As Multiplas Faces de VictoriaVolume 1 – Capítulo 5 – Capítulo 5: O Incidente do Baile
Capítulo 8— Vicky! Vicky!
— Hmm? Ah, desculpe. O que foi?
— O que aconteceu?
Nonna encarou meu rosto com preocupação. Eu estava ensinando-a a costurar, mas minha mente havia vagueado, e eu havia parado abruptamente.
— Não aconteceu nada. Estou bem.
Para ser perfeitamente honesta, mesmo que vários dias tivessem se passado desde o baile, eu ainda não conseguia me livrar das emoções daquela noite.
— Agora, vou te mostrar como costurar dois pedaços de tecido juntos.
— Certo...
Nonna pegou o pano e a agulha e retomou a costura, mas ainda parecia triste. Ela é realmente uma criança tão sensível, pensei com pesar.
— Desculpe, Nonna. Só me distraí.
— Vicky, você parecia com a minha mãe. Ela ficava paralisada assim.
— ...Hmm? O que você quer dizer com isso?
Tive a sensação de que isso era sério demais para ignorar, então encorajei Nonna a me contar. Ela fez uma pausa e então, com alguma dificuldade, começou lentamente a contar a história de sua mãe.
Demorou um pouco para extrair tudo dela, mas a essência era que a mãe de Nonna chegava em casa muito tarde da noite e dormia até o meio-dia. Depois, ela tinha dificuldade para se levantar, quase como se estivesse com dor, o que a deixava mal-humorada e a fazia sair novamente. Foi assim que Nonna foi criada.
Mas um dia, sua mãe se distraiu e se perdeu em pensamentos, como eu acabara de fazer. E gradualmente, esses episódios ficaram cada vez mais longos, até que ela parou de fazer qualquer tarefa doméstica. Um dia, ela levou Nonna à praça e disse: "Vou só fazer umas compras rápidas. Espere aqui." E nunca mais voltou.
Não pude suportar; abracei Nonna com força. — Me desculpe. Prometo que não vou me distrair assim. E nunca vou te abandonar em algum lugar. Juro!
Nonna balançou a cabeça.
— Não, Vicky. Não é isso!
— O que não é isso? Não vou mais te preocupar, Nonna.
— Vicky, em que você estava pensando? Me diga.
Ela olhou nos meus olhos. Seu olhar era tão intenso que eu sabia que ela perceberia se eu mentisse.
— Você quer saber, não quer? Bem, não faço ideia em que sua mãe estava pensando, mas vou compartilhar em que eu estava pensando. Pode não ser uma história divertida para você. Ainda quer que eu te conte?
Nonna assentiu, seus olhos fixos em mim.
— Havia um homem estranho na festa no castelo. Parecia que ele ia tentar machucar alguém. O capitão tentou pegá-lo, mas o homem fugiu. Eu havia previsto para onde ele ia correr, então fui até lá antes para detê-lo. E eu o derrubei com um chute circular, e uma joelhada no estômago.
—...Uau. Uau, você é incrível, Vicky!
Os olhos de Nonna brilharam com admiração. Eu só havia derrotado homens para meus próprios propósitos, algo que eu achava profundamente perturbador.
— Sempre derrotei todo bandido que se aproximou de mim, mas estou começando a achar que talvez devesse parar de fazer isso. Talvez em vez de lutar, eu devesse fugir. Porque se eu lutar, posso colocar você em perigo.
Nonna ponderou sobre isso. — Não podemos simplesmente lutar contra os bandidos juntas?
— Hmm. Bem, não quero colocar você em perigo. Proteger você é muito mais importante para mim do que derrotar bandidos.
Nonna ficou em silêncio e não disse mais nada. Ela apenas olhou para o pano e a agulha em suas mãos.
— Nonna? O que foi?
— Não quero que você se segure por minha causa, Vicky. Isso me faz sentir meio mal por você.
— Nonna, você é a coisa mais importante do mundo para mim. Você não precisa se sentir mal. Quero que você entenda isso.
— Não. Não quero que você se segure!
Acho que as crianças queriam se orgulhar do que seus pais faziam.
Mas eu não podia agir como uma espiã e proteger Nonna ao mesmo tempo, e não tinha intenção de continuar apreendendo criminosos. Naquele momento, eu estava apenas processando as emoções daquela noite.
— Se você se segurar... então você vai desaparecer também — disse Nonna para mim.
— Por quê? Não vou desaparecer!
— Você deve derrotar os bandidos! E não se segurar!
Nonna de repente explodiu em lágrimas, como se uma barragem tivesse se rompido, soluçando incontrolavelmente. Foi a primeira vez que a vi chorar desde que a acolhi.
Me perguntei em que sua mãe estava pensando quando tinha aqueles episódios antes de abandonar Nonna. Eu sabia que escolheria Nonna sem hesitação, não importasse o que acontecesse, mas sua mãe não fez o mesmo. E isso não era culpa da Nonna de forma alguma.
Massageei suavemente suas costas minúsculas. Ela nunca havia chorado uma vez durante todo esse tempo. Talvez ela sentisse que não podia chorar, pensando que fora abandonada porque de alguma forma forçou sua mãe a se segurar.
Ela era tão lamentável que pensei que também fosse chorar.
Quando eu tinha oito anos, me disseram: "Você vai trabalhar para uma família nobre. Dê o seu melhor", e fui entregue a Lancome. Mesmo sendo criança, aceitei a situação o melhor que pude. Embora estivesse sozinha, nunca guardei rancor de meus pais.
Mas a situação de Nonna era diferente; ela havia sido abruptamente abandonada. Não havia como saber quão profundas eram suas cicatrizes emocionais.
A peguei no colo enquanto ela soluçava e chorava em meu abraço, percebi o quão pequena e magra ela era. A leveza de seu corpo falava de quão desnutrida ela havia sido durante aqueles anos cruciais de desenvolvimento, e de como passara seu tempo quieta dentro de casa em vez de brincar lá fora.
Limpei suavemente suas lágrimas e a abracei.
— Tudo bem. Se algum bandido aparecer, cuidarei dele quando for necessário. Mas você é a coisa mais importante para mim, Nonna. E isso nunca, nunca vai mudar. Então, se eu tiver que fugir, fugirei. E nunca vou te deixar.
Me perguntei se o que eu estava dizendo estava chegando até ela. Ela parecia exausta de chorar e tinha uma expressão vaga no rosto. Eventualmente, sua respiração diminuiu, e ela pressionou o rosto contra meu peito.
— Não se preocupe, Nonna. Está tudo bem — eu disse a ela.
Então ela de repente levantou o rosto para mim. — Ei, Vicky. Tenho um pedido para fazer a você.
— Hmm? O que é?
— Me mostre o que você fez para derrubar aquele bandido. Quero ver.
— Aqui? Agora mesmo?
— Sim. Quero ver — ela repetiu.
— Sério...?
A ideia de fazer isso me fez sentir terrivelmente envergonhada, mas eu era fraca demais para recusar a linda garotinha que acabara de chorar. Cedi e demonstrei como havia derrubado o ladrão nos jardins do castelo. E fiz Nonna prometer que nunca contaria a ninguém sobre isso.
— Peguei ele assim, depois chutei assim, e bum! Foi assim que eu fiz!
Se alguém estivesse espiando pelas janelas naquele momento, pensaria que eu estava tendo um ataque. Isso porque Nonna continuava batendo palmas de alegria, dizendo: "De novo! Faça de novo!" Então demonstrei como dei ao homem um chute circular, agarrei seus ombros, dei-lhe uma joelhada no estômago e terminei com um golpe de karatê várias vezes.
— Nonna, prometa que você nunca, nunca vai usar essas técnicas em outra pessoa a menos que eu dê permissão. Você é pequena demais para qualquer um desses movimentos ser eficaz ainda, então tentar seria muito perigoso para você. Entendeu?
— Sim, entendi!
— Promete?
— Prometo!
Nonna finalmente pareceu se animar. Nós duas tomamos banho, jantamos e fomos para a cama juntas. Então ela adormeceu em meus braços.
As crianças entendem muito mais do que os adultos pensam. Pelo menos, eu entendia quando tinha oito anos.
De agora em diante, contarei tudo a Nonna, pensei.
Naquela noite, adormeci sentindo o corpo quente de Nonna ao meu lado.
🃁 🂡 🂱 🃑
Minha tarefa principal hoje era organizar os livros empilhados na biblioteca do Sr. Bernard.
Ele não vinha usando os livros muito recentemente, mas ocasionalmente, não conseguia encontrar um em particular e fazia um escândalo. Eu lhe disse que iria organizar os livros, e quando ele não respondeu, tentei novamente, mas ainda não houve resposta. Quando o Sr. Bernard estava absorto em algo, ele não ouvia nada ao seu redor.
— Fique para trás, Nonna. Vou tirar esses livros das prateleiras. Não quero que você respire essa poeira.
— Quero ajudar você.
— Hmm... Bem, vamos te preparar primeiro.
Amarrei um pano no cabelo de Nonna, e outro em volta do rosto como uma máscara para cobrir seu nariz e boca. Para finalizar, amarrei um avental em sua cintura.
Era um belo dia claro sem brisa — o dia perfeito para limpar a biblioteca.
— Vicky, onde devo colocar isto?
— Isso vai na terceira posição da direita.
— E este livrinho?
— Se você o empilhar naquela pilha, vai cair. Coloque bem na borda.
Havia oito estantes na biblioteca, e cada uma estava abarrotada de livros. Levou muito tempo separando-os todos por categoria e colocando-os no corredor.
Limpei cuidadosamente cada volume com um pano, e depois limpei cada estante com um pano úmido.
— Tudo bem. Hora de guardar os livros — eu disse. Quando saí para o corredor, no entanto, vi Nonna completamente absorta na leitura de um livrinho. — Ah, você encontrou algo bom?
— Sim. Este é interessante.
Era uma coleção de contos de fadas famosos deste reino e das nações vizinhas.
— Hmm, há livros infantis aqui também. Mas não há palavras que você ainda não conhece aí?
— Bem, eu meio que adivinho enquanto leio.
Lembrei-me de fazer o mesmo tipo de coisa quando comecei a ler na instalação de treinamento, simplesmente adivinhando o significado das palavras. — Vou guardar os livros agora, certo?
— Certo.
Primeiro, coloquei todos os livros que havia colocado no corredor de volta nas prateleiras. Organizei-os primeiro por autor, depois por título. Quando terminei, meus braços, costas e quadris estavam doendo. Nonna estava perdida em seu livro o tempo todo. O Sr. Bernard também não tinha saído de seu escritório.
Como era hora do chá, chamei por ele, e nós três tomamos chá juntos.
— Ah, Nonna! Você está lendo aquele livro, está? — ele disse.
— Desculpe por ela ter pegado sem pedir primeiro. Ela o encontrou enquanto estávamos limpando a biblioteca.
Os olhos de Bernard se arregalaram, e ele se levantou de seu lugar, então ele foi para a biblioteca. Nonna e eu o seguimos.
Ele abriu a porta, foi até as estantes e olhou para os livros perfeitamente organizados.
— Organizei os livros por autor, mas se o senhor preferir que eu os organize de outra maneira, posso refazer — eu disse.
— Não, está assim. Perfeito, na verdade! Isso deve ter dado muito trabalho, dada a quantidade de livros.
— Não foi nada. Na verdade, gosto de fazer esse tipo de tarefa.
O Sr. Bernard disse "Hmm, hmm" enquanto assentia. Depois que ele andou e examinou cada estante, voltamos à sala de estar, e então ele falou com Nonna. — Você gosta desse livro, Nonna?
— Sim, é muito interessante.
— Entendo, entendo. Você pode ler qualquer um dos livros da minha biblioteca quando quiser.
— Uau! Posso ler todos eles?
— Pode sim. Livros de história são muito interessantes. É como poder conversar com pessoas que viveram há muito tempo.
— Hmm... — Nonna bebeu seu chá adoçado enquanto ouvia atentamente o Sr. Bernard.
Fiquei feliz que ela tivesse desenvolvido tanto gosto pelos livros, mas fiz uma regra de não comprar nenhum. Livros eram difíceis de transportar, então se surgisse uma emergência, eu teria que deixar todos para trás. E eu odiava deixar coisas para trás, então até agora eu só estava pegando livros emprestados do bibliotecário e fazendo-a ler esses.
— É incomum que o senhor tenha tantos livros infantis, Sr. Bernard — notei.
— Bem, livros de história para crianças são incomuns por si só. E o conteúdo é bastante sólido. Ainda assim, é maravilhoso ver uma criança lendo. Não tenho filhos, mas tenho certeza de que se tivesse, já teria netos agora. Quando olho para Nonna, é como se visse um vislumbre da vida que eu poderia ter tido.
Essas palavras realmente me tocaram.
— Sinto o mesmo. Acho que esta é a vida que eu gostaria de ter tido se tivesse filhos.
O Sr. Bernard olhou para mim como se quisesse dizer algo, mas ficou em silêncio. Me perguntei se era sobre o capitão, mas não fazia sentido falar sobre isso ou ele me perguntar sobre isso, então fiquei grata por sua contenção.
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Naquela noite na cama, Nonna se virou para mim e disse: — Vicky, livros são divertidos, não são?
— Sim, são. Vou te levar ao bibliotecário sempre que você quiser pegar muitos emprestados.
— Certo!
Depois que ela adormeceu, puxei o edredom de volta sobre ela e contemplei seu rosto dormindo. Me perguntei como seriam meus filhos se eu tivesse algum.
— Para ter filhos meus, primeiro teria que haver um pai — murmurei com uma risada seca. Desejar coisas que eu não podia ter só me faria infeliz. E eu tinha a Nonna e isso já deveria ser suficiente. Naquele momento, minha alegria era criá-la até que ela chegasse à idade adulta.
No dia seguinte, o capitão apareceu na propriedade do Sr. Bernard e nos convidou para comer com ele.
— Você e Nonna gostariam de se juntar a mim para uma refeição fora?
— Na verdade, há algo que eu precisava discutir com o senhor. O senhor se importaria de vir à minha casa para jantar em vez disso? É algo que não quero que ninguém mais ouça.
— Entendo. Tudo bem, estarei lá.
O capitão chegou vestido com roupas civis no dia marcado, na hora exata. Ele devia ter saído do banho, porque seus cabelos prateados curtos brilhavam como se fossem feitos de fios de prata fiados.
— Entre, entre — eu disse. — Tem que comer enquanto está quente!
— Que cheiro magnífico. Estava ansioso por esta noite.
Nonna conduziu o capitão para dentro da sala de jantar, e ele sentou-se na cadeira em frente à minha.
Coloquei a sopa branca fumegante em tigelas e as coloquei na mesa antes de me sentar. Havia também uma cesta de pão recém-assado, junto com um prato de manteiga e patê também. O capitão tomou um gole da sopa, então fechou os olhos.
— Hmm, isso é que é bom!
— O senhor gostou?
— Sim, bastante. É sopa de aspargos?
— Sim, o mercado tinha aspargos brancos. Há tantos produtos disponíveis neste reino.
— Fico feliz que você goste daqui.
Esperei até terminarmos a sopa, então me levantei e coloquei as luvas de forno que fiz para tirar o prato do forno. Tinha cronometrado perfeitamente.
Sob o queijo borbulhante havia bacon, cenouras, brócolis e abóbora.
O capitão comeu calmamente a comida fumegante, mas primeiro soprei minha porção para não queimar a boca. O queijo derretido tinha uma crosta crocante e um aroma fragrante. Os legumes estavam macios e doces, com um sabor rico do molho branco e do queijo. Nonna também estava soprando para esfriar.
— Então, sobre o que você queria falar comigo, Victoria? — perguntou o capitão.
— Bem, desde a noite da festa, um homem tem andado furtivamente e me seguido. É assustador e me dá medo, então estou pensando em notificar a guarda municipal para prendê-lo. Mas pensei que deveria avisar o senhor primeiro.
O capitão pensou sobre isso enquanto comia e tomou um gole de vinho, então me encarou. — Não ouvi nada sobre isso, mas tenho a sensação de que essa pessoa pode ter sido contratada pelo príncipe herdeiro. Estou surpreso que você tenha percebido que estava sendo seguida.
— Foi uma coincidência completa que descobri. Vi seu reflexo na janela de uma loja por onde passava. Depois disso, prestei mais atenção e percebi que ele me seguia de vez em quando. Mas o senhor acha que o príncipe herdeiro está por trás disso? Ele investiga toda jovem que aparece, já que o senhor é seu favorito? — perguntei, embora duvidasse que fosse o caso.
— Não, acho que não. Na verdade... alguém nocauteou o ladrão no jardim na noite da festa. Eles suspeitam que foi você. É provavelmente por isso que o príncipe está tentando investigá-la.
— Eu? Nocautear um homem inconsciente? Por que eles pensariam uma coisa dessas?
Naquele momento, imaginei que provavelmente não deveria deixar Nonna ouvir o resto, então olhei para o capitão e depois para ela. Ele entendeu a mensagem e também olhou para Nonna, que estava devorando seu jantar.
— Nonna, depois do jantar, vamos escovar os dentes e colocá-la na cama, certo? — eu disse.
— Certo.
Eu não saberia o que fazer se Nonna de repente demonstrasse um chute circular, uma joelhada no estômago e um golpe de karatê, então pensei que era melhor colocá-la na cama o mais rápido possível.
O capitão ouviu nossa troca em silêncio, seu rosto tenso enquanto tomava um gole de vinho.
Finalmente, Nonna começou a bocejar à mesa de jantar. Escovei rapidamente seus dentes e a levei para o quarto, então a troquei para o pijama. A acomodei na cama, saí do quarto e fechei a porta atrás de mim.
Peguei novos copos e estava prestes a abrir outra garrafa de vinho para nós quando o capitão pegou a garrafa de mim e a abriu com mãos experientes, servindo em copos para nós.
— Para ser honesto, um dos guardas de segurança viu uma mulher fugindo do homem inconsciente no jardim naquela noite. Ele testemunhou que o vestido dela era azul-claro ou roxo-claro.
O quê? Mas estava tão escuro lá! Aparentemente, outra pessoa tinha visão noturna que rivalizava com a minha. Recriminei-me internamente.
— Eu estava no canto do salão. É muito incômodo ser seguida por causa de algo que não fiz. Se o príncipe herdeiro insistir em continuar me seguindo, então...
O capitão me interrompeu antes que eu pudesse terminar a frase. — Assumirei a responsabilidade e farei com que o príncipe pare a vigilância. Então, por favor, não desapareça ou algo assim.
— O que o senhor quer dizer com "desaparecer"? — repeti, e o capitão estremeceu ligeiramente.
— Não sei. Só tenho a sensação de que você vai desaparecer um dia.
— Não vou fazer isso. O senhor está pensando demais.
Ele era um homem incomumente perspicaz.
Para ser sincera, fiquei surpresa que ele tivesse dito isso, porque naquele exato momento, eu pensei: Se a família real está se interessando por mim, talvez seja uma boa ideia me mudar para outro país...
Depois disso, trouxe à tona vários tópicos mundanos. Fiz várias perguntas ao capitão e assumi o papel de ouvinte. Ele me fez rir contando histórias dos vários erros de seus subordinados. A noite continuou, e então ele se levantou.
— Posso visitá-la novamente?
— Sim, claro.
Enquanto estávamos no saguão, o capitão colocou ambos os braços em volta de mim e me abraçou suavemente. Durou um pouco mais do que se esperaria para um abraço de despedida normal. Fiquei parada e não o abracei de volta. Depois que ele me soltou, sorri para ele e disse: — Boa noite — e o vi partir.
Fiquei na pia e lavei a louça em água morna, perdida em pensamentos.
Desde que comecei a trabalhar como agente aos quinze anos, confiei em apenas uma pessoa. E a única razão pela qual eu estava aqui agora era porque essa única pessoa havia pisoteado minha confiança.
Confiar em alguém significava que você também tinha que se preparar para sua inevitável traição. Dessa forma, se eles realmente se voltassem contra você, cortar laços com eles não doeria. Você poderia apenas rir e dizer: "Eu sabia." Foi o que disse a mim mesma enquanto adormecia naquela noite. No dia seguinte, não havia ninguém me seguindo. Parecia que o capitão realmente havia falado com o príncipe. Alguns dias depois, tive o dia de folga do Sr. Bernard. Queria sair com Nonna para algum lugar e arejar a cabeça. No pior dos casos, poderíamos viver em qualquer lugar. Mas continuar com medo de algo que eu não sabia se aconteceria ou não era apenas desperdiçar energia.
— Nonna, que tal comprarmos uma fita nova para você? É triste que você só tenha a azul.
— Mas eu gosto desta.
— Já que você tem cabelo loiro, acho que uma fita vermelho-escuro ficaria linda em você também. Como a cor do vinho. E podemos comprar um par de sapatos da mesma cor.
A Condessa Yolana fez um grande alvoroço e nos disse que deveríamos pegar sua carruagem, mas respondi com um sorriso e disse que gostaria de fazer exercício.
E assim Nonna e eu partimos para o quarteirão sul. Entramos em uma pequena loja e examinamos fitas de todas as cores e padrões. Nonna queria outra fita azul, então comprei uma que era um pouco mais escura do que a que ela já tinha, e uma cor de vinho tinto também.
— Você deveria comprar uma também, Vicky.
— Eu? Hmm, certo. Que tal comprarmos fitas combinando, então?
Nonna olhou para mim com um sorriso deslumbrante. Comprar um presente para quem você ama também enche seu coração, pensei enquanto segurava as mãos de Nonna. Aliás, eu sempre me sentia feliz quando comprava presentes para minha família também.
Esta noite, Nonna ficaria com Susan, a criada pessoal da residência principal, então eu estava planejando ir àquele bar novamente.
🃁 🂡 🂱 🃑
Zaharo era o dono do pequeno pub chamado “O Tordo Negro.”
Era um homem digno de quarenta anos, com cabelo preto, olhos escuros e barba. Ele tinha um certo charme de mau rapaz que era popular entre as mulheres.
Uma mulher em particular estava frequentando seu pub ultimamente. Na primeira vez que apareceu, bebeu duas bebidas fortes e foi embora. Na segunda vez, saboreou calmamente sua bebida. Esta noite era sua terceira visita, e ela pediu um novo tipo de bebida. Zaharo ficou feliz que ela parecia gostar do lugar.
Mas um jovem a importunava há algum tempo. Ele era um cliente de primeira viagem. Zaharo não queria que aquele tipo de homem perturbasse seus negócios ou interferisse no relaxamento de suas clientes femininas.
— Com licença, mas o senhor está incomodando a senhora aqui — ele disse educadamente ao cliente; no entanto, o homem o ignorou e não recuou. Ele continuava teimosamente flertando com a senhora. Zaharo estava prestes a expulsá-lo quando a senhora colocou seu dinheiro na mesa, levantou-se e saiu do pub. O jovem correu para colocar seu dinheiro e a seguiu.
Isso é perigoso, Zaharo pensou, saindo rapidamente do pub. Foram para a direita ou esquerda? Ele olhou ao redor das ruas escuras pelos dois e avistou o homem correndo de volta em sua direção pela direita. Parecia que ele havia perdido a mulher de vista.
Quando o homem notou Zaharo, uma expressão estranha veio ao seu rosto, e ele foi embora.
Bom... Pelo menos a senhora está segura, Zaharo pensou com alívio. Quando estava prestes a entrar novamente, parou. De repente, ouviu um gato gritando atrás.
— Uma briga de gatos?
Não era nem época de acasalamento, mas mesmo assim, ouviu sibilos e miados.
— Uau, alguém está com raiva.
Ele percebeu que o barulho vinha de cima. Olhou para o telhado e viu a cliente em pé sobre o beiral da loja vizinha! Ela estava agachada, com as duas mãos nos joelhos, tentando se esconder. Apenas seus olhos estavam voltados para ele.
Sol: Mi-Miau!?!? Kkkkkkkk. | Moon: Meee-owww akakaakak
Um gato preto estava de frente para a mulher e arqueando as costas com os pelos eriçados, sua cauda tão grossa que parecia um espanador de penas. Ele sibilou para a mulher enquanto ela tentava acalmá-lo.
— Oh!
No momento em que eles fizeram contato visual, a mulher soltou um som e se levantou. Segurou a saia e então saltou levemente do telhado, aterrissando bem na frente de Zaharo. Ela pressionou um dedo contra os lábios e sorriu timidamente, virou-se e correu para a noite.
Zaharo a observou ir de boca aberta. O gato parecia satisfeito e andou ao longo do beiral, então desapareceu. Aparentemente, a mulher havia invadido seu território.
— Ha-ha-ha! — Zaharo riu e então voltou para dentro.
Os movimentos da cliente eram tão suaves e ágeis que parecia quase um gato transformado em humano. O olhar envergonhado em seu rosto quando foi descoberta era adorável, como uma criança pega no flagra fazendo uma travessura.
Uma vez dentro, Zaharo ponderou sobre isso.
Ele não sabia quem era o jovem, mas se ele fosse algum tipo de valentão de rua, ele tinha que fazer algo a respeito. Não podia deixar isso continuar.
Na tarde seguinte, Zaharo foi a um pub no fundo dos becos, onde pessoas respeitáveis não ousariam se aventurar. Ele atravessou a multidão de homens que já estavam bebendo apesar da hora matinal e foi para o assento mais ao fundo. Lá sentava-se o chefe dos valentões locais.
— Olá, Zaharo. Há quanto tempo.
— Hector, você tem um jovem com olhos azuis-claros e cabelo castanho encaracolado trabalhando para você? Ele tem uma pinta no lado direito do pescoço.
O homem chamado Hector soprou fumaça de seu cigarro e pensou sobre isso. — Talvez tenha, talvez não. Quem quer saber?
— Ele estava incomodando uma das minhas melhores clientes. Se ele continuar interferindo no meu negócio, estava pensando em cuidar dele, mas pensei em avisá-lo, caso ele seja um dos seus homens.
Hector levantou a mão para sinalizar o dono do pub, que trouxe um copo de líquido âmbar e o colocou na frente de Zaharo.
— Essa sua melhor cliente é mulher?
— Uma melhor cliente é uma melhor cliente. Não importa se é homem ou mulher.
— Hmph. Entendo. Bem, não se preocupe. Não vou deixar ninguém perturbar um negócio legítimo. Você e eu, estamos na mesma página, não estamos?
Zaharo pegou o copo, levantou-se e o virou de um gole só.
— Muito obrigado. Lidar com lixo é muito trabalhoso. É só isso que tenho a dizer.
— Você deveria aparecer de vez em quando.
— Já saí do seu grupo. Paguei meu preço.
Zaharo deixou o dinheiro para sua bebida e saiu do pub. Todos os olhos estavam sobre ele até que ele chegou à porta, mas ele fingiu não notar. Ele permaneceu em guarda, apenas no caso de estarem planejando atacá-lo, mas suas preocupações se mostraram infundadas.
— Ela pode não voltar. — E não por causa do homem irritante, mas porque Zaharo a vira no telhado. Ele nem sequer tinha conversado com ela, então a ideia de que ela nunca mais voltasse o deixou um pouco melancólico.
Pouco tempo depois, no entanto, ele avistou a senhora no bairro comercial. Ela tinha uma sacola cheia de legumes no ombro e segurava a mão de uma garotinha enquanto passeavam.
— Senhorita? — ele exclamou. A mulher olhou para ele e pareceu reconhecê-lo imediatamente.
— Ah! O senhor é o dono do pub. Olá. O senhor está fazendo compras?
— Sim, isso mesmo. A senhora também, hein?
— Com certeza.
— Espero que a senhora volte em breve — ele disse.
Parecia que ela não sabia como responder, então ele apontou para a frente. — Se a senhora tiver tempo, que tal algo doce? Será por minha conta.
— O que você acha, Nonna? — ela perguntou à garotinha.
— Claro.
— Tudo bem, então — disse a mulher. — Isso seria bom.
— Ah, a propósito — meu nome é Zaharo. — Ele se apresentou enquanto caminhavam.
Ela estava ligeiramente atrás dele à esquerda. — Pode me chamar de Vicky — ela disse em uma voz amigável.
Ele as levou a uma pequena confeitaria tranquila que tinha mesas dentro. Era um de seus lugares favoritos, porque ele tinha um grande amor por doces.
— Tudo aqui é delicioso — disse ele, entregando um cardápio a Vicky.
Ela pediu chá e um biscoito, a garotinha pediu torta de maçã e água de frutas, e Zaharo pediu bolo de castanha mergulhado em calda e chá.
— Este biscoito é tão crocante e delicioso — disse Vicky.
— Vicky, a torta de maçã também é boa!
— Não é ótimo? Quer provar um pedaço do meu? — ele perguntou à garotinha.
— Claro! Hmm, gostoso!
Vicky sorriu enquanto observava a garotinha provar o bolo de Zaharo. As duas não se pareciam o suficiente para serem mãe e filha e estavam muito distantes em idade para serem irmãs, mas Zaharo tentou não ser muito intrometido com os assuntos dos outros.
Os três se concentraram em comer seus doces por um tempo. Então Zaharo disse: — Acho que aquele homem não vai voltar.
— Por que isso?
— Por precaução, fui verificar com o cara que supervisiona essa área, e descobri que aquele homem era um dos capangas do chefe. Eu disse a ele que era melhor não interferir no meu negócio, ou eu teria algo a dizer sobre isso.
— Mas isso não vai provocar retaliação?
— Não, o chefe é um velho conhecido meu.
— Sinto muito pelo incômodo.
— Não foi incômodo nenhum. A senhora vai voltar?
— Sim, embora eu não possa ficar por muito tempo.
— Isso já é mais do que suficiente.
Vicky terminou seu chá e encarou Zaharo diretamente. — O senhor não vai me perguntar nada?
— A senhora quer que eu pergunte? — Ele deixou de lado o tom formal e profissional e perguntou francamente.
— Não.
— Então não vou perguntar. Sou dono de um pub, e a senhora é minha cliente valiosa. E está tudo bem. Mas mais importante... — Os cantos de sua boca começaram a se contrair, e ele começou a rir como se não pudesse mais se segurar. Vicky deve ter se lembrado do que aconteceu também, porque ela corou profundamente. — Nunca vi um gato ficar tão bravo com alguém antes. Ele estava sibilando para você porque você estava invadindo seu território! Ha-ha-ha!
— B-bem, eu também não esperava por isso! Pfft...
Vicky começou a rir também. Como estavam dentro do café, ambos seguraram a barriga e tentaram suprimir o riso, mas não adiantou, e acabaram em lágrimas. A garotinha perguntou: "O que está acontecendo?" o que só fez os dois rirem de novo. Eles respiraram fundo e finalmente conseguiram se acalmar com alguma dificuldade.
— Não me lembro da última vez que ri tanto — disse Vicky, massageando os músculos do estômago. Parecia que ela havia se machucado de tanto rir.
Depois disso, eles se despediram. E a partir de então, Vicky se tornou uma cliente regular do pub de Zaharo. Ela vinha cerca de uma vez por semana, ficando apenas tempo suficiente para beber duas ou três doses.
Aquele jovem nunca mais apareceu. Zaharo imaginou que Hector deve ter lhe dado um aviso severo.
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Terminei de traduzir os documentos que o Sr. Bernard solicitou e os entreguei, então fui para a cozinha fazer alguns sanduíches para o almoço.
Nonna estava sentada à mesa, polindo copos. Ela parecia gostar de tarefas repetitivas como essa. Ela se virou para mim e disse: — Vicky, você é amiga daquele homem com barba que vimos outro dia?
— Hmm, não exatamente. Acabei de conhecê-lo. Você também quer fazer amigos, não quer?
— Não, não preciso deles. Prefiro treinar com você.
— Nossa! — Inclinei-me em direção a ela e baixei a voz. — Vamos praticar saltos de lugares altos em breve?
— Sim! — Nonna de repente ficou muito animada.
— Você é bonita, então você também deveria ser forte.
— Sou bonita?
— Sim, você é muito bonita. E é muito perigoso para garotas bonitas serem fracas.
— Hmm...
Uma vez, eu me infiltrei em uma organização de tráfico humano. Todas as garotinhas que foram sequestradas e mantidas trancadas no subsolo até serem vendidas tinham rostos bonitos. Os traficantes não miravam na nobreza porque seus filhos sempre eram fortemente vigiados. Os traficantes iam atrás de garotas plebeias bonitas.
Já estava escurecendo lá fora quando caminhávamos para casa mais tarde naquele dia. Nonna e eu praticamos escalar o muro de pedra que pertencia a uma casa vazia perto da nossa. Tinha cerca da altura dos meus ombros. Como era feito de pedra e tinha uma textura irregular e acidentada, era o local de prática perfeito.
— Salte alto e coloque as mãos no topo do muro, depois empurre-se contra ele com os braços e as pontas dos pés, assim!
Demonstrei, pulando para o topo do muro. Os olhos de Nonna se arregalaram. Pulei do muro e a fiz tentar. Segurei-a pela cintura para ajudá-la enquanto ela aprendia.
— Não, não use os braços. Use os músculos do estômago.
— Nngh! Oof!
Ela chegou muito perto, mas simplesmente não conseguiu chegar ao topo do muro em um salto. Não que eu esperasse que uma iniciante tivesse sucesso imediatamente.
— Se praticarmos todos os dias, você vai pegar o jeito em pouco tempo. E então, você será capaz de escalar muros ainda mais altos que este! Depois que você aprender essa habilidade, será fácil para você escapar.
— Você é tão legal, Vicky.
— Obrigada. Não é mais divertido saber fazer muitas coisas do que não saber fazer nada?
— Sim!
Depois que praticamos escalar o muro várias vezes, virei-me para Nonna e sussurrei: — Nonna, você pode ir para casa sozinha? Há uma pessoa suspeita ali, então tenho que avisá-la para parar de vir aqui.
— É um bandido?
— Ainda não tenho certeza. Corra o mais rápido que puder e tranque a porta atrás de você. Pode fazer isso?
Nonna assentiu, e eu dei um tapinha em suas costas. Ela saiu correndo em direção a casa. Ela não olhou para trás nem uma vez, exatamente como eu a ensinei. A Condessa Yolana tinha dois homens muito habilidosos guardando sua propriedade, então Nonna estaria bem quando chegasse à propriedade.
Virei-me e chamei em direção às árvores próximas. — O que você quer?
Um jovem de cabelo preto emergiu da clareira. Ele tinha um lenço amarrado em volta do rosto abaixo dos olhos. — Ah, você sabia que eu estava aqui?
Ele não é um profissional. Alguém que está acostumado a matar pessoas exala uma vibração completamente diferente.
Peguei um galho caído próximo do chão e subi no topo do muro. Mantendo os olhos no homem, quebrei o galho sobre o joelho e fiz um teste de balanço. Sim, não é tão forte, mas vai segurar o suficiente para um golpe rápido.
— Quem é você?
— Quem você acha? — perguntei.
— Quero falar com você. Desça daí.
— Não. Vá embora. Senão, vou te atacar.
— Ooh, que medinho! Como eu disse, só quero conversar. — Ele ergueu as duas mãos em sinal de rendição, mas não foi embora.
— Saia daqui.
O homem andou em minha direção e pulou no muro.
Eu não tinha obrigação de esperar até que ele tentasse algo comigo. No momento em que ele pousou no muro, preparei meu galho e dei um passo à frente. Ele recuou rapidamente e colocou distância entre nós. Hmm, então ele tem algum nível de habilidade.
— Sinceramente, só vim aqui para conversar, mas já que estamos aqui em cima, você pode muito bem me mostrar o que sabe. Eu—
Antes que ele terminasse a frase, balancei o galho em um ângulo, então o puxei rapidamente de volta para cima, mirando no rosto do homem. Ele desviou do galho, mas perdeu o equilíbrio. Era preciso prática para lutar em terreno elevado.
— O quê? — Oof!
Balancei o galho com força no lado direito dele enquanto ele perdia o equilíbrio. O galho quebrou; esperava ter conseguido quebrar uma ou duas costelas. O homem pousou habilmente em pé no chão, mas seu rosto se contorceu de dor.
Pousei ao lado dele e fingi um soco em seu rosto, então chutei com força seu lado direito com o pé esquerdo, o mesmo local onde o atingira com o galho. Segui com um chute direto no estômago com o pé direito. Ele cambaleou para trás, gemendo de dor. Se eu realmente tivesse socado seu rosto, ele provavelmente teria agarrado meu braço. Meus golpes eram rápidos, mas a desvantagem era que também eram leves.
— Já que você veio com uma faca para mim, você não pode reclamar se eu usar uma contra você também, certo? — eu disse.
Eu havia notado que ele tinha uma faca no bolso quando ficou de frente para mim no muro. Peguei meu próprio canivete de seu esconderijo em meu quadril, segurei-o de lado e cliquei para abrir a lâmina.
— Espere! Eu juro, não quero problemas. Me desculpe. Não fazia ideia de que você era tão forte! Minha faca é para proteção. Não estava planejando usá-la!
— Não acredito em você. Vou te ensinar o que acontece quando você vem na minha direção com uma faca.
— Me desculpe! Eu realmente sinto muito!
— Então suma da minha frente. Da próxima vez, vou cortar seus braços e pernas até o osso. — Caí em uma postura ofensiva, ainda segurando a faca. Depois de ouvir meu aviso, ele fugiu.
Quem é aquele homem?
Ele não era exatamente inexperiente, mas era claro que não era experiente em combate real.
Era uma má notícia que ele sabia onde eu morava. De agora em diante, eu teria que manter os olhos em Nonna o tempo todo. Eu precisava rever meus pertences mais uma vez, caso tivéssemos que sair do país às pressas.
Naquela noite, dormi no chão, sentada encostada na cama, caso houvesse um ataque. O incidente repentino havia perturbado minha rotina diária e enviado ondas de choque através do meu coração, mostrando que eu claramente havia baixado a guarda.
No dia seguinte, fiz o capitão vir à propriedade do Sr. Bernard. Durante a pausa para o almoço, pedi ao Sr. Bernard que entretivesse Nonna com histórias de sua infância.
— Sobre o que você queria falar comigo, Victoria?
— Um homem estranho estava perto da minha casa ontem. Mandei ele ir embora várias vezes, mas ele me ignorou e tentou se aproximar. Ele tinha uma faca bastante grande escondida, mas o espantei com um galho de árvore. Treinei um pouco com espada. Ainda estou sendo seguida, então acho que vou deixar a capital. Como o senhor é meu fiador, pensei em avisá-lo com antecedência.
Seus olhos se moveram rapidamente.
— Ontem, você disse? Que bom que você não se machucou, Victoria. Como era o homem?
— Cabelo preto, olhos azuis, bonito. Ele tinha uns vinte e poucos anos, cerca de um metro e oitenta, magro. Ele tinha metade do rosto escondido com um lenço.
— Ele deve ter estado usando uma peruca, então...
— O quê? O senhor conhece este homem?
— O segundo príncipe saiu disfarçado ontem, sem um único guarda. Isso por si só é um grande problema, mas ele voltou com duas costelas quebradas. A Primeira Ordem dos cavaleiros está furiosa com alguém que o atacou.
O que é isso?
— O príncipe continua dizendo que caiu.
— Entendo...
Aquele homem era um príncipe?
Se ele tivesse sido atacado por qualquer pessoa além de mim, poderia estar morto e enterrado sem sequer uma pergunta. Eu tinha certeza de que ele não fazia ideia do perigo em que se colocara.
— Estou treinando o Príncipe Cedric em esgrima, e ele é bastante forte.
O capitão me encarou. Eu o encarei de volta. Ele desviou o olhar primeiro.
— O senhor vai me prender, Capitão?
Dependendo de sua resposta, eu pegaria Nonna imediatamente e me esconderia. Mas isso teria que esperar, porque o capitão estava sentado bem na minha frente. Ele era um homem habilidoso e musculoso, e mais importante, ele era meu fiador — o que eu deveria fazer com ele?
— Não tenho intenção de prendê-la. Vou dizer ao príncipe para nunca mais se aproximar tão violentamente de você. Mas tenho certeza de que você ainda se sentirá ansiosa. Gostaria de ficar na propriedade da minha família por um tempo? Sempre há muitas pessoas por perto, não importa a hora do dia, e meu irmão está em uma posição muito melhor para protestar fortemente contra a família real do que eu.
— Por favor, deixe-me pensar sobre isso.
O capitão assentiu silenciosamente, então saiu.
Apesar da minha resposta, não tinha absolutamente nenhuma intenção de ficar na propriedade da família dele. Eu não queria arrastar sua família para meus próprios assuntos.
Em uma situação de emergência como esta, o Sr. Bernard e a Condessa Yolana vieram à mente. A perspectiva de deixar o país e ter que cortar laços com eles doía tanto em meu coração que eu poderia chorar. E certamente ficaria triste por não poder mais ver o capitão novamente.
Percebi que em algum momento, havia me envolvido emocionalmente com essas pessoas.
No caminho para casa com Nonna, parei no correio do distrito sul. Uma resposta da carta que enviei no dia seguinte ao baile para outro país havia chegado para mim.
Era de alguém que eu usava em particular quando era agente; a organização não conhecia essa pessoa.
À primeira vista, a carta parecia qualquer outra, com o escritor discutindo o clima recente, o crescimento de seu filho, e assim por diante. Mas quando usei a cifra que escondi em minha carta de solicitação, seu verdadeiro conteúdo se tornou claro.
"Mulher...ainda...oficialmente...des...fora...país..."
"A verdadeira Victoria ainda está desaparecida e oficialmente registrada como tendo deixado o país para Ashbury."
Nesse caso, ainda não preciso fugir, certo? Hmm, vou pedir que investiguem outra coisa também. Com a máxima cautela, decidi solicitar a ajuda do escritor em outro assunto. Voltei para casa e escrevi outra carta aparentemente comum.
Terminei minha mensagem e a coloquei em uma pequena caixa junto com a boneca em que costurei o pagamento.
𓆩♛𓆪
O Príncipe Cedric soltou um gemido enquanto o médico o examinava.
— Se o senhor descansar bastante, os ossos se curarão sozinhos. E quando digo descanso, quero dizer descanso mesmo. — O médico idoso fez uma reverência e então se retirou.
Doía respirar, falar e até mesmo se mover. Esta era a primeira vez que ele quebrava um osso, e agora ele sabia por que todos diziam que era tão doloroso.
Ele havia escapado para o hospital no dia anterior, mas infelizmente encontrou seu irmão mais velho. Bastaram alguns momentos de conversa para que o príncipe herdeiro percebesse que ele estava ferido. Ele sabia que provavelmente deveria contar a verdade, então quando explicou como havia se machucado, seu irmão ficou furioso.
— Eu prometi ao Jeff! — disse Conrad. — Eu disse a ele que deixaria que ele cuidasse dela, e que a deixaria em paz! Então ordenei que nosso homem parasse de segui-la. Mas por causa do que você fez, Jeff vai pensar que quebrei minha promessa para ele!
Ele estava certo, então tudo o que Cedric pôde fazer foi se curvar. — Me desculpe.
— Diga a todos os outros que você se machucou em uma queda. E então, quando for a hora certa, quero que você vá se desculpar com a senhora.
— Tudo bem. Me desculpe.
Agora que Cedric estava sozinho, ele abriu sua gaveta e pegou o fino medalhão dourado e o abriu. A foto de sua ex-noiva, Beatrice, sorria fracamente de volta para ele.
— O senhor é tão forte, Vossa Alteza.
Beatrice sempre elogiara sua força. Ele ficara impressionado com sua beleza e a pedira em casamento, mas ela adoeceu pouco depois.
Segundo o médico, era estresse. Talvez estar noiva do segundo príncipe e um futuro como duquesa fosse demais para ela.
— Avise-me se alguém estiver te dando dificuldades. Vou te proteger.
— Não, vou apenas deixar passar com um sorriso — ela dissera, mas ele pensou que talvez Beatrice estivesse guardando todas as suas preocupações para si.
Ele tinha quinze anos, e ela quatorze na época. Ela teve uma febre alta persistente, então ele foi visitá-la. Sua noiva estava lutando para respirar. Ele apertou sua mão quente e contemplou seu rosto por um tempo.
A vida dela está sendo encurtada só porque eu a queria como minha esposa.
Naquela noite, repreendeu-se com a voz trêmula e pediu a seu pai que rompesse o noivado.
— Por favor, descubra uma maneira de cancelar nosso casamento para que isso não a afete negativamente.
Uma expressão de dor apareceu no rosto de seu pai. — Entendo — foi tudo o que ele disse, mas fez como Cedric desejava.
Depois que o noivado foi rompido, dizia-se que Beatrice ficou arrasada e passou os dias chorando, mas gradualmente recuperou a saúde.
Isso foi para melhor, Cedric pensou, mas ainda sentia como se tivesse um buraco em seu coração.
Ele se lançara em aprimorar suas habilidades com a espada, mas não havia sinais de guerra no horizonte para Ashbury. Claro, isso era uma coisa boa, mas qual era seu caminho na vida? Eventualmente, ele se tornaria um súdito do reino e assumiria o título de duque, mas e depois?
Ele estava lutando para encontrar seu lugar na vida, e foi quando o incidente no baile aconteceu. E ele ouvira que a mulher que derrubara o culpado tinha uma habilidade incrível. Ele estava morrendo de vontade de saber do que ela era feita e agiu. E o resultado disso foram suas costelas quebradas.
Seus movimentos haviam sido eficientes e surpreendentemente rápidos. Quando ela sacou sua faca, ele realmente pensou que ela ia matá-lo. Foi a primeira vez em toda a sua vida que ele enfrentou o medo da morte.
Olhando para trás agora, ele percebeu que ela estava desesperada para salvar a garotinha que estava com ela. Ela o avisara várias vezes para ir embora, e quando ele não foi, ela se tornou tão hostil quanto uma mãe gata protegendo seus filhotes. Ele não era páreo para sua intensidade, muito menos para sua habilidade.
Será que ela me treinaria... — pensou, e então caiu na gargalhada. A dor percorreu as costelas de Cedric, e ele fez uma careta.
Traduzido por Moonlight Valley
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