Ascendance of a BookwormCAPÍTULO 163 - 162
Capítulo 163Ascendance of a Bookworm – Capítulo 162
Emboscada
Quando a manhã chegou, o Sumo Sacerdote teve uma audiência com o Barão Blon, onde ele lhe daria um dos cálices menores. Era tudo o que precisávamos fazer pelas cidades agrícolas sob o domínio dos nobres. No passado, quando o templo tinha um excesso de sacerdotes e donzelas de santuário, eles também eram enviados para as cidades agrícolas de nobres. Mas a atual escassez de mana era tão limitante que esse não era mais o caso, especialmente quando eles haviam emprestado mana a outros ducados, também.
Aparentemente, só tínhamos que entregar diretamente as bênçãos do grande cálice aos chefes de cidades, que se reuniam em casas coletivas de inverno no Distrito Central, ou seja, a terra dentro do ducado governada diretamente pelo Arquiduque e nenhum outro nobre. Os nobres governantes em outro lugar poderiam ativar os cálices menores.
Se todos os nobres tinham mana e podiam encher os cálices menores, qual era o ponto do templo realizar uma cerimônia de oferta excessivamente grande e depois entregar os cálices cheios a eles? Mesmo supondo que houvesse alguma razão pela qual eles fossem incapazes de enchê-los, por que não apenas entregá-los antes que os nobres retornassem às suas províncias, para nos poupar do esforço de ter que entregá-los? Aquilo não fazia sentido.
Agi como se entendesse, mas, por dentro, eu realmente não entendia. No final, apenas balancei a cabeça e guardei isso para mim, imaginando que provavelmente havia uma explicação por trás do porquê eles faziam um trabalho tedioso sem aparentemente nenhuma razão.
Assim que o Sumo Sacerdote terminou sua reunião com o Barão Blon, passamos o resto do dia voando pela região produtora de grãos do Distrito Central, onde estavam as maiores aldeias agrícolas. Então, após realizar a Oração da Primavera em cinco mansões de inverno comuns, mais uma vez fomos para uma cidade agrícola governada por um nobre e passamos a noite. Quando a manhã chegou, o Sumo Sacerdote teve uma audiência com o nobre e entregou outro cálice.
Passamos pelo mesmo processo de Oração da Primavera no dia seguinte e no dia seguinte a esse. Então, terminamos com as cidades agrícolas do Distrito.
— A partir de amanhã, só visitaremos as mansões dos nobres, — disse o Sumo Sacerdote, com uma expressão um tanto sombria.
Geralmente viajávamos em bestas, enquanto passávamos por um território nobre, mas, por algum motivo, que estava além da minha imaginação, ocasionalmente viajávamos apenas de carruagem. E quando estávamos a caminho de algumas mansões nobres, entravamos em carruagens a uma curta distância da mansão, para agir como se estivéssemos viajando de carruagem o tempo todo.
Nesses casos, o Sumo Sacerdote me disse para esconder meu rosto sob o tipo de véu usado por filhas nobres, e quando a carruagem acidentada chegasse à mansão, apenas eu, o Sumo Sacerdote, Fran e Arno entraríamos. Sylvester e os cavaleiros ficariam para trás nas carruagens. Eu estava preocupada que Sylvester causasse um alvoroço, já que ele sempre estava tão ansioso por atenção, mas sempre esperava na carruagem, sem protestar.
— A mansão do Visconde Gerlach é nosso próximo destino, e chegaremos de carruagem. Vamos embora — disse o Sumo Sacerdote, enquanto cavalgávamos em cima de nossas bestas. Era de manhã cedo e ele acabara de entregar um cálice a um certo nobre, e agora estávamos correndo pelos céus para alcançar a carruagem que havia saído antes de nós. Ele havia explicado que as carruagens tinham ferramentas mágicas dentro delas, que permitiam que o Sumo Sacerdote detectasse sua localização de longas distâncias.
Nos reunimos com as carruagens sem nenhum problema. Sempre nos sentamos, de tal forma, que Karstedt e Sylvester estavam em uma carruagem enquanto eu estava sentada em outra carruagem com Damuel e o Sumo Sacerdote. Aparentemente, essa foi a melhor distribuição para fins defensivos e ofensivos. O combate estava totalmente fora da minha alçada, então acreditei na palavra deles.
— O Visconde Gerlach expressou grande interesse em você, Myne. Ele pediu especificamente que visitássemos a sua terra durante a Oração da Primavera, mas sei que ele está muito próximo do Arcebispo. Você faria bem em ficar de guarda perto dele. — O Sumo Sacerdote parecia estar bastante nervoso, enquanto me instruía a puxar o véu para baixo, para cobrir ainda mais meu rosto do que o normal.
Fomos convocados para ver o Visconde Gerlach assim que chegamos, então o Sumo Sacerdote, Arno, Fran e eu fomos até a mansão, deixando as carruagens para trás.
— Aah, bom irmão Ferdinando! Obrigado por viajar tanto para me ver. Esta é a aprendiz de donzela do santuário sobre a qual ouvi tantos rumores?
Talvez devido ao viés de confirmação, a voz do homem soou pegajosa e desagradável para mim. Eu não conseguia ver o rosto dele, já que estava ajoelhada e o véu ainda cobria meu rosto. O máximo que eu podia ver, pelo canto dos meus olhos, era a parte inferior de suas pernas, mas tudo o que me dizia era que ele parecia um pouco rechonchudo.
— Você vai passar a noite, sim? — ele continuou. — Lhe dou as boas-vindas, prontamente!
— Infelizmente, estamos pressionados pelo tempo e partiremos imediatamente. Ficaremos na residência do Conde Leisegang esta noite. — O Sumo Sacerdote entregou o cálice, então interrompeu a conversa e saiu imediatamente. Ele havia lidado com todo o processo do início ao fim, então tudo terminou sem que eu visse o rosto de Gerlach.
Saímos da mansão de Gerlach antes do meio-dia, mas foi só no final daquela noite que chegamos à mansão de verão do Conde Leisegang, na província vizinha. Eu estava viajando de besta com tanta frequência que não tinha percebido o quão lentas as carruagens eram, em comparação. O Sumo Sacerdote disse que estávamos viajando de carruagem porque ele não queria que chegássemos antes que nossos assistentes terminassem de preparar nossos quartos, mas, a julgar pela maneira como ele continuava olhando para trás, achei que havia outro motivo.
Aparentemente, a província do Conde Leisegang era maior do que a de qualquer outro nobre, no ducado, mas o prédio reservado para os sacerdotes, que visitavam apenas duas vezes por ano, era tão pequeno quanto nos acostumamos, e dormi em um quarto para servos, mais uma vez. O Sumo Sacerdote me fez beber uma de suas poções inventadas, por medo do efeito que minha exaustão poderia ter na minha saúde e, como resultado, dormi profundamente até de manhã e acordei me sentindo ótima.
Naquela manhã refrescante, o Sumo Sacerdote imediatamente me chamou para seu quarto e me deu uma ferramenta mágica anti-escuta.
— Os bandidos entraram no quarto de Karstedt, tarde da noite passada, — disse ele, mas fui a única que inclinou a cabeça em confusão. Todos os outros tinham expressões sombrias, parecendo sugerir que já sabiam.
— Bandidos? Tipo, ladrões ou algo assim?
— Não, eles eram sequestradores procurando por você. — explicou Karstedt. — Eram dois homens, e eles tentaram sair no segundo em que viram que o volume na cama era grande demais para ser você. Pulei da cama no local e tentei capturá-los, mas… — Karstedt parou e olhou para mim como se fosse difícil para ele dizer o que havia acontecido a seguir.
— Eles fugiram de você?
— Não. Peguei um e o deixei com o Senhor Ferdinando, depois segui o outro de longe, pensando que pegaria as informações que pudesse. Havia cavalos na floresta a leste da mansão, e ele correu para longe em um. Chamei minha besta e fui persegui-lo, mas no segundo em que o fiz, ele explodiu junto de seu cavalo.
— Quê? — Minha mente rejeitou a última parte de sua frase, não querendo entendê-la. Ele explodiu junto do cavalo? Aquilo não fazia sentido.
Sylvester, vendo que eu havia congelado no lugar, continuou.
— E o homem que Karstedt pegou, se matou enquanto Ferdinando o estava desarmando. Quando aquele que escapou morreu, ao se explodir, tudo acabou.
— Pensei em não informá-la, mas como você é o alvo deles, decidi que seria melhor que você estivesse ciente da situação, — disse o Sumo Sacerdote. — Já que eles sabiam onde você estava ficando, podemos concluir que o Visconde Gerlach está por trás disso. Myne, fique atenta.
Ele havia declarado o culpado em um tom tão autoritário. Lentamente olhei em volta, para todos aqueles reunidos, segurando a mão contra meu peito como se para conter o medo e a ansiedade que corriam através de mim.
— Não há chance de o Conde Leisegang ser o culpado? — Perguntei, mas Karstedt derrubou a ideia com um forte aceno de cabeça.
— Sem chance nenhuma. Eles são da família da minha mãe. Eles nunca causariam problemas a ninguém que me acompanhasse.
Terminamos um café da manhã difícil de comer e partimos da mansão de Leisegang. Nossa próxima noite seria passada na província, no extremo sul do ducado. Enviamos nossas carruagens naquela direção, depois passamos a manhã e a tarde visitando uma mansão nobre após a outra.
— Agora, vamos nos reunir com as carruagens.
Terminamos nossos negócios sem nenhum problema, e o Sumo Sacerdote virou sua besta para a estrada, para que pudéssemos alcançar nossas carruagens, em direção à ponta sul do ducado.
Após um minuto voando, um feixe vermelho de luz disparou diretamente para o céu. As expressões de todos mudaram. Essa era a luz vermelha que a Ordem dos Cavaleiros costumava usar para chamar por ajuda.
— Emboscada! — rugiu Karstedt, acelerando sua besta em um instante. Seu grifo disparou direto para onde a luz vermelha tinha vindo.
— Sigam-nos! — gritou o Sumo Sacerdote, enquanto passava por nós, em seu leão.
Em pânico com a ideia de ser deixada para trás, me virei para olhar para Damuel, com as mãos nas rédeas.
— Sir Damuel, devemos nos apressar também!
— Eu não tenho a quantidade de mana necessária para ir tão rápido.
— Então use a minha. — Apertei as rédeas, desesperada para ir, e imediatamente senti minha mana fluir para fora de mim. A velocidade do cavalo alado disparou.
— Obrigado!
A estrada se entrelaçou entre uma floresta e planícies onduladas e, após um momento, pude ver um grupo de carruagens na borda da minha visão. Lá dentro estavam Fran, Rosina, Hugo e Ella, mas as carruagens estavam cercadas por uma estranha névoa negra.
— O que é essa coisa preta?! — Perguntei a Damuel. Finalmente alcançamos os outros, mas estávamos nos movendo tão rápido que eles provavelmente não podiam me ouvir.
—Essa é uma barreira do Deus das Trevas. Drena mana, então ataques baseados em magia não fazem nada. O fato de que a força de emboscada pode fazer algo assim, significa que eles devem ter nobres com eles. Atacar será difícil, até descobrirmos com que tipo de mana estamos lidando — disse Damuel, sua voz preocupada e tensa.
Foi então que cerca de cem fazendeiros, pessoas empunhando armas, talvez, saíram da floresta e correram em direção às carruagens. O próprio pensamento de que Fran e os outros estavam em perigo fez minha cabeça ficar em branco, e fiz Damuel puxar as rédeas, para trazer a besta que eu estava montando ao lado do Sumo Sacerdote.
— Sumo Sacerdote! Se sua magia não funcionar na carruagem, use-a para derrubar aqueles homens!
— Esperem! Esses podem ser cidadãos deste ducado, sabe?
Sylvester protestou, com um olhar atordoado, mas apenas dei a ele o olhar mais duro que pude. Aqueles bandidos estavam tentando machucar pessoas com quem eu me importava, e eu não me importava com quem eles eram.
— Fran e Rosina são muito mais importantes para mim do que eles! Só tenho que rezar aos deuses para fazer a magia acontecer, certo? — Pensei em qual deus eu deveria orar, quando comecei a liberar a mana reprimida dentro de mim. Ela fluiu e começou a encher meu corpo, fazendo meu anel e pulseira brilharem.
— Ferdinando! — Sylvester rugiu. — Pare-a antes que seja tarde demais!
— Nada pode impedi-la agora! — O Sumo Sacerdote respondeu.
— Nada?! Não temos ideia de quantos morrerão se ela lançar um ataque com tanta mana! Será uma declaração de guerra se o ataque dela cruzar a fronteira do Ducado! No mínimo, me dê tempo suficiente para fortalecer a barreira da fronteira!
— Ela não pode ser detida, mas podemos influenciar a direção de sua fúria. — disse o Sumo Sacerdote calmamente. Ele aproximou seu leão do nosso cavalo alado e olhou para mim. — Myne! Se você deseja proteger Fran e os outros, ore ao vento!
Como eu ainda não tinha decidido um deus para orar, a imagem da Deusa do Vento de Wilma veio à mente, acompanhada pela pesquisa que eu mesma fiz.
Schutzaria, a Deusa do Vento, era a Deusa do Outono. Uma vez que a Deusa da Primavera foi dispersa, foi ela quem protegeu sua irmã mais nova, a Deusa da Terra, enquanto o Deus da Vida recuperava sua força. Ela segurou o Deus da Vida de seu gelo e neve, com seu escudo de vento, até que a colheita terminasse. Ao contrário da Deusa da Água, que lavou a neve e o gelo que aprisionavam a Deusa da Terra, ela poderia ser chamada de uma Deusa especializada em defesa e proteção. Ela era a deusa perfeita para eu rezar agora.
Olhei para a linha de carruagens cobertas de névoa negra, depois inalei profundamente.
— Irei proteger Fran e os outros, não importa o que aconteça! Ó Deusa do Vento Schutzaria, protetora de todos. Oh, doze deusas que servem ao seu lado.
Comecei minha oração dizendo seu nome e pude sentir instantaneamente o inchaço de mana dentro de mim tomar forma. Um poder destinado a proteger o que é importante para mim, não para atacar meus inimigos, fluiu de todo o meu corpo para o meu braço esquerdo, onde começou a se mexer como um redemoinho.
— Myne! Forme o escudo sobre a barreira do Deus das Trevas, para que sua mana não seja consumida! — advertiu o Sumo Sacerdote.
Dei um pequeno aceno de cabeça, enquanto mantinha meus olhos na névoa abaixo de mim. Graças às orações, que fui forçada a memorizar para rituais, as palavras fluíram facilmente da minha boca.
— Por favor, ouça minha oração e me empreste sua força divina. Conceda-me seu escudo de vento, para que eu possa soprar aqueles que pretendem causar o mal.
A pedra amarela na pulseira que o Sumo Sacerdote me dera, brilhava mais, pois era a cor divina de Schutzaria, a Deusa do Vento. Minha mana surgiu, transformando-se em uma luz brilhante deslumbrante e disparando direto para as carruagens. Imaginei uma grande cúpula cobrindo a barreira negra, mas sem tocá-la, como sugerido pelo Sumo Sacerdote, e a mana se moveu de acordo com meus pensamentos, como tinta em um pincel. Um som metálico agudo encheu o ar e a cúpula redonda estava completa. De cima, parecia que as carruagens e a névoa negra estavam presas dentro de um escudo divino, esculpido em âmbar claro.
— Aaaaah! — Os homens armados continuaram avançando, talvez não percebendo a nova barreira ou talvez estando muito presos em seu comando para parar. Os da frente foram os primeiros a bater na barreira. Eles foram imediatamente derrubados por ventos fortes, fazendo-os voar.
— Wow?!
— O-o que foi isso?!
Alguns foram jogados para trás por vários metros, outros caíram para trás e fizeram as pessoas atrás deles tombarem como dominós. Eles olharam para o escudo de vento, em confusão, não tendo ideia do que acabara de acontecer.
— É magnífico — disse Karstedt com os olhos um pouco arregalados, enquanto observava de cima. A opinião dele sobre o escudo proteger Fran e Rosina combinava inteiramente com a minha.
— Certo?! Você também acha, senhor Karstedt? Não esperaria nada menos de Schutzaria, o escudo da Deusa do Vento! Orações de gratidão à deusa que protegeu Fran e Rosina!
— Chega de rezar! — Sylvester gritou com raiva, no segundo em que joguei minhas mãos em excitação, sobre o escudo, que era muito mais poderoso do que eu havia previsto.
Mas não era importante rezar e agradecer aos deuses depois que eles me emprestaram seu poder? Guardei esse pensamento para mim e espiei para baixo, para ver os homens armados em carga contra o escudo, mais uma vez. Eles foram levados pelos ventos fortes mais uma vez, derrubando as pessoas atrás deles, enquanto voavam de volta. Levou mais algumas cargas até que finalmente pararam de tentar.
— Eu apenas senti mana na floresta — disse Damuel, e todos olharam para ele. Sua percepção de mana significava que alguém havia tentado usá-la para interferir com o escudo de vento, ou para proteger alguém dos ventos furiosos. Disseram-me que era difícil para aqueles com muita mana detectar quantidades de mana muito menores do que as suas. Damuel, como um nobre inferior, podia sentir isso, mas ninguém mais sentia qualquer mana sendo usada na floresta.
As expressões de todos endureceram, e o Sumo Sacerdote deu suas ordens, enquanto nos olhava um por um.
— Sylvester, Karstedt e eu vamos procurar na floresta. Damuel, você fica aqui no ar e protege Myne!
— Sim, senhor! — Damuel deu um aceno firme, mas Sylvester gritou “Não!” e balançou a cabeça.
— Damuel, venha aqui um pouco! — disse Sylvester antes de simplesmente se levantar no leão do Sumo Sacerdote. Então, tão agilmente que parecia quase antinatural, ele saltou em direção às asas amplamente estendidas do nosso cavalo alado.
— Haah?! O que está fazendo?! Isso é perigoso.
Talvez por ser feito de pedra, o cavalo alado não tremeu ou vacilou, de Sylvester pousando em sua asa. Ele caminhou por aqui em um ritmo acelerado, mantendo os braços estendidos para manter o equilíbrio.
— Você está no caminho — exclamou Sylvester, enquanto colocava as mãos sob minhas axilas, levantando-me alto e me balançando de um lado para o outro. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo enquanto o mundo tremia ao meu redor. Tudo o que eu podia fazer era piscar.
Ele então gritou “Ferdinando, pega!” e antes que eu percebesse, ele me jogou para cima, após um de seus balanços. Para o ar, é isso.
— Hum?
Eu tinha sido jogada no ar sem tempo para me preparar. Apenas olhei para o céu na minha frente, sem piscar. Não havia sentido em eu estender meus braços, já que não havia nada para eu agarrar. Tudo o que eu podia ver era o grande céu azul se estendendo em todas as direções.
— Aprendiz?!
Em câmera lenta, vi Damuel estendendo as mãos para mim, parecendo tão chocado quanto eu, enquanto Sylvester pulava sobre sua cabeça para se sentar atrás dele.
Por um instante, após ser jogada, flutuei no ar, mas a gravidade logo se apoderou de mim e comecei a cair. Meu cabelo bateu no meu rosto, quando o vento correu ao redor do meu corpo, e a dor repentina me fez voltar aos meus sentidos. Ofeguei, percebendo que tinha sido jogada em um bungee jump sem corda, sem qualquer preocupação com minha segurança ou bem-estar emocional.
— AAAAAAAAH!
— Lá vamos nós. — O Sumo Sacerdote moveu sua besta e me pegou, tendo previsto, a partir do lançamento de Sylvester, onde eu iria cair. Eu provavelmente não tinha caído mais de um metro, mas pareciam mais de cem para mim.
Ser jogada no ar, sem nenhuma maneira de me salvar, tinha sido tão assustador que instintivamente me agarrei ao Sumo Sacerdote, para proteção. Mas mesmo que ele tivesse me pegado, meu corpo ainda tremia impotente de medo.
— I-isso foi aterrorizante.
— Imagino que sim. — O Sumo Sacerdote deu um tapinha nas minhas costas confortavelmente enquanto eu me agarrava a ele. Mas ouvir a fonte do meu terror, Sylvester, falar novamente, fez meu corpo tremer.
— Ferdinando, você fica aqui! Quem estiver na floresta pode ser um chamariz!
— Muito bem.
—A fronteira está próxima. Vamos pegá-los antes que fujam. Venha, Karstedt!
— Senhor! — Karstedt deu uma resposta curta, e ambos voaram para a floresta em suas montarias esculturais.
O Sumo Sacerdote falou em voz baixa, enquanto os observava partir.
— O que ele fez foi imprudente, mas foi uma decisão fundada na lógica que priorizou sua segurança. Perdoe-o, por mim.
— O quê?
— Aqueles na floresta não têm muito mais mana do que Damuel. É ideal para ele estar lá para detectar sua localização. Além disso, se os conjuradores realmente forem um chamariz, seria perigoso deixar você e Damuel sozinhos.
O Sumo Sacerdote examinou nossos arredores, sem baixar a guarda por um momento. Eu podia dizer que eu realmente estava em perigo, e que não era o momento para eu estar tremendo de medo.
— Myne, você poderia orar comigo pelo sucesso deles na batalha? — O Sumo Sacerdote apontou algo que poderíamos fazer, enquanto estávamos protegidos no ar, e eu respondi com um pequeno aceno de cabeça. Fazer algo para ajudar me distrairia do quanto eu estava com medo.
Uma vez que o Sumo Sacerdote me ensinou as palavras para a oração, nós cantamos juntos.
— Ó Deus da Guerra Angriff, dos doze exaltados do Deus do Fogo Leidenschaft, oramos para que você conceda a eles sua proteção divina.
As pulseiras que o Sumo Sacerdote e eu usávamos brilhavam com luz azul, cujos raios disparavam das pedras azuis. Eles se contornaram em espiral, disparando em direção a onde os outros haviam ido.
Sylvester balançou sua varinha brilhante sobre a floresta e enviou um grande pássaro vermelho, voando para longe dele. Observei, pensando que parecia muito com uma fênix, e a vi abrir suas asas antes de aparentemente derreter no ar. Uma parede, vermelha transparente, pareceu aparecer de onde o pássaro abriu as asas. Então, um pássaro amarelo e igualmente grande saiu de sua varinha também, girando no ar enquanto desmoronava e enviando pólvora brilhante chovendo embaixo dela.
Karstedt transformou sua varinha brilhante em uma espada larga de duas mãos, ao mesmo tempo em que o pássaro vermelho se tornara uma parede. A lâmina maciça brilhava com todas as cores do arco-íris, e ele a balançou enquanto rugia um grito de batalha.
— AAAAAAAAH!
Uma luz deslumbrante saiu de sua espada e disparou direto para a floresta.
— Quê?!
Um som incrivelmente alto e arrebatador sacudiu o ar como se um meteoro tivesse colidido com a terra, um sentimento apenas fortalecido pelo chão tremendo como um terremoto. A explosão, que aconteceu no instante seguinte, destruiu toda uma parte da floresta e senti a quantidade de mana dentro de mim despencar, talvez devido a proteger as carruagens da força da explosão.
— Isso foi demais. — Murmurou o Sumo Sacerdote, me jogando de volta aos meus sentidos.
Olhei para ele. — As carruagens! As carruagens estão bem?!
— Eles parecem estar totalmente ilesos, graças às barreiras duplas das Trevas e do Vento.
— O-o-o-ooh — suspirei de alívio por ter protegido a carruagem. Mas minha ansiedade foi rapidamente substituída por uma forte tontura, e eu tive que agarrar o peito do Sumo Sacerdote para me impedir de cair.
— Há algo errado, Myne?
— No momento em que percebi que todos estavam seguros, toda a minha força me deixou. Agora estou com um pouco de frio.
Quando eu disse a ele que estava enfraquecendo e sentindo frio, o Sumo Sacerdote olhou para mim em confusão e colocou a mão no meu pescoço.
—Você está bem fria agora. Talvez você tenha usado muita mana?
—Hah? Oh, talvez. — Agora que pensei sobre isso, eu tinha sentido algo semelhante a isso após realizar minha primeira oferta. Naquela hora, eu tinha sido capaz de me recuperar, deixando a mana dentro de mim fluir um pouco pelo meu corpo. Tentei fazer isso de novo, mas parecia que tinha usado quase toda a minha mana fazendo o escudo de vento e após realizar todos aqueles rituais de Oração da Primavera. Até agora, eu sempre estava forçando meu excesso de mana em uma caixa dentro de mim. Esta foi a primeira vez que não tinha mana o suficiente. Eu não sabia o que fazer.
— Sumo Sacerdote, eu não tenho mais mana. Eu não tenho o suficiente para circular pelo meu corpo. — expliquei, o que fez o Sumo Sacerdote se dobrar com um olhar de descrença em seus olhos.
— Você, sem mana? As únicas poções que tenho que podem ajudar com algo tão grave estão nas carruagens. Não podemos recuperá-las até confirmarmos que é seguro. Por enquanto, beba isso. É uma espécie de último recurso, mas é melhor do que nada.
O Sumo Sacerdote tirou uma fina decoração dourada, parecida com um tubo de ensaio, de seu cinto e pressionou uma pequena pedra redonda sobre ela. A parte superior do tubo de ensaio se abriu.
Ele me entregou, e uma rápida cheirada revelou que o remédio de gosto horrível não estava lá dentro. Engoli em seco e encontrei um líquido de sabor doce se espalhando pela minha boca. Pensando bem, tinha um gosto muito parecido com a poção que ele me fez beber antes de usar a ferramenta mágica de pesquisa de memória. Essa coisa era um pouco mais espessa, mas tinha o mesmo sabor. E ambas me deixaram com sono, também.
— Feche os olhos e deixe que o sono a leve. Quando você acordar, será hora de um sermão e da poção que você odeia tanto.
Balancei a cabeça em um aceno, depois fechei os olhos.
— Irmã Myne, você acordou?
— Rosina.
Acordei com Rosina olhando para o meu rosto, como se me observasse para ter certeza de que eu tinha dormido bem. Ao notá-la, lentamente me sentei na cama, apenas para minha cabeça girar imediatamente, como se eu tivesse perdido muito sangue. Deixei minha cabeça cair no travesseiro.
— Você não deve se mover tão repentinamente. Você se esforçou perigosamente para proteger as carruagens de danos, correto? O Sumo Sacerdote ficou bem irritado com você.
— Estou bem preparada para qualquer sermão que ele pretenda dar, como ele me alertou sobre isso, antes de eu ficar inconsciente. Mais importante, você está bem, Rosina? Estão todos bem? Algum de vocês foi ferido ou sofreu algum machucado?
Me perguntei se eu tinha feito o meu trabalho e protegido todos com sucesso. Eu nem queria considerar que eu poderia ter acabado usando toda a minha mana e desabado, sem motivo, e estava prestes a sofrer com um sermão e uma poção nojenta por nada. Seria apenas triste.
— Todo mundo está bem. Ninguém foi ferido, e nada foi danificado ou roubado.
— Sério? Isso é um alívio. — Sentei-me na cama e ouvi, enquanto Rosina explicava o que havia acontecido nas carruagens.
As carruagens foram forçadas a uma parada repentina, quando a escuridão as envolveu. Todos lá dentro olharam pelas janelas e ficaram chocados quando viram fazendeiros armados aparecendo da floresta. Eles se prepararam para o ataque, apenas para os atacantes serem derrubados por algo. Então, uma luz repentina perfurou o ar e eles ouviram gritos e uma explosão maciça, mas como nem mesmo uma rajada de ar tocou a carruagem, eles não tinham ideia do que havia acontecido. Foi somente quando o Sumo Sacerdote e os outros chegaram, depois, que soubemos que fomos salvos.
— Você sofreu mais, Irmã Myne. Só que você ficou inconsciente, e ficou fria ao toque. Você não parava de tremer — explicou Rosina enquanto minha consciência desaparecia pela segunda vez.
— Em geral, quando os agricultores vão contra os sacerdotes cinzentos, são os que produzem alimentos e pagam impostos que saem por cima. Só fomos salvos por sua causa, Irmã Myne. Eu realmente a agradeço muito.
Na próxima vez que acordei, o Sumo Sacerdote me trouxe a poção nojenta para beber. Ele estendeu a pequena garrafa, contendo um líquido verde familiar, em minha direção.
— Beba isso.
— Argg.
Tentei me afastar, mas como estava presa na cama, não havia lugar para onde pudesse ir. O Sumo Sacerdote me deu um olhar penetrante, por recuar da poção, apesar de saber que eu não tinha escolha a não ser bebê-la.
— Um pouco de sua mana já voltou?
— Ainda não.
— Imaginei isso. Mas não podemos ficar aqui para sempre. Você precisa que eu prenda seu nariz e a force a beber?
Não podíamos sair até que minha mana se recuperasse, e se minha falta de mana estava me tornando um fardo para todos, então eu realmente não tinha escolha a não ser beber a poção, não importa o quão nojenta e desagradável fosse. Peguei a poção da mão estendida do Sumo Sacerdote e a bebi, minhas mãos tremendo de terror.
— Urgh! — Me contorci na cama, apertando minhas mãos sobre a boca, quando lágrimas se formaram em meus olhos, de como era horrível.
O Sumo Sacerdote olhou para mim e assentiu com satisfação.
— Continue calando a boca e ouça até que a poção faça efeito — ele começou, antes de continuar a explicar a verdade chocante de que eles não tinham absolutamente nenhuma ideia de quem havia estabelecido a barreira do Deus das Trevas ou organizado o ataque. Por mais inacreditável que parecesse, o ataque de Karstedt reduziu o inimigo a nada além de poeira, deixando-os sem um caminho para sondar mais fundo. Eles nem podiam ter certeza de que Gerlach estava envolvido.
Tudo o que eles sabiam, era que havia dois deles e que, como Damuel tinha sido capaz de senti-los, quem lançou o ataque não tinha muita mana. Eles não eram fortes o suficiente para fazer um bloqueio do Deus das Trevas, o que significa que eles devem ter tido nobres os ajudando, e previram que era, provavelmente, um nobre de outro ducado.
— Como você sabe disso?
— Mais da metade daqueles que atacaram as carruagens, não eram cidadãos do nosso próprio ducado.
Ele não me diria como eles poderiam identificar sua cidadania, mas, independentemente disso, a barreira da Escuridão, provavelmente, havia sido colocada no lugar por um nobre de outro ducado, que havia fugido de volta, pela fronteira, para seu próprio ducado, antes de Karstedt desencadear seu ataque.
— Ele não estava tentando capturar os culpados?
— Parece que ele atacou com sua força normal, mas a explosão acabou mais forte do que ele esperava.
O próprio Karstedt ficou mais surpreso com a força do ataque do que qualquer um. O Sumo Sacerdote desviou o olhar, desconfortavelmente, o que foi suficiente para eu adivinhar qual tinha sido o problema.
— Nossas orações eram desnecessárias?
— Talvez. Não fale disso a menos que seja solicitada a fazê-lo.
— Ok.
Ele então me disse que Sylvester e Karstedt já haviam retornado à cidade. Eles haviam retornado via besta, uma vez que este incidente precisava ser relatado e processado para investigação imediata.
— Geralmente é impensável que carruagens carregando sacerdotes sejam atacadas, certo? Então eles precisam relatar isso ao Arquiduque e fazer com que ele investigue?
— Mais ou menos. — O Sumo Sacerdote assentiu, então endureceu sua expressão. Ele olhou para mim, com os olhos frios, enquanto eu me mexia em uma posição melhor para ficar sentada.
— Myne, você realmente deseja ficar com sua família?
— Claro que sim.
— Então, por que você se permitiu perder o controle de sua mana mais uma vez? — ele perguntou, e ofeguei com a percepção.
— Eu estava tão preocupada com Fran e Rosina, eu só… Eu nem pensei.
— A situação terminou sem incidentes porque você concentrou sua mana furiosa em fazer um escudo poderoso, mas você ainda se marcou como uma ameaça perigosa, mais uma vez. E, acima de tudo, embora você tenha acabado bem, isso foi apenas porque você tinha uma ferramenta mágica, orou aos deuses e ativou um feitiço. Se você não tivesse feito tudo isso, sua mana descontrolada teria matado você.
Em geral, ferramentas mágicas eram necessárias para liberar a mana. Essa era a razão pela qual crianças com consumação e sem ferramentas mágicas morriam enquanto sua mana crescia junto delas e as comia vivas. Sobrevivi oferecendo mana no templo, mas não tinha ideia se meu corpo duraria se eu me esquecesse e deixasse minha mana ir em fúria.
— Você sabe exatamente o que acontece com aqueles que morrem por perder o controle de sua mana?
O Sumo Sacerdote passou a explicar com detalhes excessivamente precisos, exatamente, como os nobres que deixaram sua mana ir em uma fúria morreram. A parte mais assustadora foi seu tom seco.
— Primeiro, a mana começa a vazar de seus corpos até que, eventualmente, tudo explode de uma vez. Nesse ponto, seu corpo não pode mais resistir como um recipiente para a mana. Sua pele começa a inchar e borbulhar, de fato, muito semelhante a como a água fervente pode borbulhar. Mas é quando a pele não consegue mais conter a mana que tudo explode, enviando carne e…
— Buááá! Buááá! Buááá! Não estou te ouvindo. Eu não quero ouvir você! Nãooooooo! — Bati as mãos sobre as orelhas e joguei o cobertor sobre a cabeça, mas o Sumo Sacerdote o arrancou e tirou minhas mãos das minhas orelhas.
— Contenha-se, Myne. Eu ainda não terminei.
— Sinto muito. Desculpa. Não vou mais fazer isso. Eu nunca vou perder o controle da minha mana novamente, então, por favor, me perdoe! Eu não quero borbulhar! Eu não quero explodir! Pareeee! — Me prostrei na cama, chorando lágrimas de terror genuíno.
O Sumo Sacerdote deu um leve aceno de cabeça. — Muito bem então. Da próxima vez que você perder o controle de sua mana, vou amarrá-la a uma cadeira, de modo que você não possa cobrir seus ouvidos ou escapar, então farei você ouvir cada palavra enquanto termino minha explicação.
Imaginando-me amarrada a uma cadeira e sendo forçada a ouvir explicações aterrorizantes, uma após a outra, balancei a cabeça com força e tentei desesperadamente fazer esses pensamentos desaparecerem.
— Não vai acontecer de novo! Prometo!
A sinceridade em meu tom fez o Sumo Sacerdote sorrir.
— Acho que vou poder usar isso em outro lugar — ele murmurou, enviando um arrepio gelado pela minha espinha.
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