Ascendance of a Bookworm — Capítulo 165: CAPÍTULO 165 - 164

Ascendance of a Bookworm
Cap. 165
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Ascendance of a Bookworm

CAPÍTULO 165 - 164

Capítulo 165

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Ascendance of a Bookworm – Capítulo 164

Visita ao Orfanato e Ateliê

No dia seguinte ao retorno ao templo, depois da Oração da Primavera, todos limparam o orfanato e o ateliê. Sylvester e o Sumo Sacerdote deveriam visitar-nos no terceiro sino. Todo mundo estava ocupado desde o segundo sino, naquela manhã.

— Irmã Myne, tem um segundo? Er, quero dizer, você tem um momento?

— Claro que sim, Gil. Você está fazendo um bom progresso.

Ao voltar da Oração da Primavera, descobri que Gil vinha trabalhando lentamente em sua maneira de falar, na minha ausência. Os padres cinzentos, que antes serviam como assistentes, estavam ensinando as crianças nos modos do orfanato e aconselhavam Gil sobre sua linguagem, quando estavam no ateliê.

— Essas crianças ficam falando que como sou assistente, preciso me apressar e aprender a falar melhor para não te envergonhar! Er. Aham. Quer dizer, preciso aprender a falar com mais educação, para não envergonhar você.

Percebi que as crianças queriam experimentar a nova maneira de falar, que aprenderam por si mesmas, mas também entendia por que Gil estava aborrecido por eles o incomodarem.

— É verdade que você precisaria aprender a falar corretamente mais cedo ou mais tarde, para continuar servindo como meu assistente. Esta é uma boa oportunidade para você.

— Irmã Myne, vou trabalhar duro. Eu não quero. Er, não desejo que você me substitua por outra pessoa. — Gil se ajoelhou, ao meu lado, e franziu a testa, claramente frustrado consigo mesmo, mas eu não entendia de onde vinham seus medos.

— Hum? Espere um segundo, Gil. Por que você está preocupado com isso?

— Porque há muitas pessoas aqui que são melhores do que eu — ele forçou, abaixando a cabeça tristemente.

Ele explicou que: um encrenqueiro como ele, que passava a maior parte de seu tempo na câmara de arrependimento, conseguiu se tornar um assistente, e acabou motivando todas as outras crianças a tentarem se tornar meus assistentes também, já que, se alguém como ele podia fazer isso, não havia razão para eles não conseguirem. Ele estava preocupado que eu o substituísse e estava trabalhando duro para aprender a fazer coisas que as outras crianças não conseguiam.

É por isso que ele tem passado tanto tempo no ateliê aprendendo novas tarefas e tratando Lutz como seu rival?

Eu estava sentada em uma cadeira, o que me colocou na posição perfeita para dar um tapinha na cabeça de Gil, enquanto ele se ajoelhava. Estendi a mão e acariciei seu cabelo loiro claro.

— Sei o quanto você está trabalhando duro, Gil. Posso contratar novos assistentes, quando necessário, mas nunca vou substituí-lo.

— Você está falando realmente sério? — Sua expressão suavizou, com alívio.

Os assistentes geralmente tinham muito pouca segurança no emprego. Eles poderiam ser substituídos ao menor capricho de seu mestre. Mas eu não tinha intenção de substituir Gil, desde que ele não fosse extremamente incompetente.

— A propósito, você não tinha algo para falar comigo, Gil?

— Sim. Devemos começar a trabalhar no ateliê mesmo que os padres venham?

— Sim. Eles gostariam de ver que tipo de trabalho estamos fazendo lá. Sei que até mesmo minha presença é suficiente para deixar todos nervosos, e imagino que o próprio Sumo Sacerdote visitando, com outro padre azul, seja estressante além da conta, mas peço que deem tudo de si hoje. Você poderia dizer isso a todos?

— Como você quiser.

Fran e o pessoal da Companhia Gilberta vieram me ver, pouco depois que Gil partiu. Lá estavam Benno, Lutz e Leon. Mark ficou para trás, para manter a loja funcionando.

— Bom dia, Irmã Myne. Foi uma honra receber seu convite neste belo dia.

Guiei os três para o segundo andar, depois fiz Rosina e Delia descerem para o primeiro. Ficou entendido que elas fingiriam não nos ouvir falando casualmente após serem retiradas da sala.

— Aqui, Myne. Tenho as roupas que você pediu. E alguns sapatos, só por precaução.

— Obrigada, Lutz. — Peguei as roupas e os sapatos empacotados dele; Eu precisaria dar isso para Sylvester mais tarde. Por enquanto, os coloquei na minha escrivaninha e voltei para a mesa.

Benno, vestindo roupas apropriadas para reuniões de nobres, olhou para mim com os olhos brilhando intensamente.

— Então, que tipo de nobre é esse outro padre azul?

— Não faço ideia.

— Sério? — respondeu Benno com um olhar. Eu sabia que ele queria o máximo de informação possível, mas não pude evitar, eu não sabia.

— Por que você espera que eu saiba alguma coisa sobre a família do Irmão Sylvester?

— Porque você poderia ter perguntado a ele. Aprenda a coletar informações por si mesma, idiota.

Era verdade que um comerciante gostaria de saber tudo sobre a família de um cliente, mas o que eu queria saber era como evitar Sylvester inteiramente. Ainda assim, Benno gritaria comigo novamente a menos que eu dissesse alguma coisa, então tentei me lembrar do que havia aprendido na Oração da Primavera.

— Ele é muito estranho. Disseram-me que, embora ele tenha uma personalidade podre, ele tem um bom coração enterrado dentro dele.

— Olha, eu não me importo com isso. Preciso saber o tamanho da família dele, quais conexões eles têm, que tipo de presença ele tem e outras coisas que ajudarão a colocar meus bens em suas mãos e seu dinheiro no meu bolso.

— Ah, certo. Foi mal. Passei a viagem inteira tentando o máximo que pude evitá-lo, então não sei nada disso. — Falei do fundo do coração sem realmente pensar nisso, e Benno caiu desapontado. — Você pode aprender essas coisas sozinho, quando eu o apresentar a ele no ateliê, Benno. Isso seria muito mais confiável do que confiar em mim.

— É, não adianta esperar muita coisa de você. Vou considerar você não se esquecendo de me avisar sobre eles, como uma grande conquista. Isso é muito melhor do que você entrar em pânico com a visita deles e depois não me avisar — disse Benno, acenando para si mesmo. O fato de que eu não podia realmente contestá-lo me deixou um pouco triste comigo mesma. — Certo, eu os deixo com você. Tente não estragar tudo.

Benno, tendo obtido poucas informações, partiu com Lutz e Leon para o ateliê.

O terceiro sino começou a tocar enquanto eu praticava o fespiel. Levantei-me, tensa de ansiedade, e depois que Fran pegou as roupas que Lutz me trouxe, ele foi andando para fora. Andei atrás dele, com Damuel ao meu lado.

— Rosina, Delia, confio meus aposentos a vocês.

— Como desejar, Irmã Myne. Aguardamos seu retorno em segurança.

Quando chegamos ao quarto do Sumo Sacerdote, o encontramos escrevendo algo em sua mesa, com Sylvester descansando por perto, pronto para sair.

— Peço desculpas pela espera. — eu disse.

— Claro. — respondeu Sylvester. — Vamos indo.

Eu não conseguia entender por que ele parecia tão animado quanto alguém partindo em uma aventura ou uma missão de algum tipo. Até onde eu sabia, visitar o ateliê e o orfanato, provavelmente, não seria tão divertido. Talvez ele estivesse animado para ver o ateliê, pois não havia nenhum no Bairro dos Nobres.

— Irmão Sylvester, antes de partirmos. Aqui estão as roupas que você pediu, bem como alguns sapatos de madeira, comumente usados na cidade baixa, por precaução.

— Você conseguiu isso bem rápido, hein? Nada mal.

— Eles são de segunda mão. Não havia necessidade de fazê-los sob encomenda ou qualquer coisa.

Fran entregou as roupas e os sapatos ao assistente de Sylvester, que os pegou com uma expressão conflitante.

Eu entendo que você provavelmente não quer estar segurando roupas de plebeu, de segunda mão, mas seu mestre é quem as pediu.

— Vocês todos, fiquem aqui. Ficaremos bem com apenas Fran e Damuel nos acompanhando. Ter muitos de vocês nos acompanhando só fará com que os quartos menores fiquem apertados — anunciou Sylvester a Arno e seus próprios assistentes. O orfanato provavelmente não teria sido tão ruim, mas o ateliê definitivamente ficaria um pouco apertado se muitos de nós entrássemos de uma só vez.

— Aí. Vamos. — O Sumo Sacerdote terminou seu trabalho, e com isso partimos.

Fran assumiu a liderança. Sylvester e o Sumo Sacerdote seguiram atrás dele, enquanto Damuel e eu seguimos atrás.

Ao longo do caminho para o orfanato, Sylvester, aparentemente, perdeu a paciência com minha caminhada lenta. Ele se virou e apontou para mim.

— Damuel, pegue-a e ande. Ela é a coisa mais lenta que eu já vi.

— Você poderia, pelo menos, expressar isso como ele me levando de uma maneira majestosa?

— Normalmente, um guarda-costas deve manter as mãos livres o tempo todo, mas eu sou mais forte que Damuel, então isso não deve ser um problema, desta vez.

Apesar do que possa ter parecido, eu estava de fato fazendo o meu melhor para andar o mais rápido que podia. O problema era que Sylvester e o Sumo Sacerdote eram tão altos que nem mesmo minha velocidade de corrida era suficiente para acompanhá-los. Honestamente, foi um alívio quando Damuel me pegou, já que eu estava ficando sem fôlego.

— Este é o orfanato — disse Fran, enquanto abria as portas rangentes, que levavam ao refeitório do prédio das meninas.

Esperando por nós, lá dentro, estava Wilma, duas sacerdotisas cinzas e dois padres cinzas, todos ajoelhados. Foi um pouco difícil vê-los atrás dos adultos, mas as crianças pré-batismo também estavam reunidas e ajoelhadas. Benno havia nos aconselhado a não tê-los trabalhando durante a visita, já que na cidade baixa, geralmente, era proibido fazer crianças pré-batismo trabalharem.

— Bem-vindos à nossa humilde morada. Estamos honrados, além das palavras, por sua visita.

— Sumo Sacerdote, Irmão Sylvester. Essa é minha assistente Wilma. Ela administra o orfanato e cuida sozinha das crianças pré-batismo.

O Sumo Sacerdote ergueu uma sobrancelha e acenou para si mesmo.

— Você é a responsável pela excelente arte nos livros de Myne, se bem me lembro. Seus esforços são louváveis.

— Eu estou honrada — Wilma respondeu, com uma voz trêmula, não esperando que o Sumo Sacerdote a elogiasse. Ela provavelmente presumira que o Sumo Sacerdote não saberia nada sobre uma sacerdotisa cinza. Graças ao cabelo preso atrás da cabeça, o fato dela estar corando até as orelhas era facilmente visível.

— Achei que o orfanato seria uma bagunça com todas as crianças, mas vejo que, na verdade, é bem limpo. — Sylvester caminhou até o meio da sala e girou enquanto olhava por toda parte.

— Isso é porque todo mundo trabalha duro para mantê-lo limpo — respondi, meu peito orgulhosamente estufado. O orfanato foi mantido tão limpo graças a Wilma liderando a limpeza, enquanto instruía a todos sobre a importância de manter o local onde você come limpo.

— Todas as crianças são tão pequenas quanto você, hein? Não há crianças mais novas do que isso?

— Não agora.

Não havia crianças mais novas do que aquelas crianças, porque não receberam comida ou cuidados e morreram, como resultado. Sylvester deveria saber disso, e ele se fazendo de idiota me irritou, mas gritar com ele aqui não os traria de volta.

— Mais importante, Irmão Sylvester, lembre-se que de fato fui batizada.

— Isso não muda que você seja tão pequena quanto eles.

Apesar de eu ser provavelmente mais baixa do que muitos deles, quando chegasse o verão, faria um ano inteiro desde que fui batizada. Sylvester ignorou meu beicinho de bochecha inchada e vagou para o lado do refeitório, seu interesse aparentemente despertado pelas caixas empilhadas no canto.

— Myne, o que é isso?

— São livros e brinquedos para ensinar as crianças a ler. Tudo aí foi feito pelo ateliê, mais ou menos.

Sylvester pegou uma bíblia infantil e folheou algumas páginas. Ele então olhou para o karuta e os jogos de cartas com uma carranca.

O Sumo Sacerdote, que estava observando de lado, pegou um pacote de karuta e olhou para mim.

— Myne, você não me informou sobre isso.

— Esses são karuta. Eles são um brinquedo útil para aprender letras. Fiz para um dos meus assistentes que queria aprender a ler, depois fiz mais para o orfanato usar. Eles ainda não podem ser produzidos comercialmente, pois Wilma precisa desenhar manualmente a arte de cada cartão, então não achei que informá-los seria relevante — expliquei.

O Sumo Sacerdote caiu em pensamentos, uma mão descansando em seu queixo.

— Só para confirmar, você não está produzindo comercialmente isso, certo?

— Sim. Vendi os direitos para Benno, mas não ouvi falar dele os produzindo, ainda. — Benno disse que eles venderiam, mas até onde eu sabia, ele ainda não os transformou em um produto. Talvez ele estivesse lutando para encontrar um artista. — De qualquer forma, li a bíblia para fazê-los e, graças a eles, pude aprender os nomes dos deuses e dos instrumentos divinos. As crianças do orfanato são bastante habilidosas no jogo, tendo memorizado completamente o texto e as cartas de arte.

— É mesmo? Gostaria de vê-los em uso. Vamos. — A demanda repentina de Sylvester, fez as crianças olharem nervosamente entre eu e Wilma. Eu tinha mais ou menos previsto o que Sylvester diria, então calmamente peguei o karuta e sorri para as crianças.

— Devo ler as cartas e todos vocês fazem o resto, então?

— Como quiser, Irmã Myne.

Todas as crianças pareciam tensas, devido ao desconhecido padre azul, mas uma vez que começaram a se concentrar no karuta, seus olhos ficaram mais sérios e a ansiedade sumiu de seus rostos.

— Esta criança levou mais cartas, o que significa que ela ganhou este jogo.

— Bom para você — disse Sylvester ao vencedor, após ouvir minha explicação.

O Sumo Sacerdote, que estava observando as crianças limparem os cartões de karuta, olhou para mim. — Myne, você tem tudo isso memorizado? E as crianças podem ler todos os cartões de texto?

— Sim. As crianças do orfanato podem ler os cartões de texto naturalmente, e podem até ler a bíblia infantil. Eles aprenderam durante o inverno.

— Durante o inverno? Sério mesmo? — Os olhos de Sylvester se arregalaram, em choque.

Estufei meu peito novamente e dei um grande aceno de cabeça.

— De fato. Não há muito o que fazer enquanto neva, no inverno, correto? As crianças maiores podiam ajudar no ateliê, mas as crianças mais novas tinham pouco a fazer, além de passar o tempo lendo e jogando karuta. Eles sabem os números, graças a jogar aqueles baralhos também, e podem fazer um pouco de matemática agora.

Descrevi os resultados impressionantes da escola de inverno, com a cabeça erguida, mas, por alguma, razão o Sumo Sacerdote balançou a cabeça.

— Myne. — ele disse, sua voz pesada com exasperação, apesar do fato de que Fran, com certeza, já havia relatado isso a ele antes.

— O que foi, Sumo Sacerdote?

Ele parou por um momento, então suspirou e disse: “Pode esperar”. Sua expressão deixou claro que ele reuniu toda a sua força de vontade para engolir o que quer que ele quisesse dizer.

Parece que tenho um grande sermão esperando por mim, mas por quê? Por quê? Inclinei minha cabeça para o lado, em confusão, assim que Sylvester agarrou meu ombro.

— Tudo bem, me leve para o ateliê.

— Certamente.

Andando no meu ritmo habitual, fui para a saída dos fundos, que era descendo as escadas do prédio das meninas.

— Irmã Myne, não creio que devamos levar uma visita para lá. — disse Wilma, em tom perturbado.

Voltei aos meus sentidos, parei onde estava e me virei. A saída dos fundos certamente não era um lugar paralevarum visitante. Mas, minha mudança repentina de direção pareceu fazer os dois padres pensarem que eu estava escondendo algo deles, e suas expressões endureceram um pouco enquanto olhavam para as escadas.

— Espere. O que você está escondendo aí embaixo? — perguntou o sumo sacerdote.

— É apenas uma saída dos fundos, que costumamos usar para chegar ao ateliê. Mas como você e o Irmão Sylvester são visitantes, devo levá-los até lá da maneira correta, — expliquei — eu não estava pensando.

O Sumo Sacerdote franziu as sobrancelhas.

— Uma saída nos fundos do orfanato? Nunca ouvi falar de tal coisa.

— Leve-nos lá.

A pedido deles, segui Wilma escada abaixo, como de costume. O porão do prédio das meninas era uma cozinha, e elas estavam preparando o almoço. Podíamos ouvir as garotas tagarelando enquanto cheiros agradáveis entravam em nossos narizes. Mas a conversa parou no segundo em que Wilma apareceu, descendo as escadas correndo.

Quando os padres e eu chegamos à cozinha, a grande panela cheia de sopa tinha sido abandonada no meio da fervura, e todas estavam ajoelhadas junto à parede.

— Huh, então é aqui que você está fazendo comida para os órfãos?

— Sim. Embora geralmente apenas sopa seja feita aqui.

Expliquei como estávamos preenchendo as lacunas, entre os dons divinos, com uma sopa que nós mesmos preparávamos. Os dois padres, provavelmente, nunca tinham olhado para suas próprias cozinhas, e ambos olharam para dentro da panela borbulhante com grande interesse.

— Essa coisa parece com a sopa que compartilhamos durante a Oração da Primavera.

— Isso é porque ensinei a mesma receita para eles.

Sylvester olhou para mim com os olhos semicerrados.

— Não é um pouco demais para os órfãos comerem isso todos os dias?

Isso me incomodou. Os órfãos foram forçados a ganhar dinheiro sozinhos e cozinhar sua própria comida, devido ao fato de haver menos sacerdotes e donzelas azuis do santuário para lhes oferecer presentes divinos. De jeito nenhum uma sopa simples era “um pouco demais” para eles. Mas é claro, eu não poderia expor minhas frustrações a um padre azul como Sylvester.

— Falando nisso, eles não fazem algum tipo de doce comum aqui? Lembro-me de Damuel relatando algo do tipo — disse o Sumo Sacerdote, fazendo os olhos de Sylvester se arregalarem.

— Doces?! Agora é demais!

— Você diz que é demais, mas ao contrário do açúcar e do mel que os nobres podem comprar, os doces comuns em questão, dependem de frutas que só podem ser colhidas nas manhãs ensolaradas de inverno. Eles não são comidos todos os dias. Além disso, há tantos no orfanato que cada indivíduo recebe apenas uma pequena porção. Embora valha a pena como um bom sabor durante o inverno. Não é mesmo, Sir Damuel?

Damuel balançou a cabeça, em concordância, enquanto olhava entre Sylvester e o Sumo Sacerdote, ambos o encarando com um olhar afiado como adagas. Sylvester, em especial, mostrou um olhar particularmente invejoso em seu semblante.

— Você com certeza se deu bem aqui, hein, Damuel?

— Apenas em raras ocasiões. Acho que houve mais sofrimento do que qualquer coisa aqui.

Guardar-me, dificilmente, era um trabalho fácil para alguém como Damuel, que tinha um ataque cardíaco sempre que eu desmaiava e lutava quando os nobres superiores o encaravam assim.

— A sopa vai queimar se ficarmos aqui, então sugiro que nos apressemos para o ateliê. — Instiguei-nos para a saída, já que não queria lidar com Sylvester pedindo para comer um bolo parue. Passamos, então, pela capela, a caminho do prédio dos meninos.

— Este é o ateliê da Myne — Fran declarou, quando entramos. Os meninos lá dentro pararam o trabalho e foram até a parede, onde se ajoelharam como as meninas fizeram, acompanhados pelos três da Companhia Gilberta.

— Começamos a produzir papel vegetal, agora que é primavera novamente. Assim que tivermos um grande suprimento de papel, começaremos a fazer mais livros ilustrados.

Os que estavam no ateliê pareciam estar sacudindo a polpa e secando o papel, já que não podiam ir à floresta hoje.

Sylvester olhou ao redor, então bufou.

— Myne, onde você está fazendo esses brinquedos?

— Esses foram feitos durante o inverno. Já passou a hora deles. Poderíamos facilmente fazer mais, se pedíssemos os materiais, mas nossa prioridade aqui é fazer papel para livros ilustrados — expliquei.

Sylvester piscou seus profundos olhos verdes em confusão.

— Por que focar no papel e nos livros ilustrados, quando os brinquedos são mais divertidos e venderiam melhor?

— Porque eu quero livros.

Havia algo de errado em usar meu próprio ateliê para fazer as coisas que eu quero? Não. Eu queria livros, independentemente se venderem ou não. O ateliê da Myne existia exatamente para isso.

O queixo de Sylvester caiu, como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo.

— Guria, você, com certeza, faz o que quer, hein?

— Hum, eu não quero ouvir esse sermão de você, Irmão Sylvester. — Ninguém incorporou o conceito de fazer o que você quisesse mais do que Sylvester.

Enquanto Sylvester e eu nos encaramos, zangados, o Sumo Sacerdote esfregou as têmporas.

— A verdade é que vocês dois são um pé no saco sem fim para mim.

— Wow.

— De qualquer forma, Myne, quero ver o ateliê realmente funcionando. Todos! Voltem para o trabalho.

Ao contrário de mim, Sylvester ignorou as palavras afiadas do Sumo Sacerdote e, em vez disso, ordenou aos padres cinzas que voltassem ao seu trabalho. Todos se levantaram suavemente e voltaram para suas posições. Não havia como negar, Sylvester era mais selvagem e incontrolável do que eu.

Com os padres cinzentos de volta ao trabalho, apenas os três da Companhia Gilberta permaneceram ajoelhados, junto à parede.

— O Sumo Sacerdote já conhece esses três, mas vou apresentá-los a você, Irmão Sylvester. Este é Benno, da Companhia Gilberta, e seus aprendizes daplas Lutz e Leon.

— Certo, o comerciante que vende as coisas daqui. — Sylvester, que estava olhando para o ateliê em movimento, olhou para Benno e os outros.

— Correto. Quase tudo que é feito no Ateliê da Myne, é vendido pela Companhia Gilberta. O restaurante que você está interessado também está sendo estabelecido pela Companhia Gilberta. Eles adorariam ter o seu patrocínio.

— Ah é? Benno, levante a cabeça. Permito que você fale comigo.

— Estou honrado — disse Benno enquanto olhava para cima. Então, de repente, ele congelou. Nenhuma palavra de saudação passou por seus lábios, e eu o ouvi engolir em seco.

— Benno? — Perguntei, confusa.

— Abençoadas sejam as ondas de Flutrane, a Deusa da Água, que nos guiou para este encontro — Benno engasgou, antes de abaixar a cabeça novamente.

Sylvester, olhando para ele, com uma mão contemplativa no queixo, sorriu.

Por que ele parece um carnívoro que acabou de encontrar uma nova presa?

— Benno, aquele restaurante que você está fazendo parece bem interessante. Já faz um tempo que estou querendo ter uma boa e longa discussão sobre isso. Vamos para outra sala e tornar isso uma realidade. Me siga.

— Entendido — respondeu Benno, levantando-se trêmulo. Ele parecia tão doente que instintivamente chamei Sylvester.

— Irmão Sylvester, lembre-se de sua promessa de não roubar nossos chefs.

— O pensamento nem me ocorreu. Esta é apenas uma discussão de negócios.

— Bom, então.

Discussões de negócios eram a especialidade de Benno, não havia necessidade de me meter no caminho.

— Myne, que tipo de máquina é essa? — perguntou o Sumo Sacerdote, desviando minha atenção de Sylvester, que estava levando Benno embora. Ele estava olhando para a prensa normal, que estávamos transformando em uma impressora.

— Esta é uma nova impressora. Ainda não está pronta, mas parece muito mais completa do que antes de eu partir para a Oração da Primavera. Mal posso esperar para quando terminar.

— Como é usada? Recebi um relatório sobre isso de Damuel, mas foi bem difícil de entender.

Para responder à pergunta do Sumo Sacerdote, chamei Gil e decidi demonstrar o processo.

— Gil, por favor, prepare a tinta. Sumo Sacerdote, estes são chamados de tipos de letras de metal, e você alinha as letras para formar o texto.

— Tipos de letras? Parecem carimbos minúsculos.

Enquanto o Sumo Sacerdote examinava um tipo de letra em suas mãos, pedi a Fran que trouxesse os tipos para mim, para que eu pudesse organizá-los em uma frase curta. Gil então os colocou na forma, os prendendo no lugar, deslizando as tábuas de cada lado.

— Irmã Myne, está pronto.

— Você imprimiria uma folha, então? Por favor, use um pedaço de papel descartado, para não desperdiçar nenhum.

Gil colocou a forma na máquina de impressão, depois passou a tinta. Ele então colocou o papel em cima disso.

— Normalmente, você moveria esta parte da prensa de impressão para literalmente pressionar o papel contra os tipos de letras e distribuir a tinta igualmente, mas como a prensa ainda não está pronta, teremos que esfregar a tinta nela. Feito isso, deixamos o papel de lado para secar e imprimimos a próxima folha, embora, neste caso, apenas imprimiremos em uma parte diferente dessa mesma folha, para economizar recursos.

Gil imprimiu a mesma frase várias vezes na folha de papel. Enquanto o Sumo Sacerdote olhava espantado, expliquei, com orgulho, que, quando terminada, a impressora poderia distribuir a tinta muito mais rápido do que com o baren.

Eu esperava que o Sumo Sacerdote começasse a elogiar a impressora, mas em vez disso, ele apenas colocou a mão na testa. — Isso vai mudar a história. Sim, eu entendo isso agora.

— Ah. Perdão?

Pensei que o Sumo Sacerdote ficaria muito feliz, considerando todos os livros caros que ele tinha, mas parecia que não. Ele olhou para mim e deu um leve sorriso, embora o olhar intenso em seus olhos dourados, o tornasse muito inquietante.

— Myne, há muito sobre o que precisamos conversar, agora.

Quê? Eu relatei isso a ele através de Fran e Damuel, não foi? Por que isso está acontecendo?

Sua turnê terminou sem muito mais acontecer. Sylvester voltou ao ateliê, depois de terminar sua discussão de negócios com Benno. Ele balançou a polpa e acidentalmente rasgou algumas folhas de papel ao tentar colá-las na tábua de secar, mas eu esperava isso. Nenhum dano foi causado às nossas ferramentas e Sylvester parecia satisfeito, então, no geral, a turnê correu tão bem quanto eu poderia esperar. Era bastante óbvio que o Sumo Sacerdote pretendia me dar um sermão ou me interrogar mais tarde, mas bem, por mais aterrorizante que fosse, pelo menos a turnê havia acabado.

A única coisa que não entendi, foi a palidez medonha de exaustão no rosto de Benno, quando ele voltou com Sylvester. Ele me acompanhou até meus aposentos, depois que o passeio terminou, e, no segundo em que chegamos lá, sua cabeça caiu. Parecia que ele nem tinha energia para voltar para casa sem descansar aqui primeiro.

— Benno, o que exatamente o Irmão Sylvester disse a você? Posso reclamar com o Sumo Sacerdote por você, se ele foi excessivamente cruel. Você gostaria que eu fizesse?

Não havia muito que eu pudesse fazer, mas se Sylvester foi particularmente cruel, o Sumo Sacerdote certamente interviria para consertar as coisas. Achei que seria uma oferta bem-vinda, mas Benno apenas manteve seu silêncio amuado e começou a esfregar seu punho contra a minha cabeça.

— Ei, aíi! De onde vem isso?!

— Isso é culpa sua — ele murmurou com uma expressão sombria, antes de preparar seu punho novamente.

Protegi minha cabeça com minhas mãos, olhando para ele, com olhos marejados.

— O que eu fiz de errado?!

— Não posso dizer. Fui proibido de dizer, mas a culpa é sua.

— Ele te deu trabalho por causa da troca do chef ou algo assim?

Essa era a única coisa que eu conseguia imaginar Sylvester dando trabalho a Benno, mas ele apenas piscou surpreso, como se ele nem tivesse considerado isso e então balançou a cabeça.

— Errado.

— E aí?

Benno olhou para mim, com amarga frustração, então coçou o cabelo com gel e soltou um gemido.

— Esqueça. A única coisa que tenho certeza aqui é que me foi dada a oportunidade de uma vida. Não tenho certeza se serei capaz de fazer bom uso disso, no entanto.

— Bem, não faço ideia do que você está falando, mas boa sorte.

Dei a ele as melhores palavras de apoio que pude, dada a minha compreensão limitada da situação, mas isso só pareceu irritar Benno. Ele beliscou minhas duas bochechas ao mesmo tempo.

— Isso dói. Benno, você gostaria de almoçar aqui?

— Não. Tenho que chegar em casa e resolver essa bagunça na minha cabeça — ele respondeu, antes de se levantar abruptamente e sair dos meus aposentos, arrastando os pés como um trabalhador de escritório, exausto, voltando para casa.

Sério, o que Sylvester disse a ele?

Naquela tarde, duas cartas foram enviadas aos meus aposentos, uma das quais era um convite pessoal para a sala de conferências do Sumo Sacerdote. Estava marcado para depois de amanhã, à tarde, antes de eu ir para casa. Imediatamente escrevi-lhe uma resposta. Eu, provavelmente, poderia sobreviver a um sermão, sabendo que estaria indo para casa e para o conforto da minha família, logo depois.

A outra carta era de Sylvester. Nela, ele me agradeceu por hospedar sua turnê e me ordenou que o levasse para a floresta amanhã. Era fácil dar uma ordem assim, mas não tão fácil eu ir para a floresta, considerando minha saúde e o fato de que precisaria de um guarda.

— Sir Damuel, não seria possível eu ir para a floresta, seria? — Murmurei, sacudindo a carta com o dedo.

Damuel, que teria que me acompanhar como meu guarda-costas, deu de ombros, com uma expressão exasperada.

— Aprendiz, você poderia andar tão longe?

— Poderia. Eu caminhava para a floresta com bastante regularidade, antes do meu batismo. Embora seja uma caminhada bem demorada.

Havia poucos homens adultos com paciência suficiente para suportar minha velocidade lenta de caminhada, o que significava que eu estava sendo carregada com mais frequência do que andava ultimamente. Mas isso não significava que eu não podia andar, eu só não era tão rápida em meus passos quanto todo mundo.

— Okay. Vamos deixar de lado, se você pode ou não caminhar até lá. A questão real, então, é que, como seu guarda-costas, não posso recomendar uma aprendiz de sacerdotisa como você indo para uma floresta. Acho que seria melhor se você tivesse outra pessoa para guiá-lo até lá.

Estávamos lidando com Sylvester aqui. Eu poderia ter perguntado ao papai se ele estava de folga, mas seu próximo intervalo não seria até depois de amanhã. Tuuli tinha mencionado que ele estava agendando seu dia de folga para que ele pudesse vir e me levar para casa, e como ela geralmente vinha com ele, ambos definitivamente tinham trabalho amanhã.

— A única pessoa que eu poderia pedir, é o Lutz, mas seria uma grande carga para ele.

Lutz já levaria as crianças para a floresta amanhã, supondo que estivesse ensolarado, então seria uma escolha natural perguntar a ele. Eu preferiria ter perguntado a Leon, já que ele era mais velho e, provavelmente, poderia lidar melhor com Sylvester, mas o filho de um comerciante como ele, mal iria para a floresta, portanto, não saberia muito sobre isso.

Enquanto eu praticava o Fespiel depois do café da manhã no dia seguinte, Gil veio correndo, apesar de já ter saído para o ateliê mais cedo, naquela manhã.

— Irmã Myne, o padre azul já está esperando no ateliê! Er, quero dizer, ele está atualmente esperando no ateliê.

Gil geralmente abria o ateliê no segundo sino, onde se preparava para o trabalho do dia, até que os padres cinzentos do orfanato terminassem o café da manhã. Mas, quando ele foi ao ateliê para abri-lo hoje, ele encontrou Sylvester já lá na porta, vestido com as roupas sujas de segunda mão que lhe dei e esperando com a cabeça erguida.

Gil correu imediatamente de volta para me contar, então parei minha prática de fespiel e fui para o ateliê com ele e Damuel. Cheguei quando os do orfanato terminaram o café da manhã. Padres cinzentos, humildemente, ajoelhados e crianças segurando cestos, prontos para ir para a floresta, estavam reunidos no ateliê. Na frente deles estava Sylvester, que carregava um arco magnífico.

— Bom dia, Irmão Sylvester.

— Você está atrasada, Myne. — Ele me olhou com insatisfação, mas não foi minha culpa.

— Você simplesmente veio cedo demais, Irmão Sylvester. Você pode ver que chegou antes que qualquer um tivesse terminado o café da manhã. Além disso, não vou acompanhá-lo à floresta. Eu seria apenas um peso morto.

— Sim, você anda bem devagar. Então, quem vai me levar lá?

Os profundos olhos verdes de Sylvester brilharam com antecipação, enquanto ele olhava ao redor, ansiosamente, seu maço de cabelo roxo-azulado balançando atrás das costas. A faixa de cabelo prateada, que ele usou para amarrá-lo, não combinava com suas roupas de segunda mão.

— As crianças geralmente são levadas para a floresta por Lutz e Leon, os daplas da Companhia Gilberta. Pretendo pedir a Lutz que leve você. Então, por favor, espere até que eles cheguem.

Fiz um gesto para uma caixa, para ele se sentar, mas ele andou pelo ateliê, incapaz de se acalmar. Soltei um suspiro lento.

— Irmão Sylvester, você realmente pretende ir para a floresta?

— Claro. É por isso que pedi para você pegar essas roupas sujas para mim. Aqui, dê uma olhada. Elas ficam muito bem em mim, hein?

Sylvester deu um sorriso confiante e abriu os braços para me mostrar melhor as roupas, mas elas não combinavam com ele. Na verdade, elas se destacaram mais do que eu jamais teria esperado. Ele parecia exatamente como uma pessoa rica, se divertindo, se misturando, como um plebeu, apesar de, na verdade, não se misturar.

Dito isso, eu poderia, pelo menos, dizer que ele realmente estava animado para caçar. Ele não apenas estava usando as roupas de segunda mão que eu trouxe para ele, mas ele colocou botas de couro um pouco desgastadas. Ele provavelmente achou os sapatos de madeira que eu lhe dei muito difíceis de calçar. Em contraste, o arco que ele tinha era muito mais elaborado do que qualquer outro que você encontraria na cidade baixa. Tanto quanto eu poderia dizer, ele realmente estava apenas planejando caçar.

— Irmão Sylvester, se você pretende caçar na floresta, por favor, prometa ouvir o que Lutz, seu guia, diz.

Sylvester olhou para mim, sua expressão endurecendo um pouco. Eu sabia que os nobres eram de posição mais elevada do que os plebeus, mas, como nós dois éramos mantos azuis, éramos iguais dentro do templo. E como o Sumo Sacerdote estava ausente, só eu era capaz de falar contra Sylvester.

— Assim como existem regras na floresta dos nobres, existem regras na floresta da cidade baixa. Locais de caça e locais de coleta são mantidos separados, e há outras regras mantidas entre os caçadores. Se você pretende quebrar essas regras e exercer sua autoridade como um nobre, para esmagar qualquer dissidência, então, eu preferiria que você nunca entrasse na floresta da cidade baixa, em primeiro lugar.

Havia muitas regras tácitas que garantiam que todos pudessem aproveitar ao máximo a floresta da cidade baixa, incluindo as crianças pré-batismo que coletariam. Ignorar essas regras, ao sair para caçar, poderia acabar com pessoas se machucando. Então, se Sylvester as descartasse como irrelevantes, eu pediria ao Sumo Sacerdote para impedi-lo de ir.

Sylvester ouviu minha explicação com uma expressão séria e assentiu, em resposta.

— Sim, é a primeira vez que vou lá. Claro que vou ouvir o que meu guia tem a dizer.

Nesse momento, chegaram Lutz e Leon, ambos vestidos para a floresta.

— Bom dia, Myne. Raro vê-la no ateliê.

— Bom dia, Lutz. Bom dia, Leon.

— Bom dia, Irmã Myne.

Após dizerem seus bons-dias, ambos notaram Sylvester olhando com um queixo erguido e apressadamente o cumprimentaram também. Eles estavam claramente perplexos ao ver o padre azul de ontem, de pé, diante deles, usando roupas de segunda mão. Então, expliquei que Sylvester queria caçar na floresta.

— Lutz, sinto muito por isso, mas tenho que pedir para você guiar Sylvester pela floresta. Leon, Gil, peço que vocês dois fiquem de olho nas crianças, enquanto elas estão coletando. Vai ficar tudo bem?

— Vamos garantir que fique.

Sylvester ergueu seu elegante arco e partiu para a floresta com Lutz e os outros.

— Não consigo afastar a sensação de que isso vai dar muito errado.

— Tenho certeza que ele sabe o que está fazendo. Vamos voltar para seus aposentos, aprendiz.

É difícil imaginar que Sylvester realmente saiba o que está fazendo, discordei, por dentro, antes de voltar para meus aposentos.

Lutz irrompeu em meus aposentos à beira do sexto sino, bem quando o sol começava a se pôr.

— Myne, se importa se pegarmos emprestados seus chefs? Temos muita carne para cuidar.

Me senti meio mal por pedir aos meus chefs para fazer mais trabalho, logo antes de irem para casa, mas as pessoas experientes com o abate de animais podiam fazê-lo muito mais rápido do que as pessoas que não eram. Não chegaríamos a lugar nenhum se eu entregasse facas de cozinha às crianças do orfanato e dissesse para elas trabalharem.

— Fran, você poderia pedir ao Hugo e aos outros para lidarem com isso? Sir Damuel, vamos partir para o ateliê.

Quando Damuel e eu chegamos ao ateliê, encontramos o chão perto da porta da frente coberto de penas e sangue, enquanto as crianças próximas arrancavam penas como loucas. Hugo e Ella chegaram logo após carregarem as facas e murmuraram um “Woah” impressionado, enquanto também observavam a cena sangrenta, com admiração.

Sylvester, tendo ouvido isso, virou-se para eles, com o peito orgulhosamente estufado.

— Dê uma olhada, Myne! Existem muitos deles. Bem impressionante, hein? Eu peguei todos.

— Bem-vindo de volta, Irmão Sylvester.

Sylvester estava de tão bom humor, que era quase difícil de acreditar. Ele havia caçado um veado pequeno e quatro pássaros, ao que parecia. Hugo e Ella começaram a trabalhar, abatendo o pequeno veado, em uma mesa.

— Ella, parece que eles já drenaram o sangue, então vamos tirar as tripas que estragam rápido. Não temos muito tempo hoje, podemos cozinhar a carne amanhã.

Eu estava assistindo de longe o açougueiro experiente, com um olhar um tanto distante em meus olhos, quando as crianças começaram a relatar o que tinham feito hoje, enquanto arrancavam as penas, com largos sorrisos. No passado, eles só conheciam a carne quando estava preparada, e o fato de estarem animados o suficiente para conversar agora, enquanto depenavam pássaros mortos, mostrava o quanto eles haviam crescido. E o mesmo aconteceu comigo. No passado, eu teria gritado e desmaiado no segundo em que visse todo o sangue e tripas.

— Irmã Myne, o Irmão Syl é tão incrível. Um pássaro voando super alto no céu caiu do nada, e descobriu-se que oIrmão Sylhavia atirado nele com uma flecha!

— Nós o penduramos em um galho para drenar o sangue, e havia tanto que o chão acabou ficando vermelho puro.

— Aí vieram uns bichos pegar os pássaros! O Irmão Syl também os pegou. Mas nós os deixamos lá, pois ele disse que a carne deles era dura e não tinha um gosto bom.

As crianças me contaram, ansiosamente, as histórias das façanhas heroicas de Sylvester, embora imaginar a floresta sangrenta fosse meio assustador. Sylvester estava sorrindo enquanto as crianças o elogiavam.

— É bastante impressionante que você tenha conseguido caçar tanto em um dia,IrmãoSylvester. O que você pretende fazer com tudo isso? Devemos levá-los para a sua cozinha?

Achei que ele poderia querer que seus próprios chefs cuidassem disso, mas Sylvester balançou a cabeça, apressadamente, em resposta, quase como se houvesse algum problema em levarmos a carne para sua cozinha.

— Nah, eu não preciso de nada disso. Eu vou, é… vou doar tudo para os órfãos.

— Ebaaaa! Obrigado,IrmãoSyl!

— Você é tão legal,IrmãoSyl! Espero que você venha para a floresta conosco novamente algum dia!

As crianças se alegraram, tendo recebido mais carne do que normalmente conseguiam comer. Todos eles encheram Sylvester de elogios animados enquanto seus olhos brilhavam com uma fome recém-descoberta.

— Hum, “Irmão Syl”? — Perguntei a Sylvester, timidamente, tendo acabado de perceber o apelido que as crianças estavam usando. Talvez ele tenha achado ofensivo.

— Sim, aparentemente eles acharam “Sylvester” difícil de dizer, então eu os deixei encurtar. Mas não os copie.

— Por que não? — Inclinei minha cabeça, em confusão, e Sylvester bufou, olhando para mim, com um brilho provocante em seus olhos.

— Eu nunca encontrarei as crianças daqui, a menos que eu venha ao orfanato, mas você e eu nos encontraremos em outro lugar. Uma garota imprudente como você, provavelmente, acabaria me chamando pelo nome errado, na hora errada.

Doeu que até Sylvester já me considerasse imprudente, mas eu não podia dizer exatamente que ele estava errado. Tudo o que eu podia fazer era abaixar a cabeça e concordar com ele.

— Você está totalmente correto.

Sylvester, rindo de acordo, cutucou minha bochecha.

— Faz muito tempo que não me diverti tanto. Como agradecimento, você pode ficar com isso.

Sylvester estendeu o punho cerrado antes de abri-lo na minha frente. Achei que ele estaria segurando um inseto ou galho que encontrou na floresta, mas, na verdade, ele estava segurando um colar com uma pedra preta, que parecia ônix reluzente.

— Hmm, não há de que. O que é isso? Uma ferramenta mágica?

— É um tipo de ferramenta mágica, mas não uma que vai te ajudar a usar magia. Orar aos deuses não fará nada acontecer.

Balancei a cabeça, entendendo que era uma ferramenta mágica com alguma funcionalidade específica, como as de bloqueio de som, e olhei para Sylvester.

— Para que serve, então?

— Vou sumir por um tempo. Este é um amuleto de proteção. Se você estiver em uma situação ruim, pressione seu sangue contra a gema negra e eu irei salvá-la.

Era difícil eu imaginar uma situação em que precisaria chamar Sylvester para pedir ajuda. Certamente, eu poderia simplesmente correr chorando para o Sumo Sacerdote. Ainda assim, não havia razão para eu recusar um presente.

— Vire-se. — Sylvester disse. — Vou colocar em você.

Me virei, como instruído. E então, Sylvester estalou a língua.

— Tire seu cabelo do caminho. Como vou colocar isso em você assim? Você nunca recebeu joias de um homem antes?!

— Bem, um menino colocou um enfeite de cabelo em mim uma vez.

Acho que Benno colocou um em mim antes, pelo menos.

Mas, mesmo incluindo meus dias de Urano, nenhum homem jamais me deu um colar. Na verdade, ninguém fora da minha família nunca me deu nenhuma joia. Com isso em mente, talvez eu tivesse conseguido algo bem impressionante por ter um cara me dando um colar, antes mesmo de completar oito anos aqui.

Então é tudo sobre o rosto, hein? Um rosto bonito é tudo o que importa?

Meu velho amigo de infância, Shuu, sempre disse que minha obsessão esquisita por livros significava que eu nunca seria popular entre os garotos, mas talvez fosse finalmente a hora de provar que ele estava errado. E bastou uma pequena reencarnação.

— Irmão Sylvester, eu fico fofa com ele?

— O objetivo de um amuleto de proteção não é parecer fofo. Basta mantê-lo e não o tire. Isso é tudo que importa.

Eu sei que sou apenas uma criança, mas realmente teria matado você me dar um elogio ou dois?

Estufei minhas bochechas em aborrecimento com a atitude seca de Sylvester, que o inspirou a pressionar as palmas das mãos contra minhas bochechas. O ar saiu da minha boca, mas ele não soltou. Na verdade, ele estava pressionando contra elas, com mais força.

— Myne, mantenha-o sempre com você. Nunca o tire, nem por um segundo. Entendeu? — disse Sylvester, seus profundos olhos verdes mais sérios do que eu já os tinha visto antes.

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Fim da leitura

Capítulo 165 concluído

CAPÍTULO 165 - 164