Ascendance of a BookwormCAPÍTULO 164 - 163
Capítulo 164Ascendance of a Bookworm – Capítulo 163
O selvagem e incontrolável Padre Azul
Depois que me recuperei, continuamos visitando as mansões nobres restantes, para terminar a Oração da Primavera. Nada particularmente fora do comum ocorreu, e todos voltamos para o templo, em segurança.
— Bem-vinda de volta, Irmã Myne, — disse Wilma com um sorriso caloroso.
— Vejo que você não estragou nada! — Delia acrescentou.
— Obrigado a ambas por vigiarem meus aposentos enquanto eu estava fora. Como estão todos?
Delia e Wilma me deram as boas-vindas quando voltei para meus aposentos, e uma sensação de alívio tomou conta de mim. Me senti como se estivesse de volta ao lugar onde deveria estar.
Fran e Gil começaram a descarregar a bagagem embalada nas carruagens enquanto eu mudava de minhas roupas de nobre, para viagem, por minhas vestes normais, de donzela do santuário, com a ajuda de Delia, é claro.
— Vou preparar um banho para você assim que a água esquentar.
— Obrigada, Delia.
Delia, Wilma e Rosina estavam trabalhando duro para desfazer as malas e organizar a bagagem que estava sendo trazida, mas ela estava se acumulando muito mais rápido do que elas poderiam desfazê-las. Meus aposentos estavam rapidamente ficando tão bagunçados quanto antes de eu partir.
— Irmã Myne, minhas sinceras desculpas, mas o Sumo Sacerdote está chamando por você para negócios urgentes. Parece ser sobre você voltar para casa. — disse Fran, um tom de preocupação em sua voz. Ele fez uma pausa momentânea, ao mover a bagagem, e rapidamente subiu as escadas até onde eu estava.
Eu estava me preocupando sobre quando eu finalmente seria capaz de ir para casa, agora que a Oração da Primavera acabou, então, ouvir que o Sumo Sacerdote queria falar comigo, exatamente sobre isso, me fez pular da minha cadeira, com alegria.
— Devo partir imediatamente.
— Rosina, por favor, acompanhe a Irmã Myne. Devo continuar descarregando a bagagem dela.
No caminho para baixo, vi Fran e Hugo carregando as bagagens juntos, tendo aparentemente se aproximado ao longo da jornada. Ella, talvez devido à sua experiência carregando panelas pesadas, como chef, tinha braços fortes e conseguia lidar facilmente até com minhas malas pesadas. Gil era surpreendentemente forte, para seu tamanho, também, talvez graças a ele comer mais comida e fazer trabalho manual no ateliê e na floresta.
— Vou para o quarto do Sumo Sacerdote. — Anunciei — Deixo meus aposentos sob seus cuidados, pessoal.
Fora da entrada da seção nobre do templo, uma linha de carruagens ainda estava sendo descarregada. Os sacerdotes cinzentos do ateliê também estavam ajudando, e vi um rosto familiar do ateliê caminhando, segurando uma grande caixa.
— Voltei. Como está o orfanato? — Perguntei, e após piscar de surpresa, o padre cinza deu um pequeno sorriso.
— Bem-vinda de volta, Irmã Myne. As crianças cresceram muito. Elas ficarão muito felizes em vê-la no orfanato novamente.
— Eu também ficarei muito feliz.
Os sacerdotes cinzentos se moveram para o lado para me dar espaço. Acenei com a cabeça, agradecendo, e caminhei rapidamente para minimizar minha interrupção de seu trabalho.
— Você chamou, Sumo Sacerdote? Espere. Irmão Sylvester?
— Aí está você, Myne. — Sylvester estava descansando no quarto do Sumo Sacerdote, como se fosse o dono do lugar, deitado no banco e mastigando a fruta colocada na mesa, para os visitantes.
Enquanto isso, o Sumo Sacerdote o ignorava completamente, dando instruções aos sacerdotes cinzentos que carregavam sua bagagem.
— Hum, Sumo Sacerdote. Disseram-me que você chamou por mim. — eu disse.
O Sumo Sacerdote se virou, uma expressão completamente exausta em seu rosto, e me pediu para sentar. Balancei a cabeça e o segui até a mesa.
No momento em que me sentei, Sylvester se inclinou para mim.
— Fui eu que chamei você. Quero dar uma olhada pelo lugar e você parece a garota certa para o trabalho, Myne. Seja minha guia.
— O que diabos você quer dizer com isso?
Olhei para o Sumo Sacerdote, em busca de uma explicação, mas antes que ele pudesse responder, Sylvester respondeu, exasperado.
— O que mais um guia vai fazer, senão me guiar? Primeiro, para o orfanato. Então, seu ateliê. Eu também preciso dar uma olhada nesta floresta que os órfãos vão — disse ele casualmente.
Fiquei reflexivamente tensa. Nem um único sacerdote azul havia mostrado interesse no orfanato ou no ateliê até agora. Até mesmo o Sumo Sacerdote só tinha ouvido falar sobre eles através de relatórios, nunca tendo realmente visitado os lugares. Além disso, Sylvester apareceu do nada e eu não tinha ideia do que ele estava pensando.
Eu subconscientemente agarrei o manto do Sumo Sacerdote.
— Você pode se acalmar, Myne. Irei ao orfanato e ao ateliê também. Há muito tempo pensei que seria sábio ver as mudanças que você fez, por mim mesmo.
Coloquei a mão contra o peito em alívio. Sylvester provavelmente não causaria muitos problemas com o Sumo Sacerdote segurando suas rédeas.
— Quanto à floresta, no entanto. — continuou o Sumo Sacerdote. — A floresta no Bairro dos Nobres deve ser suficiente para você. — Ele olhou para Sylvester enquanto falava, a exaustão de nossa jornada clara em seu rosto.
— Não, estou indo para a floresta. Verificarei o restaurante dela também. — Sylvester continuou a listar cada lugar que pretendia visitar.
— O restaurante ainda não terminou, acredito ter mencionado que os chefs ainda estão em treinamento. Mas, mais importante, Sumo Sacerdote, os sacerdotes azuis têm permissão para ir à floresta da cidade baixa?
Ir diretamente para o restaurante italiano em uma carruagem era uma coisa, mas eu nunca tinha ouvido falar de nenhum padre azul indo para a floresta da cidade baixa. Havia uma floresta perto do Bairro dos Nobres, que apenas os nobres podiam entrar. Havia supervisores, e qualquer plebeu que vagueasse de fora da cidade seria morto impunemente. Se Sylvester quisesse ir para uma floresta, ele poderia simplesmente ir para a floresta dos nobres, como o Sumo Sacerdote disse.
— Estou interessado em ver como é a floresta dos plebeus. Vai ficar tudo bem, a maioria das pessoas na cidade baixa nem nos reconhecerá como nobres. E posso me proteger de qualquer um que tente se engraçar, sem problemas.
Sylvester então deu um tapa em seu bíceps flexionado, com um sorriso confiante. Eu poderia dizer que ele estava entusiasmado, mas deixá-lo fazer o que ele queria, definitivamente, sairia pela culatra para nós.
Sumo Sacerdote, conto com você para segurá-lo.Eu, silenciosamente, depositei todas as minhas esperanças no Sumo Sacerdote, mas ele apenas olhou para mim, enquanto esfregava as têmporas, como se contivesse uma dor de cabeça.
— Tudo bem, faça o que quiser. Myne, tudo o que peço é que você relate exatamente o que ele faz.
Em nítido contraste, com a energia aparentemente ilimitada de Sylvester, o Sumo Sacerdote estava exausto, parecendo que não queria mais pensar em nada. Olhei entre os dois, confusa, e, antes que eu percebesse, fui designada para ser a guia de Sylvester.
Sinto que “babá” seria uma maneira mais precisa de descrever, realmente.
— Vocês dois podem ir embora.
O Sumo Sacerdote queria que fôssemos embora, mas apertei sua manga. Por que eu tinha vindo aqui, senão para ouvir sobre ir para casa? Certamente não era para ter o dever de guia forçado em mim.
— Sumo Sacerdote, me disseram que você queria falar sobre eu ir para casa. Quando posso deixar o templo?
Os olhos do Sumo Sacerdote vacilaram antes que ele olhasse para mim. — Sim, bem. Você gastou uma quantidade enorme de mana recentemente. Sua família não teria como te ajudar se você entrasse em colapso. Descanse aqui por três dias, e se você não adoecer até o quarto dia, então você pode sair de manhã. Informe sua família sobre isso. Além disso, faça um favor a todos descansando bem hoje.
— Ok! — Dei uma resposta entusiasmada, antes de sair da sala com Rosina. Por algum motivo, Sylvester também se levantou, junto do padre cinza atrás dele, que provavelmente era um assistente.
— Tudo bem. Vamos indo, Myne.
— Irmão Sylvester?
— Venha para o meu quarto.
— Hum. Mas, não tenho que ir descansar? — Olhei de volta para o Sumo Sacerdote, em busca de ajuda, mas ele simplesmente deu de ombros e inclinou o queixo em direção à porta, gesticulando para que saíssemos. Sylvester agradeceu alegremente.
Eu não tinha escapatória. Após compartilhar um olhar derrotado com Rosina, eu o segui.
— Vamos lá, é este aqui.
Parecia que o quarto de Sylvester estava ao lado do Sumo Sacerdote. Ele abriu a porta para mim e descobri que o interior era quase totalmente estéril. Sentia que era estranho seu quarto ter apenas o mínimo de móveis. Eu teria pensado que um aluno do ensino fundamental, crescido como Sylvester, teria seu quarto cheio de coisas relacionadas a seus passatempos e gostos.
— Myne, eu sei que você está levando as crianças do orfanato para a floresta. Leve-me também se não quiser que eu conte tudo ao Arcebispo.
Sylvester usava um sorriso arrogante, enquanto tentava me chantagear. Todos no templo sabiam que o Arcebispo me odiava, e era por isso que nenhum padre azul, até agora, tinha se aproximado de mim.
Franzi minha testa, sem entender o que Sylvester estava pensando.
— Por que você quer ir para a floresta, de qualquer maneira?
— Para caçar.
Pisquei em surpresa, com a resposta dele.
— Para caçar? Onde você esteve caçando até agora? — Eu ainda não conseguia ver por que ele iria querer ir para a floresta da cidade baixa.
— Na floresta do Bairro dos Nobres, é claro.
— Então você pode continuar indo para lá.
— Aquele lugar é muito chato — suspirou Sylvester, antes de listar todos os problemas que ele teve com a floresta dos nobres. Você não apenas precisava ter sua caçada aprovada pelo supervisor, com antecedência, como também só era permitido em um horário pré-determinado. Não era um lugar onde você poderia simplesmente passear quando a vontade batesse.
Além disso, havia uma competição de caça considerável realizada lá todos os anos. A posição de todos era definida por sua posição na hierarquia nobre, e você tinha que caçar sem ultrapassar os limites de sua quota. Era mais um lugar para os nobres bajularem e puxarem o saco do Arquiduque, que fazer qualquer caçada de verdade.
No geral, a floresta dos nobres parecia um lugar muito rígido para alguém como Sylvester, um homem com o coração de um garotinho, que queria um teste genuíno de habilidade, elogios honestos e um lugar para onde ele pudesse fugir com seu arco, sempre que sentisse vontade de caçar.
— Entendo agora, mas você dificilmente pode ir para a floresta da cidade baixa com roupas tão limpas.
— Traga-me algumas roupas sujas da cidade baixa, então.
— Não sei com quantas pessoas você pretende ir, mas pretende fazer com que todos usem roupas sujas também?
Seria bastante fácil para mim, comprar roupas baratas em uma loja de segunda mão para eles, mas eu não tinha ideia de quantos conjuntos de roupas ele precisaria.
No entanto, minha pergunta apenas fez Sylvester parecer confuso.
— Do que você está falando?
— Estou perguntando quantas pessoas você levará.
— Ninguém. O templo é uma coisa, mas não precisarei de assistentes na cidade baixa.
Olhei entre Sylvester e o padre cinza assistente que estava preparando o chá para nós. — O Sumo Sacerdote sabe sobre isso?
— Por que eu precisaria da permissão de Ferdinando? Você pode ser uma plebeia de quem ele assumiu a custódia, mas não preciso da permissão de ninguém. — Ele pontuou sua declaração com um firme “Qualquer um deveria saber disso.”
Abaixei minha cabeça. É claro que um padre azul adulto não precisaria obter permissão do Sumo Sacerdote para tudo o que fizesse. Dito isso, senti como se uma pessoa tipo o Sylvester, precisasse de alguém para observá-lo tão constantemente quanto eu.
— De qualquer forma, vamos primeiro ao orfanato e ao ateliê. Faremos isso depois de amanhã.
— Hum, Irmão Sylvester. Você vai ao orfanato procurar uma sacerdotisa para obter flores? — Perguntei, incapaz de pensar em outra razão pela qual um padre azul iria para o orfanato.
Sylvester fez uma careta, as sobrancelhas franzidas com desgosto.
— Myne, crianças como você não deveriam falar sobre esse tipo de coisa. Quer começar a fazer “puhi” de novo?
— Não. É que eu sou diretora do orfanato, então…
Eu tinha pensado em esconder furtivamente as sacerdotisas com idade suficiente para oferecer flores, se Sylvester pretendia procurá-las, mas a julgar por sua reação, era difícil pensar que esse era seu objetivo. Isso era tudo que eu precisava saber.
— Você acha que estou tão faminto por mulheres que precisaria procurar uma no orfanato?
— O quê? Pensei que era uma coisa normal para os padres azuis fazerem.
Sempre presumi que eles se contentavam com as sacerdotisas cinzas próximas porque raramente saíam do templo, mas talvez eu estivesse errada. Inclinei a cabeça, curiosa.
Sylvester mordeu o lábio por um segundo, depois tossiu.
— Homens com meu carisma e charme também podem encontrar mulheres no Bairro dos Nobres.
— Tenho certeza.
Se isso significava que ele não iria atrás das sacerdotisas no templo, eu realmente não me importava que Sylvester se gabasse sobre a facilidade com que ele poderia encontrar garotas no Bairro dos Nobres. Prometi encontrar para ele um par de roupas de segunda mão e saí do quarto com Rosina.
Uma vez que voltei aos meus aposentos, chamei todos os meus assistentes, enquanto eles guardavam minha bagagem, os reunindo. Eu precisava contar a todos sobre os planos de Sylvester e do Sumo Sacerdote.
— Depois de amanhã, o Sumo Sacerdote e um sacerdote azul visitarão o orfanato e o ateliê.
— Depois de amanhã?! — exclamaram em uníssono. Todos pareciam compreensivelmente surpresos, exceto Delia, que não foi a nenhum dos lugares. Isso era simplesmente muito repentino para os planos de um nobre. Geralmente, preparações completas seriam feitas, após um aviso dado com muita antecedência. Mas dado que o próprio Sylvester tinha falado a data, seria seguro assumir que estava gravado em pedra.
— Por favor, certifiquem-se de que o orfanato e o ateliê estejam completamente limpos. Quanto ao resto, podem proceder como de costume. — Não estávamos fazendo nada no ateliê que não queríamos que outras pessoas vissem. Sem falar que, me conhecendo, tentar esconder as coisas nunca acabaria bem. Eu poderia muito bem mostrar tudo desde o início.
— Irmã Myne, um padre azul visitando significa que… — Wilma parou, seu rosto pálido.
Balancei minha cabeça suavemente.
— Não se preocupe, Wilma. Nenhum deles exigirá uma oferenda de flores. Eles só querem ver o ateliê e as mudanças no orfanato.
— E-entendi. — Wilma assentiu, mas não parecia menos ansiosa. Na verdade, ela agora estava tremendo. Me senti horrível por ela, mas a decisão de Sylvester estava tomada. Não haveria como evitar sua visita ao orfanato.
— Por mais que eu queira dizer que você pode ficar em seu quarto, já que você foi encarregada de administrar o orfanato, você pode precisar responder a quaisquer perguntas que eles possam ter.
— Entendido. — Wilma entrelaçou os dedos com força, na frente do peito, os apertando. Fiquei desapontada comigo mesma por não ser capaz de fazer nada além de vê-la tremer.
— Gil, Lutz ou Leon estão no ateliê? Se sim, por favor, chame eles. Seria sensato informar a Companhia Gilberta desta visita.
— Ambos estão lá, verei se algum deles está livre — disse Gil antes de se virar e sair.
Mudei-me para o salão do primeiro andar, para que Lutz ou Leon pudessem se juntar a nós, enquanto meus outros assistentes começavam a mover as caixas vazias espalhadas para os quartos de assistentes masculinos próximos, liberando espaço e tornando o lugar mais apresentável.
— Ei, Myne. É bom ver você de volta.
— Lutz! Faz tanto tempo!
Corri e dei um abraço em Lutz. Eu estava longe dele há mais tempo do que nunca, graças à Oração da Primavera.
— Tanta coisa aconteceu que eu nem sei por onde começar, — continuei — Estou exausta.
— Parece rude — disse Lutz, mas antes que eu pudesse continuar, uma voz descontente soou atrás dele.
— Você pode deixar isso para depois e explicar por que você me chamou também?
— Ah, você também está aqui, Leon?
— Estou aqui desde o início.
Leon era um dapla da Companhia Gilberta, que havia sido treinado, como garçom, por Fran durante o inverno. Ele estava prestes a atingir a maioridade, mas como era um pouco baixo, parecia um garoto mais novo tentando falar como alguém mais velho. E, embora não houvesse dúvidas de sua competência no trabalho, já que Benno havia assinado um contrato de dapla com ele, ele sempre ficava duro quando eu tentava curar minha alma com Lutz, então não tinha a melhor opinião dele.
— Não tenho nada para falar com você, Leon. Sinta-se à vontade para sair.
Lutz deu um tapinha na minha cabeça.
— Myne, relaxe. Acho que é algo importante para fazer com a Companhia Gilberta, não?
Assenti e olhei para Leon, ainda agarrada a Lutz.
— Depois de amanhã, o Sumo Sacerdote e um sacerdote azul estarão visitando o orfanato e o ateliê. Por favor, falem a Benno sobre isso. Tenho certeza de que ele quer conexões com a nobreza, e o padre azul está interessado no restaurante italiano.
— Entendido. — Leon se ajoelhou, suavemente, e cruzou os braços na frente do peito. Apesar de ser espinhoso sempre que eu abraçava Lutz, ele se dedicava ao trabalho.
— Essas são todas as coisas da Companhia Gilberta que eu precisava falar. A única coisa que resta é um pedido pessoal que tenho para Lutz — expliquei.
Leon se levantou. Ele lançou um olhar irritado para mim agarrada ao Lutz, depois saiu após dizer “vou na frente”.
— Qual é o seu pedido?
— Bem, tenho que descansar aqui por três dias até me sentir melhor, mas o Sumo Sacerdote disse que posso ir para casa, no quarto dia, se eu não ficar doente antes disso. Você poderia dizer isso para mamãe e todos os outros?
— Claro. Mas, isso com certeza demorou um pouco, hein? — murmurou Lutz, sua voz vacilante, enquanto tentava conter uma enxurrada de emoções e suportava meu ataque afetuoso. Eu só tinha sobrevivido vivendo longe da minha família por tanto tempo, porque Lutz e Tuuli me visitavam com frequência, deixando-me abraçá-los a cada vez.
— Além disso, quero um par de roupas de segunda mão, grandes o suficiente para caber em Deid. Eles são para um cara musculoso que é um pouco alto.
— E quem é esse? — perguntou Lutz. Era uma pergunta natural, tão natural que qualquer outra pessoa no mundo inteiro provavelmente teria feito, também. Mas como não fazia ideia se seria sensato responder em voz alta, fiquei na ponta dos pés e estiquei as costas para sussurrar furtivamente no ouvido de Lutz.
— Para o padre azul nos visitando depois de amanhã.
Lutz fez uma expressão impossível de descrever e, após um minuto de silêncio, soltou um murmúrio.
— Ele é um esquisito, não é?
— Sim. Um esquisitão. Ele disse querer ir para a floresta para caçar.
Qualquer padre azul que quisesse caçar na floresta da cidade baixa, o suficiente para usar roupas sujas de segunda mão, era um esquisitão, pura e simplesmente.
Lutz fez uma careta ao perceber que seria seu trabalho levar o padre para a floresta e, honestamente, senti pena dele. Era uma posição em que eu também não gostaria de estar.
— Bem, não adianta chorar pelo que está feito, — ele suspirou. — Vou caçar roupas amanhã, então tudo estará pronto para quando o dia chegar.
— Obrigada, Lutz.
Acabada a conversa, Lutz começou a me contar sobre o progresso que havia sido feito na prensa tipográfica e nos tipos de letras de Johann, enquanto eu estava fora. O Ateliê da Myne havia retomado a produção de papel também, então tínhamos mais em mãos novamente.
— Quero começar a imprimir livros novamente o mais rápido possível. Você acha que a Guilda das Tintas já começou a fazer nossa tinta? — Perguntei. Mesmo que você tivesse todo o papel do mundo, não conseguiria imprimir sem tinta e, se precisássemos fazer a nossa, teríamos que começar juntando fuligem novamente.
—Sim. Ouvi do Mestre Benno que eles começaram a contratar artesãos apenas para fazer a tinta do papel vegetal. Ah, e há um novo chefe na Guilda das Tintas.
— Eu sei disso. O Sumo Sacerdote me disse que o anterior morreu — eu disse, antes de ficar em silêncio e abraçar Lutz com mais força. De jeito nenhum eu poderia dizer a ele que nobres, caçando por mim, o mataram.
— O que há de errado?
— Nobres são assustadores.
— Huh? Você está falando sobre o padre azul que virá amanhã? — Lutz perguntou, me fazendo rir. Sylvester era assustador, mas por motivos completamente diferentes dos nobres que me caçavam.
— Mais ou menos, já que ele é um nobre estranho. É assustador não saber o que ele vai fazer, a seguir. Quando nos conhecemos, ele cutucou minha bochecha e me disse para chilrear “puhi”.
— Como é?
Contei a Lutz todas as coisas estranhas que Sylvester havia feito, em nosso primeiro encontro, depois falei sobre as coisas que ele havia feito durante a Oração da Primavera.
Lutz ouviu enquanto ria, até que acabou formando um sorriso malicioso e cutucando minha bochecha.
—Vamos lá, Myne. Tente chilrear de novo.
—Lutz você é um valentão! Puhi!
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