Asas do AmorVolume 1 – Capítulo 5 – O Primeiro Fim de Semana
Capítulo 5O primeiro fim de semana de Henrique em Araçariguama chegou de forma tranquila.
Na manhã de sábado, ele acordou cedo, colocou uma música ambiente bem baixa e começou a limpar o apartamento.
Enquanto passava pano na sala, ouviu algumas batidas na porta.
Toc... Toc... Toc...
Ao abrir, encontrou Yara.
Ela estava um pouco sem graça.
— Bom dia.
Henrique sorriu.
— Bom dia.
Ela olhou rapidamente para dentro do apartamento.
— Está limpando?
— Tentando.
Ela deu uma pequena risada.
Respirou fundo antes de falar.
— Eu... queria saber se você gostaria de sair comigo...
Os dois ficaram vermelhos ao mesmo tempo.
Yara rapidamente corrigiu.
— Como amigos!
Henrique começou a rir.
— Ah... assim fica menos assustador.
Ela riu também.
— Minha avó pediu para eu ir numa fazenda comprar ovos frescos e verduras para a conveniência. É aqui perto, mas eu não gosto muito de ir sozinha.
— Por quê?
— O fazendeiro é meio inconveniente.
— E a Estela?
— Hoje ela não pode.
Henrique cruzou os braços.
— Então eu sou sua única opção?
Ela balançou a cabeça.
— Não...
Você é a terceira.
Os dois caíram na risada.
— O Bernardo está dormindo, então o Luan também não pode.
— Agora faz sentido.
Henrique pegou a chave.
— Vamos.
Antes de sair, convidou Yara para entrar.
— Quer um pedaço de bolo?
Ela olhou para a mesa.
— Você comprou?
— Ontem.
Ela riu.
— Morando sozinho sobra comida, né?
— Descobri isso rápido.
Enquanto conversavam, Henrique terminou de se arrumar.
Poucos minutos depois chamaram um carro por aplicativo.
A fazenda ficava a poucos quilômetros da cidade.
Assim que chegaram, um senhor de cerca de sessenta anos caminhou até eles.
— Ora, ora...
A pequena Yara veio acompanhada hoje.
Quem é esse rapaz?
Henrique estendeu a mão.
— Henrique. Amigo dela.
O homem sorriu de forma maliciosa.
— Vai roubar minha garota?
Henrique respondeu calmamente.
— O senhor não acha que está um pouco velho para ela?
O homem fechou a cara.
Antes que pudesse responder, Yara cruzou os braços.
— José...
Eu não sou de ninguém.
Se toca.
O fazendeiro começou a rir.
— Tá bom, tá bom.
Era brincadeira.
Compraram ovos, verduras e legumes.
Henrique carregou praticamente todas as caixas até o carro.
Na volta ajudou Yara a organizar tudo na conveniência.
Como aos sábados a loja só abria à tarde, conseguiram terminar tudo antes do horário.
Pouco depois Estela apareceu.
— Henrique!
Hoje você almoça conosco.
Ele tentou recusar.
— Não precisa...
Thomas apareceu da cozinha.
— Já está pronto.
Não aceitamos "não".
Henrique riu.
Mais uma vez se sentiu acolhido.
Durante o almoço perguntou:
— E a Dona Maria?
Yara respondeu:
— Ela passa praticamente o sábado inteiro na igreja.
— Naquela igreja da praça?
— Sim.
Henrique sorriu.
— Conheci na quarta-feira.
Gostei bastante.
A Juliana foi muito simpática.
Yara ficou alguns segundos em silêncio.
— Ela é...
Legal.
A resposta saiu um pouco seca.
Thomas percebeu, mas preferiu não comentar.
Yara logo mudou de assunto.
— Amanhã vou ao culto.
Se quiser ir comigo...
Henrique respondeu imediatamente.
— Será um prazer.
Depois do almoço, os dois ficaram conversando na varanda da conveniência.
Yara perguntou:
— E o livro?
— Entreguei todos os volumes.
Ela arregalou os olhos.
— Você escreve muito rápido.
Henrique sorriu.
— Quando escrever vira seu único trabalho... fica mais fácil.
Ela balançou a cabeça.
— Mesmo assim...
Criar histórias deve ser incrível.
Depois de alguns segundos de silêncio, Henrique perguntou:
— Você namora?
Ela sorriu.
— Nunca namorei.
E você?
Henrique deu uma pequena risada.
— Acabei de sair de um casamento.
Os dois riram.
Ela então perguntou:
— Pensa em namorar de novo?
Henrique olhou para a rua.
— Acho que não.
Pelo menos agora.
— Tem medo?
Ele demorou para responder.
— Também.
Mas principalmente...
Estou me conhecendo pela primeira vez.
Passei tantos anos vivendo para outra pessoa que agora estou aprendendo quem eu sou.
Às vezes gosto da solitude.
Às vezes ela dói.
Ele sorriu.
— E sinceramente...
Que mulher teria interesse num escritor que passa o dia inteiro dentro de casa trabalhando?
Yara respondeu sem pensar.
— Eu acho você interessante.
Os dois ficaram alguns segundos se olhando.
O silêncio só foi interrompido por uma voz infantil.
— Tia Yara!
Era Bernardo.
Correndo em direção à conveniência.
— Mamãe mandou comprar bala!
Yara riu.
— Já vou.
Henrique respirou aliviado.
Aquele pequeno "salvamento" evitou um silêncio constrangedor.
Mais tarde Henrique resolveu passear pela praça.
Queria comprar algumas plantas.
Seu apartamento ainda parecia vazio.
Enquanto escolhia alguns vasos, ouviu alguém chamá-lo.
— Henrique!
Era Larissa.
Ela caminhou até ele sorrindo.
— Como você está?
— Bem.
E você?
— Também.
O que faz por aqui?
— Quero comprar umas plantas.
Ainda parece que moro num apartamento alugado.
Ela riu.
— Posso ajudar?
Os dois passaram quase uma hora escolhendo vasos e pequenas plantas.
No caminho conversaram bastante.
— Não sente falta da cidade grande?
Henrique respondeu imediatamente.
— Não.
Larissa sorriu.
— E seus pais?
Henrique respirou fundo.
— Meu pai é caminhoneiro.
Vive viajando.
Minha mãe...
Ela é complicada.
Mas me liga todos os dias.
Larissa assentiu.
— Tenho só minha irmã.
Henrique perguntou:
— E seus pais?
Ela abaixou a cabeça.
— Faleceram há alguns anos.
Henrique ficou sem jeito.
— Me desculpa...
Ela sorriu.
— Está tudo bem.
Aprendi a seguir em frente.
Quando terminaram as compras, prenderam as plantas cuidadosamente na moto.
Antes de ir embora, Larissa deu um beijo em sua bochecha.
— Até mais.
Henrique ficou completamente vermelho.
Ela apenas sorriu e foi embora.
Ao chegar em casa, seu celular tocou.
Era sua mãe.
— Filho...
Como você está?
— Estou bem.
E a senhora?
— Indo.
Filho...
Sua irmã está precisando de uma moto.
Será que você pode trazer a sua?
Henrique respirou fundo.
— Não, mãe.
Houve silêncio.
Então ele continuou.
— Mas recebi minha rescisão.
Vou fazer um PIX de quatro mil reais.
Compra uma usada para ela.
A mãe ficou emocionada.
— Obrigada, filho.
Eu te amo.
— Também te amo.
Antes de desligar ela comentou:
— Ah...
A Giovana apareceu aqui procurando você.
Henrique fechou os olhos.
— Mãe...
Eu não quero saber dela.
Desligou.
Seu coração ficou pesado por alguns minutos.
Mas respirou fundo.
— Eu preciso recomeçar.
No fim da tarde desceu para tomar um ar.
Encontrou Luan sentado na calçada.
Os dois conversaram sobre futebol, trabalho e a cidade.
Depois Henrique voltou para o apartamento.
Escreveu até às onze da noite.
Terminou mais um capítulo de seu livro.
Nesse momento o celular tocou.
Número desconhecido.
Ele atendeu.
— Alô?
Do outro lado da linha veio uma voz conhecida.
— Amor...
Era Giovana.
Henrique fechou os olhos por alguns segundos.
Depois respondeu apenas:
— Me esquece.
Desligou.
Naquela noite dormiu mal.
Mas tomou uma decisão.
No dia seguinte compraria um chip novo.
Na manhã de domingo foi até uma farmácia.
Comprou outro número.
Enviou mensagem para as pessoas importantes.
Larissa.
Seu editor.
Seu pai.
Sua mãe.
Sua irmã.
Depois foi até a conveniência.
Yara organizava algumas mercadorias junto com Dona Maria.
Ela percebeu imediatamente que Henrique estava diferente.
— Aconteceu alguma coisa?
Henrique explicou sobre a ligação de Giovana.
E contou que havia trocado de número.
Yara sorriu.
— Você fez bem.
Depois ficou alguns segundos olhando para ele.
— Aliás...
Eu nem tenho seu número.
Henrique sorriu.
— Verdade.
Os dois trocaram contatos.
À noite seguiram juntos para o culto.
Henrique.
Yara.
E Dona Maria.
Quando chegaram, Juliana logo veio cumprimentá-los.
— Que bom que você voltou!
Henrique sorriu.
— Eu disse que voltaria.
Durante praticamente todo o culto, Yara permaneceu ao lado dele.
Por algum motivo...
Não se afastava.
Após o encerramento, Henrique foi ao banheiro.
Na volta encontrou Juliana no corredor.
Os dois começaram a conversar.
Ela sorriu várias vezes durante a conversa.
— Você é um rapaz muito educado.
Não sei o que fez você vir morar sozinho aqui...
Mas tenho certeza de que Deus tem um propósito.
Henrique agradeceu.
Quando perceberam...
Já haviam conversado por quase vinte minutos.
Ao voltar para a entrada da igreja, Yara cruzou os braços.
— Pensei que você tinha ido embora.
Henrique riu.
— Acabei encontrando a Juliana.
Os três caminharam juntos até a praça antes de se despedirem.
Mais tarde, já na conveniência, Henrique passou para comprar uma água.
Yara perguntou:
— Amanhã é a entrega dos quatro volumes, não é?
Henrique sorriu.
— Estou ansioso.
Ela respondeu com confiança.
— Vai dar tudo certo.
Os dois conversaram mais alguns minutos.
Depois Henrique voltou para seu apartamento.
Antes de dormir, olhou pela janela.
Em apenas uma semana...
Ainda sentia falta de algumas coisas.
Ainda carregava cicatrizes.
Mas agora tinha vizinhos que se importavam.
Novos amigos.
Uma igreja onde era bem recebido.
Um sonho que finalmente começava a dar frutos.
E, pela primeira vez desde o fim do casamento, Henrique percebeu que não estava apenas sobrevivendo.
Ele estava, pouco a pouco, recomeçando.
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