Diários de uma ApotecáriaVolume 10 – Capítulo 8 – Capítulo 8: As Divagações de um Velho
Capítulo 10.08Isso aconteceu há mais de cinquenta anos, e havia o dobro de nômades em relação ao que existe hoje. Talvez até mais. Eu era um deles, nascido em uma tribo que era... Bem, digamos que mais belicosa do que muitas das outras. Ter um espírito guerreiro soa bonito e tudo mais, mas, na verdade, não passávamos de bandidos. Criávamos principalmente animais, mas, se um de nós quisesse uma esposa, ia até uma das tribos vizinhas ou até algum vilarejo de pessoas assentadas e simplesmente levava uma mulher à força. Roubo e até mesmo a venda de pessoas eram apenas negócios paralelos comuns para nós.
Ah, não me olhem desse jeito. Eu sei que era errado. Mas, naquela época, eu não questionava aquilo, achava que era assim que a vida funcionava. Meu avô havia feito aquilo, e o pai dele também. Tanto minha avó quanto minha mãe eram mulheres sequestradas. Tudo me parecia perfeitamente natural. Mas hoje sei melhor do que ninguém o quão errado aquilo era.
Enfim.
Eu era jovem naquela época, ainda adolescente, mas até mesmo o chefe confiava no meu braço com o arco. Ele sempre queria que eu participasse das incursões. Eu sabia que, se vencêssemos nossas batalhas, comeríamos bem e conseguiríamos mais coisas. Se os perdedores não gostassem, bem, a culpa era deles por terem deixado que nós os derrotássemos. É fácil sentir orgulho quando você nunca experimentou a derrota.
Esse orgulho se espalhou até contaminar toda a tribo.
Então, certo dia, o filho do chefe disse que queria uma garota da tribo dos Leitores do Vento.
A tribo dos Leitores do Vento era... Hã. Algo parecido com sacerdotes, eu acho. Eles eram responsáveis pelos rituais de todos que viviam nas planícies. Percorriam a terra, criavam aves e liam o vento. Havia muitas pessoas extremamente inteligentes naquela tribo, elas conseguiam dizer como seria o clima de cada ano e nunca erravam.
Havia muitos homens durões entre nossos clãs. Pessoas violentas. Mas existia um entendimento não declarado: ninguém tocava na tribo dos Leitores do Vento.
Até que nós quebramos essa regra.
Atacamos a tribo dos Leitores do Vento para conseguir uma esposa para nosso futuro chefe. Os Leitores do Vento estavam bem no meio de um de seus rituais, praticamente sem arco ou espada entre eles. O que eles tinham? Coisas estranhas. Parece que o ritual envolvia aves domesticadas e enxadas. As mulheres seguiam as aves de um lado para o outro, enquanto os homens trabalhavam a terra com suas enxadas.
Engraçado, não? Mas aquele era o ritual, pelo que entendi. Lembro do filho do chefe rindo. De como ele zombou, dizendo: — Eles parecem um bando de agricultores. — E então disse: — Atirem.
Lembro de como meu arco rangeu pouco antes de eu soltar a flecha. Do som que ela fez, do arco que descreveu no ar. Do tchac quando encontrou seu alvo na cabeça de um dos Leitores do Vento.
Aquele foi o sinal para atacar.
Eles estavam indefesos como bebês. Não tinham armas; estavam apenas trabalhando a terra. Não era preciso habilidade alguma para matá-los, era tão fácil quanto encurralar um cervo ferido.
O saque que aconteceu naquele dia foi o pior que já presenciei em toda a minha vida, embora eu só tenha compreendido sua dimensão mais tarde. Não hesitamos em matar aqueles que nos serviam como sacerdotes. Na verdade, isso tornou tudo ainda pior. Talvez fosse o medo de assassiná-los… o medo de que, se deixássemos algum deles vivo, poderiam contar aos deuses o que havíamos feito.
Matamos todos os homens adultos e também as mulheres mais velhas. Deixamos apenas as mulheres jovens vivas. Vendemos as crianças menores como escravas e, quanto às aves da tribo? Essas viraram nosso jantar.
Uma história repugnante, não é? Mas nós fizemos aquilo. E, de certa forma, aquilo chegou a ser empolgante.
Foi por isso que não percebemos, não naquela época, mesmo durante o saque, uma ave particularmente estúpida continuava bicando o chão. Lembro de tê-la visto, mas simplesmente atravessei a criatura com minha lança. Só mais tarde descobri que ela talvez tenha sido a única coisa entre nós e o desastre.
Depois disso, deixamos nossos apetites correrem ainda mais soltos do que antes. O filho do chefe tomou a garota dos Leitores do Vento à força, e ela engravidou. Foi por volta da época em que deu à luz seu segundo filho que a catástrofe chegou.
Havia uma enorme sombra escura sobre toda a planície, como uma mancha de carvão contra o céu. A princípio, pensamos que fosse uma tempestade de chuva fora de época.
Então ouvimos o que parecia um zumbido nos ouvidos. Os animais estavam inquietos. As crianças se agarravam a nós, assustadas, e as mulheres as apertavam contra o peito.
Um homem partiu a cavalo, dizendo que iria investigar, mas logo voltou, quase fugindo em nossa direção. Suas roupas estavam em farrapos, assim como seu cabelo e até sua pele. O cavalo estava quase enlouquecido de medo; digo, foi um trabalho acalmá-la. Parecia que alguma coisa a tinha mordido. Perguntamos ao homem se ele havia sido atacado.
Parece que vocês já têm uma boa ideia do que ele encontrou, mas deixem um velho explicar direitinho. Os moradores daqui não acreditam nem um pouco nessa história. Dizem que não há nada desse tamanho por aqui há décadas.
Enfim, o batedor nem precisou nos contar o que havia encontrado, porque, um momento depois, aquilo nos encontrou.
Insetos. Insetos por todo o nosso acampamento, mais do que era possível contar. Gafanhotos.
Eles eram uma nuvem negra que atacava nossas tendas. O bater de suas asas era ensurdecedor, e a única coisa pior era o som de suas mandíbulas mastigando. As ovelhas que pastavam nos campos fugiram, aterrorizadas, e os cães uivavam como animais possuídos.
Os homens brandiam suas espadas inutilmente, mas o que pretendiam fazer? Espantar os bichos do céu com golpes de espada? Tentamos usar tochas, mas não poderíamos ter tido uma ideia pior. Gafanhotos em chamas rastejaram por toda parte, sobre tudo e todos, e a tragédia só piorou.
Comecei a pisotear os insetos no chão; era a única coisa que consegui pensar em fazer. Nenhum deles era maior que alguns sun, mas era como se estivéssemos dentro da barriga de um gafanhoto gigante.
As mulheres tentaram se esconder nas tendas, mas os insetos entraram pelas frestas. Eu podia ouvir as crianças chorando lá dentro. Podia ouvir suas mães gritando; elas nem sequer paravam para consolar os filhos. Despejavam insultos sobre os maridos, sobre os homens que não conseguiam proteger suas próprias famílias dos insetos. Eram mulheres que haviam sido arrancadas de suas próprias casas para se tornarem esposas e, agora, colocavam para fora tudo o que haviam guardado dentro de si até aquele momento.
A grama não era suficiente para aquelas criaturas; elas também atacaram nossos estoques de comida. Trigo, feijão e vegetais, é claro, mas até nossa carne seca foi devorada. Elas roeram buracos em nossas tendas. Quando finalmente partiram, tudo o que deixaram para trás foram pessoas exaustas de tanto gritar e incontáveis gafanhotos mortos.
Tinham comido tudo, e nossos animais haviam fugido.
De algum modo, conseguimos encontrar um cavalo e seguimos até um vilarejo para tentar conseguir algum tipo de alimento. Sabíamos que, para eles, éramos apenas bandidos, então tentamos escolher alguém que não reconhecessem. Mas não foi suficiente. Assim que ele chegou perto, atiraram nele. Nunca imaginamos que atirariam em alguém sem sequer tentar descobrir primeiro quem ele era.
Nós fugimos. Ele não conseguiu nos acompanhar, mas continuamos correndo mesmo assim. Lembro-me dele estender a mão para nós, implorando por ajuda, mas não havia nada que pudéssemos fazer por ele. Então simplesmente o deixamos para trás.
Olhei para trás uma única vez. Os moradores haviam arrastado nosso companheiro e seu cavalo para dentro do vilarejo. Acho que deveríamos ter imaginado. Não éramos os únicos devastados e deixados passando fome pelos gafanhotos.
Apenas rezei para que o homem que abandonamos não tivesse sofrido antes de morrer. Eu sei. Engraçado, não? Uma oração vinda daqueles que haviam assassinado seus sacerdotes.
Não tínhamos mais nada para comer, então matamos os poucos animais que nos restavam. Fizemos uma sopa, tentando completá-la com algumas ervas, mas tudo o que conseguimos foi passar mal. Algumas das crianças estavam com tanta fome que chegaram a comer os gafanhotos no chão, e então uma delas morreu. Talvez os gafanhotos fossem venenosos, ou talvez elas tivessem comido os insetos sem arrancar as pernas primeiro; não sei. Elas definhavam por falta de nutrientes e, depois, começaram a morrer quando ficaram fracas demais para continuar.
Então havia as mulheres grávidas… elas precisavam do dobro de nutrientes que o restante de nós, então, é claro, também ficaram fracas. Seus corpos definhavam, mas suas barrigas continuavam crescendo. A esposa do próximo chefe estava assim, não havia comida para ela depois da tragédia. Seu primeiro filho se agarrava a ela, chupando o dedo para tentar se distrair da fome.
Não será surpresa para vocês saber que o segundo nasceu morto.
A morte de seu filho quase destruiu o filho do chefe, e ele sofreu outro golpe quando sua esposa morreu pouco depois do parto.
Com o que lhe restava de forças, ela disse:
— Seus desgraçados profanaram o ritual, e agora não restam mais Leitores do Vento para cumprir os ritos por vocês! Os insetos atormentarão o povo das planícies para todo o sempre!
Ela devia estar guardando aquelas palavras há anos, desde que matamos seu povo e a sequestramos. Ela soltou uma risada abafada e morreu abraçada ao filho definhado contra seu corpo emaciado.
As pessoas começaram a concordar que era como ela havia dito: nós éramos a causa daquele desastre, por termos interrompido a realização do ritual. Todos nas planícies passaram a nos considerar inimigos.
Não vou fingir que não merecíamos aquilo, mas, ainda assim, queríamos sobreviver. Comíamos grama, comíamos insetos, matávamos e éramos mortos, e continuávamos fugindo.
Um homem faminto chegou ao ponto de comer a carne do amigo morto. Quando aquilo não foi suficiente, começou a tentar matar os vivos para conseguir comida. Meu olho esquerdo? Perdi-o para uma flecha disparada por alguém que queria me comer. Arranquei a flecha de volta e atirei nele.
Eu não queria comer nem ser comido, então fugi. Mas não havia para onde fugir, e acabei morrendo de fome, com a garganta seca. Incapaz de suportar mais aquela fome, segui o cheiro de mingau de arroz até uma cidade. Estavam distribuindo comida graças à benevolência do governador local. O mingau que distribuíam era uma papa sem gosto, que mal serviria para alimentar animais, mas, para mim, foi a coisa mais maravilhosa que já havia comido.
Eu ainda estava fungando e chorando quando os guardas me prenderam. Parece que alguém na cidade me reconheceu por algum ato de banditismo. Não resisti. Já estava cansado de lutar, só esperava que me dessem comida na prisão. A ideia de fazer algumas refeições decentes antes de ser enforcado encheu meu coração de alegria.
Nunca cheguei a ser enforcado.
Em vez disso, como punição, cortaram meu dedo para que eu nunca mais pudesse usar um arco. Depois me transformaram em agricultor. Até hoje, acho que saí barato, considerando o que fiz.
O governador, como descobri, conhecia os Leitores do Vento e seu ritual. Eles tinham permissão para continuar realizando aquele misterioso ritual relacionado à comida porque estavam sob a proteção do governador. Talvez não soubéssemos o que o ritual significava, disseram-me, mas ele significava alguma coisa.
O quê? Quem era esse governador? Ele já morreu, junto com o restante do clã Yi, como imagino que vocês saibam. Isso foi antes daquele arrivista chamado Gyokuen ganhar fama.
O clã Yi conhecia o ritual dos Leitores do Vento, e foi por isso que nos espalhou por toda a região como servos da terra, para substituir os Leitores do Vento.
Infelizmente, tudo o que um servo da terra pode fazer é trabalhar a terra. Os Yi não sabiam o que os Leitores do Vento faziam com suas aves e, de qualquer maneira, as galinhas eram praticamente tudo o que tínhamos por aqui. Então continuamos com o ritual, mas de forma incompleta.
Então vocês estavam certos. Permitiu-se que eu vivesse apenas para que o ritual continuasse. Sou um sacrifício humano que, por acaso, chamam de servo da terra.
Esta vila foi fundada por sacrifícios como eu. Construímos aquele santuário em memória dos Leitores do Vento que matamos. Paguei com minha vida, uma ninharia comparada ao assassinato de nossos sacerdotes e à desgraça que trouxemos sobre nós. Tenho certeza de que ninguém que tenha prestado alguma atenção a nós diria que a troca valeu a pena.
Isso nos leva a dezessete anos atrás. Quando o clã Yi foi exterminado, os agricultores desapareceram para onde bem entenderam. Alguns tolos, homens que sempre foram do tipo bruto, voltaram ao banditismo. Ahh, conheço esse olhar. Vocês encontraram alguns bandidos na estrada. Quem sabe? Talvez eu os reconhecesse se os visse.
Querem saber por que fiquei aqui? Simples… porque nunca mais quero ter gafanhotos me dilacerando. Não, nunca mais...
Muito bem, chega de divagações. Alguma pergunta para mim?
[Noelle: Pessoal que capítulos hein? Peço desculpas por poucos comentários, mas essa foi uma das traduções mais difíceis que fiz até hoje, um último trabalho que meu amigo e revisor e Kessel vai estar em conjunto comigo. Nem preciso dizer o quanto foi bom pois vocês mesmos desfrutaram dos nossos textos, e a sintonia que a gente tem e o match foi incrível, que é muito difícil de se achar em uma equipe de trabalho. Obrigada Kessel por tudo, e espero poder trabalhar contigo novamente um dia. E para os leitores, continuarei o trabalho. Só peço paciência, pois preciso de uma adaptação, por que, traduzir, revisar com qualidade e ainda postar requer tempo, e para uma adulta CLT cansada isso pesa, então vou atualizando vocês de como será nossas programações… talvez também demore para responder os comentários aqui, e também do discord, mas saibam que darei o melhor para seguirmos essa história maravilhosa da Apotecária com leitura de qualidade. Nos vemos na próxima semana!]
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