Ascendance of a Bookworm — Capítulo 190: CAPÍTULO 190 - 189

Ascendance of a Bookworm
Cap. 190
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Ascendance of a Bookworm

CAPÍTULO 190 - 189

Capítulo 190

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Ascendance of a Bookworm – Capítulo 189

Sylvester — Limpando a bagunça

— Vamos nos despedir, então.

— Por favor, cuide-se, Minha Senhora.

— Adeus.

Acabei de condenar minha mãe, depois destruí outra família, com minhas próprias mãos. Pude, honestamente, fazer com alguma tranquilidade, aqui. Alguém me dê elogios. Se eu não tivesse pessoas me garantindo que o que eu estava fazendo era a coisa certa, servir como Arquiduque seria demais para mim, pensei, olhando para os dois pais ajoelhados na frente da própria filha.

— Obrigado por terem vindo hoje. Rezo do fundo do meu coração para que nos encontremos, novamente, um dia. — Rozemyne, ainda de pé, inclinou-se para a frente e baixou a cabeça, profundamente, enquanto se despedia daqueles que costumavam ser sua família. Não foi um gesto que eu reconheci. Ao mostrar gratidão aos deuses, a pessoa se ajoelhava e se prostrava. Eu nunca tinha visto alguém abaixar apenas a cabeça, enquanto ainda estava de pé. Esta era, de fato, uma garota que guardava lembranças de viver em outro mundo.

Ainda assim, mesmo não reconhecendo o gesto, pude sentir a emoção que ele expressava, gostando ou não. Qualquer um poderia dizer que ela estava mostrando sua gratidão por sua família. Eu sabia o que tinha feito, eu sabia que tinha destruído uma família amorosa, então ver suas despedidas, sinceras, enviou uma dor aguda no meu peito.

A porta se fechou e Rozemyne ficou sozinha, e vacilante. Baixei os olhos, com desconforto, ao mesmo tempo que Ferdinando se levantou, abruptamente, ao meu lado. Ele rapidamente caminhou até ela, como se tivesse previsto isso, e a abraçou assim que ela caiu para o lado. Então, ele gritou bruscamente, em direção à porta:

— Fran, entre!

Um padre cinza, que estava esperando do lado de fora, entrou prontamente. Eu o reconheci como o assistente de Rozemyne, que havia sido tão gravemente ferido, pela mana, que apenas se mover o fez se contorcer de dor.

— Irmã Myne!

Eu podia ver resquícios da bênção polvilhando sua figura, enquanto ele corria para ela. Dado que seus ferimentos haviam desaparecido, eu poderia imaginar que Fran havia recebido a mesma bênção que o pai de Myne. O pânico em seu rosto mostrava o quanto ele se importava com sua mestra.

Mesmo seu assistente sendo abençoado, apresentou a questão de quão longe suas luzes de bênção haviam ido. Como eu tinha acabado de ver por mim mesmo, Rozemyne não hesitava em usar imprudentemente uma enorme quantidade de mana quando aqueles com quem ela se importava estavam envolvidos. Eu teria que investigar e ver quantas pessoas sua bênção havia alcançado.

— Não é nada para se preocupar. Ela simplesmente usou mana demais, — disse Ferdinando, pegando uma poção de seu armário, próximo e bem abastecido, e despejando um pouco na boca de Rozemyne. Essa era, provavelmente, a terrível, de gosto ruim. Era tão eficaz quanto vil, mas se você me perguntasse, era absolutamente cruel despejar qualquer daquelas porcarias na boca de uma criança inconsciente. Ferdinando estava, mais uma vez, provando agir mais pela lógica do que pela emoção.

Pobre garota.

— Fran, leve-a para o quarto dela e coloque-a na cama. Passarei amanhã à tarde para explicar o que o futuro reserva. Reúna todos os seus assistentes para mim, quando chegar a hora.

— Entendido. — Fran pegou a Rozemyne, inerte e inconsciente, e saiu da sala. Isso, de alguma forma, me lembrou de algo que eu tinha visto antes.

— Arno, um pouco de chá. Isso será tudo.

— Como quiser.

Olhei para Ferdinando, que estava dando uma ordem para seu assistente mais confiável, mas esquecível, enquanto murmurava para Karstedt em voz baixa.

— Ei, Karstedt. É impressão minha ou Rozemyne é como a cara de Blau? Sério.

— Blau? Ah, o shumil que você mantinha como animal de estimação.

Shumils eram feybeasts facilmente domesticados, que faziam barulhos fofos de “puhi”. Muitos nobres os mantinham como animais de estimação, inclusive eu, mas Blau era a criatura mais fraca que eu já tinha visto. Ela tinha uma pelagem de uma cor entre o preto e o azul, grandes olhos dourados e redondos, era sempre muito fraca e parecia gostar mais de Karstedt do que de mim. Em outras palavras, ela era exatamente como Rozemyne em forma animal.

Procurei a concordância de Karstedt, mas ele apenas soltou um grunhido desajeitado.

— Você diz que ela gostou mais de mim do que de você, mas isso é inteiramente sua culpa. Ela estava constantemente à beira da morte, por causa de todas as suas provocações. Você poderia dizer que ela só se apegou a mim como uma medida desesperada para se manter viva.

— Ei, parece muito ruim quando você coloca assim. Tudo o que fiz foi dar a ela o amor que um animal de estimação precisa.

— Você era ainda menos delicado e atencioso quando criança, do que é agora. Com a maneira como você o perseguiu e o esmagou com abraços, qualquer animal pequeno estaria em risco de morte prematura, — Karstedt suspirou, esfregando as têmporas.

Uau, o quê? Blau se cansava tão rápido quando costumávamos brincar juntos por minha causa, não porque ela era fraca? Huh.

— Aprenda a se controlar melhor dessa vez. Se eu entendi os relatórios de Ferdinando corretamente, Rozemyne é muito mais fraca do que aquele shumil.

— Mais fraca que Blau? Vou acreditar quando ver.

Sério, estou arrasado aqui. Achei que Blau tinha fugido de mim porque, como uma feybeast, ela entendia meu verdadeiro poder, mas, na verdade, ela estava apenas com medo por sua vida. Eu não posso acreditar.

— Tenho certeza que Rozemyne já me perdoou por aquela provocação. Afinal, acabei de salvar a vida dela.

— Você estava brincando com ela o máximo que podia para ver quanta paciência ela tinha com estranhos, certo? Bem, ela não se divertiu com isso. E você acabou de separá-la de sua família, lembra?

— Arg! — Segurei minha língua, tendo notado o assistente de Ferdinando empurrando um carrinho de servir carregando bebidas. As xícaras fizeram um leve tilintar quando ele as alinhou na mesa, e balancei minha cabeça em decepção.

Eu nunca vi um cara mais chato na minha vida.

Todos os assistentes de Ferdinando eram homens e, provavelmente, graças ao rigor com que ele os treinou, eles sempre faziam seu trabalho da maneira mais eficiente possível. Eles eram habilidosos em seus trabalhos, mas não havia nada de divertido ou interessante neles.

— Ferdinando, que tal você ter umas donzelas cinzas como assistentes para variar?

— Eu não preciso de mulheres tentando me seduzir por poder, e uma mulher solteira estaria fora de lugar e tornaria mais difícil para todos os outros trabalharem.

Ferdinando imediatamente descartou minha ideia, praticamente dizendo que ele não precisava de uma faísca em sua vida.

— Arno, saia da sala. Não deixe ninguém se aproximar.

— Como quiser.

A chegada do nobre forasteiro, a prisão do Arcebispo e a mudança e adoção do nome de Rozemyne, aconteceram tão abruptamente. Precisaríamos de tempo para discutir as coisas antes que ele informasse seus assistentes e os outros padres.

Assim que a presença de pessoas do lado de fora da porta desapareceu, Ferdinando soltou um suspiro lento.

— E assim, nosso plano funcionou. Cumprimos nossos objetivos.

— Sim.

Conseguimos Myne, que se recusou a assinar com um nobre e tentou fugir o máximo que pôde; garantimos justa causa para executar o Arcebispo, que estava infringindo a lei de maneiras cada vez mais visíveis; colocaríamos minha mãe, que estava protegendo o Arcebispo, em prisão domiciliar; e prendemos um nobre, com ligações ao Arcebispo, que serviria como um poderoso trunfo contra o Arquiduque de Ahrensbach. Em suma, os acontecimentos de hoje serviriam, sem dúvida, para acalmar a facção dos nobres que apoiavam minha mãe contra mim.

— Não muito ruim. Mas estou com um gosto muito ruim na boca.

Se você ignorar o quão horrível era levar minha mãe, propositalmente, para uma armadilha e depois destruir uma família feliz, então, com certeza, hoje foi um dia muito bom.

— Não seja tão duro consigo mesmo, Sylvester. Este foi o melhor resultado possível.

— O fim nem sempre justifica os meios, sabe?

Sempre que acontecia algo que me levava a ser chamado de coração negro ou frio e calculista, você podia apostar que as tramas de Ferdinando eram o motivo. Na maioria das vezes, de qualquer maneira.

— Não tenho amor por Bezewanst ou sua mãe — disse Ferdinando, franzindo o nariz com desdém. Eles eram uma família para mim, mas para Ferdinando, eram apenas obstáculos. Eu sabia disso, mas ainda doía ouvi-lo dizer isso na minha cara.

— E Rozemyne, então? Você não sente nada por apagar Myne da existência e transformá-la em Rozemyne?

— Acho que este é o meio mais rápido e eficiente de dar a ela um futuro melhor.

Então ele disse, mas sua expressão estava um pouco mais preocupada do que estava um momento atrás. O calor e o amor da família de Myne eram impensáveis entre os nobres, que priorizavam a glória e a continuidade de sua casa acima de tudo. Até Ferdinando sentiu alguma culpa por destruir uma família que se importava sinceramente um com o outro.

— Ela ficará emocionalmente instável por algum tempo, acredito. — Ferdinando disse, com uma careta perturbada. Ele havia dito que mesmo ficar no templo, durante o inverno, a levou a ficar tão instável, que ele podia ver sua mana se mexendo, o que significava que ele tinha que manter os olhos nela quase o tempo todo. Era raro que o emocionalmente distante Ferdinando, fosse tão atencioso com os outros. Talvez ter Rozemyne por perto fosse bom para o homem obcecado por resultados, acima de tudo.

— Vou deixar Rozemyne ser reconfortada, nestes tempos difíceis, por vocês dois. Não posso me envolver aqui.

— Sylvester?

— Eu sou Aub Ehrenfest. Assim como não mimo meu verdadeiro filho, não posso mimar minha filha adotiva.

Mimar Rozemyne só me fará querer começar a mimar meu próprio filho, que, um dia, terá que suportar os fardos pesados que carrego, agora. Mas me disseram que não devo mimar o futuro Arquiduque com tanta frequência que seja cansativo. Ao contrário de Ferdinando, não sou tão bom em cortar meus sentimentos e agir racionalmente. Há tanta coisa que não posso fazer, graças à posição de Arquiduque me amarrando.

— Desajeitado como sempre, eu vejo. — Karstedt disse, com um sorriso irônico. Teria sido melhor para um homem frio e calculista como Ferdinando ser o Arquiduque.

Mais um dia em que amaldiçoo que Ferdinando nasceu de uma concubina em vez da primeira esposa.

— Mais importante, porém, Rozemyne está bem? Ela chamou o Pai, a Mãe e os Cinco Eternos de uma só vez, isso seria suficiente para nocautear até mesmo uma pessoa saudável. Temos certeza de que ela não está morta? — Karstedt perguntou, olhando para a porta.

Cruzei os braços e segui seu olhar. Normalmente, não se rezava para vários deuses ao mesmo tempo, exigia mais mana, e as chances de sucesso diminuíam muito, especialmente porque o Deus da Vida era odiado por seus irmãos e irmãs, por esconder a Deusa da Terra todos os anos. Eu não tinha ouvido falar de um único caso em que uma oração para todos os deuses de uma vez tivesse realmente funcionado, muito menos um em que várias pessoas receberam a bênção.

— Essa oração realmente funcionando é o que está me deixando com a pulga atrás da orelha. Eu tinha certeza que ia falhar — eu disse, e Karstedt, que agora seria considerado o pai biológico de Rozemyne, olhou para o teto com uma carranca.

— Isso foi sem precedentes, mas acho que Rozemyne não entende completamente o que ela fez, nem o quão significativo é.

— De fato. De jeito nenhum — Ferdinando concordou.

— Você foi atingido com a bênção, não foi, Ferdinando? Você a ensinou a usar magia?

Embora as luzes da bênção tivessem evitado Karstedt e eu, elas alcançaram Ferdinando. Eles provavelmente eram próximos o suficiente para justificar isso, mas perder uma bênção tão significativa me irritou.

Olhei para Ferdinando, já que eu era seu pai adotivo, portanto, merecia mais do que ele, mas ele apenas olhou para mim.

— Já chega. Quantas vezes eu disse isso, agora? Myne podia usar magia desde o início.

A missão de extermínio de trombe foi o primeiro ritual de Myne, e para ajudá-la, Ferdinando deu a ela uma ferramenta mágica, na forma de um anel, que amplificava e fortalecia sua mana, isso eu entendia. Mas, aparentemente, Myne de repente abençoou toda a Ordem dos Cavaleiros com uma oração a Angriff, o Deus da Guerra. Ela mesma havia dito que ver o trombe a assustou, e que ela só queria rezar por sua boa sorte na batalha. Os relatórios eram claros, mas simplesmente não faziam sentido.

— Ela disse que acabou de inventar uma fala que soava como algo que um nobre diria e ficou surpresa quando se transformou em uma bênção, mas fiquei mais surpreso do que qualquer um, quando aconteceu — continuou Ferdinando. — Eu não ensinei a ela como usar magia alguma.

— Ela me pareceu bastante experiente. Pensar que foi uma bênção que ela deu por acidente, — disse Karstedt enquanto esfregava o queixo, tendo recebido essa bênção.

Para ser franco, era completamente insano que ela conseguisse comprimir sua mana transbordante, sozinha, sem ensino ou assistência. E era insano que ela tivesse orado por sua boa sorte e dado uma bênção divina sem querer.

— É difícil acreditar que ela não queria que fosse uma benção, mas mesmo deixando isso de lado, como ela é tão boa em usar sua mana tão jovem?

— Acredito que seja porque ela tem cabeça de adulta e grande capacidade de aprendizado. A mente de uma criança não pode controlar a mana adequadamente, mas, apesar de seu corpo jovem, Myne tem lembranças de atingir a idade adulta em outro mundo. Isso deve ter sido o suficiente para ela controlá-la — propôs Ferdinando. — Ela se acostumou com o fluxo de mana, enquanto fazia suas oferendas aos instrumentos divinos, como aprendiz de donzela azul do santuário e, embora fosse por acaso, ela deu uma bênção dizendo o nome de um deus. Isso foi o suficiente para ela saber que poderia controlar sua mana livremente, se ela tivesse uma Feystone. E, além disso, ela viu cavaleiros dando a suas armas uma bênção das Trevas, antes de começar a rezar com um instrumento divino para conceder uma bênção considerável. Foi então que ela aprendeu a dar bênçãos orando aos deuses.

— Ainda. Aprender a orar é uma coisa, mas como você explica ela apenas explodindo toda a oração assim?

As orações necessárias para ganhar as bênçãos dos deuses eram insuportavelmente longas. Você tinha que memorizar seus nomes e qual deus dava qual bênção. Os cavaleiros aprendizes foram ensinados a orar ao Deus das Trevas cedo, para que pudessem abençoar suas armas para missões de trombe, mas a maioria lutava para fazer até isso.

— Se você perguntasse a Myne, ela diria que ela só precisava memorizar as linhas para uma única oração. A partir daí, ela só precisava misturar os nomes dos deuses e as linhas das escrituras, ambos os quais ela aprendeu lendo a Bíblia.

Pensando na emboscada da Oração da Primavera, Myne disse absolutamente “Eu só tenho que orar aos deuses para que a magia aconteça, certo?!” sem nem mesmo perceber o quão contundente isso era. Ela não estava errada, mas ninguém educado na Academia dos Nobres desperdiçaria mana assim.

— A partir de hoje, Rozemyne será uma garota nobre que usa ferramentas mágicas em seu dia-a-dia. Tenho a sensação de que seria inteligente ensiná-la um pouco sobre magia, antes que ela entre na Academia dos Nobres — eu disse.

Ferramentas mágicas eram uma parte essencial da vida nobre. A maioria das crianças ficaria bem apenas carregando uma ferramenta que pudesse absorver seu excesso de mana, mas como ninguém poderia prever em que bagunça Rozemyne poderia acabar, pretendíamos dar a ela feystones que poderiam expelir mana também.

— Sylvester está certo. É mais perigoso continuar usando magia como autodidata. Quem sabe o que ela pode ver e de onde ela pode tirar uma inspiração errada — acrescentou Karstedt, concordando com a cabeça.

Ferdinando franziu a testa e começou a bater na têmpora. Essa era sua pose de pensamento, algo com o qual eu estava muito familiarizado e um sinal de que ele estava no meio da construção de um plano de educação brutal, que ele aplicaria em Rozemyne sem um pingo de misericórdia.

Hehe. Ruim para ela.

— Ah, certo. Ferdinando, faça um exame físico em Rozemyne. Você mencionou que havia algo suspeito sobre a saúde debilitada dela, certo? Se ela tiver um problema com seu fluxo de mana, acredito que você possa fazer uma poção para isso.

Já que ela agora era minha filha adotiva, haveria um grande alvoroço se um médico encontrasse algo errado com ela. Se ela estivesse doente com algo particularmente raro, eu teria que afastar os esquisitos que queriam usá-la para pesquisa. Dar-lhe um exame completo agora e mantê-lo privado, antes de movê-la para o Bairro dos Nobres, seria melhor.

— Sinto que quando se trata de Rozemyne, nada pode ser simples. Farei como sugere, Sylvester, e a examinarei aqui no templo.

Parecia que nem mesmo o Ferdinando podia fazer previsões quando Rozemyne estava envolvida. Ele nunca teria acreditado que ela tinha a mente de alguém de outro mundo sem aquela ferramenta mágica. Haveria muito a ganhar se usássemos o conhecimento dela corretamente, mas quanto mais sobre ela mantivermos em segredo, melhor.

— Ah, sim, e leve isso para Benno, da Companhia Gilberta.

— O que é?

— Uma introdução sobre Rozemyne e nossos planos.

Se nós três disséssemos com firmeza que Rozemyne era a filha de Karstedt, que havia sido criada no templo, por segurança, seríamos capazes de forçar a sociedade nobre e o templo a acreditar nisso. Mas nenhum de nós conhecia a cidade baixa o suficiente para saber o quão conhecida ela era lá embaixo.

— É melhor deixar os assuntos da cidade baixa para os da cidade baixa. Benno parece uma ferramenta competente; com essas instruções, ele deve cuidar das coisas muito bem para nós.

Ferdinando pegou os documentos com uma expressão duvidosa, já que eu geralmente despejava minhas instruções nele e não em qualquer outra pessoa. Ele folheou os documentos, então seus olhos se arregalaram.

— Sylvester, eu posso entender ele sendo atualizado, mas qual é o problema de um jantar em um restaurante italiano?!

Arg! Aí vem o sermão irritante. Olhe para o Senhor Homem Lógico, todo sério e teimoso, e tão flexível quanto um muro de pedra. Por que deixamos ele crescer para ser assim? Ele age tanto como velho e maduro porque não aprecia a diversão nem um pouco.

— Você está ouvindo, Sylvester?

— Olha, pense nisso, temos muito o que conversar com Benno, não é? Como todas aquelas coisas sobre espalhar o negócio de impressão, — eu disse, o que também me rendeu uma sobrancelha levantada de Karstedt.

— Basta convocá-lo aqui. Que necessidade há de o próprio Arquiduque visitar a cidade baixa?!

Ah, há uma grande necessidade, e essa necessidade está localizada no meu estômago. Eu vou comer essa comida, não importa o quê.

— Pelo menos pense em uma boa desculpa!

Não se tornem um Arquiduque, crianças. Vocês não podem nem andar pela sua própria cidade sem precisar de mil camadas de desculpas e um enredo elaborado. É uma dor, mas eu provavelmente deveria pensar em uma boa razão para isso.

Cavei um dedo mindinho no meu ouvido, enquanto pensava em uma desculpa.

— Bem, ah, que tal eu dizer que um comerciante da cidade baixa não pode fazer negócios adequados com um bando de funcionários acadêmicos enfadonhos ao seu redor? Eu não seria capaz de ouvir as opiniões reais de um comerciante já bem-sucedido, então não poderíamos chegar a uma conclusão mutuamente aceitável e a discussão, basicamente, terminaria comigo dando a ele uma ordem.

Era difícil para um plebeu responder a perguntas honestamente quando cercado por oficiais e acadêmicos, o que, por sua vez, significava que seria quase impossível para mim obter as opiniões honestas que eu queria.

— Já conversei com Benno sobre esse negócio de impressão. No mínimo, isso não virá do nada para a Companhia Gilberta.

Ver Benno, enquanto visitava o orfanato, foi uma completa surpresa para mim. Eu não esperava que alguém lá soubesse que eu era o Arquiduque. Pedi sua opinião, como comerciante, enquanto me certificava de que ele ficasse quieto e, no processo, descobri que Ferdinando e eu não éramos os únicos que sabiam que o negócio de impressão mudaria a história. Benno pensava o mesmo.

Sempre haveria uma enorme resistência à mudança rápida, mas essa mudança rápida estava acontecendo devido ao conhecimento sobrenatural de Myne. Fiz uma pergunta simples ao Benno:

— Se, na pior das hipóteses, eu matasse Myne, isso impediria que a mudança acontecesse?

Benno balançou a cabeça, lentamente, em resposta.

— Não, é tarde demais para isso. O papel vegetal, que pode ser produzido em massa, já está no mercado, e agora que ensinamos a Guilda das Tintas como tornar a tinta adequada para impressão, suas oficinas também estão começando a produzir em massa. Há também o fato de que a Guilda dos Ferreiros viu uma demonstração dos tipos de letras de metal, necessários para impressão e, finalmente, enquanto ainda é um protótipo, uma impressora foi concluída. Todas as peças estão no lugar e estão se espalhando para fora desta cidade. Tem até um aprendiz de Comerciante que sabe tudo sobre livros, e que diz que seu sonho é vender livros por todo o país. Mesmo que Myne morresse agora, a onda que ela fez se transformou em um tsunami.

Foi precisamente por isso que ele escondeu a existência de Myne e cuidadosamente selecionou quais de suas invenções vender.

— O tsunami se espalhará ainda mais rápido com Myne viva. É impressionante como ela se dedica a fazer livros.

Seria apenas uma questão de tempo até que a impressão se espalhasse pelo mundo. Eu posso ser o Arquiduque de Ehrenfest, mas nem mesmo eu poderia facilmente destruir a Guilda do Papel Vegetal, o Ateliê da Myne, as oficinas de tinta, os ferreiros e a Guilda da Tinta, tudo isso ao mesmo tempo, em que apagava tudo o que eles sabiam sobre impressão. Se parar a onda não fosse possível, minha única opção era surfá-la e usá-la para beneficiar o ducado o máximo possível.

— Já disse à Companhia Gilberta que Ehrenfest vai sancionar o negócio de impressão, com Myne no centro, e se preparar para sua aceleração, quando ela se tornar uma nobre. O primeiro passo do nosso plano é fazer outra oficina no orfanato de uma cidade próxima.

Eu precisaria enviar a Companhia Gilberta e um acadêmico, para ver o tamanho da oficina, quantos trabalhadores seriam necessários e quais ferramentas seriam necessárias.

— De qualquer forma, Rozemyne só pode retornar ao mundo exterior depois que sua cerimônia de batismo e posse como Arcebispo terminarem. Temos algum tempo. Diga-lhes para garantir que a investigação do ateliê e o restaurante italiano sejam concluídos antes disso. E lá vamos nós. Essa é uma desculpa boa o suficiente para você? — Perguntei, olhando para Ferdinando. Sua testa franziu mais forte, e sua expressão se torceu em uma careta.

— Você não pode usar esse seu talento para outra coisa além de comida e outros prazeres?

— Ei amigo, estou sempre me esforçando, seja por prazer ou não.

Eu me esforçava o máximo que podia, quando se tratava de fugir do trabalho, debaixo do nariz de Ferdinando, ou planejar como delegar todo o meu trabalho a outras pessoas, para que eu pudesse relaxar. Estou ofendido por ele pensar que eu só faço tudo pelas comidas e… Bem, por comida.

Nossa conversa foi interrompida pelo toque do sétimo sino. Parecia que nossa discussão havia continuado por um bom tempo. Me levantei, assim como Ferdinando e Karstedt.

— Isso é tudo por hoje. Podemos discutir os detalhes da cerimônia de batismo quando a Conferência dos Arquiduques terminar. Preciso voltar para a Monarquia.

Karstedt e eu havíamos escapado do jantar comemorativo de início da conferência e precisaríamos ter retornado antes de amanhã de manhã, quando a conferência em si começaria.

— Posso pedir a você que tome o vice-comandante da Ordem dos Cavaleiros como seu guarda? — Karstedt perguntou, seu tom formal e respeitoso. — Gostaria de ficar aqui e me preparar para a cerimônia de batismo de Rozemyne, se possível.

— Claro. Mais tarde, Ferdinando, Karstedt. Faça o exame físico e, assim que Karstedt tiver tudo pronto, leve-a para o Bairro dos Nobres.

Aqueles no templo precisariam se preparar para receber Rozemyne como o novo Arcebispo, nesse meio tempo.

— Ferdinando, confio a você a explicação das circunstâncias para Benno e a preparação do templo para as próximas mudanças. Karstedt, confio a você a preparação do batismo e a aplicação da punição dos criminosos que prendemos hoje.

Tendo recebido minhas ordens, ambos se ajoelharam, em respeito.

Fim da leitura

Capítulo 190 concluído

CAPÍTULO 190 - 189