Ascendance of a BookwormCAPÍTULO 183 - 182
Capítulo 183Ascendance of a Bookworm – Capítulo 182
O nobre de outro Ducado
Papai chegou ao templo comigo nos braços e, por algum motivo, Fran já estava esperando no portão. Por que ele estava lá quando não tivemos tempo de dizer a ele que estávamos voltando?
— Fran? O que o traz ao portão? Aconteceu alguma coisa?
— Vi o chamado da Ordem dos Cavaleiros perfurar o céu e considerei possível que você voltasse em breve. E pensar que eu estaria certo — Fran disse, olhando para nós. Ele podia adivinhar que algo sério havia acontecido pelo fato de Lutz e Tuuli não estarem comigo, e papai estar aqui no lugar de Damuel.
— Fran, precisamos falar com o Sumo Sacerdote.
— Ele não está aqui.
— O quê?
— Podemos conversar em seus aposentos. Gil, minhas desculpas, mas, por favor, espere aqui pelo Sir Damuel. Peço que o instrua a não ir ao quarto do Sumo Sacerdote, mas aos aposentos da Irmã Myne.
Ao chegar em meus aposentos, Fran serviu um copo d’água para o papai, que acabara de correr pela cidade inteira me carregando. Em seguida, fomos para o saguão, para conversar. Fran foi o primeiro a falar, em voz baixa.
— Vou começar a partir de quando você e os outros foram embora, Irmã Myne.
Não demorou muito depois do início de minha escolta para casa, que papai chegou aos meus aposentos. Ele disse que o nobre de antes havia entrado na cidade, pedindo a Fran para relatar isso ao Sumo Sacerdote, antes de correr de volta para a cidade para verificar se eu estava bem.
— Corri para a sala do Sumo Sacerdote para contar a ele o que havia acontecido, mas, infelizmente, Arno me informou que estava ausente. Sem outras opções disponíveis, decidi voltar para seus aposentos, mas fui parado, por Delia, no caminho.
— Delia? Ela tinha algum negócio com você?
— Ela disse que o pai adotivo de Dirk havia chegado e queria discutir a saúde de Dirk com você, já que você o criou, mas eu a mandei embora porque você já tinha ido embora. Fiquei aliviado por você não estar aqui enquanto o Sumo Sacerdote estava ausente, mas… — Fran franziu a testa para mim, como se expressasse sua frustração, por eu ter retornado, mas eu não aceitaria nada disso.
— Muita coisa aconteceu comigo também.
Contei a Fran exatamente o que havia acontecido no caminho para casa. Ele cruzou os braços e caiu em pensamentos.
— Se considerarmos os dois lados desta história, é possível que o Sumo Sacerdote tenha sido convocado pela Ordem dos Cavaleiros. Ele provavelmente retornará, quando Sir Damuel o fizer. O Arquiduque está sempre acompanhado por um grupo de cavaleiros, quando visita à Monarquia, então não há dúvida de que a Ordem dos Cavaleiros está com falta de mão de obra agora, — ele murmurou. — Irmã Myne, por favor, coloque suas vestes azuis antes que Sir Damuel chegue.
Vesti minhas vestes, com a ajuda de uma Rosina preocupada, e não demorou muito para que Gil voltasse com Damuel. A Ordem dos Cavaleiros havia contido a perturbação na cidade baixa e o instruído a retornar ao seu dever de guarda. Fran deu água a ambos, depois explicou as circunstâncias no templo.
— Isso é estranho, — Damuel murmurou, em confusão. — Eu não vi o Senhor Ferdinando entre os outros cavaleiros, eles até me disseram para relatar isso a ele. Tem certeza de que ele não está aqui?
Estávamos todos confusos com essa revelação, e, então, decidimos tentar visitar o quarto do Sumo Sacerdote mais uma vez. No mínimo, teríamos que interrogar Arno sobre para onde ele havia ido. Damuel deixou claro que a situação era ruim o suficiente para exigir esse nível de ação drástica.
— Aprendiz, segure isso.
Damuel, como se lembrasse, de repente, que o tinha, tirou um anel de uma pequena bolsa em seu quadril e o colocou na minha mão. Tinha uma pequena gema ligeiramente turva anexada a ela.
— Esta é a evidência que eu tirei do homem de antes. Vê o brasão da família do nobre?
— Eu não deveria ter algo tão importante!
— É pequeno e não tem uma qualidade tão alta, mas tem uma feystone. Segure-o, no caso de algo acontecer. Ao contrário de Senhor Ferdinando, não tenho feystones decentes que possa emprestar a você.
Aparentemente, como um nobre no extremo mais pobre do espectro, Damuel não tinha feystones suficientes para poder emprestar uma a outra pessoa. Coloquei o anel, imaginando que seria melhor do que nada, mesmo que pertencesse a um criminoso. Não mudou de tamanho para caber no meu dedo, talvez porque não fosse uma ferramenta mágica como o anel que o Sumo Sacerdote sempre me dava.
— Pode estar quebrado. O brasão é tudo o que precisamos para a evidência, e não há nenhum ponto em colocá-lo se você não pode usá-lo. Você pode colocar mana nele? — Damuel perguntou.
Tentei despejar mana no anel.
— Hum, parece que eu posso. Apenas um pouco. — Da mesma forma, ao contrário do anel que o Sumo Sacerdote sempre me emprestava, eu mal conseguia colocar alguma quantidade de mana no anel.
— Essa é uma pedra de baixa qualidade. Pode quebrar se você colocar muita mana de uma vez. Tome cuidado.
Cerrei meu punho, para não deixar o anel meio quebrado escapar do meu dedo, enquanto Fran se preparava para nos levar ao quarto do Sumo Sacerdote. Eu estava posicionada diretamente atrás dele, com papai e Damuel de cada lado de mim.
— Gil, cuide dos meus aposentos por mim. — Como uma criança sem experiência de luta, ele ficaria para trás. Ele aprendeu a vida toda que a violência estava errada, e o choque de ver alguém morto, em um jato de sangue, hoje, realmente o afetou. Ele parecia doente e era óbvio que ele não estava em um bom estado de espírito, mas, por mais que eu quisesse ficar com ele, isso simplesmente não era uma opção, agora. Então, saímos do quarto, um Gil de rosto preocupado nos vendo partir.
— Irmã Myne, por favor, tenha cuidado. Por favor.
Entramos na área nobre do templo, assim que o Arcebispo e um grupo de pessoas entraram no mesmo corredor. Ao lado do Arcebispo, de barriga rechonchuda, estava um homem feio, parecido com um sapo, que também estava acima do peso. Ele usava roupas diferentes, mas ele era a imagem de um ministro do mal ou algum outro político. Eles eram seguidos por donzelas cinzas do santuário e alguns servos bem vestidos, elevando seu grupo para cerca de dez pessoas.
Fran virou suavemente uma esquina próxima, para evitar o grupo do Arcebispo, levando-nos para um corredor que levava ao Portão dos Nobres. Seria um longo desvio para o quarto do Sumo Sacerdote, mas isso era melhor do que encontrar o Arcebispo no meio do caminho. Papai me pegou, Damuel examinou a área, e Fran nos guiou, enquanto caminhava, rapidamente, para o quarto do Sumo Sacerdote.
— Sir Damuel, quem era aquele com o Arcebispo?
— Conde Bindewald. Ele é um nobre superior, de outro ducado, que usou uma licença falsa para entrar na cidade. Podemos adivinhar que ele está aqui por você — sussurrou Damuel, em voz baixa, fazendo com que papai apertasse os braços ao meu redor.
— Poderíamos ser capazes de pegá-lo, se a Ordem dos Cavaleiros, ou mesmo o Senhor Ferdinando estivesse aqui, mas não tenho chance, sozinho. Ele tem uma posição muito mais alta do que eu e tem muito mais mana. Ele pode não saber como lutar como nós, cavaleiros, mas isso não importa, quando ele pode me sobrecarregar com mana.
A porta mais próxima do Portão dos Nobres apareceu. Viramos a esquina, para ir ao quarto do Sumo Sacerdote, apenas para ver o grupo do Arcebispo bloqueando o corredor. Tínhamos a intenção de evitá-los, mas eles nos viram e voltaram, para chegar aqui primeiro.
— Conde Bindewald, essa é a aprendiz de donzela azul do santuário, Myne, — disse o Arcebispo, com um sorriso desagradável e um dedo apontado para mim. Os lábios de Bindewald se contorceram em um sorriso de sapo, enquanto ele me olhava da cabeça aos pés.
— Ohoho, entendi.
Seu olhar nojento causou arrepios em toda a minha pele, e eu, inconscientemente, apertei o papai com mais força. Eu honestamente merecia elogios por conter meu desejo de gritar “Não olhe para mim!”
— Hum. Disseram-nos que ela tinha ido embora, mas aqui ela retorna aos seus guardiões. Suponho que falharam, então. Tolos inúteis, — murmurou Bindewald, em um tom frustrado, antes de estender a mão para mim. — Myne, vou te dar uma graça com um contrato.
— Eu respeitosamente me recuso. Já estou prometida a alguém.
— Hum. Pode estar sob custódia dele, mas imagino que não assinou nenhum contrato. Tudo o que eu preciso fazer é obter o seu sangue primeiro. — O sapo soltou uma gargalhada perturbadora, e seu estômago saltou, quando ele deu um passo à frente.
— Você também vai adotar a Irmã Myne, Conde Bindewald? — Delia, saindo de trás do Arcebispo, com Dirk nos braços, falou, em um tom alegre, não condizente com a situação. — Que maravilha, ela e Dirk serão uma grande família feliz. Ambos serão agraciados com as bênçãos da nobreza.
O sapo bufou ironicamente com as palavras de Delia.
— Eu? Adotar um plebeu imundo? Nunca.
— Mas senhor, você já adotou Dirk.
— Eu não o adotei. O que eu tenho com esse bebê é um contrato de submissão. — O conde gargalhou e tirou o que parecia ser um contrato de adoção adequado, mas em seu título, se podia ver, que havia duas camadas de pergaminho. Um largo sorriso se espalhou por seu rosto, ele soltou a camada frontal para revelar o texto abaixo: Contrato de Submissão para uma Criança com Consumação.
— O quê? Isso quer dizer que… Dirk vai…
— Ele será mantido como escravo pelo resto de sua vida e usado como uma fonte viva de mana, para preencher ferramentas mágicas para Bindewald — eu disse.
Delia apertou Dirk com mais força e balançou a cabeça com medo, antes de olhar desesperadamente para o Arcebispo.
— Isso não pode ser verdade. Ela está mentindo, não é, Arcebispo? Você disse que Dirk e eu ficaríamos juntos, não disse?
— Não tema, Delia. A mana do bebê será usada por nós, mas ele será criado aqui no templo. Ele não será tirado de você — disse o Arcebispo, em um tom gentil, seu rosto era de um avô bondoso. — Isso é apenas uma troca. Ficarei com aquele bebê e, em troca, Myne deixará o templo.
Delia empalideceu, olhando entre Dirk e eu. “Irmã Myne deixará o templo no lugar de Dirk?” ela murmurou, em descrença.
Então, uma barriga gorda a impediu de ver.
— Este é o seu contrato de submissão. Assine. Você me fez perder muitos dos meus peões, hoje e na primavera. Você mesma preencherá o buraco deixado por eles.
O conde deu um passo à frente, e todos nós demos um passo para trás. A porta do quarto do Sumo Sacerdote, e talvez nossa única esperança de ser resgatados, estava atrás deles.
— Sumo Sacerdote — sussurrei.
O Arcebispo sorriu.
— Infelizmente, seu guardião, o Sumo Sacerdote, está ausente. Nenhuma cavalaria virá em seu auxílio. Desista já, para que eu nunca mais tenha que colocar meus olhos em você, novamente. — Ele se virou para olhar para o sapo parado alguns passos à sua frente.
— Conde Bindewald, com o Arquiduque e o Sumo Sacerdote fora, esta é nossa melhor oportunidade. Você pode levar Myne e eu fingirei que não vi nada. Capture-a, e deixe a cidade o mais rápido possível.
Com essas palavras, a tensão no ar ficou espessa. Papai cuidadosamente me colocou no chão, deu um passo à frente, e preparou sua lança. Damuel também preparou sua arma, apertando os dentes, em preparação para enfrentar um nobre mais poderoso e de posição mais alta do que ele. Até Fran tirou uma adaga da bolsa em seu quadril.
— Vocês podem matar todos, menos a garota. Peguem-na. — Sob o comando do sapo, três homens do grupo deles se adiantaram. Todos eles se portaram como o homem que papai havia matado, e eram como exemplos vivos do que acontecia com as pessoas com a Consumação, que assinaram com nobres.
— Aprendiz, volte! — Damuel bloqueou dois dos homens que nos atacaram, enquanto papai e Fran lidavam com o outro. Os soldados pessoais do conde não eram tão capazes quanto Damuel, um cavaleiro formalmente treinado. Demoraram mais tempo para reunir mana para ataques simples e não foram capazes de lutar tão bem quanto ele. Mas enfrentar duas pessoas ao mesmo tempo ainda era difícil, e enquanto Damuel mal conseguia, um movimento errado poderia custar a vida dele.
Papai e Fran pareciam ser capazes de dominar o outro cara, mas como não tinham defesa contra a mana, não era tão simples assim. Papai teria vencido em pouco tempo, se tivesse sido apenas uma luta de espadas, mas não havia nada que um plebeu pudesse fazer quando atacado com mana. O anel do homem se iluminou e, assim que um raio foi disparado em direção a papai e Fran, Damuel sacou a varinha e balançou. Um ruído agudo como o choque de metal soou quando mana desviou mana.
— Ele é um nobre?!
No momento em que Damuel fez sua varinha aparecer, tanto o sapo quanto o Arcebispo endureceram suas expressões. O Arcebispo olhou para Delia, cuspe voando para fora de sua boca enquanto gritava.
— Delia! Quem é?
— O cavaleiro designado para proteger a Irmã Myne — Delia gritou, com uma voz sufocada, com muito medo para pensar direito.
Os olhos do Arcebispo se arregalaram e ele apontou para Damuel.
— Aquele homem de aparência pobre é um cavaleiro?!
O Sumo Sacerdote devia estar escondendo informações dele. Embora o Arcebispo soubesse que eu havia recebido um guarda, ele não sabia que Damuel era um nobre, nem que ele era um cavaleiro, e o fato dele ainda estar vestindo suas roupas simples, para visitar a cidade baixa, tornara isso ainda mais difícil de adivinhar.
— Não teremos muito tempo se a Ordem dos Cavaleiros for alertada. Terei que fazê-lo desaparecer também. — O conde já estava observando com um sorriso, mas agora despejava mana em seu anel, com uma expressão sombria, antes de chicotear a mão no ar. Uma bola azul clara de mana saiu de seu anel, indo direto para Damuel.
— Cuidado! — Balancei minha mão também, copiando seus movimentos. Uma bola esbranquiçada de mana disparou, atingindo a mana azul brilhante do conde e a derrubando. Sua mana atingiu a parede com um estrondo alto, mas a parede em si estava completamente ilesa, como se tivesse acabado de absorver a mana.
— Como se atreve, uma plebeia com consumação, se opor a mim? — o conde disse frustrado, colocando ainda mais mana em seu anel. Observei as mãos dele, com cuidado, e fiz o mesmo, tomando cuidado para não derramar tanta mana no meu anel, que se quebraria. O máximo que podia fazer com um anel tão fraco, era enviar uma pequena explosão de mana, que tiraria sua mana do caminho desejado. E, no entanto, eu tinha que fazer algo. Damuel já estava ocupado com dois homens e não tinha margem para fazer nada sobre o conde.
Isto é muito melhor do que combate físico, pelo menos. Se Bindewald pulasse em mim ou viesse balançando, eu perderia em um instante, mas, em um duelo de mana, eu poderia, pelo menos, ganhar algum tempo.
— Quanto tempo você vai durar, usando uma quantidade patética de mana como essa? — O conde soltou outra gargalhada de sapo, lançando bola após bola de mana em mim, como um leão provocando um pequeno animal.
— Wow! — Eu as desviei, usando o mínimo de mana possível, para não quebrar o frágil anel no meu dedo. Damuel, papai e Fran estavam todos ocupados, lutando contra as pessoas na frente deles. O equilíbrio de poder desmoronaria em um instante se Bindewald começasse a lançar mana contra eles. Perder não era uma opção, e perceber isso fez minha respiração mais difícil e fria, o suor de ansiedade começar a escorrer pelas minhas costas.
— Arg!! — Após derrubar tantas bolas de mana que perdi a conta, Bindewald parou de lançá-las e olhou para mim com desgosto. Eu provavelmente tinha durado mais do que ele esperava.
Eu posso continuar. Fechando o punho para que o anel solto não caísse, olhei para Bindewald, de cabeça erguida. Foi então que seus olhos caíram no meu anel.
— Hum? O que é isso que eu vejo? E pensar que já estava usando um anel de submissão. Ah, que piada. Nunca houve necessidade de se preocupar com isso, eu já ganhei.
Bindewald caiu na gargalhada. Eu estava, aparentemente, usando um anel dado àqueles com a consumação, que haviam assinado um contrato de submissão que, uma vez usado, os tornava incapazes de atacar seu mestre. Além disso, não poderia ser removido até que seu mestre, neste caso, o conde Bindewald, anulasse seu contrato. Os anéis eram vis. O mestre poderia derramar sua própria mana neles para infligir dor a qualquer escravo que o desobedecesse.
Bindewald deu uma gargalhada presunçosa e olhou para mim.
— Me obedeça, se você não quer sofrer!
Tirei o anel diante dos olhos dele. Provavelmente não estava funcionando como pretendido, já que não assinamos um contrato e já estava meio quebrado.
— Só estou dizendo, isso sai assim.
— O quê?! — O sapo arregalou os olhos. Atrás dele, a cabeça careca do Arcebispo estava vermelha de raiva.
— Garota insolente! — ele gritou, antes de arrancar Dirk das mãos de Delia.
— Ah! — Aconteceu tão de repente que Delia não pôde fazer nada, além de olhar fixamente, seus olhos arregalados, enquanto o Arcebispo drenava com força a mana de Dirk, usando uma feystone. O rosto do bebê empalideceu e ele começou a convulsionar com o aperto muito forte do Arcebispo.
— Dirk! — Delia gritou, estendendo a mão para pegá-lo de volta. Mas o Arcebispo estalou a língua e afastou as mãos de Delia.
— Bebês nunca têm mana suficiente — ele bufou, após terminar de roubar mana de Dirk. Ele, então, balançou a mão e disparou uma bola de mana. Eu, apressadamente, coloquei o anel de volta e desviei o tiro, depois olhei para o Arcebispo, com os dentes cerrados.
— Como você se atreve a fazer isso com Dirk! — A raiva encheu todo o meu corpo. Mas, antes que eu pudesse intimidá-lo, o Arcebispo empurrou Dirk, agora drenado e exausto, na frente dele.
— Ahh! Você é capaz de atacar esse bebê? Você tem isso em você, para arruinar a vida de Delia?
— Pare! Irmã Myne, por favor, pare! Estou te implorando! — Delia gritou de terror, seu rosto se contorcendo, miseravelmente, ao ver Dirk sendo usado como um escudo humano. Eu não poderia intimidar ninguém com ela implorando assim desesperadamente.
Respirei ansiosamente, sem saber o que fazer. E então aconteceu: uma das donzelas do santuário do Arcebispo me agarrou pelo lado, tendo se aproximado, furtivamente, enquanto todos estavam distraídos.
— Wow?!
— Myne?!
— Sim! Bom trabalho, Jenni! Continue a segurando! — O Arcebispo exclamou antes de lançar o Dirk exausto em Delia. Eu podia ver Delia chorando e abraçando Dirk pelo canto do meu olho.
— Me solte! — Gritei com a donzela do santuário.
— Não. Enquanto eu era acolhida pelo Arcebispo e forçada a oferecer flores, dia após dia, Rosina e Wilma foram acolhidas por você e permitidas a experimentar o conforto que tivemos, uma vez, sob Irmã Christine. Isso simplesmente não é algo que eu possa perdoar.
Os sussurros cantados de Jenni estavam tingidos de doçura, mas o ódio fervente, escondido sob tudo isso, enviava um arrepio gelado pelas costas. Se eu fosse tirada do templo, Rosina e Wilma seriam enviadas de volta ao orfanato. Jenni não queria nada além de que elas fossem infelizes lá, e eu sabia que não havia nada que eu pudesse dizer que a fizesse me soltar.
— Podemos considerar o contrato feito, então — disse Bindewald, com uma gargalhada. Ele começou a andar em minha direção. O aperto de Jenni não afrouxou, não importava o quanto eu lutasse. Ela tinha braços finos, mas uma criança fraca como eu não conseguia nem chegar perto de dominar o aperto de uma mulher adulta.
Bindewald pegou sua varinha brilhante e a transformou em uma faca. O olhar em seus olhos, enquanto ele brandia, era a imagem cuspida de como Shikicoza havia olhado para mim. Eles eram os olhos de um nobre que acreditava que, como uma plebeia, eu era inferior a ele, e que me submeter a ele era o caminho adequado do mundo.
Tudo o que eu podia fazer era tremer de medo, assim como eu tinha feito, quando Shikicoza puxou uma faca pra mim. A ponta da lâmina brilhante se aproximou, depois cortou a ponta do meu dedo.
— Aiii! — Ao contrário dos cortes superficiais que Lutz faria para selos de sangue, Bindewald havia cavado fundo em meu dedo, não prestando atenção a qualquer dor ou dano duradouro. O sangue quase instantaneamente começou a escorrer da ferida.
— Abra sua mão. — Ele pegou um contrato e o empurrou para mim, usando um sorriso desagradável o tempo todo. Seu rosto de sapo só ficou mais nojento quando ele se aproximou de mim. Eu olhei para ele, apertando minha mão o mais forte que pude, em desafio, mas não havia como impedir que o sangue escorresse.
— Eu disse para você abrir a mão. — Resisti, tentando evitar que ele agarrasse minha mão e a abrisse. Eu estava fraca o suficiente para que acabasse assim que suas mãos estivessem nas minhas.
— Não, não, não! Afaste-se! Aii!
—AFASTE-SE DELA! — Ouvi um rugido e, um segundo depois, papai chutou Jenni, por trás, o mais forte que pôde. A força pura nos enviou voando em direção a Bindewald. Bati em sua barriga gorda, derrubando todos nós no chão, e, por um segundo, não consegui respirar, espremida entre Jenni e ele, como eu estava.
Em segundos, papai correu e me puxou de entre eles, antes de me pegar e me segurar em um braço.
— Sinto muito por isso. Cheguei a tempo? — ele perguntou, sem olhar para mim. Ele puxou Jenni um pouco, com a mão livre, enquanto ela ofegava, depois chutou seu estômago. Ela voou de Bindewald com um gorgolejo, vômito saindo de sua boca.
— Isso foi cruel… — murmurou o Arcebispo. Ele e seus assistentes estavam tremendo com a visão de violência, que nunca era vista no templo.
Papai deu a eles um olhar frio.
— Então, você está dizendo que não é cruel cortar uma garotinha com uma faca, e forçá-la a um contrato de escravidão, com o qual ela não concorda?
— S-Silêncio, plebeu! — Bindewald, cujo rosto estava vermelho brilhante, em humilhação, enquanto se sentava no chão, balançou, com raiva, a mão com o anel. Ele disparou uma explosão de mana maior do que nunca, e a enorme bola de mana azul brilhante veio direto para nós. Estava muito perto para eu lançar minha própria explosão de mana, para desviá-la.
Eu estou morta! Fechei os olhos, quando a bola foi atirada em mim, mas papai foi mais corajoso. Ele me agarrou, em um abraço e, imediatamente, saltou para o lado, rolando, quando ele bateu no chão.
— Aiii!
— Pai?! — Ele não se esquivou completamente do ataque de mana. De seu ombro esquerdo até o cotovelo estava vermelho brilhante, como se ele tivesse sido queimado. A visão dele gemendo de dor girou um interruptor dentro de mim.
Saí dos braços do papai e me levantei. Fechei os olhos em Bindewald, que estava construindo mana para um segundo ataque, e o acertei com toda a minha mana, logo de início.
— Eu VOU fazer você pagar! — Gritei, e a força de toda a mana do meu corpo fez a pedra de feystone do anel explodir como um balão estourando. No mesmo momento, toda a força da minha intimidação atingiu Bindewald. Ele piscou e caiu de joelhos, os olhos bem abertos de surpresa. Ele tentou mover as mãos trêmulas, apenas para descobrir que não podia movê-las, como se pesos muito pesados estivessem esmagando seu corpo em todos os lados. Eu não tinha intenção de deixá-lo fazer qualquer outra coisa.
— Conde Bindewald?! — A voz em pânico do Arcebispo fez minha cabeça lançar a ele um olhar. Eu não tinha medo dele, agora que ele havia abandonado seu escudo humano.
Mas, no segundo seguinte que esse pensamento passou pela minha mente, ele tirou uma feystone preta do bolso de suas vestes.
— Não pense que o mesmo truque funcionará em mim duas vezes!
A feystone preta em suas mãos estava sugando minha mana do ar. Ele deu um sorriso presunçoso. Continuei o intimidando com mana, mas foi tudo sugado direto para a pedra.
— Arg… Baixei a guarda. E pensar que ela tinha tanta mana dentro dela — disse Bindewald. Eu o vi cambaleando, com o canto do olho, antes de fazer sua varinha aparecer, seu sorriso desdenhoso substituído por uma expressão completamente vazia.
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