Diários de uma Apotecária — Capítulo 10.05: Volume 10 – Capítulo 5 – Capítulo 5: A Primavera Chega Para Basen (Parte 2)

Diários de uma Apotecária
Cap. 10.05
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Diários de uma Apotecária

Volume 10 – Capítulo 5 – Capítulo 5: A Primavera Chega Para Basen (Parte 2)

Capítulo 10.05

5.707 palavras~25 min de leitura

Ele tinha pensado na jovem como uma pequena flor, delicada e frágil. Tinha medo de que ela pudesse se quebrar se ele a tocasse.

Agora, enquanto Basen cavalgava, olhou para a beira da estrada, onde uma pequena flor azul desabrochava. Ele sempre tinha pensado nas flores como coisas que deviam ser cuidadas e amadas, mas agora ele percebia que elas cresciam por conta própria, com ou sem alguém para cuidar delas.

Ele se dirigiu para a aldeia agrícola, com a sua respiração formando nuvens brancas no ar. Uma carroça carregada de patos em gaiolas seguia rangendo ao seu lado. Quando os ovos eclodiram, ele criou os filhotes até que ficassem grandes o bastante e, agora, os levaria para as aldeias. Quantas vezes ele já tinha feito aquilo até agora?

— Distribuir patos está abaixo do senhor, mestre — disse um soldado.

Não era a primeira vez que um de seus subordinados se opunha às suas viagens. Eles talvez até pensassem que aquilo era um desperdício, exatamente como o Príncipe da Lua tinha avisado que poderiam pensar. Basen sabia muito bem como eles se sentiam.

— Recebi uma tarefa e vou cumpri-la. Se não gosta desta missão, talvez eu possa encontrar outra para você.

— N-Não, senhor — disse o soldado, e nem ele nem os outros falaram novamente, embora continuassem trocando olhares pesarosos. Até Basen, que podia ser tão distraído, conseguia imaginar o que diziam sobre ele pelas costas. Ele era o segundo filho mimado do clã Ma. O oportunista de um ramo secundário da família. Filho de um eunuco. E muito mais. Sim, seu pai, Gaoshun, vinha de um ramo secundário do clã, e, para servir ao Príncipe da Lua, abriu mão do nome Ma e passou quase sete anos fingindo ser um eunuco.

Basen odiava a ideia de seu pai ser menosprezado, mas o que ganharia aplicando punições ali? O clã Ma era próximo da família imperial, e ele seria apenas acusado de abusar de sua posição.

Basen já tinha cometido o erro de deixar as emoções tomarem conta dele mais de uma vez.

Em certa ocasião, um soldado mais velho de sua divisão reclamou que não recebia um tratamento tão bom quanto Basen e afirmou que o jovem estava sendo favorecido. Basen perdeu a cabeça e lutou com o homem em uma “luta de treinamento” que não foi muito diferente de um duelo.

Seu oponente terminou com três costelas quebradas e o braço direito fraturado. Felizmente, nenhuma das costelas perfurou um pulmão, e o braço quebrou de maneira limpa e se recuperaria. Ainda assim, o homem deixou o exército. Talvez tenha se sentido humilhado por ter sido derrotado pelo jovem e menos experiente Basen, ou talvez simplesmente nunca tivesse participado de um treinamento tão feroz a ponto de quebrar ossos.

O Príncipe da Lua nunca fazia nada pela metade, nem mesmo durante os treinamentos. Ele conseguia desviar dos golpes de espada de Basen com a própria lâmina. E Gaoshun golpeava de volta sem piedade sempre que via uma abertura na guarda de Basen. Quando Basen era mais jovem, até sua irmã mais velha era melhor espadachim do que ele. Era fisicamente forte, mas nunca se considerou grande coisa com uma espada. Ainda assim, tinha sido bom o bastante para derrubar aquele soldado, que tinha muito orgulho da própria força.

A essa altura, ele já sabia que precisava tomar cuidado com a quantidade de força que usava ao lidar com mulheres, mas, naquele dia, aprendeu que o mesmo valia quando enfrentava homens. Descobriu que seus oponentes eram bastante frágeis. Nunca esqueceu a lição: não importava o que dissessem a ele ou sobre ele, jamais deveria estar ansioso demais para reagir com força.

— Não posso sair por aí espancando as pessoas... e eu as espancaria eles em um segundo — murmurou para si mesmo enquanto tirava um pato da carroça e o entregava a um fazendeiro, junto com uma advertência severa para que não matasse o animal. — Estamos dando esses patos a vocês em pares. Compraremos os ovos por um preço alto e recomendamos que criem mais patos também, mas matá-los imediatamente para servir de alimento seria um desperdício. Entendeu?

Alguns daqueles fazendeiros já criavam patos, ou tinham criado no passado, então, felizmente, Basen não precisava ensinar a todos como criar os animais do zero. Ele se certificava de que soubessem que os patos comeriam insetos e que essa deveria ser sua principal alimentação, mas também que, se não houvesse insetos suficientes, eles poderiam comer sobras, restos de vegetais ou até mesmo grama.

Ele podia dar aos moradores todas as advertências e conselhos que quisessem, mas não tinha como saber se eles iriam escutá-lo. Talvez até pensassem que ele próprio era uma espécie de charlatão.

Justamente quando tinha terminado de passar pelas aldeias e pensou que havia acabado de distribuir os animais, ouviu um grasnado barulhento vindo da carroça. Descobriu que um filhote ainda estava com ele.

— Quá!

— Você de novo, Jofu? — Basen lançou um olhar irritado para o filhote.

[Kessel: A estreia da protagonista! kkkkk!]

Aquela ave em particular tinha uma mancha preta no bico e parecia pensar que Basen era sua mãe, um engano profundo, se é que já houve algum. Evidentemente, aquela pata tinha saído do ovo no dia em que ele se reencontrou com Lishu, e Basen acabou sendo a primeira coisa que ela viu. Ela o seguia por todos os lugares sempre que ele aparecia na Aldeia da Ameixa Vermelha, então ele passou a chamá-la de Jofu, como se aquele fosse seu nome, embora, na verdade, significasse apenas “pato”.

Agora, ele disse à pata:

— Você sabe o que precisa acontecer, não sabe, Jofu? Você vai para alguma aldeia agrícola, onde poderá desferir um golpe devastador naqueles gafanhotos horríveis! Você não pode ficar me seguindo para sempre. Esta é sua chance de desenvolver o corpo que um bom soldado precisa. Coma grãos, coma grama, coma insetos e cresça bastante!

— Piu! — disse Jofu, abrindo as asas. Ela quase parecia estar escutando o que ele dizia, mas um pato é, bem, um pato. Eventualmente, ele esqueceria que algum dia tinha conhecido Basen.

Ou pelo menos era o que ele pensava. Enquanto continuava levando seus filhotes para as aldeias agrícolas e depois criava outro grupo de patinhos, Jofu estava sempre com ele, nunca ficando para trás nas aldeias. Basen e Jofu saíam juntos e, inevitavelmente, voltavam juntos. Mais de uma vez, Basen tentou deixar seu filhote em uma das aldeias agrícolas, mas, todas as vezes, Jofu mordia os fazendeiros e subia na cabeça do cavalo de Basen, onde batia as asas para que a levassem para casa. Jofu também deixou vários soldados que tentaram agarrá-la à força com as mãos cheias de bicadas. A situação ficou tão séria que alguns soldados começaram a se referir à pata com o mesmo respeito que demonstrariam a um oficial superior.

[Noelle: kkkkkkkkkkkkkk! O auge kkkkk]

As penas de Jofu passaram de amarelas a brancas, mas a mancha preta em seu bico permaneceu, assim como sua tendência a atacar estranhos como um cão selvagem enquanto seguia Basen por toda parte como um cão leal.

Naquele dia também, Basen voltou com Jofu empoleirada em seu ombro. Teria que ir à Aldeia da Ameixa Vermelha para deixar a ave lá.

— É isso mesmo... — Basen olhou para o oeste, onde o sol estava se pondo e tingindo o céu de vermelho.

A data da partida do Príncipe da Lua para a capital ocidental tinha sido definida. A próxima visita de Basen à Aldeia da Ameixa Vermelha provavelmente seria a última. Ele partiria com outro lote de patos e os distribuiria em mais aldeias pelo caminho para o oeste.

Dizia-se que a expedição para o oeste provavelmente seria longa dessa vez. Alguns meses, no mínimo; provavelmente quase um ano.

— Seis meses ou mais... — murmurou ele com um suspiro. Ele desmontou do cavalo ao passar pelos portões da Aldeia da Ameixa Vermelha. Estar ali sempre o deixava inquieto. Seu coração disparava apesar das cenas tranquilas dos animais pastando pelos campos.

Ele disse aos subordinados que cuidassem da carroça e então seguiu para o galpão dos patos. Parecia andar mais rápido quanto mais se aproximava.

Ele não conseguia evitar procurar por Lishu, embora soubesse que ela nem sempre estava ali quando ele aparecia. Cada vez que a via, tão pequena e delicada, mas ainda assim firme sobre os próprios pés, sentia algo muito estranho, uma mistura repentina de alívio e ansiedade.

E hoje? Ela estaria ali hoje?

— M-Mestre Basen?

Seu coração disparou. Ali estava Lishu, usando roupas simples e segurando uma cesta. Jofu saltou de seu ombro e caminhou desajeitadamente em direção ao galpão.

Basen levou a mão ao peito e tentou fazer com que seu coração, que batia forte, se acalmasse. — Lady Lishu. Gostaria de fazer meu relatório para a senhora, se me permitir. — Ele tirou um mapa e circulou as aldeias que tinha visitado naquele dia. Com isso, tinha percorrido quase todas as aldeias agrícolas da fronteira.

A Aldeia da Ameixa Vermelha não era o único lugar onde criavam patos; havia outros também. O trabalho precisava continuar depois que Basen partisse.

— Parece que você os levou para todos os lugares onde poderiam ser necessários. O que fará agora? — perguntou Lishu, lançando um olhar para Basen.

— Milady. Pretendo levar o próximo grupo comigo e seguir para o oeste. Acredito que esta será minha última visita aqui.

Lishu piscou. — O quê?

— Meu dever oficial é servir como guarda-costas do Príncipe da Lua. Ele vai para a capital do oeste, então preciso acompanhá-lo.

— Ele vai novamente?

A viagem do Príncipe da Lua para o oeste já tinha sido anunciada publicamente, mas a notícia aparentemente não tinha chegado até Lishu em seu isolamento ali. Ela sabia, porém, de sua primeira viagem à capital do oeste, que aconteceu mais ou menos nessa mesma época no ano anterior, quando ela ainda era uma concubina.

— Eu me lembro... Foi lá que conheci você — disse Basen, embora doesse imaginar como ele devia ter parecido aos olhos dela naquela época.

— Você me conheceu e me salvou… pela primeira vez, mas não a última.

Houve um banquete na capital do oeste. Um leão trazido para entreter os convidados atacou Lishu. Basen se lembrava dela encolhida debaixo de uma mesa. Os rumores a chamavam de uma mulher vil e sem pudor, sem qualquer castidade, mas tudo o que ele tinha visto era uma garota assustada e solitária, que o mundo nunca tinha tratado bem.

Basen se preocupava com a maneira como ela viveria dali em diante. Sua mãe estava morta, enquanto seu pai nunca a viu como nada além de uma peça política, e ele perdeu seu posto ao mesmo tempo que Lishu veio para aquela aldeia.

Ela ficaria bem? Essa preocupação atormentava Basen desde que Lishu deixou a corte. Encontrá-la ali apenas aumentou seus temores.

— ...comigo? — Ele estava tão perdido em seus pensamentos que quase não ouviu as palavras saindo da própria boca.

— O quê?

— Você consideraria deixar a Aldeia da Ameixa Vermelha comigo? — ele repetiu. Nem ele sabia o que achava que estava dizendo. Seu rosto estava vermelho como um tomate, e ele não conseguia olhar para Lishu.

Enquanto isso, Lishu olhava atentamente para o chão. E também estava corada.

A culpa só podia ser dele por ter dito algo tão absurdo. Será que seria possível voltar no tempo, nem que fossem apenas alguns minutos?

Basen sentiu a respiração ficar irregular.

— D-Deixa pra lá! Não foi nada!

— Nada? — Lishu lançou-lhe um olhar atento, e o rubor em suas bochechas começou a diminuir.

— D-De qualquer forma, ainda tenho mais relatórios para fazer! Se me der licença!

Com isso, Basen saiu. Ele nunca chegou a olhar para o rosto de Lishu.

[Kessel: Tapado, burro… huashuas!]

Assim que Basen chegou em casa, trancou-se no quarto e baixou a cabeça.

— O que eu estou fazendo? — resmungou, jogando-se sobre a escrivaninha e alternando entre segurar a cabeça com as mãos e puxar os próprios cabelos.

A porta se abriu com um estrondo.

— O que você está fazendo?

— Irmã?!

Era a irmã mais velha de Basen, Maamei. Ela já era casada, mas ainda morava na residência principal da família Ma. Seu marido, cunhado de Basen, também era da linhagem do clã Ma e, junto com o pai de Basen, era responsável pela segurança de Sua Majestade. Se decidissem que Basen não era adequado para assumir a liderança da família, a posição provavelmente passaria para seu cunhado. Na verdade, Basen ficava perfeitamente satisfeito por poder concentrar toda a sua atenção em proteger o Príncipe da Lua, mas não podia deixar isso transparecer.

No momento, o avô de Basen era o chefe nominal da família, mas, na prática, a maior parte do trabalho de administrar o clã ficava por conta da mãe de Basen, Taomei. Era tudo bastante complicado, mas, em essência, o sucessor da família principal tinha sido deserdado, e Gaoshun tinha sido adotado pela família principal, vindo da casa secundária. Taomei tinha sido noiva do sucessor deserdado e já estava bem envolvida nos assuntos cotidianos do clã, então simplesmente seguiu em frente e se casou com o pai de Basen. Por isso, ela era seis anos mais velha que Gaoshun.

Taomei então ensinou a Maamei o básico sobre os assuntos do clã, e, presumivelmente, a irmã mais velha de Basen assumiria o lugar de Taomei algum dia. O clã Ma era responsável pela proteção da família Imperial, o que significava que seus membros podiam morrer a qualquer momento, por isso, o clã adotava uma abordagem pragmática em relação à sucessão. Se Basen morresse, outra pessoa ocuparia seu lugar.

Como guarda do Príncipe da Lua, Basen raramente voltava para casa. A missão pouco convencional que recebeu recentemente, porém, fez com que ele visse Maamei com muito mais frequência, o que podia ser um pouco constrangedor.

— O que traz você aqui? — perguntou ele.

— Ora, é assim que você fala com uma irmã mais velha gentil que só quer saber como o irmãozinho está?

Basen e Maamei pareciam ter ideias muito diferentes sobre o que significava ser gentil.

— Por falar nisso, é só impressão minha, ou você está meio que... fedendo? — Maamei apertou o nariz de propósito. Isso não era novidade para Basen; ela sempre reclamava quando ele cheirava a suor, mas, ultimamente, ele suspeitava que fosse outra coisa.

— Acho que são os patos — disse ele. Passar tempo suficiente com aves tornava difícil não começar a cheirar como elas.

— Patos? Ahh, sim, uma dessas medidas contra os gafanhotos, não é? Você acha que vai mesmo ajudar?

— Irmã, estamos tateando no escuro. Eu agradeceria se não menosprezasse nossos esforços.

— Nossa, me perdoe — disse ela, embora não parecesse se sentir muito culpada. Então começou a olhar ao redor do quarto de Basen.

— Irmã, se não precisa de nada, poderia, por gentileza, sair?

— Ora! Desde quando você ficou com essa língua afiada? — Maamei se sentou na cama, evidentemente sem a menor intenção de ouvi-lo. A cama era um dos poucos móveis do quarto; ele mantinha o mínimo possível de coisas ali porque também treinava naquele lugar. — Você poderia ter um pouco mais de... coisas aqui — comentou Maamei.

— Não. Só atrapalhariam.

— Hmm. Sim... Isso é um quarto de solteirão, se é que já vi um. — As palavras da irmã de Basen eram sempre afiadas como uma espada.

— O que a vida amorosa de um homem tem a ver com o quarto dele? — perguntou Basen, carrancudo.

— Tudo. Além disso, você já está na idade certa para pensar em uma esposa. Não tem nenhuma boa candidata?

— I-Irmã! Você não pode simplesmente jogar esse assunto em cima de mim! — Ele se levantou da cadeira tão rápido que ela caiu.

— Devo lembrar que, pelo menos por enquanto, esperam que você seja o próximo chefe do clã. Nosso tio levantou a possibilidade de você se casar, nem que seja apenas por aparência. Não há como saber quando você pode morrer, então seria bom que deixasse alguns filhos para trás.

— F-F-Filhos! Mas i-isso significaria...

— Ah, sim. Não se preocupe, ninguém espera muito de você. Você sabe que foi por isso que tivemos que pressionar Baryou e Chue a compensarem a falta. Eu gostaria de ver pelo menos mais três possíveis sucessores, mas... talvez isso seja pedir demais. Mas, para falar a verdade, não pega nada bem você ficar sentado enquanto seus parentes fazem todo o trabalho. Você precisa de uma esposa, nem que seja só para manter as aparências. Caso contrário, ninguém vai levá-lo a sério… essa é a opinião do tio.

— Eu entendo o que está dizendo... — O assunto fazia a cabeça de Basen doer. — Você quer que eu me apresse e me case, não é? Assim como os outros.

— De jeito nenhum!

— O quê? — Basen olhou para ela, sem entender o que mais ela poderia querer dizer.

— Acho que você é como eu. Você não conseguiria aceitar um parceiro escolhido para você, como Mamãe, Papai e Baryou conseguiram. O que estou dizendo é que se existe alguém por quem você esteja apaixonado, agora seria a hora de dizer, antes que o tio ou outra pessoa decida por você.

— A-Apaixonado por alguém?!

— Eu sabia! Vou considerar isso um sim. — Ela deu a ele um sorriso malicioso bastante desagradável.

— D-Desculpe, i-irmã, mas não sei do que você está falando...

— Não, é claro que não sabe. Você não precisa dizer; está escrito na sua cara.

Basen levou as mãos às bochechas sem perceber e descobriu que estavam quentes.

Maamei se esticou na cama.

— Eu não vim aqui hoje só para provocar você.

Basen permaneceu em silêncio. O sorriso de Maamei ficou ainda mais largo.

— Como eu disse, nem Mamãe, nem Papai, nem Baryou escolheram seus próprios parceiros. Não há nada de errado nisso, mas acontece que eles são o tipo de pessoa capaz de lidar com quem quer que acabem recebendo. Eu, não. Eu jamais conseguiria suportar alguém escolhido pelos meus pais ou pela minha família. Então nunca dei essa chance a eles… decidi por mim mesma!

Basen pensou no marido de Maamei: ele era doze anos mais velho que ela. Basen se lembrava dela ter dito que se casaria com ele quando tinha apenas oito anos. Todo mundo riu bastante, mas, oito anos depois, sua declaração se tornou realidade.

Toda vez que encontrava o cunhado, Basen se sentia um fracasso.

Maamei apontou diretamente para ele.

— Você e eu somos iguais. Jamais poderíamos consentir com casamentos políticos.

— E-Eu gostaria de pensar que...

— Se você aceitasse um casamento desses, ele continuaria sendo uma farsa. Mamãe e Papai aprenderam aos poucos a amar um ao outro, e Baryou e Chue encontraram seus lugares dentro do relacionamento, mas você não conseguiria fazer nenhuma dessas coisas. Mesmo que conseguisse aceitar a situação, eu lhe digo: sua esposa jamais seria feliz.

— Eu... eu acho que...

Ele percebeu que não conseguia contradizê-la diretamente. Tinha certeza de que, qualquer que fosse a mulher que sua família escolhesse para ser sua esposa, ela não seria uma pessoa ruim. Da mesma forma, estava confiante de que acabaria se afeiçoando a ela.

No fundo da sua mente, porém, pairava a imagem de uma garota como uma flor à beira da estrada.

— Aí está. Você acabou de pensar em alguém, não foi?

— E-Eu não pensei! — exclamou ele, corando intensamente. O sorriso de Maamei ficou ainda maior.

— Não que isso me importe, mas deixe-me dar um conselho de irmã. Se existe alguém por quem você tenha sentimentos, precisa contar a ela. Se ela rejeitar você, que seja… pelo menos você saberá qual é a sua situação. Eu conheço você e, sem fazer isso, você passaria a vida inteira sofrendo por ela.

Basen ficou em silêncio: isso também ele não conseguia negar.

— Você pode não ter nada além de força bruta a seu favor, pode ser um completo idiota que sempre sai correndo para o perigo, mas ainda é meu irmãozinho. Faça sua escolha e faça isso de verdade.

— Você nunca disse nada assim para Baryou...

— Baryou se comprometeu com as próprias escolhas à maneira dele, sabe. — Basen não entendia muito bem o que aquilo significava.

Maamei, parecendo mais leve agora que disse o que veio dizer, se levantou da cama.

— Então, eu vou indo.

A boca de Basen se moveu, mas nenhuma palavra saiu enquanto sua irmã se preparava para deixar o quarto.

Então ela se virou.

— Ah. Tem mais uma coisa que quero ter certeza.

— Sim? O quê?

— Ela não é casada, é?

Basen congelou no lugar, mas desviou o olhar.

— Não! Bem... não mais!

— O quê? — respondeu Maamei, com uma teatralidade que deixava Basen maluco.

Os patos cercavam Basen, grasnando ruidosamente. Jofu, ainda com a mancha preta no bico, estava ali com ele. Jofu era visivelmente maior que as outras aves, ela era a única que permaneceu com ele enquanto os outros patos foram, um a um, para as aldeias agrícolas.

Basen estava usando uma roupa completamente nova. Talvez fosse igualmente bom escolher algo já bem usado, já que aquilo acabaria sujo de qualquer maneira, mas roupas novas eram uma oportunidade de recomeçar e se renovar.

Jofu conduziu Basen, balançando a cauda. Ela sabia para onde ele estava indo.

O vapor subia do criadouro, aquecido como sempre pelas fontes termais e pelo fogo do forno. A pedido de Basen, estavam chocando várias vezes mais patos do que antes.

Basen se preparou quando alguém saiu do galpão. Pensou que pudesse ser Lishu, mas, depois de um segundo, percebeu seu engano. Era uma das outras viajantes responsáveis pelo criadouro, uma mulher de meia-idade que ele já tinha encontrado várias vezes.

— Mestre Basen! Está tudo pronto — disse ela. Ela trazia gaiolas, cada uma com um pato grasnando dentro. — Disseram-me que esta será sua última visita. Espero que cuide bem desses docinhos. — Ela fez uma profunda reverência para ele. Algumas das viajantes eram apenas pesquisadoras, mas outras tratavam os patos como se fossem seus próprios filhos. Basen confiava que uma freira capaz de sentir carinho até por aves aquáticas jamais maltrataria Lishu.

Com todo o respeito e desculpas à freira, porém, havia apenas uma coisa na mente de Basen: decepção. Ele disse a Lishu que sua próxima visita seria a última, mas não disse quando viria. De qualquer forma, ela não tinha obrigação alguma de seguir a programação dele.

Ele cerrou os punhos. Abatido pela própria incompetência, ele pegou as gaiolas e as colocou na carroça. O condutor da carroça ajudou, e os três carregaram as gaiolas. Jofu tinha se afastado, evidentemente cansada daquela situação.

— Preciso me desculpar por estar de serviço hoje — disse a freira.

— E-Eu certamente não sei do que a senhora está falando!

— Hee hee! Tenho certeza de que você preferiria passar o tempo com uma jovem lindinha como Lishu em vez de uma tia velha e madura como eu. Embora possa ser complicado manter uma conversa com aquela garota… ela não é exatamente a pessoa mais falante do mundo.

— M-Meu Deus!

— Sabe, você se parece muito com ela. — A freira riu alto, mas havia refinamento em sua risada; ela revelava a educação que provavelmente recebeu antes de se tornar uma viajante. — Lishu é, bem, tímida. Se eu fosse um pouco mais jovem, talvez isso me irritaria.

— O quê?

— Agora, tudo o que sinto é simpatia… ela me lembra de mim mesma quando tinha a idade dela! — A freira deu um tapinha nos patos dentro das gaiolas. — É claro que ninguém a incomoda. Tirando alguns tipos estranhos que gostam desse estilo de vida, a maioria de nós que vem para a Vila da Ameixa Vermelha têm suas próprias histórias. Eu abandonei o mundo profano há mais de vinte anos, então não faço ideia de quem ou o que Lishu possa ser. E também não tenho interesse em descobrir. Só queria que ela parasse de tropeçar e quebrar os ovos! — A freira colocou uma gaiola na carroça. — Pronto, essa é a última. Para onde será que esses patos vão acabar indo?

— Vamos para o oeste — disse Basen. Ele seguiria por terra em direção à capital do oeste, distribuindo os patos pelo caminho.

— Bem, tenham uma boa viagem — disse a freira aos pássaros. — Comam muitos insetos, ponham muitos ovos bons e vivam o máximo que puderem.

Os patos grasnaram para a freira, quase como se estivessem respondendo. Ela sabia que, se não conseguissem ser úteis, acabariam virando jantar. Basen não podia pedir aos fazendeiros que criassem animais de estimação.

Basen se pegou pensando em quem aquela mulher era e por que tinha vindo para a Vila da Ameixa Vermelha, mas não perguntou. Só podia presumir que ela também tinha sua própria história.

— Quá! — Jofu grasnou, bicando os dedos dos pés de Basen.

— O que foi? Onde você esteve? — perguntou Basen. Em resposta, a pata agarrou uma parte de sua túnica com o bico e puxou.

— Parece que ela quer levar você a algum lugar. Por que não vai ver onde? Eu cuido do resto aqui.

— Tem certeza? — Basen olhou para o condutor, que assentiu.

Jofu seguiu à frente de Basen, batendo as asas e olhando para trás de vez em quando para se certificar de que ele ainda a acompanhava. Pelo visto, os patos eram mais inteligentes do que ele imaginava.

Jofu o levou até um pequeno lago, um lugar cercado de verde em meio à paisagem que, de outro modo, era desolada. Uma jovem de branco estava sentada à beira do lago.

— Lady Lishu? — disse Basen, e a jovem levantou os olhos. Ela segurava uma folha de capim jovem.

— Mestre Basen! — Lishu ficou tão surpresa ao vê-lo que deixou o capim cair. Jofu imediatamente começou a bicá-lo, parecia ser um dos petiscos favoritos dos patos. — Então hoje é sua última visita?

Diante de Lishu, que ele já tinha desistido de esperar encontrar, Basen congelou. Ele estava radiante por vê-la, mas não fazia ideia de como conversar com ela. E depois de todo o treino que tinha feito na noite anterior!

— Lady Lishu! — disse ele.

— Sim?

— E-Está um tempo maravilhoso hoje, não é?

— Ah, é? — Lishu pareceu confusa. O céu estava nublado e, embora não estivesse chovendo, também não estava ensolarado e alegre.

Lishu não sabia mais o que dizer do que Basen. Por um momento, o silêncio reinou entre os dois. Jofu ficou bem no meio deles e olhou de um para o outro.

— E-Então! — Por coincidência, os dois falaram exatamente ao mesmo tempo.

— P-Pode falar, Lady Lishu.

— Hã? Não, por favor, fale primeiro, Mestre Basen.

Mais uma vez, nenhum dos dois disse nada. A situação continuou sem saída, enquanto Jofu seguia bicando o capim.

Basen fechou os punhos, cerrou os dentes, franziu a testa e, finalmente, conseguiu abrir a boca.

— Lady Lishu. A senhora me daria a honra de vir comigo para a capital do oeste?

As roupas que ele tinha escolhido especialmente para a ocasião estavam imundas de tanto carregar os patos para a carroça. Não tinha nada nas mãos para lhe oferecer… nenhum acessório elegante, nem sequer uma flor. Maamei não exigiu saber exatamente por quem ele tinha sentimentos, mas, se tivesse visto Basen daquele jeito, jamais o deixaria esquecer. Ainda assim, por aquele único ato, ela o teria elogiado.

Basen pediria ao Imperador e ao Príncipe da Lua. Sabia que o Imperador estava preocupado com Lishu. Ele iria até ele, com o coração sincero e a cabeça baixa.

O coração de Basen batia forte no peito. Sua respiração estava pesada e formava uma névoa no ar à sua frente. Ele mal conseguia olhar para Lishu, com medo do que ela pudesse estar pensando dele. Quando finalmente olhou, porém, encontrou-a com o rosto vermelho e mordendo o lábio. Ela segurava a saia com os dedos manchados de grama.

— Lady Lishu? — disse ele.

— Mestre Basen... — Lishu finalmente conseguiu abrir a boca, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas e ela fungou enquanto falava. — Eu... eu n-n-não posso ir com você!

— O que quer dizer com não pode? — perguntou Basen, esforçando-se para não deixar a expressão desabar. Ele sabia muito bem que ela poderia recusá-lo. Praticamente estava implorando para ser rejeitado ao fazer aquela pergunta daquele jeito.

Lishu estava se esforçando tanto quanto ele para esconder as emoções e tinha o mesmo sucesso limitado. Lágrimas se acumularam em seus olhos, e sua boca estava tensa. Ela cerrava os punhos com tanta força que as unhas cravavam nas palmas.

Maamei disse a ele para contar. Para deixar claro o que sentia. Talvez aquilo tivesse sido um erro. As ações de Basen só tinham causado mais sofrimento a Lishu.

— Lady Lishu, por favor, apenas...

Ele estava prestes a dizer esqueça o que eu disse, mas ela disparou:

— E-Eu queria poder! Eu queria poder ir com você! — Ela olhou diretamente para ele, conseguindo conter as lágrimas por pouco. — M-Mas agora eu sei muito bem. Sou uma garota tola que não sabe nada do mundo, e alguém vai tentar me usar, não importa para onde eu vá. Eu sei que estavam tentando me manter segura quando me mandaram para cá, para a Vila da Ameixa Vermelha.

Basen sabia que era verdade: todos os habitantes da Vila da Ameixa Vermelha eram excêntricos que se libertaram das amarras do mundo secular. Muitos deles nem sequer se interessavam muito pelas outras pessoas, então não atormentariam Lishu nem tentariam usá-la para seus próprios fins, como o pai dela fez.

— Se eu fosse com você para a capital ocidental, Mestre Basen, eu só seria um fardo para você.

— Lady Lishu, não...

— Cumpra seu dever para com Ji... quero dizer, o Príncipe da Lua, Mestre Basen. Eu só seria uma bagagem. Comecei a ter uma ideia de como as pessoas me veem. — As lágrimas continuaram se acumulando nos olhos de Lishu enquanto ela olhava para Basen, mas não caíram. Ela piscou repetidamente, segurando-as. — O que você disse quando me encontrou... aquilo me deu forças para continuar. Até hoje, isso me sustenta.

Jofu encostou o focinho nos pés de Lishu, preocupada com ela. Lishu fez carinho na cabeça da pata. Olhou para baixo e, quando ergueu os olhos novamente, não havia mais lágrimas neles.

— Eu não sou apenas uma ferramenta. Quero aprender a pensar por mim mesma e escolher meu próprio caminho.

Basen achou ter visto um pequeno brilho nos olhos de Lishu. Ainda era fraco e apagado, mas ele viu a determinação de fazê-lo brilhar cada vez mais.

— Sei que há muitas pessoas que se importam comigo. Kanan e minha dama de companhia, Sua Majestade e Lady Ah-Duo. O Príncipe da Lua. E você, Mestre Basen. Além de muitas outras. Mas fiquei tão presa à minha própria desgraça que nunca sequer agradeci a vocês.

Lishu era tão delicada e efêmera quanto uma flor. Como poderiam esperar que ela se preocupasse com alguém além de si mesma?

— Você não pode se culpar por isso. Qualquer pessoa na sua situação teria feito o mesmo...

— Não me trate como uma criança. Por favor. Tenho pensado muito, dentro do que sou capaz, e essa é a minha escolha. Se eu dissesse a mim mesma que não poderia ter feito diferente, que qualquer pessoa teria feito a mesma coisa... isso também não seria uma afronta a você, Mestre Basen?

Basen ficou sem ar por um instante. Proteger a família Imperial significava colocar a própria vida em risco… algo que ele não conseguiria fazer prontamente enquanto também tentasse manter Lishu em segurança.

— Eu não posso ir para a capital do oeste — disse Lishu, fazendo carinho na cabeça de Jofu. — Mas... talvez, depois que eu ganhar um pouco mais de confiança em mim mesma... — Aqui, ela desviou o olhar dele novamente. — Talvez você pudesse voltar para a Vila da Ameixa Vermelha?

O rosto dela estava vermelho. Parecia que queria dizer mais alguma coisa, mas nada saiu.

Basen estava tão vermelho quanto ela; sua boca estava aberta, mas ele também parecia incapaz de dizer qualquer coisa. Quando finalmente entendeu o que Lishu estava dizendo, sentiu o sangue ferver de empolgação.

— C-Claro! — disse ele.

Sem exatamente querer, ele se inclinou para a frente; Jofu grasnou e saiu correndo do caminho.

— Quando eu vir você novamente, prometo que serei um homem mais digno. Você disse que seria apenas um peso extra, mas eu consigo levantar facilmente cem ou duzentos kin! Se ainda estiver preocupada que isso não seja suficiente, continuarei treinando até conseguir levantar duas... não, três vezes esse peso!

Ele trabalharia para que Lishu jamais precisasse temer ser apenas um “fardo”. Para que ela soubesse que ele não cambalearia, não importava o quanto ela se apoiasse nele.

A superfície do lago ondulou suavemente, refletindo a luz. Jofu bicava o capim à margem, onde pequenos brotos apareciam entre os talos.

A primavera chegaria em breve, mas o frio do inverno ainda não tinha ido embora. Lishu estava vivendo seu próprio inverno naquele momento. Mas, mesmo que fosse pisoteada, mesmo que fosse colhida, mesmo que fosse bicada, ela estava tentando fazer nascer uma bela flor. Não cabia a Basen interferir. Ele simplesmente esperaria, ansioso pelo dia de primavera em que aquela flor desabrochasse.

Ele faria o que precisasse fazer até o dia em que pudesse ir até aquela flor.

— Eu vou para a capital do oeste, mas voltarei. Vou proteger o Príncipe da Lua, ajudar a proteger esta nação e proteger você. Vou me tornar um homem capaz de sustentar qualquer pessoa e qualquer coisa que precise de mim.

Lishu sorriu.

— Eu sei que vai. Só rezo pelo seu sucesso e pela sua segurança.

Era impressão dele ou havia um aroma de flores no ar? Estranho; nenhum dos brotos entre o capim parecia ter desabrochado ainda.

Havia apenas Lishu, com um sorriso no rosto que parecia o primeiro sinal da primavera.

[Noelle: Ai gente, que capítulo lindo hein? Não quis colocar notas no meio pra não atrapalhar o clima de romance, quem diria que a nossa querida autora nos daria uma história de amor tão linda, e que não seria do suposto casal principal? Achei lindo esse desenvolvimento de ambos, e quão madura podemos ver que Lishu já está, ela poder falar tudo isso sem gaguejar, e conseguir realmente se expressar é uma baita de uma evolução desta personagem, e não vejo a hora de poder ver esse reencontro tão lindo na primavera! Achei interessante como ela amarrou os pontos do porquê dela ter sido mandada exatamente para ali, realmente, ela não seria manipulada por pessoas que estão vivendo no seu mundinho, fiquei um pouco aliviada, pois estava questionando se realmente o imperador tinha carinho por ela mesmo ou não.]

Fim da leitura

Capítulo 10.05 concluído

Volume 10 – Capítulo 5 – Capítulo 5: A Primavera Chega Para Basen (Parte 2)