Ascendance of a BookwormCAPÍTULO 167 - 166
Capítulo 167Ascendance of a Bookworm – Capítulo 166
Um novo membro da família
Quando o sol quebrou o céu noturno, papai foi o primeiro a ouvir o gemido da mamãe e pular da cama.
— Tuuli, Myne. Sua mãe está entrando em trabalho de parto. Vou chamar a parteira! Vocês duas se vistam e façam o que for preciso! — Papai disse, enquanto, rapidamente, se vestia e saía de casa, para trazer a parteira.
Todos, exceto eu, pareciam saber quais eram seus papéis e, antes que eu percebesse, Tuuli mudou e correu para a porta da frente.
— Vou buscar Karla! Myne, você se troca e cuida da mamãe!
— Ok! — Dei um grande aceno de cabeça, varrido no momento, mas realmente não sabia o que deveria fazer, enquanto cuidava da mamãe. Eu estava em tal pânico que nada veio à mente.
— Um, humm.
— Myne. Água, por favor — pediu mamãe, em um tom ofegante. Corri para a cozinha, onde despejei água do jarro em um copo, que levei de volta para ela. Ela me deu um leve sorriso e tomou um gole de água.
Vi as grandes gotas de suor em sua testa e fui preparar um pano, momento em que, de repente, me lembrei de algo importante.
Limpeza, Desinfecção, Ser higiênica é absolutamente vital!
Nossa casa estava mais limpa que a maioria. Tuuli e mamãe ajudaram a manter a casa limpa, já que pensavam que eu era apenas uma aberração limpa, e, agora, todos estavam acostumados a lavar as mãos, por uma questão de hábito. Mas o mesmo não acontecia com a parteira e as mães vizinhas, que viriam ajudar.
— O-o-o-o que devo fazer?! — Eu, pelo menos, gostaria que elas lavassem as mãos e as desinfetassem com álcool, mas, naturalmente, não havia desinfetante de álcool em nossa casa. — Há alguma bebida alcoólica aqui que eu possa usar para fazer algo… Hu, humm…
Não tínhamos nenhuma bebida alcoólica pura o suficiente para ser usada como desinfetante, como a vodka. O vinho que usei nas conservas era muito rico em álcool, mas haveria muitas impurezas para ser confiável. Se eu tivesse voltado mais cedo do templo, poderia ter pedido a Benno para me encontrar um pouco de bebida destilada com alto teor de álcool.
— Mas, certamente, é melhor do que nada. — A sujeira do lado de fora era, sem dúvida, pior do que as impurezas do álcool. Encontrei o vinho e algumas roupas limpas para preparar a desinfecção.
— Estou de volta. Vou pegar um pouco de água.
No segundo em que Tuuli voltou, ela começou a sair novamente com um balde na mão. Com ela, vieram Karla e várias outras esposas vizinhas. Cada uma delas segurava baldes cheios de água do poço, que despejaram em uma panela grande, que colocaram sobre o fogo, para ferver.
— Tuuli, precisamos limpar as mãos de todos. E precisamos colocar as ferramentas em água fervente para desinfetá-las. Precisamos… — Pulei em Tuuli, antes que ela pudesse sair de casa para ir buscar água.
— Certo, certo. Limpeza. Entendi. Okay. Compreendo. Então, vá ficar com a mamãe, Myne. — Não entendo, Tuuli me ignorou, já que eu não seria de nenhuma ajuda, quando se tratasse do parto em si. Ela me empurrou para o quarto e saiu.
Fui até a mamãe e peguei a mão dela enquanto ela respirava pesadamente. Quando as dores do parto a atingiram, ela apertou minha mão com tanta força que pensei que meus ossos quebrariam.
— Mãe, ao dar à luz, você deve inspirar e expirar. Como hee hee hoo. Chama-se técnica (Lamaze).
— O-o quê? — Apesar de sua dor, mamãe me deu um leve sorriso.
— Humm, é uma técnica de respiração para ajudar com a dor. Desculpe, eu realmente não me lembro muito bem.
Nos meus dias de Urano, eu nunca tinha sequer considerado que eu iria engravidar ou ter alguma coisa a ver com ajudar alguém a dar à luz, então eu realmente não me preocupei em ler muito sobre a gravidez. Eu sabia o nome da técnica Lamaze, mas não me lembrava o suficiente para explicar o que era ou por que ajudava.
— Hee hee hoo, certo?
Mamãe riu e respiramos juntas, enquanto ela suportava as dores do parto.
Em pouco tempo, a parteira e as esposas vizinhas entraram na sala. Ofeguei ao vê-las e abri meus braços na frente da cama, para mantê-las longe da mamãe.
— Antes de fazer qualquer coisa, lave as mãos, para garantir que estejam limpas!
— Aaah, certo. Esqueci que você era uma aberração da limpeza — disse Karla, com exasperação, mas ela foi em frente e disse às outras esposas para limparem as mãos. Assim que isso foi feito, mandei limparem as mãos usando meu pano encharcado de vinho.
Isso deve ajudar um pouco.
— Agora, Myne, você vai ficar no caminho aqui. Vá para a cozinha. E diga àquele Gunther inútil para parar de andar por aí e arrumar a cadeira. Ele teve tantos filhos e ainda não escuta o que nós falamos? Meus deuses.
Fiz uma careta ao ver a toalha de mão ficando suja, enquanto elas secavam as mãos. Isso significava que elas não estavam ficando limpas, mas, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Karla me forçou a sair do quarto. Não tendo outra escolha, contei ao papai o que ela havia dito e o ajudei a montar a cadeira.
— Pai, para que é essa coisa de cadeira? — perguntei, olhando para a prancha manchada e suja que servia de assento. Ele me disse que era onde mamãe se sentaria para dar à luz.
No segundo em que entendi que era uma tábua de entrega antiquada, senti o sangue escorrer do meu rosto. Peguei o pano e o álcool sem nem pensar nisso. — Tenho que desinfetá-lo.
— Myne, ei! O que você está fazendo com meu vinho?!
— Mamãe vai ficar sentada nisso, não vai? Preciso desinfetá-lo com álcool.
Ignorei os gritos do papai e limpei o assento com o pano encharcado de vinho, até que, eventualmente, uma senhora mais velha veio buscá-lo. Ela riu ao me ver polindo furiosamente.
— Ah, você está limpando isso também? Hah, você com certeza é uma aberração da limpeza. Gunther, era só para isso que precisávamos de você. Vá lá para baixo, sim?
Aparentemente, era proibido os homens estarem por perto durante os partos. Com o papai tendo completado tudo o que um pai deveria fazer, ele desceu as escadas.
— Vou ficar com a mamãe.
— Você também vai, Myne. Você só vai ficar no nosso caminho, chorando sobre limpeza e tudo mais.
— Mas, na verdade, é importante!
— Claro, claro. Podem ir!
Tuuli estava entrando e saindo do quarto para ajudar, mas fui expulsa imediatamente. A porta se fechou atrás de mim e eu não consegui entrar.
— Mamãe.
Eles me chamaram de aberração só porque eu pedi o nível mínimo de limpeza. Só de pensar em taxas históricas de mortalidade por parto, um arrepio correu na minha espinha. Eu estava tão preocupada com a mamãe, que eu queria desinfetar pessoalmente todas as mulheres lá, mas não havia mais nada que eu pudesse fazer.
Mamãe entrou em trabalho de parto quando o sol estava apenas começando a nascer, mas, agora, o sol estava um pouco acima do horizonte e brilhando o suficiente na praça para que pudéssemos ver claramente. Saímos e vi que os homens da vizinhança estavam trabalhando em alguns pássaros.
— Pai, o que todo mundo está fazendo? — Perguntei, caminhando até o poço, onde ele estava começando a andar, inquieto, e me juntando a ele.
— Os homens não podem estar lá para o nascimento, então estamos nos preparando para a cerimônia de nomeação.
— O que é uma cerimônia de nomeação?
As crianças não podiam entrar no templo até o batismo, então eu não esperava que houvesse cerimônias religiosas para bebês. Mas, a julgar pelo nome, eu poderia adivinhar que era algo como uma pequena celebração do bairro.
De acordo com o papai, os homens eram enviados pelas mulheres, durante o parto, para comprar pássaros, depená-los e grelhá-los, para a cerimônia de nomeação. Era uma pequena celebração onde os homens cozinhavam para si mesmos, já que suas esposas não estavam lá para alimentá-los. As mulheres, que terminaram de ajudar com o parto, eram recompensadas com comida e todos comemoravam o nascimento de um novo filho.
— Por que diabos vocês dois estão andando pelo poço? — alguém perguntou. Virei-me para ver Lutz em seu uniforme de aprendiz da Companhia Gilberta, sorrindo para nós, mal segurando o riso.
— Lutz!
Ele olhou na direção da nossa casa.
— Como está a Sra. Effa? Está acontecendo agora?
Concordei com a cabeça.
— Acho que você não vai ao templo hoje, então. Passarei o recado.
— Obrigada, Lutz.
— E acho que vou aproveitar esta oportunidade para dizer que vou faltar ao trabalho hoje. Há uma cerimônia de nomeação chegando, certo? O bebê definitivamente vai nascer saudável. Eu sei que vou precisar perder o trabalho — disse Lutz, com um sorriso.
Papai sorriu de volta e deu um aceno caloroso.
Após ver Lutz partir, papai e eu continuamos andando pelo poço.
— Papai, você não precisa dizer ao portão que vai perder o trabalho?
— Al fez isso por mim, quando saiu para comprar os pássaros. Não vou me mexer um centímetro daqui.
— Ok.
Enquanto continuávamos andando ao redor do poço, o pai de Lutz, Deid, nos chamou, em uma voz estrondosa.
— Gunther, Myne! Se vocês dois não podem ficar quietos, pelo menos, nos ajudem aqui. Isso acontece toda vez com você, Gunther, e é muito cansativo!
Deid pediu ao papai e a mim para lavarmos vegetais, o que fizemos, enquanto nos agachávamos, na frente do poço, e continuávamos nossa conversa. Eu não sabia o quão perigosos os nascimentos eram aqui, então, se eu não mantivesse minha mente ocupada com algo, não seria capaz de me impedir de voltar correndo para dentro.
— Papai, quanto tempo os nascimentos costumam levar?
— Tudo o que me lembro é que esperar você e Tuuli nascerem levou uma eternidade. Parecia que eu estava aqui o dia todo.
— Seus nascimentos foram muito rápidos, Gunther. O filho de Al demorou muito mais — disse Deid, que havia vindo buscar água, com um movimento desdenhoso da cabeça.
Do ponto de vista do papai, pode ter levado muito tempo, mas de acordo com todos os outros, minha mãe tendia a dar à luz com relativa rapidez. Isso foi um alívio para mim, mas papai franziu a testa e as sobrancelhas, em uma expressão lamentável.
— Não me importa se foi rápido ou lento. Contanto que o nascimento ocorra com segurança, desta vez, não me importa quanto tempo demore.
— Desta vez? — Perguntei sem pensar muito sobre isso. Talvez ele estivesse dizendo que queria um filho saudável, desta vez, em vez de um doente como eu.
— Nosso primeiro filho foi um aborto espontâneo. O próximo foi um menino, mas morreu antes de completar um ano. Você e Tuuli sobreviveram, mas o seguinte não sobreviveu ao inverno. E depois foi outro aborto espontâneo. Eu quero que o bebê esteja seguro, desta vez.
A cruel realidade das taxas de sobrevivência ao nascer, aqui, fez meu queixo cair de horror. Eu tinha lido sobre o quão baixas elas eram em livros sobre a idade média, com a maioria das crianças não durando muito tempo em tudo, mas nunca encaixou corretamente na minha cabeça, até agora. Só que carregava muito mais peso e era aterrorizante, quando eu ouvi isso de papai, que tinha visto seus filhos morrerem prematuramente. O medo era tanto, que não pude deixar de olhar para o quinto andar do nosso prédio. Mamãe estava lá, lutando pela vida dela e do bebê.
— Mamãe vai ficar bem, não vai?
— Myne, você deveria orar por ela.
Atirei meus braços para cima e rezei para os deuses do fundo do meu coração. — Que minha mamãe tenha a bênção e a proteção divina de Entrinduge, Deusa do Parto e subordinada à Deusa da Água.
Lutz voltou da Companhia Gilberta e do orfanato com uma grande cesta nas costas. Ele colocou na nossa frente e começou a tirar o conteúdo.
— Myne, aqui está um pano de presente do Mestre Benno. E quando contei nos seus aposentos e ao ateliê sobre isso, Hugo nos deu uma parte da carne de caça do irmão Syl, do outro dia.
— Mas o bebê ainda nem nasceu. — Ainda assim, o apoio de todos me fez sorrir, feliz. — Vou levar esses pedaços menores de carne de pássaro para casa, para mamãe comer. Podemos ter as peças maiores e a carne de veado na cerimônia. Mas isso só será dado quando ela der à luz e as mulheres ajudantes saírem. Você também pode comer um pouco, Lutz, já que você saiu e pegou.—eu disse, entregando a Lutz um pouco da carne.
Papai mostrou sua aprovação com um aceno entusiasmado, e foi então que Tuuli entrou na praça, sua trança saltando atrás dela e um sorriso cheio em seu rosto.
—Papai, Myne! Correu tudo bem! É um menino!
— Oooh! Parabéns! — A praça irrompeu em alegria. Graças ao nascimento seguro, a cerimônia de nomeação começou e a bebida chegou. Os pais disseram suas palavras de celebração, enquanto pegavam a cerveja e começavam a cozinhar a carne em panelas, que haviam sido preparadas, com antecedência.
— Elas disseram que vocês dois podem voltar. Vamos.
Os primeiros a ir ver o bebê eram a família. Papai, com a cesta que Lutz trouxe nas costas, me pegou e subiu as escadas dois degraus de cada vez.
Quando papai entrou em nossa casa, ele agradeceu às mulheres que ainda estavam lá dentro, pelo trabalho, quando terminavam de limpar. Elas, por sua vez, parabenizaram-no, e disseram-lhe como o menino parecia saudável.
— Pai, não traga para o quarto (germes) de fora!
Antes que papai pudesse correr para o quarto, eu o mandei arrumar a cesta e limpar as mãos. As mulheres me chamaram de aberração da limpeza de novo, mas eu as ignorei. Eu precisava lavar minhas mãos também.
— Mamãe, podemos entrar?
— Gunther, Myne, é um menino.
— Bom trabalho, Effa! Estou feliz que vocês dois estão seguros! — Papai se ajoelhou na frente do travesseiro da mamãe e pegou a mão dela, plantando beijos na parte de trás da mão e ao longo de seus dedos.
O bebê, descansando contra o peito exausto da mamãe, era pequeno e coberto com pequenas rugas, e sua pele brilhava com a vermelhidão da juventude. A visão da carinha dele lavada, limpa, e usando as roupas de bebê que Tuuli tinha feito, foi tão comovente, que soltei um suspiro emocionado.
— Então, que nome vão dar ao bebê?
— Você já decidiu, certo? Qual é o nome? — Tuuli perguntou, seus olhos saltando entre mamãe e papai, animadamente. Ambos balançaram a cabeça ao mesmo tempo, depois olharam um para o outro e sorriram, enquanto acariciavam a cabeça do bebê.
— Vamos chamá-lo “Kamil”. O que vocês acham? — Perguntou a mamãe.
— Kamil? Kamil. Ahaha. — Tuuli riu e cutucou o rosto de Kamil.
Mamãe assistiu com um sorriso, então olhou na minha direção.
— Myne, você quer tentar segurá-lo? Tuuli já fez isso.
Isso soou incrível, mas eu estava com medo de deixá-lo cair. Se bem me lembro, os recém-nascidos pesavam cerca de três quilos, em média. Eu seria capaz de carregá-lo?
Enquanto eu pensava sobre isso, a expressão da mamãe nublou.
— Você não quer?
— Não, eu quero. É que… Eu não sei como segurar bebês, e tenho medo de deixá-lo cair — expliquei, fazendo o papai chorar de tanto rir.
Ele me levantou, ainda rindo, e tirou meus sapatos, antes de me colocar na cama.
— Se você o segurar enquanto está sentada na cama, você não tem que se preocupar em deixá-lo cair.
Enquanto estava sentada ao lado da mamãe, eu cuidadosamente peguei Kamil. Ele era pequeno e leve o suficiente para até eu carregar. Sua boca se moveu e seus olhos se abriram, olhando em minha direção, com um olhar desfocado. Ele estava vivo, e isso encheu meu coração de calor.
— Kamil, Kamil. Sou eu, sua irmã mais velha.
Falei com Kamil, o que fez seu rosto enrugado ficar ainda mais enrugado. Então, ele começou a chorar, soltando um pequeno lamento.
—Ma-mamãe. Ele começou a chorar. Kamil é… O que eu faço?
— Não se preocupe, querida. Bebês sempre choram. É o que eles fazem.
Ela disse, mas isso não ajudou em nada. Eu ainda não sabia o que eu deveria fazer. Tudo o que eu podia fazer era olhar ansiosamente ao redor da sala, sentindo-me à beira das lágrimas, até que papai finalmente deixou de ficar parado e pegou Kamil, com um sorriso. Kamil protestou com mais alguns choros fracos, mas papai estava impassível.
— Tudo bem, hora de apresentar Kamil a todos.
— Espere, o quê? Você vai levar um bebê recém-nascido lá fora?
— Claro que eu vou. Temos que mostrar o Kamil a todos, lembra?
Nem sequer era discutível que levar um recém-nascido indefeso para fora, logo após o nascimento, tornaria ele mais propenso a morrer. Engasguei de medo.
— Papai, você realmente tem que levá-lo para fora?
—Sim. O que você está tentando dizer?
— É muito perigoso levar um bebê recém-nascido para fora. Você vai expô-lo ao frio e a todas as (bactérias) lá fora. Suas chances de adoecer vão disparar, tipo, super alto! — Expliquei o mais fervorosamente que pude, e a expressão do papai endureceu um pouco. Ele olhou entre eu e Kamil, pensando profundamente, em seguida, balançou a cabeça com uma carranca.
— Você pode estar certa, mas não podemos ignorar a tradição.
— Se ele tem que ir para fora, você poderia pelo menos mantê-lo aquecido, e ter certeza de que ninguém tocará nele com suas mãos sujas? Você realmente tem que voltar para dentro assim que puder. Isso ainda pode não ser suficiente, mas…
— Você só está sendo boba, Myne. Vai ficar tudo bem. — disse Tuuli com um encolher de ombros. Mas bebês recém-nascidos, realmente estavam em grande risco de morte. Especialmente em um ambiente como este.
Papai, tendo dito no poço o quanto ele queria que este bebê ficasse seguro, olhou para cima com resolução em seus olhos e envolveu Kamil em um pano de aparência quente.
— Eu só tenho que voltar assim que eu puder, sim?
— Uhum. Tome cuidado para não deixar ninguém o segurar.
— Vocês dois estão sendo muito superprotetores — continuou Tuuli, em um tom exasperado — Todo mundo leva seus bebês para fora, para apresentá-los.
Pode ter sido assim, mas em um ambiente como este, nenhuma quantidade de superproteção poderia ser suficiente. A frase “melhor prevenir do que remediar” não dava nem para começo.
Voltei ao poço, com Tuuli e papai, que ainda carregavam Kamil. Lá, descobrimos que havia um grande churrasco acontecendo na praça, a cerimônia de nomeação acima mencionada. Aqui, as esposas do bairro, que ajudaram com o parto, seriam recompensadas, e o bebê seria apresentado a todos. Era assim que o bairro mantinha o controle de quem nasceu em que ano, quem estaria presente em que cerimônia de batismo, e assim por diante. Não havia registros escritos, então tudo o que podíamos fazer, era reunir todos e deixar lembranças duradouras.
— Todo mundo, obrigado por se levantar tão cedo, pela manhã. Meu filho nasceu em segurança. O nome dele é Kamil. Eu gostaria que todos vocês o recebessem como um novo membro do nosso bairro.
Após anunciar seu nome, papai segurou Kamil alto, para que todos pudessem ver, então, rapidamente, o deu para Tuuli e os instigou de volta para dentro, dando a desculpa de que ele poderia ser tão fraco quanto eu. Todos acenaram com a cabeça, bem cientes de que eu estava tão doente que não seria uma surpresa se eu caísse morta de repente.
— Seria um desastre se Kamil fosse tão fraco quanto Myne.
— Ela ainda está com febre, mas ela não está ficando um pouco melhor? Espero que tudo fique bem, agora que ela foi batizada.
Corri, de volta, para dentro, com Tuuli, o tempo todo ouvindo as pessoas falarem sobre como nenhuma delas esperava que eu durasse até o meu batismo, e depois, de todos os meus momentos próximos à morte. Pessoalmente, eu me sentiria mais confortável comendo no meu próprio ritmo em casa, em vez de comer churrasco na praça, enquanto me perguntava quais mãos tocaram o que. Sem mencionar que me disseram para não sair sem um guarda-costas. Embora eu tivesse sido forçada a sair durante o parto, provavelmente seria sábio não ficar por aqui por mais tempo do que o absolutamente necessário.
— Tuuli, o que a mamãe vai comer?
— Vou pegar algo para ela do churrasco — respondeu Tuuli. Parecia que ela realmente queria participar do churrasco, enquanto ela corria de volta para baixo, logo após devolver Kamil para a mamãe.
Acendi o fogo na lareira e aqueci a sopa de ontem. Enquanto esperava, trabalhei meu caminho até a cesta que papai tinha casualmente deixado no canto. Peguei a carne de pássaro que Hugo tinha preparado para o depósito de inverno, e coloquei o pano de Benno na área normal de armazenamento.
— Mamãe, você está com fome? Aqueci um pouco de sopa. Seu leite não será tão bom se você não comer.
— Isso é verdade. Acho que vou comer algo, se você não se importa.
Levei a sopa para a mamãe, enquanto ela se sentava na cama. Eu tinha uma tigela própria, também, e coloquei uma cadeira ao lado da cama, para que eu pudesse comer com ela.
— Você não vai ao churrasco, Myne?
— Não, uh. Sir Damuel me disse para não sair sem ele.
— Entendo — disse a mamãe, seu tom pesado, me lembrando que ela estava preocupada com o pouco tempo que passei com nossos vizinhos. Doeu que eu não pudesse fazer nada sobre isso. Ninguém que soubesse o que eu sabia sobre higiene e saneamento comeria lá embaixo.
— Ah, certo. Lutz nos trouxe pano de Benno e carne preparada pelos meus assistentes no ateliê do templo. Precisamos dar-lhes algo de volta ou fazer algo por eles? — Perguntei, sem saber o que era habitual aqui.
Mamãe balançou a cabeça. Segundo ela, tudo o que tínhamos que fazer era dar-lhes presentes nós mesmos, quando eles tivessem filhos. Isso não me pareceu necessariamente justo, já que Benno era um solteiro autoproclamado, e a maioria das pessoas no templo não estavam exatamente em posição de se casar.
— Dito isso, Myne, você poderia por favor dizer-lhes tudo sobre Kamil? Queremos o maior número possível de pessoas para lembrar o nascimento de Kamil.
— Okay. Você pode contar comigo — Respondi com um grande aceno, enquanto olhava para meu irmãozinho, dormindo ao lado da mamãe. A visão dele dormindo, aconchegantemente, em um pano grande, para se manter aquecido, fez meus próprios olhos quase se fecharem.
— Kamil com certeza é fofo.
— Não é?
Eu não teria muito tempo para ficar com Kamil. Como eu iria embora quando ele fizesse dois anos, era inteiramente possível que ele nem se lembrasse de mim, quando crescesse. O máximo que eu poderia fazer, era criar livros ilustrados e brinquedos para ele, tanto para ajudá-lo durante a vida, uma vez que eu tivesse ido embora, e para me ajudar a ficar em suas memórias, como sua irmã mais velha.
Se livros ilustrados são tudo que posso fazer, terei que fazer uma biblioteca inteira deles para o meu irmãozinho fofo.
Os livros ilustrados em preto e branco, seriam suficientes até quando ele fizesse dois, talvez três meses, mas eu gostaria de mais cores, para quando ele fizesse seis meses. Isso significava que eu precisava desenvolver tinta colorida, e pensar em conteúdo para os novos livros de bebês.
Espere. Agora que penso nisso, há muita coisa que preciso fazer, não é? Vou mesmo estar muito ocupada nos próximos dois anos?
Se eu quisesse fazer livros ilustrados para Kamil, à medida que ele envelhecesse, talvez eu não tivesse tempo de imprimir livros somente de texto, em primeiro lugar. Não importava que a impressora estivesse fora dos limites. Eu poderia continuar melhorando os modelos de estêncil.
Tenho um limite de tempo. Preciso trabalhar rápido. Kamil, sua irmã mais velha vai fazer tudo o que puder!
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