Ascendance of a BookwormCAPÍTULO 110 - 109
Capítulo 110Ascendance of a Bookworm – Capítulo 109
O caminho de Lutz pela vida
— Lutz ainda é menor de idade. Preciso da permissão dos pais dele para tirá-lo da cidade, a trabalho, por dias. Se sairmos sem a permissão deles, será tratado como sequestro.
Benno suspirou enquanto explicava as circunstâncias. Fiquei feliz em ouvir os detalhes, já que sua lista de problemas só tinha mencionado a parte de “lutar para obter permissão”.
— Enviei Mark para obter sua permissão, mas eles não aceitaram. Não sei se há apenas alguma lacuna entre artesãos e comerciantes que eu não estou percebendo ou se o pai dele é apenas muito teimoso. Alguma ideia?
— Quero dizer. — No fim do dia, o problema de Benno era obter permissão dos pais de Lutz. Isso era algo que ele precisava falar com eles e Lutz. Eu poderia ter sido amiga de infância de Lutz, mas eu era uma completa estranha à família. Os envolvidos eram: Benno, que queria levar Lutz para fora da cidade, a trabalho, Lutz, que realmente queria deixar a cidade, e os pais de Lutz, cuja falta de permissão estava causando atrito. Não era meu lugar dizer nada. Mas, quando expliquei isso ao Benno, ele coçou a cabeça e olhou para mim.
— É por isso que eu estou perguntando o que você pensa. Cada pedaço de informação importa aqui. Se Lutz sabe mais sobre você que qualquer um, certamente você sabe mais sobre Lutz que qualquer um, sim?
Benno sempre se preparou com antecedência, então naturalmente ele queria coletar informações sobre os pais de Lutz, antes de seguir em frente. Eu não sabia muito sobre sua vida profissional, mas, era verdade que após passar tanto tempo com Lutz, eu sabia mais sobre ele que qualquer outra pessoa.
— Por que eles não lhe dão sua permissão? Não é para o trabalho dele?
— Isso é o que eu quero saber. De acordo com Mark, eles apenas disseram não e deixaram por isso mesmo. Lutz mencionou que sua situação em casa não era boa, quando ele pediu o sótão, mas quão ruim é?
Lutz parou de falar muito sobre sua vida doméstica, depois que ele anunciou que estava se tornando um comerciante aprendiz e restringiu seu relacionamento com sua família. Eu poderia imaginar que ele, definitivamente, não queria sentir como se estivesse mostrando fraqueza para seus chefes, Mark e Benno.
— A família de Lutz é contra ele se tornar um comerciante.
— Como é que é? Eles não eram apenas contra ele se tornar um comerciante viajante, eles são contra ele se tornar um comerciante da cidade também? — O queixo de Benno caiu, em surpresa, e eu acenei lentamente.
— O pai de Lutz trabalha na construção civil e todos os seus irmãos mais velhos são aprendizes em trabalhos relacionados à construção e carpintaria. O pai dele queria que ele fizesse o mesmo. Segundo ele, conseguir um trabalho estável como artesão é melhor que andar nos altos e baixos de ser um comerciante.
— Tenho certeza que nem todos os artesãos conseguem trabalho estável.
Havia oficinas lá fora que faliram, após não conseguirem trabalho, então nem mesmo os artesãos tinham um trabalho estável, absolutamente garantido. Mas um trabalhador qualificado não teria problemas em ser contratado em uma oficina do mesmo ramo e eles não tinham que arcar com dívidas para continuar administrando uma loja ou algo assim.
— Lutz uma vez me contou que seu pai lhe disse que “nunca aceitaria que ele fosse um comerciante, nunca.”— Ele tinha palavras duras para os comerciantes, dizendo que eles viviam do trabalho dos outros, sem nunca fazer nada sozinhos. Que tinha que ser um monstro sem coração para ser um e assim por diante. Ele era tão hostil aos comerciantes, que me fez pensar que tipo de golpista o ferrou no passado.
— Estou impressionado por Lutz ter passado por tudo isso.
Considerando como a maioria das crianças da cidade conseguiu seus empregos através da ajuda de seus pais e familiares, Lutz foi uma grande exceção. Mas, ele era tão animado e apaixonado pelo seu trabalho, que eu nunca diria que ele tinha feito a escolha errada.
— Lutz planejava se tornar um aprendiz residente, se seus pais o expulsassem, por causa de sua decisão. Embora isso acabou não acontecendo, desde que sua mãe aceitou o quão sério ele estava.
— Um aprendiz-residente? Sua situação familiar é tão ruim que ele realmente consideraria se tornar um desses? — Benno piscou de surpresa. Normalmente, não havia crianças loucas o suficiente para se jogarem, voluntariamente, no inferno que seria um aprendiz-residente. A maioria deles perceberia que sua situação doméstica, não importa o quão ruim poderia ser, era melhor que a alternativa.
— Eu não tenho certeza de como as coisas são para ele agora, já que ele não fala muito sobre sua vida doméstica. Mas estou preocupada que seus irmãos podem não gostar muito dele agora.
— O que você quer dizer?
— Do ponto de vista de sua família, pode parecer que Lutz está cuspindo na ajuda de seu pai, para brincar em vez de trabalhar. Eles podem não ser capazes de ver o quanto Lutz está crescendo e o quanto ele está trabalhando duro, já que eles não estão na mesma linha de trabalho. Eu não tenho certeza, já que eu nunca falei com os irmãos de Lutz sobre ele.
Mas eu ainda os conhecia melhor que conhecia o pai dele, que eu mal tinha visto antes. Eu sabia que ele se parecia mais com seu filho mais velho Zasha e que ele se orgulhava de seu trabalho na construção, mas era isso. Muitas vezes via mães conversando pelo poço, mas nunca vi os pais.
— Acho que Lutz fugirá de casa, se souber que seus pais estão diretamente impedindo que seus sonhos se realizem. Ele é teimoso e não vai recuar, agora que tomou sua decisão. Mas ser um aprendiz-residente é o último recurso. Seria muito difícil para ele viver sozinho, como menor, e acho que mesmo com toda essa luta, as famílias devem ficar juntas e ajudar umas às outras.
Ouvindo isso, Benno olhou brevemente para as escadas próximas e deu um sorriso curioso. Benno trabalhou incansavelmente para sustentar sua família, desde as mortes prematuras de seus pais. Eles eram preciosos para ele, e ele era uma pessoa tão profundamente sentimental que ele escolheu viver a vida como solteiro depois que seu verdadeiro amor morreu. Eu duvidava que ele iria querer prejudicar a relação de Lutz com sua família.
— Acho que a única solução para isso, será explicar a situação para Lutz e fazê-lo concordar em esperar até ser um adulto. A essa altura, ele não precisará da permissão dos pais e não deve haver problemas com ele deixando a cidade. Esperar é a escolha mais segura aqui.
As coisas seriam diferentes se ele não pudesse deixar a cidade por toda a sua vida, sem a permissão dos pais, mas como estava, parecia que seria melhor para ele ser apenas paciente. Não havia necessidade de forçar as coisas e destruir a relação com sua família. Mas Benno balançou a cabeça com uma expressão sombria quanto a ideia.
— Isso será muito lento. Ele não vai fazer isso a tempo.
Estamos com pressa por alguma razão?Inclinei minha cabeça em confusão, e após uma carranca apertada, Benno soltou um suspiro pesado.
— Tem algo a ver com o trabalho. Eu não posso falar sobre isso agora. — Como eu não era um empregado da loja de Benno, não era meu lugar para cavar mais fundo. Só acenei com a cabeça e segui em frente.
— Nesse caso, provavelmente seria seguro assumir que isso vai separar a família de Lutz, não importa o que aconteça. Lutz definitivamente escolherá sua vida como comerciante, em vez de sua família. Você querer levá-lo para outras cidades, deve significar que tem grandes esperanças para ele, mas até onde você está disposto a ir, para cuidar dele como um aprendiz?
Como Lutz era um dahua, Benno não era responsável por mantê-lo alimentado ou algo assim. Se ele começasse a cuidar de Lutz além do que o contrato dizia, ele o isolaria ainda mais dos outros dahuas. E se Benno não estivesse preparado para fazer isso em primeiro lugar, tornar-se um Aprendiz-residente faria Lutz infeliz. Seria melhor manter a situação atual, nesse momento. Dei um olhar firme ao Benno, preparado para cortá-lo por qualquer resposta sem coração, e ele levantou as mãos em derrota.
— Sabe, pessoalmente, eu estava pensando em adotá-lo.
A resposta dele me derrubou. Eu nunca havia imaginado. Se Benno estivesse disposto a ir tão longe por Lutz, eu não precisaria me preocupar, mesmo que ele fugisse de casa. Com a colher de prata de Benno o apoiando, Lutz não teria que se preocupar com sua vida doméstica ou profissional, após se separar de sua família para sair da cidade como um comerciante.
— Eu não achava que você se importava tanto com Lutz, Sr. Benno. Se é assim que você é dedicado, você deve apenas falar com Lutz sobre isso e, em seguida, ter uma reunião com seus pais! Vai ficar tudo bem.
— Falar com Lutz, hein?— Benno gemeu um pouco, com hesitação clara em seu rosto.
— Não importa o que aconteça, envolver Lutz é importante. Até agora, ele está tomando decisões por conta própria e não devemos excluí-lo.
Benno adotando Lutz, significava que um dia ele herdaria a loja de Benno. Ou para ser mais específica, já que a filha de Corinna estaria herdando a Companhia Gilberta, Lutz provavelmente herdaria o restaurante italiano, o papel vegetal, e basicamente tudo a ver com o Ateliê da Myne. Era provavelmente por isso que ele queria Lutz com ele, ao fazer uma nova oficina de papel vegetal em outra cidade. O trabalho duro de Lutz tinha ganho a aprovação de Benno e perceber isso me fez sentir tão feliz quanto eu me sentiria se estivesse no lugar dele.
— Você gostaria que Lutz fosse meu filho adotivo?
— Não é com a adoção que eu estou feliz, é que você aprecie seu trabalho duro.
Benno soltou uma risada e tocou sua campainha para chamar Mark. Parecia que nossa conversa secreta tinha acabado.
— Sim, Mestre Benno?
— Chame o Lutz aqui.
Mark saiu da sala, com movimentos graciosos e fluidos e voltou com Lutz. Ambos estavam andando da mesma maneira. Era engraçado ver como Lutz imitava Mark.
— Lutz, preciso falar com seus pais sobre uma coisa. Pode organizar isso para mim? Melhor antes que mais tarde. — O pedido de Benno foi tão do nada, que Lutz congelou no lugar e piscou por um segundo antes de responder.
— Meus pais? Er, certamente, Mestre Benno. — Lutz deu seu reconhecimento, ao qual Benno acenou com a cabeça, antes de continuar a dar-lhe seu trabalho para o dia. Ele queria que Lutz ficasse no templo após me levar lá e ajudar o Ateliê da Myne com o papel trombe, que atualmente está sendo produzido em massa.
Lutz deu um sorriso suave como o de Mark e acenou com a cabeça. — Entendido. Vamos, Myne.
Lutz e eu começamos nossa caminhada até o templo juntos. Tudo estava indo tão bem para Lutz que eu não podia deixar de começar a cantarolar.
— Você está, com certeza, de bom humor, Myne.
— Estou feliz, e daí?
— Eu não sei, estou feliz que o sermão de Benno não te derrubou.
— Arg. Nem me lembre.
De acordo com o que Lutz me disse em nossa caminhada, Benno o estava enviando para o templo, enquanto eu estava doente, para que ele pudesse começar a produção em massa de papel trombe. Lutz estava enviando os órfãos para a floresta, pegando a casca preta e até levando batatas lá para fazer batatas amanteigadas como costumávamos fazer.
— Sabe, acho que estou agindo muito mais como o capataz da oficina que você,— disse Lutz.
Dei de ombros. Nós, Donzelas azuis do santuário, não tínhamos permissão para fazer trabalho manual e não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso. Todo mundo estava se divertindo tanto que eu queria participar, mas eu, literalmente, não tinha permissão.
— Sou apenas a capataz para que eu possa obter renda enquanto trabalho como aprendiz de donzela de santuário. Você está trabalhando duro o suficiente para que eu vá contratá-lo como capataz assistente, com um bom salário inicial, Lutz, então continue assim.
— Assistente capataz parece legal e tudo, mas eu estou apenas ajudando você, sim? Isso é o que eu sempre fiz.
— E você provavelmente vai continuar fazendo isso para sempre, já que você vai ajudar a vender os novos produtos que eu pensar.
Benno provavelmente estava fazendo Lutz ensinar os órfãos, no Ateliê da Myne, a fazer papel, como parte de seu treinamento, um passo necessário para espalhar papel por todo o país.
— Oh? Não há ninguém aqui.
Chegamos ao templo, mas nenhum dos meus assistentes estava no portão. Foi a primeira vez, desde que me tornei uma donzela do santuário, que ninguém estava esperando, no portão, por mim. Comecei a procurar por eles, mas Lutz pegou minha mão e entrou no templo.
— Entrei em contato com Fran e disse que não sabia quando você chegaria aqui, já que o Mestre Benno estava dando sermão em você. Poderia muito bem ir direto para seus aposentos, sim?
— Você está certo, não seria bom fazê-los esperar aqui fora por tanto tempo. Obrigada, Lutz.
— Eu vou para a oficina. Vejo você na saída.
Lutz e eu nos separamos na escadaria até a capela. Após escalar eu mesma, andei ao redor do orfanato e fui para meus aposentos. A porta estava fechada, e como meus assistentes geralmente a abriam, isso me fez parar. Eu não carregava um sino para chamar meus assistentes e, provavelmente, seria repreendida por ser impróprio se eu apenas gritasse por eles, então o que eu deveria fazer?
Por um breve momento, fiquei na frente da porta, pensando no que um nobre faria, na minha situação. Mas nenhuma reflexão mudaria o fato de que eu não sabia o suficiente sobre a nobreza para dizer qualquer coisa, com certeza. Me senti tão tola de me preocupar tanto em entrar nos meus próprios aposentos que decidi abrir a porta com uma batida.
Não é como se alguém estivesse lá para ficar bravo comigo. Posso perguntar à Fran o que eu deveria ter feito, mais tarde. Bati na porta e disse “estou entrando” antes de abri-la. Lá dentro, vi Fran descendo às pressas as escadas.
— Bom dia, Fran. Desculpe por te preocupar. Minha febre baixou e estou me sentindo muito melhor.
Fran olhou para as escadas com um olhar extremamente perturbado, em seguida, baixou a voz. — Irmã Myne, devo dizer-lhe.
— Você não sabe o quão impróprio é para uma jovem andar sozinha sem um assistente?
— Quê?! O Sumo Sacerdote?!— Eu não tinha previsto que o Sumo Sacerdote estaria no meu quarto. Minha boca se abriu, em choque, quando olhei para as escadas e o vi olhando para mim.
— Feche a boca. É impróprio. Mas, o mais importante, deixando de lado a cidade baixa, andar por conta própria no templo é extremamente impróprio. Tome cuidado para não fazê-lo novamente.
Com incentivo de Fran, caminhei até o segundo andar, onde ouvi humildemente enquanto o Sumo Sacerdote me repreendia e bebia chá elegantemente. Segundo ele, o curso de ação dos nobres teria sido enviar uma palavra adiante e ter um assistente esperando no portão, não importa o quê. Alternativamente, eu poderia ter informado o guarda do portão da minha chegada e esperado em uma sala de espera próxima para um assistente vir me buscar.
Isso é um pouco avançado demais para mim. E realmente, eu não posso acreditar que ele é tão sério sobre algo tão simples como abrir uma porta. Quando essa palestra vai acabar? Comecei a me cansar de ouvir a palestra. Nesse momento, percebi que não sabia por que o Sumo Sacerdote estava no meu quarto e usei isso para mudar de assunto.
— Sumo Sacerdote, aprendi sobre como abrir uma porta.
— Isso não era sobre abrir uma porta. Você estava ao menos ouvindo? Estou dizendo como agir como uma dama adequada.
Ohhh. Ele não estava me repreendendo sobre a porta em particular. Eu não percebi. Parecia que a palestra estava prestes a esquentar muito, então eu interrompi com uma pergunta. — Posso perguntar o motivo de sua visita, hoje? Deve ser algo importante, para você vir até meus aposentos. Você não está com pressa?
Normalmente, eu já estaria indo para o quarto dele para fazer a papelada. Ele tinha mencionado ter mais tempo livre, graças à minha ajuda, mas eu não gostaria que esse tempo fosse passado me dando sermão. Minha pergunta lembrou ao Sumo Sacerdote por que ele estava aqui, e após uma tossida, ele olhou para mim.
— Sua febre caiu completamente?
— Oh? Sim, estou totalmente recuperada. Desculpe por ter preocupado você.
— É bom ouvir isso— disse ele, enquanto formava um sorriso gelado. Endireitei minhas costas com uma sacudida, percebendo que eu estava prestes a receber o tipo de palestra que ele dava em sua sala secreta.
— Acredito que eu lhe disse para não fazer bagunça. Não fiz isso?
— Quê? Aff?— Eu estava acamada com febre por tantos dias que, vindo de uma conversa com Benno, eu não tinha ideia do que o Sumo Sacerdote estava falando. Do que ele estava falando?
— Fui verificar se você tinha limpado mesmo e encontrei toda a terra em uma ampla área completamente revirada, com um pouco do pavimento de pedra ligeiramente fora do lugar.
Pensei que nenhum padre azul se incomodaria em ir lá, mas, aparentemente, o Sumo Sacerdote tinha se esforçado para verificar. Parecia que ele era o tipo de trabalhador que se sentia compelido a confirmar as coisas, apesar de estar tão ocupado. Seus olhos dourados claros se estreitaram, não me proporcionando nenhuma fuga.
— O que no mundo você fez para causar tudo isso?
— Bem. Hum. Assim como eu te informei com antecedência, nós…— Olhei para a Fran. O que exatamente ele disse ao Sumo Sacerdote? Eu não tinha ideia do que dizer para resolver esta situação.
— Tanto Fran quanto os órfãos afirmaram que colheram madeira para transformar em papel. Que eles jogaram taus entre si. E finalmente, que você adoeceu com febre. Nada além disso.
— E isso é tudo o que aconteceu.— Eu acenei com a cabeça, repetidamente, depois que ele terminou. Isso provavelmente significava que ninguém tinha vazado como a madeira que eles tinham colhido era de trombes, que brotaram de taus que tinham drenado minha mana. Como eu não sabia exatamente o que o Sumo Sacerdote sabia, mantive minha boca fechada, para não dizer nada desnecessário. Eu poderia perguntar a Fran o que ele tinha dito mais tarde.
— Já que todos responderam o mesmo, eles devem estar dizendo a verdade. Mas você não pode negar que causou um rebuliço, por fazer bagunça o suficiente para tirar o pavimento de pedra para fora do lugar,— disse o Sumo Sacerdote. Me preparei para uma enxurrada de perguntas, apenas para ele olhar para mim. — Myne, eu sentencio você a um dia na câmara de arrependimento.
Espere. Ele não está me questionando? Benno definitivamente me questionaria até obter as respostas que queria. Tem certeza disso? Talvez, por ter perguntado aos órfãos sobre a situação, enquanto eu estava acamada, o Sumo Sacerdote não seguiu mais o assunto e simplesmente me puniu.
— A câmara de arrependimento?
— Sim. Você vai orar aos deuses enquanto reflete sobre o que você fez.
Eu estava honestamente um pouco decepcionada, mas em contraste com a minha apatia geral em relaxar na detenção por um dia, o rosto de Fran empalideceu e Delia gritou “Inacreditável!” em voz alta.
— Eu nunca ouvi falar de uma donzela azul do santuário sendo enviada para a câmara de arrependimento! Seria vergonhoso!
— Sumo Sacerdote, peço que reconsidere!
Parecia que eu era a primeira aprendiz de donzela azul do santuário da história a ser enviada para a câmara de arrependimento. Mas, para ser honesta, como mencionado, eu preferia ficar na detenção do que o Sumo Sacerdote investigando o que aconteceu no Festival das Estrelas, com sua raiva gelada sobre mim.
— Assistentes, eu ganhei esta punição quebrando minha promessa com o Sumo Sacerdote. É natural que eu assuma a responsabilidade por minhas ações. Estou feliz, desde que os órfãos não sejam punidos.
Eu aceitaria com prazer qualquer punição que não levasse os órfãos a serem penalizados em associação. Eles se divertiram tanto naquele dia e eu não queria suas memórias felizes do festival manchadas por sermões e tempo na câmara de arrependimento.
— Sumo Sacerdote, onde é a sala de arrependimento e o que devo fazer dentro dela? Entendo que preciso me arrepender, mas há algo em particular que eu precise fazer?
Visões de punições que eu tinha sofrido nos meus dias de Urano passaram pela minha cabeça: ser forçada a limpar, ter que escrever “Eu não vou fazer isso de novo” cem vezes, e assim por diante. Mas o Sumo Sacerdote levantou uma sobrancelha em descrença. Eu aparentemente tinha feito uma pergunta com uma resposta extremamente óbvia para qualquer um no templo.
— O que mais além de oferecer orações aos deuses?
Espere. Ele quer que eu faça aquela pose de oração boba o dia todo? A intensidade da punição me deixou sem palavras, quando Gil tentou me confortar dizendo que estava acostumado e que iria comigo. Mas isso era naturalmente contra as regras, então fui para a câmara por conta própria.
— Reflita sobre o que você fez.— O Sumo Sacerdote me levou para a sala de arrependimento ao lado da capela e me mandou para dentro. Era uma pequena sala, feita da mesma pedra branca que a capela, e eu podia ver fendas finas no topo, para deixar entrar o ar. Ele também deixou entrar luz, o que fez a sala branca mais brilhante que a maioria. O quarto estava frio, apesar de ser verão, já que até o chão era feito de pedra. Provavelmente seria miserável no inverno, mas não foi tão ruim no verão.
— Irmã Myne, você vai ficar bem?
— Sim, vou ficar bem.
Os rostos preocupados de Fran e Gil desapareceram da vista, depois que a porta de madeira se fechou. Sem ninguém assistindo, não havia ninguém para verificar se eu estava realmente rezando, então eu imediatamente sentei em um canto. O chão frio era muito calmante. Para matar o tempo, decidi tirar a lista de problemas do Benno (que eu tinha escondido furtivamente no bolso da saia) e pensar neles. Eu poderia fazer todas essas coisas de arrependimento quando o Sumo Sacerdote vier me ver.
— Acho que um sistema somente de introdução funcionaria bem para este problema. Mas e esse problema? Sinto que seria meio estranho perguntar ao Sumo Sacerdote se eu posso almoçar e jantar com ele, só para aprender mais sobre comida nobre. Sim. Uaaaah.
Um grande bocejo saiu de mim, enquanto eu olhava para a lista de problemas. Talvez eu ainda não estivesse me sentindo muito bem. Eu estava ficando muito sonolenta do nada. A julgar pelo quão faminta eu estava, provavelmente passou do meio-dia.
Dobrei a lista de problemas, enfiei no meu bolso e deitei no chão. Fechei os olhos e deixei a neblina agradável me dominar, para que eu pudesse me recuperar um pouco, durante um cochilo da tarde.
— Myne, por que você está dormindo quando deveria estar orando? Fran!
— Ah! Irmã Myne?!
Meu corpo esfriou até os ossos, enquanto eu cochilava no chão de pedra fria. Quando o Sumo Sacerdote veio me buscar, eu estava febrilmente presa no chão, incapaz de me mover. Eu podia ouvir Fran embalando sua cabeça e dizendo que ele pediria desculpas à minha mãe, por me deixar ficar doente, novamente, um dia depois que eu voltei para o templo.
— Ela não tinha se recuperado?
— Se eu puder, Sumo Sacerdote. Creio que subestimou a extensão da falta de saúde da Irmã Myne. Eu pedi que você reconsiderasse enviá-la para a câmara de arrependimento.
— Eu vejo. Você não falou pela honra dela, mas pela saúde dela.
Ignorando o aviso de Fran, ele me deixou doente, logo depois que me recuperei da minha última febre. O Sumo Sacerdote considerou que foi sua total responsabilidade, e no final, ele acabou sendo o único arrependido.
Comentários do capítulo 110
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.