Ascendance of a BookwormCAPÍTULO 148 - 147
Capítulo 148Ascendance of a Bookworm – Capítulo 147
Guilda de Impressão
O Sumo Sacerdote usou uma ferramenta mágica para olhar para as memórias que eu tinha da minha vida passada. Isso realmente me surpreendeu, mas entendi seu raciocínio muito bem. Não havia melhor maneira de provar a ele que eu era inocente e não uma ameaça. E como se viu, a ferramenta mágica provou ser mais do que incrível. Usando essa ferramenta, eu poderia ler qualquer livro que tivesse lido no passado, simplesmente visitando o mundo da minha mente.
Pedi ao Sumo Sacerdote para usar a ferramenta em mim novamente, mas ele rejeitou a ideia com força.
Eu sei que ele só olhou para as minhas memórias para determinar o meu valor e ver se sou uma ameaça, mas ainda assim, qual seria o mal em me fazer um favor e brincar às vezes? Sumo Sacerdote, seu malvado.
Eu estava reclamando um pouco, mas, na verdade, eu realmente estava grata que o Sumo Sacerdote finalmente decidiu que eu não era uma ameaça e que eu poderia continuar inventando novos produtos sob a supervisão de Benno. Graças a isso, eu poderia continuar vivendo minha vida, como de costume, sem nada realmente mudar.
Sem mencionar que aprendi muito com tudo isso.
Aprendi como minha mãe cuidava bem de mim, e o quanto minha família atual está cuidando de mim, agora. Eu queria pagar a minha família, de volta, nesta vida, para compensar como eu não tinha feito no meu passado. Eu queria valorizar meu tempo com eles, em vez de simplesmente tratá-los como uma parte normal e insignificante da minha vida cotidiana.
— Myne, começamos a imprimir livros ilustrados ontem, fazendo-os ao lado do papel.
Foi um dia depois da minha experiência de sonho, e Lutz estava me contando sobre como o Ateliê da Myne estava trabalhando enquanto caminhávamos até a Companhia Gilberta pelo que pareceu a primeira vez em um bom tempo.
— Então, Lutz. Quantos livros ilustrados você acha que pode fazer? Quanto papel você acabou terminando?
— Acho que oitenta livros é o melhor que podemos fazer, e isso se também usarmos o papel que estamos fazendo agora. Podemos fazer setenta e cinco livros com o que temos no momento, setenta e seis, na melhor das hipóteses, mas sei que você disse que queria fazer o maior número possível de uma vez.
— Uhum, obrigado. Sei que está mais difícil agora que está ficando frio, mas estou contando com você.
Segundo Lutz, a segunda impressão da bíblia infantil acabaria produzindo cerca de oitenta exemplares. Eles não demorariam muito para terminar, já que os sacerdotes cinzentos, que aprenderam como a impressão funcionava da última vez, estariam lidando com isso. Com isso resolvido, eu só precisava pensar em vender os livros ilustrados.
Olhei para os meus pés e murmurei:
—Talvez devêssemos fazer uma nova guilda para isso.
—Uma nova guilda?
— Uhum. Como uma Guilda de Impressão ou uma Guilda de Publicações. Os livros que estamos fazendo no Ateliê da Myne são diferentes de qualquer um dos livros que os nobres têm, certo?
Os livros que existiam antes dos nossos eram feixes de pergaminhos, cada um deles individualmente escritos à mão. Ilustrações coloridas e detalhadas eram adicionadas às páginas e as capas de couro eram cravejadas de ouro e joias, transformando os livros em obras de arte, que valiam seu custo extravagante.
— Os livros que estamos fazendo dificilmente podem ser chamados de arte, sim. — observou Lutz. —Afinal, são livros ilustrados para crianças.
— E o processo de produção é totalmente diferente. Só sei disso porque o Sumo Sacerdote me disse, mas acontece que outros livros não são feitos apenas em um único ateliê.
Até agora, cada passo do processo de criação de um único livro exigia contribuições de artesãos de inúmeras oficinas diferentes; alguém para escrever o texto, alguém para desenhar a arte, alguém para reunir o papel e prendê-lo em um livro, alguém para fazer a capa de couro, alguém para incorporar o ouro e as pedras preciosas na capa e assim por diante. Devido a isso, não existia no mundo nenhuma oficina dedicada aos livros.
No entanto, os livros feitos por nosso próprio Ateliê da Myne usavam tecnologia de impressão, portanto, um único ateliê poderia fazer várias cópias do mesmo livro de uma só vez. Ele introduziria uma linha de trabalho inteiramente nova. A profissão de confecção de livros tinha sido criada durante a noite, assim, uma guilda era necessária para assegurar direitos à tecnologia e aos lucros, e organizar ateliês para manter um determinado padrão da qualidade.
— Primeiro preciso falar com Benno, mas bem…
Se eu começasse a vender livros, precisaria passar por Lutz para vendê-los para à Companhia Gilberta. Nesse caso, era Benno quem teria de adicionar à sua lista de afazeres, criar uma Guilda de Impressão. Afinal, era difícil imaginá-lo confiando esse tipo de trabalho a outra pessoa. Talvez seja a palha que quebra as costas do camelo.
— A Companhia Gilberta é uma loja de roupas, certo? Depois, há a oficina de Limxam, a Guilda de Papel Vegetal e suas oficinas, o restaurante italiano, que esperamos que seja feito na primavera.
Listei todos os trabalhos que sabia que Benno tinha, chocada com como eu estava envolvida em basicamente todos eles.
— Há muito o que fazer, e estamos adicionando a Guilda de Impressão, além de tudo isso. Tenho medo de que Benno fique tão ocupado que simplesmente desmaie.
Se Benno morresse de excesso de trabalho, eu seria a responsável? Lutz balançou a cabeça, enquanto eu empalidecia de preocupação.
— Mestre Benno está ocupado porque ele quer estar. Não é nada que você precise ficar ansiosa. Só precisamos nos preocupar quando Mark começar a intervir.
Considerando que Benno assumia um trabalho extra fora de sua área, enquanto Mark simplesmente seguia por trás para garantir que tudo corresse bem, decidi que deveria me preocupar com Mark morrendo de excesso de trabalho primeiro.
— Myne! O que diabos você fez desta vez?!
A voz trovejante de Benno me acertou no momento em que entrei em seu escritório. Eu nem tinha mencionado a Guilda da Impressão ainda. Na verdade, eu vim falar com ele sobre isso antes de fazer qualquer coisa, então eu não tinha ideia de por que ele estava tão bravo. Tudo o que eu podia fazer era balançar a cabeça, piscando, em confusão, e tremendo de medo.
— Do-do que você está falando?! Eu não fiz nada ainda.
— Recebi uma ordem de um nobre superior. Ele está me dizendo para fazer novas vestes cerimoniais para você o mais rápido possível. Claro que você fez alguma coisa! Então, desembucha! O que aconteceu?!
Imediatamente entendi a que Benno estava se referindo e bati palmas.
—Ooh, por um nobre superior você quer dizer o Senhor Karstedt, certo? Ele é o capitão da Ordem dos Cavaleiros, você sabe. Fico feliz que ele cumpriu a promessa. Estava preocupado que ele não… Que alivio.
— Não para mim! Meu coração quase parou quando um nobre superior me convocou do nada, sua idiota! — repreendeu Benno. — Diga-me quando as coisas acontecerem!
Após me imaginar em seu lugar, o sangue escorreu do meu rosto. Ser convocado por um nobre superior que você não conhecia, do nada, não seria nada menos que aterrorizante.
—E-eu sinto muito! Eu estava acamada com febre e me esqueci de tudo.
Sem mencionar que me disseram para não discutir assuntos da Ordem com ninguém, então eu nem dei detalhes a Lutz ou aos meus assistentes. A ideia de relatar qualquer coisa a Benno nem sequer me veio à mente.
— Bem, tanto faz. Eu quase tive um ataque cardíaco, mas agora tenho uma conexão com um nobre superior. Vou explorar esta oportunidade o máximo que puder. Enfim. Não acabamos de terminar suas vestes cerimoniais no outro dia? O que aconteceu com elas?
— Disseram-me para não dizer nada, já que envolve a Ordem dos Cavaleiros, mas, resumindo, elas ficaram completamente arruinadas.
Com pensamentos das vestes rasgadas em mente, abaixei os ombros e fiz um “X” com os braços na frente do peito.
Benno coçou a cabeça.
— Não adianta, então. Eu temo que isso seja algo que é melhor não saber. Mas com isso dito, se você não está aqui por causa das vestes, o que você tem para mim?
— Começamos a segunda rodada de impressão das bíblias, e pensei que seria melhor falar com você sobre como vamos vendê-las. Você fez uma Guilda de Papel Vegetal para o papel vegetal que fizemos, então eu queria saber se você gostaria de fazer uma Guilda de Impressão para os livros.
Expliquei por que pensei que uma Guilda de Impressão poderia ser necessária enquanto olhava para o meu díptico, e Benno assentiu enquanto esfregava o queixo.
— Uma Guilda de Impressão, hein? Isso será necessário mais cedo ou mais tarde, e não queremos que ninguém roube os direitos de suas invenções, então podemos muito bem ir em frente e fazer uma agora. Myne, quantos livros você tem agora que pode vender?
— Eu posso usar alguns dos que estamos prestes a fazer como livros didáticos, para que possamos vender os vinte que fiz anteriormente, se necessário.
No final das contas, eu não precisei vender nenhum livro quando estava comprando roupas. Eu tinha dado cinco como presentes e deixado outros cinco no refeitório, mas os outros vinte ainda estavam guardados, em pilhas, no ateliê.
— Lutz — disse Benno — vá buscá-los no ateliê. Não teremos permissão para fazer a Guilda da Impressão sem exemplos reais.
Lutz correu para o templo, deixando-me para trás para responder a quaisquer perguntas que Benno precisasse saber, para a papelada que estabelecia a guilda. Ele parecia tão ocupado rabiscando nas tábuas de madeira que eu não pude deixar de assistir, com a testa franzida, preocupada que eu realmente estivesse dando muito trabalho a ele.
— Benno, fazer uma Guilda de Impressão em cima de tudo o mais não será um pouco demais para você? — perguntei, preocupada. —Você vai ficar bem?
Ele olhou para mim e deu um bufo.
— Isso não é algo com que você tenha que se preocupar. E podemos estar fazendo uma guilda aqui, mas isso não levará a muitos outros ateliês de impressão.
— O quê? Por que não? Preciso que apareçam mais ateliês de impressão para que eles possam encher o mundo de livros.
— Em primeiro lugar, o mercado é muito pequeno; poucas pessoas compram livros. Em segundo lugar, ainda não há muitos ateliês de papel vegetal por aí. Ninguém sabe como fazer a tinta de impressão que você usa, também. As coisas ainda não se desenvolveram o suficiente para que mais ateliês sejam possíveis. É por isso que ir em frente e fazer uma guilda agora não levará a muito trabalho extra.
Benno estava extremamente ocupado quando fez a Guilda do Papel Vegetal, já que teve que combater àqueles com interesses adquiridos, enquanto também estabelecia oficinas, antes que qualquer outra pessoa pudesse. Mas, no caso da Guilda de Impressão, pouco aconteceria, já que os componentes necessários para a impressão ainda não haviam sido montados ou espalhados.
— Não acredito que trabalhei tanto para que a impressão acontecesse e isso não está nem levando a mais livros. Fico feliz que você não esteja ocupado, Benno, mas não estou feliz em ouvir que a Guilda da Impressão não estará florescendo.
— Se a Guilda de Impressão vai acabar ocupada ou não, depende de quanto as pessoas gostam desses livros que você está fazendo — murmurou Benno enquanto rabiscava a papelada.
Comecei a refletir sobre nossa base de clientes e a taxa de alfabetização do país.
— Eu acho que as bíblias para crianças serão bem apreciadas pelos nobres com crianças pequenas. Particularmente nobres inferiores e nobres intermediários, uma vez que não são tão ricos, em geral. Por esse motivo, estou planejando continuar fazendo livros ilustrados sobre deuses e cavaleiros e assim por diante, por um tempo.
Eu tinha pensado muito, enquanto estava doente, na cama. Particularmente, sobre as armas mágicas que a Ordem dos Cavaleiros havia usado, ao lutar contra o trombe, as bênçãos divinas e o Ritual de Cura. Os bastões brilhantes que todos tinham eram provavelmente catalisadores para usar magia, então, usar mana para mudar sua forma era muito fácil. Mas quando se tratava de bênçãos, rituais e outros usos em grande escala da magia, tornava-se essencial usar os nomes dos deuses. Todas as orações difíceis que tive que memorizar envolveram eles, assim como as usadas pelos cavaleiros, para encantar suas armas com a bênção do Deus das Trevas. Eu até tinha dado uma bênção, acidentalmente, apenas mencionando o nome de um deus em minha oração.
Simplificando, na sociedade nobre, era absolutamente vital aprender os nomes dos deuses para realizar qualquer tipo de magia significativa.
— Os nobres têm que aprender os nomes dos deuses, não importa o que aconteça. E grandes donos de lojas com conexões com nobres precisam memorizar os nomes dos deuses também, certo? Lembro que você disse o nome de um deus ao cumprimentar o Sumo Sacerdote, Benno. Acho que poderíamos vender nossos livros para nobres e donos de lojas ricos, se enfatizássemos o quão úteis eles serão para aprender.
—Você tem aprendido mais sobre os nobres, pouco a pouco, por lá. Se é isso que você pensa, eu diria que você provavelmente está certa. Mas eles não parecem bem do jeito que estão agora. Você realmente deve trabalhar em obter capas de couro para eles — disse Benno.
Balancei minha cabeça.
— Não, eles estão bem como estão. Eu acho que seria melhor para qualquer um que queira uma capa de couro simplesmente encomendar uma de uma oficina de couro que já faz capas de livros.
— Seu raciocínio? — O olhar de Benno se aguçou, seus olhos vermelho-escuros brilhando de curiosidade.
Levantei um dedo, apontando-o diretamente para o teto.
—Primeiro, para espalhar a carga de trabalho. Se encomendar as capas de couro através da Companhia Gilberta, terá de encomendar todas da mesma oficina. Não acho que colocar tanta pressão em uma única oficina seja bom para a qualidade ou para entrega em tempo hábil. O princípio da concorrência econômica é realmente importante aqui.
— Ah, sim, você odeia exclusividade e tudo mais.
Benno parecia ter interpretado de nossas discussões sobre o restaurante italiano que eu odiava ter oficinas dedicadas. No entanto, eu não odiava a ideia em si.
— Na verdade, acho que é bom ter uma oficina preferida, mas não quando isso impede que você faça pedidos de outra oficina, mesmo quando você sabe que sua oficina preferida não será capaz de lidar com todo o trabalho. Sem mencionar que deixar uma oficina monopolizar o trabalho levará a muitos conflitos.
Apertei os lábios e Benno bufou.
— Próximo?
— Segundo, permitir que os clientes personalizem os livros de acordo com seus próprios gostos — continuei, agora com um segundo dedo levantado.
— Se eles vão gastar tanto dinheiro em um livro, eles vão querer que seja exatamente como eles gostam, certo? Acredito que os clientes vão ficar mais satisfeitos se nós simplesmente deixarmos eles pedirem o tipo de capa que lhes interesse. Assim, eles não terão que retirar as que fazemos para colocar suas próprias capas. Os livros feitos em nosso ateliê são apenas encadernados com barbante, por isso é fácil desmontá-los e personalizá-los.
Enquanto eu explicava, pensei em nosso segundo lote de livros. Minha intenção era usar a cola de couro que eu tinha me esforçado para fazer, mas se estivéssemos fazendo os livros, com o pensamento de que eles seriam personalizados, provavelmente seria melhor ficar com encadernação que usasse apenas barbante.
— Terceiro ponto. Levará muito mais tempo para fazer livros se cada um precisar de uma capa de couro sofisticada. O ponto forte do Ateliê da Myne é que ele pode produzir um grande lote de livros idênticos em curto tempo, o que seria prejudicado pelo tempo necessário para fazer capas de couro. Prefiro gastar esse tempo fazendo outros tipos de livros.
Eu estava mais preocupada com a quantidade de livros no mundo, do que em garantir que cada um fosse uma obra de arte lindamente trabalhada, então eu odiaria que cada livro levasse muito tempo para ser feito. Isso era puramente um viés pessoal, mas, ainda assim, eu não mudaria isso.
— Quarto é o preço. Se os livros não forem baratos, nossa já pequena base de clientes não crescerá, e o mais importante para nós é vender os livros, em primeiro lugar. Sem falar que mesmo nobres mais pobres que querem apenas o orgulho de possuir livros, podem se desculpar pela falta de capa dizendo que sua oficina preferida está ocupada, e tenho certeza de que existem clientes por aí que estão preocupados apenas com o conteúdo dos livros, não sua aparência.
Benno franziu a testa quando terminei de listar todas as razões pelas quais eu não queria dar capas de couro aos livros.
— Entendo que você quer vender os livros o mais barato possível para fazê-los circular o máximo que puder. Pena que é exatamente o oposto do que um comerciante faria. Quero aumentar o preço o máximo possível e obter todo o lucro que puder.
Segundo Benno, era prática comum focar na estética visual para aumentar o valor de um produto. O preço seria então aumentado até que os clientes mal pudessem pagar para ganhar o máximo de dinheiro possível.
—Será que meu jeito não vai funcionar?
—Se você está apenas cobrindo esta cidade, provavelmente não, mas, na verdade, não é uma ideia tão ruim se você está pensando em vendê-los por todo o país. Você só precisa se concentrar em como eles são diferentes dos livros existentes.
Benno fechou os olhos brevemente, depois olhou para mim com o olhar oportunista de um mercador.
— Estou falando do meu instinto como comerciante aqui, mas tenho a sensação de que, quando se trata de livros, devo deixar você fazer o que quiser, sempre que possível. Eu só queria ouvir seu raciocínio, já que este é um território novo para todos — disse ele, dando-me permissão para vender meus livros encadernados como estavam.
— Ok, então, vamos precificá-los o mais baixo possível, enquanto ainda estamos de acordo.
— Não, ainda vamos ter lucro aqui. Espalhe os livros enquanto ainda ganha dinheiro, sua idiota.
Grr, sempre se resume a lucrar, com Benno.
Lutz voltou com uma bolsa cheia de livros, quando estávamos terminando a papelada. Eu os vendi para Benno, e assim, fiquei com três grandes moedas de ouro. Por um lado, fiquei triste porque ainda levaria algum tempo até que os livros pudessem ser vendidos a preços baixos, mas, por outro lado, fiquei aliviada por ter uma quantia decente de dinheiro novamente. Eu poderia usá-lo para comprar um pouco mais de comida para mim e para o orfanato antes que a neve começasse a cair.
— Myne, estamos indo para a Guilda dos Comerciantes.
Benno fez Lutz carregar os livros e me pegou, como sempre fazia, quando íamos para a Guilda. No momento em que pusemos os pés do lado de fora, fomos recebidos pela visão de várias carroças, que passavam, carregadas de colheitas. Os agricultores estavam vendendo seus produtos quando a cidade começou a se preparar para o inverno e, como muitas pessoas estavam comprando a granel, as ruas estavam muito mais movimentadas do que o normal. O ar fedia com o odor de pessoas fazendo velas gordurosas.
— Na verdade, Benno, você acha que nobres comprariam velas que não cheiram mal?
Eu tinha ouvido falar que nobres ricos usavam velas feitas de cera de abelha, mas talvez nobres que quisessem uma alternativa mais barata estivessem interessados em velas comuns que não cheirassem. Perguntei a Benno seus pensamentos, enquanto pensava nas velas de ervas que tínhamos feito no orfanato, e sua sobrancelha se ergueu, quando ele olhou para mim, com descrença.
— Velas que não cheiram, você diz?
— Oh, Myne, você está falando sobre as velas que você salgou e misturou ervas? Eu ainda não usei nenhuma delas, mas as velas em si, com certeza, cheiram menos do que as normais.
— Lutz! Você não me contou sobre isso! — gritou Benno, o que fez os olhos jade de Lutz se arregalarem.
—O quê? Falei sobre elas quando dei meu relatório sobre os preparativos de inverno do orfanato. Acho que você provavelmente os ignorou, já que estava tão focado na cola de couro.
— Aaah. Isso é possível.
A cola de couro era muito mais interessante para Benno do que as velas, tanto que dominaram sua atenção.
A cola de couro já existia neste mundo, mas as pessoas geralmente só compravam o que precisavam quando absolutamente precisavam, e ninguém fazia isso sozinho, fora das oficinas que precisavam de cola para seus produtos.
— No meu bairro ninguém salga suas velas porque são pobres, mas eu queria saber se as pessoas ricas salgavam suas velas. As velas que você usa são amarelas, Benno? Ou elas são brancas?
— Elas são amarelo-claras, porque são metade gordura e metade cera.
— Isso significa que mesmo as pessoas ricas não as salgam, então.
Benno havia mencionado usar dinheiro para cuidar o máximo possível de seus preparativos de inverno. Se ele não estava familiarizado com velas salgadas, era seguro dizer que ninguém na cidade estava.
— Eu apenas compro minhas velas em vez de fazê-las, então você provavelmente deveria vender essa informação para uma oficina de velas ou uma guilda.
— Ok, eu vou a uma oficina de velas, na primavera, para vender as informações, então pedirei para eles me ajudarem a fazer papel de modelo encerado.
Continuamos falando sobre papel, no momento em que passamos pelo movimentado segundo andar da Guilda dos Comerciantes e subimos para o terceiro. Enquanto Benno falava com a recepcionista sobre registrar a Guilda de Impressão, Freida saiu de uma sala dos fundos, vestindo sua roupa de aprendiz, suas tranças rosa esvoaçando, enquanto ela dava um pequeno sorriso. Talvez por ela ter crescido desde a última vez que a vi no verão, ela parecia muito mais adulta do que eu me lembrava.
—Ahah! É bom ver você, Myne.
— Faz um bom tempo que não te vejo, Freida. Como estão as vendas dos bolos de libra?
A última vez que vi Freida foi durante o evento de teste de sabor do bolo de libra, no verão. Isso foi um enorme sucesso, com o nome “bolo de libra” e seus vários sabores se espalhando pela alta classe como um incêndio, disparando a reputação de Freida e Leise no processo.
—Eles estão vendendo magnificamente, até os nobres os amam. Muitos estão até perguntando se tenho algum outro doce na manga. Myne, você gostaria de atender aos pedidos deles? Vou comprar as receitas a um preço justo de mercado — disse Freida com um sorriso.
Olhei para Benno. No momento em que fizemos contato visual, ele me deu um olhar solene, que imediatamente entendi como um firme “não”. Embora, para ser honesta, eu provavelmente teria vendido a ela algumas receitas na hora, se ainda estivesse sem dinheiro. Ter liberdade financeira é muito importante.
— Eu acho que Benno pode me matar se eu fizer isso, e eu tenho dinheiro suficiente agora, então talvez da próxima vez.
Ela deve ter esperado que Benno não desse sua permissão, pois ela simplesmente colocou a mão na bochecha e disse — Ah, bem — sem realmente parecer tão desapontada.
— Fiquei bem preocupada quando soube que você havia entrado no templo, mas posso ver que você está indo bem. Seu calor da Consumação se acalmou? Você encontrou um nobre com quem assinar um contrato?
— Obrigada por pensar em mim. Minha Consumação está bem agora, mas definitivamente não vou assinar com um nobre de maneira nenhuma. Prefiro estar com minha família.
— Oh, realmente? Certamente houve muitos pedidos para você — disse Freida, sua cabeça inclinada, em confusão.
Eu também estava confusa; nem um único nobre havia pedido por mim ou qualquer coisa do tipo.
— Ninguém fez uma petição por mim, e eu não pretendo assinar com ninguém de qualquer maneira. Porque, quero dizer, vou ter um irmãozinho na primavera. Como eu poderia assinar com um nobre quando vou ser uma irmã mais velha?
— Se eu assinasse um contrato agora, nem veria o rosto do bebê. Isso seria simplesmente horrível demais.
— Me-meus, parabéns. Diga à sua mãe que ela tem meus votos de melhoras. Aliás, venha visitar quando tiver tempo. Leise está esperando por você.
— Humm, acho que vou ficar ocupada por um tempo. Há tanta coisa que preciso fazer.
Eu estava extremamente ocupada desde que comecei a ir e voltar do templo. Excluindo os dias que tive de folga por estar doente, eu estava tão ocupada que simplesmente não havia dias em que eu pudesse relaxar em casa.
— Essa nova guilda que você está criando tem algo a ver com o motivo de você estar tão ocupada, Myne?
— Uhum. É o que eu mais quero fazer, então.
Estávamos usando papel grosso como modelos agora, mas eu queria passar para uma adequada impressão mimeográfica. E, se possível, também buscava desenvolver a impressão de tipos móveis. Eu ainda tinha muito trabalho a fazer para melhorar o papel, sem falar na tinta. Minha mente estava fixada em livros e, embora estivesse ocupada, estava me divertindo muito.
— É o que você mais quer fazer? Envolve livros, então?
—Sim! Terminei meu primeiro livro. Vou fazer e vender muitos deles agora. Você deveria comprar alguns também, Freida.
— Temo que não possa prometer nada sem ver um primeiro — respondeu Freida com um leve sorriso e um aceno de cabeça.
Nem mesmo nossa amizade era suficiente para ela comprar um livro pelo boca a boca. Exatamente o que eu esperaria de um aprendiz de comerciante que fez até Benno ficar em guarda.
Peguei uma bíblia infantil do maço que Lutz havia trazido e estendi para Freida. Ela tinha a perspicácia empresarial de uma menina rica criada para ser comerciante, e eu queria aproveitar essa oportunidade para ouvir o que ela pensava sobre eles.
— Aqui, um dos livros. O que você acha?
Benno deve ter ficado tão interessado na opinião dela quanto eu, pois parou de escrever no formulário e desviou o olhar para Freida. Ela olhou para o livro com os olhos semicerrados, o avaliando da perspectiva de um comerciante.
— Isso certamente é um livro, — observou Freida, enquanto folheava as páginas. — mas, apenas o interior de um, ao que parede?
Eu tinha colocado flores nas capas, mas parecia que, para as pessoas acostumadas com livros, uma capa de papel era tão boa quanto não ter nenhuma capa.
— Essa página florida é a capa. O plano é que os clientes encomendem o tipo de capa que desejarem em suas oficinas preferidas. Quem não tem oficina preferida pode pedir uma apresentação à Companhia Gilberta.
—É bom não precisar depender da oficina preferida da Companhia Gilberta — observou Freida enquanto olhava para Benno. — Quanto custa este livro, então?
Olhei para Benno para responder por mim. Eu não sabia quanto de lucro ele pretendia fazer com os livros.
— Um pequeno ouro e oito pratas grandes. Interessada?
— Sim, é claro.
Freida imediatamente bateu cartões com Benno para comprar a bíblia infantil. Fiquei impressionada por ela estar disposta a comprar o livro na hora, mas ainda mais porque Benno pretendia fazer três grandes pratas de cada livro individual. Talvez eu devesse ter aumentado o preço para conseguir um pouco mais de dinheiro para mim também.
Enquanto eu caía em decepção, chateada comigo mesma por não ser uma boa comerciante, Freida fechou o livro ilustrado e sorriu.
— Myne, eu recomendaria que seu próximo livro ilustrado fosse sobre os deuses de cada estação. Estou tendo dificuldades para memorizar os deuses subordinados aos Cinco Eternos.
O livro ilustrado que fiz discutia os deuses rei e rainha, além dos cinco deuses centrais que formavam o ciclo sazonal. Os múltiplos deuses subordinados, abaixo de cada um dos Cinco Eternos, não apareceram. Ao deixar-me saber o que ela queria dos livros, Freida estava me dizendo o que todos os filhos de nobres e ricos provavelmente gostariam de saber. Pedidos como esse facilitaram a decisão de qual livro fazer a seguir.
— Obrigada pela ideia, Freida. Meu próximo livro ilustrado será sobre os deuses subordinados.
Anotei isso no meu díptico, o que fez Freida arregalar um pouco os olhos. Ela olhou por cima, com os olhos logo travando na caneta.
—Myne, o que é isso? Benno já tem os direitos sobre isso?
— Você com certeza tem faro para o lucro, garotinha.
Benno soltou um suspiro de admiração áspera, enquanto olhava para Freida, que por sua vez exalou em decepção.
— Meu maior arrependimento é que você encontrou Myne antes de mim, Benno. Um nariz afiado não significa nada quando o doce está fora de alcance.
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