Ascendance of a Bookworm — Capítulo 161: CAPÍTULO 161 - 160

Ascendance of a Bookworm
Cap. 161
0%
Ascendance of a Bookworm

CAPÍTULO 161 - 160

Capítulo 161

4.141 palavras~18 min de leitura

Ascendance of a Bookworm – Capítulo 160

Oração da Primavera

Não demorou muito para Sylvester se cansar do meu chilrear de “puhi” e parar de me cutucar. Mas, na realidade, parecia que, em vez de ficar entediado, seu interesse havia acabado de mudar para outra coisa.

— O que é isso? — ele murmurou antes de puxar meu enfeite de cabelo para fora. Antes que eu pudesse reagir, meu cabelo estava caindo atrás de mim. Levantei a cabeça e vi que Sylvester estava olhando por cima do enfeite de cabelo ornamental, que minha família havia feito para mim. Ele parecia ser um adulto com vinte e poucos anos, e, ainda assim, seu comportamento era exatamente o de um garoto selvagem da escola primária, imprevisível e desenfreado.

Ele vai quebrá-lo! Percebi, e o sangue escorreu do meu rosto.

— Por… por favor, devolva.

Estendi a mão. Meu apelo fez Sylvester sorrir como o Gato Risonho; ele levantou a mão mais alto do que eu podia alcançar e sacudiu o enfeite de cabelo, dizendo-me para tentar pegá-lo. Tanto quanto eu podia dizer, ele não tinha absolutamente nenhuma intenção de devolvê-lo para mim.

— Devolva!

Corri atrás de Sylvester, pulando para tentar agarrar o enfeite de cabelo, enquanto ele o movia para mantê-lo fora do alcance. Fiquei sem fôlego em pouco tempo.

— Eu estou… pedindo a você… para devolvê-lo… É o meu… enfeite de cabelo… O enfeite de cabelo que meu pai… e minha mãe… e minha irmã fizeram.

Nossa. Odeio garotos assim.

Olhei para o enfeite de cabelo, segurado acima de mim e cerrei um punho, os olhos se estreitaram. Eu podia sentir a mana dentro de mim aquecendo todo o meu corpo, surgindo loucamente, enquanto a raiva me consumia.

— Ahh! Aprendiz, não! — Damuel gritou em pânico, levando Karstedt e o Sumo Sacerdote a se virarem e franzirem as sobrancelhas para cima, com raiva. Eles pegaram as suas varinhas de maestro brilhante e as deslizaram pelo ar.

— Seu tolo! Eu disse para não a provocar demais!

— Não azucrine essa pequena criança!

Dois pescotapas certeiros pousaram na cabeça de Sylvester com um som muito agradável. Suas varinhas brilhantes se transformaram em clavas diante dos meus olhos. Engasguei ao pensar em quanto dano eles devem ter causado, mas o próprio Sylvester apenas deu de ombros.

— Por que tanta raiva? Eu estava apenas brincando um pouco.

Sylvester não havia aprendido sua lição, mas, agora que eu sabia que Karstedt e o Sumo Sacerdote o puniriam sempre que ele fosse longe demais, toda a raiva fervendo dentro de mim simplesmente desapareceu.

O Sumo Sacerdote arrancou o enfeite da mão de Sylvester e o devolveu para mim.

— Você pode colocar isso de volta em si mesma, eu imagino?

— Sim. Obrigada, Sumo Sacerdote.

Eu rapidamente amarrei meu cabelo de volta com o enfeite de cabelo. Sylvester observou com interesse, depois estendeu a mão novamente. Karstedt afastou a mão com um rugido, depois apontou para o temeroso Damuel.

— Divirta-se com Damuel, não com Myne. Ele é feito de coisas muito mais robustas, — disse ele.

O Sumo Sacerdote concordou, expulsando Sylvester.

— De fato. Vá brincar com Damuel no canto. Myne, você vem aqui.

E assim, após me pegar e me levar para sua mesa, o Sumo Sacerdote retomou sua reunião com Karstedt. Eles continuaram examinando o mapa, ignorando descaradamente os gritos agonizados de Damuel.

Falando nisso, o mapa espalhado pela mesa me fez soltar um suspiro espantada. Era muito mais detalhado do que o que eu tinha visto na Guilda dos Comerciantes. Aquele só tinha mostrado os nomes das cidades e estradas, então esta foi a primeira vez que vi um que realmente retratava todo o ducado.

O ducado em si era longo, mas fino, estendia-se para o norte e sul, com algumas áreas coloridas de vermelho e outras de azul. Parecia que as áreas ao redor das cidades eram principalmente vermelhas, enquanto havia mais azul quanto mais longe delas você ia.

O que significam as cores?

Eu estava curiosa, mas a discussão deles parecia séria o suficiente para que eu achasse melhor manter meu silêncio e apenas continuasse olhando para o mapa.

— Sim, isso deve servir.

— Vamos embora, então.

Depois que Karstedt e o Sumo Sacerdote concordaram em tudo, era hora de ir para o Portão dos Nobres.

— Damuel, carregue Myne. Sylvester, pegue isso. E Karstedt, isso.

Karstedt e Sylvester saíram da sala carregando grandes bagagens, Damuel os seguia, me levando em seus braços.

Eu sussurrei em seu ouvido.

— Sir Damuel, eu gostaria de ficar o mais longe possível daquele padre azul.

— Você não tem ideia do quanto eu concordo.

Damuel e eu nos demos bem nesse assunto. Ele se afastou um pouco de Sylvester, em guarda. Parecia que, apesar de ser um padre azul, a família de Sylvester tinha uma posição esmagadoramente mais alta do que a de Damuel.

Eu queria ficar o mais longe possível de Sylvester, com medo de que ele se tornasse outro Shikicoza, quando estivesse com raiva, mas ele seguiu-nos ativamente.

— Vocês dois não estão sendo um pouco frios comigo?

— Deve ser sua imaginação — respondi, enquanto procurava por alguém que pudesse cuidar de Sylvester. Mas, Karstedt não estava em lugar nenhum, já tendo ido adiante. Olhei para trás, por cima do ombro de Damuel, e vi o Sumo Sacerdote nos alcançando, tendo terminado de dar suas ordens finais aos seus assistentes.

— Sumo Sacerdote, — choraminguei, o fazendo esfregar suas têmporas.

— Sylvester, mantenha distância da Myne. Não quero lidar com ela desmaiando antes mesmo que a Oração da Primavera tenha começado.

— Ela teria que ser muito fraca para desmaiar assim. Isso não é meio patético? — Sylvester cutucou minha bochecha, provavelmente porque eu estava mais perto de sua altura, agora que Damuel estava me carregando.

O Sumo Sacerdote afastou a mão e deu a Sylvester um olhar frio.

— Sim, está certo. Myne é tão fraca e doente que todos devemos tomar muito cuidado ao lidar com ela, por mais tedioso que seja. Não me faça repetir isso.

Karstedt abriu o Portão dos Nobres e estava nos esperando na praça, do outro lado. Ele, Damuel e o Sumo Sacerdote convocaram bestas de suas feystones, enquanto o Sumo Sacerdote dava instruções.

— Você lidera, Karstedt. Myne e Damuel ficarão no meio, enquanto Sylvester e eu seguiremos por trás.

— Isso soa bem para você, aprendiz? — perguntou Damuel.

— Sir Damuel, você não estava disposto a me proteger do Irmão Sylvester?

Damuel não me protegeu das provocações de Sylvester. Ele dificilmente parecia um guarda-costas confiável. Eu me sentiria muito mais segura cavalgando com o Sumo Sacerdote, para ser honesta.

— Isso é porque… — Damuel congelou no meio da frase. Ele pensou por um momento se deveria continuar, depois murmurou um “Perdoe-me”.

A besta de Damuel era um cavalo alado. Fiquei de costas, então Damuel sentou-se atrás de mim e tomou as rédeas. O cavalo abriu as asas e voou atrás do grifo de Karstedt, que havia partido primeiro.

Assim que sobrevoamos a cidade baixa e passamos pelas paredes externas, o grifo imediatamente começou a descer. Estávamos indo para a mansão de inverno da cidade agrícola mais próxima do portão sul, a mesma cidade que meu bairro foi no dia de abate dos porcos. A estrutura era alta e larga como uma escola primária centenária, com um campo que se assemelhava a um campo esportivo.

Mesmo do alto do céu, eu podia dizer que uma tonelada de pessoas estavam reunidas lá. De relance, parecia cerca de mil pessoas. Enquanto descíamos para a praça, as pessoas no meio abriram caminho para liberar espaço para nós.

Karstedt pousou graciosamente na clareira recém-formada e dispensou sua besta, quando o cavalo alado de Damuel desceu ao lado dele. Karstedt me pegou de suas costas, então Damuel escorregou e dispensou sua besta também.

— Saiam do caminho! — Sylvester gritou de cima enquanto o leão do Sumo Sacerdote descia. Karstedt deu alguns passos para trás, ainda me segurando em seus braços, e olhou para cima, quando uma coisa azul saltou do leão com um grito alto.

— O quê?!

— Wow?!

A multidão se agitou com o súbito desenvolvimento e, enquanto todos observavam, a figura azul virou no ar, antes de pousar e fazer uma pose. Sua energia parecia contagiosa, a excitação correu pela multidão e todos aplaudiram como se estivessem assistindo a um espetáculo.

— Aquele idiota está se empolgando.

Senti uma vaga sensação de frustração na voz de Karstedt, e logo o leão do Sumo Sacerdote pousou como se estivesse tentando capturar Sylvester para esmagá-lo. Mas ele simplesmente se esquivou com uma manobra acrobática e fez outra pose.

— Oooooh!

A multidão aplaudiu ainda mais. Sylvester tinha um sorriso muito satisfeito no rosto, como um garoto da escola primária que acabara de mostrar seu talento especial.

— A Oração da Primavera é uma cerimônia onde os sacerdotes dão apresentações ao povo? — Murmurei, surpresa com o quão diferente Sylvester era dos sacerdotes azuis que eu conhecia.

Karstedt balançou a cabeça com uma expressão sombria.

— Myne, não dê atenção a ele. Ele não é um exemplo a seguir. Ou melhor, ele é um exemplo de algo que você deve se esforçar para nunca se tornar.

— Imagino que Sylvester seja um nobre superior, considerando o quão casualmente ele interage com você, Senhor Karstedt. Ele vai me fazer exigências irracionais, como o falecido Shikicoza fez, antes?

Em seguida, perguntei como deveria lidar com alguém que fez o que queria com aqueles abaixo deles, sem ouvidos para os protestos, o que fez Karstedt parecer um pouco conflituoso.

— Ele não é um homem violento. Você pode ter certeza de que ele não vai machucá-la. Acontece que ele é irracional. Mais como uma dor de cabeça ambulante.

— Se Sylvester fizer exigências irracionais de mim, posso vir chorar por sua ajuda, futuro pai adotivo? — Perguntei, inclinando minha cabeça levemente para o lado.

Karstedt abriu os olhos, depois me deu um largo sorriso.

— Com certeza. Venha a mim quando quiser. Destruirei qualquer vilão que faça minha filhinha adotiva chorar.

Meu futuro pai adotivo é um cara muito confiável.

Depois que garanti, furtivamente, o apoio de Karstedt, o Sumo Sacerdote dispersou seu leão e começou a fazer seu caminho em direção a uma pequena plataforma, em uma extremidade do campo. As pessoas se separaram enquanto ele caminhava, formando um caminho, em direção à plataforma, para ele. Enquanto isso, Sylvester tirou um grande cálice com cerca de oitenta centímetros de altura da bolsa nas costas, o segurando reverentemente enquanto seguia atrás do Sumo Sacerdote.

Karstedt me colocou no chão e me orientou a segui-lo, mas logo percebeu o quão lenta minha velocidade de caminhada era e me pegou de volta em seus braços, em segundos. Ele então caminhou rapidamente, em direção ao palco, também. Parecia que minha velocidade de caminhada realmente era insuportável.

Mas só sou lenta porque adultos têm pernas mais longas que eu. Não é minha culpa.

Após me colocar no palco, Karstedt e Damuel se moveram para a frente e viraram-se para a multidão, com um olhar duro no rosto, para mostrar estarem falando sério. Sylvester entregou o grande cálice dourado, um instrumento divino, ao Sumo Sacerdote, que então o colocou em cima de um grande estande, colocado no meio do palco.

— A Oração da Primavera começará agora. Chefes desta cidade e seus vizinhos, venham à frente.

Ao chamado do Sumo Sacerdote, cinco homens, cada um carregando o que pareciam ser grandes baldes de uns 10 litros de volume, com tampa, subiram ao palco.

— Myne, é hora de trabalhar.

O Sumo Sacerdote me pegou e colocou no estande com o cálice, já que eu não conseguia alcançá-lo, sozinha, e andei de joelhos através do pano vermelho que tinha sido espalhado pelo estande. O cálice parecia uma taça de vinho. Grandes feystones foram incorporadas ao longo de sua borda redonda, com as menores pontilhando o caminho ao longo de sua haste, elaboradamente decorada até a base.

Me acomodei na frente do cálice e coloquei minha mão nas feystones em sua base.

— Ó Deusa da Água Flutrane, portadora da cura e mudança. Ó doze deusas que servem ao seu lado. A Deusa da Terra Geduldh foi libertada do Deus da Vida Ewigeliebe. Rezo para que conceda à sua irmã mais nova o poder de fazer nascer uma nova vida.

A multidão de observadores se mexeu quando coloquei minha mana no cálice, fazendo-o irradiar com uma luz dourada brilhante.

— Eu ofereço a vocês nossa alegria e canções de louvor. Ofereço a vocês nossas orações e gratidão, para que possamos ser abençoados com sua proteção purificadora. Peço que preencha as mil vidas sobre o reino mortal com sua cor divina.

Assim que terminei a oração, tanto Sylvester quanto o Sumo Sacerdote inclinaram suavemente o cálice. Um líquido verde brilhante foi derramado sobre sua borda e colocado nos baldes dos chefes da cidade alinhados.

— Louvada seja Geduldh, a Deusa da Terra e Flutrane a Deusa da Água!

Uma vez que o primeiro balde foi preenchido e tampado, uma parte da multidão começou a gritar orações e gratidão aos deuses. Eles provavelmente eram os moradores da cidade que tinham acabado de ter seu balde preenchido, como gritos semelhantes surgiram de uma multidão diferente, quando o segundo balde foi preenchido. Tomei o cuidado de manter minhas mãos na base do cálice e continuar derramando mana até que o quinto balde tivesse sido preenchido.

— Isso será suficiente, Myne.

Com as palavras do Sumo Sacerdote, finalmente tirei minhas mãos do cálice inclinado, que foi então reposicionado, antes que o Sumo Sacerdote me tirasse do estande. Eu estava no centro, tendo sido a única a oferecer a minha mana, Sylvester e o Sumo Sacerdote, de pé, um passo atrás de mim, para ambos os lados.

— Louvados sejam os deuses! — Gritou o Sumo Sacerdote. Eu reflexivamente fiz a pose de oração idiota, assim como todos aqueles no campo. Os habitantes da cidade provavelmente estavam acostumados a realizar esta pose todos os anos. Eles fizeram isso muito mais naturalmente do que qualquer um na cidade baixa fez.

— Assim concluímos esta Oração da Primavera. Mostrem aos deuses sua obediência, e viva corretamente com a nova vida que foi concedida! — declarou o Sumo Sacerdote, aos muitos aplausos de euforia, tudo enquanto Sylvester enrolava o cálice em um pano e o colocava de volta em sua bolsa. Uma vez feito isso, o Sumo Sacerdote convocou sua besta de feystone e os dois saltaram para suas costas.

— Temos que ir para o nosso próximo destino, pois estamos bem ocupados este ano. Que todos sejam abençoados pelos deuses.

O Sumo Sacerdote circulou seu leão branco em volta da multidão uma vez, pó de ouro esvoaçando sobre eles. Enquanto isso, Karstedt e Damuel convocaram suas próprias bestas. Damuel me pegou e me colocou em seu cavalo alado, que abriu suas asas antes de subir para o céu, deixando a cidade agrícola muito atrás de nós.

Depois disso, viajamos para as mansões de inverno de quatro cidades agrícolas diferentes, completando a Oração da Primavera em cada uma delas. Quando terminamos, o sol estava se pondo e eu estava exausta.

— Agora só precisamos chegar onde vamos ficar. Aprendiz, não durma. Você vai cair — repreendeu Damuel, e eu acenei com a cabeça caída, enquanto apertava as rédeas.

— Myne, acorda.

— Quê?!

Acordei com a voz afiada do Sumo Sacerdote e olhei em volta, me encontrando na frente de uma grande propriedade.

— Onde é esse lugar?

— A mansão de verão do Barão Blon.

De acordo com o Sumo Sacerdote, nobres encarregados da terra pelo Arquiduque, ficavam em suas mansões perto das aldeias agrícolas desde a Oração da Primavera até o Festival da Colheita. Eles voltavam ao Bairro Nobre durante o inverno para pagar impostos e dar um relatório sobre o último ano, enquanto todos os nobres da cidade pudessem trabalhar coletando informações sobre tudo o que aconteceu nesse período.

— O prédio ali é onde os nobres vivem, enquanto os padres visitantes ficam nesta propriedade — continuou o Sumo Sacerdote.

Já que os padres visitavam todos os anos durante a Oração da Primavera e o Festival da Colheita, nobres com terra no ducado tinham locais preparados para os nobres visitantes ficarem em suas casas. Pode-se dizer que era um meio de manter os padres separados deles, já que, embora eles tenham nascido de nobres, eles tecnicamente não eram nobres. Como prova disso, os padres só seriam recebidos por um representante quando chegassem. Era isso. O nobre nem sequer viria cumprimentá-los.

— Acredito que Arno já realizou a saudação e mandou abrir as portas para nós.

A propriedade tinha várias carruagens estacionadas na frente, e o fato de que todas estavam vazias, me permitiu concluir que nossos pertences já haviam sido levados para dentro.

— Bem-vindos.

Nossos assistentes nos cumprimentaram, juntos, quando abrimos a porta da propriedade. Havia vários rostos que eu não reconhecia, mas eu podia imaginar que eram os assistentes de Sylvester.

Arno, sozinho, caminhou para a frente e sussurrou para o Sumo Sacerdote.

— Gostaríamos de nos preparar para a refeição, mas há apenas dois refeitórios. O que vamos fazer?

— Vamos todos comer juntos no salão de jantar maior. No entanto, certifique-se de que Myne e Sylvester estejam sentados longe um do outro.

— Como queira.

Uma cidade agrícola ainda não teria comida suficiente para sustentar uma comitiva inteira de padres e seus assistentes, tão cedo, após a hibernação de inverno. Eles nos venderiam alguns vegetais, ovos e leite, mas tivemos que trazer alguns de nossos próprios grãos e óleo. Essa era uma das razões pelas quais os padres que ficaram para trás não queriam ir à Oração da Primavera.

— Agora, então, todo mundo. Se troquem e nos reuniremos no refeitório.

Com o anúncio do Sumo Sacerdote, todos os assistentes foram para seus respectivos mestres. No meu caso, Rosina e Fran vieram correndo para mim. A visão deles me fez sentir como se estivesse em casa de novo.

— Bem-vinda, Irmã Myne. Vamos primeiro trocar de roupa.

Eles me guiaram para uma sala preparada. Padres geralmente viajavam em pares, e uma terceira sala chique ocasionalmente estaria preparada para o caso incomum onde um terceiro padre ficava junto. Desta vez, Karstedt, Sylvester e o Sumo Sacerdote estavam usando as salas chiques enquanto Damuel e eu, de posições inferiores, como éramos, ficamos em quartos que eram destinados a servos.

— Isso pode ser difícil para você, Sir Damuel, mas este quarto é maior do que a minha casa. Eu não me sinto fora do lugar aqui em nada.

O quarto poderia ser inferior para nobres, mas era muito maior do que um apartamento na cidade baixa. Não me incomodou em nada. Só ter o tapete e lençóis que tinham sido trazidos dos meus aposentos de diretora foi mais do que suficiente para mim.

Fran trouxe uma banheira de água, que tomei banho com a ajuda de Rosina. Foi incrível, já que passei quase o dia inteiro lá fora.

Uma vez que eu estava limpa, Rosina selecionou roupas da cor de grama fresca e colocou os sapatos de pano chiques, que tinham acabado de serem feitos para mim, em meus pés. Dos muitos enfeites de cabelo que preparei para a Oração da Primavera, Rosina selecionou o que Tuuli fez durante o inverno. Tinha flores amarelas, laranjas e verde-amarelado, dispostas para parecerem um buquê, essas eram as cores da primavera.

— Hugo e Ella trabalharam muito duro nesta refeição. Eles disseram que não se permitiriam ser ofuscados pelos outros chefs.

— Nesse caso, vou ter que dar tudo de mim nesta refeição, também.

Ter uma refeição com aqueles de posição nobre não seria nada além de sofrimento para mim. Rosina e Fran tinham martelado modos de agir dos nobres na minha cabeça durante o inverno, mas eu tinha certeza de que Karstedt, como meu futuro pai adotivo, estaria observando de perto cada movimento meu para ver o quanto uma plebeia poderia fazer. Havia também Sylvester para se preocupar. Quem sabia o que ele poderia dizer? Se ele fosse realmente um garoto do ensino fundamental, então, eu poderia ignorá-lo, mas como ele era alguém de um nascimento nobre de alta posição, eu não poderia arriscar isso.

— Posso voltar para o meu quarto quando terminarmos de comer?

— Se você for convidada para uma reunião pós-refeição, você tem uma posição muito baixa para recusar.

Isso me dá uma sensação ruim.

A refeição foi servida no salão de jantar maior. Todos estavam vestidos como nobres. O Sumo Sacerdote estava usando suas próprias roupas casuais, o que foi algo inesperado, já que eu só o tinha visto em vestes de padre ou um conjunto completo de armaduras. As roupas estavam arrumadas, com as mangas largas, esperadas de roupas nobres. Sylvester, que eu também só tinha visto em suas vestes de padre, mas como eu só o conheci hoje, eu não considerei a visão dele usando roupas pessoais, em qualquer lugar próximo, como importante.

— Você certamente se parece com a filha de um nobre quando está usando roupas assim — disse Karstedt após me ver. Deve ser seguro assumir que foi um elogio.

Ainda bem que ele não me rejeitou ou ficou desapontado comigo.

— Eu lhe agradeço pelo elogio, Senhor Karstedt.

— Posso ver os frutos de seu treinamento de inverno — observou o Sumo Sacerdote. — Sua conduta e fala melhoraram muito. Embora suas demonstrações francas de emoção ainda poderiam ser melhor trabalhadas.

Ele sempre seguiu seus elogios com algum tipo de crítica, então foi difícil sentir que ele estava realmente me elogiando.

— Irmã Myne, aqui está seu lugar. — Fran me guiou até uma cadeira e serviu minha comida.

— Como é que você tem comida diferente do resto de nós? — Sylvester perguntou, após ver a tigela na minha frente.

— Talvez porque as refeições foram feitas por diferentes chefs, — sugeri. — Fran, você sabe?

Fran baixou a voz e explicou.

— Das duas cozinhas aqui, Hugo e Ella receberam a menor para usar, enquanto a maior foi usada para fazer a comida nobre normal.

— Parece que minha comida foi preparada em uma cozinha separada. Dado o meu pequeno número de assistentes, faz sentido que meus chefs usem a cozinha menor.

Eu estava bem com isso, pois significava que eu tinha que comer comida que eu estava acostumada, mas Sylvester, sentado no assento mais longe do meu, estava olhando em minha direção, com os olhos cheios de curiosidade.

— Isso cheira muito bem.

— Sim, meus chefs são muito talentosos.

Todos agora tinham sua comida na frente deles, então cruzamos os braços e oferecemos uma oração.

— Ó poderoso Rei e Rainha dos céus intermináveis, que nos agraciam com milhares e milhares de vidas para consumir, ó poderosos Cinco Eternos que governam o reino mortal, ofereço graças e orações a vocês e participo da refeição tão graciosamente fornecida.

No momento em que dei minha primeira mordida, Sylvester gritou:

— Wow?! Por que você está comendo isso?!

Sem saber o que ele quis dizer, eu só inclinei minha cabeça para o lado, em confusão.

— Por que eu não iria?

— Sylvester expressou interesse em sua comida, Myne — disse o Sumo Sacerdote com um encolher de ombros. — Ele não elogiou o cheiro?

Parecia que Sylvester estava exigindo que eu lhe desse minha comida, usando os eufemismos que os nobres tanto amavam. Eu não tinha notado nada.

— Eu não vou dar tudo isso. Você pode ter metade, no entanto.

— A-apenas metade? — Sylvester olhou para mim em descrença, como se não acreditasse no que estava ouvindo. Mas eu era a única que sairia perdendo.

— Esta é a minha comida. Um orgulhoso padre azul de posição nobre como você não levaria toda a comida que uma pobre garota plebeia tem, não é?

— Claro que não. Claro.

No final, Sylvester se acomodou com metade da minha comida, sua curiosidade tirando o melhor dele. Parecia que, embora pratos meio vazios às vezes eram dados aos assistentes, ninguém doou apenas metade do que eles estavam comendo para alguém. Karstedt e o Sumo Sacerdote deram suspiros exasperados, enquanto esfregavam suas têmporas, enquanto Damuel estava congelado no lugar com uma expressão diretamente de pânico.

De acordo com o que o Sumo Sacerdote mais tarde me disse, quando alguém expressava interesse em sua comida, era costume para você então oferecer-lhe o seu prato, e esperar que ele passe de volta para você. Em outras palavras, eu deveria ter dado a ele minha tigela e esperado.

Então dar-lhe metade foi a resposta errada, hein? Ah.

Uma vez que ele terminou a sopa que eu tinha dado a ele, Sylvester exigiu, com olhos brilhantes, que eu lhe entregue meus chefs também. Mas graças ao Karstedt e ao Sumo Sacerdote entrando, consegui terminar a refeição sem nenhum dano ou falta. Eu silenciosamente agradeci aos dois por manter nossos assentos separados, e, em seguida, levantei-me.

— Devo pedir licença agora. Vou deixá-los com seus afazeres.

Eu disse minhas despedidas aos homens, enquanto se preparavam para a reunião pós-refeição e tentei voltar rapidamente ao meu quarto, mas Sylvester olhou para mim com seus olhos verdes profundos, como um predador olhando sua presa. Ele me acenou.

— Espere aí, Myne. Você vem conosco. Temos que falar um pouco mais sobre a troca de chefs.

Aaaah. Claro que ele ainda não desistiu.

Fim da leitura

Capítulo 161 concluído

CAPÍTULO 161 - 160