Diários de uma Apotecária — Capítulo 10.06: Volume 10 – Capítulo 6 – Capítulo 6: A Vila Agrícola (Parte 1)

Diários de uma Apotecária
Cap. 10.06
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Diários de uma Apotecária

Volume 10 – Capítulo 6 – Capítulo 6: A Vila Agrícola (Parte 1)

Capítulo 10.06

6.996 palavras~30 min de leitura

Basen chegou à capital do oeste três dias depois de Maomao e dos outros. Ela esperou na entrada do anexo, achando que seria educado pelo menos cumprimentá-lo.

Quando ele apareceu, porém, ela disparou:

— O que é isso?

E lá se foi o cumprimento amigável.

— O quê? Esta é Jofu.

— Jofu. De “pato”? Isso eu consigo ver. E parece delicioso.

Basen estava coberto de areia e poeira e, por algum motivo desconhecido, havia um pato empoleirado em seu ombro. Um pato doméstico perfeitamente comum, com penas brancas e bico amarelo. A única coisa peculiar nele era uma única mancha preta no bico.

— Ora, ora! Vejo que trouxe um belo presente para mim! Sente-se, querido cunhado mais novo, e deixe sua irmã cuidar do jantar! — Chue já estava pronta para pegar a ave diretamente do ombro dele.

— Este pato não é para comer! — disse Basen, fazendo-a parar no meio do caminho.

Ah, sim, eles são parentes por casamento, não são? Maomao pensou. Ela teve a impressão de que Chue provocava bastante Basen.

— Se não é comida, então o que é? Seu animal de estimação? — perguntou Chue.

O pato realmente parecia bastante apegado a Basen, segurava a cabeça dele com as asas e ajeitava seus cabelos com o bico.

— Tenho chocado patos e distribuído eles pelas aldeias agrícolas a mando do Príncipe da Lua. Eu ia deixar Jofu em uma das aldeias, mas ela acabou gostando demais de mim e não quis ir embora.

— Ah, entendi — disse Chue. Como Basen tinha dado um nome ao pato, evidentemente também tinha se apegado a ela. O pato, demonstrando sua inteligência natural, pulou do ombro de Basen e fez cocô no chão. Esperta.

— Preciso ir ver o Príncipe da Lua. Tem alguém que possa cuidar da Jofu para mim?

— Ooh! Eu posso! — disse Chue, levantando a mão.

— Tem mais alguém?

— Não tenho certeza de que eu seria muito melhor — disse Maomao. Ela já estava salivando. Lembro do pato que En’en preparou na casa de Lahan. Nossa, aquilo estava muito bom. Ela não confiava em si mesma para não ser vencida pelo próprio apetite. Talvez pudéssemos pedir ao médico charlatão para cuidar dela?

Não, não. Havia alguém ainda mais adequado.

— Conheço um agricultor que seria perfeito. Vou perguntar a ele — disse ela.

— Um agricultor? Espere, você tem conhecidos na capital do oeste?

— Não, ele foi enviado para cá da região central.

Basen continuou confuso, mas não havia muito mais que Maomao pudesse dizer. Era a verdade. De qualquer forma, poderiam confiar o pato ao Irmão de Lahan.

Basen estava na capital do oeste havia dois dias inteiros quando Maomao finalmente recebeu permissão para visitar uma aldeia agrícola.

— Você pode ir com calma, mocinha. Ainda temos bastante remédio. Não precisa sair correndo para os confins de um lugar que mal conhecemos — disse o médico charlatão, que aceitou a desculpa dela exatamente como foi apresentada. Afinal, devia haver algum motivo para uma dama da corte que trabalhava como assistente médica deixar seu posto e sair em uma visita de inspeção.

— Está tudo bem, senhor. Quem sabe? Talvez eu até encontre algum medicamento desconhecido.

Isso era verdade. A província de I-sei tinha flora e fauna diferentes das de Kaou. Não havia como saber que plantas ou animais ela poderia encontrar, nem quais propriedades medicinais eles poderiam ter. Maomao estava até um pouco empolgada… ela esperava encontrar medicamentos interessantes.

Ela levou o mínimo absoluto de pertences, apenas o que conseguia colocar em uma bolsa. Pediu que preparassem algumas pepitas de ouro ou pedaços de prata para o caso de precisar de dinheiro em mãos para alguma coisa, metais preciosos sem processamento seriam as formas de pagamento mais versáteis e eficazes na província de I-sei, que fazia tanto comércio com outras nações.

— Hã. Normalmente mandam damas da corte para trabalhos assim? — perguntou Tianyu, com uma expressão cética.

— Acho que não? Mas fui contratada mais como apotecária do que como médica, então sempre foi possível que me mandassem para esse tipo de tarefa.

Para desenvolver um pesticida.

— Hã. Uma apotecária. E eu achava que tinha sido puro nepotismo que colocou você onde está, Niangniang. — Tianyu certamente sabia como provocar alguém.

— Ah, vamos, não seja assim. Você não pode ser tão desconfiado, meu rapaz.

Ah, meu pobre médico charlatão. É você quem precisa ser mais desconfiado.

Poucas eram as pessoas no mundo sobre as quais não valia a pena fazer perguntas.

— Se o senhor diz. Divirta-se, Niangniang. — Aquilo parecia ser tudo o que Tianyu pretendia contribuir para a conversa, pois ele se jogou em uma das camas dos pacientes e acenou por cima do ombro.

[Noelle: Acaba que é um pouco de nepotismo mas não da parte do Pai dela como ele pensa né kkkkkkkkkkk nosso querido príncipe da lua kkkk]

O médico charlatão deu a Maomao um pacote de lanches e também acenou.

— Até logo!

— Não se preocupe, vou ficar de olho nas coisas enquanto você estiver fora! — disse Lihaku.

Sim, com ele ali, pelo menos ela não precisaria se preocupar com o médico charlatão.

— Até que enfim.

— Ela chegou na hora certa!

Basen e Chue esperavam por ela na entrada do anexo. Disseram a Maomao para esperar até que Basen chegasse à capital do oeste para que ele pudesse acompanhá-la como seu guarda-costas e Lihaku pudesse ficar ali.

Maomao olhou ao redor. Não deveria haver mais alguém?

— Ah, é só isso? Achei que deveríamos levar batatas-semente. — Além do Irmão de Lahan, diga-se de passagem, mas ela só viu alguns cavalos. — Onde está a carroça com as batatas?

Chue levantou a mão.

— Eu respondo essa! As batatas-semente estão indo de carroça, mas a carroça é tão mais lenta que demos uma vantagem a eles! Foi ideia do outro cara… o sujeito que está conduzindo a carroça. Não sei como descrevê-lo. Não é muito memorável. E, quanto ao motivo de eu estar aqui, é porque você já é uma amiga tão querida minha, senhorita Maomao! A senhorita Chue implorou para acompanhar você, ou passaria o tempo todo preocupada com o que estaria fazendo em terras desconhecidas!

— O que estou entendendo é que pareceu divertido, então você decidiu vir junto.

O pouco memorável condutor da carroça só podia ser o Irmão de Lahan. Maomao percebeu que Chue ainda não o tinha conhecido oficialmente.

Em vez de simplesmente admitir que Maomao estava certa, Chue tirou uma sequência de pequenas bandeiras.

— E o que traz o senhor a uma visita às aldeias agrícolas, Mestre Basen? — perguntou Maomao, apenas por educação.

— Ordens do Príncipe da Lua. Ele me mandou proteger você com a minha vida. Ele não quer que o Mestre Lakan saia causando uma confusão na capital do oeste.

Não havia nada que Maomao pudesse dizer diante daquilo. Principalmente porque não podia dizer que achava que Lihaku talvez fosse uma escolha melhor para o trabalho.

Parecia que Basen tinha alguma noção de sua ligação com o velho, mas, como continuava tratando-a exatamente da mesma maneira de sempre, ela decidiu deixar o assunto de lado.

Parece que praticamente todo mundo que conheço sabe. Ela estava descobrindo que todos ao seu redor pareciam saber de algo que ela mesma preferia não admitir. O comportamento daquele estrategista excêntrico não podia ser escondido ali.

[Noelle: Também concordamos que o Lihaku seria melhor né gente? Queria que ele aparecesse mais 😞]

Mas o que posso fazer? Nós não somos parentes, então…

Maomao decidiu que aquele não era o momento de repensar sua atitude.

— Meu pai está aqui como guarda do Príncipe da Lua. Tenho certeza de que vai ficar tudo bem — disse Basen, embora parecesse estar tentando convencer mais a si mesmo. Talvez estivesse começando a se perguntar por que Jinshi parecia mantê-lo à distância ultimamente.

Espero que ele não esteja ficando frustrado, pensou Maomao. Ela estava preocupada com o estado psicológico de Basen, mas ele parecia surpreendentemente estável. Na verdade, estava um pouco mais calmo e maduro do que antes.

— Sou só eu, irmãozinho, ou você virou uma nova pessoa? — perguntou Chue, cutucando-o. Ela parecia compartilhar da intuição de Maomao.

— O-O quê? Por que perguntaria uma coisa dessas?

De qualquer forma, era verdade que Gaoshun estava ali para servir como guarda-costas de Jinshi. Jinshi poderia muito bem ter inimigos na capital do oeste, mas eles não eram realmente propensos a tentar colocar as mãos nele.

Se alguém importante for assassinado no meio de uma longa viagem, é o governante local que terá que arcar com as consequências.

Maomao não sabia muito sobre Gyoku-ou, mas gostaria de acreditar que ele não permitiria que seu visitante mais importante se encontrasse em perigo.

Chue abriu um sorriso, então montou em seu cavalo e colocou os pés nos estribos. Ela não usava uma saia, mas uma calça.

— Certo. A aldeia fica a cerca de quarenta quilômetros daqui. Devemos chegar em umas quatro horas — disse Basen.

— Parece que ainda vamos alcançar aquela carroça! Que tal darmos uma pequena volta? — sugeriu Chue.

— Infelizmente, isto não é a capital e não há muitas casas de chá por aqui. Você pode dividir um pouco de grama com seu cavalo, se quiser — disse Basen, sem se abalar com a provocação de Chue.

Ela é a esposa do irmão mais velho dele, no fim das contas. Basen parecia demonstrar certo respeito por ela, embora Chue o tratasse da mesma maneira que parecia tratar todo mundo.

— Qual você gostaria de montar, senhorita Maomao? — perguntou Chue.

— Não tenho certeza de que tenho uma boa resposta para isso.

Havia dois cavalos, e Maomao não sabia montar sozinha, então teria que ir com uma das outras pessoas. Para ela, realmente não fazia diferença com quem.

— Tudo bem, então você pode ir atrás da senhorita Chue! A sela do Mestre Basen é dura; machuca o traseiro! A sela da senhorita Chue é bem curtida, absorve muito bem os impactos e é confortável para ficar sentada por longas horas na estrada! Diga, qual você prefere?

Não era preciso dizer que Maomao apontou para Chue.

— Espere um segundo. Onde conseguiu uma sela tão boa? Achei que estivéssemos pegando esses cavalos emprestados.

— Sim, mas o Príncipe da Lua é um homem muito atencioso. De vez em quando, ele faz um bom trabalho.

— E o que exatamente quer dizer com isso? — disparou Basen, incomodado com aquele elogio disfarçado. Pelo menos nisso, ele ainda era Basen.

— O que quero dizer? No momento em que o Príncipe da Lua disse que estava designando você para o serviço de guarda, eu disse que então não deveria haver outra mulher para acompanhar vocês, e ele ficou com uma expressão de quem tinha acabado de enxergar a luz! Não se preocupe, senhorita Maomao, a sempre atenciosa senhorita Chue está do seu lado. Seu espírito pode ser mais resistente que um tronco rígido, mas seu corpo é tão delicado que você provavelmente morreria se alguém desse um soco em você. A senhorita Chue sabia que não podia confiar você ao Basen sozinho, ele não sabe a própria força! Você deveria me agradecer.

Eu provavelmente morreria se alguém me desse um soco.

Maomao não era exatamente do tipo musculosa. Ela conseguia suportar venenos de todos os tipos, mas um ataque físico rapidamente acabaria com ela.

— Você também deveria me agradecer, irmãozinho. Pode me chamar de senhorita Chue, ou de Irmã Mais Velha Honorável, se preferir.

— Hngh... — Basen jamais conseguiria vencer Chue em uma discussão. Só podia abaixar a cabeça.

Com o vencedor da conversa decidido, os três partiram.

Não houve nada particularmente extraordinário durante a viagem. Da cidade, seguiram para o oeste através de planícies vazias, mantendo-se em uma faixa de terra descoberta que parecia servir de estrada. Uma ou duas vezes cruzaram com caravanas que vinham na direção contrária. Às vezes, viam as tendas dos nômades, com os filhos das famílias cuidando das cabras ou das ovelhas.

Aquilo é o horizonte? Maomao se perguntou. O velho Luomen explicou que havia uma teoria de que o mundo era uma esfera e que isso era comprovado pelo fato de que, em uma área aberta, era possível ver uma leve curvatura ao longo do horizonte, bem distante. Maomao achava que realmente conseguia ver uma curva.

Ela não sabia ao certo se era verdade que o mundo era redondo, mas, se fosse, isso explicaria por que as estrelas se moviam. Ou, pelo menos, era o que Luomen dizia. Agora ela desejava ter prestado mais atenção, mas, infelizmente, a maior parte da explicação dele não tinha ficado na memória. Percebeu, com certo pesar, que aquilo devia ser uma das coisas que ele aprendeu enquanto estudava em uma terra estrangeira, e ela simplesmente ignorou.

Estava surpreendentemente frio nas planícies, apesar de ser primavera. Havia bastante sol, mas também um vento que roubava o calor do corpo. Além disso, o ar era tão seco… e um pouco rarefeito. Eles estavam bem acima do nível do mar.

— Aqui está, senhorita Maomao — disse Chue, passando-lhe uma capa. Era feita de lã, que bloqueava o vento e tinha bordados tão delicados que teria parecido elegante até mesmo na capital.

Chue também usava uma capa. Parecia igualmente quente, mas era um pouco mais simples que a que deu a Maomao, estranhamente discreta para Chue, que normalmente gostava de ser o centro das atenções.

A capa de Basen era simples, mas prática. Ele também usava, notavelmente, luvas para manter as mãos aquecidas nas rédeas.

Apertada contra Chue e com a capa nas costas, Maomao conseguia se manter aquecida, mas o vento e o sol ainda atingiam todas as partes de seu corpo que estavam expostas.

Queria ter algumas dos bálsamos das minhas irmãs agora. Entre o sol forte e o ar seco, ela estava preocupada em ficar bronzeada. Tinha passado uma pomada para bloquear o sol, mas e Chue? A pele dela era mais escura que a de Maomao, mas parecia perfeitamente saudável.

— Senhorita Chue, tenho algo para evitar o bronzeado. Quer um pouco? Também vai impedir que sua pele fique ressecada.

Valia a pena perguntar, ela pensou. Se acabasse, poderia simplesmente fazer mais com os ingredientes que tinham na capital do oeste.

— Ooh, posso? A senhorita Chue sempre foi um pouquinho mais morena, então o bronzeado não aparece tanto, mas ficaria feliz em experimentar!

— Claro. Eu lhe dou um pouco quando fizermos uma pausa.

Basen informou que não havia nenhum lugar ao longo da estrada onde pudessem fazer alguma parada agradável, mas, em algum momento, teriam que descansar os cavalos. Havia bastante grama por toda parte para os animais comerem, mas, se pudessem parar em algum lugar onde houvesse água, seria ainda melhor. E, naquele exato momento, um rio surgiu à vista.

— Vamos fazer uma pequena pausa ali — chamou Basen.

— Certinho! — disse Chue.

— Tudo bem — disse Maomao.

Quando chegaram à água, Maomao descobriu que aquilo não era tanto um rio quanto uma poça muito grande. A água era rasa e não havia correnteza. Provavelmente tinha se formado por causa de uma tempestade e logo estaria seca novamente.

Havia árvores crescendo nas proximidades, fazendo sombra sobre grandes pedras com desenhos entalhados nelas. Eram placas indicando direções para todos os lados, Maomao concluiu.

Ela observou as árvores que cresciam ao redor do ponto de água. Aquelas são romãzeiras? As folhas pareciam ser, de alguma forma. Alguns galhos balançavam suavemente. Talvez houvesse pássaros pousados neles. Ela conseguia ver alguns na água, junto com um grupo de cavalos selvagens bebendo.

— Pode haver cobras por aqui — disse Chue.

— Ooh, acha mesmo?

Maomao e Chue procuraram, mas não encontraram nenhuma. Havia um buraco no chão que parecia uma toca, mas, quando mexeram nele, um rato saiu. Elas tinham levado provisões, então deixaram o roedor escapar.

A grama alta crescia à beira da água. Maomao sabia, por suas pesquisas, que o pau-ferro e o alcaçuz eram nativos daquela região, mas não viu nenhum dos dois. Não que esperasse encontrar quantidades significativas em um único lugar.

Acho que estava esperando demais.

Ela, porém, encontrou uma grama com um cheiro peculiar. Era mais alta que uma grama comum, mas não tanto quanto uma árvore, e parecia artemísia. Se suas propriedades medicinais fossem parecidas com as da artemísia, poderia ser útil para exterminar insetos. Maomao pegou uma amostra para descobrir e também coletou algumas outras plantas intrigantes.

Chue bateu palmas e chamou:

— Senhorita Maomao! O almoço está pronto!

Maomao e seus companheiros se sentaram sobre uma manta, comendo carne e legumes em conserva entre pedaços de pão. Maomao percebeu que tinha suado bastante apesar de ter ficado apenas montada no cavalo; seu corpo estava desesperado por água e sal. Isso fez os legumes em conserva ficarem ainda mais saborosos.

Assim que terminou de comer, Basen começou a estudar um mapa. Tirou uma bússola flutuante da bolsa e a colocou para flutuar na água. Maomao e Chue o observaram.

Maomao fez a pergunta óbvia.

— Para que serve um mapa em meio a essas planícies abertas?

— É melhor do que nada, mas você tem razão em dizer que não há muitos pontos de referência por aqui — comentou Chue. — Entre a bússola e a posição do sol, acho que deveríamos seguir um pouco mais para o norte. Desde que nada bloqueie a visão, conseguiremos enxergar casas, esse será o nosso destino.

Ela podia parecer despreocupada, mas era surpreendentemente competente. Pelo visto, conseguia até se orientar em campo aberto. Basen desviou o olhar, parecendo um pouco constrangido.

— Posso perguntar mais uma coisa? — disse Maomao.

— O que quiser, senhorita Maomao.

— Por que não temos um guia local?

Sinceramente, ela gostaria de ter perguntado antes. Achou que estavam apenas indo para uma aldeia próxima, não estavam saindo de Li nem nada parecido, e que um guia não seria necessário, mas a viagem estava se tornando mais elaborada do que esperava. Uma longa viagem nunca era exatamente segura, mesmo dentro das fronteiras de uma nação. Era melhor ter alguém que conhecesse o território de ponta a ponta.

— Engraçado você perguntar isso — disse Chue, olhando ao redor.

Basen também estava olhando, com o olhar duro. A mão estava no punho da espada, e ele obviamente estava pronto para entrar em combate.

Não gosto nem um pouco do rumo que isso está tomando.

Chue ficou na frente de Maomao.

— Certo! Fique exatamente aí, senhorita Maomao. Não se mexa nem um centímetro.

Maomao descobriu que estavam cercados por homens estranhos; ela quase não os viu surgir. Eram sujeitos de aparência desleixada que falavam Linês com um forte sotaque. Quanto ao que diziam, eram as ameaças de sempre, exigências para entregar o dinheiro e coisas do tipo. E, é claro, queriam ficar com as mulheres.

Eram bandidos, se é que Maomao já tinha visto algum.

Será que eu tenho algum valor especial como mulher? Nem Maomao nem Chue eram especialmente bonitas; ela duvidava que conseguiriam um bom preço por elas se os bandidos tentassem vendê-las. Não era um pensamento muito agradável, e seu coração começou a acelerar. Ela respirou lenta e profundamente algumas vezes, tentando se acalmar.

— Senhorita Maomao, pode fechar os olhos se quiser. Se eles tentarem alguma coisa, a senhorita Chue vai usar seus encantos de mulher casada para nos tirar dessa!

Ela parecia muito confiante. Na verdade, parecia olhar para eles de cima de seu nariz baixo.

Maomao, porém, não estava disposta a fechar os olhos. Enfiou a mão na bolsa e encontrou uma agulha de costura e um repelente de insetos. Não seriam suficientes para causar nenhum dano sério, mas talvez conseguissem fazer os atacantes recuarem por um instante.

Acontece que, porém, eles não precisaram dos encantos de Chue nem da agulha de costura de Maomao.

Houve um estalo audível, e então o Bandido nº 1 saiu voando direto para além de Maomao.

Houve um crec bem perceptível, e o Bandido nº 2 caiu no chão, segurando o braço e se contorcendo.

Houve um estalo distinto, e o Bandido nº 3 caiu, cuspindo uma mistura de saliva, sangue e dentes.

Não houve contenção alguma. Uma luta em uma peça de teatro teria durado mais. Sinceramente, aquilo quase parecia pouco demais para ser descrito.

Basen levou a mão à espada, mas isso não significava que pretendia usá-la.

Ele derrotou todos eles com as próprias mãos! Maomao pensou, estupefata. Ela respirou mais algumas vezes, então recuperou a compostura e correu até Basen.

— Deixe-me ver sua mão!

— Ah, sim...

Basen, parecendo um pouco surpreso, tirou a luva e estendeu a mão. Os dedos não pareciam quebrados, e o pulso parecia intacto. Além de ter uma força sobrenatural, Basen, segundo Maomao tinha ouvido, era menos suscetível à dor do que a maioria das pessoas. Isso significava que, às vezes, podia se machucar com suas próprias demonstrações de força.

Eu não consigo entender isso.

Depois de todos aqueles barulhos terríveis, ela esperava que pelo menos a pessoa que desferiu os golpes tivesse machucado a mão. Devia haver algum motivo para Basen estar completamente ileso.

Ela pegou a luva e logo descobriu a explicação. Por fora, era feita de lã e parecia bastante macia, mas era pesada. Havia algum tipo de metal dentro dela. A força bruta de Basen combinada com uma luva pesada? Era quase o suficiente para fazê-la sentir pena dos bandidos.

Falando nos bandidos, Chue ia de um para o outro, amarrando-os. Depois amarrou os três juntos, então esticou as pernas e enxugou o suor da testa com um suspiro.

— O que vamos fazer com eles? — perguntou Maomao.

Sua pergunta foi inocente, mas Chue respondeu:

— O que deveríamos fazer com eles? Não podemos levá-los conosco. Vamos deixá-los aqui. Quando chegarmos à aldeia, podemos pedir a alguém que venha buscá-los.

Ela não parecia se importar muito.

— Não gosto disso — disse Basen, cruzando os braços e franzindo a testa.

— Sei o que quer dizer — disse Maomao, descobrindo, pela primeira vez, que compartilhava do mesmo sentimento que ele. E se os homens fossem devorados por um lobo ou alguma coisa assim enquanto os viajantes estivessem a caminho da aldeia? Não era algo tão impossível.

Não acho que conseguiria dormir bem sabendo que fiz parte disso, mesmo que sejam criminosos.

Basen caminhou até os bandidos e segurou um deles pelo braço. Então veio outro desagradável crec.

Ai...

Aparentemente, o que Basen não tinha gostado era da possibilidade de os bandidos escaparem. Dois deles chegaram a urinar nas calças enquanto ele quebrava impiedosamente os braços de cada um. Presumivelmente, ele escolheu os braços em vez das pernas para que pudessem andar quando fossem levados para a prisão.

Nunca imaginei que eu fosse a boazinha, pensou Maomao. Ela olhou para os bandidos e desejou mentalmente que abandonassem a vida de crimes.

Depois disso, a viagem seguiu em silêncio.

Achei que haveria mais insetos. Bem, paciência.

Havia alguns; afinal, estavam atravessando as planícies. Mas não chegava nem perto de ser um enxame; de vez em quando, ela apenas avistava um gafanhoto saltando por entre a grama.

Talvez não precisássemos nos preocupar com uma praga, afinal? Se não houvesse uma quantidade enorme de gafanhotos na capital ocidental, bem, não poderia haver notícia melhor.

Por volta da hora em que chegaram ao próximo ponto de descanso, alcançaram o Irmão de Lahan e suas batatas. Por algum motivo que Maomao não conseguia imaginar, havia um pato em cima do cavalo que puxava a carroça, grasnando ordens.

— Jofu! Você também está aqui?

— Quá!

No momento em que viu Basen, o pato bateu as asas e desceu da cabeça do cavalo. Seus olhos pareciam brilhar, e Maomao juraria ter visto uma tempestade de pétalas de flores atrás dela.

[Kessel: kkkkkkkkkkkk!]

— Tentei deixá-la na mansão, mas ela insistiu em vir comigo — disse o Irmão de Lahan. Maomao tinha sido quem originalmente empurrou o pato para ele, então não podia reclamar de verdade.

— Tenho que admitir, acabei gostando bastante dela — disse o Irmão de Lahan, claramente encantado. — Ela é muito inteligente e muito prestativa. Come insetos com prazer.

— Parece que você teve uma viagem tranquila — disse Maomao. Algumas pessoas obviamente não encontraram nenhum bandido.

— O quê? Você sempre foi mal humorada, mas agora está ainda mais rabugenta.

Ela não gostou do tom do Irmão de Lahan, mas, mesmo assim, decidiu explicar o que tinha acontecido.

— Fomos atacados por bandidos.

— Eles realmente existem por aqui? — perguntou o Irmão de Lahan, com o rosto ficando pálido.

Ahh! É assim que uma pessoa normal reagiria. Enquanto saboreava a reação do Irmão de Lahan, ela olhou para Chue, que não tinha se preocupado nem um pouco com o ataque. Chue parecia até acostumada a ser ameaçada por criminosos, ou, no mínimo, não demonstrava surpresa. Como se tudo aquilo fizesse parte do plano de alguma maneira.

O grupo do Irmão de Lahan era composto por uma carroça cheia de carga, o próprio Irmão de Lahan, dois soldados robustos como guardas, três fazendeiros que provavelmente estavam ali para ajudar, além de dois guias locais. E um pato.

Maomao não era especialista em logística, mas dois guias pareciam ser um a mais do que precisavam.

Será que um deles deveria estar conosco?

Pensando bem, Chue tinha evitado responder à pergunta dela sobre terem um guia local.

Depois dessa segunda pausa, partiram novamente. Descobriram que a aldeia ficava muito perto. Casas modestas se alinhavam dos dois lados de um rio, e a área ao redor era pontilhada de árvores e campos cultivados. Havia uma montanha de encosta suave atrás da aldeia, mas, ao contrário das montanhas que Maomao conhecia, parecia que a própria planície gramada simplesmente tinha se elevado, formando uma colina. As pequenas manchas brancas que ela via provavelmente eram ovelhas. As pretas, talvez bois. A julgar pelo número de casas, não devia haver mais de trezentas pessoas naquela aldeia.

Ao se aproximarem, foram recebidos pelo mugido dos bois. Algumas das ovelhas ainda estavam com a lã fofa, enquanto outras tinham sido tosquiadas recentemente. Era justamente a época da tosquia. As crianças da aldeia, aparentemente nada estranhas ao trabalho braçal, recolhiam esterco de ovelha em cestos.

— O que elas estão fazendo? — perguntou Basen, olhando para as crianças com uma expressão estranha. Maomao sentiu que poderia fazer a mesma pergunta a ele, considerando que havia um pato em sua cabeça.

— Pelo que acredito, usam o esterco das ovelhas como combustível. E, se colocarem debaixo da cama, dizem que ajuda a mantê-los aquecidos — explicou ela.

— Debaixo da cama?!

— Claro! Você não sabia? Que irmãozinho bobo — provocou Chue, sem perder a oportunidade de implicar com ele. “Irmãozinho” parecia ser o nome que ela mais usava para ele quando queria provocá-lo.

A aldeia era cercada por um fosso e um muro de tijolos. Talvez os bandidos não se limitassem a atacar viajantes.

Basen conversou com alguém na entrada, e logo receberam permissão para entrar, talvez um mensageiro tivesse chegado antes deles. O pato pulou da cabeça dele e foi trotando atrás.

Uma pessoa de aparência importante, que Maomao imaginou ser o chefe da aldeia, saiu para recebê-los.

— Oh! Com licençaaa! — Antes que Basen pudesse dizer qualquer coisa a ele, Chue começou a conversar animadamente com o chefe. Os olhos do chefe brilharam, e ele gritou para um dos guias. Chue sorria de orelha a orelha por causa de alguma coisa, enquanto o guia ficava cada vez mais pálido.

Era impossível não perceber a tensão no ar. Um dos soldados que serviam de guarda para o grupo do Irmão de Lahan estava de prontidão atrás de Chue. Ela continuava sorrindo e o guia ainda parecia calmo, mas era óbvio que o homem estava sendo levado para algum lugar.

Ahh, agora entendi. Maomao cruzou os braços e observou enquanto levavam o guia para algum lugar.

— Ei, o que está acontecendo? — perguntou o Irmão de Lahan, sempre assumindo o papel de pessoa sensata.

— Suspeito que queiram pedir um desconto. Ele nos prometeu uma rota segura, mas acabamos sendo atacados por bandidos.

— Certo, mas é realmente justo descontar isso dele?

— É uma pergunta justa, mas parece que essa era a estrada especial do guia. Garantia de segurança absoluta. Eles até pagaram a mais para descobrir onde ficava.

— Isso é ridículo. Não há nada além de grama em todas as direções. Não é culpa do guia eles terem deixado que ele os enganasse.

Ele tinha razão quanto a isso. Na verdade, Maomao estava inventando tudo, dizendo o que quer que lhe viesse à cabeça. Falar sobre bandidos era estimulante demais para o Irmão do Lahan, então ela mudou de assunto. Enquanto conversavam, Basen se aproximou do chefe da aldeia. Seu pato, como um cachorro fiel, foi atrás dele.

Depois de conversarem por um tempo, Basen voltou até Maomao.

— O chefe vai nos mostrar um lugar onde podemos passar a noite.

— Tudo bem.

— Agradeço sua ajuda — disse educadamente o Irmão do Lahan a Basen. Ele era filho de uma família distinta, por mais que não parecesse, e tinha sido criado com boas maneiras. Se Lakan não tivesse traído a própria família, o Irmão de Lahan talvez já fosse um soldado.

— Claro. A propósito... — Basen olhou para o Irmão do Lahan. — Como devo chamá-lo?

Basen também não sabia o nome do Irmão do Lahan.

— Oh! — Os olhos do Irmão de Lahan se encheram de esperança. Aquele era o momento que ele esperava.

— Acho que pode simplesmente chamá-lo de Irmão do Lahan — disse Maomao.

— Ei! — exclamou o Irmão do Lahan, colocando uma mão no ombro de Maomao.

— Certo. Irmão do Lahan. Fácil de lembrar. Gostei.

— Escute aqui, você! — Esquecendo as boas maneiras, o Irmão do Lahan se virou para Basen.

— Então é isso. Ele é o irmão do Lahan. É assim que ele é chamado e é isso que ele é. Acho que você conhece Lahan, não? O Irmão do Lahan não é tão excêntrico quanto o irmão dele; o irmão dele é uma pessoa normal e inofensiva. Ele também é um agricultor profissional de batatas, então podemos deixar isso nas mãos dele.

— Quem é normal?! E quem é agricultor?! — exigiu o Irmão do Lahan, mas, se ele não era agricultor, então o que era? Maomao já o tinha visto cuidando daqueles campos enormes, ele poderia demonstrar um pouco mais de orgulho pelo próprio trabalho.

— Entendo. Se ele é parente de Mestre Lakan, merece ser tratado com respeito.

Maomao teve a nítida impressão de que Basen olhou para ela ao dizer aquilo, mas decidiu ignorar. Ele não parecia considerar que ela pertencesse à mesma categoria.

Para falar a verdade, acho que quase gosto disso nele.

Basen nem sempre a tratava “com respeito”, para usar as palavras dele, mas era fácil trabalhar com ele.

— Cof cof... — disse o homem que parecia ser o chefe da aldeia. Aparentemente, ele realmente era o chefe. — Posso levá-los aos seus aposentos?

— Ah, sim, claro. Se não for incômodo?

Aliviado, o chefe os levou até um espaço aberto no meio da aldeia.

— Podem usar isto — disse ele, apontando para uma tenda portátil como as que os nômades usavam. — Esta tenda pertencia a alguém que se estabeleceu aqui anos atrás e ainda cumpre sua função. Também a mantemos aquecida por dentro. As mulheres podem ficar na tenda pequena ao lado.

Maomao colocou a cabeça para dentro e descobriu que realmente estava quente, feita com uma estrutura que parecia uma espécie de rede coberta de feltro. Havia um tapete no chão e uma lareira no centro. Considerando a ausência de janelas, seria de esperar que aquilo resultasse em uma qualidade ruim do ar, mas uma chaminé saía da lareira para permitir que a fumaça escapasse. Havia uma pilha de coisas marrons ao lado da lareira… talvez fossem os bolos de esterco de ovelha que as crianças estavam recolhendo. O tapete tinha algum tipo de desenho tecido nele. Talvez não fosse grande coisa, mas estava claro que a aldeia estava tentando oferecer a melhor hospitalidade que podia.

— Chegaram na hora certa — estávamos justamente prestes a desmontá-la — disse o chefe.

— Desmontá-la? — perguntou Maomao.

— Sim. Veja, tivemos outro visitante há poucos dias também.

— Por acaso o nome dele era Rikuson?

— S-Sim. Ele é um conhecido seu?

Maomao assentiu: ela sabia. O que ainda não sabia era o que ele tinha vindo fazer ali. Não via Rikuson desde aquele primeiro dia, então não teve oportunidade de perguntar.

— Já está tarde, então acho que, por hoje, devemos comer e depois descansar. Vou colocar um guarda do lado de fora da sua tenda. Tudo bem? — perguntou Basen.

— Sim, obrigada. Tudo bem — disse Maomao.

Ela pegou seus pertences e os levou para a tenda menor. Tirou os sapatos ao entrar, e o tapete macio e felpudo acolheu seus pés. Havia várias camadas de feltro por baixo dele. Ela tirou a capa e a pendurou em algo que se projetava da parede.

Então se jogou de braços e pernas abertos sobre o tapete.

Opa, melhor ficar esperta.

Ela deu um tapinha rápido na própria bochecha… a tenda estava tão quente por dentro, e o tapete era tão macio, que ela sentiu que poderia cochilar ali mesmo.

Assim que se sentou, Chue entrou.

— Isso parece confortável, senhorita Maomao. Acho que vou me juntar a você! — Ela se jogou no tapete e abriu um sorriso, feliz da vida.

— Antes que você durma, senhorita Chue, posso perguntar uma coisa?

Maomao tentou organizar os pensamentos que tinham ficado rodando em sua cabeça durante todo o dia. Enquanto pensava, acabou assumindo uma postura formal, sentada com os pés dobrados sob o corpo. Chue imitou sua postura.

— Claro! O que foi? — Ela parecia exatamente como sempre.

— Aqueles bandidos... Foi você quem armou aquilo, não foi, senhorita Chue?

Chue não piscou nem sequer diante da pergunta.

— O que você quer dizer com isso, senhorita Maomao? — Ela inclinou a cabeça.

— Desculpe. Isso soou pior do que eu queria. O que estou tentando dizer é que você esperava que os bandidos atacassem e fez com que nós viéssemos depois, como isca, para minimizar o dano que eles causariam.

Chue continuou completamente tranquila. — O que fez você pensar uma coisa dessas?

Ela não parecia estar perguntando apenas para despistar Maomao. Na verdade, parecia gostar de ouvir a resposta.

— Bem, primeiro, fiquei me perguntando por que fomos divididos em dois grupos. No começo, pensei que talvez você só estivesse tentando ser gentil comigo e garantir que eu chegasse aqui o mais rápido possível. Consigo imaginar o mesmo impulso por trás da maneira como Ji... quer dizer, o Príncipe da Lua conseguiu aquela sela confortável para nós. Mas não conseguia deixar de pensar: se íamos nos dividir em dois grupos, por que os dois guias foram com apenas um deles? Não fazia sentido.

— Oh! Hmm!

Chue parecia saber ler mapas muito bem, mas, mesmo para ela, um guia seria indispensável em um território desconhecido. Era quase como se tivesse feito questão de não ter um.

— Em segundo lugar, aquela capa — disse Maomao, apontando para a peça pendurada na parede.

— Ahh, você não gostou?

— Gostei muito. Ela me manteve bem aquecida. O que me chamou a atenção, porém, foi como ela é linda.

— Linda?

Maomao olhou para a capa que Chue estava usando.

— Sei que você gosta de chamar atenção, senhorita Chue, então, se tivesse duas capas, eu esperaria que escolhesse a mais elaborada para você. Mas, em vez disso, usou a mais simples.

— Bem, sim, mas a senhorita Chue sabe como se comportar diante de pessoas superiores a ela. — O tom dela sugeria justamente o contrário.

— Sim, e o fato de você ter me dado a capa mais bonita dava a entender que ela vinha do Príncipe da Lua. Você reforçou essa impressão falando sobre como ele tinha dado a sela a você. Praticamente me convenceu de que a capa também vinha dele, mas não vinha, não é?

A capa de Maomao era agradável ao toque. Coberta de bordados delicados, ficava evidente, mesmo à distância, que era uma peça de vestuário de alta qualidade.

— Uma capa dessas é praticamente o mesmo que dizer aos bandidos: “Por favor! Me roubem!”. E, ao usar uma roupa um pouco mais simples, você fez parecer que era a dama de companhia da pessoa que eles pretendiam atacar.

— Hee hee hee! A senhorita Chue é praticamente sua dama de companhia, senhorita Maomao. Então o que está dizendo é que eu separei vocês em dois grupos e depois dei deliberadamente uma capa mais bonita a você para que eles atacassem vocês?

— Não exatamente a mim. É mais como se você quisesse colocar todos os alvos mais valiosos no mesmo lugar.

Dessa vez, Chue piscou.

— Se todos tivéssemos viajado com a carroça, seria um grupo grande. Ter alguns soldados conosco nos daria uma vantagem em uma batalha, mas também estaríamos acompanhados de pessoas que não estavam acostumadas a ser atacadas. Se elas ficassem traumatizadas, isso poderia ter um impacto negativo no nosso trabalho… sem mencionar a possibilidade nada desprezível de serem feitas reféns.

O persistentemente comum Irmão de Lahan era um homem perfeitamente forte e saudável, mas não parecia ser um brigão experiente. Maomao suspeitava que ele tivesse tanto medo de uma luta quanto qualquer outra pessoa.

— Se, em vez disso, viajássemos em dois grupos, sendo que um deles não só fosse menor como também incluísse alguém que obviamente parecesse ter dinheiro, os bandidos teriam mais chances de atacar esse grupo. Duas mulheres e um homem… sendo que o homem era Mestre Basen, que, apesar de sua força absurda, ainda tem aquele rosto de bebê e um porte relativamente pequeno para um soldado. Quando disseram para deixarmos as mulheres, eles não estavam pensando em nos vender, estavam? Era sobre a possibilidade de pedir um resgate.

Os bandidos jamais esperariam que Basen acabaria se revelando um urso vestido de homem. Mas ele era um matador de leões, afinal.

— Isso tudo é muito inteligente, senhorita Maomao, mas, se for verdade, como a senhorita Chue fez aqueles bandidos aparecerem exatamente na hora certa? Você pode usar quantas capas bonitas quiser, mas eles obviamente estavam esperando por nós. Eles apareceram no momento perfeito, pode-se dizer.

— Na verdade, isso explica por que você estava conversando com um dos guias antes. Aqui está a terceira coisa que me deixou desconfiada: você falou com um dos guias assim que chegamos à aldeia. Acho razoável presumir que você achava que um deles era desonesto antes mesmo de contratá-los.

Ela se lembrou de como o homem ficou pálido enquanto Chue falava.

— Antes daquele primeiro grupo partir, você contou coisas diferentes para cada um dos guias, não contou? Como, por exemplo, em qual ponto de água o segundo grupo faria uma pausa. Você pega um mapa e diz que quer ter certeza de onde poderá descansar. Uma maneira conveniente de avisá-los onde você estará, não acha? — Havia inúmeras maneiras pelas quais o guia poderia ter passado a informação aos bandidos, mesmo que Maomao não soubesse exatamente qual ele tinha usado. Vai saber. Talvez tenha usado pombos, como a Dama Branca.

— Você contratou deliberadamente um guia suspeito, alguém que achava estar envolvido com os bandidos. Depois, disse a cada um deles que descansaria em um lugar diferente, para saber onde poderia ser atacada. Foi para ter certeza de qual dos guias era confiável? E se os dois fossem desonestos?

Chue ergueu as mãos em um gesto de rendição.

— Era só um deles! — cantarolou ela. — Eu sabia exatamente quem era o outro.

— Isso foi ordem do Príncipe da Lua?

Maomao tinha implorado a Jinshi que a usasse como uma ferramenta, então uma situação como aquela não era completamente inesperada. Mas aquilo não combinava com ele.

— Não, não foi. Você acertou; eu consegui a capa para você.

— É mesmo?

Provavelmente, então, realmente não tinha sido Jinshi. Será que Chue pertencia a uma cadeia de comando que não incluía ele?

— Você torna a vida da senhorita Chue muito difícil, senhorita Maomao, por ser tão inteligente. Sabia disso?

— Você também não facilita minha vida, senhorita Chue, com esse jeito de eu nunca saber o que está pensando.

As duas suspiraram.

— Senhorita Maomao, tenho dois pedidos.

— Sim?

— A senhorita Chue é sempre a mesma Chue alegre e despreocupada, então, por favor, trate a senhorita Chue sempre como você trataria a senhorita Chue. — Ela puxou uma fileira de pequenas bandeiras.

Zum.

— Eu... não tenho certeza do que isso significa, mas tudo bem. — Maomao pegou a fileira e deixou que ficasse pendurada em seus dedos, sem saber o que mais fazer com aquilo.

— Nesse caso, senhorita Maomao, a senhorita Chue tem outro pedido para você. E ele vem acompanhado de uma pergunta.

— Sim?

— O que fez você pensar que aquela capa bonita e cara poderia não ter vindo do Príncipe da Lua? — Ela parecia genuinamente curiosa.

— Só pensei que, se ele me desse algo assim, seria de ótima qualidade, mas mais discreto. Mais prático.

— É só isso?

— É onde estamos agora.

Jinshi tinha começado a entender as preferências de Maomao.

Chue estreitou os olhos e olhou para a entrada da tenda.

— Desculpem incomodá-las — disse uma mulher do lado de fora.

— Sim? Pode entrar — respondeu Maomao, e ouviu o farfalhar do feltro.

— Com licença — disse uma mulher de meia-idade, espiando para dentro. Ela segurava algumas rédeas. — Trouxe as três cabras que você pediu. O que gostaria que eu fizesse com elas?

— Ótimo! Obrigada. Aqui está o pagamento. — Chue colocou algumas moedas na mão da mulher. Ela devia ter pedido aqueles animais antes de ir até a tenda.

Ela está planejando levar essas cabras para casa?

Se quisesse apenas comê-las, seria mais barato comprar algumas que já tivessem sido abatidas e cortadas em pedaços… e ela não precisaria de três. Entre as cabras e o pato, elas estavam a caminho de ter a própria fazenda.

Chue pegou as rédeas das cabras e remexeu em sua bagagem até tirar de lá uma bolsa que parecia pesada.

— O que é isso?

— Sal! Não estamos perto do mar, e não dá para conseguir sal-gema por aqui, então o sal é uma mercadoria preciosa. E acontece que nossas amigas cabras adoram!

— E, hum, para que serve esse sal? — Maomao não conseguia imaginar onde Chue queria chegar com aquilo.

Chue abriu um sorriso.

— Negociação! Com as cabras e o sal. A senhorita Chue é pacifista, sabe? Gosta de resolver as coisas de maneira tranquila quando pode. Estou com sono, mas tenho um trabalho para cuidar. Você apenas descanse seu pobre e cansado corpo, senhorita Maomao.

Chue girou na direção da entrada da tenda e, então, desapareceu, levando as cabras consigo.

[Kessel: Muito suspeito, srta. Chue… muito suspeito!]

Fim da leitura

Capítulo 10.06 concluído

Volume 10 – Capítulo 6 – Capítulo 6: A Vila Agrícola (Parte 1)