Ascendance of a BookwormCAPÍTULO 85 - 84
Capítulo 85Ascendance of a Bookworm – Capítulo 84
História Extra — Mark — O Mestre e eu
Meu nome é Mark e sirvo o mestre na Companhia Gilberta. Se minha memória não me falha, só recentemente fiz trinta e sete anos. Com o passar dos anos, a idade exata torna-se cada vez mais difícil de lembrar.
Considerando que entrei para a Companhia Gilberta como aprendiz do chefe anterior da loja, trinta anos da minha vida foram gastos no serviço a esse lugar. Benno nasceu no ano em que entrei na loja como um aprendiz de dahua. Na verdade, o tempo voa.
Aprendizes de comerciantes e artesãos, foram divididos em duas grandes categorias: dahua e dapla. Simplificando, dahuas assinam um contrato de trabalho com o proprietário, enquanto daplas assinam um contrato de aprendizagem, prometendo trabalho futuro dentro da loja. Os contratos diferiam muito em conteúdo e pagamento, mas uma explicação detalhada certamente seria um desperdício de seu tempo.
A Companhia Gilberta geralmente contratava crianças de outras lojas como dahuas. Era tradição que crianças comerciantes ganhassem experiência trabalhando em outras lojas. A duração do contrato era determinada pela loja e pelos pais das crianças. Eles geralmente duravam de três a quatro anos. Os contratos tinham muitos objetivos: expandir sua visão de mundo, ajudá-los a entender o que seria esperado deles, removê-los de um ambiente de mimos, construir relacionamentos com outras crianças que passariam a gerenciar as lojas e assim por diante. Os contratos formavam pontes que ligavam as lojas.
Eu era originalmente um desses aprendizes dahua com planos de retornar à loja da minha família após o término do meu contrato. Mas meu pai morreu, e meu irmão mais velho, que herdou a loja, lidou com o negócio de forma tão diferente dele que, após renovar repetidamente meu contrato como um dahua, assinei um contrato dapla após completar quinze anos e atingir a idade adulta.
Os contratos dos daplas duravam oito anos. Em circunstâncias normais, alguém voltaria para casa após um estágio de dahua e assinaria um contato de dapla antes de fazer doze anos. Aos vinte anos, eles receberiam a gestão da loja no lugar do atual chefe.
Eu estava tão atrasado na assinatura do meu contrato, que eu tinha oito anos de treinamento pela frente após atingir a idade adulta. Dito isto, eu já trabalhava como um dahua há oito anos e sabia como fazer meu trabalho na Companhia Gilberta. O chefe da loja, graciosamente, não me tratou como um dahua padrão e modificou nosso contrato, de modo que eu seria pago quase o mesmo que um trabalhador em tempo integral. Graças a isso, não me senti particularmente perturbado durante meus oito anos de treinamento prolongado. Apenas me alegrei com meu melhor salário e passei cada dia me dedicando ao meu trabalho.
No entanto, infelizmente, o chefe da loja morreu antes de eu terminar meu aprendizado. O Mestre Benno acabara de chegar à idade adulta e dificilmente estava em posição de administrar uma loja inteira. A maioria dos dahuas que assinaram com o pai do Mestre Benno, se recusaram a renovar seu contrato com ele.
Eu ainda estava no meu período de treinamento, então solicitei que minha família auxiliasse a Companhia Gilberta, para que eu pudesse continuar trabalhando lá. Meu irmão mais velho, no entanto, não só não enviou ajuda, mas zombou da morte do pai do Mestre Benno e anunciou estar cortando laços com a Companhia Gilberta. Seria difícil descrever a ira que senti naquele dia. Ainda me lembro claramente do momento em que jurei proteger o Mestre Benno e a Companhia Gilberta para irritar minha família.
Quando o meu aprendizado dahua terminou, o mestre perguntou se eu voltaria para casa, mas tendo cortado os laços com a minha família, eu não tinha mais para onde ir e a Companhia Gilberta precisava de mim mais que em qualquer outro lugar. Eu disse que ficaria na Companhia Gilberta. Mestre Benno e eu continuamos a trabalhar em uma enxurrada ininterrupta de noites sem dormir para restaurar a loja à sua antiga glória. Com grande velocidade conseguimos isso e até aumentamos a loja mais que era antes. Certamente, já se passaram anos suficientes desde então, que é seguro dizer que puxei as cordas nos bastidores para desmoronar a loja da minha família e usá-la como um trampolim para o crescimento da Companhia Gilberta.
A filha mais nova do chefe anterior, Corinna, se casou, mas seu filho mais velho, o Mestre Benno, perdeu o interesse no casamento depois que sua noiva Liz morreu. Antes que eu percebesse, eu mesmo havia passado da idade para o casamento também. A vida nunca vai do jeito que você espera.
A loja tinha muito trabalho e o mestre concordou que o filho de Corinna assumiria o controle quando tivesse idade suficiente, então, pode-se dizer que a Companhia Gilberta não estava mais em grande perigo de colapso.
O que nos leva aos dias atuais, onde o Mestre Benno estava ausente, devido a uma reunião com outros grandes donos de lojas. Em tais casos, decisões importantes foram dadas a mim em seu lugar.
—Sr. Mark, recebemos a notícia de que a próxima entrega de Limxam será atrasada.
—Isso é razoável, considerando que a última remessa de leeve estava atrasada. Diga ao capataz para entregar o que eles concluíram e terminar o resto o mais rápido possível.
— Er, Sr. Mark. Uma ordem para a Sra. Corinna chegou do Barão Blon.
—Isso é incomum, já que é verão. Não há tempo a perder. Contate Corinna imediatamente.
Quando passei o tempo um pouco mais ocupado que o normal, o mestre voltou carregando Myne.
—Mark, temos que conversar. Siga-me!
Ele marchou direto para o escritório. Seus olhos estavam brilhando cheios de entusiasmo, enquanto Myne estava mole de exaustão e Lutz estava respirando pesadamente enquanto o perseguia. Era tudo o que eu precisava ver para saber que mais um desafio havia sido colocado à nossa frente.
Reunindo os materiais para operar uma oficina de fabricação de Limxam, protegendo os artesãos, explodindo o mercado, correndo pela cidade para obter as ferramentas e materiais que Myne e Lutz precisavam para fazer papel vegetal, trabalhando para acalmar o conflito com a Guilda do Pergaminho, criando mais uma oficina para papel vegetal… Pensando bem, meu último ano tinha passado fazendo um monte de trabalho irracional. O que seria desta vez?
—Mark, estamos treinando um fabricante de doces! Prepare-se! — Treinando um fabricante de doces? Parecia que isso não tinha nada a ver com o nosso trabalho de antemão. De repente, fiquei com um mau pressentimento. Dado o quão repentino isso foi, Myne estava sem dúvida envolvida.
Observei o mestre com cautela e ele tirou várias tábuas de madeira com olhos brilhantes, verificando várias coisas. Foi bom vê-lo motivado, mas sua motivação aqui provavelmente daria muito mais trabalho àqueles ao seu redor.
—Você diz um fabricante de doces, mas o que exatamente você pretende que eles façam?
—Pergunte a Myne.
Aaah… Claro, Myne. Parece que ela fez de novo.
A Companhia Gilberta foi inicialmente uma oficina de vestuário e decoração, fundada pela bisavó do mestre, dona Gilberta. Historicamente, as esposas da família faziam roupas, enquanto os maridos as vendiam. Embora a loja estivesse registrada sob o nome de seus maridos, as mulheres administravam a loja na realidade.
A Companhia Gilberta inicialmente vendeu roupas para plebeus mais ricos, mas desde que nobres inferiores começaram a notar roupas projetadas pela mãe do mestre, tornou-se cada vez mais focada em vender para a nobreza. Foi há cerca de dez anos que essa mudança aconteceu pela primeira vez. Os talentos de Corinna foram igualmente favorecidos entre a nobreza, o que garantiu a segurança da Companhia Gilberta. Para resumir, a Companhia Gilberta era uma loja de roupas e decoração, que também se envolvia em produtos de beleza.
O Limxam de Myne, era um produto de beleza de alta qualidade e seus enfeites de cabelo (agora sendo feitos na oficina de Corinna), já eram bastante populares em toda a cidade. Com fios de maior qualidade e designs mais refinados, eles seriam até mesmo possíveis de vender para esposas e filhas nobres, o que fez Corinna muito feliz.
No entanto, o papel vegetal que Myne trouxe, não era exatamente o tipo de mercadoria com que a Companhia Gilberta lidava, nem doces.
—De novo isso? Você precisa de açúcar para fazer meus doces! Quantas vezes eu já disse isso até agora?!
—Você não precisa de açúcar para assar o pão. Eles têm que praticar usando um forno primeiro, não?
—Mas já existem padarias por toda a cidade e até mesmo uma Guilda dos Padeiros! Você vai entrar em conflito com pessoas que tem interesses adquiridos novamente! Só para praticar! Aposto que você vai tentar roubar um padeiro da Guilda dos Padeiros, não é?!
—Você nunca vai começar um novo negócio se tiver medo das pessoas com interesses adquiridos!
A discussão acalorada de Myne e Mestre Benno, com Myne em pé em sua cadeira para ficar de olho nele, me lembrou das discussões do mestre com a Liz. Dizem que quanto mais duas pessoas lutam, mais se aproximam. Talvez esse argumento mostrasse o quanto eles haviam crescido ao confiar um no outro.
Às vezes, parecia que o mestre parecia mais vivo quando estava discutindo furiosamente com Myne sobre negócios. Não pude deixar de me perguntar se discutir em igualdade de condições com Myne, inteligente em falar como ela era, era tão bom para ele quanto discutir com Liz. Embora com Liz, ele nunca tivesse sido capaz de ganhar uma única discussão.
—Lutz, você poderia me explicar a situação enquanto esses dois estão ocupados? O que obrigou o mestre a treinar um fabricante de doces? — Perguntei, trazendo Lutz de volta à realidade. Ele endireitou as costas e começou a explicar.
Lutz estava tão acostumado a ser arrastado de todas as formas por Myne, que foi rápido em mudar de marcha quando necessário. Ele era um aprendiz rápido e complacente quando se tratava de quase tudo, o que, combinado com sua natureza séria e determinada, o tornava um aprendiz bastante valioso. Ele tinha uma boa cabeça em seus ombros e, em momentos como este, ele poderia explicar concisamente o que havia acontecido em ordem.
De acordo com sua explicação, houve um evento de teste de sabor após a reunião na Guilda dos Comerciantes e lá, ele teve um confronto com a chef do mestre da guilda. O mestre acabara declarando com raiva que apenas treinaria um chef para fazer doces para ele. Seria impossível pedir-lhe para desistir, dado o quanto ele odiava perder.
—A julgar pelo que Myne disse, para fazer seus doces, precisaremos de um forno à nossa disposição e de um chef habilidoso e apaixonado, que trabalhe duro para melhorar as receitas através da experimentação. O Mestre Benno já está pensando em contratar um padeiro acostumado a usar fornos, mas isso não vai dar certo, a menos que o padeiro esteja interessado em fazer outras coisas além de pão e tenha a paixão necessária para experimentar, — explicou Lutz, o que me levou a finalmente entender o cerne do argumento de Myne e do Mestre Benno.
— E o mestre disse que os nobres comprariam esses doces?
— Sim. Mas…
— Sem mas, Lutz. Agora que o mestre está investindo, não temos escolha a não ser seguir com isso.
Embora minha avaliação tenha sido um pouco influenciada pelo favoritismo, considerei que o mestre tinha um senso desumano para os negócios. Toda vez que ele determinava que um produto seria vendido e se jogava para fazer isso acontecer, ele estava certo e ganhava lucros imensos. Bati palmas para chamar a atenção de Myne e Benno.
— Mestre Benno, você diz que vai treinar um fabricante de doces, mas por quanto tempo você pretende treiná-lo? Isso será lucrativo?
—Sim, será lucrativo. Pretendo pegar um padeiro e ensiná-lo, então não vai demorar muito para ele aprender. — Mestre Benno assentiu. Seus olhos estavam cheios de confiança e sua expressão deixou claro que ele nem estava considerando que poderia falhar.
—Ouvi dizer que os doces vão precisar de açúcar. Você tem um plano para adquirir açúcar?
—Devo conseguir se falar com meus parentes, embora ultimamente esteja me mantendo distante deles. Tenho certeza que o tio Emile tem algumas conexões com a Monarquia, certo? Também estou conversando com um amigo de infância de Otto que ainda é um comerciante viajante. Vou mandar o chef assar pão por enquanto, para se acostumar com o forno.
— Entendo. Então o açúcar não está totalmente fora do nosso alcance. — Ele não se jogou nisso sem nenhuma esperança de sucesso. Desde que Myne mencionou doces pela primeira vez, ele estava pesquisando maneiras de conseguir açúcar. Comprar um forno de uma oficina e instalá-lo seria complicado e frustrante, mas não seria um grande desafio. O maior problema diante de nós, eram as inevitáveis negociações e conflitos com aqueles que tinham interesses estabelecidos. Não havia dúvida de que o mestre da guilda voltaria a reclamar.
Pensei no conflito que estourou com a Guilda dos Pergaminhos e senti vontade de me sentar. Conflitos contínuos sobre papel e doces não relacionados ao nosso negócio principal, simplesmente não seriam bons para nós.
—Myne, você tem alguma sugestão para reduzir o atrito com a Guilda dos Padeiros, como você fez com a Guilda dos Pergaminhos?
—Eu?! Você quer que eu tenha uma ideia?! — Mestre Benno estava tão focado em permanecer na ofensiva e não ceder um centímetro, que Myne seria uma escolha melhor para o trabalho, já que ela tendia a não gostar de conflitos e sempre procurava maneiras de evitá-los. Mais importante ainda, os doces estavam fora da minha área de especialização e eu não tinha ideia de por onde começar essas negociações.
—Você é quem está mais familiarizada com doces que qualquer um aqui, Myne. Você seria melhor que Mestre Benno em fazer acordos, então, se tiver uma sugestão que trará lucro para ambas as partes, por favor, não hesite em dizê-la. — Eu sabia que estava fazendo um pedido irracional a uma menininha que acabara de ser batizada, mas, assim como Mestre Benno, eu não considerava Myne uma criança normal.
—Bwuuuh?! Ummm, um compromisso? Isso é meio difícil na verdade, hum…
—…Talvez sugerindo que nosso pão será um pão diferente? Ou que usaremos o forno para outra coisa além de pão?
Myne caiu em pensamentos e tentei transformar os acordos sobre usos de papel de Myne em seus equivalentes com pão. Nada realmente me veio à mente, mas talvez eles ajudassem Myne a pensar em alguma coisa, considerando como ela vinha com uma ideia estranha atrás da outra o tempo todo. Meu palpite deve ter sido certo, quando Myne se virou, com seu cabelo azul-escuro balançando e seus olhos dourados brilhando, antes de levantar a mão esquerda no ar.
—Tive uma ideia! Quero comer comida (italiana)! — Ela disse uma palavra que eu não entendi. Lutz e Mestre Benno também não pareceram reconhecer, mas Myne continuou falando mesmo assim.
—Você quer praticar o uso do forno para alimentos que não levam açúcar, certo? (Pizza), (gratinado) e (lasanha) todos se encaixam nessa conta. Ah, certo, certo. Provavelmente podemos fazer (quiches) e (tortas) também, para não mencionar apenas cozinhar carne no forno. Uau, agora estou animada! — Myne estava animadamente listando nome após nome, o que era legal, mas considerando que ela mencionou cozinhar carne no forno, ela provavelmente não estava listando doces. Lutz, vendo os olhos brilhantes de Myne e a expressão feliz de quase babar, gemeu ao meu lado e segurou a cabeça entre as mãos.
—É tarde demais. Myne começou a enlouquecer. Ela tem um objetivo em mente e agora vai correr em direção a ele… Mestre Benno está acabado. — A completa falta de esperança na voz de Lutz, deixou claro quanto sofrimento os ataques de Myne o fizeram passar. Parecia que Myne e Benno eram ainda mais parecidos do que eu pensava. Ambos correriam em direção aos seus objetivos após se decidir. Nenhum deles estava preocupado com o trabalho que eles faziam àqueles ao seu redor.
—Sr. Benno, você deveria desistir dos doces e fazer um restaurante. Tipo, um restaurante chique para vender comida chique.
—Ei, espere! Você não é quem decide as coisas aqui!
—Vai ficar tudo bem. Você pode usar o açúcar para fazer doces para a sobremesa. Vamos nos acalmar e fazer um restaurante (italiano).
—O que há de bom nisso?!— Assim como Lutz temia, Mestre Benno estava perdendo o controle da situação. Senti que Lutz sendo arrastado por Myne se assemelhava a mim, sendo arrastado por Mestre Benno e internamente enxuguei as lágrimas do meu coração.
—Lutz, por favor, seja forte. Não deixe ela simplesmente te arrastar. Finja que ela está em fúria e prepare-se de acordo, para que você mantenha algum controle da situação. Fazer isso diminuirá o fardo em seu coração.
—Sr. Mark?
—Existe um talento especial para ser arrastado adequadamente. — Lutz me olhou, com seus olhos verdes brilhando de respeito. Sua sinceridade me fez jurar algo. Vou criar Lutz de forma que ele sobreviva, não importa o quanto esses dois o arrastem.
Myne continuou a falar, enquanto Lutz e eu compartilhávamos nosso sofrimento mútuo. Ela estava listando as várias razões pelas quais um restaurante seria superior a uma loja de doces, uma após a outra.
—Quero dizer, você não cobrirá mais áreas demográficas se vender comida e doces? Sem contar que isso tornará a prática do forno mais proveitosa e o chef mais motivado. Você também pode fazer com que os clientes comam comida experimentalmente e ouçam seus pensamentos, antes de apresentar novas receitas aos nobres.
Enquanto eu estava ali, impressionado com seu uso habilidoso de linguagem persuasiva, Lutz olhou para mim com as sobrancelhas franzidas.
—Sabe… Quando Myne se apaixona pelas coisas e começa a reclamar, de alguma forma, eu sempre começo a pensar que ela está certa.
—Uma habilidade importante para os comerciantes aprenderem é fazer com que seus clientes queiram comprar seus produtos.
Assenti e Lutz deu de ombros com uma risada.
—… Pena que Myne só use seu talento para conseguir as coisas que ela quer.
—Observe com atenção e aprenda como fazer com que a pessoa com a qual se fala concorde com você. Exemplos a seguir na vida estão ao seu redor, se você olhar. — Muitos desejavam ter a habilidade de persuadir os outros a concordar com eles, mas como tínhamos uma loja para administrar, não podíamos nos deixar levar pelos desejos de Myne.
—Mais importante, Lutz. Como está Myne agora? Acho que ela pode estar ficando muito animada.
—Gaaah! Myne! Acalme-se um pouco! — No momento em que Lutz chamou Myne, ela estava no processo de pôr as cartas na mesa. Como esperado, ela ficou muito animada. Mas ela ainda estava tentando falar com o rosto pressionado contra a mesa, suas palavras terminando abafadas enquanto ela tentava perseverar.
—Há um mundo de diferença entre a comida que os ricos comem e a comida que os nobres comem. Muitas pessoas definitivamente virão comer se você tiver comida tão boa quanto a que a nobreza come, mesmo que seja um pouco cara.
—Um mundo de diferença? Realmente? Quando você já comeu comida no… Certo, o mestre da guilda.
—Veja, Sr. Benno, você também está interessado. A comida é realmente incomparável. Mas não se preocupe, você ainda tem esperança. Não contei nada a Leise sobre cozinhar esse tipo de coisa. Ehehe. — Myne deu uma risadinha vitoriosa e eu sabia que um grande golpe havia sido dado ao Mestre Benno, mas não podia deixá-lo concordar com sua sugestão apenas por inércia. Precisávamos nos acalmar e ouvir a sugestão de Myne depois que ela pudesse dar detalhes mais concretos. Era uma lei universal que algo com vantagens trazia consigo algum tipo de falha.
—Como Myne vem dizendo, acredito que devemos pensar cuidadosamente se vale ou não a pena treinar um confeiteiro. Obrigado pela sua sugestão maravilhosa, Myne. O que faríamos sem você? Nesse sentido, acho que seria melhor você voltar para casa e se recompor. Você parece estar exausta.
—Awww, Sr. Mark, você é tão legal. Obrigada. — Ordenei a Lutz que levasse Myne para casa e assim tirei os dois da loja.
Após ver as crianças saindo, voltei para o escritório e encontrei Mestre Benno com o rosto plantado contra sua mesa como Myne estava. Ele olhou para mim, mas não levantou a cabeça.
—Caramba. Myne nunca para de me surpreender.
—Não esperava que seu plano de evitar conflitos com a Guilda dos Padeiros mudasse nessa direção.
Benno sentou-se lentamente na cadeira, enquanto coçava a cabeça. Ele olhou para mim, seus olhos vermelho-escuros brilhando intensamente.
—… O que você acha, Mark?
—Acredito que um restaurante será muito mais simples que o seu plano de doces. Um restaurante não causará atrito com a Guilda dos Padeiros, por exemplo. Em seu lugar, precisaremos pensar em como abordar a Guilda dos Restaurantes, mas estabelecer um restaurante não deve ser difícil se seguirmos os procedimentos adequados. — Myne sugeriu que construíssemos um restaurante de alta classe. Não usaríamos nosso status de loja grande para atrapalhar restaurantes mais baratos, então era improvável que a Guilda dos Restaurantes rejeitasse nossa inscrição.
—Um restaurante não é uma má ideia. Geralmente são pessoas ricas que contratam chefs, mas a maioria dos chefs são plebeus. Ter mais dinheiro à sua disposição, significa apenas que eles farão mais comida, não comida diferente. Os nobres contratam os melhores dos melhores e ensinam-lhes receitas compartilhadas apenas entre a nobreza, para que sua comida seja mais variada e com sabor diferente. Se prestarmos atenção especial aos nossos ingredientes e sabores, não há dúvida de que conseguiremos clientes, mesmo que os preços dos pratos sejam um pouco altos.
Nunca comi comida preparada para um nobre antes, então eu não tinha certeza, mas Mestre Benno tinha sido convidado para jantar em propriedades nobres um punhado de vezes. Se ele disse haver uma grande diferença entre a comida dos ricos e a comida da nobreza, é quase certo que ele estava certo.
—Mas por que Myne sabe de tudo isso? Ela só passou alguns dias na casa do mestre da guilda. Por que ela conhece tantos tipos diferentes de receitas? Como ela sabe tantas receitas que precisam de um forno?
—Porque ela é a Myne. — Respondi à pergunta do Mestre Benno com um suspiro. Ele não parecia satisfeito, mas essa era a única resposta.
—Mark, você sabe…
—Pensar nisso será apenas uma perda de tempo. Não importa quem Myne realmente é, se pudermos usar seu conhecimento para obter lucro. Você mesmo disse isso quando ela nos trouxe o Limxam. Repensar essa estratégia não mudará a situação em que estamos. Seria muito mais construtivo planejar maneiras de impedir que Myne vazasse informações valiosas em outro lugar. — eu disse com um encolher de ombros. Mestre Benno desviou o olhar sem jeito, depois bateu palmas para mudar de assunto.
—Sim, isso me lembra. Estou pensando em adotar o Lutz. O que acha?
—O fato de você ter começado recentemente a dizer o que vem à mente sem pensar, me faz acreditar que Myne está influenciando você de uma maneira negativa.
—Huh?! Até parece! Não me confunda com aquela idiota! — Mestre Benno ficou muito furioso, mas o que poderia ser a adoção de Lutz, senão uma sugestão impensada? Se ele adotasse uma criança em sua posição, terceiros considerariam essa criança como seu sucessor. Ele estaria começando uma guerra de herança com o filho de Corinna, antes mesmo que a criança nascesse.
—Nesse caso, posso perguntar qual linha de pensamento, cuidadosamente considerada, levou você a concluir que seria sensato criar um conflito desnecessário com Corinna? — Mestre Benno suspirou e reclamou do meu tom azedo, mas, mesmo assim, começou a explicar seu raciocínio.
—Em primeiro lugar, precisamos garantir Lutz do nosso lado para não perdermos nossa conexão com Myne. Você sabe o que quero dizer, certo?
Entendi ser importante manter a Lutz do nosso lado, pois havia um contrato mágico que obrigava os produtos criados no Ateliê da Myne a serem vendidos através de Lutz. Também sabia que, como Lutz era aprendiz de dahua, Benno queria impedi-lo de sair da loja após o término do contrato.
—Pensei em torná-lo um dapla, mas, se vou confiar uma loja a ele, posso adotá-lo e me colocar em uma posição em que minha opinião tenha muito peso para ele.
—Um dapla não será suficiente para isso? Na verdade, se o filho de Corinna for uma menina, não poderíamos simplesmente casá-los? Haveria menos oposição do nosso entorno se o treinássemos como um dapla e ele se casasse na loja, em comparação com apenas criá-lo como filho adotivo. — Mas Mestre Benno apenas deu de ombros enquanto acenava com a mão.
—Isso não vai funcionar com Lutz. Ele só tem olhos para Myne. Além disso, seu verdadeiro sonho é ser um comerciante viajante. Ele está esperando uma oportunidade para deixar a cidade. Estou pensando que vai ser muito difícil mantê-lo preso apenas a esta loja.
—…Um mercador viajante? Deuses. — Esse foi um sonho bastante surpreendente para um nascido e criado em uma cidade. Mestre Benno deu de ombros e sorriu.
—Estou pensando que tudo vem de sua vida doméstica insuportável, mas de qualquer forma, uma vez que Myne não o acorrentar mais aqui, Lutz não terá nenhum motivo para ficar conosco. Não demorará muito para que Myne seja levada por um nobre. Pode ser um nobre desta cidade, pode ser um nobre de outra cidade, pode até ser um nobre enviado do Monarca. Não há como dizer qual será, mas é muito provável que Myne estará deixando esta cidade.
No momento, Lutz era aprendiz sob a proteção de Benno. Ele não tinha habilidades ou conhecimento de negócios. Mas, uma vez que chegasse à idade adulta e tivesse a sabedoria de um mercador, perceberia seu próprio valor. Se naquele momento, Myne deixasse a cidade e tornado seu contrato mágico discutível, seria muito provável que ele partiria para viajar para lojas em outras cidades.
—Quando Myne deixar esta cidade, quero que Lutz esteja lá, pronto para ir com ela.
—Por que você iria tão longe por eles? — Estreitei os olhos ligeiramente e Mestre Benno deu uma risada conflitante.
—Corinna é a verdadeira sucessora da Companhia Gilberta, estou apenas no lugar dela por enquanto. Myne continua falando sobre como ela quer fazer livros, mas nossa loja não é sobre fazer livros. Levará algum tempo para montar, mas quero deixar esta loja para Corinna e Otto, para que eu possa abrir minha própria loja. —
A Companhia Gilberta era administrada pelo lado feminino da família, então, em um futuro em que Corinna e Otto administrassem eles mesmos, Benno abrir sua própria loja fazia sentido. Mas ainda assim, não consegui conectar isso à sua atitude em relação a Lutz. Olhei para ele em confusão, e depois de um suspiro, ele murmurou que não podia esconder nada de mim com um sorriso nostálgico no rosto.
—Myne e Lutz me lembram como minha vida costumava ser. Quando papai ainda estava vivo, e eu era livre para viver como quisesse… Quando eu estava com Liz.
Myne e Lutz correndo, de fato, me lembravam Mestre Benno e Liz se divertindo. Para que eu pudesse simpatizar com seus sentimentos, fechei os olhos e lembrei de como eu os tinha visto escondidos atrás da loja, agindo como adultos e inventando pequenas tramas.
—Eles me lembraram muito. Até o sonho que esqueci depois que tive que dedicar tudo que tinha para proteger a loja e minha família, após a morte de meu pai.
—Você queria ser o tipo de comerciante que exerce influência sobre o mundo inteiro, não é? — Eu disse, fazendo com que Mestre Benno arregalasse os olhos e ficasse tão nervoso, que foi divertido.
—P-Por que você se lembra disso?!
—Lembro-me de tudo sobre você. — Eu não gostaria de ser subestimado. Eu conhecia Mestre Benno desde seu nascimento.
Ergui a cabeça com orgulho e Mestre Benno gemeu, segurando sua cabeça. Era difícil lidar com pessoas que conheciam detalhes de sua juventude. Compreensível.
Mestre Benno finalmente escapou de seu constrangimento após gemer por algum tempo. Ele tossiu uma vez.
—Se eu continuar tornando realidade os produtos na cabeça de Myne, você não acha que meu sonho se tornará realidade? Tenho certeza que sim.
—A escala aqui é bem grande, mas se você realmente transformar tudo o que Myne diz em realidade, sem dúvida, terá imensa influência sobre o mundo.
—Estou pensando em começar indo para a cidade em que meus irmãos moram e fazer uma oficina de papel vegetal lá também, para poder começar a espalhar papel vegetal. Mark. O que você vai fazer?
Mestre Benno olhou para mim, os dedos entrelaçados e as costas encostadas na cadeira. A visão dele, esperando tão seriamente por uma resposta, quase me fez rir alto. Ele havia adotado a mesma postura e me olhou com a mesma expressão, quando me perguntou se eu deixaria a loja depois que meu estágio de aprendiz terminasse, após a morte de seu pai.
—Acredito que Theo trabalhará melhor com Otto do que eu. Ficarei com você, Mestre Benno. Você precisa de alguém para treinar Lutz, não?
Benno suspirou de alívio, o que me fez sorrir com nostalgia. Ele havia abandonado seu sonho de proteger sua família e sua loja, mas agora Myne o estava empurrando para crescer a Guilda de Papel Vegetal e se aventurar no mundo com um novo negócio. Ela certamente era sua Deusa da Água, assim como Otto havia dito.
Graças a isso, eu também me lembrei do meu próprio sonho. Se Myne é a Deusa da Água de Benno, então eu gostaria de ser seu Deus do Fogo, auxiliando seu crescimento lateralmente.
Comentários do capítulo 85
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.