fosse comer, então fiz o suficiente para três, Kakeru-kun.”
“Mesmo? Bem, depois da nossa caminhada, aceitarei seu convite.”
“Mããee, o Kakeru-kun também vai comer~!” Gritei para a sala de estar e recebi um “Okaaay!” como resposta. Em troca.
Naquela noite, antes de sair para caminhar com Kakeru-kun, nós dois nos borrifamos com repelente de insetos na entrada.
Caminhadas noturnas no verão podem ser perigosas se você não tomar cuidado, pois os mosquitos picam imediatamente.
Principalmente nas trilhas ao longo do Rio Sumida, onde há arbustos e muitos mosquitos.
Kakeru-kun me borrifou com repelente e eu espalhei o spray com a palma da mão.
“A propósito, como foram os resultados do exame hoje?”
“Está tudo bem. Não há motivo para se preocupar.”
“Mesmo?”
“Você não confia em mim?”
“Há um histórico, Koharu...” e eu já havia inflado as bochechas.
Embora eu tenha superado o câncer, preciso fazer exames de acompanhamento a cada seis meses.
Para verificar se há recorrências ou metástases.
O medo não desaparece, pois já houve uma recaída antes.
Pensar em quando voltarei para o hospital me deixa deprimida.
Mas...
Mas, mas...
Mesmo que eu tente me manter desanimada, não adianta.
Ninguém sabe quando pode ficar gravemente doente ou sofrer um acidente.
A única coisa que posso fazer é viver a vida ao máximo. Não vou desistir.
Kakeru-kun me ensinou a sorrir como fogos de artifício.
“Vou te borrifar, então vire a cabeça.”
“Obrigada.”
Me virei, jogando o cabelo para frente para que fosse mais fácil borrifar meu pescoço.
O jato frio me atingiu de uma vez e eu soltei um “Hya!”
Nesse momento, Kakeru-kun me abraçou forte por trás.
“O-O que foi?”
O abraço repentino fez meu coração disparar. “Hum...” Kakeru-kun começou hesitante.
“É que eu tenho medo de me acostumar com resultados de exames dizendo: ‘está tudo bem’.”
Foi o que Kakeru-kun disse.
Então, ele também carrega esse fardo, pensei.
Se eu me acostumar com resultados dizendo ‘está tudo bem’, se de repente me disserem que há um problema quando eu não estiver preparada, isso seria aterrorizante.
Kakeru-kun compartilha um pouco da minha ansiedade. Pensar nisso fez meus olhos lacrimejarem.
“Obrigada.”
Eu disse várias vezes e toquei a mão que Kakeru-kun havia colocado sobre a minha.
“Eu realmente agradeço. Mas não seria estranho se a mãe vier?”
Kakeru-kun pareceu perceber e rapidamente retirou a mão.
Ouvi um “desculpe” baixinho...
“Vamos?” Onde Kakeru-kun me tocou, ainda estava quente.
De mãos dadas, saímos do apartamento juntos.
Era uma noite tropical.
O suor começou a escorrer pela minha pele e senti o repelente de insetos que havia passado antes perdendo o efeito. Talvez por causa do calor, o canto das cigarras também parecia um pouco fraco.
“Está quente, não é?”
“Sim, o suor aparece na hora.”
“Vamos voltar?”
“Hã? Por quê?”
Quando perguntei, Kakeru-kun achou que talvez estivesse me tocando de um jeito desconfortável.
“É que só estamos curtindo uma caminhada.”
Achei tão engraçado que me fez rir.
“A propósito...”
“Sim?”
Perguntei sobre algo que Kakeru-kun havia começado a dizer antes e que me deixou inquieta.
“Você disse que a Yuuko-chan e o Narumi-san tinham um relacionamento complicado.”
“Ah, isso?”
“Sim, isso. O que tem exatamente entre eles?”
“Aqueles dois começaram a namorar enquanto você estava no hospital.”
“Hã!?”
[Del: Eh!? | Kazuki: Ok, isso foi meio inesperado.]
“Parece inacreditável, não é?”
Segundo o Kakeru-kun, eles começaram a namorar repentinamente no terceiro ano da faculdade e, em menos de três meses, terminaram do nada.
[Del: Huh!? Relacionamento durou 3 falas e 1 parágrafo… | Kazuki: Ok né…]
Parece que o Kakeru-kun não sabe os detalhes sobre o início e o fim do relacionamento.
“Não devemos fazer muitas perguntas sobre relacionamentos românticos entre amigos.”
“É verdade.”
Ouvíamos os passos deles enquanto caminhávamos. Certamente não havia mais ninguém por perto hoje.
“Só ouvi do Narumi que ‘algo estava estranho, então decidimos voltar a ser amigos. Não se preocupe, foi uma separação amigável.’ Fico imaginando o que aconteceu com aqueles dois.”
“Naquela vez que fomos comer okonomiyaki, eles não pareciam ex-namorados.”
“Sério? É, eles pareciam estar se dando bem mesmo.”
Suponho que ainda sejam amigos próximos, pensei com um toque de melancolia.
“Nossa, que surpresa. Por que você não me contou antes?”
“Quando tentei te contar, eles já tinham terminado, e eu perdi a minha chance,” respondeu Kakeru-kun.
Nossa, eu não sabia que os dois tinham namorado.
Mesmo assim, fico feliz que tenham continuado se dando bem depois do término. Mas, pensando bem, percebi que estava sendo muito egoísta. Eu só estava pensando em como era bom que a amizade entre os quatro não tivesse se deteriorado.
Talvez tenha sido por causa do silêncio que se seguiu. Kakeru-kun falou de repente, com uma voz séria.
“Sinto muito que só possamos nos ver à noite ultimamente.”
“Não, não. Obrigada por sempre vir me ver. Como está a busca por emprego?”
“Está tudo bem. Acho que tudo vai dar certo, ou melhor, eu tenho que fazer dar certo.”
“Por que você está falando com tanta hesitação?” Dei risada novamente do tom brincalhão de Kakeru-kun.
“Chegamos à Praça de Paris. Quer descansar um pouco?”
“Não se preocupe. Vamos caminhar um pouco mais.”
Nosso trajeto habitual começa ao sairmos do condomínio, atravessarmos o semáforo e seguirmos em frente. De acordo com o mapa, parece que estamos indo para o norte. No topo de Tsukishima, que tem formato de crescente, há uma praça chamada Praça Paris, onde costumamos fazer uma pausa. Da Praça Paris, seguimos o caminho até a Ponte Chuo Ohashi e, além dela, fica o Parque Tsukuda. O trajeto habitual termina no Parque Tsukuda, retornando ao condomínio.
“Por que se chama Praça Paris?”
“Bem, não sei ao certo.”
Kakeru-kun me disse que da Praça Paris é possível ver a Ponte Eitai iluminada de azul e, além dela, a Torre Tokyo Skytree também iluminada de azul.
Na superfície escura da água, a ponte e a torre azuis se refletem de cabeça para baixo.
Preto e azul. Achava uma visão fascinante e quase mágica.
Essa imagem ficou gravada na minha memória.
“É por isso que se chama Praça de Paris, porque se parece com Paris?”
“Seria ótimo se houvesse paisagens assim na França também.”
“Sim, seria.”
Certamente há outra origem para o nome.
Mas eu achei que essa paisagem já era suficiente.
Imaginar que a França também tivesse vistas como essa refletidas no rio seria maravilhoso.
“Você tem uma entrevista amanhã, certo?”
“Sim. Tenho preparado os motivos pelos quais quero a vaga e contei com a ajuda da Hayase.”
“Então, quando sua entrevista terminar, você gostaria que eu cozinhasse para você?”
“Eh? Vai mesmo?”
“Sim, eu me esforçarei ao máximo com as tarefas domésticas para você.”
De repente, me senti constrangida ao dizer isso. Parecia que eu estava fazendo uma declaração para casamento.
“Ah, me desculpe. Preparar um cardápio completo deve ser complicado.”
Kakeru-kun logo fez uma brincadeira.
Com um sorriso, ri e disse…
“O cardápio será curry.”
“Apimentado?”
“Que tal médio?” De repente, ouvi uma voz ao lado dizendo: “Bem, vou ter que me esforçar bastante.”
“Boa sorte com a entrevista.”
“Eu também vou me esforçar ao máximo por você.” Kakeru-kun costumava dizer coisas assim, então respondi imediatamente.
“Você não deveria se esforçar ao máximo por mim, mas por você mesmo.” Ao dizer isso, senti um leve desconforto.
Comecei a pensar no porquê e percebi que, para mim também, aprender tarefas domésticas era, antes de tudo, algo para meu próprio benefício.
Não era só por Kakeru-kun; eu realmente precisava me esforçar ao máximo por mim mesma.
♪
“Acho que estou pegando o jeito de lavar e limpar.”
Enquanto estávamos sentados em um banco durante mais uma caminhada, contei a Kakeru-kun sobre minhas conquistas diárias.
Kakeru-kun ouvia atentamente enquanto segurava minha mão.
Com seu típico “Heh” que ele usa quando está prestando atenção, ele me dava respostas gentis. Ele era tão bom em demonstrar interesse que eu quase me preocupava se ele ouvia outras garotas da mesma forma. Mas, bem, eu não acho que Kakeru-kun faria algo assim. Ou pelo menos é o que me parece.
“Estabelecer metas e trabalhar duro é o que te torna incrível, Koharu~” Kakeru-kun disse com tanta naturalidade que me deixou feliz, tanto que eu queria que ele acariciasse minha cabeça.
“Ei, quais você acha que são meus pontos fortes?”
De repente, Kakeru-kun me perguntou com uma voz séria.
Quando perguntei por que, ele explicou que em entrevistas de emprego sempre lhe perguntam: “Quais são seus pontos fortes?” e que em sua última entrevista ele não soube como responder e foi um grande fracasso.
“Huh?”
Fiquei surpresa.
E Kakeru-kun também.
“Hã?”
Ele estava surpreso.
A voz de Kakeru-kun soava preocupada.
“...Eu não tenho nenhuma?”
“Não é verdade.”
Corrigi-me rapidamente, um pouco nervosa.
“É que você tem tantas qualidades que eu estava me perguntando por que estava perguntando.”
“Ah, é mesmo? Então pode me dizer dez coisas boas sobre mim?” Enquanto ele falava, comecei a contá-las uma a uma nos dedos.
“Você é gentil. Você sempre me ajuda. Você tem uma voz linda. Suas mãos são quentes. Você me guia. Você é bonito.”
“Espere, espere.”
Kakeru-kun, visivelmente envergonhado, parou meus dedos.
“Eu não esperava que você dissesse isso tão facilmente. Além disso, como você sabe que eu sou bonito?”
“Porque você é, Kakeru-kun.” Vê-lo tão perplexo o tornava ainda mais adorável.
“A propósito, você pode me dizer dez coisas boas sobre mim, Kakeru-kun?”
“Eu poderia, mas tenho vergonha de dizer aqui.”
“E aquela vez em que você disse coisas constrangedoras em Ginza sem nem pestanejar?”
“Da próxima vez eu conto direito.”
“Que mesquinho,” murmurei.
“Em entrevistas de emprego, você fala sobre ‘seus pontos fortes’, certo?”
“Sim.”
“Acho que o fato de você tratar todos igualmente, sem fazer distinções, é um dos seus maiores pontos fortes em comparação com os outros.”
“Entendo...”
“É verdade.”
As cigarras cantavam. Achei-as muito trabalhadoras, cantando até à noite.
“Obrigada,” murmurou Kakeru-kun.
“Koharu, você sempre diz essas coisas logo de cara. Honestamente, isso me ajuda muito.”
Ser agradecida me deixou realmente feliz por ele confiar em mim.
Meu coração se encheu de alegria ao perceber que eu podia ser útil.
“Ah~, tenho uma entrevista amanhã,” disse Kakeru-kun.
Mesmo sem poder vê-lo, eu tinha certeza de que ele disse isso olhando para o céu, com uma mistura de expectativa e preocupação.
No dia seguinte, depois de voltar da universidade, deitei-me na cama e liguei para Kakeru-kun. Sua voz soava abafada. Mais do que abafada, tinha um tom ligeiramente seco.
“Aconteceu alguma coisa ruim com você?”
“Hã? Por que a pergunta?”
Hoje era o dia da importante entrevista de Kakeru-kun. Eu estava curiosa para saber como ele estava, então decidi ligar, mas pelo jeito que ele falou, parecia que as coisas não tinham ido muito bem.
“Sua voz parece um pouco abatida.”
“Não é verdade. Estou ótimo. Agora, vou me dedicar de corpo e alma ao trabalho que tanto amo.”
“Não diga que ama algo mais do que a mim.”
“Eh? Nem mesmo meu trabalho?”
“Qualquer coisa que não seja eu está proibida.”
“Entendido,” ele respondeu com uma risada que ecoou nos meus ouvidos.
Embora estivesse rindo, havia um toque de desânimo em sua voz que me preocupou.
“Como foi a entrevista?,” perguntei em um tom bastante alegre.
Então, Kakeru-kun permaneceu em silêncio.
Ah, pensei, isso não é um bom sinal. De repente, percebi o quão insensível ele tinha sido e fiquei nervosa.
“Desculpe... Não correu bem?” Quando eu disse isso, Kakeru-kun também respondeu com uma voz nervosa.
“Não, não é isso, na verdade correu bem. Graças a você, a entrevista foi perfeita.”
“Então... o que aconteceu?”
“Houve um pequeno problema... e acabei desistindo da entrevista.”
“Um problema? Por quê? O que aconteceu?”
Kakeru-kun permaneceu em silêncio novamente, então eu disse que gostaria que ele me contasse a verdade. Eu queria ajudá-lo.
“Na entrevista, mencionei que estou namorando uma garota cega.”
“Como? Você falou de mim?”
“Sim. Eu disse que você era incrivelmente fofa, alegre e que eu te admirava muito.”
Isso... isso me deixou muito envergonhada. Eu não sabia como reagir a tantos elogios diretos.
Então, palavras que eu jamais imaginaria saíram da boca de Kakeru-kun. “E aí o entrevistador me perguntou: ‘Como você conseguiu namorar uma garota assim?’”
“Huh?”
“Eu simplesmente não consegui evitar dizer que não era a maneira certa de colocar as coisas.”
“Me desculpe.”
“Por que você está se desculpando, Koharu? Ele que errou. Eu não aguentei, então fui embora.”
—Ele disse isso.
Ao ouvir essas palavras, fiquei atônita.
De repente, fiquei sem palavras. Senti como se minha garganta estivesse secando e uma sensação gélida percorresse minhas veias.
“Koharu?” perguntou Kakeru-kun.
Eu precisava dizer alguma coisa, então forcei minha voz.
“É que, Kakeru-kun, você estava se gabando de mim. Ah, que desperdício, tudo acabou bem, mas foi tudo em vão. Você não precisava se preocupar comigo, podia simplesmente ter deixado para lá.”
“Eu não podia simplesmente deixar isso para lá.”
A voz de Kakeru-kun estava carregada de raiva.
Ele se lembrou do que aconteceu e ficou com raiva novamente.
Senti uma dor no peito, como se meu coração tivesse parado de bater.
“Meu turno no trabalho está prestes a começar, então conversamos mais tarde, okay?” Com isso, Kakeru-kun desligou.
Assim que a ligação terminou, senti como se tudo o que eu estava reprimindo estivesse prestes a transbordar.
Será que estou sendo um fardo para o Kakeru-kun?
Uma sensação insuportável de insegurança me invadiu.
“Eu não quero ser esse tipo de pessoa…”
Lágrimas quentes começaram a se acumular nos meus olhos, caindo na palma da minha mão.
Pensei que, se ficasse ali chorando, preocuparia minha mãe, então decidi sair para tomar um ar fresco.
Encostei-me no corrimão da rampa e deixei a brisa da noite me acariciar. Embora fosse mais um vento noturno, provavelmente era a brisa da tarde. O céu, naquele momento, certamente tinha um tom alaranjado.
O som dos carros podia ser ouvido na estrada. Parecia não haver muitas pessoas caminhando. O rangido das rodas das bicicletas também podia ser ouvido. Do rio Sumida vinha o som do que parecia ser uma balsa.
Eu me perguntei se, chorando ali sozinha, alguém me veria como uma pessoa estranha.
De repente, pensei em como é difícil encontrar um lugar onde se possa chorar em paz.
Que alívio seria se houvesse um lugar onde eu pudesse chorar alto sem me preocupar.
Enquanto eu lutava para conter as lágrimas que ameaçavam cair e fungava, ouvi uma voz: “Koharu-chan?”
“O que foi?”
Essa voz era de Yuuko-chan.
“Hã? Yuuko-chan?”
“Sim, fiquei surpresa. Passei por aqui e vi você, Koharu-chan.”
Acabou sendo a Yuuko-chan.
Aparentemente, algumas pessoas que ela conheceu enquanto procurava emprego pediram que ela lhes mostrasse um restaurante de monjayaki em Tsukishima, então elas estavam em reunião desde o meio-dia. Depois disso, ela decidiu voltar para casa a pé para espairecer. E bem na hora em que passava pelo meu apartamento, ela me viu.
“O que foi? Você brigou com a sua mãe?”
“Não, não é isso.”
Fiquei em silêncio por um momento, e então ela disse...
“Se você não quiser falar sobre isso, tudo bem. Eu também preciso de um tempinho.”
Yuuko-chan disse isso e veio até mim, parando ao meu lado, tão perto que nossos ombros quase se tocavam.
Nós duas ficamos ali em silêncio, sem dizer nada, apenas olhando para o nada.
“Ei, Koharu-chan.”
“...Que foi?”
“Mesmo sendo pôr do sol, ainda dá para ver a lua.”
Senti como se Yuuko-chan estivesse olhando para o céu. Imitando-a, olhei para cima e tentei imaginar a lua. Havia mesmo uma lua grande flutuando no céu.
“Não tem nuvens?”
“Não, não tem nuvens.”
“E qual é o formato dela?”
“Acho que se chama crescente. É como se estivesse dividida ao meio.”
Uma lua crescente flutuava no céu.
“A lua também tem seu lado escuro, não só a parte brilhante. Metade dela fica na sombra.”
“É a vida, todos nós somos assim,” disse ela.
Talvez por estar um pouco embriagada, Yuuko-chan disse algo filosófico.
“Desde que nos conhecemos durante a busca de emprego, dissemos que mesmo se fôssemos para empresas diferentes, ainda seríamos amigos. Mas no fim, só acabamos falando sobre fazer uma despedida de solteiro quando nos tornássemos adultos~”
“E claro, sempre tem alguém tentando levar alguém para casa,” comentou Yuuko-chan. Eu não conseguia ver a expressão de Yuuko-chan, mas imaginei que ela estivesse irritada.
“Hã!? Você está bem?”
“Sim, sim, está tudo bem. Eu me esquivei graciosamente e saí depois da primeira tentativa.”
“Você é incrível, Yuuko-chan.”
“Essa é comigo!”
Eu ri do tom firme de Yuuko-chan. Então, ouvi-a rir também. Não sei por quê, mas senti que hoje, com a lua crescente no céu, era bom desabafar um pouco.
“O que aconteceu há pouco...”
“Sim?”
“Eu estava falando ao telefone com o Kakeru-kun.”
“Sim.”
“Na entrevista para a vaga que ele escolheu, parece que a conversa desviou para o relacionamento amoroso dele.”
“O quê? O Kakeru-kun foi mal porque falou sobre o relacionamento dele na entrevista?”
“Não, aparentemente não foi o caso. Ele disse que o entrevistador falou mal de mim, então o Kakeru-kun decidiu desistir da entrevista.”
Após uma pausa, ouvi a Yuuko-chan dizer: “Hã~?”
“Não, o Sorano-kun não está errado, mas por que ele te diria isso, Koharu-chan? Além disso, ele não tem ideia de quanto praticou para a entrevista? E agora está desistindo por causa disso?” ela disse.
Eu podia sentir a raiva fervendo na voz da Yuuko-chan.
“Tudo bem, Koharu-chan. Vamos.”
“Para onde?”
“Para o local de trabalho do Sorano-kun.”
“Eh? Agora?”
“Um táxi está passando, vou chamar ele.”
Quando a Yuuko-chan toma uma decisão, não há quem a faça parar.
Antes que eu percebesse, ela me empurrou para dentro do táxi e estávamos a caminho do local de trabalho do Kakeru-kun.
Eu sabia que o local de trabalho do Kakeru-kun ficava em um estabelecimento subterrâneo na Estação de Tóquio. À noite, é um café que também serve bebidas alcoólicas. Quando mencionei que nunca tinha ido lá, Yuuko-chan comentou que já tinha ido várias vezes. Ela disse que gostava porque podia beber lá, e enquanto eu ouvia sua risada alegre, me perguntei quando ela tinha se afeiçoado tanto a bebidas.
“Chegamos.” Yuuko-chan, que estava me ajudando a caminhar, parou.
“Não tem problema termos vindo? Afinal, o Kakeru-kun está trabalhando.”
“Está tudo bem, está tudo bem. Quando a hora de fechar se aproxima, geralmente fica bem tranquilo.” Yuuko-chan falou como uma cliente comum.
“Bem, vamos entrar.” Com isso, Yuuko-chan me conduziu para dentro.
De repente, ouvi a voz de Kakeru-kun:
“Bem-vindas. Sintam-se à vontade para sentar.”
Foi isso que ouvi. Dentro da loja, tudo estava tão barulhento que parecia estar muito movimentado.
“Hã? Hayase e Koharu?”
Ouvi a voz confusa de Kakeru-kun.
“O que houve?”
“Não é ‘o que houve’! Sorano-kun, você não tem nada para me dizer?!”
“Quê? O que aconteceu de repente?”
A voz irritada de Yuuko-chan e a voz confusa de Kakeru-kun. Kakeru-kun estava definitivamente sendo confrontado por Yuuko-chan.
“Você desistiu daquela entrevista em que estava se saindo tão bem, não foi? A Koharu-chan me contou! Quero uma explicação detalhada sobre isso! Vou ficar aqui esperando!”
“Vamos, Koharu-chan!” Dizendo isso, Yuuko-chan me conduziu até a mesa.
“Kakeru-kun, me desculpe!”
Quando eu disse isso, ele respondeu: “Bem, não se preocupe~.”
“Ah, Sorano-kun!”
“Prezada cliente, pedimos gentilmente que mantenha o ambiente um pouco mais silencioso dentro do estabelecimento.”
“Por enquanto, eu gostaria de um highball!” Yuuko-chan disse isso quase como uma despedida, enquanto me guiava até a minha mesa.
“O Kakeru-kun não estava chateado?” Perguntei a Yuuko-chan, e ela riu e disse: “Ah, sim.”
“Sim, ele parecia bem chateado~. Mas você gostaria de comer alguma coisa? É muito gostoso. O Narumi-kun é o responsável pela cozinha e cozinha muito bem.” Yuuko-chan me leu o cardápio e eu pedi um sanduíche de ovo e um chá com leite.
“Ei! Sorano-kun!”
“O que houve?” Kakeru-kun se aproximou com um tom de voz bastante exasperado.
“Você não pode ser um pouco mais gentil? Você está no ramo de servir pessoas!”
“Se eu for demitido, a culpa será sua, Hayase.”
“Bem, eu gostaria de um sanduíche de ovo, um chá com leite e espaguete ao molho vermelho.”
“Você vai me ignorar?”
“Me desculpe por aparecer tão de repente.”
Inclinei a cabeça na direção da voz de Kakeru-kun.
“Bem, já que vocês estão aqui, fiquem à vontade. Vou cortar o sanduíche de ovo em pedaços menores.”
“Muito obrigada.”
Kakeru-kun anotou o pedido e saiu.
“Agora que você mencionou, o Narumi-san também trabalha aqui?”
“Sim, sim. Quando Sorano-kun quis trabalhar, estavam procurando alguém para o cargo que o Narumi-kun está.”
“...Ei… Yuuko-chan.”
“Que foi?”
“Posso te perguntar uma coisa que é um pouco difícil de falar?”
“Claro.”
“Depois que você terminou com o Narumi-san, você não ficou desconfortável vindo aqui? Não está preocupada?”
“Tudo bem, tudo bem. Koharu-chan, você se preocupa demais.”
Yuuko-chan deu uma risadinha.
Nesse instante, Kakeru-kun chegou, dizendo: “Aqui está, um highball e um chá com leite.”
“Do que você está rindo tanto?”
“Nada~. Além disso, temos uma reunião mais tarde sobre a busca de emprego.”
“Ah, okay.”
Com uma voz desanimada, Kakeru-kun saiu rapidamente.
Yuuko-chan disse: “Saúde!” e então o som dela bebendo animadamente pôde ser ouvido.
“Yuuko-chan, você bebeu tudo de uma vez?”
“Não, não. Ainda tem um quarto do copo.”
“Sorano-kun, me traz outro, por favor!” Yuuko-chan gritou. Por algum motivo, achei engraçado e não consegui conter o riso.
“Ei, Yuuko-chan.”
“O que foi?”
“Por que você terminou com o Narumi-san?”
Após uma breve pausa, Yuuko-chan respondeu: “Ah, não expliquei muito bem, né?”
“Claro, não é como se eu tivesse deixado de gostar dele.”
A voz de Yuuko-chan era suave.
“Como pessoa, eu gosto muito dele, e nos damos bem como amigos. Ficar juntos era fácil.”
“É só que eu não acho que era o nosso destino,” disse Yuuko-chan.
“Destino?”
“Sim, o destino. Koharu-chan, você já pensou em como seria se terminasse com o Sorano-kun?”
“Terminar? Com o Kakeru-kun?”
Pensando bem... percebi que nunca havia considerado a possibilidade de terminarmos.
“De jeito nenhum.”
“Eu, por outro lado, depois de um mês de namoro, já estava com medo. Se terminássemos, eu sentia que não seríamos mais amigos… Mesmo gostando dele. Mesmo nos dando bem. É estranho, não é?” Yuuko-chan disse isso com uma voz triste.
[Del: Sabe… pode ser ossada minha, mas estou com um pouco de pena do Narumi…]
“Sabe, quando você começa a pensar assim, é o fim.”
Ouvindo a risada forçada de Yuuko-chan, eu disse...
“Desculpe.”
Foi nesse momento...
“Ah, se não são a Hayase e a Fuyutsuki.”
Narumi-san falou e então disse…
“Aqui está, o espaguete ao molho vermelho e o sanduíche de ovo.”
Ouvi o som dos pratos sendo delicadamente colocados na mesa.
“Obrigada,” disse Yuuko-chan.
“Do que vocês estavam falando?”
“Sobre quando nós namorávamos, Narumi-kun.” De repente, senti um leve cheiro de álcool vindo de Yuuko-chan.
“Ei, já chega.”
“Qual o problema? Não é como se fosse acontecer alguma coisa.”
A julgar pelas vozes deles, parecia que ainda estavam se dando bem.
Então, Kakeru-kun chegou, dizendo: “Ei, Narumi, falar em pé também é proibido.”
“Aqui está. Seu highball, desculpe a demora.”
“Está forte o suficiente?” perguntou Yuuko-chan.
“Fiz forte o suficiente para não ser demitido.” Ele me fez rir de novo com aquele tom de voz, que parecia de um subordinado.
Do lado de Narumi-san, ouvi...
“Bem, quase não tem mais ninguém aqui, então está tudo bem.”
“Ah, então você quer tomar um drinque com a gente? Por minha conta!” disse Yuuko-chan.
“Vou me abster.”
“Eu também.”
As vozes de Narumi-san e Kakeru-kun se misturavam, e era bem engraçado.
“Vocês não querem beber comigo?” Yuuko-chan continuava bebendo animadamente.
“Ei, você está bebendo demais. Não sei se vai conseguir chegar em casa.”
“Calma, calma.”
A fala de Yuuko-chan estava bastante afetada pelo álcool.
“Então, do que vocês estavam falando?” perguntou Kakeru-kun.
Yuuko-chan, agora completamente bêbada, fez uma declaração bombástica...
“Você parece preocupada, Koharu-chan, com o meu namoro com o Narumi-kun. Eu pensei que, se pudesse ter um relacionamento como o seu e do Sorano-kun, eu namoraria o Narumi-kun. Mas percebemos que não era para ser, então terminamos.”
A conversa foi tão franca que me surpreendeu.
“Narumi, você está bem?” Kakeru-kun perguntou.
“Bem, não há nada que possamos fazer a respeito,” respondeu Narumi-san.
“Bem, talvez você possa imaginar, mas...” Narumi-san continuou.
“Namoramos por cerca de três meses, mas não senti nenhuma mudança nas minhas emoções desde que nos tornamos amigos. Mesmo quando dávamos as mãos, eu não sentia borboletas no estômago.”
“Não é horrível? Ele segurou minha mão e disse: ‘Não sinto borboletas’. Você acredita?”
“E a Hayase riu também e disse: ‘Eu também não sinto borboletas’.”
Ao ouvir isso, Kakeru-kun riu e disse: “O quê?” Então Yuuko-chan continuou...
“De alguma forma, percebemos que não era o nosso destino.”
Então ela continuou...
“Parece-me que aqueles que estão claramente destinados a ficar juntos devem ser muito invejados.”
Pensei que essas palavras fossem dirigidas a mim e a Kakeru-kun.
“O que é isso de destino?” perguntou Kakeru-kun.
“Destino é destino,” disse Yuuko-chan firmemente.
“Enfim!” exclamou Yuuko-chan…
“Seja feliz!” Parecia que ela estava falando com Kakeru-kun.
Senti que o apoio dela era muito sincero e fiquei feliz por ter Yuuko-chan como amiga.
“Obrigado,” disse Kakeru-kun.
“Fazer a Koharu-chan feliz é sua obrigação! Mas primeiro, trabalho! O que você vai fazer?” Yuuko-chan estava sendo bem séria.
“Espere um momento, acabei de receber um e-mail de um site de busca de empregos.”
“Deixe-me ver.”
“Muito obrigado pela sua gentileza.”
“O que é?” interrompeu Narumi-san.
Achei a interação tão engraçada que não consegui conter o riso.
Na verdade, quando estamos todos juntos, sempre acaba sendo muito divertido. Então, Kakeru-kun exclamou: “Hã?!”
“O que foi?”
“Recebi um e-mail de uma empresa que eu recusei, pedindo desculpas e perguntando se poderíamos nos encontrar em algum lugar.”
♪
Desde de manhã, eu estava preparando curry.
Não pedi ajuda para a mãe; fui ao supermercado comprar os ingredientes e preparei o curry sozinha.
Comecei a prepará-lo às 10h da manhã e já era tarde.
Embora tenha levado muito mais tempo do que para outras pessoas, senti que era um grande passo para mim. “Koharu, você já cozinhou o arroz?”
“A.”
Bem no final, mamãe, vendo que eu estava com dificuldades, me deu algumas dicas.
Ela me mostrou como medir o arroz apenas pelo tato. Mamãe escolheu arroz não lavado, então ele só precisava ser deixado de molho. Coloquei o arroz na panela elétrica e procurei o botão do canto direito. A maioria dos eletrodomésticos tem um botão liga/desliga com uma pequena saliência. Usei essa saliência para apertar o botão de cozinhar. Quando apertei o botão, começou a tocar uma versão acelerada de “Brilha, Brilha, Estrelinha”. Fiquei me perguntando por que escolheram essa música.
[Del: Clássica, foi a primeira música que aprendi quando estava no início do violino.]
“Que horas o Sorano-kun chega?” perguntou minha mãe.
“Ele deve chegar às 19h.”
“Então, posso fazer a salada?”
“Não, você não pode. Decidi fazer tudo sozinha hoje.”
“Que mesquinha~” respondeu minha mãe.
Hoje convidei o Kakeru-kun para experimentar minha comida.
“Itadakimasu!”
Kakeru-kun pareceu estalar os dedos.
Então, ouvi o som de uma faca e um garfo batendo em um prato.
Antes da refeição, minha mãe me ajudou a prender o cabelo.
“Espero que goste, Sorano-kun,” disse minha mãe.
“Ah, mãe! Por que você disse isso?” Nós dois rimos.
“Você fez tudo sozinha, Koharu?”
“Sim. Das compras ao preparo, eu fiz tudo.”
“Uau, que impressionante.”
Eu estava tão nervosa, pensando em como Kakeru-kun reagiria.
Fiz vários testes de sabor e acho que está bom.
Mas em momentos como esse, não poder ver a expressão no rosto dele só aumenta minha ansiedade.
Eu não conseguia parar de pensar em como Kakeru-kun reagiria.
Eu estava muito, muito nervosa.
“Está delicioso.”
Essa foi a primeira palavra de Kakeru-kun, e eu me senti tão, tão aliviada.
“Você realmente gostou?”
“Sim. Gostei da textura dos pedaços grandes de legumes e de como o sabor se incorporou bem.”
“Oh~, que maravilha!”
“A maravilha é toda minha. Você só se deu ao trabalho de misturar os temperos para mim.”
“Heh?”
“Ouvi dizer que você até foi à Ameyoko comprar os temperos.”
Mãe riu baixinho. Foi aí que percebi que Kakeru-kun estava brincando.
“Eu não fui à Ameyoko! Usei um curry pronto da loja de conveniência! Se você continuar falando essas coisas, da próxima vez vou fazer super apimentado.”
“Por mim tudo bem, na verdade, prefiro assim. Mas você consegue comer comida apimentada, Koharu?”
“Este curry de nível médio de pimenta é o meu limite.”
“É o seu limite?”
“É um limite que mal consigo ultrapassar.”
Há um tempo, minha língua está queimando por causa da pimenta.
Kakeru-kun riu e disse…
“Hahaha, parece que você não aguenta.”
“Em casa, sempre fazíamos curry doce para agradar o paladar da Koharu.”
“Da próxima vez, não se force, pode fazer doce.”
“Eu me acostumo, então vai ficar tudo bem.”
“Sério, obrigado.”
Só de ouvir o Kakeru-kun dizer isso, meu coração se encheu de alegria.
Estendi a perna para roçar na do Kakeru-kun, que estava sentado à minha frente.
“O que foi?” ele perguntou.
Estou feliz e com vontade de tocar no Kakeru-kun. Queria que ele entendesse como me sinto.
“Está bom?”
“Sim, está delicioso.”
“Por favor, me diga um milhão de vezes.”
E Kakeru-kun disse: “Sim, sim,” com um sorriso. Não consigo ver sua expressão, mas tenho certeza de que ele está me olhando com um olhar muito terno.
“A propósito, tenho algo para te contar.” Kakeru-kun disse em tom sério.
“Bem, bem. O que aconteceu?” perguntou minha mãe.
“Consegui um emprego,” disse Kakeru-kun firmemente.
“Então, aquela situação que você mencionou da última vez acabou bem?”
Aparentemente, depois de recusar uma entrevista, Kakeru-kun encontrou-se com alguém da empresa em um café em Monzen-Nakacho. Um executivo se apresentou e, após se desculpar, explicou que queriam contratar alguém que tivesse a coragem de apontar o que estava errado. Kakeru-kun conversou um pouco com o executivo e decidiu se juntar à empresa, impressionado com sua sinceridade.
“Desculpe por ter te preocupado, Koharu.”
“Ah! Sério! Que ótima notícia!”
“Talvez devêssemos ter feito sukiyaki em vez de curry para comemorar.”
“Qualquer coisa que você faça me deixa feliz.”
Eu queria abraçar Kakeru-kun imediatamente, mas me contive porque minha mãe estava ali. Então, de repente, minha mãe perguntou…
“Sorano-kun, você vai morar aqui quando se formar?”
“O quê!?”
Mãe riu, como se estivesse provocando o Kakeru-kun.
“Ow, mãe!”
Meu coração acelerou um pouco.
Não pude deixar de me imaginar morando com o Kakeru-kun.
Então…
Kakeru-kun também tem um emprego agora, e talvez essa possibilidade não seja tão absurda.
Ultimamente, tenho aprendido a lavar roupa, lavar louça e até cozinhar, aos poucos.
Será que eu daria conta se acabasse morando com o Kakeru-kun?
Só de pensar nisso, meu corpo esquentou. Devia ser por causa da pimenta do curry.
“Koharu?”
Ouvi a voz do Kakeru-kun.
“O-O que foi?”
“Você está bem? Parece distraída.” Sorri para Kakeru-kun, balançando a cabeça.
Seria maravilhoso se esse futuro se tornasse realidade.
Farei o meu melhor.
Era nisso que eu estava pensando naquele momento.
“Ah, os fogos de artifício,” disse minha mãe.
“Agora que penso nisso, hoje é o Festival de Fogos de Artifício do Rio Sumida.”
“Dá para ver daqui?” perguntou Kakeru-kun.
“Tem um prédio bem na frente, então só dá para ver um pouquinho do canto.”
Ela respondeu, permanecendo em silêncio. Kakeru-kun também ficou em silêncio, e eu tive a sensação de que ambos estavam olhando atentamente pela janela.
“Dá para ver os fogos de artifício?”
“Ah, desculpe. Estava distraída. No fim, o prédio bloqueia a vista,” disse Kakeru-kun.
“Da Ponte Eitai, a vista é mais clara; talvez você consiga ver de lá,” sugeriu a mãe.
“Então talvez você consiga vê-los da Praça de Paris.” Comentou Kakeru-kun baixinho.
Ao ouvir isso, mãe nos incentivou: “Não se preocupem em recolher os pratos, vão ver os fogos de artifício.”
“Eu recolho quando voltarmos.”
“Tudo bem, não se preocupe.”
“Não, sério, está tudo bem.”
“Divirtam-se!”
“Okay, eu recolho depois!”
Após essa conversa com mamãe, nós dois saímos.
Descemos do prédio e começamos a caminhar pelo nosso caminho de sempre.
Kakeru-kun, como sempre, se posicionou à minha esquerda, o que me fez sorrir involuntariamente, já que aquele era o seu lugar preferido.
Como estávamos longe do local do festival, quase não havia ninguém por perto. O som dos fogos de artifício podia ser ouvido à distância.
“Espero que possamos vê-los.”
“Se der para ver, seria bom um lugar secreto.”
Caminhei apoiada em seu braço. A noite de julho estava abafada e quente, e o braço de Kakeru-kun estava um pouco suado.
“Estamos quase na Praça de Paris.”
Disse Kakeru-kun, parando. Então, o abracei mais forte, inalando seu perfume de seu ombro. Eu me perguntava o que havia no cheiro de alguém de quem você gosta, que parecia misturar um aroma que enlouquecia uma garota. Eu queria abraçá-lo ainda mais forte. Queria esfregar meu rosto em seu ombro.
“Vamos nos sentar?”
Perguntou Kakeru-kun, me tirando dos meus pensamentos.
“Não me importo de ficar em pé.”
“Você consegue ver os fogos de artifício?” Perguntei a ele.
Eu podia sentir a presença de pessoas na Praça de Paris. Podia ouvir vozes conversando e exclamações de:
“Estão aqui, estão aqui!”
“Sim, estão.”
“Descreva para mim.”
Kakeru-kun descreveu os fogos de artifício para mim.
“Um enorme foguete foi lançado sobre a Ponte Eitai. Explodiu em um círculo perfeito e brilhou prateado. Agora, acho que está em frente à Tokyo Skytree. É um efeito de três camadas e brilha em três cores: vermelho, azul e amarelo, do centro para fora.”
O som dos fogos de artifício era fraco. Certamente, daqui, eles pareceriam pequenos e distantes.
Mas em minha mente, eu vi enormes fogos de artifício, brilhando intensamente.
Imaginei como enormes fogos de artifício se elevavam entre a Ponte Eitai, iluminada em azul, e a Tokyo Skytree, também azul.
Eu quase podia ouvir as fortes explosões ecoando ao longo do Rio Sumida, refletindo as cores vibrantes na água.
“Agora, uma ‘Mina Estelar’ está começando. Vários fogos de artifício amarelos estão explodindo rapidamente.”
Com essas palavras, minha mente se encheu de luz amarela. Mesmo sem conseguir enxergar, estando com o Kakeru-kun, eu ainda conseguia apreciar os fogos de artifício.
Sentia uma profunda gratidão por tê-lo ao meu lado... Ele expandiu meus horizontes, e eu desejava poder ficar com ele para sempre.
Queria poder ficar assim, ao lado do Kakeru-kun.
À minha frente, os fogos de artifício brilhavam em uma explosão de cores.
Abracei sua mão direita e apoiei minha cabeça em seu ombro.
“Eu amo você,” murmurei.
Kakeru-kun perguntou: “Você disse alguma coisa?,” ao que respondi: “Nada~.”
Sorri para ele. Eu queria que o Kakeru-kun visse o meu melhor lado, mesmo que por um instante.
“Obrigada por me trazer aqui.”
“De nada. Eu também queria ver os fogos de artifício.”
Este lugar é uma ótima descoberta.
Vamos voltar no ano que vem?
Enquanto conversávamos sobre isso, meu celular apitou. “Só um momento.”
Eu disse, e quando toquei na tela, vi que era uma ligação da minha mãe.
Fiquei curiosa para saber o que poderia ser, e quando atendi, a primeira coisa que ela disse foi: “Koharu, é uma emergência!”
“O que aconteceu?”
O tom dela estava estranho, então perguntei, e minha mãe me deu uma notícia inesperada:
“A vovó Niigata faleceu.”
♪
A vovó que faleceu era a vó Yoshiko, mãe do meu pai. Justo quando estávamos conversando sobre nos reunirmos para comemorar seu aniversário de 88 anos, ela adoeceu com um resfriado que se agravou e ela faleceu.
No dia seguinte, fomos para a casa da vó.
Meu pai estava indo direto do trabalho, então minha mãe e eu pegamos o trem-bala juntas para chegar à casa dela.
Houve um velório e depois o funeral.
Honestamente, eu não tinha muitas lembranças com a minha vó. Meu pai não costumava voltar à sua cidade natal com frequência e, depois que fiquei doente, quase não tive oportunidade de visitá-la.
Então, mais do que sentir tristeza pela sua morte, o que realmente me dominou foi a frustração de não poder ajudar em nada durante o velório e o funeral.
Como meu pai era o anfitrião, minha mãe estava ocupada com todo tipo de preparativo: organizar o local, contatar parentes e amigos próximos e lidar com toda a correria desde que recebeu a notícia. Apesar de tudo, ela arranjou tempo para preparar minhas roupas de luto. Mesmo depois de chegar à casa da minha avó, ela cuidou da comida para o velório e cumprimentou os presentes, sem ter um único momento para descansar.
A pessoa mais triste é a mais ocupada, e eu também achava que deveria ajudar de alguma forma.
Pensei nisso, mas em situações como essa, tudo o que eu podia fazer era sentar em um canto da sala em seiza.
Agora que sou adulta, me pergunto por que não pude fazer mais. Senti tanta frustração que cerrei os dentes. Eu queria muito ver.
“Bem, ela viveu até os 87 anos, então foi uma boa vida,” disse a voz de um parente. Não havia um clima sombrio no funeral da vovó; todos se despediam, agradecendo pelos cuidados que receberam. Pensei que essa era a única coisa que me consolava.
Após o velório, o funeral e a cremação, uma refeição chamada “shoujinotoshi” foi realizada na casa da vovó.
O grande salão cheirava a incenso. Muitas pessoas estavam reunidas.
“Você pode ficar aqui, Koharu?” Mãe disse que ia servir os convidados. Meu pai parecia estar cercado por parentes em uma área distante.
“Koharu-chan, você está comendo?” Um parente me perguntou. Lembro-me de ter sido apresentada a ele como primo do papai.
“Sim, estou comendo. Está delicioso.”
“Este arroz também é cultivado aqui na região,” disse meu tio, acrescentando…
“O arroz Minami Uonuma é o melhor do Japão.”
“Se precisar de alguma coisa, me avise. Não seja tímida,” acrescentou meu tio. Pensei que ele provavelmente tinha vindo verificar minha visão.
Senti um alívio ao perceber que existem pessoas gentis como Kakeru-kun. Ao mesmo tempo, a culpa por não poder fazer nada ressurgiu.
De repente, me perguntei quantas pessoas havia neste lugar. O pai… ou melhor, a família Fuyutsuki parece ter muitos parentes, e a vó, que sempre fora agricultora, também tinha muitos conhecidos.
Se eu prestasse atenção, conseguiria ouvir muitos sons.
Vozes de adultos conversando e rindo, o som de copos sendo colocados na mesa, passos de alguém servindo comida, vozes repreendendo crianças por não comerem com as mãos e o barulho de crianças correndo.
De repente, me lembrei de uma conversa com a vó.
Era verão, um ano antes de perder a visão. Quando minha família e eu ficamos na casa da vovó. Pensando nisso agora, percebo que essa lembrança é a última imagem que tenho dela.
A vó tinha diabetes, mas costumava comer melancia comigo no terraço, escondida.
“Koharu?”
“O que foi?”
“Talvez você também possa ter uma doença grave, como eu.”
Fiquei me perguntando por que ela estava falando sobre isso. No entanto, suas palavras tinham um estranho tom persuasivo.
“É o destino. O destino só testa aqueles que conseguem superá-lo.”
[Del: …]
“Então ficarei bem com a minha doença também.” Enquanto dizia isso, a vovó cortou a melancia e me disse…
“Esta parte é para você.” Então acrescentou…
“Viu, Koharu?”
“O que foi?”
“Se esforce.”
“Se esforçar?”
“Quando você se esforça, as pessoas te apoiam. Ninguém dá atenção a quem é preguiçoso.”
A vovó comeu a melancia, fazendo um barulho alto, e com o rosto enrugado, sorriu, dizendo que estava doce.
“E também, sorria. Se você sorrir, as pessoas ao seu redor te ajudarão. Pessoas boas se aproximarão de você. Ninguém se aproximará de alguém que está sempre de mau humor.”
A vovó disse isso enquanto cuspia as sementes da melancia.
“Se esforce e sorria. Essa é a coisa mais importante da vida.”
Foi assim que a vovó sorriu. Eu me lembrei disso e pensei que ela tinha razão.
Notei que a vovó estava cercada por muitas pessoas.
Embora eu não pudesse ver mais, sabia que havia muita gente e que ninguém parecia muito deprimido.
“É disso que eu gosto.”
Murmurei sem perceber.
“Do que você gosta?” perguntou minha mãe.
“Ah, hein? Você já voltou?”
“Sim, voltei. Oh, Koharu, você gostaria de um pouco de inarizushi? Vou colocar no prato. Fica no centro, às doze.”
“Obrigada, mãe, pelo seu esforço.”
Minha mãe se inclinou perto do meu ouvido e disse suavemente:
“Mas seu pai também está cansado. Acho que ele quase não dormiu.”
“Espero que ele não desmaie...”
“Quando isso acabar, adoraria ir a uma fonte termal com todos nós para relaxar.”
“Fufufu, isso parece ótimo.”
“Você acha que o Sorano-kun também viria?”
“Não sei como ele se sentiria se, de repente, ficasse nu na frente do pai…”
“É verdade,” pensou minha mãe, dando uma gargalhada.
“Ei, mãe…” Levantei-me e comentei que estava com vontade de colher flores, ao que minha mãe respondeu: “Eu vou com você”. Enquanto me afastava com meus sapatos e o celular, ouvi passos correndo. Então, ouvi uma voz me repreendendo: “Não corra!” e, de repente, alguém esbarrou em mim.
“Koharu!” exclamou minha mãe.
Caí no chão.
Várias pessoas perguntaram se eu estava bem. Também ouvi alguém se desculpando com minha mãe: “Desculpe pelo que meu filho fez…” Uma criança correu e esbarrou em mim.
“Desculpe, Onee-chan,” disse a voz da criança. Não consegui verificar se a criança estava machucada.
“Estou bem. E você? Você se machucou?”
Fiquei aliviada ao ouvir que a criança estava bem.
“Koharu, você está bem?” perguntou minha mãe, colocando a mão no meu ombro.
“Sim, estou bem. Crianças são cheias de energia.”
“Parece que seu celular caiu quando você tropeçou.” Minha mãe me entregou o celular.
Ao tocar na tela, notei algo estranho.
“Parece que está um pouco trincada,” disse minha mãe. Ao passar o dedo, senti uma pequena aspereza no canto superior direito da tela.
“Está tudo bem. Acho que o sistema está funcionando sem problemas.”
“Não vai ter problema se não consertarmos?”
“Se eu deixar cair de novo e ficar irreparável, talvez precisemos consertar.”
“Cuidado,” disse minha mãe, rindo novamente.
Quando o evento “shojinotoshi” terminou e estávamos arrumando tudo, ouvi os parentes falando de mim. Provavelmente era uma conversa que eles achavam que eu não ouviria. Então, tentei ficar o mais invisível possível, prendendo a respiração.
Eles diziam coisas como que eu não podia evitar crianças, que criar filhos iria ser difícil para mim, que eu talvez não pudesse ter filhos mesmo se casasse e que, como eu não podia ajudar nas tarefas domésticas, seria difícil para mim me casar.
O tom não era maldoso; era uma conversa casual, como se estivessem dizendo que, embora a previsão do tempo indicasse sol, parecia que ia chover. Tentei desaparecer e agir como se não estivesse ali.
Quando voltamos para Tóquio, a mãe estava brava com papai. “Por que você não disse nada para aquelas pessoas que estão falando daquele jeito da Koharu?,” perguntou ela. Meu pai, com a voz completamente exausta, respondeu...
“Sinto muito.” Mas é a verdade, e eu não posso negar.” Essas palavras perfuraram meu coração como uma faca.
Foram palavras que me machucaram mais profundamente do que as dos meus parentes.
Eu não consigo impedir as crianças de correrem por aí.
Eu não consigo ajudar em nada.
Eu definitivamente sou diferente de todos os outros.
Senti como se estivesse sendo forçada a aceitar que, pelo resto da minha vida, eu precisaria de alguém para me ajudar a viver.
[DelValle: Poxa, dá uma frustração ver esse tipo de pensamento, afinal, apesar de não estar certo, há um toque de verdade nisto. Mas já dizia a Vó da Koharu, o destino (ou o que quer que queira chamar) testa aqueles com desafios que conseguem superar. Forças Koharu.]
Traduzido por Moonlight Valley
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