Asas do Amor — Capítulo 3: Volume 1 – Capítulo 3 – Um Novo Lar

Asas do Amor
Cap. 3
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Asas do Amor

Volume 1 – Capítulo 3 – Um Novo Lar

Capítulo 3

1.661 palavras~7 min de leitura

A viagem de Osasco até Araçariguama durava pouco mais de uma hora.

Henrique seguia pela estrada em sua moto recém-comprada. Na garupa, presa com segurança na caixa de transporte, sua gata observava o mundo através da pequena grade.

De tempos em tempos, ele conferia o GPS preso ao guidão.

Quando a placa "Bem-vindo a Araçariguama" apareceu, seu coração acelerou.

Ao entrar na cidade, diminuiu a velocidade.

As ruas eram tranquilas.

Praças bem cuidadas.

Árvores antigas.

Casas baixas.

Tudo parecia saído de um filme.

Ele estacionou a moto na praça central.

Olhou ao redor.

Sorriu sozinho.

— Acho que... esse é meu recomeço.

Abriu novamente o GPS e viu que seu apartamento ficava a apenas dois minutos dali.

Pouco depois estacionou em frente ao prédio.

Era um edifício antigo, de apenas dois andares, localizado na avenida principal da cidade.

No térreo funcionava uma pequena conveniência.

Henrique entrou.

— Boa tarde. Vocês sabem onde fica este endereço?

Mostrou a tela do celular.

Uma senhora de cabelos brancos sorriu.

— Fica aqui mesmo.

Henrique olhou ao redor.

— Sério?

Ela riu.

— Você deve ser o novo inquilino.

— Sou eu mesmo.

Ela estendeu a mão.

— Muito prazer. Meu nome é Maria. Sou dona do prédio.

Henrique apertou sua mão.

— Prazer. Henrique.

Maria virou-se para os fundos da loja.

— Yara! Pode vir aqui um instante?

Uma jovem apareceu.

Henrique ficou surpreso.

Ela era muito bonita.

Tinha cabelos castanhos longos, olhos claros e um sorriso leve.

Por um instante ele apenas observou.

Mas seu coração ainda estava frio demais para pensar em qualquer outra coisa além das dores que carregava.

— Oi, vó.

Maria apontou.

— Mostra o apartamento para o Henrique.

Yara sorriu.

— Claro. Pode vir comigo.

O prédio era simples.

Dois andares.

Oito apartamentos.

Nos fundos havia uma garagem coberta.

— Sua vaga é esta aqui.

Henrique estacionou a moto.

Pegou cuidadosamente a caixa da gata.

Yara sorriu.

— Você não tinha falado que tinha uma gata.

Henrique ficou sem graça.

— Desculpa...

Ela riu.

— Não precisa. Nós aceitamos animais.

Henrique respirou aliviado.

— Ainda bem.

Enquanto subiam as escadas, ela perguntou:

— Veio de muito longe?

— Osasco.

Ela arregalou os olhos.

— Nossa... é um pouquinho longe.

Henrique sorriu.

— Só um pouco.

Ao chegar ao segundo andar, ela abriu a porta.

O apartamento era simples.

Sala integrada com cozinha americana.

Dois quartos.

Um banheiro pequeno.

Mas tudo estava limpo.

Organizado.

Cheirava a tinta nova.

— Aqui estão as regras.

Ela entregou uma folha.

— Som alto somente até às dez da noite. Depois desse horário, silêncio para não incomodar os outros moradores.

— Tudo bem.

Ela riu.

— Ainda acho que você é um pouco maluco.

Henrique sorriu.

— Por quê?

— Quem manda dinheiro para uma desconhecida às duas da manhã sem nem conhecer o imóvel?

Henrique deu de ombros.

— Acho que eu estava desesperado.

Os dois riram.

Ela mostrou a cozinha.

— A geladeira, o armário e a pia já ficam aqui.

Henrique agradeceu.

— Isso vai ajudar muito.

Ela perguntou:

— Seus móveis chegam quando?

Henrique respondeu sem graça.

— Na verdade...

Ela esperou.

— Só tenho um colchão... e uma escrivaninha.

Yara segurou a risada.

— Só isso?

— Só.

Ela apontou pela janela.

— Tem uma loja de móveis aqui na avenida. Vendem móveis novos e usados. Talvez consiga montar sua casa sem gastar muito.

Henrique sorriu.

— Obrigado.

Na hora de sair, Yara tropeçou no batente da porta.

Perdeu o equilíbrio.

Henrique a segurou pelos braços antes que ela caísse.

Os dois ficaram alguns segundos se olhando.

Ela rapidamente se afastou.

— Desculpa...

— Não foi nada.

Ela sorriu sem graça e desceu as escadas.

Poucos minutos depois chegou o carro por aplicativo trazendo suas malas, o colchão e a escrivaninha.

Henrique colocou o colchão em um dos quartos.

A escrivaninha foi para o outro.

Olhou o cômodo vazio.

Sorriu.

— Aqui vai ser meu escritório.

Depois caminhou pela sala.

Tudo vazio.

Nenhum sofá.

Nenhuma mesa.

Nenhuma cadeira.

Sua barriga roncou.

— E agora... comida.

Desceu até a conveniência.

— Dona Maria... será que vocês têm alguma coisa pronta para comer?

Ela começou a rir.

— Deixa de ser bobo.

Olhou para Yara.

— Põe mais um prato na mesa.

Henrique tentou recusar.

— Não precisa...

— Precisa sim.

Naquela tarde, os três almoçaram juntos.

Pela primeira vez em muito tempo, Henrique sentiu o clima de uma família.

Enquanto almoçavam, Maria perguntou:

— Por que escolheu Araçariguama?

Henrique permaneceu alguns segundos em silêncio.

Nunca gostava de falar sobre seu divórcio.

Mas havia algo naquela senhora que transmitia confiança.

Respirou fundo.

— Eu me divorciei.

Maria abaixou a cabeça.

— Sinto muito.

Henrique continuou.

— Minha esposa me traiu... com meu melhor amigo.

As lágrimas surgiram novamente.

Yara colocou delicadamente sua mão sobre a dele.

— Você vai dar a volta por cima.

Henrique sorriu pela primeira vez ao ouvir aquelas palavras.

— Vou.

Ao sair da conveniência, seu celular começou a tocar.

Número desconhecido.

— Alô?

— Henrique?

— Sim.

— Aqui é Klaus, da Editora Nola.

Henrique imediatamente ficou nervoso.

— Oi... aconteceu alguma coisa?

Do outro lado da linha, Klaus parecia animado.

— Aconteceu.

Uma ótima notícia.

Henrique prendeu a respiração.

— Seus dois volumes fizeram muito sucesso.

Foram mais de 250 mil leitores.

Destes, cerca de 80% compraram a versão completa do primeiro volume.

Henrique ficou imóvel.

— Como?

— Queremos renovar seu contrato.

Em vez de receber 2% do preço de capa, você passará a receber 8%.

Acabei de enviar o contrato por e-mail.

Henrique abriu rapidamente o documento.

Quando viu os valores...

Precisou sentar no banco da praça.

Pagamento fixo de R$ 7.400 por mês durante cinco anos, além de 30% das vendas de estreia.

Naquele mês receberia aproximadamente R$ 45.000.

Seus olhos se encheram de lágrimas.

— Isso... é verdade?

Klaus riu.

— É só o começo.

Mas temos uma condição.

Precisamos de mais dois volumes em quinze dias.

Henrique respondeu imediatamente.

— Eu entrego.

Assinou digitalmente.

Menos de cinco minutos depois...

A notificação do banco apareceu.

PIX RECEBIDO — R$ 45.000,00

Henrique ficou olhando para o celular sem acreditar.

Seu sonho...

Finalmente era real.

Antes mesmo de guardar o aparelho, outro telefone tocou.

Era sua chefe do escritório.

— Henrique... você está pegando muitas folgas. Vamos precisar que compense essas horas.

Henrique olhou novamente para o saldo da conta.

Respirou fundo.

— Chefe...

Obrigado por tudo.

Mas eu peço demissão.

Ela ficou em silêncio.

— Tem certeza?

— Tenho.

Desligou.

Logo depois ligou para a diretora da escola.

— Professora...

Também preciso pedir desligamento.

Ela lamentou sua saída, mas desejou sucesso.

Quando encerrou as duas ligações, Henrique olhou para o céu.

— Meu Deus...

O que foi que eu fiz?

Então lembrou da oração daquela madrugada.

"Saia daí... Eu te abençoarei."

Sorriu.

— Vai dar certo.

Seguiu até a loja indicada por Yara.

Na fachada lia-se:

TH Móveis

Assim que entrou, um rapaz bastante animado apareceu.

— Seja bem-vindo!

Sou Thomas.

A loja é sua.

Henrique sorriu.

— Prazer. Henrique.

Thomas apertou sua mão.

— Essa loja era do meu pai.

Meu sonho é transformá-la na maior rede de móveis do Brasil.

Henrique respondeu imediatamente.

— Em nome de Jesus, você vai conseguir.

Thomas sorriu ainda mais.

Nesse momento apareceu uma mulher ruiva.

Muito bonita.

— Prazer.

Sou Estela.

Esposa do Thomas.

Henrique explicou que havia acabado de se mudar.

Precisava mobiliar praticamente toda a casa.

Durante quase uma hora os três caminharam pela loja.

Thomas explicava.

Estela dava sugestões de decoração.

No fim das compras, Henrique levou:

Fogão quatro bocas com forno.

Sofá seminovo.

Tapete.

TV de 32 polegadas.

Cadeira para escritório.

Filtro de água.

Liquidificador.

Micro-ondas.

Antes de sair, viu um notebook usado.

— Quanto custa?

Thomas respondeu:

— Mil e quinhentos.

Henrique abriu.

Processador i3 de quarta geração.

8 GB de memória RAM.

SSD de 240 GB.

Ele sorriu.

— Para mim está perfeito.

Thomas respondeu:

— Entregamos tudo em quinze minutos.

Henrique pagou cerca de R$ 7.000 sem sequer pedir desconto.

Depois que ele saiu, Estela comentou baixinho com o marido:

— Ele parece um homem interessante.

Thomas concordou.

— Também achei.

Enquanto caminhava até a conveniência para fazer compras do mês, Henrique espirrou.

Sentiu um leve arrepio.

— Será que estou ficando gripado?

Na conveniência, Dona Maria abriu um enorme sorriso.

Nunca um morador havia feito uma compra tão grande ali.

Encheu o carrinho.

Arroz.

Feijão.

Macarrão.

Carnes.

Produtos de limpeza.

Ração para a gata.

Tudo o que precisava para começar sua nova vida.

Naquele mesmo momento...

Em Osasco...

Alguém batia insistentemente na porta da casa da mãe de Henrique.

— Henrique!

Era Giovana.

Ao lado dela estava Jesse.

A mãe de Henrique abriu a porta.

— O que vocês querem?

Giovana respondeu:

— Quero falar com ele.

A senhora respondeu friamente.

— Vocês perderam esse direito.

— Para onde ele foi?

— Não interessa.

Jesse insistiu.

— Pelo menos diz onde ele mora.

Sem responder, a mãe pegou um balde com água que usava para limpar a calçada.

Jogou nos dois.

— Saiam daqui!

Eles foram embora completamente encharcados.

No dia seguinte, Giovana apareceu no escritório onde Henrique trabalhava.

Recebeu a mesma resposta.

— Henrique pediu demissão ontem.

Foi até a escola.

— O professor Henrique?

Também pediu desligamento.

Ela começou a entrar em desespero.

— Como eu vou pagar todas as contas agora?

Não queria gastar o próprio salário de caixa de supermercado.

Então lembrou de Jean.

Foi procurá-lo.

Quando finalmente o encontrou...

Parou completamente.

Jean estava beijando outro homem.

Ela arregalou os olhos.

— Você é gay?

Jean deu uma risada.

— Não.

Só fico com quem paga melhor.

Você foi apenas uma diversão.

Giovana ficou sem palavras.

Pela primeira vez...

Ela sentiu um pouco da dor que havia causado.

Enquanto isso...

Em Araçariguama...

Thomas e seu ajudante terminaram de montar todos os móveis.

O apartamento finalmente começava a parecer um lar.

Henrique caminhou pela cozinha.

Sorriu.

Então percebeu um detalhe.

— Esqueci uma coisinha...

Não tinha panelas.

Nem pratos.

Nem copos.

Nem talheres.

Nem vassoura.

Nem rodo.

Começou a rir sozinho.

— Amanhã eu resolvo.

Sem energia para cozinhar, pediu uma pizza.

Poucos minutos depois, bateram à porta.

Era Yara.

Nas mãos, um prato e um garfo.

Ela sorriu.

— Achei que você fosse precisar.

Henrique pegou os dois.

Sorriu de volta.

— Muito obrigado.

Era apenas um prato e um garfo.

Mas, depois de tudo que havia vivido...

Aquele pequeno gesto fez o apartamento vazio parecer, pela primeira vez...

Um verdadeiro lar.

Fim da leitura

Capítulo 3 concluído

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