Crônicas das Terras dos PortaisMininovel – Vida Corrompida – Parte 7 - Cinzas na Estrada
Capítulo 7ANO 1383
O homem continuava caído perto da mesa quando o caçador da besta voltou para dentro da casa.
Lama cobria as botas dele até a canela. Sem dizer nada, apoiou a arma perto da porta e puxou uma garrafa da cintura antes de beber um gole longo.
No corredor, a cama ainda batia contra a parede em intervalos irregulares, misturada ao choro abafado da mulher.
O pai tentou erguer a cabeça.
— Por favor...
O homem da besta limpou a boca com as costas da mão.
— Ainda tá falando?
Outro caçador surgiu no corredor ajustando o cinto da calça enquanto fechava a porta do quarto atrás de si. O choro continuava vindo lá de dentro, mais fraco agora.
— Tua vez — disse ele, passando com um sorriso cansado. — Ela quase desmaiou.
O outro soltou uma risada curta enquanto pegava a besta de novo.
— Melhor assim. Reclama menos.
A porta tornou a abrir logo depois.
Outro homem entrou no quarto.
O pai fechou os olhos por um instante, mas um novo grito atravessou a casa antes que ele conseguisse respirar direito. Os dedos arrastaram fraco pelo assoalho ensanguentado, sem força suficiente para puxar o próprio corpo.
Passos pesados surgiram do lado de fora.
Um dos homens entrou pela porta dos fundos carregando alguma coisa enrolada num pano escuro. Sangue escorria lento pela ponta do tecido até pingar no chão da cozinha.
O cheiro veio antes da fala.
Ferro.
Carne fresca.
O embrulho foi largado sobre a mesa com cuidado estranho demais.
— Tá curioso, velho? Eu te mostro a pele da tua filha.
O pano abriu um pouco.
Fios longos de cabelo metálico escorreram pela madeira junto de um pedaço fino de couro ensanguentado.
O pai parou completamente.
— Não...
O caçador limpou as mãos numa toalha velha sem parar de olhar pra mesa.
— Demorei porque o comprador queria marca limpa.
O líder apareceu logo atrás dele, observou o couro por alguns segundos e assentiu de leve.
— Melhor assim. As dos descendentes dos féericos paga mais quando a peça vem inteira.
O homem no chão soltou um som quebrado, preso entre choro e falta de ar.
O líder virou o rosto na direção do corredor.
— Termina isso logo. Depois põe fogo no resto.
A porta tornou a abrir.
O homem da besta saiu ajeitando as mangas da roupa enquanto outro entrava no quarto sem trocar palavra nenhuma.
O pai tentou se arrastar outra vez.
O líder tomou a besta das mãos do homem e caminhou devagar até parar diante dele.
O disparo atravessou o rosto do homem antes que ele conseguisse falar.
O corpo caiu pesado contra o assoalho.
Então veio outro grito do quarto.
Curto.
E interrompido no meio.
O portal abriu entre as árvores com um brilho torto e instável.
A luz azulada tremeluziu por alguns segundos antes do homem atravessar primeiro a cesta de roupa, depois o próprio corpo. O rasgo no ar afundou atrás dele logo em seguida, desaparecendo como água drenada por um buraco invisível.
Ele ficou parado por um instante, esperando a tontura leve da travessia passar.
Depois ajustou a cesta contra o quadril e soltou o ombro numa rotação curta.
— Ainda aberto... sorte minha.
O vento atravessava as copas acima dele enquanto o som de água corrente ecoava mais abaixo entre as árvores.
As roupas simples se misturavam fácil com a mata: túnica escura de tecido grosso, botas limpas e uma cesta cheia de lençóis e outras roupas de diferentes tamanhos.
A descida levou algum tempo.
Raízes grossas cortavam o chão úmido da floresta, obrigando os passos a desacelerarem em certos trechos. O cheiro de terra molhada aumentava conforme a mata fechava ao redor dele.
Então parou.
Perto de um tronco rachado, marcas profundas afundavam na lama escura.
O homem se abaixou devagar.
Os dedos passaram pela borda úmida da pegada.
— Grande demais pra lobo...
Os olhos correram entre as árvores próximas enquanto o vento mexia os galhos altos da floresta, até encontrarem a fumaça além das copas.
Escura e densa, ela subia acima da floresta, grossa demais para ser uma fogueira comum.
Ele ficou olhando aquilo por alguns segundos.
— Ah, ótimo...
A mão subiu até a nuca num gesto cansado.
— Esse lugar sempre foi infestado de goblinóides... — murmurou. — Agora fumaça no meio do nada?
O pequeno veio d’agua corria poucos passos adiante.
Mas a fumaça distante mantinha os olhos dele erguidos entre as árvores.
As chamas já alcançavam o telhado inteiro quando os homens começaram a deixar a propriedade.
A fumaça subia pesada acima das árvores enquanto brasas atravessavam o vento quente do incêndio. Parte do celeiro desabou atrás da casa num estrondo seco, espalhando faíscas pela lama do quintal.
Um dos caçadores ajustou o pano escuro preso às costas antes de cuspir no chão.
— Vai feder queimado por quilômetros.
O homem da besta puxou a arma para o ombro sem responder. Os olhos passaram uma última vez pela casa sendo consumida pelo fogo enquanto outro estalo ecoava lá dentro.
Mais à frente, o líder parou perto da trilha estreita entre as árvores e observou a fumaça subindo contra o céu cinza.
Então fez um gesto curto com a cabeça.
— Vamos.
Os outros seguiram atrás dele sem dizer mais nada.
Pouco depois, só o incêndio permaneceu iluminando a floresta.
A carroça diminuiu o ritmo ainda no meio da tarde.
As rodas passaram a afundar mais devagar na lama estreita da estrada enquanto o olhar do mercador corria entre as árvores dos dois lados do caminho. O cavalo puxava a carroça com a cabeça baixa, soltando ar quente pelas ventas enquanto os cascos escorregavam entre pedras escondidas sob a terra úmida.
Drunnen permanecia espremida no canto da carroça, os joelhos junto ao peito e o cobertor queimado apertado entre os braços.
O mercador ergueu o queixo na direção de uma árvore grossa marcada com dois cortes recentes no tronco.
— Aqui serve.
As rédeas puxaram devagar.
O cavalo parou perto da margem da estrada.
O homem desceu primeiro.
— Vamos esperar um pouco antes de seguir.
Drunnen continuou imóvel.
O mercador começou a juntar galhos secos perto da estrada antes de virar o rosto na direção dela.
— Anda. Lenha.
Ela não respondeu.
— Vai ficar parada aí?
Os olhos da garota subiram devagar.
O homem apontou para a mata com o queixo.
— Quero fogo alto antes de escurecer.
Ela seguiu mata adentro sem dizer nada.
Galhos úmidos estalavam sob os pés enquanto os braços voltavam carregados de gravetos e pedaços de madeira seca arrancados do mato. O mercador tomava tudo das mãos dela sem agradecer, empilhando a lenha perto da estrada.
Mais uma viagem.
Depois outra.
A pilha de lenha cresceu até o fogo finalmente pegar. As chamas começaram baixas, mas cresceram rápido demais, e logo a fumaça engrossava acima das árvores numa coluna escura.
Drunnen permaneceu perto da carroça enquanto o homem mexia a fogueira com um galho comprido.
— Não vai longe — disse ele sem olhar pra trás. — Tem coisa pior que goblinóide nessa mata.
As chamas estalaram alto.
O mercador caminhou até a traseira da carroça e começou a puxar uma caixa para perto do fogo.
A lona balançou aberta num dos cantos.
Drunnen ficou olhando.
O vento mexeu o tecido outra vez.
Uma ponta escura apareceu entre as caixas.
Ela deu um passo curto.
Depois outro.
Os dedos puxaram a abertura só o suficiente para espiar lá dentro.
E o cheiro fez o ar prender no peito.
Sangue seco escurecia o fundo de uma das peças dobradas. Fios longos de cabelo metálico apareciam presos entre dobras de pele fina enroladas perto de uma caixa de madeira.
Mais abaixo, uma pequena orelha estreita e pontuda continuava costurada numa faixa ressecada.
A lona escapou dos dedos dela.
Drunnen caiu sentada na lama ao recuar.
O mercador virou o rosto imediatamente.
— Que foi isso?
Os passos vieram rápidos pela lama.
— Quem te mandou mexer aí?
A mão agarrou os cabelos dela antes que conseguisse correr.
Drunnen soltou um som curto quando o corpo foi puxado para trás.
— Fica quieta.
Os dedos apertaram ainda mais.
— Sua criança maldita. Deviam ter arrancado tua pele junto com a da tua mãe.
Drunnen tentava arrancar o braço dele dos próprios cabelos enquanto os pés escorregavam na lama molhada.
O mercador puxou ela para mais perto.
— Agora os outros já tão vindo.
A fogueira estalou atrás deles.
— Quando chegarem, vão arrancar tua pele também.
Drunnen puxou o ar de forma quebrada.
Foi então que o fogo diminuiu.
As sombras ao redor da carroça engrossaram de repente.
Escuras.
Líquidas.
Subindo pelo chão como fumaça viva.
A escuridão engoliu o mercador inteiro num círculo negro que apagou fogo, árvores e céu ao redor dele.
O cavalo relinchou em pânico.
— Que diabos é isso?
A mão soltou os cabelos dela imediatamente.
Drunnen correu.
Galhos bateram contra o rosto enquanto ela atravessava raízes e troncos tortos. Lama espirrava nas pernas a cada passo, e a respiração saía quebrada entre soluços curtos.
— Maelin...
Ela tropeçou numa raiz escondida, caiu de joelhos na lama e voltou a correr logo em seguida.
Os braços protegiam a cabeça enquanto galhos riscavam a pele do rosto. Só diminuiu quando as pernas falharam perto de uma encosta coberta de pedras úmidas.
Então viu a fumaça subindo acima das árvores.
Grossa. Escura.
Drunnen ficou imóvel por um instante antes de começar a correr naquela direção.
— Bem, os lençóis já foram. Agora só faltam as túnicas.
A água deslizava fria entre as pedras do riacho enquanto o homem esfregava uma das roupas contra o fluxo raso. A cesta permanecia apoiada perto da margem, parcialmente coberta por um pano grosso para não afundar no barro úmido da beira d’água.
O vento atravessava devagar as árvores altas quando a mão dele parou no meio do movimento.
Por um instante, ficou imóvel.
Só a água continuou escorrendo entre os dedos.
Os olhos subiram devagar na direção da mata fechada atrás do córrego.
Galhos se moveram entre as sombras.
— Passos...
A roupa molhada permaneceu torcida entre as mãos enquanto ele escutava.
Então alguém surgiu da mata.
Um rapaz.
Mais baixo do que ele por uma cabeça, com lama até os joelhos e fuligem escurecendo parte da manga. O cabo de uma espada curta e curva aparecia atravessada à cintura enquanto descia a encosta do córrego sem tirar os olhos do homem perto da água.
Parou ainda a alguns passos de distância.
— Melhor tomar cuidado por aqui — disse ele. A voz parecia cansada, mas firme. — Passei por uma casa pegando fogo não muito longe.
O homem continuou ajoelhado perto da correnteza.
A água escorria lenta da roupa torcida entre os dedos.
— Goblinóides?
O rapaz balançou a cabeça uma vez.
— Não parecia coisa deles.
O vento mexeu as folhas acima do córrego.
— Tinha corpos — continuou o jovem. — Família inteira.
O pano parou de girar entre os dedos do homem por um instante curto.
— Ah, é?
O rapaz manteve os olhos nele.
— E uma criança... parecia ter sido esfolada.
O silêncio pesou entre os dois junto do som da água correndo entre as pedras.
O homem ergueu os olhos pela primeira vez diretamente para ele.
O rapaz mantinha a mão próxima do cabo da espada num gesto quase involuntário.
— Goblins matam por fome — continuou o jovem. — Aquilo parecia outra coisa.
O homem soltou um pequeno som pelo nariz.
Quase um acordo.
— Então talvez seja melhor você não ficar sozinho nessa floresta — disse o rapaz.
— Você também devia tomar cuidado.
O jovem assentiu uma vez.
Já começava a virar de volta para a mata quando olhou outra vez para o homem perto do córrego.
— Acho que já te vi em algum lugar. Você não era de Jillar?
A resposta veio curta.
— Não. Deve ter sido engano.
O rapaz ainda sustentou os olhos nele por mais um instante antes de desaparecer entre os troncos molhados da floresta.
O silêncio voltou ao córrego.
Só a água continuava correndo tranquila entre as pedras.
O homem permaneceu imóvel por alguns segundos olhando a direção por onde o rapaz tinha sumido.
Depois ergueu devagar os olhos para além das copas da floresta.
A fumaça ainda subia escura no horizonte.
— Arrancando peles de crianças...
A roupa molhada foi torcida uma última vez antes de cair dentro da cesta.
Então ele se levantou.
Drunnen corria sem direção entre as árvores.
Galhos batiam contra os braços e prendiam no cobertor queimado apertado junto ao peito enquanto os pés afundavam na lama da floresta. A respiração saía quebrada entre um passo e outro.
Atrás dela, a voz do mercador atravessava o mato.
— Volta aqui!
Mais distante agora.
Mas ainda perto demais.
Drunnen tropeçou numa raiz escondida e quase caiu de joelhos antes de conseguir se apoiar num tronco úmido. O cabelo grudava no rosto, e os dedos tremiam tanto que ela mal conseguia afastar os galhos baixos do caminho.
Então ouviu outra vez:
— Vai se arrepender de ter nascido daquela porca quando eu te pegar, diabinha dos infernos!
Ela correu mais rápido.
O som dos próprios passos se misturava às folhas esmagadas e à respiração descontrolada enquanto a floresta começava a clarear adiante. O cheiro de fumaça aumentava a cada metro.
O calor aumentava a cada passo.
Um brilho alaranjado atravessava as árvores adiante.
Alguma coisa queimava além da mata.
Drunnen atravessou os últimos arbustos quase escorregando na descida curta da encosta.
Então saiu da floresta.
Os pés pararam imediatamente na lama da clareira.
O fogo iluminava o céu inteiro.
A casa destruída aparecia mais abaixo entre fumaça e madeira negra ainda queimando. O celeiro desabado espalhava brasas pelo terreno enquanto uma coluna escura subia pesada contra o fim da tarde.
Drunnen arregalou os olhos.
O corpo inteiro parecia pequeno demais diante daquilo.
As paredes estavam abertas, parte do telhado tinha desabado, e o vento trazia cheiro de carne queimada junto da fumaça.
Ela deu um passo curto à frente.
Depois outro.
Devagar.
Como se ainda esperasse encontrar alguém vivo ali.
Então galhos voltaram a estalar atrás dela.
Drunnen se virou no mesmo instante.
A floresta permaneceu imóvel por um segundo.
Só fumaça e vento.
Então outra vez:
Passos vindo entre as árvores.
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