Asas do AmorVolume 1 – Capítulo 2 – Um Novo Começo
Capítulo 2Henrique mal conseguiu dormir naquela noite.
As imagens de Giovana e Jean não saíam de sua cabeça.
Mesmo assim, às sete da manhã, levantou da cama, pegou o celular e ligou para o chefe.
— Henrique? Aconteceu alguma coisa?
Ele respirou fundo.
— Chefe... eu não vou conseguir trabalhar hoje. Passei por um divórcio ontem... sinceramente, não estou bem.
Do outro lado da linha houve alguns segundos de silêncio.
— Não se preocupe. Cuide da sua cabeça. Você está dispensado por dois dias.
Henrique agradeceu emocionado.
Depois ligou para a diretora da escola onde dava aulas de informática.
Ela ouviu toda a história.
— Henrique... você sempre foi um excelente professor. Tire cinco dias de licença. Quando estiver melhor, volte.
Pela primeira vez desde a separação, alguém parecia realmente se importar.
Ao sair do quarto, encontrou sua mãe preparando café.
Ela sorriu.
— Filho... não fique assim. Você é um bom homem. Ela não te merecia.
Henrique apenas assentiu.
Achou que finalmente teria um pouco de paz.
Mas a conversa mudou rapidamente.
Sua mãe colocou uma pilha de boletos sobre a mesa.
— Essas são as contas do mês.
Henrique olhou.
— E essa aqui?
— É a faculdade da sua irmã.
Ele franziu a testa.
— Mãe... o que eu tenho a ver com a faculdade dela?
Ela respondeu sem hesitar.
— Não seja egoísta. Você sustentou aquela vagabunda por quatro anos. Agora ajude sua irmã. É o mínimo.
Henrique permaneceu em silêncio.
Antes que pudesse responder, sua irmã apareceu.
Olhou para a caixa onde a gata estava dormindo.
— Dá essa gata para alguém logo. Eu odeio gato.
Henrique pegou a caixa e saiu de casa sem responder.
Os dias passaram lentamente.
A dor continuava ali, mas já não era tão intensa.
Voltou ao trabalho.
Conseguiu entregar os dois primeiros volumes da novela que escrevia para uma editora independente.
Sem computador, escrevia tudo pelo celular.
Era cansativo.
Passava horas digitando com os polegares.
Mesmo assim, não desistia.
Um mês depois da separação, Giovana tentou voltar.
Mandou mensagens.
Ligou.
Pediu perdão.
Disse que havia cometido um erro.
Henrique chorou ao ler tudo aquilo.
Mas respondeu apenas uma frase.
"Espero que Deus cuide de você. Mas nossa história terminou."
Depois bloqueou o número.
Naquela mesma semana, ao chegar do trabalho, encontrou a mãe esperando na sala.
Ela parecia irritada.
— Filho, preciso de quinhentos reais.
— Para quê?
— Sua irmã quer comprar um celular novo. Faltam quinhentos reais.
Henrique estranhou.
— Mãe... eu nem vi sua mensagem. Estava trabalhando e escrevendo o livro.
Ela cruzou os braços.
— Então cadê o dinheiro?
— Eu recebo só amanhã.
A mãe bufou.
— Que saco! Eu não sei que filho eu criei. Você nunca ajuda sua família.
Durante quase duas horas ela reclamou.
Henrique permaneceu calado.
Quando finalmente conseguiu entrar no quarto, já eram uma e meia da madrugada.
Sentou na cama.
Pegou o celular.
Havia dezenas de notificações.
Mensagens da mãe.
Da ex-esposa.
Do ex-cunhado.
Da ex-sogra.
Sua chefe perguntando se poderia fazer horas extras.
A escola perguntando se ele aceitaria dar aulas aos sábados.
Henrique olhou aquela tela cheia de cobranças.
Ninguém perguntava como ele estava.
Todos queriam alguma coisa.
Ele fechou os olhos.
Dobrou os joelhos ao lado da cama.
— Deus... me ajuda.
O silêncio tomou conta do quarto.
Então, de repente, uma frase surgiu claramente em sua mente.
"Saia daí... Eu te abençoarei."
Henrique abriu os olhos.
Ficou alguns segundos parado.
— Foi minha cabeça...
Tentou ignorar.
Mas aquela frase insistia.
"Saia daí."
Sem entender o motivo, abriu um aplicativo de imóveis.
Começou a pesquisar apartamentos.
Uma cidade chamou sua atenção.
Araçariguama.
Era um lugar que sempre quis conhecer.
Giovana odiava a ideia.
Sempre dizia:
— Interior? Nunca moraria lá.
Henrique sorriu sozinho.
— Talvez seja exatamente por isso...
Continuou pesquisando.
Já eram duas horas da manhã quando encontrou um anúncio.
Apartamento para alugar.
56 metros quadrados.
Dois quartos.
Sala integrada com cozinha americana.
Banheiro.
Uma vaga de garagem.
No centro da cidade.
Pegou o celular e enviou uma mensagem.
"Ainda está disponível?"
Logo depois riu.
— Quem responde mensagem às duas da manhã?
Menos de um minuto depois veio a resposta.
"Olá. Sim, está disponível."
Henrique arregalou os olhos.
— Ué...
Digitou rapidamente.
"Desculpa o horário. Achei que responderia amanhã."
A resposta veio quase instantaneamente.
"Prazer, meu nome é Yara. Trabalho na conveniência da minha família durante a madrugada. Por isso respondo esse horário."
Ela continuou.
"O apartamento custa R$ 800 por mês. Já inclui água, condomínio e internet. A energia também está inclusa."
Henrique releu várias vezes.
Na antiga casa pagava R$ 1.500 de aluguel.
Ainda havia água.
Luz.
Internet.
Condomínio.
Na casa da mãe entregava R$ 1.000 para despesas, mais R$ 500 para a faculdade da irmã e cerca de R$ 200 para alimentação.
Fazia as contas mentalmente.
Morar sozinho sairia muito mais barato.
Yara enviou a planta do apartamento.
Era simples.
Prédio antigo.
Apenas oito apartamentos.
Sem elevador.
Mas limpo.
Organizado.
Ela escreveu novamente.
"Já tem pia, armário e uma geladeira. Se quiser, ficam no apartamento."
Henrique sorriu.
— Parece bom...
Perguntou:
"O que preciso para alugar?"
Yara respondeu.
"Um mês de aluguel adiantado e R$ 200 para a pintura."
Henrique nem pensou.
Transferiu R$ 1.000 por PIX.
Ela ficou surpresa.
"Você nem veio conhecer."
Henrique respondeu.
"Não sei explicar... mas eu confio."
Yara respondeu apenas com um emoji sorrindo.
Na manhã seguinte, Henrique olhou sua conta poupança.
Tinha exatamente R$ 8.000 guardados.
Tomou uma decisão.
Comprou uma moto usada por R$ 5.000.
Naquele mês ainda recebeu R$ 2.600 da escola e R$ 1.900 do emprego administrativo.
Pediu alguns dias de folga para organizar a mudança.
Depois comprou um colchão novo.
Quando chegou em casa pilotando a moto, sua mãe e sua irmã estavam na calçada.
A irmã falou primeiro.
— Engraçado...
A mãe completou.
— Você não tinha quinhentos reais para ajudar sua irmã, mas teve dinheiro para comprar uma moto.
— Deixa a moto com ela esse mês.
Henrique ficou em silêncio.
Durante vinte e um anos...
Nunca havia dito "não" para sua mãe.
Respirou fundo.
Olhou nos olhos dela.
— Mãe... com todo respeito...
Fez uma pequena pausa.
— Sou muito grato por tudo o que a senhora fez por mim. Também amo minha irmã.
Os olhos dele começaram a marejar.
— Mas eu vou embora.
A mãe ficou imóvel.
— E não vou mais emprestar dinheiro.
O silêncio tomou conta da casa.
Henrique entrou.
Pegou suas roupas.
Alguns livros.
Os manuscritos.
Colocou a gata na caixa de transporte.
Chamou um carro por aplicativo para levar o colchão, as malas e os poucos móveis que possuía.
Quando tudo estava pronto, colocou o capacete.
Acariciou a caixa onde a gata miava baixinho.
Ligou a moto.
Olhou uma última vez para a casa onde havia crescido.
Depois acelerou.
Sem perceber, um sorriso apareceu em seu rosto.
Pela primeira vez em muito tempo...
Henrique não estava fugindo.
Estava indo ao encontro de uma nova vida.
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