Ascendance of a BookwormCAPÍTULO 152 - 151
Capítulo 152Ascendance of a Bookworm – Capítulo 151
Encontro das Mentes
Três dias depois de começar a viver no templo, chegou uma carta do Sumo Sacerdote perguntando se as vestes cerimoniais encomendadas à Companhia Gilberta já estavam prontas. Desapontada por ele não ter escrito para marcar uma reunião, pedi a Rosina que chamasse Lutz. Ele chegou em pouco tempo, já que estava no ateliê ensinando as crianças do orfanato a fazer seu trabalho de inverno.
— Aconteceu alguma coisa, Myne?
— O Sumo Sacerdote me enviou uma carta perguntando quando as vestes cerimoniais estarão prontas. Desculpe, mas você poderia perguntar ao Benno sobre elas quando você passar na loja para almoçar?
E assim ele fez, retornando com a resposta de que eles levariam três dias para terminar, no menor prazo possível. Para dar-lhes um pouco de liberdade, enviei uma resposta ao Sumo Sacerdote dizendo que as vestes levariam cinco dias para terminar, se trabalhassem o máximo possível. Esperamos que isso o impeça de apressá-los demais.
Quando Fran me trouxe a resposta do Sumo Sacerdote, ele também tinha com ele uma carta convite para Benno. Passei ela para Lutz, quando ele visitou meus aposentos para se despedir e me dar uma atualização sobre o ateliê.
— Parece que ele chamará o Senhor Karstedt daqui a sete dias, e então, ele quer que Benno entregue as vestes prontas — eu disse, agarrando-me a ele o tempo todo.
— Tudo bem. Darei a ele no caminho de casa. Mas sabe, Myne. Você não melhorou nada. Você está bem?
— Na verdade, não. Quero voltar para casa pelo menos uma vez antes que a neve caia.
Longe de me acostumar com a solidão, minha saudade de casa estava piorando. Ficou bastante claro também, pois gradualmente passei mais e mais tempo agarrada a Lutz e Tuuli sempre que eles vinham ao meu quarto. E a mamãe não poder visitar-me por causa da gravidez também não estava ajudando.
— Você sabe que não poderei vir te visitar todos os dias quando a neve começar a cair, certo? — disse Lutz, com um suspiro, enquanto gentilmente dava um tapinha na minha cabeça.
Papai estava ocupado o suficiente com seus turnos da tarde que ele só podia me visitar uma vez por semana, enquanto Tuuli só podia visitar a cada dois dias. Eu ficaria ainda mais solitária quando Lutz deixasse de poder visitar todos os dias para coordenar o ateliê e seu trabalho de inverno.
— Eu gostaria que a neve simplesmente não existisse.
Meus braços ao redor de Lutz apertaram quando pensei em como estava frio, frio o suficiente para que a neve começasse a cair a qualquer momento.
No dia da reunião, a neve começou a cair pouco antes do terceiro sino. Não era o suficiente para se acumular, mas todos sabiam que o inverno havia começado de verdade.
—Você acha que vai atrapalhar?
— Acho que não, Irmã Myne. Não haverá nada para interromper sua reunião — assegurou Rosina.
Após terminar a prática de fespiel, fui instruída sobre como cumprimentar adequadamente Karstedt. Rosina estava me forçando a repetir uma bela reverência várias vezes.
O caminho para ser elegante não é fácil.
— Irmã Myne, Benno chegará esta tarde. Não há muito tempo para praticar.
A reunião de hoje estava marcada para o quinto sino. Benno viria me ver em meus aposentos, de antemão, sob o pretexto de me agradecer por dar a ele uma conexão com um nobre superior. Enquanto isso, tive que aprender uma saudação respeitável o suficiente para não me envergonhar na frente de Karstedt. E assim, coloquei tudo em prática.
— Oi Benno, Mark. É…? Onde está Lutz?
Benno e Mark entraram no meu quarto, o primeiro vestindo roupas de inverno com mangas compridas no estilo de nobres e o último carregando uma caixa. Apertei meus lábios em um beicinho, esperando que Lutz viesse com eles.
— Começou a nevar, então estou fazendo Lutz priorizar seu trabalho no Ateliê da Myne. Ele deve chegar com a obra acabada em breve, uma cópia de cada. Certifique-se de trazê-los para a reunião.
— O trabalho de inverno? Mas por quê? — Inclinei a cabeça, confusa, não entendendo por que Benno gostaria que eu trouxesse brinquedos para uma reunião com o Sumo Sacerdote e um nobre superior.
— Meu instinto me diz que essas coisas vão fazer uma grande onda. Acho que agora é um bom momento para ouvir o que o Sumo Sacerdote e um nobre superior pensam sobre eles, antes de colocá-los a venda para o público.
— Humm, supondo que nunca tenha havido nada como eles antes, acho que terão um impacto muito grande — respondi, após pensar em como jogar cartas e reversi tinham impactado a Terra, e Benno olhou para mim com desagrado visível.
— Um impacto realmente grande? Você criou papel e impressão sem considerar as consequências, e ainda assim você está me avisando sobre o quão importante alguns brinquedos serão?
— Bem, para ser clara, eu sei que o papel e a impressão são significativos o suficiente para mudar o curso da história. Mas minha principal razão para fazer isso foi porque eu precisava deles.
Era duro apenas não saber quão enorme foi o impacto que a impressão teve em civilizações passadas e na cultura em geral. No entanto, para mim, eram apenas passos necessários que eu tinha que dar para conseguir meus livros.
— O que há de errado, Benno? Você parece meio doente.
— Eu estou. Por sua culpa. Vamos falar com o Sumo Sacerdote e um nobre superior, sabe?
Benno, com certeza, tem um lado sensível, pensei enquanto Benno se inclinava com a mão no estômago. Sempre pensei nele como um cara durão, que adorava brigar com alguém, então era um pouco estranho vê-lo tão nervoso.
— Por que você está tão nervoso, Benno? Você nunca teve nenhum problema em antagonizar o mestre da guilda e todos os que tinham interesses adquiridos. Esses dois são pessoas legais. Você vai se sair bem.
— Não coloque o mestre da guilda no mesmo nível de um nobre superior! De quem você acha que é a culpa de tudo isso?! — gritou Benno antes de desabar na mesa e pressionar a testa contra ela.
Um fio de seu cabelo cor de chá com leite, anteriormente caído para trás com o que era presumivelmente algum tipo de gel de cabelo, caiu sobre a mesa.
— Mestre Benno, por favor, não bata a cabeça contra a mesa. Seu cabelo está ficando desgrenhado — observou Mark, com um sorriso divertido.
Benno odiosamente colocou o cabelo de volta no lugar antes de me encarar com seus olhos vermelho-escuros.
— Tá. É em momentos como este, e apenas em momentos como este, que eu realmente gostaria que você pudesse me dar um pouco de sua ignorância abençoada.
— O quê? Mas você só está entregando algumas vestes, não é? Lembro-me de como você estava feliz em obter uma conexão com um nobre superior.
— Idiota! Use a cabeça e pense! Em que mundo me chamariam ao templo só para entregar um pedido? Eles vão me questionar sobre todas as informações que tenho sobre você — disse Benno com um olhar, me obrigando a apontar para mim mesma com surpresa.
— Hum, eu? O que exatamente eles gostariam de saber sobre mim?
— Posso esperar que compartilhemos todas as informações que desenterramos sobre o chefe da Guilda das Tintas, e depois conversaremos sobre o que fazer com você. Tenho informações da cidade baixa, o nobre superior tem informações do Bairro dos Nobres, e o Sumo Sacerdote quer saber tudo o que fazemos.
Falando nisso, o Sumo Sacerdote também falou sobre a coleta de informações. E que eu deveria ficar dentro do meu quarto até que ele terminasse de fazer isso. Acho que essa reunião significava que ele realmente tinha acabado.
— Benno, aconteceu mais alguma coisa com o chefe da Guilda das Tintas?
— Não, nada ainda. Quanto mais frio fica, mais as pessoas estranhas vagando do lado de fora de uma loja se destacam. Ou eles não querem empurrar as coisas, ou eles já descobriram o que queriam saber e estão esperando a socialização de inverno para descobrir mais.
Enquanto a cidade estava bloqueada pela neve, os nobres que viajaram para cidades agrícolas durante o Festival da Colheita, retornariam ao Bairro dos Nobres. O Arquiduque ficaria na Monarquia, a região central que ocupava a posição mais alta entre as regiões governadas por Arquiduques, conhecidas como ducados, por algumas semanas no final da primavera, mas parecia que o principal momento para os nobres proprietários de terras socializarem era o inverno. Era lá que eles se reuniam para trocar informações com nobres de outras províncias e fortalecer antigos laços.
— Irmã Myne. Mestre Benno. Está na hora.
— Obrigada, Fran. Então vamos embora.
Balancei a cabeça para Benno e pedi a Fran que carregasse os conjuntos acabados dos trabalhos manuais de inverno que Lutz havia trazido. Após checar a caixa de Mark contendo as vestes, saímos dos meus aposentos. Os corredores para o quarto do Sumo Sacerdote eram frios e assustadores. Tão frios que eu realmente não queria sair do meu quarto.
Quando chegamos, Fran tocou a campainha e aguardou a porta se abrir. Karstedt já havia chegado, e eu podia vê-lo bebendo chá graciosamente na mesa de hóspedes.
— Sumo Sacerdote. Senhor Karstedt. Fico feliz que os deuses ordenaram que nos encontrássemos novamente. Para mim, este é um dia auspicioso abençoado por Geduldh, a Deusa do calor da Terra, e eu rezo para que você sinta o mesmo.
Eu só tinha visto Karstedt vestido com armadura de placas completa, mas agora ele estava vestindo as finas roupas de um nobre. Seu cabelo castanho-avermelhado estava penteado para trás com o mesmo tipo de gel que o de Benno, e pude ver com um olhar que ele tinha uma testa larga.
Sua camisa de veludo sedoso tinha mangas compridas e caídas, que eu esperava dos nobres, e pude ver que eram feitas de camadas de vários tecidos com rendas elegantes que as mantinham juntas.
Suas costas eram largas e seu corpo visivelmente musculoso, graças ao seu treinamento, o que o tornava uma presença difícil de ignorar. Mas sua aura feroz parecia mais gentil agora do que quando ele estava usando sua armadura, e seus olhos azuis-claros pareciam um pouco mais suaves hoje.
— Estou feliz em vê-la bem, Myne, a aprendiz de donzela do santuário.
— Eu o abençoo do fundo do meu coração, Senhor Karstedt. — Terminei minha saudação sem estragar nada, e Benno se apresentou.
Então nos sentamos nos assentos oferecidos pelo Sumo Sacerdote, com nossos servos atrás de nós. O Sumo Sacerdote estava sentado em uma extremidade da mesa com Karstedt à sua esquerda, eu à sua direita e Benno na outra extremidade.
— Obrigado a todos por virem — disse o Sumo Sacerdote.
— Primeiro, veremos as vestes cerimoniais.
Mark deu um passo à frente e entregou a caixa de madeira para Benno, que a abriu e estendeu para Karstedt. Seu interior estava forrado com um pano que envolvia as vestes cerimoniais, sendo de um azul oceano tão profundo quanto as últimas. Seu bordado ondulado brilhava sob a luz de várias velas que iluminavam a sala escura.
— Estas são as vestes cerimoniais da Irmã Myne.
Karstedt olhou para elas e me perguntou se eram o que eu havia pedido. Acenei com a cabeça e confirmei serem, já tendo visto o produto acabado e sido ajustada para elas.
— Nesse caso, eu apresento as vestes para você, Irmã Myne.
— Serei eternamente grata.
Peguei as vestes e, assim que o fiz, Karstedt estendeu o queixo para sinalizar algo. Foi então que notei, pela primeira vez, que a pessoa atrás dele não era seu assistente, mas era, na verdade, Damuel, o cavaleiro de antes, talvez servindo como escudeiro de Karstedt. Ele entregou a Benno uma bolsa com ouro dentro.
Após verificar o conteúdo, Benno entregou a bolsa para Mark.
— Benno, me disseram que você trabalhou muito rápido para concluir este pedido. Você se saiu bem. Karstedt. Damuel. Suas sentenças já foram cumpridas.
Com as palavras do Sumo Sacerdote, todos, Benno, é claro, mas Karstedt e Damuel também, soltaram suspiros de alívio.
Pedi a Fran que cuidasse da caixa que continha minhas vestes. Ele assentiu e as tirou da mesa.
— Assistentes, afastem-se — ordenou o Sumo Sacerdote enquanto colocava em funcionamento uma ferramenta mágica destinada a evitar espionagem. Era uma ferramenta de grande alcance que afetava uma área mais ampla, em vez de apenas indivíduos, já que Benno não tinha mana e não conseguia alimentar uma ferramenta própria. O Sumo Sacerdote colocou quatro feystones ao nosso redor, depois cantou algo que enviou uma parede de luz azul fraca, explodindo da ferramenta, e nos envolveu em um cubo.
Eu podia ver os assistentes de pé atrás da parede de luz, mas não conseguia ouvir nada por trás dela. Era fácil adivinhar que eles também não conseguiam ouvir nada deste lado.
Com certeza há uma ferramenta mágica para tudo, pensei comigo mesma enquanto Benno se encolhia ao meu lado. Eu tinha me acostumado a ver esse tipo de coisa, mas para as pessoas da cidade baixa, praticamente qualquer coisa mágica era motivo de surpresa. Dito isso, Benno não era dono de uma grande loja por nada. Tudo o que ele fez foi dar um leve estremecimento, sem gritar ou olhar ao redor como eu teria feito, no passado.
— Agora, então, Benno. Temos muito o que conversar.
Benno cruzou os braços na frente do peito.
— Meu conhecimento é seu.
— Ouvi dizer que a Guilda das Tintas começou a investigar Myne imediatamente após a assinatura de um contrato mágico entre eles, com Lutz sendo seu primeiro alvo. Isso está correto?
— Sim. Em geral, as informações são coletadas antes da assinatura de um contrato, a fim de influenciar o processo da forma mais favorável possível — explicou Benno.
— Não consigo imaginar por que eles começariam a coletar informações depois que o contrato fosse assinado.
O Sumo Sacerdote assentiu e olhou para mim.
— Você já conheceu o chefe da Guilda das Tintas antes, Myne?
— Não. Benno me escondeu enquanto o contrato estava sendo negociado, então não sei nem seu nome, nem seu rosto.
— O chefe da Guilda das Tintas tem profundas conexões com os nobres, — começou Benno — e não se fala muito de bom sobre ele. Determinei que minimizar o contato da Irmã Myne com ele seria ideal, e a fiz esperar em outra sala enquanto ele visitava.
Ele explicou por que ele não me deixou encontrar o chefe da Guilda das Tintas, o que fez o Sumo Sacerdote soltar uma risada com um leve sorriso de aprovação.
— Você é realmente um homem sábio, Benno. Aplaudo sua decisão. O homem de quem você está falando é Wolf, correto?
— Que rumores você ouviu? O que o levou a concluir que ele traria danos à aprendiz de donzela do santuário?
O Sumo Sacerdote e Karstedt fizeram a Benno uma série de perguntas. Eu não sabia nada sobre o chefe da Guilda das Tintas, portanto, não tinha escolha a não ser permanecer em silêncio.
— Wolf é sim o chefe da Guilda das Tintas. Ouvi dizer que ele está disposto a se envolver em atos criminosos para fortalecer seus relacionamentos com nobres, mas não sei se esses rumores são verdadeiros, então, por favor, perdoe minha falta de detalhes.
Karstedt, com a testa franzida, esfregou o queixo.
— Nesse caso, eu assumiria que ele começou a coletar informações tão descaradamente, porque o contrato foi assinado e, nesse caso, ele não se importa mais com o vínculo firmado entre vocês.
A sugestão fez Benno arregalar os olhos. Não era fácil anular um contrato mágico, que exigia uma preparação significativa antes de ser assinado. Mas pensando de outra forma, isso também significava que não importava o quão abertamente antagônica a Guilda das Tintas fosse, agora que estava assinado. Afinal, mesmo que eles escalassem as coisas a ponto de me prejudicar, o contrato não poderia ser anulado sem o consentimento de todas as partes envolvidas.
Karstedt supôs que a Guilda das Tintas havia explorado isso, e por um segundo eu vi uma careta extremamente amarga no rosto de Benno.
— Benno, o que você acha que Wolf ganha com a coleta de informações sobre Myne? Eu gostaria de ouvir sua perspectiva como um comerciante e de alguém que vive na cidade baixa — perguntou o Sumo Sacerdote.
Benno escolheu suas palavras com cuidado.
— Para nós, comerciantes, o valor da Irmã Myne é seu conhecimento de novos produtos aparentemente infinitos, embora poucos saibam quanto ela realmente vale. Se Wolf fosse um desses poucos, ele, sem dúvida, tentaria trazê-la para a Guilda das Tintas. Mas a Irmã Myne já se juntou à Guilda dos Mercadores e à minha Companhia Gilberta. Nesse caso, ele provavelmente pretende confiar no dinheiro para reunir o conhecimento que puder, sequestrá-la para extrair seu conhecimento ou levar aqueles queridos a ela como reféns para chantageá-la.
Karstedt olhou para mim em dúvida. Ele estava, com certeza, pensando ser impossível que uma garota tão jovem quanto eu tivesse conhecimento tão valioso.
— No entanto, acredito que ele não seria capaz de aprender tudo o que ela sabe, mesmo através de sequestro e chantagem — continuou Benno. — Para maximizar o valor que ele ganharia dela, ele precisaria mantê-la confinada em um local isolado por um longo tempo, o que seria extremamente extenuante.
Estremeci ao pensar nisso se tornar realidade, não tendo considerado a possibilidade de alguém me sequestrar e prender pelo meu conhecimento. Eu finalmente entendi o quão bem Benno estava me tratando, e a ideia do que poderia ter acontecido se eu tivesse conhecido outra pessoa, em vez dele, enviou mais arrepios pela minha espinha.
— Por que mantê-la confinada seria extenuante? — Karstedt perguntou casualmente. — Deve ser simples, desde que os sequestradores tenham um quarto de hóspedes ou uma mansão de campo. Certamente o sequestro em si, seria mais desafiador.
O fato dele falar sobre confinar as pessoas tão sabiamente me assustou.
— Se seu sequestrador não estiver totalmente ciente da saúde precária da Irmã Myne, ela morrerá sob os cuidados deles em questão de dias. No caso da Irmã Myne, o confinamento será mais extenuante do que o sequestro.
— Sim, devo concordar. Ela passou dias acamada, doente, após apenas meio-dia na câmara de arrependimento. Se tratada como uma prisioneira padrão, ela morreria antes de ser capaz de ensinar-lhes qualquer coisa de valor. — O Sumo Sacerdote concordou com Benno na hora. Parecia que o incidente da câmara de arrependimento realmente ficou na memória dele.
Eu queria que ele simplesmente esquecesse. Tenho febres assim o tempo todo. Não foi culpa de ninguém. Além disso, enquanto ele estava nisso, desejei que ele esquecesse que eu era a única donzela azul do santuário a ser colocada na câmara de arrependimento.
— É provável, então, que Wolf planeje vendê-la aos nobres, após aprender o que puder com ela — concluiu Karstedt.
Benno franziu as sobrancelhas em confusão.
— Eu sei que a Irmã Myne sofre com a Consumação, mas há outra razão pela qual os nobres a querem?
O Sumo Sacerdote trocou um olhar com Karstedt, depois deu um aceno de cabeça a Benno.
— Não pretendo informá-lo de todos os detalhes, mas sim, há outro motivo. Como mencionado, é provável que Wolf pretenda vender Myne para nobres após colocar as mãos nela. Mas também é possível que um nobre tenha ordenado que Wolf a sequestrasse para que eles possam encenar um resgate e endividá-la com eles. Uma vez que ela é resgatada, eles podem até alegar que ela era filha deles o tempo todo. Também é possível que uma busca mais ampla por vingança desempenhe um papel nisso, o que significa que a ameaça de assassinato deve ser considerada.
Haaah! Eu já posso ouvir Benno exigindo saber o que eu fiz! Eu já posso ouvir os gritos! Nada além de gritos trovejantes, nada além de trovões!
Antes do Sumo Sacerdote listar todas as possibilidades uma por uma, eu tinha acabado de pensar que a Guilda das Tintas, sondando informações sobre mim, era meio nojenta e nada mais. Nem me ocorreu que eu corria tanto perigo. Agora eu podia entender por que o Sumo Sacerdote ordenou que eu ficasse em meus aposentos.
— Benno, — começou o Sumo Sacerdote — você continuará a esconder informações de seus parceiros de negócios. Myne não deixará o templo durante o inverno. Quando ela deixar seus aposentos, será apenas para realizar rituais ou visitar o orfanato. Com sacerdotes cinzentos a acompanhando, ela deve estar segura. Nossos verdadeiros problemas começam na primavera.
Suas palavras lhe renderam acenos de cabeça de Benno e Karstedt.
— Porque eles também estarão coletando informações e aliados durante o inverno. — Elaborou Benno.
— Devemos pensar em um plano imediatamente. Benno, que meios existem para controlar essa coisa? — disse o Sumo Sacerdote, referindo-se a mim.
Todos olharam na minha direção.
Eventualmente, Benno balançou a cabeça lentamente com uma expressão exausta.
— Não sei. Ela pode escalar algo para um grau ridiculamente grande em questão de momentos, e se você tirar os olhos dela, ela pode estar à beira da morte no próximo olhar. Se eu soubesse como mantê-la sob controle, já estaria fazendo.
— Como esperado. Suponho que mantê-la ao alcance dos braços é tudo o que se pode fazer.
O Sumo Sacerdote e Benno olharam para mim e deram suspiros pesados em uníssono. Eles então se entreolharam com sorrisos irônicos. Parecia que eles tinham se unido.
— Myne, você causa problemas toda vez que faz alguma coisa. De agora em diante, você deverá ter a minha permissão ou a de Benno antes de tomar qualquer nova linha de ação, ou desenvolver qualquer novo produto — disse o Sumo Sacerdote, lembrando-me do trabalho de inverno do orfanato.
A perspicácia de Benno, mais uma vez, me salvou. Peguei o pacote de trabalhos manuais de inverno que Fran havia deixado no chão para mim.
— Imagino que você queira ver isso, então. É o trabalho de inverno que o orfanato fará.
— Ah, eu me lembro de você mencionar algo assim. Me mostre.
Puxei as cartas de baralho, reversi e xadrez falso, alinhando-os um ao lado do outro ao longo da mesa. Benno também se inclinou para olhar para eles, pois, embora tivesse me ouvido explicar cada um antes, ele nunca os tinha visto.
—O que são esses?
— Essas são cartas de baralho. Há um monte de jogos que você pode jogar com elas, mas eu pretendo começar ensinando as crianças no orfanato para jogar um jogo chamado memória. Você mistura as cartas e as coloca na mesa com o lado da arte voltado para baixo. Você então vira duas cartas, e se ambas forem o mesmo número, você as mantém. Quem tiver mais cartas no final do jogo ganha.
Era difícil para as crianças mais novas segurar muitas cartas de madeira em suas mãos pequenas, então a memória era o único jogo que eu planejava mostrar a elas, por enquanto.
As regras intrigaram Karstedt, então começamos a jogar, usando apenas metade do baralho para economizar tempo. Basta dizer que o Sumo Sacerdote, com sua memória soberba, absolutamente nos esmagou.
— Como eu disse, há muitos jogos que você pode jogar com elas. Elas serão mais fáceis de usar quando tivermos elaborado uma fórmula para papel mais grosso e pudermos fazê-los com papel, em vez de madeira.
Expliquei sobre canastra, pôquer e truco, entre outros jogos, e parecia que Karstedt estava bastante satisfeito com as cartas em geral.
—Temos cartões de adivinhação que são ativados usando mana, mas nenhum jogo de cartas é feito para diversão. E, acima de tudo, é bom que você possa jogar tantos jogos com apenas um baralho de cartas. Sem dúvida, eles ficarão muito populares entre os nobres.
— Eles também são bons para aprender números. Eu os fiz para que as crianças do orfanato possam aprender a fazer contas — expliquei.
O Sumo Sacerdote assentiu antes de apontar para o tabuleiro de reversi. — E quanto a isso, então?
— Isso é reversi. Há pecinhas chamadas “pedras” pintadas de preto em um lado e branco no outro. Você coloca as pedras nos quadrados, e quando as pedras de uma cor ficam presas entre as pedras da outra, elas mudam de cor. Quem tiver mais pedras de sua cor, no final, vence.
O Sumo Sacerdote parecia o mais interessado em reversi. Começamos a jogar, eu como seu oponente, e eu expliquei as regras à medida que avançávamos. As pedras foram colocadas, as pedras foram viradas e, depois que todos os quadrados foram preenchidos, a tábua foi coberta de branco. Eu tinha vencido.
— Eu perdi?
— É difícil ganhar logo após aprender as regras. Tenho certeza que você vai começar a me bater depois que jogarmos mais algumas vezes. — Encolhi os ombros, enquanto o Sumo Sacerdote olhava para o tabuleiro atordoado.
Eu tinha vencido o Sumo Sacerdote, já que ele estava jogando reversi pela primeira vez e não conhecia nenhuma das estratégias, mas ele era inteligente o suficiente para que ele as criasse, por si mesmo, em pouco tempo. Eu tinha ido com tudo contra ele, especificamente, porque eu sabia que esta era a minha única oportunidade de vencê-lo.
— Então vamos jogar de novo. Eu vou ganhar desta vez.
— Sumo Sacerdote, vamos guardar a revanche para a próxima vez. Eu vou jogar com você de novo se você comprar o jogo.
— Muito bem. Considere comprado.
Os ombros de Benno tremeram um pouco, após ver o Sumo Sacerdote comprá-lo instantaneamente. Ele me deu um sinal sutil de bom trabalho debaixo da mesa.
— Ahem! E, finalmente, o que é isso?
— Hum, essas são peças (de xadrez). Eles são jogados no mesmo tabuleiro que o reversi. Cada tipo de peça se move de uma maneira diferente, e você ganha movendo uma de suas peças para o rei do seu oponente.
Limpei as pedras de reversi e expliquei como cada peça de xadrez se movia, enquanto Karstedt olhava para o tabuleiro com olhos estreitos e contemplativos.
— Isso parece com gewinnen.
— Ah, então outro jogo como esse existe? Devo fazer algumas mudanças para que não sejam tão parecidos?
Meu entendimento era que, mesmo na Terra, os jogos de tabuleiro existiam há muito tempo. Era natural que este mundo tivesse algo semelhante.
— Não precisa. É jogado entre nobres e requer mana. O objetivo é tomar território e as estratégias de luta são completamente diferentes. Este jogo servirá muito bem na cidade baixa, imagino.
— Eu não acho que eles vão vender muito se os nobres não estiverem comprando.
Não havia muitas pessoas na cidade baixa ricas o suficiente para gastar dinheiro em algo que era puramente para entretenimento. Quase todos estavam ocupados apenas mantendo suas famílias vivas. Minha aposta mais segura seria empacotar xadrez com reversi e comercializá-lo como uma maneira alternativa de jogo a gewinnen.
Com o final de nossa discussão sobre o trabalho manual de inverno, o Sumo Sacerdote removeu a barreira à prova de som. Ele e Karstedt convocaram seus assistentes, depois compraram o tabuleiro de reversi, as pedras e as cartas de baralho, respectivamente.
Eu os vendi por quatro grandes pratas – um preço de estreia, já que não planejávamos vendê-los até a primavera começar. Considerando que eu antecipei o preço de mercado deles, para começar em torno de cinco a sete pequenas pratas, nós meio que os roubamos.
— Nossa associação continua a ser frutífera, Benno, eu aprovo. Que você seja abençoado com a proteção divina de Geduldh, a Deusa da Terra.
— Agradeço pelo seu tempo, honorável Sumo Sacerdote. Se me der licença, vou me despedir. Foi um prazer, Senhor Karstedt. Irmã Myne.
Benno cruzou os braços diante do peito e saiu, Mark fazendo o mesmo atrás dele antes de seguir o exemplo.
Após vê-los partir, olhei para o Sumo Sacerdote.
— Nesse caso, acredito que também partirei. Foi um…
— Temos mais para discutir com você. Pegue isso.
Ele colocou quatro das ferramentas mágicas de bloqueio de som que costumava usar na mesa. O Sumo Sacerdote, Karstedt e eu pegamos um, com Damuel alcançando o que restava.
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