Ascendance of a Bookworm — Capítulo 188: CAPÍTULO 188 - 187

Ascendance of a Bookworm
Cap. 188
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Ascendance of a Bookworm

CAPÍTULO 188 - 187

Capítulo 188

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Ascendance of a Bookworm – Capítulo 187

Epílogo

Lutz estava na Companhia Gilberta. Ele tinha acabado de escapar com os outros, depois que Myne e Tuuli foram atacadas por homens estranhos, no caminho de casa, com Gunther, Damuel e Otto conseguindo recuperá-las, após uma luta difícil.

— Otto, Lutz, o que aconteceu?! Conte-me tudo o que puder, sem quebrar nenhum segredo! — Benno gritou, subindo correndo as escadas. Alguém deve ter dito a ele que fugimos para cá.

Otto debateu sobre o que dizer por um segundo, depois estreitou os olhos para Benno, com um olhar.

— Benno, fale baixo. Você vai acordar Renate.

— Sim, sim. Que seja. Lutz, ignore Otto e me diga o que puder.

O habitual bate boca de Otto e Benno ajudou Lutz a relaxar um pouco. Ele começou a explicar a situação, começando com Tuuli e ele voltando para casa juntos. Eles então encontraram Otto em busca do nobre de outro ducado, no caminho de casa, e, enquanto conversavam com ele, eles foram atacados. Os sequestradores estavam atrás de Myne, mas dada a forma como discutiram sobre qual garota pegar, eles não poderiam tê-la conhecido muito bem.

Damuel parou os sequestradores em seus rastros, e então eles correram para a Companhia Gilberta. De lá, Myne e Gunther foram ao templo para contar ao Sumo Sacerdote o que havia acontecido, enquanto Damuel chamava a Ordem dos Cavaleiros.

— Ah, sim, Myne aparentemente pediu ajuda também — Otto murmurou.

Todos os olhos caíram sobre ele. Lutz, correndo para acompanhar Gunther, não notou Myne pedindo ajuda. Havia tanta coisa que Lutz não sabia, especialmente por que Gunther o impediu de ir ao templo, e isso o deixou ainda mais frustrado consigo mesmo.

— Ela colocou um pouco de sangue do joelho em um amuleto pendurado em seu pescoço. Aparentemente, alguém viria ajudá-la, se ela estivesse em apuros.

Lutz não tinha ideia do que tudo aquilo era, mas Benno parecia ter uma ideia.

— Isso é muito cedo! Droga! — ele cuspiu, depois se virou para voltar para a loja.

— Mestre Benno, o que está…

— É absolutamente ultra secreto! — Benno gritou, enquanto corria escada abaixo, xingando quem sabe o quê.

Lutz mordeu o lábio. Algo estava acontecendo agora, e ele não tinha ideia do que era. Myne estava em perigo, mas ele não podia fazer nada por ela. Havia uma parede que ele não podia escalar, não importava o quanto tentasse. Uma parede que o afastava dela. Uma parede que nenhuma quantidade de coragem ou determinação poderia superar.

— Olha, os gritos de Benno fizeram Renate chorar. Que tio assustador ele é. Pronto, pronto. — Otto pegou Renate e começou a balançá-la suavemente, o que foi o suficiente para trazer Corinna de volta a realidade. Seus olhos arregalados estavam fixos na expressão intensa de Benno.

Tuuli também pareceu relaxar um pouco, o olhar rígido em seu rosto se afrouxando, enquanto todos se moviam em direção a Renate. Ela estava tremendo e não disse uma palavra desde que chegou aqui, mas agora murmurou algo sobre como deveria ter trazido o brinquedo que fez com Myne. Isso inspirou Otto a se gabar de Renate, contra o qual Tuuli lutou se gabando de Kamil.

Estou cansado de ouvir vocês dois, sério.

Lutz, não disposto a participar da conversa sobre bebês, caminhou até uma janela e olhou para a rua. Ele pensou que poderia ser capaz de ver soldados ou cavaleiros se movendo, mas tudo o que viu foi o fluxo habitual de pessoas, como se a emboscada nunca tivesse acontecido.

Myne está bem, certo?

— Tuuli, estamos indo para o templo. Venha. — Após algum tempo, Gunther veio buscar Tuuli. Seu braço esquerdo estava coberto com o que pareciam ser queimaduras graves.

Seu rosto empalideceu quando ela viu a descoloração preta e vermelha escorrendo pelo antebraço dele.

— Pai, o que aconteceu com seu braço?! Onde está Myne?!

— Ela está no templo. Vamos lá. — O sorriso alegre que Gunther sempre tinha em seu rosto, ao falar com suas filhas, não estava em lugar algum. Uma carranca enrugou sua testa e sua voz saiu estranhamente plana.

Effa estava atrás dele, Kamil em seus braços. Já que ela tinha acabado de dar à luz, ela não deveria estar se movendo muito ainda. Se ela estava sendo chamada ao templo com todos os outros, algo definitivamente havia acontecido com Myne. Sentindo isso, Lutz olhou para Gunther.

— Sr. Gunther! Eu posso…

— Eu explico mais tarde. Espere aqui.

Não importa o quão próximos ele e Myne eram, eles não eram da mesma família, era por isso que Lutz não havia sido chamado, também. Tudo o que ele podia fazer era esperar na Companhia Gilberta, incapaz de ir ao templo sozinho.

— Estarei no primeiro andar ou na casa de Benno no segundo andar.

— O primeiro ou o segundo andar? Certo.

Até agora, ele estava na casa de Corinna, já que Tuuli estava assustada e ele queria ficar ao lado dela. Por conta própria, no entanto, não havia necessidade dele estar lá. Como um dapla, ele pertencia à casa de Benno, no segundo andar, um andar abaixo.

Ficarei ansioso o dia todo se não fizer nada. Talvez faça mais sentido para mim, fazer algum trabalho.

Lutz seguiu Gunther e os outros pelas escadas até a loja, no primeiro andar. Quando chegaram à saída, Gunther, de repente, se virou e olhou para Otto, que ainda estava segurando Renate.

— Otto, corra de volta para o portão. Diga ao comandante que um cavaleiro ordenou que eu fosse ao templo.

— Sim, Senhor!

Lutz viu a família de Myne partir, depois voltou para a loja. Benno e Mark estavam discutindo sobre oficinas de impressão, com expressões mortalmente sérias em seus rostos. Deve ter havido algum tipo de segredo no talismã de Myne, um que teria um enorme impacto sobre essas oficinas que haviam planejado.

Se não me apressar e começar a trabalhar, ficarei para trás.

Benno nem estava pensando em Lutz quando ouviu falar do talismã de Myne e correu escada abaixo. Ele nem o chamou para sua discussão com Mark. Ele não teve escolha a não ser desistir de ir ao templo, mas também não estava prestes a ser excluído das oficinas de impressão.

Não vou deixar que me deixem para trás!

Lutz se animou e começou a trabalhar nos livros de lucros do Ateliê da Myne. Gil estava trabalhando duro para aprender matemática, mas não era bom o suficiente para se virar sozinho. Ele ainda precisava que Lutz olhasse seu trabalho.

— Por que não deixar tudo isso para o ateliê? Se eles errarem e perderem dinheiro, a culpa é deles, — disse Leon com uma careta, enquanto espiava por cima do ombro de Lutz. Ele era um dapla sendo treinado como garçom no templo, que tinha uma quantidade considerável de experiência lidando com oficinas e lojas, e acreditava firmemente que Lutz estava se envolvendo demais no Ateliê da Myne. Afinal, Lutz estava olhando seus livros e fazendo todos os tipos de trabalhos adicionais para eles. De uma perspectiva externa, parecia ser um caso claro de favoritismo. Mas Lutz não via as coisas dessa maneira.

— A filial do orfanato do Ateliê da Myne é apenas um teste para as novas oficinas de impressão que serão feitas. Eu tenho que fazer um bom trabalho aqui.

— Novas oficinas? Você está fazendo esse tipo de trabalho? — Leon levantou a voz, surpreso, e Lutz deu um grande aceno de cabeça.

— A menos que eu seja bom o suficiente para ajudar o Mestre Benno a estabelecer novas oficinas, ele não se dará ao trabalho de me levar à cidades diferentes. Errar um pouco no Ateliê da Myne não é grande coisa, então ele me disse para usá-lo como prática. Isso não é realmente favoritismo.

— Hum. Então eles são apenas um trampolim, hein?

Leon não estava errado. Ao contrário dos filhos de comerciantes, Lutz não tinha uma loja familiar com a qual pudesse praticar. O Ateliê da Myne era o único lugar que ele poderia usar para crescer, sem ter que se preocupar em cometer erros.

Foi quando ele terminou a papelada e estava esperando Benno olhar por cima delas, que bolas de luz, de repente, entraram pela janela. Elas passaram direto pelo vidro, depois começaram a girar pela sala.

— O-o quê?!

Benno, Mark e Lutz olharam, de olhos arregalados, enquanto as bolas giratórias se transformavam em uma poeira cintilante, que chovia sobre eles. Estranhamente, a luz parecia estar evitando Leon completamente.

Quando Lutz ficou no lugar, olhando para o teto atordoado, a luz gradualmente desapareceu. Eventualmente, desapareceu completamente, como se nada tivesse acontecido, e um silêncio atordoado caiu sobre a sala.

— Que diabos foi isso? — Benno perguntou.

— Eu não sei — respondeu Mark.

Leon olhou ao redor, perplexo.

— Essas coisas definitivamente estavam me evitando, certo?

Lutz olhou para a palma da mão, onde uma parte da luz havia pousado. Nada daquilo permaneceu, em vez disso, parecia aparentemente ter derretido em seu corpo. Todos piscaram em confusão, imaginando o que havia acontecido e por que a poeira havia evitado Leon, até que, eventualmente, Gunther e os outros voltaram para a loja.

— Desculpe pela demora, Lutz.

Todos usavam expressões escuras, e seus olhos estavam inchados de tanto chorar. Lutz presumiu que eles tinham ido buscar Myne no templo, mas ela não estava em lugar nenhum. Borboletas nervosas vibraram em seu estômago. Ele manteve a boca fechada, preocupado que se ele perguntasse onde Myne estava, ele nunca seria capaz de voltar a ser como era antes.

Lutz olhou ao redor da sala, tentando encontrar outra coisa para conversar, quando, de repente, seus olhos caíram no braço de Gunther. A pele estava lisa, as queimaduras descoloridas de antes tinham desaparecido completamente.

— Sr. Gunther, suas queimaduras…

— Foi a última bênção de Myne. Sua poeira luminosa curou as queimaduras. — Gunther grunhiu, com os dentes cerrados. Lutz olhou para Tuuli e Effa, chocado com a escolha de Gunther de palavras.

Última bênção?

Lutz engoliu em seco, seu corpo tremendo. Mas, antes que ele pudesse perguntar a Gunther o que ele queria dizer, Mark bateu palmas.

— Então, suponho que a poeira leve que acabamos de ver também foi a bênção de Myne?

— A luz veio aqui também? — Gunther perguntou, seus olhos se arregalando um pouco, de surpresa. Lutz assentiu com força, explicando como bolas de luz entraram na sala e depois, se transformaram em uma poeira que caiu sobre todos, exceto Leon.

— Parece que a luz foi para todos com quem Myne se importa. Uma bênção muito forte, também. Teria que ser para curar essas queimaduras, — disse Gunther, com um sorriso triste. A resignação em seus olhos dizia tudo a Lutz: tudo havia terminado em outro lugar, um lugar que ele nunca poderia ir.

— O que aconteceu com Myne? Por que ela não está aqui?

— Myne se foi, agora. Os nobres a levaram. Ela se foi… — disse Tuuli, lágrimas escorrendo pelo rosto e pingando no chão. Benno franziu a testa com força e estreitou os olhos.

— Gunther, me diga uma coisa. O Ateliê da Myne vai continuar funcionando?

— Mestre Benno! Myne se foi, agora não é a hora para isso!

— Cale a boca! Isso é importante. Se ela estiver morta, terei que comprar a oficina para isso continuar. Se os nobres a levaram, terei que fazer outra coisa. E quanto mais cedo eu agir, melhor.

Lutz não conseguia entender o que Benno estava dizendo, mas parecia que Gunther entendia.

— Benno… Você já sabe?

— Não tenho certeza sobre os detalhes, mas Otto disse que ela colocou sangue naquele talismã. Eu sei o que vai acontecer se Myne não morrer, Aub Ehrenfest vai levá-la. Então, qual é o nome da nova capataz?

Gunther, olhando para Benno com os olhos tão frios que congelaram o sangue de Lutz, abriu a boca. — Rozemyne. A filha de um nobre superior. Ela dirige o ateliê agora. Myne está morta. A história é essa.

— Essa é a história? — Lutz estava sem palavras, e Gunther bagunçou o seu cabelo inteiramente, como faria com Myne.

— Myne se tornou a filha de um nobre superior para nos proteger. Para proteger a família dela. Para proteger você. Para o Arquiduque ser capaz de adotá-la, ela precisa ser conhecida como a filha de um nobre superior, e isso salvará a vida dela e a nossa. Mas, em troca, fomos proibidos, por meio de um contrato mágico, de tratá-la como família novamente. Vocês estão muito envolvidos com Myne. Tenham cuidado, se vocês não quiserem ser executados.

— Agradeço o aviso, — disse Benno, sinceramente, antes de soltar um suspiro e soltar os ombros. — Ainda assim, pensei que tínhamos pelo menos dois anos para nos prepararmos para isso. A vida com certeza passa rápido.

— O quê? Mestre Benno! Myne se foi! Um nobre superior a levou e ela não pode mais ver sua família como família! O que está dizendo? — Lutz gritou, chocado com a atitude de Benno. Mas tudo o que ele conseguiu foi um olhar frio.

— Escute, Lutz. Aquela esquisita não morreu. Ela vai continuar vivendo como Rozemyne. Você acha que aquela esquisita vai mudar como pessoa só porque ela passou de plebeia para filha de um nobre superior? Não! A única coisa que mudou foi o quão mais aterrorizantes seus surtos serão, agora que ela tem autoridade real! — Benno rugiu.

Os surtos de Myne já eram assustadores o suficiente, mas agora que ela tinha a autoridade de um nobre superior, não haveria ninguém que pudesse impedi-la.

— Sem mencionar que, se ela só mudou de nome, então Rozemyne ainda será parceira do restaurante italiano. A Companhia Gilberta finalmente conseguiu alguns negócios com nobres intermediários, após anos servindo a nobres inferiores, e agora, de repente, estamos de co-propriedade de um negócio com um nobre superior? Se você tem tempo para chorar, comece a trabalhar! Se o nome dela é “Myne” ou “Rozemyne”, o que essa esquisita vai querer?!

Uma devoradora de livros, cuja obsessão havia sobrevivido a uma morte e reencarnação real, não mudaria seus caminhos, apenas por se tornar uma nobre superior chamada “Rozemyne”. Só havia uma coisa que ela iria querer mais do que qualquer outra coisa:

— Livros!

— Está certo. Ela está com uma posição mais alta, agora, e teremos que fazer algumas mudanças, mas ainda somos uma loja fazendo negócios, e, com a aprovação do Arquiduque, faremos negócios com Rozemyne, quer gostemos ou não, — disse Benno, e toda a família de Myne disparou a cabeça em sua direção. — Vocês podem não ser capazes de se encontrar ou falar com um nobre superior, mas podemos falar com Rozemyne, como parceiros de negócios. Temos papelada para trocar, e será mais do que fácil colocar algumas cartas entre todos os papeis. Eu previ que isso aconteceria e já tinha feito Lutz e Myne assinarem um contrato mágico juntos. Quando tudo o mais falhar, ainda seremos capazes de ficar em contato, por escrito, com ela.

Eles não podiam encarar Myne e chamá-la de família, mas nada os impedia de escrever cartas para ela. Benno deu um sorriso dolorido enquanto explicava que mesmo os contratos mágicos tinham lacunas.

— Isso é verdade, Lutz? Se eu escrever uma carta para Myne, você vai dar à ela por mim? — Tuuli perguntou, puxando Lutz de volta a realidade.

Ainda havia coisas que ele podia fazer por Myne. Enquanto ela estivesse viva, não era tarde demais. Ele poderia fazer livros e agir como a ponte entre ela e sua família, e com isso em mente, ele deu um grande aceno de cabeça.

— Você pode contar comigo.

Eles deixaram a loja juntos e começaram a voltar para casa. Myne estava, para todos os efeitos, morta para o mundo. Eles teriam que realizar um funeral para ela assim que voltassem.

— Lutz, Myne foi morta pelo nobre que invadiu a cidade. Diga isso à sua família. Temos nossos próprios preparativos para cuidar, — disse Gunther, com a testa franzida, enquanto olhava para o céu. De certa forma, essa explicação não era uma mentira. Afinal, foi por causa do nobre que invadiu a cidade que Myne se tornou uma nobre.

— Tudo bem.

Depois de chegar em casa, Lutz contou aos pais sobre o funeral de Myne, e todos se apressaram para terminar o jantar. Seus pais foram os primeiros a correr para fora, cada um usando um pano preto em torno de um braço. Lutz e seu irmão Ralf seguiram o exemplo, cada um envolvendo um pano preto em torno de um braço, para significar que eles estavam envolvidos com o funeral.

— Hey, Lutz. Por que Myne morreu? Ela estava melhor ultimamente, não estava?

— O Sr. Gunther disse que um nobre a matou. Não sei de mais nada, já que não estava lá.

Vizinhos vestindo um pano preto envolto em seus braços se reuniram perto do poço, na praça. Normalmente, o cadáver estaria descansado em uma tábua para ser carregado para o cemitério, mas sem um cadáver eles não poderiam fazer isso por Myne. Em vez disso, havia apenas uma pequena caixa. Dentro, estavam as roupas de Myne e o enfeite de cabelo que ela usava. Nada mais.

— O que está acontecendo aqui? Onde está o corpo? — um dos vizinhos perguntou. Todos ficaram surpresos com o funeral incomum.

Gunther, que estava liderando o funeral, fez uma careta e olhou para o chão. Havia uma dor clara em seus olhos.

— Myne foi atacada por um nobre de outro ducado. Eles a mataram e roubaram seu corpo.

— Isso é, hum… Isso é realmente trágico. Sinto muito pela sua perda.

Qualquer coisa que fosse roubada por nobres nunca voltaria. Todos na vizinhança sabiam o quão profundo era o amor de Gunther por seus filhos e o quanto ele adorava Myne, apesar de sua natureza doente. Eles sabiam, sem sequer perguntar, o quanto o machucava não ter o corpo de volta, e como os nobres estavam envolvidos, ninguém perguntou a ele sobre mais nada.

— É uma pena também. Ela estava finalmente ficando saudável novamente.

Os vizinhos olharam para a caixa de madeira e pensaram em como Myne estava durante o batismo e o nascimento de Kamil, e começaram a compartilhar histórias e coisas assim.

Dizia-se que a porta para a terra dos mortos se abria apenas ao amanhecer, quando o Deus das Trevas e a Deusa da Luz se encontravam, e que os deuses, marido e mulher, guiariam os recém-falecidos até lá quando o sol da manhã nascesse. Aqueles que conheciam o falecido compartilhariam memórias e conversariam a noite toda até que o falecido seguisse para o outro lado, com segurança, mas Myne mal passara algum tempo com seus vizinhos, então não havia muito a dizer.

— Hey, Lutz. Você era próximo da Myne, não era? Diga algo sobre ela.

Lutz pensou nos dois anos e meio que passou com Myne. No início, ela não conseguia nem andar até o portão. Ela queria fazer livros, mas não tinha papel ou tinta. Ela havia tentado tecer fibras de grama juntas, depois fazer tábuas de argila. Mesmo quando ela finalmente conseguiu fazer papel, havia muito mais que ela precisava fazer antes que pudesse fazer um livro.

— Myne sempre desmaiava assim que decidia fazer algo, mas sempre se esforçava para conseguir o que queria. Quando começamos, ela ficava sem fôlego apenas caminhando até o poço, mas, no final, ela podia caminhar até a floresta sozinha.

— Ah, sim, isso me lembra. Ela com certeza fez muitas coisas estranhas, como descascar madeira e mexer com argila.

— Vocês dois não ferveram madeira em uma panela, Lutz?

Fey e seus amigos, que tinham ido para a floresta, com Myne, começaram a falar sobre o que eles se lembravam dela fazendo lá. Isso deve ter encorajado a família do Lutz a começar a falar, também.

— Todas as receitas que Myne pensou eram ótimas.

— Myne aprendeu letras e matemática enquanto ajudava Gunther no portão, e ensinou tudo isso a Lutz, também. Ela era inteligente.

— Oh sério? Eu não sabia disso.

Depois do batismo, Lutz se tornou um aprendiz de comerciante e Myne uma aprendiz de donzela de santuário, no templo, mas ele não falou sobre isso em público, já que as donzelas de santuário do templo não tinham uma reputação muito boa. No que diz respeito a todos aqui, ela estava apenas ajudando no portão e fazendo a papelada que Lutz trazia da Companhia Gilberta. Quase ninguém sabia o que Myne realmente estava fazendo desde o batismo.

Myne fundou um ateliê em um orfanato, fez tinta e, finalmente, fez livros; tornou-se patrona de Johann e o fez fazer tipos de letras de metal para ela; financiou a pesquisa de Heidi sobre tinta colorida; e, após alguma tentativa e erro, com Ingo, terminou uma prensa de impressão. Ela era incrível!

E Lutz queria dizer isso a todos, mas não podia. Ele não tinha ideia do quanto era seguro falar sobre criação de livros.

— Myne era fraca e demorou a crescer. — Effa começou, segurando Kamil em seus braços. — Sempre tivemos medo de que ela não vivesse para ver o dia seguinte. Tuuli começou a ficar mais independente quando tinha dois ou três anos, mas Myne só começou aos cinco anos. Antes disso, ela sempre chorava sobre como era injusto que apenas Tuuli fosse saudável, ou como era injusto que todos nós tivéssemos que ir lá fora. — Parecia machucá-la, como mãe, que Myne não tivesse nascido uma criança saudável.

Provavelmente era a velha Myne, pensou Lutz. A Myne que ele conhecia nunca choraria sobre as coisas serem injustas. Ela trabalhou duro para ficar mais forte, em seus próprios termos, e, enquanto ela muitas vezes corria em círculos, ela estava sempre dedicando tudo para obter livros para ler.

— Mas, uma vez que ela parou de chorar sobre as coisas serem injustas, ela começou a ficar brava com as coisas. Ela dizia: “Eu odeio este corpo!” e começava a limpar a casa, até que ela começou a ter febre. Ela fazia danças estranhas até cair e dizia que comer certas coisas era bom para seu corpo, antes de acabar tendo dores de estômago. — Effa continuou com um pequeno sorriso.

Essa é a Myne que eu conheço. — Era fácil para Lutz lembrar e visualizar todas as coisas estranhas que Myne havia feito.

— Foi por volta de quando ela parou de chorar e ficou brava com as coisas, o tempo todo, que ela começou a ir para a floresta com Lutz. Ela nunca esperou ser a mesma que as crianças normais, mas ainda ficou forte o suficiente para ir lá fora e participar de festivais. E pensar que, após tudo isso, ela seria tirada de nós assim…

Dito isso, a família de Myne derramou lágrimas e não ofereceu mais palavras. Mas todos entenderam: sua filha finalmente ficou saudável, apenas para ser morta, por um nobre estranho, que então, havia roubado seu corpo. Seria um funeral tranquilo. Sob o brilho do fogo dançante que iluminava a praça, Gunther silenciosamente esculpiu um marcador de sepultura de madeira para Myne, lágrimas escorrendo por suas bochechas o tempo todo.

Eles esperaram a noite toda, revezando-se para cochilar. Quando o segundo sino tocou, as esposas começaram a distribuir pão e chá. Era proibido comer carne antes que o funeral terminasse.

Após terminarem seu café da manhã simples, eles levaram o pequeno marcador e se dirigiram para o templo. Eles precisavam relatar a morte, e, então, receber uma medalha permitindo o enterro. Quando chegaram, a guarda do portão do templo os deixou entrar na capela. Era padrão para os sacerdotes cinzentos lidar com as mortes dos frequentadores da cidade, mas, por algum motivo, o Sumo Sacerdote estava lá, desta vez.

— Uma criança de sete anos nascida no verão chamada Myne? Tudo bem.

Após deixá-los esperar um pouco, na capela, o Sumo Sacerdote voltou com uma medalha branca plana, que ele entregou a Gunther. Era a medalha que Myne havia estampado com sangue durante seu batismo. Isto servia como uma demonstração de aprovação do governo para o enterro, e como substitutos de lápides para os pobres plebeus, que não podiam pagar as suas próprias.

Com a medalha na mão, eles foram para o cemitério fora da cidade. Como havia apenas uma caixa pequena e o marcador, os homens que a carregavam foram capazes de andar mais rápido do que normalmente. Eles também estavam mais silenciosos do que o normal, já que nenhum deles conhecia Myne muito bem.

Eles enterraram a caixa no canto mais distante da entrada do cemitério. Não demorou muito para cavar o túmulo, já que a caixa de madeira era pequena. Gunther pressionou a medalha contra o marcador da sepultura que ele havia esculpido. Ele grudou firmemente na tábua, que ele então apunhalou profundamente no chão, para que ficasse de pé, assim como aquelas marcando as sepulturas circundantes.

Os túmulos para os ricos tinham palavras esculpidas no marcador, mas como poucas pessoas pobres podiam ler, as sepulturas próximas não tinham palavras sobre elas. As pessoas as identificariam com base na forma da madeira ou onde a medalha havia sido colada. O túmulo de Myne, no entanto, tinha as palavras “Nossa Filha Amada” abaixo de onde a medalha havia sido presa.

Com o enterro terminado, o funeral estava completo. Teria havido discussões sobre vontades e sucessão se ela fosse a chefe de uma casa, mas nada disso era necessário para Myne, uma vez que ela havia morrido logo após seu batismo.

Todos voltaram ao seu dia a dia do dia seguinte. Lutz estava de volta à sua programação normal, também. Ele saiu de casa, correu escada abaixo, passou pelo poço e depois subiu outra escada, antes de bater em uma porta. Tuuli respondeu, com um olhar curioso no rosto.

— Bom dia, Lutz. Aconteceu alguma coisa?

— Alguma coisa? Oh! — Agora que Myne era Rozemyne, ele não a levaria mais ao templo. Ele não precisaria vigiá-la e impedi-la de vagar por todo o lugar. Ele não teria que se certificar de que ela estava saudável. Ele não faria nada com ela. Ele não a abraçaria sempre que ela precisasse. Ele não estaria lá quando ela estivesse em apuros e precisasse de um ombro para chorar. Não havia mais nada para ele aqui.

— Myne realmente se foi, hein? — Havia uma parte dele que esperava que Myne ainda estivesse lá, mas como Rozemyne, ela precisava viver como a filha adequada de um nobre superior. Myne se foi, e agora que ela era Rozemyne, nunca mais seria a garota que Lutz conheceu e passou tanto tempo de sua vida.

Pela primeira vez, Lutz realmente entendeu que Myne havia partido. Ele tremeu, e as lágrimas, que não haviam saído durante o funeral, de repente, explodiram. Tuuli gentilmente acariciou sua cabeça, até que ele se acalmou, assim como ela costumava fazer com Myne.

— Lutz, você ainda pode falar com Myne através do trabalho, não pode?

— Eu posso falar com ela, mas ela não é mais Myne.

— Isso é verdade. Mas Myne disse todo o caminho até o fim que, mesmo que ela não possa falar conosco como de costume, ela ainda quer nos ver — murmurou Tuuli, pensando em sua última conversa com Myne. Ela não podia chamá-los de família, mas Myne ainda queria ver que eles estavam bem. Com isso em mente, ela provavelmente gostaria de continuar conversando com Lutz, mesmo que apenas sobre negócios.

— Bem, Lutz, você poderia me levar à Companhia Gilberta hoje?

— Uhrum? Por que, Tuuli?

— Eu quero manter minha última promessa para Myne — disse Tuuli, antes de ir para o quarto. Ela voltou com a cesta que Myne sempre carregou, dentro da qual estava o brinquedo que ela havia feito para Renate e o díptico de Myne.

— Prometi me juntar à oficina da Senhora Corinna, me tornar uma costureira de primeira classe e fazer as roupas da Myne para ela. Eu quero encontrar a Senhora Corinna para que eu possa fazer isso acontecer. Você fez suas próprias promessas para Myne, não fez?

A pergunta de Tuuli fez Lutz se lembrar de todas as coisas sobre as quais ele havia falado com Myne. Ele prometeu fazer e vender livros com ela. Ele prometeu criar todas as coisas que ela inventasse.

— Acho que agora não é a hora para eu chorar. — Ele tinha que fazer livros suficientes para que Myne pudesse passar o dia todo descansando, em seu quarto, os lendo.

Lutz enxugou os olhos e pegou suas coisas, e com Tuuli ao lado dele, abriu a porta pesada que levava para fora.

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Fim da leitura

Capítulo 188 concluído

CAPÍTULO 188 - 187