Diários de uma Apotecária — Capítulo 10.07: Volume 10 – Capítulo 7 – Capítulo 7: A Vila Agrícola (Parte 2)

Diários de uma Apotecária
Cap. 10.07
0%
Diários de uma Apotecária

Volume 10 – Capítulo 7 – Capítulo 7: A Vila Agrícola (Parte 2)

Capítulo 10.07

6.203 palavras~27 min de leitura

O Irmão de Lahan encarava fixamente a terra. Ele se abaixou para verificar como ela estava e chegou a colocar um pouco na boca, mas cuspiu logo em seguida.

— O que acha? — perguntou Maomao, observando-o trabalhar.

O dia de um agricultor começava cedo. O sol mal despontava no horizonte, mas o Irmão de Lahan já estava de pé e trabalhando. Maomao estava tão cansada que não conseguiu dormir direito e, então, ouviu os sons dos agricultores se levantando logo de manhã.

Eles estavam nos campos da aldeia agrícola onde tinham chegado no dia anterior. Na noite anterior, eles tinham pedido permissão ao chefe da aldeia para vir até ali e, sem mais delongas, o Irmão de Lahan estava ali.

O trigo começava a brotar no campo. Maomao se perguntou se as ovelhas e as cabras comeriam aquilo, mas, fora quando eram levados para pastar, os animais ficavam protegidos dentro de uma cerca, então talvez desse certo.

— Acho que o solo está bom, e eles o mantêm bem irrigado. Na verdade, seria até melhor se o solo daqui fosse um pouco menos fértil.

— É melhor se o solo não for tão nutritivo? — perguntou Chue, espreitando com a cabeça.

E pensar que ela não pode ter ido dormir antes de mim ontem à noite.

Ela tinha voltado em algum momento da madrugada, suas negociações deviam ter se estendido bastante. Apesar disso, parecia perfeitamente cheia de energia.

Maomao achou melhor não perguntar exatamente o que ela tinha negociado. Chue tinha insistido para que Maomao a tratasse da mesma maneira de sempre, então Maomao ficou em silêncio.

O Irmão do Lahan se levantou e observou o campo.

— Ao contrário da maioria dos vegetais, as batatas crescem melhor quando o solo não é rico demais. Se as batatas-doces tiverem nutrientes demais no solo, elas simplesmente produzem um monte de folhas e nenhuma batata. As batatas comuns ficam mais suscetíveis a doenças.

— Ah, sim, claro. A propósito, pão sozinho não é um café da manhã muito bom, então também vou fazer um mingau de arroz.

— Por favor, faça. Isso seria mara… — Chue estava descascando uma batata-doce.

— O que você pensa que está fazendo?! — exigiu o Irmão do Lahan, arrancando-a das mãos dela num piscar de olhos.

— Ahhh — disse Chue, girando teatralmente.

— Isto é material para plantio! Para plantar! Não para comer!

— Sim, mas não há nada além de trigo por aqui! Mal tem arroz. Achei que um pouco de batata ajudaria a engrossar o mingau.

— Mingau de batata parece bom — disse Maomao, percebendo que seu estômago estava roncando. Um mingau consistente seria melhor que pão para começar o dia.

— Vamos plantar isso! Você não pode comer! — disse o Irmão do Lahan, como se estivesse repreendendo uma criança. Ele soava estranhamente como o desgrenhado de óculos. Talvez fosse porque eram irmãos. Uma ovelha próxima levantou a cabeça e soltou um “Bééé!” de reprovação, como se dissesse: — Falem mais baixo!

— Argh... Agora não vou mais poder usar isso como semente — resmungou o Irmão de Lahan, olhando miseravelmente para a batata pela metade.

— Então vai dar um delicioso café da manhã!

— Argh... Acho que terá que servir.

— Mas não sozinha! Vou precisar de pelo menos mais três!

— Não! De jeito nenhum! — rebateu o Irmão do Lahan, impedindo Chue de fazer mais alguma travessura.

Maomao cerrou os punhos. De fato, ela percebeu que aquele homem tão comum tinha seu momento de brilhar: era quando discutia com alguém que o Irmão do Lahan realmente mostrava do que era capaz.

— Certo, vamos esquecer o café da manhã por um instante. Você acha que podemos cultivar alguma coisa aqui?

Pessoalmente, Maomao gostaria de continuar apreciando um pouco mais daquela troca de provocações, mas, se não mantivesse as coisas andando, eles nunca chegariam a lugar algum.

O Irmão do Lahan cruzou os braços.

— Este lugar é muito parecido com a província de Shihoku. Não fica tão ao norte quanto ela, mas, em termos de clima, é mais adequado para batatas comuns do que para batatas-doces. É mais frio que a província de Kaou.

— Acho que realmente está frio. Engraçado, eu achei a capital do oeste bem quente.

Na verdade, meus ouvidos estão doendo um pouco, pensou Maomao, apertando o nariz e soprando para equilibrá-los.

— Aqui estamos a uma altitude muito maior que a da capital do oeste.

— Acho que sim.

— Estamos mesmo? — Chue tirou um mapa das dobras de sua roupa. — A senhorita Chue é excelente em ler mapas, mas este não mostra as altitudes. Não é à toa que o ar parece tão rarefeito aqui!

— Eu sei porque meu pai me contou tudo sobre isso — disse a pessoa normal, estufando o peito.

— A temperatura continua alta na capital do oeste porque o deserto fica muito perto. Aqui, faz um pouco de frio até durante o dia — disse Chue.

Só agora Maomao começava a perceber, de maneira visceral, o quanto o clima podia ser diferente mesmo dentro de uma única província.

— Você realmente acha que as batatas não vão crescer?

— Não tenho certeza. Para as batatas-doces, temperaturas como as da província de Kaou na primavera e no início do verão são ideais, e não existe nada parecido em lugar algum daqui, seja no deserto ou nas áreas mais altas. Talvez valha a pena plantar algumas só para ver, mas acho que as batatas comuns seriam mais fáceis de cultivar. Só existe um problema...

O Irmão do Lahan parecia realmente furioso. Havia claramente algo naquela situação que o incomodava. De repente, ele disparou para o meio do campo e começou a pisotear o trigo, que ainda não estava muito mais alto que a grama, talvez os fazendeiros tivessem se atrasado para plantá-lo.

— O que você está fazendo? Acho que eles vão ficar muito bravos com você! — disse Chue, embora apenas ficasse ali observando.

— Eu é que estou bravo! Olhe só para a quantidade de brotos laterais que esse trigo tem! Eles nem pisotearam isso!

— Pisotearam? — Maomao inclinou a cabeça, confusa, enquanto observava o Irmão do Lahan atravessar o campo de um lado para o outro como um caranguejo interessado em agricultura.

— É preciso pisar no trigo para estimular o desenvolvimento de rebentos. Isso também fortalece as raízes e torna o trigo mais resistente. Mas olhe este campo! Eles não vieram aqui uma única vez! E também não fizeram isso em nenhum dos outros campos! Mais brotos significam mais espigas! Mais espigas significam uma colheita maior! E olhe para essas plantações patéticas!

— Uau. Isso sim é um verdadeiro agricultor.

— Quem é agricultor?!

Ué... Quem mais?

O Irmão do Lahan continuou sua ridícula caminhada de caranguejo pelo campo de trigo. Talvez não soubesse, não gostasse ou não quisesse admitir, mas ele era um agricultor até a raiz.

Chue deve ter decidido que pisotear o trigo parecia divertido, porque se juntou ao Irmão do Lahan, andando de um lado para o outro pelo campo. Foi então que ficou claro que, se Maomao não se juntasse a eles, aquilo nunca terminaria.

Eles ainda estavam andando de lado como caranguejos quando os aldeões começaram a acordar. Logo, eles se aglomeraram e ficaram olhando, observando de uma distância segura o comportamento bizarro dos visitantes.

Basen surgiu no meio da multidão.

— O que vocês estão... fazendo? — perguntou ele. Pessoalmente, Maomao não queria ser interrogada sobre comportamentos estranhos por um homem com um pato no ombro.

[Kessel: A Natsu tá se soltando na comédia recentemente, ou sou eu que estou achando mais graça das coisas?]

— Não dá para chamar o que eles fazem por aqui de agricultura! — exclamou o Irmão do Lahan de onde estava sobre o tapete.

— Por favor, falem mais baixo durante as refeições, está bem? — disse Chue. Ela estava enfiando pão nas bochechas como um esquilo.

Maomao e os outros tinham voltado para a tenda e decidido começar tomando o café da manhã. Havia pão achatado com espetinhos de carne de ovelha e baozi. Na lareira, uma panela de ensopado fervia com uma sopa de trigo e carne de ovelha. Diziam que estavam tomando chá, mas não era como nenhum chá que Maomao já tivesse visto. A cor era mais clara que a da maioria e ele era feito com leite de cabra em vez de água quente.

Parece que laticínios e carne de animais são os alimentos básicos daqui. Não há muitos vegetais. Provavelmente haveria ainda menos se aquilo não fosse uma aldeia agrícola.

Todos comeram juntos na tenda grande. O mingau de Chue não ficou pronto a tempo, então seria servido no jantar. A batata descascada tinha sido cortada em fatias finas e estava cozinhando junto à lareira.

Basen sentou-se em frente à lareira, então Chue, Maomao e o Irmão do Lahan puderam ficar em algum lugar aquecido. Os outros que tinham vindo com eles, incluindo os soldados que serviam como guarda-costas, sentaram-se ao redor deles, formando uma espécie de círculo.

A sopa estava quente, mas tinha um sabor fraco; Maomao pegou um pouco de sal de Chue e colocou uma pitada em sua tigela. Os espetinhos eram muito mais satisfatórios do que qualquer coisa que se pudesse comprar em uma barraca de rua na capital Imperial. O pão que servia de bandeja era duro; era preciso quebrá-lo em pedaços e mergulhá-los na sopa. Com um pouco de queijo aquecido por cima, ficava delicioso.

Quanto aos vegetais, havia alguns na sopa e dentro dos baozi, mas a quantidade deixava a desejar.

— Por que eles não sabem cultivar trigo? Estou dizendo, essa é a questão! Você tem ideia de quanto maior seria a colheita se pisoteassem a plantação?

— Tenho certeza de que você está certo. Se não vai comer seu queijo, posso ficar com ele?

— Ei! Eu nem respondi e você já está comendo!

Chue tinha arrancado o queijo do prato do Irmão do Lahan com um único movimento rápido.

Ela não precisa fazer isso.

Queijo era uma das coisas que havia em abundância ali. Ela parecia estar pegando o queijo do Irmão do Lahan apenas para irritá-lo.

Enquanto Maomao e os outros comiam, conversaram sobre o que tinha acontecido nos campos mais cedo naquele dia.

— Viemos até aqui para inspecionar as fazendas. Então, o que você descobriu, Irmão do Lahan? — perguntou Basen, que já parecia considerar “Irmão do Lahan” o nome dele. Normalmente, ele talvez fosse mais meticuloso e perguntasse como ele realmente se chamava, era quase como se alguma força sobrenatural estivesse agindo.

— Eu não... Eu já disse, meu nome é...

— Você trouxe aquelas batatas para semente. Presumivelmente, pretende plantá-las — interrompeu Maomao.

— Eu já te disse: o Lahan mandou plantar as batatas se encontrássemos algum lugar adequado. E, já que ele me pediu, sinto que preciso levar o pedido dele até o fim, mesmo sendo meu irmão mais novo que não vale nada...

Para alguém de uma família tão terrível, ele é surpreendentemente íntegro.

Ainda assim, o irmão do Lahan emanava algo que fazia dar vontade de provocá-lo.

— Certo, então você mencionou os campos de trigo. Tem algum problema com eles?

— Vários! Essas pessoas realmente acham que prepararam esses campos direito? — O irmão do Lahan tomou um gole de sopa.

— Admito que não sou especialista, mas eles realmente merecem ser criticados desse jeito só porque não fizeram esse negócio de pisotear o trigo? — perguntou Basen.

Maomao concordava com ele. Sem dúvida, pisotear o trigo melhorava a plantação, mas não era como se o trigo não fosse crescer sem isso. Talvez aquelas pessoas estivessem ocupadas com outras coisas, e o pisoteio do trigo tivesse acabado ficando de lado. Afinal, a criação de animais era mais importante na província de I-Sei.

— Não é só o pisoteio. Os métodos de plantio deles são uma bagunça. Eu entendo que tenham feito semeadura direta, mas pelo menos precisam distribuir as sementes de maneira uniforme! Isso sem falar que começaram a plantar tarde demais na estação. E precisam de mais fertilizante, muito mais! A cor do solo estava toda desigual!

— Uau, você realmente entende do assunto. Batata?

— Eu não entendo do assunto! E estou cansado de comer batata!

Maomao não tinha nenhuma objeção; aceitou de bom grado a batata-doce assada que Chue lhe ofereceu. Estava perfeitamente doce e deliciosa por si só, mas, quando passava um pouco de manteiga por cima, ganhava uma riqueza ainda maior. Chue evidentemente compartilhava da apreciação de Maomao, porque discretamente pegou algumas, cortou-as e começou a cozinhá-las.

Maomao entendia o que o irmão do Lahan queria dizer, mas até ela conseguia pensar em uma possível contestação.

— Os métodos de agricultura não variam de uma região para outra? Talvez, como eles criam tantos animais aqui, o trigo não seja considerado tão importante. Por que desenvolver técnicas refinadas para trabalhar com uma cultura secundária?

— Você não está errada. Estou dizendo que o problema aqui não é ignorância, é indiferença. Eles nunca vão conseguir uma colheita que se preze se continuarem assim. Essas pessoas conhecem as técnicas, simplesmente não se dão ao trabalho de usá-las.

— Porque têm outras fontes de renda, certo? Isso é tão grave assim? — perguntou Basen, tomando um gole de chá com leite.

— É isso que estou dizendo!

— Quer dizer que você está se perguntando por que eles fazem questão de praticar uma agricultura ruim quando podem ganhar dinheiro de outras maneiras, não é? — disse Maomao. Ela achava que começava a entender o que o irmão do Lahan queria dizer.

— É... Sim. É isso que quero dizer — respondeu o irmão do Lahan, relaxando um pouco agora que finalmente sentia que alguém o havia compreendido.

— Não estou entendendo — disse Basen.

— A senhorita Chue também não está entendendo. Explique de um jeito que ela consiga entender — disse Chue.

— Se eles conseguem se sustentar inteiramente com o pastoreio nômade, por que não fazer isso? — disse Maomao. — Fixar-se em um lugar para plantar campos só torna mais difícil criar animais. O que significa que deve haver alguma vantagem em uma vida sedentária que faça essa troca valer a pena.

— É. Você ficaria exausto tentando fazer esse tipo de coisa enquanto viajava — observou Basen.

— Exatamente. Não é nada incomum que povos nômades que criam rebanhos se estabeleçam e se tornem agricultores, incluindo, ao que parece, o dono desta tenda. Então, eles se tornaram agricultores porque não tinham outra escolha ou porque achavam que havia algum benefício específico nisso? Se fizeram isso voluntariamente, pelos benefícios, não seria de esperar que tivessem mais interesse em melhorar suas colheitas?

O irmão do Lahan assentiu vigorosamente diante da explicação de Maomao, embora os outros dois continuassem com expressões confusas.

— Acho que não sou muito boa em explicar. Faz algum sentido? — perguntou ela.

— Quer dizer... Eu entendo que tem alguma coisa errada aqui — disse Basen.

— É difícil colocar em palavras, não é? — disse Chue.

Maomao gemeu e deu uma mordida na batata, que já havia esfriado. Não havia nada remotamente doce por ali, então a doçura da batata se destacava ainda mais.

Foi então que Maomao olhou para a entrada da tenda. Duas crianças espiavam os visitantes com curiosidade. Um menino e uma menina de cerca de dez anos, provavelmente irmãos.

— Querem um pouco? — perguntou Maomao.

As crianças pareciam um pouco intimidadas, mas estenderam as mãos para a batata-doce, que nunca tinham visto antes. Cada uma deu uma mordida, e seus olhos se arregalaram.

— Podemos comer mais? — perguntaram.

— Podem. Mas talvez possam responder algumas perguntas para mim primeiro — disse Maomao. Já que as crianças tinham vindo até eles, aquela seria a oportunidade perfeita para conseguir algumas informações.

Depois do café da manhã, eles percorreram a aldeia com as crianças.

— Suas famílias estão cuidando dos campos como deveriam? Não estão fazendo as coisas de qualquer jeito, estão? — perguntou Chue aos irmãos, sem rodeios.

O irmão e a irmã trocaram um olhar.

— Mas não dá para fazer as coisas de qualquer jeito em um campo, dá?

— Dá, não?

— Acho que crianças tão pequenas não vão entender o que você quer dizer, senhorita Chue.

— Acha que não, senhorita Maomao? — Ela deu outra batata cozida às crianças.

— Os adultos dizem que conseguem dinheiro para começar as plantações. Mas não sei se é isso que significa fazer as coisas de qualquer jeito.

— Dinheiro? Quer dizer, vendendo o trigo?

O irmão mais velho balançou a cabeça.

— Não. Hã... Eles dizem que a gente recebe o dinheiro mesmo se não cultivar as plantações, então a vida fica fácil...

— Ei! Vocês dois! Mandamos vocês ficarem longe dos convidados! — berrou um dos adultos, e os irmãos saíram correndo, assustados, embora não o bastante para deixar cair as batatas.

— Não! Esperem! — chamou Maomao, mas era tarde demais. Eles já tinham ido embora.

Então eles recebem dinheiro mesmo sem cultivar nada? Aquilo parecia suspeito. Se fosse verdade, explicaria por que não sentiam nenhuma obrigação de cuidar das plantações.

— Sinto muito. Essas crianças fizeram alguma coisa errada? — perguntou Maomao.

— Não, nada — respondeu o aldeão, embora continuasse lançando a Maomao e aos outros um olhar de desculpas.

Nesse caso, Maomao desejou que ele não tivesse gritado. Ele havia mandado embora dois informantes jovens e bastante cooperativos. Maomao gostaria de ter perguntado mais sobre o dinheiro que, supostamente, estava naqueles campos.

Não parece que estão escondendo alguma coisa, pensou enquanto continuavam a caminhar pela aldeia. À primeira vista, era tudo tranquilo e pacífico.

Sem nada de extraordinário. Não havia praticamente nenhum estabelecimento comercial; as pessoas viviam principalmente do que produziam. Disseram que um comerciante passava por ali a cada dez dias, mais ou menos. Os aldeões eram gentis e amigáveis. Era difícil imaginar que estivessem fazendo alguma coisa errada.

Talvez as crianças tenham simplesmente entendido alguma coisa errada e nós estejamos pensando demais nisso.

Havia, porém, um homem que parecia estar levando aquilo muito mais a sério do que Maomao.

— Pobre Gege! Você está parecendo pronto para quebrar alguma coisa. Tente sorrir! — disse Chue, sempre pronta para provocar o irmão do Lahan.

O irmão do Lahan fez uma careta e olhou para os campos da aldeia. Ele carregava uma sacola cheia de batatas-semente. Oficialmente, estavam ali para uma inspeção, mas ele tinha vindo em busca de uma boa oportunidade para apresentar aquela nova cultura, e, se ia dar às pessoas algo novo para cultivar, sem dúvida gostaria que elas demonstrassem um pouco mais de interesse em cultivá-la.

O irmão do Lahan sempre negava veementemente ser agricultor, mas era profundamente dedicado às artes agrícolas. Era um homem comum, bom e paradoxal. Talvez também negasse ser comum, mas o princípio que motivava seu comportamento parecia tão normal quanto o de qualquer outra pessoa.

O mundo está cheio de filhos mais velhos que não têm o menor interesse em herdar a chefia da família, pensou Maomao, mas achou que, se apontasse isso ao irmão do Lahan, ele só ficaria irritado.

Talvez o mais eficiente fosse se separarem e cada um começar a fazer suas próprias perguntas, mas não podiam fazer muito alarde andando de um lado para o outro. O espírito patriarcal estava vivo e forte na província de I-Sei, e era improvável que uma mulher estranha andando sozinha por toda parte fosse bem recebida. Poderiam designar um guarda para acompanhá-la, mas seria Maomao quem faria a maior parte das perguntas, então isso não resolveria o problema.

Chue não parece ter problema nenhum em fazer o que bem entende, porém.

Ela havia dito que tinha assuntos para resolver e desapareceu em algum lugar. Podia ser uma pessoa estranha, mas Suiren a aceitava, então provavelmente estava segura.

A melhor opção de Maomao seria convencer o irmão do Lahan ou Basen a fazer as perguntas por ela. Se tivesse que escolher um dos dois, escolheria o irmão do Lahan… Basen andava com um pato atrás dele, e os aldeões estavam lançando olhares estranhos em sua direção.

Felizmente, Maomao não precisou convencer o irmão do Lahan a fazer nada… ele já estava fazendo exatamente o que ela queria. Ou seja, perguntando aos aldeões se havia ocorrido algum dano causado por insetos recentemente.

— Insetos, é? — disse um dos aldeões.

— Sim. As pragas não foram particularmente ruins no ano passado?

— Hmmm... Bem, há pragas que aparecem todos os anos. No ano passado foi igual a todos os outros. Causam bastante dano, isso é certo, mas de alguma forma conseguimos passar por isso. Podemos agradecer ao governador por termos comida na mesa.

O governador. Seria Gyoku-ou? Então os gafanhotos tinham sido numerosos, mas não o bastante para consumir toda a safra?

— Hrm. Certo. Mais uma coisa, então. Aquele campo ali, de quem é? Gostaria de conhecê-lo. — O Irmão de Lahan apontou para um dos campos de trigo.

— Aquele? Ah, aquele é o campo do Nianzhen. Ele é um homem velho que mora nos arredores da vila. Não tem como errar o lugar, há um santuário bem ao lado.

— Obrigado. Vou dar uma olhada.

— Você não está mesmo pensando em ir falar com ele, está? — O aldeão pareceu bastante desconfortável.

— Estou. Tem algum problema?

— Bem, olha, eu não vou impedir. É só que... O velho às vezes consegue pegar a gente de surpresa. Mas não é uma pessoa ruim. Se isso não incomodar vocês, acho que está tudo bem.

Havia algo estranho no tom do aldeão. Se alguma coisa, aquilo só os deixou ainda mais curiosos.

Maomao e os outros seguiram para os arredores da vila, como o aldeão havia indicado.

— Com licença — disse Maomao, puxando a roupa do Irmão de Lahan.

— Hã?

— O que faz você estar tão interessado justamente naquele campo?

— Não consegue perceber? É o único bonito daqui.

— Bonito?

Talvez houvesse descrições melhores para um campo, ou talvez coisas melhores para chamar de bonitas, mas o Irmão de Lahan estava falando sério.

— Os outros campos estão todos desorganizados, mal distribuídos, só aquele está devidamente dividido em seções. Ele também foi pisoteado, o trigo está crescendo bem, forte.

— Se você diz.

Depois que ele apontou, ela achou que talvez conseguisse enxergar a diferença, mas, infelizmente, Maomao não tinha tanto interesse assim em trigo.

Não parece que haja capim-mondo por aqui...

Pensar em trigo naturalmente a levou a pensar em plantas medicinais. A planta em que estava pensando, às vezes chamada de barba-de-serpente, na verdade não tinha nada a ver com trigo. Especificamente, ela estava pensando nas raízes. O trigo contaminado com ergot podia ser usado medicinalmente, embora suas propriedades tóxicas costumassem chamar mais atenção. Como ainda não havia espigas, de qualquer forma, era difícil despertar muito interesse nela.

Não há plantas boas em lugar nenhum por aqui!

Maomao estava prestes a sofrer de uma deficiência crônica de ervas medicinais, uma condição agravada pela grande variedade de medicamentos com que tivera contato desde que se tornou assistente médica.

Remédios! Quero ver alguns remédios...

Só de pensar nisso, teve uma crise repentina, e sua respiração ficou ofegante.

Nem sequer encontrou algum medicamento interessante à beira da estrada durante o caminho até ali.

— E-Ei, você está bem? Não parece muito bem — disse o Irmão do Lahan, preocupado.

— D-Desculpe. Não é nada...

Era fácil dizer isso, mas ela queria ver algumas drogas. Sentir o cheiro delas. Aceitaria qualquer coisa, mesmo que fosse venenosa. O que havia por perto que poderia servir como medicamento? Talvez as ovelhas que pastavam tranquilamente nos campos.

Será que dá para usar os chifres delas como remédio? Não consigo me lembrar direito...

Ela achava que se chamava ling yang jiao, e yang significava “ovelha”. Aquelas, porém, deviam ser de um tipo diferente, porque seus chifres não se pareciam nem um pouco com os que Maomao já tinha visto sendo usados medicinalmente.

Talvez ainda tenham um efeito parecido...

Com os braços estendidos como um ghoul faminto, Maomao estendeu as mãos em direção à ovelha mais próxima da cerca.

[Kessel: Não é a melhor descrição do mundo, mas… para quem não sabe o que é um ghoul, tenta imaginar um zumbi!]

— Ei! Opa! Eu sabia que tinha alguma coisa errada com você! — O Irmão do Lahan prendeu as mãos dela atrás das costas. Maomao sabia perfeitamente que seu comportamento estava estranho, mas seu corpo parecia agir por conta própria. Ela só precisava de remédio… qualquer remédio!

— R-Remédio... — murmurou, tentando fazer o Irmão do Lahan lhe trazer algum tipo de droga, qualquer coisa.

— Remédio? Você está doente?

— O que está acontecendo aqui? — perguntou Basen, aproximando-se com seu pato.

— Ela disse que precisa de remédio.

— Precisa? Pensando bem, Lady Suiren me deu uma coisa antes de partirmos. — Basen tirou um objeto envolto em tecido das dobras de sua roupa. — Ela disse que, se a “gata” começasse a agir de forma estranha, eu deveria mostrar isso a ela.

O pacote estava marcado com Um. Ele o desembrulhou lentamente: havia alguma coisa seca dentro.

— C-Cavalo-marinho!

Talvez mais conhecido pelo nome de bastardo do dragão. Estranhas criaturas aquáticas que não eram exatamente peixes nem insetos.

Basen imediatamente tornou a esconder a criatura seca.

— Não!

— Hmm, vamos ver... — disse Basen, examinando um bilhete que estava dentro do pacote. — Quá! — grasnou o pato, lendo por cima do ombro dele. — “Se Maomao começar a agir de maneira estranha, mostre a ela o conteúdo deste pacote. No entanto, não permita que ela fique com ele imediatamente. Depois que o trabalho estiver concluído, ela poderá ficar com um deles.”

Era Basen quem lia o bilhete, mas, de alguma forma, Maomao ouvia a voz de Suiren.

É ela e aquela velha bruxa...

Suiren não lidava com Maomao exatamente da mesma maneira que a madame da Casa Verdigris, mas tinha seus próprios métodos… e eles funcionavam. Ela já viu Jinshi várias vezes acenar com recompensas medicinais diante da apotecária, então sabia muito bem o que funcionava com Maomao. O fato de ela ter dado aquilo a Basen, até mesmo com um bilhete, provava que ela ainda o via como um garotinho inocente que precisava de uma babá para mostrar a ele como fazer Maomao fazer o que ele queria.

— Você ouviu a Lady — disse Basen. — Já se recuperou do seu pequeno ataque?

— Sim, senhor! Estou novinha em folha! — Ela ergueu as mãos para demonstrar.

— Como isso é possível? Quem já ouviu falar de um remédio que funciona só de olhar para ele?! — exigiu o Irmão do Lahan, não deixando de se intrometer.

— Dizem que a doença começa no espírito. Enfim, não se preocupe com isso. Precisamos nos apressar e fazer nosso trabalho — disse Maomao.

E conseguir aquele cavalo-marinho!

Diziam que cavalos-marinhos aumentavam a vitalidade.

— Não, parem. Isso não faz sentido. Tem alguma coisa errada aqui. Alguma coisa está errada aqui!

— Não sei, Irmão do Lahan. O jeito como você fica repetindo a mesma coisa me lembra alguém...

Especificamente, alguém com o cabelo desgrenhado e óculos.

— Eu já disse que meu nome não é Irmão do Lahan! É...

— Bom, é melhor irmos andando. O tempo está passando — disse Basen, interrompendo o Irmão do Lahan antes que ele pudesse dizer seu nome. Aquilo já estava praticamente virando uma piada recorrente. Teriam que tomar cuidado para não exagerar.

O agricultor havia mencionado um santuário, mas ele não se parecia exatamente com os santuários aos quais Maomao estava acostumada. Era feito de tijolos e não tinha janelas. Dentro, havia um tecido pendurado e, no lugar de uma estátua, uma pintura dos deuses na parede.

Ao lado do santuário havia um barraco, aparentemente a casa mencionada pelo aldeão.

— Certo, lá vamos nós — disse o Irmão do Lahan, que ainda não parecia achar que aquela fosse uma boa ideia. Ele bateu à porta. Então esperou.

Não houve resposta.

— Talvez ele tenha saído?

— Acha que ele está trabalhando? Tenho certeza de que precisa cuidar de algumas ovelhas ou do campo, ou coisa assim. — Já estava quase na hora do almoço, então esperavam que ele voltasse em breve.

Foi então que uma voz baixa e rouca veio de trás deles.

— Posso ajudar?

Maomao e os outros se viraram e encontraram um homem mais velho, de pele bronzeada, parado ali. Ele segurava uma enxada e tinha um pano enrolado ao redor do pescoço, a própria imagem de um agricultor. Suas roupas, remendadas em alguns pontos, estavam manchadas de terra escura.

Sim, ele era mesmo um agricultor, mas a mão de Basen foi imediatamente até a espada, e ele assumiu uma postura de combate. Maomao entendeu o motivo.

— Ei, calma. O que acha que está fazendo? Vai atacar um simples agricultor?

A pele bronzeada do homem estava coberta de manchas, algumas causadas pela idade, outras pelas longas horas passadas sob o sol escaldante. Aquilo, porém, não era o que havia deixado Basen em alerta.

Não. Era o fato do homem não ter o olho esquerdo. A cavidade se abria em seu rosto, simplesmente sem o globo ocular. O dedo indicador da mão direita, que segurava a enxada, também havia sido perdido, e sua pele exposta estava coberta de cicatrizes de espadas e flechas. Maomao entendeu por que o aldeão parecia tão intimidado e por que Basen reagiu por instinto. Aquele homem tinha a presença não de um agricultor, mas de um soldado.

— O senhor já serviu no exército? — perguntou Basen, tomando o cuidado de soar educado.

— Nada tão grandioso assim. Eu era só um gafanhoto causando problemas nas planícies.

Gafanhoto...

Uma escolha de palavras marcante. E havia outra coisa que incomodava Maomao.

— O senhor estava trabalhando nos campos? — perguntou ela antes que pudesse se conter.

Havia a enxada em suas mãos e a lama em sua camisa, ela reconhecia aquelas manchas.

— O que mais acha que eu estaria fazendo? — perguntou o homem, embora não parecesse particularmente incomodado.

A pergunta de Maomao realmente parecia óbvia, mas havia algo que lhe ocorreu enquanto observava os campos da vila.

— É que eu não achava que alguém normalmente ficasse tão sujo trabalhando no campo.

Não ficaria tão imundo nem mesmo cuidando do trigo, não naquela época do ano. A poeira dos campos estava seca; desde que não se fizesse questão de usar terra úmida, ela não deveria grudar daquela maneira.

— Diga-me, um homem chamado Rikuson passou por aqui?

— Hrm... Vocês são amigos dele? — O agricultor piscou para eles com seu único olho e então abriu a porta do barraco. — Entrem. Pelo menos posso oferecer leite de cabra.

Ele encostou a enxada na parede e fez sinal para que entrassem.

O velho realmente era Nianzhen, e sua casa era tão simples por dentro quanto por fora.

Na verdade, é muito parecida com a minha casa, pensou Maomao, imaginando seu barraco no bairro das cortesãs. Nianzhen tinha uma lareira, uma cama simples e uma mesa muito modesta; fora isso, havia apenas ferramentas agrícolas. Sua casa parecia dedicada à agricultura da mesma maneira que a de Maomao era dedicada à medicina.

Pelo que vejo neste cômodo, ele parece um homem bastante simples.

Mas aquelas cicatrizes espalhadas pelo corpo, não pareciam marcas de um homem que tivesse ganhado a vida como um agricultor honesto.

Havia três cadeiras dentro da casa. Nianzhen deixou os visitantes se sentarem enquanto permanecia de pé, despejando leite de cabra em xícaras de chá lascadas. O pato bicava o chão de terra. Devia ter caído algum grão ali.

— Vocês têm razão: um homem chamado Rikuson passou por aqui. Deve ter sido uns dez dias atrás. — Apenas um dia antes de Maomao e os outros o encontrarem na capital do oeste.

— Sabe o que ele veio fazer aqui? — Maomao perguntou. Originalmente, ela pretendia deixar Basen ou o irmão do Lahan conduzir a conversa, mas, como havia sido ela quem mencionou Rikuson, cuidaria daquela parte.

— O que ele veio fazer? Tudo o que fez foi pegar uma enxada e me ajudar a arar a terra.

— Arar? Quer dizer, para preparar o plantio da primavera?

O trigo podia ser cultivado em duas épocas. As sementes plantadas no inverno podiam ser colhidas na primavera ou no começo do verão, enquanto as plantadas na primavera podiam ser colhidas no outono.

— Não, não. Eu preciso mesmo fazer o plantio da primavera, mas não foi por isso. — Nianzhen colocou o leite de cabra sobre a mesa e empurrou as xícaras na direção de Maomao e dos outros. Basen parecia não ter muita certeza sobre aquela bebida desconhecida, mas Maomao agradeceu a oportunidade de umedecer a garganta. Era leite de cabra normal, morno, mas sem nada de estranho.

— Pode parecer um pouco exagerado, mas fiz com que ele me ajudasse no ritual.

— Ritual? — perguntou Maomao. Basen e o irmão do Lahan trocaram um olhar, tão confusos quanto ela. — Quer dizer algum tipo de cerimônia para pedir uma boa colheita?

— Mais para evitar uma colheita ruim.

— Desculpe... Isso está um pouco difícil de entender. Poderia explicar com mais detalhes?

Em resposta, Nianzhen se sentou na cama, com a língua para fora. Seus modos pouco refinados estavam aparecendo. — Vocês três estão dispostos a ouvir um velho tagarelar por um tempo? Os moradores daqui certamente não estão.

— Olhe, senhor, não temos muito tempo a perder — disse Basen, começando a se irritar.

— Ah, bem, desculpem-me. — Nianzhen se deitou e virou de lado na cama.

Maomao se levantou, erguendo uma mão para impedir Basen. — Senhor, sinto muito. Por favor, conte-nos o que tem a dizer. — Ela abaixou a cabeça. Pedir desculpas não custava nada, afinal. Se ele ia ficar todo ofendido com aquilo, era melhor simplesmente se desculpar.

— Hrrm, não sei — disse Nianzhen. Vindo de outra pessoa, poderia ter soado brincalhão. Nele, porém, soou sádico. Acho que não estou mais com vontade.

— Veja lá como fala! — Basen estava prestes a avançar, mas Maomao o deteve novamente. O irmão do Lahan, pouco acostumado a conflitos, havia se tornado um mero espectador.

Eu sei que ele é esquentado, mas queria que parasse de arrumar briga. Ela conhecia a força de Basen e duvidava muito que um velho tivesse alguma chance contra ele. Mas quem sabe? Às vezes, esses velhos teimosos acabam sendo mais durões do que parecem. Talvez Basen conseguisse derrotar o velho fisicamente, mas e se ele simplesmente se recusasse a admitir a derrota e fechasse a boca?

Isso seria ruim para nós.

Maomao tinha a sensação de que Nianzhen estava apenas sendo teimoso. Ele os deixou entrar em sua casa quando mencionaram Rikuson… ela suspeitava que, na verdade, havia algo que ele queria tirar do peito.

— O que podemos fazer para que o senhor converse conosco? — perguntou Maomao, da maneira mais humilde que conseguiu.

— Hrm. Bem, que tal um pequeno jogo de adivinhação?

— Senhor? O que exatamente devemos adivinhar?

— Simples. O que eu era.

É, simples. Se ao menos eu soubesse o que ele quer dizer.

Basen e o irmão do Lahan continuavam olhando um para o outro. O pato fez o que Basen não conseguia e bicou os pés do velho.

— Tudo bem, vou tentar — disse Basen, mas Nianzhen fez um gesto com a mão, que tinha dedos de menos.

— Não estou perguntando a você, garoto. Estou falando com a garota ali.

— G-Garoto? — Basen se esforçou para se controlar. Para um velho tão marcado por cicatrizes quanto aquele, ele realmente não passava de um jovem insolente.

Portanto, apenas Maomao tinha o direito de responder. A questão era: o que deveria dizer?

Nianzhen... É um nome bom, forte. Significava “intuir a verdade”. Espero que ele seja tão honesto quanto o nome sugere e que tudo o que nos contou se ja verdade, pensou ela, repassando mentalmente o que ele havia dito. Nianzhen chamou a si mesmo de “gafanhoto”, um inseto nada favorável para um agricultor.

Então ele destrói plantações?

Nianzhen não tinha o indicador da mão direita nem o olho esquerdo.

Um agricultor normalmente não se machuca desse jeito. Mas ele diz que nunca esteve no exército.

Ele devia, no mínimo, ter participado de algum tipo de batalha. De várias, a julgar pela extensão dos ferimentos.

Sem o dedo, ele não conseguiria usar uma arma. Principalmente um arco...

Maomao se viu pensando nos bandidos que os haviam atacado no dia anterior. Eles e seus braços quebrados provavelmente já estavam nas mãos das autoridades.

Só há alguns destinos possíveis para ladrões como aqueles. Enforcamento, por exemplo. O melhor que podem esperar é a mutilação...

Então ela se lembrou de Nianzhen dizendo que Rikuson o havia ajudado em algum tipo de cerimônia.

— Nianzhen — disse ela.

— Sim? — Sua atitude parecia desafiá-la a adivinhar. O irmão do Lahan olhava para Maomao com o que parecia ser indignação, embora isso não importasse para ela. Talvez ele não gostasse do fato de ela já saber o nome daquele velho aleatório mesmo tendo acabado de conhecê-lo.

Isso não é o problema agora. Maomao inspirou e soltou as palavras de uma vez:

— O senhor era um sacrifício humano?

Todos ficaram imóveis.

— Que tipo de resposta é essa?! — exigiu Basen.

— Você não conhece a expressão? É quando alguém é sacrificado ainda vivo.

— É claro que conheço! O que eu não sei é por que você acha que isso tem alguma coisa a ver com esse velho. Ele obviamente ainda está vivo!

Enquanto os sacrifícios adequados tendiam a terminar mortos.

Maomao, porém, manteve sua resposta.

— Ele não perguntou por quê. Apenas o quê.

Ela olhou para Nianzhen, que não demonstrava nenhuma das expressões de incredulidade ou irritação de Basen. Em vez disso, parecia de algum modo satisfeito.

— Sim — disse ele. — Entendo. Um sacrifício. Talvez fosse isso que eu era.

Nianzhen soltou um longo suspiro e estreitou o único olho que lhe restava.

— Vocês três poderiam fazer a gentileza de ouvir as divagações de um velho tolo?

Seu tom era leve, mas havia uma profunda emoção em seu olhar.

— Se o senhor nos permitir, teremos prazer em ouvir — respondeu Maomao.

Dessa vez, Basen e o irmão do Lahan, atentos para não irritar Nianzhen novamente, abaixaram a cabeça em respeito.

[Kessel: Estou curioso! Eu quero saber!!!]

Fim da leitura

Capítulo 10.07 concluído

Volume 10 – Capítulo 7 – Capítulo 7: A Vila Agrícola (Parte 2)