Ascendance of a Bookworm — Capítulo 154: CAPÍTULO 154 - 153

Ascendance of a Bookworm
Cap. 154
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Ascendance of a Bookworm

CAPÍTULO 154 - 153

Capítulo 154

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Ascendance of a Bookworm – Capítulo 153

Vida Diária de Inverno

Finalmente me foi permitido andar pelo templo como eu desejava, agora que eu tinha Damuel como guarda-costas. Foi um pouco duro para ele, já que ele tinha que viajar para cá do Bairro dos Nobres todos os dias, mas ele usou o cavalo voador que fez de sua feystone, então, ao contrário de Lutz e Tuuli, a neve não representava nenhum problema para ele.

Uau, a magia é conveniente.

Graças a Damuel, eu poderia ir ao orfanato e para o quarto dos livros novamente, o que proporcionou ampla distração. Minha família não podia me visitar tanto quanto antes, devido a toda a neve espessa, mas eu podia esquecer o quanto sentia falta deles absorvendo-me em livros. Só quando lia podia esquecer a minha solidão.

O problema era que a biblioteca era incrivelmente fria. Eu não podia ficar por muito tempo, não importava o quanto eu me vestisse, e nem Damuel, nem Fran gostavam de ir lá.

— Aprendiz, — disse Damuel — você poderia perguntar ao Senhor Ferdinando se poderia trazer livros de volta para seus aposentos, para não termos que ficar na sala de livros?

— Concordo com a sabedoria de Sir Damuel, — disse Fran. — Você vai acabar doente se for lá com muita frequência.

Damuel e Fran se davam surpreendentemente bem. Eles muitas vezes pareciam concordar com as coisas, mas talvez Fran estivesse acostumado a lidar com nobres. De qualquer forma, eles estavam em boas condições.

— Sumo Sacerdote. Pelas razões expostas, posso trazer livros da sala de livros para meus aposentos?

— Você pode pegar emprestado os livros que eu mesmo trouxe. Eu não gostaria que você ficasse doente antes do Ritual de Dedicação, afinal. Hah. Eu venci.

O Sumo Sacerdote deixou escapar um leve sorriso, após me vencer no reversi. Como eu esperava, seu nível de habilidade estava muito além do meu, agora que ele entendeu o jogo. Que tipo de adulto ele era, indo com tudo para cima de uma garotinha? Claro, eu parecia uma garotinha, mas mesmo assim…

— Eu acho que é cruel que você dê tudo de si com uma criança, Sumo Sacerdote.

— Isso é risível vindo de você, que foi com tudo contra um novato. Vejo que você é uma má perdedora, hein?

O Sumo Sacerdote era um pouco imaturo, às vezes, mas era uma boa pessoa. Ele me emprestou seus livros, e quando a solidão se tornava demais para eu suportar, ele me deixava invadir seu quarto e trocar a papelada ou a contabilidade do templo para, por um momento, me dar um precioso abraço no quarto escondido. Ele geralmente fazia uma careta quando eu perguntava, mas eu estava muito envolvida em meus próprios problemas para me preocupar com os dele. Nosso acordo foi bom para mim.

— Bom dia, Myne. Como você tem passado? — perguntou Tuuli.

— Você não está dormindo o dia todo, está? — questionou Lutz.

Tuuli e Lutz vieram me visitar em um dia que estava nevando menos do que o normal.

Tuuli estava trabalhando duro para aprender suas letras. Ela trouxe a bíblia infantil, pois as outras estavam sendo usadas como livros didáticos, na escola do templo, bem como sua lousa e caneta para que ela pudesse estudar com as outras crianças no orfanato.

Lutz era alfabetizado e sabia matemática, então ele verificou o trabalho manual de inverno, ensinou as crianças junto dos sacerdotes cinzentos e instruiu Gil sobre como escrever relatórios sobre a produção do ateliê.

— Quem são esses dois, aprendiz?

— Sir Damuel, essa é minha irmã mais velha Tuuli e meu amigo Lutz. Eles vêm muito aqui quando não é inverno, então lembre-se deles.

Apresentei Damuel a Tuuli e Lutz. Eles olharam para ele, com suas bocas abertas.

— Tuuli. Lutz. Este é Sir Damuel. Ele está servindo como meu guarda-costas, por enquanto. Eu o chamei de “Sir” porque ele é da Ordem dos Cavaleiros.

— A Ordem dos Cavaleiros?! Uau, isso é incrível!

— Um nobre está te protegendo, Myne?!

Ambos viraram para Damuel, com olhos brilhando de excitação e inveja, o que o pegou um pouco desprevenido.

— Aprendiz, o que devo fazer em momentos como este?

— Apenas sorria, eu acho.

Damuel forçou um sorriso rígido em seu rosto, lidando com Tuuli e Lutz da melhor maneira possível.

Mais tarde, ouvi dizer que Damuel, que raramente deixava o Bairro dos Nobres, em que foi criado, mal havia interagido com os plebeus antes. E enquanto ele tinha um irmão mais velho, ele não tinha irmãos mais novos, portanto, não tinha certeza de como lidar com crianças pequenas. Além de tudo isso, sua família era tão baixa em posição dentro da sociedade nobre que ninguém nunca o olhou com admiração antes.

— Ok, Myne. Eu tenho que ir para o orfanato com Lutz — disse Tuuli, dando tapinhas nos meus braços, que estavam enrolados em volta dela.

Eu apenas balancei a cabeça, a apertando com mais força.

— Vou com você hoje. O Sumo Sacerdote disse que posso andar ao redor do templo agora que Sir Damuel está comigo, e eu estive me perguntando como a escola do templo está indo.

Eu estava presa em meus aposentos mesmo quando Lutz e Tuuli vieram me ver, mas agora eu poderia ir para o orfanato com eles. E assim fiz, indo para o refeitório do orfanato com Rosina e Damuel a reboque.

— Uma aprendiz de donzela de santuário está servindo como diretora do orfanato? Há realmente uma escassez de mão de obra aqui.

— Sim, simplesmente não há sacerdotes azuis suficientes. O Sumo Sacerdote tem o suficiente em suas mãos, e eu assumi esse papel na esperança de ajudá-lo. Embora eu seja realmente a diretora apenas no nome.

Não havia necessidade de eu explicar que eu tinha enfiado meu nariz em assuntos do templo sem ser convidada e acabei no papel após ficar muito acima da minha posição. O que importava era que quando algo importante acontecia no orfanato, era o Sumo Sacerdote quem assinava. Na melhor das hipóteses, eu era apenas uma intermediária burocrática que administrava os assuntos diários do orfanato.

— Você deve ser muito talentosa se estiver ajudando o Senhor Ferdinando com seu trabalho — suspirou Damuel.

Ele me disse que quando o Sumo Sacerdote estava na Ordem dos Cavaleiros, ele era duro com aqueles que não tinham talento, dando trabalho extra para aqueles que estavam atrás dos outros e, finalmente, cortando qualquer um que não conseguisse acompanhar. Algumas pessoas chegaram a pensar nele como um monstro.

Considerando como aqueles no templo designados para serem seus assistentes se tornaram de primeira classe em seus empregos ou foram dispensados, parecia que seu intenso método de treinamento ainda estava em andamento hoje.

— Mas ouvi de Fran que o Sumo Sacerdote só define trabalhos que ele acha que a pessoa seria capaz de fazer, embora com um pouco de perseverança.

— Ser capaz de acompanhar esse trabalho é a prova de que você tem talento. Ele nunca me deu trabalho para fazer antes. Acho que ele nem sabia que eu existia, já que eu era apenas um aprendiz de cavaleiro e um nobre inferior no passado.

Damuel murmurou sobre como desejava que o Sumo Sacerdote lhe desse trabalho também, então decidi pedir ao Sumo Sacerdote que o fizesse na próxima vez que o visse. Eu tinha certeza que ele iria se deliciar em dar a alguém, trabalho para fazer.

— Bem-vindos, Lutz, Tuuli. Oh, e Rosina. Vejo que a Irmã Myne está com você. — Wilma nos cumprimentou com um sorriso, mas depois congelou no lugar no segundo em que viu Damuel. Ela olhou para mim com olhos chorosos, tremendo um pouco.

— Irmã Myne, quem poderia ser esse cavalheiro bem-vestido?

— Ele é o cavaleiro servindo como meu guarda-costas. Ele é muito gentil e sério sobre seu trabalho, e não vai maltratar as mulheres ou crianças aqui. Certo, Sir Damuel?

— Claro. Juro como cavaleiro que não quero fazer mal ou tenho má vontade com ninguém daqui.

Wilma só tinha experiência com sacerdotes azuis cruéis e nobres nojentos, que vinham ao orfanato em busca de flores, então ela permaneceu de guarda contra Damuel, enquanto nos convidava para entrar.

— Está muito quente aqui — observou Damuel, seus olhos arregalados de surpresa.

Graças aos nossos esforços, durante os preparativos de inverno, a fornalha no refeitório estava queimando intensamente, aquecendo toda a sala. Todos no orfanato estavam passando seus dias no refeitório, com o prédio dos meninos permanecendo vazio, para economizar o máximo de lenha possível. Isso significava mais pessoas em um lugar, o que naturalmente aqueceu ainda mais a sala.

— Preparamos completamente o orfanato para o inverno — expliquei. — Este é o melhor lugar para todos eles estarem.

Uma sessão da escola do templo estava sendo realizada em um canto, enquanto os aprendizes, que já haviam aprendido suas letras, estavam dando duro no trabalho manual de inverno em outro canto.

— Oh, eles já começaram. Tchau, Myne! Preciso ir! — exclamou Tuuli.

— O mesmo aqui — disse Lutz, com um aceno de cabeça.

Tuuli dirigiu-se para a sessão da escola do templo, enquanto Lutz foi para o canto do trabalho manual.

Eu mesma me dirigi para um lugar onde eu pudesse ver a sala de aula (leia: mesa), de uma distância suficiente para que eu não ficasse no caminho deles.

— Aprendiz, o que eles estão fazendo? — Damuel apontou para o canto em que estava a sala de aula, com um olhar curioso no rosto.

— É aí que estamos ensinando as crianças a ler e escrever.

— Você está ensinando órfãos a ler e escrever? Mas por quê?

Neste mundo, apenas pessoas de posição relativamente alta e aqueles que trabalhavam com elas, aprendiam a ler e escrever. Do ponto de vista deles, não fazia sentido ensinar essas habilidades aos órfãos.

No entanto, considerando que os órfãos tinham uma alta chance de se tornarem assistentes de padres azuis, eles eram mais propensos a precisar saber ler e escrever do que a maioria dos artesãos da cidade inferior. E, em termos de aumentar a taxa de alfabetização, seria mais eficiente começar ensinando as pessoas que mais se beneficiariam da leitura e da escrita, antes de passar para os filhos dos artesãos e assim por diante.

— Os órfãos do templo um dia serão assistentes aqui ou, de outra forma, servos no Bairro dos Nobres, então quanto mais cedo eles aprenderem a ler e fazer contas, melhor. Isso os ajudará a fazer seu trabalho um dia.

— Faz sentido. Isso significa que eles não terão que ser treinados por tanto tempo quando chegar a hora.

Enquanto observava os sacerdotes cinzentos, trabalhando como professores, ajudarem as crianças a ler as bíblias infantis, ilustrando cada letra em sua lousa de pedra à medida que apareciam, discuti o próximo livro ilustrado com Wilma. Mostrei a ela um roteiro que escrevi examinando a Bíblia espessa e extraindo as informações de que precisava sobre os deuses subordinados e organizando-os em livros separados para cada estação. Ela consertou o texto aqui e ali, adicionando algumas descrições poéticas onde elas se encaixavam.

— Aprendiz, o que é isso?

— Uma cópia da bíblia infantil que fiz para ajudar os órfãos a aprender a ler. Eles também os ajudam a memorizar os nomes dos deuses e instrumentos divinos.

— Oh?

Damuel folheou a bíblia infantil, parecendo interessado.

— Cobre o Rei e a Rainha dos deuses, mais os Cinco Eternos, e agora estou planejando fazer aqueles que cobrem os deuses subordinados. Seus nomes são importantes para as bênçãos.

— Estes com certeza são convenientes. Eu mesmo tive uma dificuldade enorme em memorizar os nomes.

Damuel suspirou sobre quantos nomes alguém precisava saber para usar adequadamente a magia. Se ele teve tanto problema, então era uma aposta segura que um simples dicionário dos deuses iria bem com os nobres. Eu sorri para mim mesma, calculando mentalmente o lucro que me esperava, agora que eu tinha o apoio de um nobre.

— Quer brincar de karuta conosco, Wilma? — perguntou um órfão.

— Certamente. Irmã Myne, você gostaria de se juntar?

Parecia que era procedimento padrão jogar karuta após estudar em seus livros didáticos, já que as cartas karuta já estavam colocadas no chão. Tuuli estava olhando para algumas delas com o rosto franzido.

— Tuuli, algo pode estar te incomodando, por acaso?

Enquanto estava fora dos meus aposentos, eu mantinha minha maneira de falar de menina rica, mesmo quando falava com Lutz e Tuuli. Fui instruída a fazer isso por Fran e Rosina, então, apesar de não ser natural, me forcei a ser extremamente formal com Tuuli.

Ela franziu a testa um pouco, depois sussurrou com uma voz calma e envergonhada.

— A coisa é, eu sou a pior em karuta. Pior de todos.

As crianças no orfanato estavam jogando karuta juntas, desde que dei um conjunto para Gil, então, mesmo que eles não conhecessem as letras, eles tinham memorizado a arte.

Tuuli, por outro lado, ainda não conhecia muito bem suas letras, e era difícil para ela se acostumar com todo o simbolismo religioso. Ela estava em um campo de jogo totalmente diferente das crianças do orfanato. Elas brincavam todos os dias, enquanto Tuuli só podia vir brincar quando a nevasca não era tão forte.

— A prática é importante, e tudo o que você pode fazer é tentar até dominá-la. Posso sugerir focar apenas nos deuses dentro do livro?

Wilma havia desenhado a arte, tanto para o karuta quanto para o livro didático, e ambos estavam focados exatamente nos mesmos assuntos. Se ela não pudesse ganhar no karuta até que tivesse memorizado todos eles, ela poderia muito bem começar se concentrando nos que ela já havia memorizado para dar a ela uma vantagem.

— Farei o meu melhor.

Eu tentei minha mão em karuta também, mas as crianças eram tão boas quanto você esperaria, dificilmente era uma competição. Além disso, alguns dos aprendizes estavam perto de atingir a maioridade, e se você me perguntasse, não era justo que seus braços fossem muito mais longos do que os meus.

Meio-dia passou, e era hora da aula de costura de Tuuli. Consistia principalmente de meninas, e ela as ensinou a fazer reparos simples.

Ela já havia ensinado a turma o suficiente para que tivesse aprendido a ser uma boa professora. Os órfãos podiam reparar suas mangas desgastadas e, embora ainda estivessem vestindo roupas de segunda mão, tudo parecia muito melhor do que antes.

— Oh, Gil. Onde você vai com roupas tão grossas?

Eu podia ver uma multidão de meninos centrados em torno de Gil, todos eles vestindo roupas grossas. Pode não ter havido uma nevasca lá fora, mas ainda estava nevando um pouco.

—Lutz nos disse para preparar o ateliê para a coleta de parues.

Era costume ir coletar parues nos dias claros de inverno. Preparar-se para partir tão cedo pela manhã era um desafio, então parecia que eles estavam sendo proativos e preparando as coisas com antecedência.

— Nesse caso, prepare-se bem para que você possa reunir muitos parues.

— Sim!

Naturalmente, era a primeira vez que qualquer uma das crianças estava indo coletar parues. Dito isso, com tantas crianças à solta, com certeza conseguiriam muitas delas. Eu estava ansiosa para ver quantos eles conseguiriam.

Depois que vi os meninos correndo para o ateliê para se preparar, ouvi Tuuli soltar um grande suspiro.

— Não teremos muitos parues este ano, já que mamãe não pode ir.

Eu estava fora da equação, como sempre. Mamãe estava grávida a tempo demais para subir em qualquer árvore e papai trabalhava o suficiente para que não houvesse garantia de que ele estaria disponível. Tuuli estava sozinha, e ela tinha a sensação de que não haveria nenhum doce esperando por ela neste inverno.

— Tuuli, você não ia acompanhar as crianças do orfanato? Eu antecipei dar a você a parte da nossa família em parues como agradecimento.

Seria um pouco demais esperar que Lutz liderasse todas as crianças sozinho. Meu plano era que Tuuli ajudasse, com o pagamento dela sendo a parte da nossa família.

— Isso parece ótimo! — Tuuli exclamou, seus olhos brilhando. — Ufa. Eu tinha certeza de que teria que durar o inverno inteiro sem nenhum bolo de parue.

Isso se tornou uma tradição em nossa casa, pegar o suco dos parues, extrair o óleo, e depois fazer bolos de parue com as sobras. Eu tinha a intenção de fazer o mesmo no orfanato esse ano, motivo esse que eu tinha comprado grandes assadeiras de metal.

— O que são parues, aprendiz?

Damuel perguntou curioso, sem ter ideia sobre o que estávamos falando. Isso mostrou que nobres não iam à caça de parues.

Pensei em um nobre tentando subir em uma árvore com um sorriso. Suas mangas frouxas iriam atrapalhar.

— São frutas que só podem ser colhidas das árvores na manhã dos dias claros de inverno. Sua doçura é conhecida na cidade baixa.

— Irmã Myne, os parues são realmente tão doces?

As crianças, que estavam cercando Wilma, ouviram a palavra mágica “doce” e se reuniram ao meu redor, os olhos brilhando de antecipação. Havia tantas bocas para alimentar no orfanato que raramente comiam algo doce, então o pensamento de parues doces praticamente os fazia babar.

— Ah, sim, eles são realmente muito doces. Eu sempre gostei muito deles.

— Uau, mal posso esperar!

— Leve-nos também, Tuuli!

As crianças avançaram, querendo ir com Lutz e Tuuli.

Ela sorriu para todos eles.

— Uhum, todos nós podemos ir juntos. Mas temos que ir para a floresta super cedo, então vocês vão precisar acordar muito cedo também! Vocês podem fazer isso?

— Nós podemos fazer isso!

E assim, após vários dias de acalorada antecipação, o tempo finalmente melhorou. A luz do sol deslumbrante brilhou desde o início da manhã, refletindo a neve e enchendo o mundo com uma radiante luminosidade, que eu podia ver mesmo através das cortinas da minha cama.

Pulei da cama antes que Delia pudesse vir me pegar, corri para a escada e me inclinei sobre o corrimão para gritar até o primeiro andar.

— Gil! Gil! É dia de coletar parue! Vá dizer às crianças no orfanato! Depressa! Preparem-se!

Gil, que já havia acordado e se vestido, gritou de volta “Entendi!” e saiu correndo de seu quarto. Delia saiu correndo do quarto também, agarrando meu braço com um olhar furioso no rosto.

— Irmã Myne! Por favor, fique na cama até eu te acordar! E você não deveria se inclinar sobre o corrimão em suas roupas de dormir assim! Nossa! Quantas vezes eu tenho que te dizer tudo isso?!

— Delia, hoje é dia de coletar parues. Lutz e Tuuli estarão aqui em breve. Eu tenho que ir me trocar imediatamente.

As pessoas na cidade baixa estariam correndo para se preparar, antes que os portões se abrissem no segundo sino. Lutz e Tuuli estariam aqui em breve, sem dúvida. Mas contar isso a Delia fez seus olhos se estreitarem e sua voz se afiar.

— Isso não faz parte da sua agenda!

— Dias claros na nevasca dependem dos caprichos de Ewigeliebe, o Deus da Vida. Ninguém pode agendar eles.

Eu apressadamente pedi para Delia trocar de roupa para que eu pudesse esperar por Tuuli e Lutz. O café da manhã poderia esperar até que eu os visse partir. Fran, vendo como eu estava nervosa, começou a se preparar para os visitantes.

Minha previsão estava certa sobre isso, e Tuuli veio correndo, quando eu normalmente estaria tomando café da manhã. Eu podia ver o papai atrás dela.

— Bom dia, Myne! Papai vem conosco, ele tem hoje de folga.

—Papai, é tão bom ver você!

No momento em que vi o papai entrar no corredor, corri e pulei em seus braços. Ele me pegou e me levantou até ficarmos cara a cara. Esfreguei a barba dele com as mãos.

— Parece que você está indo bem, Myne. Pegou alguma febre ultimamente?

— Nenhuma mesmo. Fran me leva para a cama imediatamente, quando começo a me sentir doente, e sempre que eu realmente fico presa na cama, eles me fazem beber uma poção super nojenta. Eu nem tenho tempo para pegar febre.

— Isso é o que eu gosto de ouvir.

Papai sorriu para mim, e enquanto eu dizia a ele como as coisas estavam ultimamente, Tuuli tirou um frasco do bolso.

— Myne, você mencionou que acabou, certo?

Papai me colocou no chão para que eu pudesse olhar o pote. Era o pote que eu tinha colocado a levedura natural dentro. Tuuli cuidou dele enquanto eu estava longe de casa.

Abracei o pote um pouco quente perto de mim.

— Obrigada, Tuuli.

— Nós só passamos para te dar isso e dizer oi antes de irmos para a reunião. Lutz já está no orfanato!

— Okay. Certifique-se de encontrar um monte deles! Estarei esperando com muito pão fofo no almoço.

Eu vi os dois saírem, então coloquei a mão na minha bochecha sorridente. Mesmo um pouco de tempo com minha família aqueceu meu coração. E agora era hora de me preparar para fazer suco e bolos de parue.

— Fran, você poderia entregar isso para Ella? E informe-a que vou almoçar com Tuuli, Lutz e papai. Quero que ela faça um pão fofo para mim.

— Entendido.

Uma vez que Fran tinha o fermento, me virei para Rosina.

— Rosina, assim que terminarmos a prática de fespiel, vá até a Wilma e diga-lhe para começar a se preparar para os bolos de parue.

— Como quiser.

Pratiquei fespiel até o terceiro sino, depois fui ajudar o Sumo Sacerdote. Ele me disse que eu parecia não naturalmente feliz, a ponto de ser desagradável, e eu respondi dizendo que de fato eu estava, antes de começar a trabalhar. Só de pensar em almoçar com Tuuli, Lutz e papai quando eles voltarem, foi o suficiente para me fazer irradiar alegria.

O quarto sino tocou em pouco tempo, significando meio-dia. Damuel me acompanhou aos meus aposentos, depois voltou direto para o quarto do Sumo Sacerdote.

— Vou almoçar agora. Certifique-se de não sair do seu quarto enquanto eu estiver fora.

— Entendido, Sir Damuel.

Damuel almoçava no quarto do Sumo Sacerdote, já que a cozinha dos meus aposentos não tinha comida suficiente para atender ao homem adulto que havia sido tão repentinamente jogado no grupo.

Ella mandou dizer que o almoço estava pronto, e esperei por todos, enquanto balançava animadamente no meu assento.

— Estamos de volta, Myne! E temos muitos deles!

— Sim!

Os três voltaram com grandes sorrisos de satisfação. As táticas de ondas humanas foram tão eficazes para reunir parues quanto eu esperava, e eles realmente encontraram uma tonelada deles. Mastigamos o pão macio feito com o fermento que Tuuli me trouxe, enquanto falávamos sobre quais eram nossos planos da tarde.

— Myne, vamos espremê-los mais tarde, mas onde devemos fazer isso? No ateliê? Ou no refeitório? — Lutz perguntou.

— Podemos espremê-los bem no refeitório, mas acho que seria mais rápido tirar o óleo usando as prensas do ateliê, não?

O ateliê tinha prensas para tirar água do papel, e com o papai e os sacerdotes cinzentos ajudando, não precisaríamos esmagar os parues com martelos antes de tirar o óleo. Mas minha sugestão fez Lutz hesitar.

— Os parues são muito duros quando estão frios, então tenho a sensação de que apenas usar martelos na sala de jantar quente funcionará melhor.

— Sim, com tantas pessoas, podemos muito bem fazer tudo no refeitório, se tivermos os martelos para isso.

Por sugestão de Lutz e papai, decidimos fazer tudo no refeitório. Tuuli, mais preocupada com o que vinha após fazer suco com os parues, olhou para mim ansiosamente.

— Onde vamos assar os bolos de parue? No porão do prédio das meninas? Ou no ateliê?

— Eu estava planejando usar o porão. Se Ella soubesse sobre eles e espalhasse a receita pela cidade, todos, alimentando seus animais com sobras de parue, estariam em apuros, certo?

— Sim, definitivamente. — Lutz franziu o rosto, pensando em suas galinhas.

As sobras de parue eram perfeitas para alimentar animais durante o inverno. Se as pessoas começassem a cozinhar com eles em vez de dar-lhes basicamente de graça, todo mundo criando animais estaria em grandes problemas. Seria melhor se aproveitássemos os bolos de parue sozinhos. O segredo deveria estar seguro se os fizéssemos no porão do orfanato.

— Vamos dividir nossas partes dos parues e deixá-los todos prontos no refeitório, então.

— Ok! — exclamou Tuuli. — Vou ensinar todas as meninas a fazer bolos de parue.

Assim que terminamos o almoço, os três correram para o orfanato para começar o trabalho. Tive que esperar o Damuel voltar antes de poder ir com eles.

Como sempre, Delia era a única que ficava nos meus aposentos, já que não queria ir para o orfanato.

— Aprendiz, o que diabos está acontecendo aqui?

Damuel enrijeceu após olhar ao redor do orfanato. Em um canto havia crianças fazendo buracos na fruta e derramando o suco branco dentro de copos. Enquanto isso, em outro canto, vários sacerdotes cinzentos estavam esmagando violentamente as frutas suculentas com martelos. Para alguém que não estava familiarizado com os parues, certamente era uma visão bizarra.

— Estamos tirando o suco de fruta dos parues e martelando a fruta suculenta ali para tirar o óleo. As sobras no final fazem doces deliciosos e tenho certeza de que as meninas estão trabalhando duro para cozinhá-los no porão.

A lição de Tuuli devia estar indo bem, a julgar pelo aroma doce e fofo que emanava do porão. Elas deveriam fazer bolos de manteiga, misturando o leite de cabra e os ovos, que pedi a Wilma naquela manhã, com suco de parue. Fechei os olhos e inalei profundamente, enchendo o nariz com um cheiro doce.

Pouco depois de pedir a Rosina e Fran que preparassem os pratos, Tuuli subiu as escadas com um prato empilhado de bolo de parue.

— Ah, você já está aqui? Perfeito. Já estamos cozinhando muitos deles.

Atrás de Tuuli havia outro aprendiz, carregando um prato igualmente empilhado com bolos de parue. Ambos colocaram os pratos na minha frente.

— Fique de olho, Myne. Certifique-se de que ninguém pegue nada antes de terminar — disse Tuuli, e eu balancei a cabeça com um sorriso.

Não havia ninguém no orfanato que arriscaria pegar comida de uma aprendiz de donzela azul do santuário sem permissão. No mínimo, eles sabiam que não comeriam mais depois do primeiro.

— Uau, cheira tão bem!

— Eu quero pegar um!

Algumas das crianças que estavam preparando os parues correram após cheirar os bolos de parue.

— Nada de comer até que todo o trabalho seja feito. Lembrem-se: aqueles que não trabalham, não comem.

Meu lembrete enviou as crianças correndo de volta para seus locais de trabalho e, em meio a seus passos, ouvi uma forte respiração vindo de trás de mim. Virei-me por instinto e vi Damuel olhando para os bolos de parue.

— O que é isso, aprendiz.?

Estava escrito em seu rosto que ele queria comer um. Eu teria pensado que, como um nobre, ele tinha açúcar e podia comer doces com alguma regularidade, então eu só podia adivinhar que ele estava apenas interessado em experimentar algo novo.

— Bolos de Parue, feitos de parues. Esta deve ser a sua primeira vez os vendo, se você nunca teve parues antes. Você gostaria de comê-los conosco?

— Ahem! Bem. Estou um pouco interessado no que as pessoas comem aqui, já que virei aqui com bastante frequência a partir de agora.

Quando todos os parues terminaram, as meninas e as crianças trouxeram o suco, o óleo e as sobras para o porão, enquanto os meninos levavam as ferramentas que haviam usado de volta ao prédio dos meninos. Fran e Rosina dividiram os bolos de parue e começaram a distribuí-los para as crianças, que estavam alinhadas com os pratos na mão. Pedi a Gil para dar um bolo de parue para Delia, e reservei pratos para as crianças que estavam ajudando Ella na cozinha dos meus aposentos.

Todos estavam sentados no refeitório com pratos na frente deles. Fran havia colocado pratos e talheres retirados de meus aposentos, na minha frente e de Damuel.

— Agora, vamos orar.

Com minhas palavras, todas as crianças cruzaram os braços na frente de seus peitos e começaram sua oração pré-refeição.

— Ó poderoso Rei e Rainha dos intermináveis céus que nos agraciam com milhares e milhares de vidas para consumir, ó poderosos Cinco Eternos que governam o reino mortal, ofereço graças e orações a você e participo da refeição tão graciosamente fornecida.

Papai e Tuuli ouviram a oração suavemente com olhares atordoados em seus rostos. Foi a mesma oração que eu mesma memorizei. Olhei para Damuel e vi que ele também estava fazendo a oração sem qualquer hesitação. Parecia que os nobres tinham que dizer as mesmas orações.

Após terminar a oração, as crianças começaram a enfiar os bolos de parue em suas bocas como se fosse uma corrida. Eu mesma dei uma mordida enquanto observava.

— Uau! Tão bom!

— Tão doce!

As crianças soltaram gritos de alegria enquanto se aconchegavam na deliciosa guloseima, mas Damuel, em vez disso, congelou ao meu lado. Ele engoliu em seco, os olhos bem abertos.

— Aprendiz, todos na cidade baixa comem isso?

— Eles não. Este é um deleite especial, só para nós. Você gostou? — Perguntei.

Damuel soltou um suspiro lento.

— É muito bom. Sou só eu, ou as crianças aqui vivem como nobres? Eles estão comendo doces como esses e aprendendo a ler e escrever.

— Este é um orfanato. Imagino que não vivam nada como nobres. Eles mesmos reuniram esses parues de uma floresta nevada no início da manhã. Eles só podem ser coletados na manhã dos dias ensolarados de inverno, e não são vendidos em nenhum lugar.

Damuel continuou comendo seu bolo, com um olhar atordoado no rosto e, a partir de então, sempre fazia questão de ir ao orfanato nos dias ensolarados de inverno. Parecia que ele gostava bastante de bolos de parue.

E ele não era o único, todos no orfanato os amavam.

— Irmã Myne, estes estão deliciosos.

— Quando chegará o próximo dia ensolarado?

— Ainda há muitas sobras de parue, — respondi — para podermos fazer mais depois. E as sobras também podem ser usadas para outras receitas, então aguarde ansiosamente.

Como resultado de eu ensinar Wilma e os outros cozinheiros do orfanato a receita de bolo de parue, que eu havia ensinado à família de Lutz, a batalha por parues no orfanato tornou-se mais intensa do que nunca.

Fim da leitura

Capítulo 154 concluído

CAPÍTULO 154 - 153