Asas do AmorVolume 1 – Capítulo 4 – Pequenos Recomeços
Capítulo 4O sol ainda estava nascendo quando Henrique abriu os olhos.
Pela primeira vez em muito tempo, acordou sem ouvir discussões.
Sem cobranças.
Sem gritos.
Apenas o silêncio.
Olhou ao redor do pequeno apartamento vazio e sorriu.
— Acho que estou começando a gostar daqui.
Levantou-se, tomou um banho quente e preparou a comida da gata.
Depois lavou o prato e o garfo que Yara havia lhe emprestado na noite anterior, limpou a cozinha e jogou a caixa da pizza no lixo.
Pegou o capacete e desceu as escadas.
Pensou em devolver os utensílios diretamente no apartamento de Dona Maria.
Mas logo lembrou:
— A Yara trabalha de madrugada... deve estar dormindo.
Preferiu não incomodar.
Foi até a conveniência.
Dona Maria organizava algumas mercadorias.
— Bom dia, Henrique!
— Bom dia, Dona Maria.
Ele entregou o prato e o garfo.
— Muito obrigado por ontem.
Ela sorriu.
— Não foi nada.
Henrique perguntou:
— Tem alguma loja de utilidades por perto?
— Tem sim. Perto da praça tem uma loja de decoração e outra de casa e banho.
— Obrigado.
Dois minutos depois, Henrique estacionava sua moto na praça central.
Entrou em uma loja de decoração.
Comprou:
Um conjunto de panelas.
Pratos.
Copos.
Talheres.
Escorredor de louças.
Utensílios de cozinha.
Depois atravessou a rua.
Em uma loja de cama, mesa e banho comprou:
Toalhas.
Lençóis.
Cobertores.
Vassoura.
Rodo.
Balde.
Produtos de limpeza.
Como eram muitas compras, pediu entrega.
Ao sair, percebeu uma pequena cafeteria ao lado de uma padaria.
A fachada era simples, mas muito bonita.
Resolveu entrar.
Havia apenas três atendentes.
Sentou-se próximo da janela.
Pouco depois, uma jovem se aproximou.
Era negra, tinha lindos olhos azuis e um sorriso extremamente simpático.
— Bom dia! Prazer, meu nome é Larissa. Vou cuidar do seu atendimento.
Henrique sorriu.
— Prazer. Henrique.
Ela olhou para ele por alguns segundos.
— Você é novo por aqui, né? Nunca te vi.
Henrique riu.
— Cheguei ontem.
— Seja muito bem-vindo à cidade!
Ela pegou o bloquinho.
— O que vai querer?
— Um pão com ovos mexidos... um suco de laranja... e quatro pães para levar.
— Já trago.
Enquanto esperava, Henrique observava a rua pela janela.
Bem em frente havia uma igreja.
No letreiro estava escrito:
Cultos: Quarta-feira e Domingo – 19h
Ele sorriu.
— Amanhã eu venho.
Poucos minutos depois Larissa voltou.
Colocou o café sobre a mesa.
— Você veio de onde?
— Osasco.
Ela brincou.
— Então fugiu da cidade grande?
Henrique riu.
— Acho que sim.
Ela apoiou os braços sobre a mesa por um instante.
— E o que faz alguém sair de Osasco para morar aqui?
Henrique ficou alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu apenas:
— A vida...
Ela percebeu que havia algo por trás daquela resposta.
Não insistiu.
Os dois conversaram sobre a cidade, restaurantes, lugares para conhecer e curiosidades de Araçariguama.
Antes de Henrique ir embora, Larissa perguntou:
— Posso passar meu número? Se precisar de alguma dica da cidade, pode chamar.
Henrique pensou por um instante.
Pegou o celular.
— Claro.
Ao sair da cafeteria, sorriu sozinho.
— Não quero relacionamento nenhum...
Mas... amizades são sempre bem-vindas.
Quando voltou ao prédio, encontrou um casal tentando carregar uma cômoda pesada pela escada.
Um homem fazia força enquanto uma mulher tentava ajudar.
Henrique largou imediatamente as sacolas.
— Precisa de ajuda?
O homem respondeu ofegante.
— Se puder...
Henrique assumiu o lugar da mulher.
Os dois conseguiram subir a cômoda até o apartamento ao lado.
O homem respirou aliviado.
— Valeu mesmo.
Sou Luan.
Henrique apertou sua mão.
— Henrique.
A mulher sorriu.
— Eu sou Jéssica.
Ela pegou uma criança pequena no colo.
— E esse é o Bernardo.
Henrique sorriu.
— Que família bonita.
Jéssica entregou a sacola que Henrique havia deixado no corredor.
— Obrigada pela ajuda.
— Imagina.
Já em seu apartamento, Henrique preparou sua primeira refeição de verdade.
Fez arroz.
Feijão.
Farofa.
E cozinhou alguns ovos.
Olhou para o prato.
Sorriu.
Não era nada sofisticado.
Mas tinha sido feito por ele.
E aquilo lhe deu uma estranha sensação de liberdade.
Depois do almoço sentou-se diante da escrivaninha.
Abriu o notebook.
Começou a escrever.
Escreveu das duas da tarde até às oito da noite.
Em apenas um dia terminou metade de um volume.
No meio da escrita, porém, sentiu um aperto no peito.
Pensou em Giovana.
A saudade apareceu de repente.
Mas alguns minutos depois percebeu algo.
Não sentia falta dela.
Sentia falta da vida que imaginava ter construído.
Da mulher que acreditava que ela fosse.
Aquela pessoa...
Nunca existiu.
Respirou fundo.
Voltou a escrever.
Já era noite quando ouviu alguém bater na porta.
Era Luan.
Ao lado dele estava Bernardo segurando um pequeno bolo.
Luan sorriu.
— Isso é um agradecimento por hoje.
Henrique ficou emocionado.
— Não precisava.
Bernardo apontou para a gata.
— Gatinho!
Henrique riu.
— Pode brincar um pouquinho.
Enquanto Bernardo brincava com a gata, Luan comentou:
— Sei como é difícil chegar numa cidade onde você não conhece ninguém.
Se precisar de qualquer coisa...
É só chamar.
Henrique sorriu.
— Obrigado.
Vocês foram as primeiras pessoas que me fizeram sentir em casa.
Mais tarde ele desceu até a conveniência para comprar um suco.
Yara estava organizando algumas prateleiras.
— Oi, Henrique.
— Boa noite.
Ela apontou para uma caixa pesada.
— Será que consegue colocar isso na prateleira de cima?
Henrique riu.
— Claro.
Ele ajudou a organizar algumas mercadorias.
Sem perceber, começaram a conversar.
O assunto foi mudando naturalmente.
A conversa
Yara: Então... já conseguiu organizar o apartamento?
Henrique: Aos poucos. Descobri hoje que comprar móveis é mais fácil do que lembrar das panelas.
Ela riu.
Yara: Bem-vindo à vida adulta.
Henrique: Achei que o difícil era pagar aluguel.
Yara: Não...
O difícil é lembrar de comprar abridor de lata.
Os dois riram.
Depois falaram sobre a cidade.
Sobre os clientes curiosos da conveniência.
Sobre livros.
Sobre filmes.
Sobre comida.
Sobre viagens.
Nenhum assunto era profundo.
Nenhum era romântico.
Era apenas uma conversa leve entre duas pessoas que estavam se conhecendo.
Quando Henrique olhou o relógio...
Já era uma da manhã.
— Meu Deus!
Fiquei atrapalhando seu trabalho.
Yara sorriu.
— Você não atrapalhou.
Hoje a loja estava tranquila.
Pode aparecer mais vezes.
Henrique sorriu.
— Pode deixar.
Boa noite.
— Boa noite, escritor.
Ele ficou surpreso.
— Como sabe?
Ela deu de ombros.
— Minha avó contou.
Ao chegar ao apartamento, outra notificação apareceu.
Era Larissa.
Larissa: Está acordado?
Henrique: Sim kkk.
Larissa: Sobreviveu ao segundo dia na cidade?
Henrique: Acho que sim.
Ainda não morri de fome.
Larissa: Então já está melhor que metade dos solteiros.
Henrique: Descobri que eu tinha comprado móveis...
Mas esqueci panelas.
Larissa: Kkkkkkk.
Isso foi muito homem morando sozinho.
Henrique: Concordo.
Larissa: Se precisar de indicação de mercado ou restaurante, me chama.
Henrique: Vou chamar sim.
Obrigado.
Larissa: Boa noite.
Descansa.
Henrique: Boa noite.
Até amanhã.
Era apenas uma amizade.
Uma conversa simples.
Mas Henrique percebeu que fazia muito tempo desde que alguém conversava com ele sem querer algo em troca.
Acabaram conversando por mensagens até quase o amanhecer.
Quando percebeu...
Já eram seis horas.
Dormiu poucas horas.
Acordou mais tarde naquele dia.
Depois do almoço voltou a escrever.
Das uma da tarde até às seis e vinte da tarde.
Naquele ritmo impressionante...
Conseguiu terminar mais um volume em apenas dois dias.
Às sete da noite foi à igreja que havia visto da cafeteria.
Foi recebido com carinho.
Os irmãos o cumprimentavam mesmo sem conhecê-lo.
Naquela noite o pastor pregou sobre Salmos 27.
"O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo?"
Henrique ouviu cada palavra como se Deus estivesse falando diretamente com ele.
Após o culto, uma jovem chamada Juliana aproximou-se.
— Oi.
Nunca te vi aqui.
Henrique sorriu.
— Sou novo na cidade.
Os dois conversaram alguns minutos.
Ela apresentou alguns membros da igreja e disse:
— Esperamos você no próximo culto.
Henrique respondeu:
— Com certeza voltarei.
Saiu dali com uma paz que fazia muito tempo não sentia.
Naquela noite, porém, a solidão voltou.
O apartamento estava silencioso.
Escuro.
Grande demais para uma única pessoa.
Henrique sentou-se na cama.
As lágrimas vieram.
Sentiu o peso de estar completamente sozinho.
Nesse momento, sua gata pulou sobre a cama.
Deitou-se aos seus pés e começou a ronronar.
Henrique sorriu.
Fechou os olhos.
— Senhor...
Obrigado por não me deixar sozinho.
Permaneceu alguns minutos em oração.
Aos poucos, aquela angústia foi desaparecendo.
A paz voltou ao seu coração.
E naquela noite...
Henrique dormiu acreditando, pela primeira vez, que Deus realmente estava escrevendo um novo capítulo de sua vida.
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