Ascendance of a BookwormCAPÍTULO 228 - 227
Capítulo 228Ascendance of a Bookworm – Capítulo 227
A Barreira do Mosteiro
— Wilma, o orfanato do templo tem recursos suficientes para abrigar mais pessoas durante o inverno? — Perguntei, me referindo àqueles do orfanato de Hasse.
Em resposta, Wilma recuperou alguns documentos do ano passado e começou a folheá-los.
— Nossos preparativos de inverno precisarão ser mais extensos do que no ano passado, mas devemos ter quartos suficientes. Tudo o que nos falta são roupas de cama, utensílios de mesa e utensílios para comer.
Não havia problema em acomodar os três sacerdotes e três donzelas do santuário, pois inicialmente vinham do orfanato de Ehrenfest. Mas, de acordo com Wilma, não tínhamos tudo o que precisávamos para os quatro recém-chegados, ou seja, Nora e os outros. Este seria o único inverno que passariam no templo, uma vez que só estavam sendo trazidos aqui para sua educação, e com isso em mente, seria mais eficiente apenas trazer o que precisavam de Hasse do que comprar coisas inteiramente novas.
— Entendo. Eu não tenho um número exato para você, mas por favor, faça planos assumindo que haverá mais dez pessoas morando aqui durante o inverno. Não deve haver nenhum problema, já que temos mais tempo e dinheiro do que precisamos este ano, tudo graças a você, Wilma, devo acrescentar.
— Meu único arrependimento é que o Sumo Sacerdote nos proibiu de fazer isso novamente. Ahaha.
As vendas do concerto de caridade de Ferdinando realmente engordaram nossas carteiras este ano. Elas estavam essencialmente explodindo nas costuras, e foi tudo graças às ilustrações de Wilma sendo completamente esgotadas. Não podíamos desperdiçar dinheiro, já que precisávamos dele para construir orfanatos e oficinas em outras cidades, mas preparar o orfanato do templo para o inverno também era uma boa causa.
— Aliás, como estão as ilustrações dos deuses subordinados do verão? Eles estão quase terminando?
— Sim, a maioria deles está pronta. Ainda há mais um que preciso concluir, mas acredito que começaram a imprimir hoje, os que já terminei, — explicou Wilma.
Gil mencionou que eles terminaram de imprimir o texto, mas aparentemente começaram a imprimir a arte também. Eles provavelmente estariam juntando os livros em apenas alguns dias.
— Diga-me, Wilma… Você acha que poderíamos fazer livros ilustrados para os deuses subordinados do outono e do inverno antes que chegue a hora de socializar no inverno?
— Isso vai ser um pouco difícil. Com todos os preparativos de inverno, simplesmente não há tempo suficiente.
Pessoas ricas e nobres eram a principal demografia para livros ilustrados, então ter a série feita antes da socialização de inverno, provavelmente teria levado a um aumento nas vendas. Mas se não fosse viável, então era isso; poderíamos apenas tê-los prontos para o próximo ano.
— Senhora Rozemyne, o que devemos fazer como trabalho de inverno? Devemos fazer brinquedos como fizemos no ano passado?
— Sim, todos devem ser capazes de trabalhar assim com madeira. Acredito que levará mais alguns anos até que as cartas e o reversi comecem a vender em massa, então devemos construir um estoque o máximo que pudermos nesse meio tempo. Dessa forma, podemos vendê-los no pico da demanda e antes que qualquer imitação chegue ao mercado, depois pensar em outros produtos para fazer.
Todas as coisas que eu conseguia lembrar eram de modelo simples, então eu não tinha dúvida de que seriam copiadas em pouco tempo. Nossa melhor aposta era aceitar que as cópias piratas apareceriam e focar na venda de novos produtos.
— Vejo que você está ocupada ganhando dinheiro, mesmo agora que você é o Arcebispo, Senhora Rozemyne.
Ok, observação justa. Mas, para ser clara, e para proteger a honra de meus nobres pais, eu estava recebendo dinheiro mais do que suficiente para viver confortavelmente, ao contrário de antes, quando eu tinha que ganhar o meu próprio para sobreviver como uma aprendiz de donzela azul do santuário. Eu estava planejando fazer dinheiro aqui para o bem do orfanato, e para espalhar a impressão dos meus livros.
— O orfanato deve ganhar dinheiro suficiente para cobrir seus custos operacionais. Se você confiar no financiamento dos nobres, você estará de volta à estaca zero no momento em que o financiamento desaparecer. Meu dever, como Arcebispo, é garantir que o orfanato continue a funcionar comigo ou “sem migo”.
— Estou muito feliz em ouvir palavras tão reconfortantes, Senhora Rozemyne.
— E assim, parece que o orfanato será capaz de acomodar a todos. Mas há uma coisa que eu queria perguntar — eu disse a Ferdinando, tendo acabado de relatar o que havia discutido com Wilma. — Sumo Sacerdote, seria aceitável eu vender livros ilustrados no castelo?
— Espere… Onde exatamente no castelo você pretende vendê-los? — Ferdinando perguntou, seus olhos dourados claros endurecendo um pouco, enquanto olhava para mim. Ele era um pouco mais sensível sobre eu vender coisas já que vendi ilustrações dele sem permissão.
— Lugar nenhum. Só estou perguntando se posso. Na cidade baixa, apenas pessoas ricas, como comerciantes, podem ler e compram livros ilustrados, mas todos são clientes em potencial quando se trata de nobres. Acho que seria bom vendê-los aos nobres com crianças durante a socialização de inverno, — expliquei.
Ferdinando bateu em suas têmporas.
— Suponho que seja melhor do que você vendendo ilustrações estranhas… — ele murmurou, antes de me prometer permissão para vendê-las no castelo no final do inverno. — Você pode vendê-los como presentes de despedida para nobres que partem para suas províncias. Durante o inverno, você primeiro chamará a atenção das crianças usando o karuta e o livro sobre os deuses primários. Dessa forma, quando chegar a hora de partir, nenhum dos pais será capaz de recusar um novo livro de imagens, especialmente por que o seu é excepcionalmente barato para o que eles contêm.
Nunca na minha vida pensei que Ferdinando me daria conselhos de negócios como esse.
— Dito isso, será uma venda difícil, a menos que seus filhos tenham se interessado em ler até lá. O preço é razoável se eles acharem que será útil para seus estudos, mas caso contrário parecerá um pouco alto.
— As crianças vêm para o inverno socializar também? — Eu perguntei. A resposta provavelmente era sim, já que ele mencionou chamar a atenção deles com karuta e livros ilustrados. Meu plano era passar o último para os pais, mas as coisas iriam muito melhor com as crianças por perto.
— Aqueles que foram batizados. Torna-se uma oportunidade para eles aprenderem cultura em tenra idade, bem como um lugar para serem ensinadas as hierarquias nobres. Quanto a você, a socialização de inverno é onde você vai procurar e nutrir seus futuros retentores.
Arg… eu não quero lidar com tudo isso. Parece que vai ser uma dor de cabeça enorme. Acho que não poderei gastar todo o meu tempo trabalhando em livros ilustrados. Parece que tenho um inverno cheio pela frente.
Foi quando me lembrei do que fiz no inverno passado.
— Espere, o templo não tem o Ritual de Dedicação durante o inverno? Certamente não terei tempo para me envolver na socialização.
— Você terá tempo e participará de ambos. Faço isso todos os anos.
Ferdinando, em toda a sua suprema competência, aparentemente, comuta entre o castelo e o templo todos os anos. Mas esperar o mesmo de mim, em toda a minha incompetência suprema, era um pouco demais, especialmente considerando minha saúde frágil. Fran tinha uma compreensão completa da minha saúde, mas mesmo com ele mantendo os olhos em mim o tempo todo, eu ainda acabava sendo forçada a beber poções várias vezes. Eu não duraria um trajeto entre o castelo e o templo.
— Ferdinando, acho que vou morrer neste inverno.
— Não tema, não vou deixar você morrer tão facilmente. Haverá poções prontas para você, — respondeu ele. Parecia que ele estava disposto a preparar poções para mim, mas não diminuir minha carga de trabalho. Falando em maldade.
— Pelo menos não as torne muito amargas — pedi.
Ferdinando franziu a testa, sem dúvida considerando quantas poções ele deveria preparar, e foi quando senti arrepios subindo pelos meus braços.
— Wow?!
Não era como se estivesse frio ou algo assim. Um tremor repentino e grosseiro percorreu minha espinha, e uma sensação repugnante tomou conta de mim, quando pensamentos sobre o mosteiro de Hasse passaram do nada pela minha mente.
— Ferdinando, algo estranho acabou de acontecer… — Eu disse, olhando para ele em busca de uma explicação. Ele se levantou, parecendo ter notado algo.
— Parece que alguém tentou entrar no mosteiro de Hasse. Sinto uma ligeira perturbação no campo de proteção que o rodeia. Imagino que você também possa sentir, já que adicionou sua mana à magia de proteção, — explicou Ferdinando.
Parecia que nós dois podíamos sentir as pessoas atacando o mosteiro, ele porque o havia construído com magia da criação, e eu porque eu havia despejado minha mana na feystone de proteção.
— Venha comigo, Rozemyne, — disse Ferdinando enquanto se dirigia para o quarto escondido ao lado de sua cama. Fiquei um pouco confusa com a resposta dele. Se as pessoas estavam atacando o mosteiro de Hasse, certamente fazia sentido ir lá o mais rápido possível.
— Ferdinando, não vamos para Hasse?
— Eu não senti nenhuma interferência significativa. Seria mais sábio investigar o assunto primeiro, — disse ele, ao abrir a porta.
Eu corri atrás dele. Esta era minha primeira vez entrando em seu quarto escondido em eras, isto é, excluindo todas as vezes que eu vinha aqui para receber sermões.
Ferdinando pegou uma tigela octogonal, feita de madeira escura, entre uma bagunça de ferramentas em uma mesa e a colocou em uma mesa mais curta, muito menos desordenada. A tigela tinha uma feystone amarela em cada um de seus cantos, e os intrincados desenhos entalhados na madeira deixavam claro que esta era uma ferramenta mágica.
Ele colocou a mão sobre uma das feystones e derramou mana nela, fazendo com que a luz amarela fluísse através dos entalhes. A luz se dividiu em duas direções, movendo-se em ambos os lados da tigela e gradualmente conectando suas feystones, enquanto o padrão modelado emergia para formar um círculo mágico completo, destacando-se contra o fundo escuro. Um segundo depois, o líquido começou a subir do fundo da tigela, enchendo-a completamente.
Ferdinando pegou seu schtappe e disse “spiegeln” antes de tocar na água, o que fez uma imagem subir em sua superfície. Era o mosteiro de Hasse. Levantei-me e olhei para a tigela, em vez de sentar no banco como de costume. Esta ferramenta mágica era realmente como uma câmera de segurança.
— Ferdinando, essa coisa pode ver em todos os lugares?
— Bom se fosse. Ele só pode ver edifícios com feystones de proteção contendo a mana do usuário. Em geral, a família do Arquiduque a usa para proteger suas cidades e o ducado. Não é uma ferramenta de espionagem para todos os fins.
Presumi que também poderia ser usado para espiar mulheres, mas, aparentemente, eu estava errada. Suspirei de alívio, o que imediatamente me rendeu um sorriso ameaçador de Ferdinando.
— Em que diabos você estava pensando? — ele perguntou.
— Oh, nada mesmo. Acho que o que está acontecendo agora no mosteiro é muito mais importante.
Na imagem, pudemos ver um grupo de cerca de dez homens armados com ferramentas agrícolas tentando forçar seu caminho para o mosteiro. Eles provavelmente tinham sido ordenados a fazê-lo pelo prefeito, embora ele não estivesse em lugar nenhum. Os homens eram todos muito jovens, e a percepção de que eles tinham vindo para levar Nora e os outros de volta me fez tremer de medo.
— Ferdinando, devemos ir e ajudar os órfãos imediatamente.
— Não haverá necessidade disso, não vejo nobres entre eles. Basta observar — ele respondeu.
Os homens agarraram agressivamente a porta com a intenção de forçá-la a se abrir, apenas para então puxar os braços para trás com expressões surpresas. Eles tentaram repetidamente, com o mesmo resultado todas as vezes, os fazendo parecer inteiramente como gatos passando em um brinquedo. Era difícil até mesmo vê-los como atacantes.
— O que diabos eles estão fazendo? — Eu perguntei.
— A barreira ao redor do mosteiro foi fortalecida para não permitir que aqueles com má intenção entrem. Eles, sem dúvida, experimentam uma dor alucinante cada vez que tocam a porta. Tentar novamente não mudará isso, mas parece que eles são lentos em entender.
Eu assisti a imagem, enquanto pensava que ser capaz de mudar o nível de segurança à vontade tornava a barreira muito mais conveniente do que o esperado. Ferdinando levou esse tempo para me ensinar um pouco sobre a magia da criação.
— A razão pela qual construí o mosteiro, em vez de Sylvester, foi para que pudéssemos fortalecer sua barreira sem que aquela ao redor de Ehrenfest fosse afetada. Se o Arquiduque tivesse feito o mosteiro, as barreiras em torno dele e da cidade teriam sido fortalecidas juntas. Não é difícil imaginar todos os problemas que isso traria.
A barreira ao redor de Ehrenfest aparentemente foi definida para bloquear ataques mágicos, enquanto a do mosteiro foi fortalecida para bloquear aqueles com más intenções. Ehrenfest ter essa mesma barreira, sem dúvida, levaria a problemas como as crianças entrando em brigas com seus pais, deixando a cidade para coletar na floresta, e depois não serem capazes de voltar.
— Isso faz sentido. Você poderia rir ao ser trancado fora de sua casa, depois de uma briga, mas não poder voltar para a cidade seria muito sério — eu disse. Um sorriso rastejou em meu rosto quando imaginei papai andando no portão depois de uma discussão, capaz de fazer seu trabalho, mas incapaz de voltar para casa. Mas aquele sorriso não durou muito. — E agora eles estão balançando suas ferramentas agrícolas.
Finalmente entendendo que as portas não podiam ser abertas com a mão, os homens levantaram suas ferramentas agrícolas e balançaram o mais forte que puderam. Em um instante, todos os homens foram jogados para trás e acabaram espalhados pelo chão em pilhas deformadas.
— Ele se assemelha ao escudo de vento que você fez para proteger a carruagem durante a Oração da Primavera, não é? A barreira do mosteiro é feita de maneira semelhante.
— Esse escudo fez um trabalho perfeito protegendo Fran e Rosina. Confiarei em um escudo de vento a qualquer momento.
Os homens pareciam chocados por terem sido derrubados, mas ainda tentaram atacar novamente. Os resultados foram como você esperaria. Não importa quantas vezes tentassem, eles não conseguiam nem arranhar a porta do mosteiro. Eles só estavam se machucando e, com o tempo, seus golpes ficaram mais fracos e pareciam cada vez mais exaustos. Os homens fizeram uma careta para o mosteiro, como se vissem algum tipo de monstro estranho, então eventualmente recuaram um por um.
— Parece que a barreira está funcionando como pretendido — murmurou Ferdinando, parecendo um cientista analisando os resultados dos testes, enquanto escrevia algumas notas em uma tábua de madeira. — Suponho que poderíamos reduzir um pouco sua força.
Mas essa ideia me aterrorizou.
— Eu acho que não. A barreira vai ficar como está, e não a mude sem me dizer! Agora, precisamos nos certificar de que todos estejam seguros — eu disse, mas Ferdinando instantaneamente atirou em mim, sem sequer olhar para cima de sua prancha.
— Um movimento errado agora e o prefeito pode ser eliminado como Wolf foi — disse ele calmamente.
Congelei no meio do caminho, já tendo começado a sair da sala. Wolf era o ex-chefe da guilda de tinta que um dia morreu do nada, e enquanto eu tendia a esquecer que ele existiu, devido a nunca tê-lo conhecido, sua morte serviu como um exemplo concreto de como poucos nobres pensavam em plebeus. Wolf tinha conexões profundas com nobres e foi silenciado através do assassinato no momento em que Ferdinando e Karstedt começaram a investigá-lo.
E aqui estava Ferdinando, me avisando que o prefeito poderia ser assassinado tão espontaneamente se nos movêssemos tão abertamente quanto antes. Eu tinha certeza de que entendia o quão pouco os nobres se importavam com a vida dos plebeus agora, mas ouvir Ferdinando dizer isso abertamente, fez meu coração pular uma batida. O prefeito de Hasse não era meu amigo, mas eu não o queria morto nem nada. No mínimo, eu me sentiria culpada se minhas ações o levassem a ser morto.
— Certo. Afinal, vidas são importantes.
— De fato. Eu gostaria de capturá-lo vivo, pois imagino que haja muito que ele possa nos oferecer como prova — disse Ferdinando. Parecia que não era a vida do prefeito que ele se importava, mas sim as informações que ele poderia fornecer.
Esse tipo de pensamento tornava Ferdinando perfeitamente adequado à política, na minha opinião. Ele não era constantemente movido por emoções como eu era, nem iria estragar as coisas por enlouquecer com livros como eu fiz. Éramos diferentes em um nível fundamental, e isso apenas me fez suspirar. Não importa o quanto eu tentasse agir como uma nobre, eu nunca me tornaria uma. No final do dia, eu era apenas uma plebeia em roupas chiques.
— Você vai esperar até o dia agendado para visitá-los. Imagino que isso tenha lhe ensinado que eles estarão a salvo dos atacantes lá dentro.
Havia três dias inteiros antes da minha próxima visita agendada e, embora eu estivesse mais do que um pouco impaciente, não os deixaria ir para o lixo. Pedi a Wilma que determinasse o que o orfanato precisaria para os preparativos de inverno e pedi a Fran para descobrir o que meus aposentos precisariam. Enquanto isso, Gil e Lutz determinaram quanto trabalho manual poderia ser feito, com base em quanto tínhamos conseguido fazer no ano passado, depois encomendaram o número adequado de tábuas de madeira de Ingo e a quantidade apropriada de tinta da oficina de tinta.
Eu tinha recebido um ordonnanz de Richarda instruindo-me a visitar o castelo de modo que eu pudesse ter minhas roupas de inverno preparadas, e Benno enviou um pedido de que os chefs voltassem para abrir o restaurante italiano. Ele também expressou seu entusiasmo por eu vender minhas técnicas de salga para a Guilda de Cera, já que ele queria usar as velas de gordura animal, que não cheiravam mal, do ano passado.
No meio de tudo isso, Monika veio aos meus aposentos do orfanato com um pacote embrulhado em pano. Um guarda, no portão que levava à cidade baixa, aparentemente recebeu uma carta, e era prática padrão para aqueles no orfanato levar tais entregas para a seção nobre do templo para eles. Mas apesar de chamar de carta, o que Monika tinha era uma tábua de madeira.
— Senhora Rozemyne, o remetente disse que sabia que o ex-Arcebispo não estava mais no templo, mas pediu que isso fosse entregue a ele de qualquer maneira. O guarda do portão não sabia o que fazer com uma carta endereçada ao falecido, então pensei em trazê-la diretamente para você.
— Sim, esta é a primeira carta que nos foi enviada especificamente ao ex-Arcebispo.
Como o atual Arcebispo, às vezes recebia cartas de apresentação daqueles que pediam favores. Estes eram geralmente enviados por agricultores e comerciantes que se dirigiam para o mercado de Ehrenfest, por isso era raro recebermos uma carta logo após o fim do mercado. E embora tivéssemos recebido várias cartas dirigidas ao atual Arcebispo, esta foi a primeira a ser especificamente endereçada ao anterior. Talvez a notícia de que o Arcebispo tivesse mudado também estivesse se espalhando para fora da cidade.
Somente alguém que sabia que o Arcebispo havia mudado, mas não sabia que o velho Arcebispo havia morrido, enviaria uma carta como esta. Isso excluía aqueles no Bairro dos Nobres, mas fora da cidade, provavelmente havia apenas alguns que sabiam sobre sua morte.
— Devemos enviar a carta para sua família no Bairro dos Nobres? — Monika perguntou.
Eu, lentamente, balancei a cabeça. Isso poderia ter sido ideal em circunstâncias normais, mas o ex-Arcebispo não tinha ninguém para receber a carta. Sua irmã mais velha, a mãe do Arquiduque, estava trancada sem permissão de comunicação externa, e, enquanto o ex-Arcebispo ainda tinha família do lado do pai, o chefe da casa havia mudado e eles também não estavam em boas condições. Na verdade, o atual chefe havia declarado que Bezewanst não era batizado e não era um membro de sua família, de acordo com Ferdinando, de qualquer maneira.
— Acho que nossa única opção é lidar com a carta nós mesmos. Faremos o que sempre fazemos. Por favor, informe o mensageiro para vir novamente amanhã para uma resposta.
— Como quiser — disse Monika, antes de sair da sala.
Uma vez que ela se foi, desembrulhei o pano para que eu pudesse ler por alto a carta, ou seja, a tábua de madeira. A escrita estava rabiscada em letras trêmulas que deixavam claro que o remetente não era um escritor muito experiente.
Surpreendentemente, foi do próprio prefeito de Hasse.
Como Ferdinando havia adivinhado, o prefeito não sabia que Bezewanst já estava morto. Sua carta listou queixa após queixa: “Faça algo sobre o mosteiro. Seus subordinados estão sendo déspotas. Eles roubaram os órfãos que fui contratado para vender ao Senhor Kantna, o acadêmico.” Eu sabia que o prefeito era uma pequena batata frita, mas isso era, honestamente, mais patético do que eu esperava, e me encontrei totalmente sem palavras. Tudo o que pude fazer foi suspirar.
— Fran, vamos visitar Ferdinando.
Nisso, fomos ver Ferdinando, comigo carregando a prancha que servia como evidência crucial das conexões do prefeito com os nobres.
— Ferdinando, esta carta chegou hoje. Como devemos responder? — Perguntei, entregando-lhe a tábua. Ele olhou para as cartas mal rabiscadas enquanto lia, depois fez a mesma expressão exausta que eu tinha.
— Precisamos apenas responder que o ex-Arcebispo morreu. O que fazemos a partir daí depende de como ele reage. Supondo que ele não se mova contra nós, podemos achar melhor deixá-lo apodrecer, ele provavelmente não exerce nenhum poder que possa nos ameaçar, — disse Ferdinando, resolvendo basear sua decisão final no comportamento futuro do prefeito e no que podia acontecer na Oração da Primavera.
— Oração de Primavera? Não é o Festival da Colheita?
— As cidades baseadas na agricultura dependem da proteção divina para uma colheita saudável, elas podem conseguir passar alguns anos sem ela, mas a terra se tornaria cada vez mais estéril. Será que ele vai priorizar as relações com o Arcebispo que pode ajudar sua cidade, ou ganhar um pequeno favor de nobres corrompidos? A escolha é dele, — disse Ferdinando, acenando a mão com desdém. — Se ele escolher mal, os agricultores e os cidadãos que consequentemente perderem sua colheita se levantarão e o removerão por conta própria. Mais importante, vejo que ele se esforçou para nomear seu aliado nobre. Sugiro que o investiguemos primeiro.
— Boa sorte com isso — eu disse, deixando o conselho com Ferdinando e voltando para meus aposentos para escrever uma resposta ao prefeito de Hasse.
Ou melhor, escrevi uma sob a supervisão de Fran. Ele se certificou de explicar usando todos os eufemismos nobres usuais de que o ex-Arcebispo estava morto, e que o prefeito teria que decidir agora em que direção tomar sua vida. Eu só esperava que ele seria capaz de analisar a linguagem.
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