Ascendance of a Bookworm — Capítulo 72: CAPÍTULO 72 - 71

Ascendance of a Bookworm
Cap. 72
0%
Ascendance of a Bookworm

CAPÍTULO 72 - 71

Capítulo 72

4.495 palavras~20 min de leitura

Ascendance of a Bookworm – Capítulo 71

Contrato com Freida

—Nããão…! Está chovendo. Não há como sair dessa, está realmente chovendo lá fora.

Baixei os ombros e comi, enquanto ouvia a chuva bater nas janelas. O sorriso de Freida, o gemido de Benno, e o suspiro de Lutz foram todos justificados. Estava realmente chovendo.

Ah, que seja. Agora que eu sabia, com certeza, que estava indo para a casa de Freida, eu só tinha que fazer o meu melhor para extrair o máximo de informações valiosas dela possível. Eu estaria segura com Lutz comigo.

Peguei meu pão duro de mastigar e molhei com a sopa que sobrou da noite passada antes de morder. Então, limpei minha tigela com o último pão para terminar o café da manhã e suspirei enquanto olhava ao redor.

—Gostaria de poder levar um presente ou algo assim, mas não acho que possuo uma única coisa que ela não tem…— A casa de Freida foi estilizada para ser igual as residências dos nobres e não havia nada que eu pudesse levar que ela já não tivesse. Tuuli tomou um gole de água e inclinou a cabeça.

—E o xampu simples tudo-em-um? Ela adorou quando levamos um pouco, certo?

—Benno começou a vender o Limxam oficialmente e me disse para não distribuir nada de graça. Fazer alguns para o meu próprio uso é uma coisa, mas dar de graça vai perturbar o mercado, ou algo assim.

—Ah, tá bom. É muito chuvoso para colher flores também. Isso é difícil, — disse Tuuli, enquanto pegava um pouco de água do jarro para lavar sua tigela. Uma vez que ela terminou com isso, ela começou a se preparar para o trabalho. Mamãe já tinha ido embora e papai estava dormindo desde que ele teve o turno da noite ontem. Silenciosamente usei um pouco de água para limpar minha tigela também.

—Gostaria que fizéssemos essa promessa dias atrás, para que eu pudesse ter colhido frutas antes do tempo…— Benno estava emprestando um quarto para Lutz e me ajudando a estabelecer o Ateliê da Myne para meus produtos, então eu realmente queria evitar perturbá-lo. Eu devia muito a ele. Não era de propósito que eu falava muito sobre as coisas e muitas vezes sucumbia à tentação de fazer comida diferente para comer. Não queria que ele ficasse bravo comigo, e era isso que continuava acontecendo.

O problema era que evitar a raiva de Benno significava não dar nenhum Limxam. Nem nada envolvendo papel. Freida e Leise adorariam se eu lhes contasse uma nova receita de doces, e eu pessoalmente adoraria comer esses doces, mas Benno definitivamente ficaria bravo comigo.

… Agora que não sou aprendiz dele, acho que estou livre para espalhar receitas onde eu quiser, mas isso pode acabar acertando a minha bunda mais tarde.

Gemi e caí em pensamento, tentando pensar em um presente para dar a Freida, quando de repente, uma batida veio na porta. Tuuli, usando uma jaqueta grossa coberta de óleo e cera para impermeabilização, desde que estava prestes a ir trabalhar, olhou para cima e foi para a porta.

—Siiim! Quem é? — Comecei a empurrar meus pratos para longe, pensando que Lutz vier um pouco mais cedo que o esperado, mas o grito de surpresa de Tuuli apagou esse pensamento fora da minha mente.

—Freida?! Você está aqui? — gritou Tuuli.

Virei-me de surpresa e vi Freida parada na frente da porta com um servo. Ela estava usando roupas finas, apesar do tempo, assim como seu atendente, o que significava que ambos se destacavam fortemente, em contraste com nossa pobre moradia. Para ser honesta, eles nos fizeram parecer ainda mais pobres do que já estávamos.

—Estava tão ansiosa para ver Myne desde que acordei, que não podia mais suportar e escolhi vir aqui para buscá-la. — Ela sorriu e eu podia ouvir o implícito “Não vou deixar você escapar” em suas palavras. Um arrepio correu pela minha espinha. Eu queria virar à direita e fugir, mas não podia deixar Tuuli para trás assim. Ela se virou e disse: —Uau, Myne, ela está tão animada para brincar com você que veio mesmo com chuva! — com um sorriso feliz.

… Tuuli, você é um anjo. Por favor, nunca perca essa inocência.

—Longe de mim, fazer Myne andar na chuva com sua saúde ruim. Minha carruagem está esperando na rua principal. — Ela provavelmente previu que eu iria evitá-la, alegando que eu não queria ficar doente andando na chuva. Eu poderia balançar minha cabeça em admiração com o quão magistralmente ela estava tecendo sua teia ao meu redor.

—Uma carruagem?! Wooow! Isso é tão legal, Myne!

Freida, vendo Tuuli com seu equipamento de trabalho na mão, inclinou a cabeça.

—Oh? Você tem trabalho hoje?

—Uhum. Preciso ir logo. Isso é uma droga, — disse Tuuli, mas Freida caiu brevemente no pensamento e, em seguida, bateu palmas com um sorriso significativo.

—Nesse caso, você gostaria de uma carona?

—O quê?! Posso ir também?! Posso andar na carruagem?!— O rosto de Tuuli se iluminou. Normalmente, pessoas pobres como nós, nunca teriam a chance de andar de carruagem. Eu poderia entender a excitação de Tuuli. Parecia que minha única opção seria me apressar e me preparar para que pudéssemos sair.

—Tuuli, você tem que ir buscar Lutz.

—Ah, isso mesmo. Vou buscá-lo.

—Hm, mas se Lutz vier, não haverá espaço suficiente para você andar também…— Tuuli colocou suas coisas para baixo e começou a fugir, mas Freida lamentavelmente a impediu. Eu precisava que Lutz cuidasse de mim sempre que eu saísse. Se Lutz viesse, significava que Tuuli não poderia ir, bem, isso foi lamentável para ela.

— Hã? O quê? Eu… Eu não poderia ir? — Desespero e decepção são muito piores se você já teve esperança. Tuuli pendurou a cabeça, olhando para mim em lágrimas. Comecei a entrar em pânico, sem saber como fazê-la se sentir melhor, quando Freida interveio. Ela pegou as mãos de Tuuli e sorriu gentilmente.

—Tuuli, eu assumo a responsabilidade aqui e cuido de Myne no lugar de Lutz. Prometo que não permitirei que Myne adoeça. Você pode descansar tranquila e andar com a gente.

—Myne, você não vai ficar cansada ou molhada graças a carruagem, certo? Você vai ficar bem sem Lutz? — Não! Não vou fazer isso! Ou assim eu disse por dentro, mas o olhar desesperado de Tuuli era demais para eu recusar. Eu não podia dizer que precisava de Lutz e que ela teria que andar para o trabalho. Ela estava tão feliz por ter a chance de andar de carruagem, então o que mais eu poderia fazer? Eu não queria ir só à casa de Freida, mas minhas mãos estavam atadas.

— Vou ficar bem. Vamos, Tuuli.

—Obrigado, Myne! Vou falar com Lutz, enquanto você se arruma. — Tuuli saiu de casa empolgada e foi para a casa de Lutz. Uma vez que seus passos desapareceram, eu podia ouvir apenas a chuva. Finalmente, Freida explorou Tuuli para se livrar de Lutz. Olhei para ela, olhos estreitos.

—Freida.

—Sua irmã mais velha estava feliz, não estava?

—Ela estava. Haaah… — Sim. Cavei minha própria sepultura aqui, de qualquer maneira. Foi minha própria fraqueza que me impediu de cortar Tuuli. Não faria sentido discutir com Freida. Terminei de me arrumar, enquanto pensava em como Lutz e Benno ficariam loucos comigo por não pensar a frente novamente.

—Desculpe, não consegui encontrar presentes para você.

—Você vai passar um dia inteiro comigo, Myne. Eu não poderia pedir um presente maior que isso. — O sorriso dela era o de uma jovem animada para passar um tempo com um amigo, mas eu sabia que Freida não era uma criança inocente.

—Myne, deixei uma mensagem com Karla. Bora! Vamos nos atrasar. — Tuuli, pulou para dentro de casa com um sorriso, levando a atmosfera pesada embora.

—Vamos embora. — Saímos e trancamos a porta atrás de nós. Em geral, as pessoas da cidade usavam mantos grossos e chapéus largos para bloquear a chuva. Naturalmente, eles não eram realmente impermeáveis, então passar muito tempo fora ou sob chuva forte ainda te molhava, deixando as roupas encharcadas. Isso não seria um problema para nós, já que estávamos apenas passando por um beco estreito a caminho da rua principal.

—Agora, então, pulem para a carruagem. — Entramos às pressas na carruagem esperando por nós e tiramos nosso equipamento de chuva. O criado sentou-se ao lado do motorista, então éramos só nós, as crianças, dentro.

—Uau, então é assim que uma carruagem se parece por dentro!

—Por favor, sentem-se, estamos prestes a sair. Será que a praça seria um bom lugar para deixá-la?

—Mhm, eu trabalho bem perto da praça, no final do beco dos artesãos.

Tuuli estava pulando em emoção enquanto olhava ao redor, então Freida disse-lhe para se sentar. Fui em frente e sentei no meio do banco. A carruagem foi construída para dois adultos e tinha espaço suficiente para três crianças se sentarem confortavelmente uma ao lado da outra. Ele saltou muito quando começou a se mover, mas ao contrário de antes, eu estava realmente sentada no meu assento corretamente, então eu não estava sendo arremessada em qualquer lugar.

—Seu batismo está chegando em breve, não é? Que tipo de roupa você vai usar?

—A roupa da Myne é a minha roupa refeita, mas é tão chique agora que você não pensaria isso! —, Respondeu Tuuli, soprando seu peito com orgulho, como se ela estivesse falando sobre si mesma. Ela e mamãe estavam refazendo a roupa nos últimos meses, fazendo com que parecesse cada vez mais chique a cada tentativa.

—Chique?

—Não é o que você esperaria de roupas refeitas, tem um modelo muito estranho agora. Mas mamãe trabalhou duro, então parece super fofo. — Provavelmente foi difícil para Freida imaginar que a gente tinha roupas chiques após ver o pobre estado de nossa casa. Ela parecia confusa, mas Tuuli não estava mentindo. Embora fosse difícil explicar exatamente o que tínhamos feito.

—Freida, sua roupa de batismo era super meiga e fofa. Quero tentar usar roupas assim algum dia.

—Obrigado. Aliás, isso significa que você fez um novo enfeite de cabelo também? — Freida sorriu alegremente para o elogio de Tuuli, em seguida, mudou o tema para enfeites de cabelo. Todos os enfeites que tínhamos feito, exceto o de Freida, tinham o mesmo desenho e diferiam apenas por cor. Mas ela provavelmente estava curiosa sobre o que eu tinha feito para mim, imaginando que eu iria além dele.

—Uh huh, é a celebração de Myne. Trabalhei muito duro nisso e fiz três rosas grandes, assim como o seu.

—Posso assumir, então, que nossos grampos de cabelo combinam uns com os outros? — Freida olhou para mim um pouco duvidosa, com a cabeça inclinada. Tuuli não sabia o que dizer e puxou minha manga nervosamente.

—Ambos têm flores grandes, mas o de Myne são brancas, e hum, ele treme? Eles realmente não correspondem, certo Myne?

—O fio é, na verdade, mais uma cor creme, mas parece branco à distância. Coloquei pequenas flores ao redor das rosas também, mas não se parece com a sua, Freida. Você vai ver quando chegar o dia. Certo, Tuuli?

—Uhum. Não seria divertido se lhe contasse tudo! — disse Tuuli, colocando a mão sobre a boca e sorrindo maliciosamente. Freida também abriu um sorriso.

—Olharei com atenção para ele, então. Estarei lá fora para te ver.

A carruagem fez um bom progresso enquanto falávamos e logo vi o local de trabalho de Tuuli dentro da linha de oficinas. Paramos a carruagem e Tuuli colocou as roupas dela de volta. Após colocar seu saco de ferramentas na mão, ela nervosamente olhou para mim.

—Não tenha medo. Levarei Myne para casa em segurança eu mesma.

—Boa sorte no trabalho, Tuuli.

—Obrigado por me deixar andar de carruagem, Freida. Desculpe, Myne, por ser insistente. — Ela acenou e correu para sua oficina, enquanto os cavalos de nossa carruagem retomaram o trote.

…

—Bem-vinda de volta, Myne. Um bolo de libra está pronto para você. Deixe-me saber o que você pensa. — Quando chegamos na casa de Freida, Leise estava esperando por nós. Ela nos levou ao salão e imediatamente colocou chá e bolo na mesa. Dei uma mordida e estava no céu imediatamente. A massa foi assada para ser perfeitamente úmida, e ela deve ter dominado bolos de cozimento com o forno, pois tinha um gosto significativamente melhor que da última vez.

—Tão bom! Isto é muito melhor que da última vez. Você assou perfeitamente.

—Fico feliz em ouvir isso. Eu estava pensando se eu poderia melhorá-lo de alguma forma.

—Melhorá-lo? Acho que já está muito bom. — Joguei um pedaço do bolo na minha boca e caí em pensamentos, enquanto desfrutava do sabor doce. Havia algumas coisas que ela poderia fazer, como fazer parecer mais chique no prato, adicionar frutas secas, raspar cascas cítricas para misturar na massa, etc, mas Benno provavelmente ficaria bravo se eu dissesse a ela qualquer uma dessas coisas.

… Benno definitivamente ficaria bravo, não importa o que eu faça, e enquanto eu estivesse bem com o bolo simples aqui, eu realmente queria apoiar Leise, já que ela investiu em fazer comida melhor.

—Não sei o quanto podemos melhorá-lo, mas… Vou dar-lhe ideias por um saco de açúcar. — Sugeri uma troca, pensando no saco pesado, de cerca de um quilo, que eu tinha visto na cozinha antes. Leise olhou para Freida, que tinha a autoridade máxima aqui.

—Um saco de açúcar… Isso é uma troca… posso fazer, minha senhora?

—Sim, é claro.

—Você ouviu. Vamos ouvir as ideias! — Engasguei um pouco na intensidade de Leise e abri minha boca.

—Se você adicionar cascas de apfelsige ralado à massa, ela deve ter um sabor e cheiro diferente. Talvez melhor. O sabor também pode ser alterado colocando coisas diferentes nele, como frutas secas. Por favor, experimente por conta própria para ver o que vai ficar melhor. Isso é uma informação extra, mas se você está servindo o bolo de libra para nobres, ele vai parecer mais chique se você adicionar chantilly e frutas fatiadas em cima.

— Certo. Vamos tentar. — Leise se levantou e saiu imediatamente. Freida e eu fomos deixadas para trás. Após piscar de surpresa, sorrimos uma para a outra.

—Perdoe-me, Myne. E pensar que ela se comportaria assim na frente de um convidado. Ela normalmente é muito mais calma, mas quando novas receitas se envolvem…

—É bom que ela tenha um impulso para melhorar sua culinária. Quanto mais ela trabalha, melhor a nossa comida fica. — Eu poderia apreciar o entusiasmo dela. Comida saborosa espalhada por todo o mundo não seria nada além de bom, então eu gostaria que ela experimentasse tudo o que quisesse.

—Falando nisso, por que você está trabalhando como aprendiz na Guilda dos Comerciantes? Você não terá uma loja no Distrito Nobre quando crescer? Você pode ser uma aprendiz, mesmo se você não vai trabalhar lá? — Eu não esperava ver Freida trabalhando na Guilda dos Comerciantes quando seu futuro plano era ter uma loja. Perguntei o que estava acontecendo, enquanto comia bolo e Freida respondeu enquanto bebia chá.

—Pedi ao meu avô para me empregar. Preciso aprender e fazer conexões, se for para manter uma loja no Distrito Nobre. Ficarei sozinha quando a loja abrir. Será necessário que eu seja capaz de administrar a loja por conta própria e quanto mais conexões eu tiver, melhor.

—Sozinha? Completamente? Você não vai ter, alguém como, Jutte lá para ajudá-la? Sem servos?

—Ninguém além de mim, será autorizado a residir no Distrito Nobre. Eles terão servos próprios dados para mim, então não vou tecnicamente estar sozinha, mas tenho certeza que você entende. — Seria difícil esperar que quaisquer servos designados a ela fossem sábios nos caminhos da economia e dos negócios. Não seria um pouco cruel fazer uma jovem que tinha acabado de chegar à idade adulta dirigir uma loja sozinha? Não poderiam ao menos deixá-la trazer um parceiro para trabalhar e consultar quando necessário?

—Na verdade, eu não estarei inteiramente sozinha. Minha família pode entrar no Distrito Nobre a negócios. Eles não estarão comigo o tempo todo, mas ainda assim, eles são fortes aliados para ter.

—… Isso é verdade. — Eles não seriam necessariamente aliados ideais, mas me vi incapaz de fazer nada além de concordar com Freida. Ela estava avançando e desafiando seu destino, como eu poderia dizer mais alguma coisa? Sua maneira sofisticada e madura de falar e pensar eram sua espada e escudo no Distrito Nobre. Ela teria que treinar suas habilidades agora para sobreviver a um mundo desconhecido.

—Estou trabalhando na Guilda e nas lojas da minha família agora para que, uma vez que minha loja seja aberta, eu possa lidar com o que acontecer.

—Isso é realmente impressionante, Freida. Posso dizer que você está pensando muito à frente, — disse, o que fez a expressão de Freida endurecer. Ela olhou para mim calmamente, olhos sérios, e falou.

—Há algo que eu gostaria de lhe perguntar também. — Para mim? Bem, aí vem o ponto principal. O pensamento passou pela minha cabeça. Eu sabia o que Freida me perguntaria. Sorri e assenti com a cabeça.

—O que no mundo você está pensando? — Perguntou Freida. —Uma pessoa razoável teria cortado laços com Benno e se juntado a mim agora. Eu estava esperando por isso, Myne. Esperando que você viesse até mim, procurando minha ajuda…— O mestre da guilda e Freida seriam aliados mais fortes que Benno, quando se tratava de buscar ajuda de nobres para sobreviver. Otto apontou a mesma coisa. Todos pensariam o mesmo. Uma loja com conexões profundas com nobres seria capaz de negociar mais a meu favor, não havia dúvida disso.

—É quase verão, mas você não fez nenhum movimento. Está pensando no seu futuro? Se você não negociar com um nobre em breve, você vai…— Paixão penetrou em sua voz, enquanto ela tentava me convencer, firme em suas crenças de sua própria história. Eu podia dizer que havia um inquieto senso de urgência fervendo dentro dela. Como uma colega sofredora da Consumação, ela estava preocupada comigo. Levaria tempo para que as negociações terminassem e o contrato fosse assinado. Se Freida quisesse que eu me apressasse, por medo de atrasar as ferramentas que salvariam minha vida, eu me sentiria um pouco envergonhada por me preocupar com ela.

Soltei uma risada seca e olhei em seus olhos.

—Você sabe, Freida. Pensei muito sobre isso e decidi que quero morrer enquanto vivo com minha família.

Freida congelou com os olhos e a boca, bem abertos. De seus lábios trêmulos, veio um pequeno sussurro: “De jeito nenhum.”

—Eu já desisti. Tuuli chorou e disse que poderíamos procurar uma maneira de me manter vivo, mas não há como sobreviver a Consumação, fora vender minha vida para nobres, não é? — Se houvesse outra maneira, o mestre da guilda não teria que usar todo o poder e recursos à sua disposição para salvar Freida. Ele deve ter pesquisado maneiras de curar a Consumação, enquanto coletava ferramentas mágicas e ganhava tempo. No final, ele não encontrou nada e não teve escolha a não ser desistir, negociar um acordo com um nobre, e vender a vida de Freida. Como eu poderia fazer melhor?

—… Nenhuma maneira que eu saiba.

—Na verdade, quero pelo menos mais uma ferramenta mágica para tentar terminar o que estou fazendo, mas nem estou pensando em me vender para um nobre. Não há nada além de ferramentas mágicas que podem curar a Consumação, certo?

—Se eu soubesse de algo, eu mesma teria usado, — disse Freida, olhando para mim em frustração. Dei de ombros.

—O que eu queria perguntar a você, Freida, era se eu poderia ou não comprar ferramentas mágicas de alguém que não fosse um nobre. Ou eu poderia fazê-las eu mesma…? Algo assim.— Idealmente, eu poderia fazer ferramentas mágicas eu mesma, mas infelizmente, não havia nenhum livro sobre como construí-las na Terra. Eu tinha jogado jogos e lido livros de fantasia que traziam ferramentas mágicas, mas eles obviamente não eram úteis aqui. E até onde eu sabia, não havia nenhuma oficina que fizesse ferramentas mágicas nesta cidade.

—Criar ferramentas mágicas requer mana, então só nobres com mana podem fazê-lo. Ninguém que sabe como fazer ferramentas mágicas vive deste lado da parede interna.

— Entendi. Eu estava pensando que poderia tentar fazer algumas eu mesma, se soubesse como, mas acho que isso não está acontecendo. Se apenas nobres poderiam criá-las com sua mana, então as únicas oficinas de ferramentas mágicas na cidade, seriam no Distrito Nobre. Esperava que pudesse fazer as coisas funcionarem com o dinheiro que tinha agora, mas, as coisas não deram certo.

—… Eu não tinha considerado a ideia de fazê-las eu mesma.

—Isso é porque você é filha de uma família rica. Eu sou pobre e tudo o que eu queria, tive que me virar e fazer, então a primeira ideia que veio à mente foi tentar fazê-las eu mesma. — Ri para mim mesma. Limxam, enfeites de cabelo, papel, lápis de fuligem, hashis. Toda vez que eu queria ou precisava de algo, eu tinha que fazê-lo eu mesma, com ajuda ou não.

—Sua família é tão importante para você? Você não tem medo de ser consumida pelo calor e morrer? — murmurou Freida.

—Eu não sei. Quero viver, mas não tenho tanto medo de morrer. — Eu já tinha morrido e lembrei-me disso. Minha vida aqui, como Myne, foi basicamente apenas uma vida bônus dada a mim por um deus caprichoso ou o que seja. Viver aqui era divertido agora, mas morrer não seria grande coisa para mim.

—… Eu não tenho acesso a livros, então não há nada super importante para mim além da minha família e as pessoas ao meu redor. Não escolhi morrer, só escolhi estar com minha família.

—Livros?

—Uhum. Já economizei muito dinheiro, talvez eu possa comprar um, — disse com um sorriso de brincadeira. Freida deu um sorriso conturbado em troca.

—Se você quer livros, por que não ir para o bairro dos nobres? Há muitos livros lá.

—Aaah, talvez eu faria, se o contrato dissesse que eu poderia ler quantos livros eu quiser, mas não acho que, se um nobre me manter como escrava, me deixaria tocar em seus livros caros e raros.

—Isso seria improvável, considerando sua posição social.— Na perspectiva de um comerciante, eu era uma pobre plebeia, em uma cidade com baixa taxa de alfabetização. Mesmo que eu soubesse ler, eles não iriam querer me deixar tocar em seus livros caros e possivelmente insubstituíveis. Era provável que me matassem se eu tocasse neles sem permissão.

E basta dizer que eu me conhecia. Não seria capaz de me conter na presença de livros. Não era difícil imaginar, eu me lançando no primeiro livro que vi e sendo morta em momentos.

—… Meu plano era tentar estabelecer uma linha de produção em massa para livros antes de morrer, mas isso está um pouco além de minha capacidade agora. Eu basicamente desisti. Não tenho tempo suficiente. Então, lá dentro, eu quero ganhar o máximo de dinheiro que puder e deixá-lo para minha família, já que tenho sido um fardo para eles, — disse com uma risada auto escárnio. Os olhos de Freida brilharam com uma luz afiada.

—Nesse caso, devo comprar a receita de bolo de libra de você? — Olhei para Freida, que tinha mudado inteiramente para o modo comerciante, e caiu em pensamento. Bolos de libra eram um doce básico e embora eu não me importasse que ela monopolizasse por um tempo limitado, eu não queria que ela possuísse todos os direitos dele como Benno fez com o Limxam. Isso interferiria seriamente no crescimento da cultura da confeitaria aqui.

—… O que você diria se eu me oferecesse para vender-lhe direitos exclusivos de venda por um ano, a um preço de cinco pequenos ouros?

—Eu aceitaria esse acordo, é claro. — Ela respondeu imediatamente, sem um momento de hesitação.

—… O que quer dizer com “claro? Estou subvendendo-o?

—Bem, sim, eu acredito que você esteja. Assim como o papel vegetal, não há precedentes para o bolo de libra ou nenhum produto similar. Os direitos exclusivos de vendê-lo seriam geralmente na medida de grandes moedas de ouro. Afinal, certamente terei muito mais em lucro.

—Grandes moedas de ouro…? — Parecia que eu estava dando informações ao Benno por muito, muito mais barato do que deveria ter sido.

— E aí? Será que você vai aumentar o seu preço?

— Não, está tudo bem. Só estamos falando de um ano aqui. Cinco ouros pequenos são suficientes para mim. — Apesar de ter a oportunidade de aumentar o preço, balancei a cabeça.

—Então vou preparar o contrato.

—O quê? Você quer dizer um contrato mágico?!— Eu teria que viver com medo de novo, sangrando no jornal e me preocupando com pessoas que eu não conhecia se machucando? Comecei a tremer subconscientemente e Freida soltou um suspiro exasperado.

—… Myne, magia contratual não é usada tão frivolamente. Ela existe como um meio de segurança, para quando você está lidando com aqueles esmagadoramente mais poderosos que você em mana e autoridade. Um contrato padrão sobre pergaminho será suficiente para nós.

—Oh, eu vejo. — Meu primeiro contrato tinha sido mágico, então meu senso de perspectiva estava super fora. Mas se Freida estava certa sobre isso, por que Benno usou um contrato mágico ao lidar comigo? Estranho.

—Na verdade, Myne, onde você aprendeu sobre magia contratual? É muito raramente usado.

—… Benno ficaria bravo comigo se eu te contasse, então é um segredo.

—Oh, eu vejo que você está aprendendo. — Freida riu e estendeu a mão para um sino em uma prateleira próxima. Ela tocou e Jutte entrou na sala quase silenciosamente.

—Por favor, prepare um contrato. — Jutte preparou uma folha de pergaminho e Freida passou uma caneta de penas sobre ela, registrando o conteúdo do contrato. A caneta parecia mais chique que a de madeira que eu tinha comprado, mas até onde eu podia dizer era mais difícil de usar. Escrever contratos era um evento diário para Freida, dado seu trabalho como aprendiz na Guilda dos Comerciantes, e até eu já tinha me acostumado. Após verificar se tudo estava em ordem, nós batemos nossas cartas da guilda.

—Posso perguntar por que você impôs por apenas um ano?

—Um ano será suficiente para todos aprenderem que veio da sua loja, certo? Mas, uma vez que o açúcar se espalhar um pouco mais, quero que os recém-chegados tenham a chance de fazê-lo também.

—Recém-chegados?

—Uma vez que a receita se torne pública, haverá pessoas competindo com sua loja e trabalhando novas receitas e doces. Eu realmente gosto de doces, então meu ideal é ter um monte de gente fazendo e espalhando-os pelo mundo.

—Haaah… Você não seria uma boa comerciante, Myne, pois você não prioriza seu próprio lucro acima de tudo. — Freida e eu assinamos o pergaminho que em breve seria um contrato legal oficialmente reconhecido. Com isso, vendi com sucesso à Freida o direito de monopolizar as vendas de bolos por um ano.

—Mas bem, eu acho que só vai ser divulgado se eu estiver viva em um ano. Você pode fazer o que quiser com ele se eu me for embora até lá.

—Vou priorizar meus lucros, para que você faça bem em sobreviver e divulgá-lo você mesma em um ano. — Freida desviou o olhar, quase chorando.

Fim da leitura

Capítulo 72 concluído

CAPÍTULO 72 - 71