Ascendance of a Bookworm — Capítulo 143: CAPÍTULO 143 - 142

Ascendance of a Bookworm
Cap. 143
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Ascendance of a Bookworm

CAPÍTULO 143 - 142

Capítulo 143

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Ascendance of a Bookworm – Capítulo 142

Epílogo

Ferdinando olhou silenciosamente para Myne, que havia adormecido profundamente devido à poção e à ferramenta mágica. Ele pegou o enfeite de cabelo que havia caído de sua mão mole. Era um bastão simples esculpido em madeira, mas apenas Myne amarrava seu cabelo com bastões como esse. Ele pensou no início que era um estilo entre os plebeus, mas mesmo os muitos enfeites de cabelo que ele começou a ver nas cerimônias de batismo foram apenas presos no cabelo. Ninguém prendia o cabelo com eles como Myne fazia com seus bastões.

Myne era uma garota misteriosa. Ela se comportou, em grande parte, como se já tivesse recebido algum tipo de educação de alta qualidade, e ainda assim, raramente pensava nas coisas ou se portava com a devida cautela. Ela falou de um “Melvil Dewey”, que por toda investigação parecia não existir e sabia de um sistema de classificação de documentos que não existia em nenhum outro lugar. Ela inventou tudo o que precisava, uma coisa após a outra. Ela reestruturou o orfanato e deu trabalho às crianças, cujos frutos eram usados para pagar sua comida. Ela amava livros do fundo do coração, a tal ponto que até criava bíblias para crianças.

Sob qualquer ângulo, ela era anormal. Nem mesmo uma criança nobre, estritamente educada, poderia fazer o que Myne havia feito. Suas ações não eram as de uma criança pequena que acabara de terminar seu batismo. Ela sempre foi estranha, embora seus esforços não estivessem focados em uma direção prejudicial.

Se ela tivesse sido alvo de uma leve curiosidade, o Arquiduque não teria emprestado a Ferdinando a ferramenta mágica. No entanto, Myne havia exibido uma quantidade insondável de mana durante o Ritual de Cura mais cedo. Uma criança com Consumação normal nunca poderia encher tanta terra drenada com mana tão rapidamente. Para ser honesto, por mais incrível que fosse, ela tinha mais mana do que o próprio Arquiduque. Era impossível dizer quanta mana ela teria quando fosse mais velha.

Uma garota plebeia com uma quantidade tão temível de mana e o conhecimento de inúmeras invenções, cada uma valendo uma fortuna, inevitavelmente se tornaria a semente de uma guerra entre nobres pela posse dela. Ao declarar que ela estava sob sua custódia, Ferdinando garantiu sua segurança dentro da cidade até certo ponto, mas era apenas uma questão de tempo até que nobres de outras regiões soubessem de sua existência. No momento, ele não podia dizer com certeza se ele poderia protegê-la deles, ou se realmente valia a pena ir tão longe para protegê-la.

Foi exatamente por isso que o Arquiduque lhe disse para usar a ferramenta mágica. Procure em suas memórias para ver a terra dos sonhos de que ela falou, no passado. Julgue seu valor e determine se ela quer machucá-los ou não.

— No mínimo, eu esperaria confirmar que ela não quer fazer mal. — Era simples ver as memórias de um criminoso e confirmar se eles cometeram o crime ou não, mas no caso de Myne, ele teria que determinar a partir de suas memórias o quanto ela valia e quais eram suas intenções futuras. Isso seria extremamente difícil.

— E, acima de tudo, ela não vai me perdoar por isso. — Ele estava usando uma ferramenta mágica para investigar suas memórias. Não havia dúvida de que ela levantaria a guarda contra ele e evitaria a presença dele tanto quando possível.

Na sociedade nobre, onde se tinha que esconder suas emoções e fazer todos os movimentos com o máximo de cautela, para não cair em uma armadilha, não havia ninguém que tivesse seus pensamentos escritos em seu rosto como Myne. Mesmo no templo, Ferdinando tinha que pensar constantemente sobre o quão próximo um indivíduo estava do Arcebispo e o quanto ele podia confiar neles. No entanto, ele não precisava questionar Myne. Embora às vezes fosse uma dor de cabeça, ela deixava seus pensamentos e sentimentos claros, graças à sua natureza transparente. Ele não precisava ficar de guarda ao redor dela, e isso era confortável.

Parece que me afeiçoei inesperadamente a Myne, pensou Ferdinando com um suspiro, antes de colocar em sua cabeça um diadema idêntico ao dela. Ele então se ajoelhou ao lado do banco em que Myne estava e pressionou a pedra preciosa em seu diadema contra o dela. Ele derramou mana suavemente, sincronizando suas mentes. Era normal que o corpo resistisse ferozmente à mana externa e, embora ela tivesse de fato bebido uma poção destinada a facilitar a sincronização, ela não apresentou resistência alguma à sua mana. Isso certamente foi útil para sua missão, mas Ferdinando foi atingido pelo desejo de castigá-la, de dizer a ela para se proteger um pouco e não aceitar os outros tão facilmente. Ele estalou a língua e falou com ela.

— Myne, você pode me ouvir?

— O quê? Posso ouvi-lo, Sumo Sacerdote. Onde você está?— Ferdinando esperava que ela ficasse com medo ou enojada, mas em vez disso ela reagiu normalmente como se nada fosse estranho. Ele mais uma vez lutou contra o desejo de castigá-la.

— Estou sincronizando nossas mentes agora. Você tinha muito mais mana do que eu esperava. Você diz que foi educada no mundo dos sonhos, e agora é necessário para mim, determinar se você pretende trazer dano ou bênçãos sobre esta terra. Perdoe-me, mas estarei investigando suas memórias.

— Ok, tudo bem. Eu não me importo — respondeu Myne casualmente, e ninguém no mundo poderia culpar Ferdinando por cambalear, em descrença. Ela não mostrou nenhuma resistência a alguém que pretendia olhar através de suas memórias.

— Para ser claro, estarei vendo suas memórias reais. Você realmente não se importa? Isso não é uma violação desconfortável de privacidade para você?

— Bem, quero dizer, não parece bom, mas… Você ver minhas memórias é a aposta mais segura para eu permanecer viva. Eu preferiria isso do que ser executada por uma traição inexistente. E quero dizer, você está me fazendo um favor usando essa ferramenta mágica em mim, em vez de apenas me executar, não é? — disse Myne.

Devido à sincronização de suas mentes, Ferdinando percebeu que ela realmente falava sério. Ele deveria elogiá-la por sua sabedoria ou repreendê-la por não ser mais desconfiada? Provavelmente o último, mas o sermão poderia esperar. A sincronização parecia ser bastante cansativa, e quanto mais cedo ele terminasse, melhor.

— Nesse caso, você me levaria ao mundo dos sonhos de que falou? Devemos ser capazes de ir lá se você trouxer lembranças disso.

— Espere, isso significa que posso ir a qualquer lugar que eu quiser?

Por quê?! Por que Myne está tão animada, apesar de suas memórias estarem sendo vasculhadas? Os sentimentos ansiosos de empolgação de Myne foram enviados diretamente para Ferdinando, que não sentia nada além de se preocupar com eles. Isso é ruim. Sinto que isso é muito ruim, de fato. Serei capaz de parar Myne se ela perder o controle? Se eu não fortalecer minha mente, ela pode acabar me arrastando por todas as suas memórias.

— Myne, você precisa me mostrar apenas o que vim ver. Primeiro, mostre-me a fonte de seu conhecimento.

— Sem problemas! Vou começar por te levar à minha amada biblioteca! — Myne respondeu com uma voz brilhante, e de repente Ferdinando estava de pé diante de um grande edifício desconhecido. Ele queria olhar para cima para ver quão alto era, mas ele e Myne estavam compartilhando os mesmos olhos, e o que ele podia ver era limitado por onde Myne estava olhando. O que ele podia ver era uma estrada de pedra lindamente pavimentada, e o que ele podia sentir era o vento suave em sua pele. A julgar pela falta de sujeira e o cheiro resultante, eles não estavam em uma cidade plebeia. O prédio devia estar em algum lugar no bairro dos Nobres.

— Aaah, faz tanto tempo! — A voz de Myne ecoou e, através de seus olhos, Ferdinando viu que eles estavam se movendo para o prédio. Ela estava nostálgica enquanto pulava para dentro do prédio sem qualquer hesitação. Não havia dúvida de que este era o mundo de que ela falava. Uma porta de vidro incrivelmente clara deslizou para o lado com um zumbido, apesar do fato de que ela não havia tocado ou derramado mana nela.

— Myne, a magia existe aqui também? Parece que me lembro de você dizendo que o Sistema Decimal Dewey não tinha uma seção para mana.

— Aaah. Não há mágica aqui. Esta é uma porta automática que opera com base em leis diferentes. — Eles não tinham magia, mas tinham algo que funcionava como magia. Isso foi estranho e intrigante.

— Que país é esse, Myne? Não parece ser nenhum país que eu conheça.

— Chama-se Japão. Eu vivia aqui no passado, até que um dia fui soterrada até a morte por livros. Quando acordei, eu era Myne.

Ferdinando mal conseguia entender o que Myne estava dizendo. Mas ele podia sentir que ela estava falando a verdade sem intenção de esconder nada. Foi a primeira vez que Ferdinando teve dificuldade em entender alguém, precisamente porque eles estavam sendo tão honestos.

— Você morreu, por ter sido soterrada por livros? — A ideia dela ser soterrada até a morte era igualmente difícil para ele acreditar. Ele não conseguia nem imaginar haver livros suficientes para enterrar alguém. Mas, de repente, ele se viu no meio de enormes estantes cheias de livros.

— Onde é isso?

— A biblioteca pública local que eu costumava ir sempre. — Era uma biblioteca onde os livros alinhavam prateleiras até onde os olhos podiam ver. Mesmo a biblioteca da Academia Real não tinha tantos livros. Certamente, com tantos livros, ser soterrada até a morte por eles não seria impossível.

— Estes são todos livros?

— Uhum, isso é uma biblioteca. Oh, mas as bibliotecas começaram a carregar (vídeos), (CDs) e (DVDs) muito recentemente. Estou tão feliz!! É aqui! Este é o paraíso que tenho perseguido!

Ferdinando podia sentir que Myne realmente estava tão feliz que podia chorar. Ela imediatamente passou correndo pelas fileiras de estantes, talvez indo para seu lugar favorito. Havia um tapete macio cobrindo o chão da biblioteca, silenciando seus passos completamente. Ferdinando se sentiu tonto apenas imaginando quanto teria custado para construir esta biblioteca.

Entendi. Já que ela ama livros tanto assim e tem memórias de uma biblioteca tão grande, eu posso entender um pouco por que ela começou a chorar após encontrar a sala dos livros do templo. Parecia que neste mundo os livros eram muito amados, em contraste com seu próprio mundo. Os livros aqui não estavam acorrentados, e Myne estava pegando cada livro que queria ler, cada um feito com desenhos como os que ela havia feito no templo. Havia homens, mulheres, idosos e crianças na biblioteca. Alguns usavam roupas finas que deixavam sua riqueza clara, alguns usavam roupas esfarrapadas que deixavam sua pobreza mais clara. Todas as roupas que ele viu, quando Myne atravessou a biblioteca, eram bastante coloridas, mas mesmo aquelas com roupas esfarrapadas estavam tocando livros. Aos olhos de Ferdinando, era impensável que pessoas pobres pudessem tocar em livros.

— Myne, aquela mulher está fora de si? Mulheres loucas como ela podem tocar em livros?

— Uma louca? Quem?— Myne olhou ao redor do corredor.

— Para a esquerda. Aquela mulher está expondo os joelhos apesar de ser adulta. Ela deve ser muito pobre para pagar por mais pano, mas ela está tingindo suas roupas. Por que ela não para de tingir as roupas? Simplesmente não entendo.

— Neste mundo, as mulheres podem usar saias de qualquer comprimento. Todo mundo está usando as roupas que quer, não se preocupe com isso. Mas ainda assim, este sonho é simplesmente incrível. Eu posso sentir e até cheirar coisas.

Myne, tendo perdido rapidamente o interesse pela mulher, voltou seu olhar para a estante. Os livros alinhados eram semelhantes aos livros de papel que Myne havia feito, mas eram mais bonitos e em quantidades maiores do que Ferdinando poderia ter imaginado.

Myne, após olhar deliberadamente de uma extremidade da estante para a outra, tirou um livro da prateleira. Após abraçá-lo com força, ela começou a inalar seu cheiro. Devido à sincronização de suas mentes, Ferdinando também sentiu o cheiro de papel e tinta enquanto a satisfação de Myne era forçada a ele. Ele queria terminar a sincronização bem aqui.

Myne sentou-se ansiosamente em uma cadeira confortável no final da estante e começou a ler. Não era apenas uma tábua com um lençol pendurado sobre ela. A cadeira era realmente macia e extremamente agradável de se sentar. Ferdinando não havia sentido nada parecido antes.

Ainda assim, a visão de Myne só o deixou ver o livro, o chão e uma estante. Ele podia ver as páginas abertas, mas estavam cheias de letras bem colocadas que ele não conseguia reconhecer. O livro provavelmente havia sido impresso da maneira que Myne discutiu anteriormente. Era preto e branco, como o dela.

— Os livros em seu mundo dos sonhos não têm ilustrações?

— O quê? Huh? Quem é. Ah, certo. É só você, Sumo Sacerdote. — Myne soltou um barulho de surpresa depois que Ferdinando falou com ela.

Isso é inacreditável. Ela está completamente absorvida em seu próprio mundo, apesar de eu estar assistindo.

— Hummm, ilustrações, certo? Se você quiser ver ilustrações, há (livros de arte) e (álbuns de fotos) aqui também. — Myne tirou um grande livro cheio de fotos coloridas. As ilustrações eram tão coloridas e detalhadas que era difícil de acreditar. Ferdinando ficou extasiado com seu brilho, mas Myne fechou o livro em um piscar de olhos.

— Posso continuar lendo agora, Sumo Sacerdote?

— Não, você não pode. Este é um livro ilustrado para crianças, como o que você fez?

— Este é um (livro de arte), uma coleção de arte desenhada por uma pessoa famosa. O canto das crianças é por aqui, — disse Myne enquanto voltava a andar pela biblioteca.

— Este é um livro ilustrado, e é o que Cinderela realmente deveria ser. — Comparando a arte do livro ilustrado com a história que Myne lhe trouxe, apenas confundiu mais Ferdinando. Nenhum humano no mundo tinha olhos que dominassem a maior parte de seu rosto, nem se vestiria dessa maneira e com cabelos arrumados assim. Ou, bem, talvez um humano como esse existisse neste mundo.

— A história parece ainda mais cômica agora que tem arte anexada, mas independentemente. Até mesmo este livro tem cores bastante vivas. Você também precisa colocar cor em seus livros.

— Eu gostaria, você sabe. É que a tinta é tão cara. Estou tentando fazer isso, mas não é fácil. Gostaria de poder comprar todas as coisas que preciso aqui, — disse Myne, e de repente eles se teletransportaram para um lugar onde coisas estranhas estavam alinhadas nas prateleiras. Não livros desta vez, mas estranhamente em linha. Coisas cobertas de letras e várias cores.

— Ah, agora estamos em uma loja de artesanato. Sumo Sacerdote, se eu comprar coisas aqui, posso levá-las comigo quando acordar?

— Claro que não, tola. Onde estamos?

— Uma loja de artes e ofícios que minha mãe costumava me levar. Isso é tinta. — Seja livros ou tinta, o mundo de Myne estava transbordando de todo tipo de coisas. A quantidade e a qualidade eram enormes. Ele só sabia o que tinha visto através de Myne, mas a riqueza da cultura em seu mundo era suficiente para fazer sua mente ficar tonta.

— Certamente há uma grande variedade de tintas disponíveis.

— Uhum. Tem todo tipo de coisa aqui. Embora eu goste mais de livrarias do que de lojas de artesanato. — No segundo em que Myne disse isso, eles mudaram de local mais uma vez. Parecia que os pensamentos de Myne eram tão erráticos quanto seu comportamento. Ou melhor, seria seguro dizer que seu comportamento era errático porque seus pensamentos eram.

— Onde é isso? — Era um lugar com prateleiras cheias de livros, assim como a biblioteca. Mas, ao contrário da biblioteca, música alta estava tocando, e era tão brilhante que fez Ferdinando querer apertar os olhos.

— Uma loja que vende livros novos. Eheheh, hora de verificar os novos lançamentos. Espere, nãooooo! Eu só posso ver aqueles que eu me lembro! — Myne gritou algo incompreensível e ficou deprimida do nada. Ser forçado a experimentar os altos e baixos rápidos de suas emoções era exaustivo. Talvez ela tenha desmaiado com tanta frequência devido à intensidade de suas mudanças de humor.

— Myne, por que é tão brilhante, apesar de estarmos dentro de um prédio?

— Ah, isso é por causa da (eletricidade). — Myne olhou para cima e, acima do mar de estantes de livros, havia uma fileira de pequenos sóis, emitindo luz branca, brilhante.

— Como essas coisas funcionam?

— Umm, eles se ligam assim que você liga um (interruptor de luz). Mas assim como eu não entenderia uma explicação sobre magia, você não entenderia uma explicação de como funciona sem fazer muita pesquisa primeiro.

Os olhos de Myne mais uma vez se fixaram na estante. Se ela não olhasse em volta, ele só seria capaz de ver livros. Ele podia ver coisas interessantes e desconhecidas pelos cantos dos olhos dela, mas ela não fez nenhum movimento para olhar para elas. Sua sincronização dificilmente provava ser frutífera.

— Myne, está na hora de você parar de olhar para os livros.

— Aaah, mas por quê? Eu só quero ver livros. Eu não posso ter sonhos tão realistas por conta própria. — Myne não estava nada além de insatisfeita. Ela realmente só tinha olhos para livros.

Ferdinando nunca teria pensado que espiar suas memórias não lhe mostraria nada além de livros. Se ele não a forçasse a pensar em outra coisa, essa jornada terminaria com nada além de mais conhecimento sobre os livros de seu mundo.

— Myne, você se lembra por que estou aqui?

— Eu gostaria de esquecer, mas… Tudo bem. O que você quer ver? — Myne soltou um suspiro extremamente pesado. Ferdinando pensou sobre isso, depois perguntou sobre o que ele estava pessoalmente mais curioso.

— Muito bem. Eu gostaria de ver o lugar onde você foi educada.

Seus arredores mudaram em um instante. Eles estavam numa sala um pouco pequena, com mesas alinhadas de canto a canto, cada uma com pessoas vestidas de forma idêntica sentadas e escrevendo. No topo das pequenas mesas havia livros com letras e símbolos estranhos, pacotes de papel lindamente fino e caixas de metal com vários paus coloridos dentro. As pessoas ocasionalmente olhavam para cima enquanto escreviam letras com os bastões, usando-os como canetas. Na frente da sala havia um adulto, escrevendo algo em uma grande lousa enquanto provavelmente explicava o que ele estava escrevendo. Deve ter sido o professor do prédio da escola.

— Myne, o que está acontecendo aqui?

— Estamos sentados na aula. Essa é uma lembrança do (ensino médio), eu acho? É aula de matemática. Estar aqui de novo é nostálgico, mas eu nunca gostei de matemática. Eu gostava mais da aula de japonês, eu acho. — Seus arredores mudaram novamente. Eles estavam na mesma sala, mas agora uma mulher um pouco mais velha estava andando pela sala enquanto lia um livro.

— Todo mundo no país aprende em um lugar como este. Começamos antes da idade do batismo e continuamos indo para a idade adulta. — O quarto mudou várias vezes enquanto ela falava. Cada sala era semelhante, com os alunos estudando, mas sua idade e o instrutor os ensinando mudavam a cada vez. Eles realmente aprendiam desde a infância até a idade adulta.

— Você não faz nada além de estudar?

— Humm, há muitos assuntos que estudamos. Alguns são mais práticos. — Seu ambiente mudou rapidamente. Eles estavam do lado de fora, onde estudantes vestidos de forma idêntica corriam em torno de uma pista. Um homem quase nu mergulhava na água. Um grupo de alunos estava tocando uma música que ele nunca tinha ouvido antes, em flautas estranhas.

— Então você também recebeu treinamento musical.

— Isso mesmo. Embora as escolas não vão muito longe com música. A música que toquei no Fespiel não foi realmente uma que eu mesma fiz, foi uma música que aprendi aqui.

Agora Ferdinando sabia por que ela podia tocar uma música no primeiro Fespiel que tocou. Os talentos excepcionais de Myne foram graças ao conhecimento deste mundo e à educação rigorosa que ela recebeu aqui. Fazia sentido que ela fosse completamente diferente dos plebeus normais.

— O programa educacional do país foi implementado pelo governo, para que todos saibam ler e fazer matemática. Quero introduzir esse tipo de educação no orfanato para que todos possam aprender a ler, escrever e fazer matemática simples.

— Com que propósito? — Ferdinando não conseguia entender o objetivo de ensinar todos a ler. Myne respondeu à sua confusão sem perder uma batida.

— Quanto mais pessoas sabem ler, mais pessoas há para ler livros. Sem mencionar que as pessoas precisam saber ler para escrever livros em primeiro lugar. Se eu quiser desfrutar de uma vida de leitura de livros em seu mundo, precisarei começar ensinando as pessoas a ler.

Até agora, Ferdinando tinha até certo ponto questionado se havia algum lado obscuro em suas ações, algum plano que a levava adiante, mas agora que estavam sincronizados, ele sabia, com certeza, que ela era totalmente dedicada a ler livros com nada mais do que isso. De certa forma, isso era um alívio, mas de outra forma, fazia sua cabeça doer. De qualquer forma, muitas de suas dúvidas e perguntas foram respondidas vendo suas memórias.

— Pensei que você tivesse aprendido suas letras excepcionalmente rápido, mas vejo agora que é porque você está acostumada a aprender.

— Acostumada a aprender? Bem, suponho que sim. Nunca pensei nisso assim, mas estudei a vida toda. Além disso, eu queria tanto ler livros que corri para aprender as letras.

Ferdinando absorveu cada centímetro do que podia ver. Os alunos estavam todos estudando juntos, organizados e usando as mesmas roupas. O prédio estava limpo, sem qualquer sujeira visível em qualquer lugar.

— Myne, este prédio é muito bonito.

— Isso porque foi construído recentemente. Mas o que é realmente grande sobre esta escola é que ela tem a maior biblioteca de todas as escolas próximas. É por isso que me candidatei para estudar aqui. — Seus arredores se transformaram em uma biblioteca mais uma vez. Era sem dúvida a biblioteca da escola de que ela estava falando tão alegremente. Havia muitos livros antigos aqui, como é evidente pelo cheiro característico de poeira no ar. Myne estava alegremente inalando tudo. Ferdinando estava bastante cansado de cheirar livros a essa altura.

— Myne, chega de bibliotecas. Leve-me para fora. — Seus arredores se transformaram em um jardim tranquilo e arejado. Havia pavimento de pedra, jardins gramados e canteiros de flores ao lado de árvores alinhadas.

— Isso é dentro de um Bairro dos Nobres?

— Mmm, não exatamente, mas algo assim. Acho que todo o Japão é mais parecido com o Bairro dos Nobres do que a cidade baixa. Afinal, há coisas como ferramentas mágicas por todo o país. — A ideia de um mundo tendo coisas como ferramentas mágicas, sem ter magia em si, intrigou Ferdinando.

— Oh? Tipo qual?

— Bem. Aqui estão nossos veículos, por exemplo. — Myne olhou para cima e apontou para uma coisa branca no céu. Estava voando alto no céu enquanto fazia um barulho incrivelmente alto. Ela então se virou para o lado, olhando para pedaços de metal correndo ao longo de estradas próximas uma da outra.

— O que é isso? Deve ser preciso bastante mana para mover tanto metal em velocidades tão altas.

— Como eu disse, essas não são ferramentas mágicas usando mana. Eles usam outra coisa. Honestamente, gemas mudando de forma com mana e se movendo é muito mais estranho do que isso. — Agora que ela mencionou isso, pedras mágicas mudando de forma e se movendo certamente pareceriam estranhas para Myne se ela não tivesse conhecimento prévio de magia. Ela reagiu com constante surpresa quando eles estavam viajando com a Ordem dos Cavaleiros.

— Que outros dispositivos existem aqui?

— Mmm, eu acho que a maioria (eletrônica) estará em uma casa? — murmurou Myne, e então eles ficaram dentro de um prédio.

Um fino pano de renda cobria as janelas. Usando um padrão de renda elaborada para meras cortinas, indicava que eles estavam na casa de um nobre superior. Havia uma luz fraca fluindo através das cortinas, mas também havia uma chamada “lâmpada” iluminando a sala. Havia um sofá de couro, e na frente dele havia um retângulo preto alto, em cima de um armário curto.

O batimento cardíaco de Myne disparou rápido. Um suor frio escorria por suas costas e o sangue escorria de seu rosto. O coração de Myne estava envolto em estresse, ansiedade e medo. No entanto, no fundo, também havia felicidade e nostalgia, inchando juntos em antecipação. Sua tempestade de emoções atingiu Ferdinando com tanta força que sua cabeça girou.

— O que há de errado, Myne? Aconteceu alguma coisa?

— Esta é a sala de estar da minha casa. É tão nostálgico que dói. — Myne falou com uma voz rouca enquanto segurava o peito. Ferdinando percebeu que ela estava perto de chorar.

Ele ignorou principalmente a primeira vez que ela disse isso, já que sua atenção estava tão focada em livros, mas Myne disse que ela se tornou Myne em seu mundo após morrer aqui. Nesse caso, fazia sentido que voltar para sua antiga casa fosse emocional. No entanto, ele não podia se permitir ser arrastado para sempre pelas emoções de Myne.

Ferdinando tossiu para se concentrar, depois falou com Myne. — Essa prateleira tem um monte de coisas nela. O que elas são?

— Essas são as artes e artesanatos da minha mãe. Ela é curiosa sobre tudo, mas desiste rapidamente, então sempre fazia um ou dois de algo e começava a correr para a próxima coisa. Embora ela nunca se tornasse boa o suficiente para fazer algo grande sem praticar mais.

Foi o que ela disse, mas Myne amorosamente estendeu a mão para tocá-los de uma maneira que desmentia suas palavras desdenhosas. Este é um (porta-copos) feito de renda e este é um enfeite de cabelo. A Companhia Gilberta está atualmente vendendo esses enfeites de cabelo como seus produtos, agora. O enfeite de cabelo extravagante que fiz foi baseado neste estilo.

Ferdinando lembrou-se do enfeite de cabelo que Myne usava quando ajudava a Ordem dos Cavaleiros. O dela era de melhor qualidade, mas lembrava o enfeite de cabelo na prateleira.

— Essas cestas foram tecidas de (panfletos de anúncios) que foram enrolados em varetas. A experiência de fazê-las realmente vieram a calhar quando fiz cestas para trabalhos manuais de inverno. Fiz a bolsa que sempre carrego da mesma maneira. Mas mamãe ficou entediada no meio do caminho, então tive que terminar. — Myne apontou para a cesta com os lábios franzidos.

— São roupas de boneca e bichos de pelúcia, embora eu saiba que todos parecem muito ruins. A branca e redonda era para ser um (boneco de neve), mas ela só terminou a cabeça. Aqui está uma toalha em (ponto-cruz) que ela nunca terminou, uma tapeçaria (de retalhos).

A cesta disforme parecia ser um armazenamento para todos os tipos de coisas inacabadas, que Myne tirou uma a uma enquanto pensava no passado. Seus arredores mudavam a cada coisa, levando-nos através do tempo e pelos lugares onde uma mulher de cabelos negros estava encorajando Myne a fazer algo ou desistindo de algo. Essa mulher de cabelos pretos era provavelmente a mãe anterior de Myne.

— Essa peça é do mesmo tipo — disse Myne ao sair da sala e entrar em um corredor estreito. Ela tocou alguma coisa retangular, e, de repente, o corredor se iluminou.

— Mas quê?

— Oh, isso é (eletricidade). É a mesma coisa que você viu na livraria. — Myne olhou para cima e apontou para uma luz branca, muito menor do que aquela que tinha visto antes. Algo semelhante à mana deve ter percorrido o retângulo.

O salão, agora brilhante, tinha muitas obras de arte penduradas nas paredes. Cada uma foi feita desajeitadamente, era o suficiente para que Ferdinando pudesse concordar com Myne, chamando sua mãe de não muito hábil.

— Eles estão por toda parte, não estão? Tem (aquarela), (pinturas a óleo) e uma (nihonga) que ela fez após dizer que as outras pinturas não eram boas por causa dos materiais. Ela acabou tentando simplificar com (lápis de cor), mas acabou desistindo da arte. Ela foi para (caligrafia), em seguida, pois achava que apenas letras seriam administráveis. Ela me levou com ela para cerimônias do chá e arranjos de flores, dizendo que eu precisaria da experiência para quando me tornasse uma noiva. Embora ela sempre desistisse primeiro e parasse de ir às aulas.

Myne riu e enxugou as lágrimas debaixo de seus olhos. Ferdinando podia sentir a nostalgia indescritível e o amor transbordando em seu peito. Eram sentimentos que ele, tendo sido afastado de sua família, como foi, não conhecia por ele mesmo.

— Houve um tempo em que tentávamos fazer tudo sozinhas, para economizar dinheiro e estar mais em sintonia com a natureza. Ela me envolveu tanto que eu às vezes desejava que ela me deixasse em paz, mas, é graças a ela me arrastando nessas coisas que posso viver como Myne agora.

Segundo ela, primeiro ela fez o Limxam, o sabão, a cola de couro, a tinta e assim por diante, aqui. Lágrimas brotaram em seus olhos enquanto ela falava, distorcendo sua visão.

— Me desculpe, Sumo Sacerdote. Faz tanto tempo. — Myne colocou a mão sob os olhos enquanto entrava em uma pequena sala. Ela pegou um pedaço de pano macio e fofo e ficou na frente de uma tigela de porcelana enterrada em um armário com uma haste de metal saindo dela. Ela então agarrou uma alça arredondada, presa na haste de metal e a torceu.

— O quê?! Água?!— A água saiu com força da haste de metal. Myne lavou o rosto e o secou com o pano macio. Parecia que o pano macio era usado da mesma forma que as toalhas.

— O pano certamente é agradável ao toque. Se pudéssemos trazê-lo de volta.

— Myne, que tipo de quarto é esse?

— É um (banheiro). A banheira está ali. A coisa longa parecida com uma cobra é um (chuveiro). — No segundo que Myne disse isso, eles estavam dentro da banheira, agora cheia de água perfumada. Relances de pele nua apareciam acima da água quente branca leitosa, enquanto ela alegremente jogava a água em si mesma, sem levar em consideração como Ferdinando poderia se sentir sobre isso.

— Uau! Um banho! (Sais de banho) cheiram tão bem. Eu adorava esse cheiro (de pêssego).

— Você não tem vergonha, idiota?! Para onde foi seu coração casto, de mulher, de dama decente?! — gritou Ferdinando, incapaz de desviar o olhar, devido à sincronização de suas mentes. Mas Myne apenas deu de ombros, enquanto alegremente lavava o rosto na água quente.

— Não se preocupe, eu não me importo. Joguei fora toda a minha vergonha no terceiro dia de vida como Myne. Você também não precisa se preocupar com isso. Sou uma criança, não há nada embaraçoso nisso.

Durante seus três primeiros dias vivendo como Myne, ela foi trocada à força por um homem que ela ainda não havia aceitado como seu pai. Não importa o quanto ela gritasse ou chorasse de vergonha, nada mudou. Ela teve que aceitar sua situação, e esse foi o dia em que seu sentimento de vergonha morreu.

— Eu não sou seu pai!

— Nem ele era, naquela época. Por que você se importa, Sumo Sacerdote? Certamente você não pensaria em nada com uma garotinha como eu. Isso não é um problema. — Foi o que ela disse, mas havia uma grande diferença entre Ferdinando não pensar no corpo dela e ela tomar banho na frente dele sem nenhuma preocupação no mundo. Ele não esperava que ela não tivesse tão pouca-vergonha quanto lhe faltava cautela.

— Eu me preocupo mais com sua falta de vergonha do que qualquer outra coisa!

— Tenho certeza de que recuperarei meu senso de vergonha quando for mais velha. Certamente.

Myne saiu da banheira e começou a lavar o cabelo enquanto cantarolava. Ela estava envolta em bolhas de cheiro forte.

— Aaah, quantas bolhas! Eu amo isso! Essa sensação é tão boa! — Myne pegou o que ela chamou de chuveiro, enquanto tremia de felicidade e satisfação. Ela puxou dessa maneira e a água espirrou como chuva.

— Wow?!

— Isso vai lavar as bolhas. — Myne usou o chuveiro para lavar as bolhas do cabelo. Ferdinando achou curioso que ela tomasse banho sem assistentes, mas agora ele sabia que não precisava de assistentes para se limpar aqui.

— Não importa o quanto você lave aqui, não vai mudar nada na realidade.

— Isso definitivamente vai melhorar meu humor, no entanto. Tralalaaaa. — Após terminar o cabelo, Myne lavou seu corpo com sabonete que cheirava a mel. Sua textura, cheiro e produção de bolhas pareciam superar até mesmo o sabonete usado pela realeza.

Ao terminar de limpar seu corpo e lavar tudo com água, o coração de Myne se encheu de total satisfação.

— Você parece estar bastante satisfeita, Myne, mas eu gostaria de seguir agora.

Seus arredores se transformaram de tal forma, que eles estavam na frente da mesma banheira branca de antes. Myne pegou algo incomum de uma prateleira próxima. Era azul e brilhante, mas Ferdinando não conseguiu determinar do que era feito. Não era feito de metal, o que não deixava nada em que pudesse pensar. Myne moveu o dedo e de repente isso começou a fazer um zumbido alto e grave. Ar quente o suficiente para queimar a pele soprou ao mesmo tempo.

— O que no mundo é isso?

— Um secador de cabelo.

O banheiro continha até um espelho caro. Parecia que Myne era filha de um nobre de classe mais alta do que ele esperava.

— Sumo Sacerdote, esta é uma presilha de cabelo (de borracha), e ela prende o cabelo assim.— Myne, tendo em algum momento afastado a coisa barulhenta chamada de secador, começou, de alguma forma, a esticar e encolher um elástico de cabelo de “borracha”. — Você conhece alguma coisa que possa esticar e encolher assim?

— Nada perto de Ehrenfest. Parece que me lembro que a casca de gumka parecia semelhante a isso.

— Mas existe?! Onde?! Quanto custará importar? — Sua linha de pensamento era a própria imagem de um comerciante.

Ferdinando, vendo Myne tentando inventar um novo produto em tempo real, soltou um suspiro. Ela estava, sem dúvida, inventando tantas coisas novas, enquanto tentava reproduzir o que ela conhecia deste mundo. Era fácil imaginar o quanto ela teve que lutar apenas para encontrar os materiais adequados.

— Infelizmente, gumkas estão localizados muito ao norte e, como são uma árvore monstro, devem ser derrotados em combate para adquirir sua casca. Eles contêm mana como trombes, embora sejam combatidos com métodos diferentes.

— Trombes, aah. — disse Myne tristemente enquanto ela frouxamente embrulhava seu longo cabelo cor de céu noturno. Ferdinando estava tão acostumado a ela amarrar o cabelo com um palito, que o elástico de cabelo parecia errado para ele.

— Você não usará um palito de cabelo?

— Aaah, só fiz um palito de cabelo porque não tinha outra opção. Eu não usaria um grampo de cabelo aqui a menos que estivesse usando um vestido japonês formal. Humm, acho que seria na Cerimônia da Maioridade aqui?

Myne procurou em suas memórias, e seus arredores mudaram para o meio de um dia de neve com vento frio soprando. Havia uma grande multidão de jovens vestindo roupas de cores berrantes que Ferdinando não tinha visto antes. Já que ela chamou isso de Cerimônia da Maioridade, ele poderia adivinhar que isso era algo semelhante à cerimônia de formatura da Academia Real. A julgar pela beleza das roupas e pelo comprimento das mangas e bainhas, esta era, sem dúvida, uma reunião de nobres.

— O bordado que usei para minhas vestes cerimoniais foi, na verdade, baseado em um padrão comum de roupas aqui, conhecido como (estilo em fluxo d’água).

— Ah, eu vejo. Parece familiar. — Uma mulher próxima, usando um enfeite de cabelo muito mais chique do que o enfeite de cabelo de Myne, estava em um vestido vermelho, com padrão de fluxo d’água e flores semelhantes as que estava nas vestes cerimoniais de Myne.

— Myne, isso é bordado?

— Humm, partes de um quimono de manga comprida podem ser bordados, mas não é comum que todo o desenho seja bordado. Com a impressão (estampada), podemos desenhar diretamente no tecido.

— Diretamente no tecido? Mas como? — Ferdinando só podia imaginar os pigmentos se infiltrando no tecido e estragando os dois.

— Isso também não existe no Bairro dos Nobres?

Mudamos as cores da linha ao costurar e bordar, mas não conheço nada que seja desenhado diretamente no tecido.

— Oooh, interessante. Benno deve ganhar um bom dinheiro com isso, então.— Myne riu, sua mente já cheia de cálculos de lucro.

— Entendo. Você vale tanto quanto o conhecimento que trouxe daqui.

— A maioria das coisas que fiz são coisas que minha mãe me ensinou. — Myne riu quando voltou para o corredor e abriu uma porta diferente. Dentro havia uma estranha sala cheia de coisas que Ferdinando nunca tinha visto antes.

— Esta é a nossa cozinha. Cozinhamos e comemos aqui. Isto é um (fogão a gás). Tudo o que você precisa fazer é pressionar aqui e o fogo aparece. Conveniente, certo? — Myne pressionou um quadrado com um desenho estranho e o fogo apareceu com um estalo. A chama azul ondulou no lugar. Parecia que o fogo neste mundo era azul. Mas o mais estranho de tudo foi que o fogo não desapareceu depois que Myne puxou a mão para trás. Era fácil iniciar um fogo com magia, mas para mantê-lo queimando, você precisaria de madeira ou uma grande quantidade de mana.

Quando Ferdinando, metaforicamente, arregalou os olhos de surpresa com o fogo sendo aceso, sem lenha ou mana, Myne apertou o botão novamente. Isso fez com que o fogo desaparecesse instantaneamente, como se nunca tivesse existido.

— Myne, o que é essa caixa branca grande?

— Isso é uma (geladeira). Ele mantém a comida dentro dela fria, para não estragar tão rápido. — Myne abriu a porta e o ar frio veio fluindo para fora. Ferdinando não conseguia reconhecer nenhuma das coisas coloridas lá dentro, mas como ele estava familiarizado com o princípio de preservar a comida no frio, a geladeira não o surpreendeu tanto quanto o fogão a gás. Foi realmente apenas o pequeno tamanho da geladeira que o impressionou.

— Aaah, uma casa de gelo.

— Espere, você tem uma (geladeira)?

— Você não sabia? O templo tem uma casa de gelo maior que esta sala. Fran deve usá-la com frequência.

— Achei estranho que você sempre tivesse mais tipos de leite sempre que os visitantes vinham, mas nunca pensei que fosse vindo de uma (geladeira). Se eu soubesse… — disse Myne, ficando descaradamente deprimida. — Eu poderia ter feito mais tipos de comida.

Ferdinando tinha ouvido falar sobre que comida Myne comia, de Fran, e embora ele não entendesse a maior parte apenas pela descrição, ele lembrou haver uma grande variedade. Ela pretendia introduzir ainda mais variedade?

— Ouvi dizer que muitos tipos diferentes de comida são servidos em seus aposentos. Essas são todas comidas daqui também?

— Isso mesmo. Tenho tentado recriar a comida ocidental daqui o máximo possível. Oh, eu me pergunto se a comida aqui vai ser tão boa quanto eu me lembro?! Devo tentar? Eu sinto que estou com fome.

A excitação de Myne disparou e ela olhou ao seu redor. Então, ela se lembrou de algo, e seus arredores mudaram novamente. Eles estavam na mesma sala, mas eles estavam de frente para uma direção diferente, e havia barulho atrás deles.

— Apresse-se e coma, se estiver com fome. Eu não posso limpar até que você termine, lembra? — De repente ouviram uma mulher chamar por trás deles. O coração da Myne saltou e ela congelou, indo ainda como um bloco de pedra. O fato de que o tom da mulher parecia suave, apesar de sua punição, foi provavelmente devido ao estado emocional de Myne.

Myne se virou, apertando um punho tremendo firmemente, e ambos viram uma mulher de cabelos negros colocando pratos em uma mesa, a mesma mulher de cabelos negros que estava aparecendo nas memórias de Myne.

— Mãe.

— Eu fiz o seu favorito está noite. Você deve comê-lo antes que esfrie.

Myne deu um pequeno aceno e foi para a mesa, que era grande o suficiente para quatro pessoas sentarem. A cozinha não tinha uma mesa assim momentos atrás, mas as memórias de Myne estavam reproduzindo a mesa e uma refeição completa em cima dela. A comida era tão nostálgica que os olhos de Myne se molharam só de olhar para ela, mas Ferdinando não reconhecia nada. Era principalmente preto e marrom, nada que parecia saboroso para ele.

— Isso é realmente comida, Myne?

— Sim. É tudo o que eu queria comer. Há (arroz) branco fresco, há (sopa de missô) com (tofu) e (algas de wakame), guarnecido com abundância de (cebolinhas). Tem (teriyaki) amarelo, e a carne da minha mãe e guisado de batata com (hijiki). Há também os (legumes em conserva) da minha mãe. — Myne inalou profundamente, para desfrutar do sabor completo da comida de sua casa, em seguida, calmamente, apertou as mãos com olhos molhados. Ela então baixou a cabeça com reverência.

— Estou em casa. — Essa frase curta era tudo o que era preciso para o coração de Myne ser preenchido com tanto calor e gratidão que doía. No momento em que ela habilmente usou dois pauzinhos, de ponta vermelha, para trazer um pouco de comida para sua boca, lágrimas escaparam de seus olhos e derramaram por suas bochechas.

— Aah. Realmente tem gosto de comida da mamãe.— Myne mastigou lentamente, apreciando o sabor do começo ao fim. O sabor suave encheu a boca de canto a canto. A comida era melhor do que qualquer coisa que Ferdinando já teve, com uma tempestade de sentimentos batendo de frente com ele: nostalgia pela comida de uma mãe, felicidade de comê-la novamente, tristeza por ser apenas um sonho.

— Tem um sabor ótimo, mamãe.

— Oh meus Deuses, não é sempre que você elogia minha comida. Há um livro que você quer ou algo assim? — A mulher estava comendo na frente de Myne, e após ampliar os olhos de surpresa, com o elogio de sua filha, ela riu. Seus olhos tinham o mesmo amor transbordante e protetor que estava lá quando ela estava arrastando Myne com ela para fazer artes e artesanato.

— Há um monte de livros que quero, mas não é isso. A comida só, realmente, é tão boa. — Myne limpou o prato dela, não deixando nada para trás. Ela então apertou as mãos e mais uma vez disse “Obrigado pela comida”, com uma cabeça reverentemente inclinada.

Depois de finalmente levantar a cabeça, Myne olhou para a mãe nos olhos. — Me desculpe mamãe.— A mãe de Myne olhou para cima e, com grandes lágrimas caindo de seus olhos, Myne inclinou a cabeça novamente. — Sinto muito por morrer antes de você. Sinto muito por ser tão burra, que só notei o quanto me amava depois que morri. Você cuidou tão bem de mim, sempre me deixou fazer o que eu queria fazer, mas morri antes que eu pudesse te pagar de volta. Sinto muito.

O arrependimento, a vergonha e a nostalgia no coração de Myne atingiram Ferdinando com força, com seu amor por sua família, principalmente, o sobrecarregando. A tempestade de emoções era demais para ele, e, incapaz de suportar a sincronização por mais tempo, ele cortou sua conexão.

Ferdinando, que estava inclinado sobre Myne o tempo todo, levantou-se e deu alguns passos para trás antes de cair de joelhos e balançar a cabeça.

— Eu nunca me senti tão mal. — Ele tinha sincronizado demais com Myne. Mesmo ele tinha começado a chorar, embora as emoções não fossem dele. Myne acordaria logo, agora que a sincronização tinha terminado. Ferdinando rapidamente limpou os olhos com a manga. Ele podia ver lágrimas escorrendo dos olhos de Myne também, apesar do fato de que eles ainda estavam fechados.

Os cílios de Myne tremularam, e lentamente ela abriu os olhos. Após piscar várias vezes, ela cautelosamente levantou a cabeça e olhou para Ferdinando.

— Oh, Sumo Sacerdote. Bom dia. — Myne levantou-se enquanto ainda limpava as lágrimas com a manga. Enquanto estava sentada no banco, ela estava no nível dos olhos de Ferdinando, de joelhos. Ela deu um sorriso feliz, seus olhos dourados ainda trêmulos e molhados.

— Sumo Sacerdote, obrigada por me mostrar minhas memórias. Acho que elas estavam ficando cada vez mais embaçadas, quanto mais eu vivia aqui. — Suas memórias enterradas foram desenterradas tão claramente, graças ao poder da mana, mas a maioria das pessoas tinha suas memórias enterradas após meses e anos de vida. Era natural que a memória de Myne desaparecesse.

— Nunca pensei que seria capaz de comer a comida da minha mãe de novo, e, embora isso estivesse na minha cabeça, nunca pensei que teria a oportunidade de me desculpar com ela. Estou tão, tão aliviada.

Apesar de Myne agradecê-lo diretamente, Ferdinando não foi capaz de encontrar a resposta adequada. Ele não conseguia pensar no que seria melhor dizer. A tempestade de emoções de Myne ainda permanecia dentro dele, e talvez ele temesse dizer algo que não veio de seu próprio coração.

— Hum, você talvez sentisse tudo o que senti, já que nossas mentes estavam sincronizadas?

— Claro que sim, mas não se culpe. É assim que a ferramenta funciona.— Ferdinando suspirou, e Myne levantou-se.

— Eu vou te dar um grande abraço, Sumo Sacerdote.

— O quê? Eu não estou entendendo. O que é um grande abraço? — Ferdinando endureceu, sem saber o que estava prestes a acontecer.

— Este é um grande abraço. Abraaaaaaaço— , disse Myne, envolvendo os braços em volta do pescoço dele. — Sempre que tenho sonhos que me deixam muito emocionada, me acalmo fazendo Tuuli me abraçar assim. Eu tenho Lutz e minha família, mas você não tem ninguém para abraçá-lo assim, não é?

A voz orgulhosa de Myne soou no ouvido de Ferdinando, enquanto ele congelava de surpresa. Teria sido fácil empurrá-la e dizer que ele não precisava de sua simpatia, mas, por alguma razão, ele não sentiu o desejo disso. A tempestade de emoções certamente o cansou.

Myne provavelmente estava se sentindo tão exausta quanto ele estava. Ele podia ouvi-la respirar pesado e se acalmar, enquanto ela se agarrava a ele. Uma vez calma o suficiente, ela soltou um suspiro e soltou o aperto de seus braços em torno de seu pescoço.

— Sumo Sacerdote, por favor, use isso em mim novamente. Eu quero ler esses livros e comer (comida japonesa) novamente.

— Recuso absolutamente. Sincronizar com você foi além de exaustivo. — Desta vez, Ferdinando soltou Myne dele. Ele levantou e tirou a ferramenta mágica de sua cabeça. Ele não tinha intenção de sincronizar novamente com alguém com uma gama tão exaustiva de emoções.

Mas Myne se recusou a tirar seu diadema, e disse: — Eu não vou devolvê-lo até que você prometa sincronizar comigo novamente, — antes de se ajoelhar e cobrir o diadema com as mãos, enquanto Ferdinando piscava, em descrença.

Agora, então, como devo explicar essa idiota ao Arquiduque? Ela era tão obcecada por livros que pensamentos de crime e delitos nem sequer entraram em sua cabeça. Ela também não tinha bom senso, senso de vergonha e a cautela necessária para se proteger. Se não fosse atendida, era impossível dizer o que ela poderia fazer.

Mas ela tinha uma enorme quantidade de mana, mais do que o próprio Arquiduque, e conhecimento de um mundo com uma cultura incrivelmente avançada. O valor disso era incalculável. Se eles a usassem bem, como Benno tinha feito, ela sem dúvida traria enorme fortuna para a Ehrenfest. No mínimo, eles não podiam se dar ao luxo de perdê-la para mais ninguém. Ela precisaria de alguém para cuidar dela e guiá-la na direção certa.

— Sim, ela vai precisar ser trancada. Livros serão a isca.

— Oh? Então você vai sincronizar comigo novamente?

Ela simplesmente escolheu me interpretar mal, ou ela não entende a realidade? — Ferdinando, olhando friamente para Myne, enquanto ela sorria alegremente para ele, arrancou o diadema de sua cabeça.

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Fim da leitura

Capítulo 143 concluído

CAPÍTULO 143 - 142