Diários de uma Apotecária — Capítulo 10.09: Volume 10 – Capítulo 9 – Capítulo 9: Rito e Ritual

Diários de uma Apotecária
Cap. 10.09
0%
Diários de uma Apotecária

Volume 10 – Capítulo 9 – Capítulo 9: Rito e Ritual

Capítulo 10.09

7.109 palavras~31 min de leitura

Nianzhen tomou um gole de leite de cabra morno para umedecer a garganta ressecada. Maomao, Basen e o irmão do Lahan esperaram em silêncio.

Eu não esperava conseguir tantas informações dele, pensou Maomao. Ela teria que tentar organizar tudo o que ele tinha contado.

Ela cruzou os braços. Então, mais de cinquenta anos atrás, Nianzhen e sua tribo destruíram os Leitores do Vento, e vários anos depois disso ocorreu uma grande praga de insetos. Nianzhen acreditava que a praga foi causada pela interrupção do ritual. Ele se tornou um servo, destinado a passar o resto da vida realizando aquele ritual. Aquilo parecia um resumo justo.

Acho que o ritual envolve arar a terra?

Isso ainda não fazia muito sentido para Maomao… mas fazia para outra pessoa.

— Nianzhen? É Nianzhen, certo? Você está falando da revira de outono, então?

Maomao e Basen olharam para o irmão do Lahan, intrigados, eles não conheciam aquela expressão.

— É exatamente o que o nome diz: arar depois da colheita, no outono — explicou ele.

— E isso é... bom? Não seria mais eficiente arar pouco antes de plantar as culturas? — perguntou Basen. Maomao concordou com ele.

— Conheço algumas vantagens. Para começar, você pode melhorar o solo revirando ele e espalhando cogumelos-de-palha ou algum outro fertilizante. Além disso, isso ajuda a eliminar os ovos depositados no solo pelos insetos que atacam as plantações.

As orelhas de Maomao se mexeram, e ela agarrou o irmão do Lahan pela gola. — Repete isso!

— Er... ah, você pode espalhar cogumelos-de-palha...

— Não, a outra parte!

— Eliminar os insetos que atacam as plantações?

— Isso! — Maomao o sacudiu violentamente.

— Ei, para com isso — disse Basen, segurando-a. — Você está sufocando ele! — Maomao soltou o irmão do Lahan.

— Ai! Caramba! É tão emocionante assim? É uma atividade agrícola bem comum — disse ele, claramente acreditando que aquilo era de conhecimento geral.

— Não sei se existem muitos agricultores por aí tão dedicados quanto você! — retrucou Maomao.

— Er... Ah. Você acha mesmo? — O irmão do Lahan claramente estava com sentimentos conflitantes. Ele apreciava o elogio, mas tinha dificuldade em aceitá-lo.

— Sim, é exatamente isso que estou fazendo — interrompeu Nianzhen. — Uma rápida olhada nesta vila provavelmente já mostrou a vocês: não importa se as pessoas daqui sabem o que fazer ou não; a maioria simplesmente não se importa em fazer. E, se o conhecimento não é usado, ele se perde.

[Noelle: isso é verdade né gente, não sei aí onde vocês estão, mas aqui eu já percebo que a pamonha e o pão de queijo já não é com já foi na minha infância, eu fico imaginando também aquelas costureiras que a gente leva as coisas para arrumar, essas coisas provavelmente se perderão com o tempo, infelizmente. ]

Maomao sentiu um aperto no peito. O irmão do Lahan tinha dito que o velho era o único na vila que tentava manter um campo em boas condições.

— Posso perguntar uma coisa? As pessoas daqui estão mesmo se esforçando para cultivar trigo? Tenho a impressão de que elas não estão, bem... se esforçando muito — disse Maomao, descaradamente repetindo o que ouviu do irmão do Lahan.

— Então — disse Nianzhen —, isso é óbvio até mesmo para os visitantes, não é?

— Sim, senhor. Seu campo está muito mais bonito que os outros. — Enfim, foi isso que um agricultor profissional me disse.

— Não estou tentando deixá-lo bonito. Só estou tentando conseguir uma colheita melhor, e o campo acaba ficando assim. Posso dizer que nunca imaginei que seria o único a trabalhar até me acabar por aqui.

— É engraçado como a vida dá voltas. — A provocação de Basen deve ter doído. Ele era um militar sério e dedicado. Maomao conseguia entender por que ele veria com maus olhos alguém que fez coisas que o colocaram no fundo do poço da humanidade, mesmo que isso tivesse acontecido mais de cinquenta anos atrás. Ele poderia até estar se perguntando por que aquele homem não recebeu uma punição mais severa.

Maomao precisava admitir que também não conseguia evitar se perguntar a mesma coisa. Mas sabia que executar Nianzhen não teria mudado nada. Como ele foi deixado vivo, pelo menos eles podiam conversar com ele e descobrir o que ele sabia.

Como será que Rikuson descobriu sobre ele?

Talvez, assim como Maomao, ele simplesmente tivesse caminhado pela vila e, assim como o irmão do Lahan, tivesse percebido a qualidade dos campos. Ou talvez tivesse ouvido falar de Nianzhen por alguém da capital do oeste.

Eles estavam falando de criminosos que se tornaram servos cinquenta anos ou mais atrás e que foram libertados dessa condição há muito tempo. Rikuson ainda era uma figura nova nessa região; Maomao duvidava que tivesse vindo para cá sabendo sobre eles.

Bem, perguntar era mais rápido do que ficar pensando.

— Você sabe se Rikuson veio a esta vila porque descobriu sobre o ritual?

— Sim, foi isso. Eu não achava que ainda houvesse alguém que soubesse sobre o ritual. Nem o governador parece ter ouvido falar dele. Rikuson disse alguma coisa sobre um conhecido ter mencionado isso. — Nianzhen pousou a xícara de leite agora vazia, e se mexeu sobre a cama de aparência dura.

— O governador não sabe sobre isso? O senhor está se referindo ao Mestre Gyokuen? — Em sua história, Nianzhen descreveu Gyokuen como um governador arrivista.

— Ah, desculpe, escolhi mal as palavras. Não ele. Sim, o Mestre Gyokuen é o governante da província de I-sei, mas é o filhote dele que tem administrado as coisas ultimamente.

— Está falando do filho dele?

— Sim, aquele... como é mesmo o nome? Gyoku-ou.

Parecia que um ex-bandido e ex-servo não estava inclinado a demonstrar respeito excessivo pelo governador. Não que Maomao se importasse, mas Basen parecia ter se incomodado com a atitude de Nianzhen. Pelo menos, ela disse a si mesma, ele resistiu à tentação de partir para a briga com o sujeito.

— Tive a impressão de que o Mestre Gyoku-ou é muito bem-visto nesta vila. O que está por trás disso? Tem alguma coisa a ver com o ritual? — perguntou Maomao.

— Dificilmente. Ele é popular, simples assim. Nunca pune os agricultores, mesmo quando há uma colheita ruim. Na verdade, ele é tão generoso que, se não temos comida suficiente, ele nos dá dos estoques. Inferno, quase dá para conseguir mais desse jeito do que fazendo um trabalho decente de verdade.

— Uau, queria poder dizer o mesmo — interrompeu o irmão do Lahan.

— É, ele é um cara muito compassivo. Muitos dos nômades estão se estabelecendo. Dizem que vão viver melhor como agricultores. — Por trás das palavras de Nianzhen, Maomao achou ter percebido um tom de desprezo.

— Seria de se esperar que um líder tão compassivo quisesse dar continuidade ao ritual — disse o irmão do Lahan, pousando a xícara vazia sobre a mesa com um tinido.

— Como eu disse, ele não conhece o ritual. Ele não entende. Nem mesmo o clã Yi sabia exatamente o que era o ritual ou como ele funcionava. O que eles me fazem realizar hoje em dia é apenas uma imitação pálida, baseada no melhor que eles sabem.

— Então esse ritual não tinha nada a ver com fazer pedidos aos deuses… na verdade, era uma forma de impedir as pragas de insetos — disse Maomao.

— É o que eu acho. Era o trabalho que eu e os outros servos recebemos em troca de nossas vidas. Se não quiséssemos fazê-lo, azar o nosso, eles nos obrigavam. Alguns caras não aguentaram e tentaram fugir, e outros simplesmente se esquivaram do trabalho, mas as autoridades pegaram todos eles e os enforcaram. O que eles esperavam, depois de cuspirem na chance de receber uma punição mais leve? Quando dizem que você ara os campos ou morre, você ara como se sua vida dependesse disso.

O que Nianzhen fez nunca seria simplesmente perdoado ou esquecido, então o que mais ele poderia fazer?

— Depois de uma década, começaram a nos dar algumas moedas com base no tamanho da colheita. Não era muito, mas significava que podíamos começar a economizar, e isso era tudo. Estamos perto da capital do oeste, acho que a proximidade aumentou a renda da colheita. Era algo tão simples, mas isso nos fez participar, fez com que começássemos a pensar em como poderíamos melhorar a produção, impedir que as plantações adoecessem ou afastar os insetos. Parte da razão pela qual começamos a criar galinhas foi para que elas comessem os insetos que apareciam quando arávamos os campos.

— Quá — grasnou o pato, não que isso tivesse alguma relevância.

— Então as aves usadas pelos Leitores do Vento não eram galinhas? — perguntou Maomao.

— Não, não eram. Galinhas não são adequadas para uma vida nômade.

— Mas, se não eram galinhas, então... — Basen ficou muito sério. — Devem ter sido patos!

— Não, não eram patos! Qual é o seu problema? — explodiu o irmão do Lahan.

Basen franziu a testa diante daquela resposta imediata.

— Patos comem insetos. E são maiores que galinhas, o que significa que podem comer mais insetos... Certo?

— Patos gostam de água. Isto aqui é um deserto. Ninguém vai criar patos!

— Tenho uma prova irrefutável de que você está errado — disse Basen, apontando para seu pato. — Até mesmo aves aquáticas podem crescer grandes e fortes aqui se se empenharem nisso.

— Quem já ouviu falar de um pato conseguindo se empenhar em alguma coisa?! — questionou o irmão do Lahan, mas não adiantava: Basen era um completo fã de patos. O animal aos pés dele pareceu estufar o peito.

[Noelle: kkkkkkkkkkkk Na cabeça de Basen os patos: sem dor sem ganho parça kkkkkkkkkkkkkkkkk Basen sendo um fofo kkkkk]

— Detesto acabar com a sua alegria, mas eles não eram... patos, foi assim que você os chamou? Nunca vi um desses antes — disse Nianzhen. O irmão do Lahan deu um sorriso malicioso para Basen, que ficou emburrado e fez um carinho na cabeça do pato.

— As aves são exatamente o que está faltando para realizarmos o ritual dos Leitores do Vento. Essas aves não serviam para comer insetos, elas eram usadas para encontrá-los. Ninguém consegue simplesmente adivinhar onde haverá insetos em todas essas vastas planícies, consegue? Eu diria que foi porque os Leitores do Vento sabiam fazer isso que o clã Yi lhes concedeu sua proteção.

E agora ali estava um servo, um sobrevivente de uma tribo dizimada que acreditava que os Leitores do Vento e seus rituais não passavam de superstição.

— Certo, posso voltar ao trabalho? Ainda há muita coisa para fazer. — Nianzhen se levantou com dificuldade.

— Claro, senhor. Seja lá o que ainda precise fazer, talvez permita que nós o ajudemos? — perguntou Maomao, antes de olhar para Basen ou para o irmão do Lahan em busca de aprovação.

— Vocês visitantes da capital do oeste têm hobbies estranhos. O seu Rikuson disse a mesma coisa. Claro, eu agradeceria. Sou o único ex-servo por aqui. Todos os outros vieram para esta vila depois; não dão a mínima para os campos de ninguém além dos próprios. Sou só eu quem cuida dos campos dos caras que foram embora, e fica mais difícil a cada ano...

Nianzhen já devia estar perto dos setenta anos. Velho o bastante para poder morrer a qualquer momento, mas continuava trabalhando sem parar.

Não consigo aceitar o que ele fez, mas ainda assim.

Enquanto Nianzhen se afastava arrastando os pés, Maomao teve a impressão de conseguir ver grilhões em torno de seus tornozelos.

Durante os dois dias seguintes, mais ou menos, Maomao e os outros ajudaram Nianzhen com seu trabalho. Eles reviraram a terra com ferramentas agrícolas, encontrando formigas, minhocas e pequenos besouros no solo úmido… e algo mais: longos aglomerados finos que, ao observá-los mais de perto, revelaram ter pequenos ovos em seu interior.

As galinhas começaram pelas minhocas, mas, quando elas acabaram, passaram para aqueles aglomerados de ovos. O pato de Basen se juntou a elas, bicando o chão.

Ovos de gafanhoto?

Maomao teria gostado de calcular quantos provavelmente haveria em um campo de um tan, mas não tinha tempo. Sempre que encontrava um aglomerado de ovos que as aves tinham deixado passar, ela o retirava da terra e colocava em um pote.

Esses provavelmente são os maiores, pensou ela.

Era o tipo de trabalho que deixaria alguém com medo de insetos completamente louco. Até Maomao, que tinha bastante experiência com dissecação de gafanhotos, não gostava de olhar para aqueles pequenos aglomerados de ovos.

O irmão do Lahan e Basen araram várias vezes mais terra do que Maomao conseguia. O irmão do Lahan mostrou que era um verdadeiro agricultor: a maneira como segurava e usava a enxada era simplesmente diferente, enquanto que a força absurda de Basen, pela primeira vez, foi bem útil para ele.

Fico feliz que Basen tenha se disposto a se juntar a nós aqui. Ele poderia ter recusado, alegando que aquilo não era trabalho de soldado; nesse caso, ela não teria podido fazer muita coisa. Mas ele parecia ter levado a sério a preocupação de Jinshi com os gafanhotos e se juntou ao trabalho sem reclamar. Provavelmente aquilo parecia fácil comparado com a criação de patos.

A disposição de Basen em participar convenceu os guardas e agricultores que tinham vindo da capital do oeste a ajudar também. Parecia que conseguiriam arar todo o campo naquele mesmo dia. Até Chue estava ali, correndo pela terra revirada e recolhendo todos os ovos de gafanhoto que encontrava. Duas crianças vinham logo atrás dela: o irmão e a irmã para quem ela tinha dado a batata. Eles pareciam acreditar que, se ajudassem, talvez ganhassem outra batata em troca.

— Senhorita Maomao! Senhorita Maomao! Eu peguei um monte! Quer ver?

— Senhorita Chue! Senhorita Chue! Eu não quero ver. Mas, se você tiver uma ooteca de louva-a-deus, vou aceitar com prazer. — Os ovos de louva-a-deus podiam ser transformados em um medicamento chamado sang piao shao, ou cápsula de ovos de louva-a-deus, que era bastante valioso por ser difícil conseguir em grandes quantidades.

— Esses ovos estão eclodindo… tem uns bichinhos saindo deles! Tem certeza de que não quer ver, senhorita Maomao?

— Bem, estamos na primavera. E sim, tenho certeza. Eles são nojentos; por favor, não os mostre para mim.

Pela enciclopédia de insetos da fortaleza do clã Shi, Maomao tinha aprendido que os gafanhotos viviam por cerca de três meses e podiam colocar mais de cem ovos de uma vez. Os ovos eclodiam na primavera, e a nova geração colocava mais ovos no verão.

Eu devia ter pedido que trouxessem o livro do clã Shi sobre insetos… e o de ervas medicinais também, já que estamos nisso.

Quanto mais informações tivessem, melhor seria para eles.

Não era como se os gafanhotos se reproduzissem durante o ano inteiro. Naquele momento, os ovos colocados no outono anterior estavam começando a eclodir. A “revira de outono” era uma boa ideia, ela revelaria os ovos escondidos na terra, que então serviriam de alimento para aves ou pequenos animais.

Acho que me lembro de Lahan falando sobre isso. Como ele tinha chamado? Multiplicando-se como ratos?

Digamos que um único casal de ratos tivesse doze filhotes, totalizando quatorze ratos. Suponhamos que seis dos filhotes fossem fêmeas, sete no total, contando a mãe. Cada uma delas poderia ter outros doze filhotes.

É claro que aquilo era apenas uma hipótese acadêmica; nem todos os ratos sobreviveriam até a idade adulta. Mas os gafanhotos se multiplicavam praticamente da mesma maneira, o que significava que era crucial reduzir sua quantidade o mais cedo possível no ciclo.

Se um aglomerado de ovos tem cem, então dez são mil, e cem seriam dez mil. Eles poderiam reduzir em várias ordens de magnitude a quantidade de gafanhotos que teriam de enfrentar no futuro se conseguissem cuidar dos ovos agora.

Os gafanhotos gostavam de colocar seus ovos em terra um pouco úmida. Acho que, com o rio logo ali e bastante grama para comer, este é o lugar perfeito para eles. Talvez parte da terra tivesse sido deixada deliberadamente sem cultivo justamente para atrair os gafanhotos.

Diziam que havia várias outras vilas como essa estão espalhadas pela província de I-sei… mas quantas delas ainda estavam funcionando?

Nianzhen se aproximou de Maomao carregando um pote de ovos de gafanhoto. — Tudo o que precisamos fazer agora é queimar isso.

— Parece ótimo para mim.

— Hum. No ano passado, demorei para fazer isso, e muitos gafanhotos escaparam.

Ela se lembrava dos agricultores da vila dizerem que o ano anterior tinha sido ruim por causa dos danos causados pelos insetos.

— Então a colheita foi ruim? — perguntou ela.

Nianzhen assentiu. — Só deu o suficiente para comermos, e não temos reservas. Se tivéssemos que pagar impostos além disso, provavelmente teríamos morrido de fome. Então não teria sobrado nada para comprarmos as necessidades do dia a dia dos comerciantes, e teríamos sido obrigados a vender nosso gado.

— Mas o governador isentou vocês dos impostos, certo? Na verdade, ele até enviou ajuda.

— Isso mesmo. Aquele governador é um homem de boa índole — disse Nianzhen, mas, novamente, parecia dizer aquilo entre os dentes.

Maomao decidiu não ficar rodeando o assunto. — O senhor não parece estar falando isso de verdade. Posso perguntar o que o incomoda tanto nele?

— Sei que um ex-bandido não está em posição de criticar, mas essas pessoas pegam tudo o que conseguem. Elas imploram, bajulam e suplicam por cada migalha… são como gafanhotos. Se estão tão preocupados em não morrer de fome, talvez devessem tentar cultivar alguma coisa! Mas não precisam se dar ao trabalho, porque, se têm uma “colheita ruim”, o dinheiro aparece. O que você faria se pudesse ganhar tanto ou mais ficando à toa do que se acabando de trabalhar nos campos?

— É por isso que nenhum dos campos desta vila parece bem cuidado?

— Exatamente. Foi a mesma coisa com os gafanhotos no ano passado. Todo mundo simplesmente ficou parado, vendo os insetos destruírem seus campos. O chefe da vila só estava pensando em como escrever a carta para conseguir o máximo de compaixão possível do governador. Enquanto isso, eu ia de planta em planta, tirando os gafanhotos das folhas, um por um. Eles acharam que eu era um idiota!

Aquilo dificilmente parecia atitude de alguém que um dia foi o mais desprezível dos bandidos. O terror da praga anterior parecia ter deixado uma marca permanente em Nianzhen.

Não... Talvez eu esteja errada.

Talvez Nianzhen sempre tivesse tido um lado diligente. Nascido e criado para a vida de bandido, ele aprendeu a usar um arco e se destacou naquilo que lhe disseram ser importante: matar.

Afinal, ninguém nasce sabendo a lógica da vida.

— A julgar pela forma como a vila está agora, eles devem ter recebido bastante dinheiro no ano passado — disse Maomao.

— Com certeza sim. Tem sido assim há mais de uma década. Sempre a mesma coisa. Eles têm uma quebra na colheita, e o governador salva a pele deles. Um governador bom e gentil.

Bom e gentil, hein?

Ela se perguntou de onde vinha todo aquele dinheiro para ajudar os agricultores. Talvez fosse excedente do comércio? Ela tinha visto como a capital do oeste era próspera, parecia haver dinheiro mais do que suficiente circulando para separar algumas pequenas moedas para uma vila agrícola.

— Se vão gastar todo esse dinheiro por aqui, acho que seria bom construir um ou dois canais de irrigação — disse Maomao.

Quando as pessoas precisavam fazer menos esforço físico para transportar água, novos tipos de trabalho surgiam. Mais campos poderiam ser cultivados. Aos olhos de Maomao, seria um investimento inteligente.

— Aquele homem, Rikuson, disse a mesma coisa — falou Nianzhen.

— É mesmo? — Quando voltassem à capital, ela teria que descobrir como Rikuson ficou sabendo daquele ex-servo.

— Acho que devo me desculpar por fazer vocês passarem todo esse tempo me ajudando por aqui — disse Nianzhen. — Havia alguma outra coisa de que vocês precisavam nesta vila?

— Alguma outra coisa... — Maomao apoiou o queixo no cabo da enxada e fechou os olhos. — Ah!

Ela foi até o irmão do Lahan, que não estava apenas revolvendo a terra, mas começava a formar sulcos.

— Está planejando fazer um campo aqui? — perguntou ela.

— Ah!

O rosto dele está dizendo: Droga! Eu sempre faço isso! O irmão do Lahan podia negar o quanto quisesse, mas era um agricultor até a raiz.

— Você não vai falar para as pessoas sobre suas batatas? Foi para isso que as trouxe, não foi?

— Sim, bem, você pensaria que sim, não é? — resmungou o irmão do Lahan. — Mas você viu essas pessoas — elas não estão realmente interessadas em trabalhar nos campos. Acha mesmo que se dariam ao trabalho de cultivar batatas se eu desse algumas a elas? Duvido que usariam os campos que já têm para cultivar novas plantações, mas também não parecem dispostas a se dar ao trabalho de abrir novas áreas.

— Faz sentido — disse Maomao.

— Foi por isso que eu estava tão ansioso para conhecer a única pessoa daqui com um campo decente!

— Hã?

— É, mas não adianta dar as batatas para o velho.

— Acho que não.

Como o último dos antigos servos daquela vila, Nianzhen precisava cuidar do próprio campo e também realizar o arado do chamado ritual. Normalmente, o arado teria terminado no outono, mas ali ela estava se arrastando até a primavera… um sinal claro de como faltava ajuda para ele.

— Você não acha que poderíamos deixar alguém aqui para ajudar? — perguntou Maomao, olhando para os agricultores que tinham trazido da região central.

O irmão do Lahan pareceu pensar por um instante, mas então disse: — Eles só vieram de tão longe, da região central, porque eu vim. Não posso simplesmente deixá-los aqui trabalhando a terra em um lugar que mal conhecem. Seria trágico demais, não acha?

— É, justo.

O jeito de irmão mais velho do irmão do Lahan aparecia nos momentos mais estranhos. Ele poderia ter sido um ótimo filho mais velho, se tivesse nascido em uma família normal.

— Ainda bem que meu pai não está aqui. Ele juraria que faria eles entenderem a glória das batatas, e aí sabe-se lá o que ele faria!

— Se me permite dizer, não consigo imaginar o pai do Lahan tomando as rédeas da situação dessa forma. — Na mente de Maomao, ele era uma figura tranquila, quase no estilo de Luomen. — E também... A glória das batatas?

— Ah, ele descreveria a beleza das flores, o formato das folhas, as raízes graciosas e flexíveis...

— São batatas. Ele poderia pelo menos se concentrar no fato de serem deliciosas e saborosas.

Maomao olhou para os irmãos que seguiam Chue por todos os lados. Ela colocou o pote no chão e foi até eles.

— Ei, vocês gostariam de outra daquelas batatas? — perguntou ela, agachando-se para ficar na altura dos olhos deles.

— Sim, queremos!

— Queremos batatas!

Os olhos das crianças brilharam.

— Nunca comemos algo tão doce antes! É mais doce que uvas-passas!

— Uvas-passas? — disse Maomao.

— Doces são valiosos por aqui — interrompeu Chue. — Eles não têm mel, e açúcar não é barato. — Ela colocou o grande pote sobre a cabeça e girou.

Então doces valem mais aqui do que na região central.

— Acho que podemos usar isso. — Maomao voltou para o irmão do Lahan, sorrindo.

Havia um grande buraco cavado atrás da casa de Nianzhen. Ele estava coberto de marcas de queimadura, talvez normalmente fosse usado para queimar lixo ou algo assim.

— É aqui que você queima os ovos de gafanhoto? — perguntou Maomao a ele.

— É. Eles não queimam fácil, então é preciso adicionar combustível.

Provavelmente se referindo a óleo ou esterco animal. A lenha e o carvão que Maomao e os outros consideravam coisas comuns quase poderiam ser considerados produtos de luxo por ali.

— Já que temos todos esses ovos para queimar, não me importaria de tentar algo diferente — sugeriu Maomao.

Nianzhen olhou para ela. — O que funcionar. O que você tem em mente?

— Talvez eu possa pegar isto emprestado. — Ela apontou para uma panela grande que estava do lado de fora. Era velha, mas resistente; se tirassem a ferrugem, parecia que ainda seria bastante útil. A grama seca e os insetos mortos dentro dela comprovavam há quanto tempo estava abandonada.

— Claro. Divirta-se.

Maomao imediatamente virou a panela de cabeça para baixo e começou a esfregá-la com uma escova de junco.

— Aqui está, senhorita Maomao! — disse Chue. Ela tinha trazido água do rio, que Maomao usou de bom grado. — Que panela enorme você tem aí! Grande o bastante para fazer qingjiao rousi para trinta pessoas!

— Será que usavam isso para cozinhar? — perguntou Maomao enquanto ela e Chue ficavam uma de frente para a outra, esfregando a panela.

— Era usada para fazer o arroz dos servos. Eles cozinhavam o suficiente para o dia inteiro de uma vez — disse Nianzhen.

— Hah! Então havia muitos servos — disse Chue. Maomao tinha contado a história de Nianzhen para ela, mas a incomum dama de companhia não parecia muito incomodada. Era como se, para ela, pouco importasse se estava lidando com um ex-bandido ou até mesmo um assassino. — Então isso era um prato de servir? — Chue pegou uma bandeja redonda de metal.

— É um espelho. Costumava ficar no santuário.

Espelhos às vezes eram usados em rituais. Aquele talvez tivesse sido polido até brilhar, em algum momento, mas agora estava coberto de marcas de ferrugem e quase não refletia nada.

— Já que estamos polindo as coisas, quer que a gente dê um jeito nisso também? — perguntou Chue, esfregando-o com o braço.

— Claro, se puder. Eu mesmo não tive tempo para fazer isso.

Talvez os servos tivessem dividido a tarefa de poli-lo, em algum momento do passado, mas era simplesmente coisa demais para Nianzhen cuidar sozinho.

Quanto os moradores da vila realmente sabem? perguntou-se Maomao. Eles pareciam tratar Nianzhen como um excêntrico, mas não eram abertamente hostis com ele. Também não pareciam particularmente preocupados com uma praga de insetos. Será que os moradores eram simplesmente muito tranquilos?

Maomao não conseguiu evitar pensar em voz alta: — Será que esta vila sobreviveria se algum dia fosse atacada por bandidos?

Ela falou quase para si mesma, mas Chue respondeu alegremente:

— Ah, eles ficariam bem! Eles podem estar estabelecidos agora, mas costumavam ser nômades. Eles têm arcos e espadas nas cabanas, todos encordoados, afiados e prontos para serem usados. Além disso, eles conhecem o terreno… você teria que ser um bandido muito corajoso para atacar este lugar!

— Isso explica por que eles atacam viajantes em vez disso — disse Maomao.

O que será que aconteceu com aquele nosso guia?

Parecia melhor não pensar muito nisso, mas havia algo que ela precisava perguntar. — Por que você decidiu usar a gente como isca, senhorita Chue? O Mestre Basen não parecia saber o que você estava planejando, e não seria próprio do Príncipe da Lua ordenar que fizéssemos algo assim.

Jinshi parecia bastante atento à segurança de Maomao ultimamente… até mesmo a presença de Basen como guarda-costas deles parecia ser uma demonstração de consideração da parte dele.

Chue estreitou ainda mais os olhos, que já eram pequenos. — Minhas ordens eram para minimizar os riscos. E não é mais seguro saber quando e onde você será atacado do que não fazer ideia de quando o inimigo vai atacar?

Então Chue também estava pensando na segurança, à sua própria maneira.

— Tudo bem, mas acho que normalmente você tenta esconder o quanto as pessoas estão em perigo. Isso faz com que elas fiquem menos apreensivas.

— Eu sei que você tem muita coragem, senhorita Maomao. Enfim, achei que talvez você apreciasse uma abordagem mais lógica.

— Só quero deixar registrado que, se alguém me desse um soco, eu morreria.

— Entendido e devidamente registrado! Mas, se precisarmos de alguém para sobreviver a algum veneno, você vai entrar em ação!

Chue certamente sabia para que cada pessoa servia.

Enquanto conversavam, a panela ficava cada vez mais limpa. Nianzhen fazia outro trabalho ali perto.

— O que você quer que façamos com isso? Quer dizer, com esta panela? — perguntou Chue.

— Coloquem os ovos de gafanhoto nela — respondeu ele.

Chue recuou com uma intensidade quase cômica.

— Senhorita Maomao...

— Não, não, senhorita Chue, não se preocupe. Não vamos comê-los. Prometo.

— Promete mesmo? — Chue ainda não parecia acreditar nela.

— Sim. Eles não parecem muito saborosos, não é? E são nojentos. Nós deveríamos saber, fomos nós que os recolhemos. — Maomao já tinha comido insetos adultos, mas até ela recusaria ovos de insetos.

— Vamos despejar óleo neles...

— E fritá-los?

— E queimá-los.

— Queimá-los?

Maomao pegou a panela e seguiu em direção ao santuário. Era uma construção modesta de tijolos, mas, se fosse limpa e decorada, teria uma aparência bastante imponente.

— Acho que podemos acender uma fogueira aqui. Parece coisa de ritual, não acha? — perguntou Maomao.

— Oh-ho — disse Chue.

— E um ritual precisa de um banquete, certo? — Maomao olhou para as crianças da vila, que ainda estavam por ali. As notícias sobre as batatas deviam ter se espalhado, porque, além do irmão e da irmã, havia agora uma pequena multidão.

— Eu entendi o que você está querendo fazer. — Chue riu. Ela tinha percebido aonde Maomao queria chegar… ótimo. — Deixe a decoração comigo! — Ela puxou uma longa fita vermelha de dentro da gola. — Vamos precisar de uma plataforma para a nossa bela panela. Vou chamar o irmão do Lahan e meu cunhado mais novo para ajudar!

Aparentemente, Chue agora também o chamava de “irmão do Lahan”.

Chue se concentrou em construir a plataforma, então Maomao ficou encarregada de preparar a comida. Ela pegou emprestado o forno da casa de Nianzhen para preparar alguma coisa. Às vezes, Maomao sentia que estava à sombra de En’en, a cozinheira profissional, mas a verdade era que ela mesma não era uma cozinheira nada ruim.

Cozinhar é basicamente como misturar remédios, só que com comida. Você junta os ingredientes e os acompanhamentos para criar algo saboroso.

— O que você está fazendo? — perguntou Nianzhen, estreitando o único olho que lhe restava.

— Um ritual.

— Como é?

— Os rituais deveriam ser celebrações alegres, não é, senhor? E, para isso, precisamos de um banquete.

— Acho que você tem razão... — Ele pareceu inquieto; seu olhar se voltou para o irmão do Lahan.

— Pare! Não use todas elas! Você sabe que eu só trouxe uma quantidade limitada!

O que eram “elas”? As batatas-semente, é claro. Eles tinham decidido fazer daquele festival algo grandioso.

— Eu sei, eu sei. Menos reclamação, mais vapor!

— Você não pode falar com as pessoas desse jeito... Argh!

O irmão do Lahan resmungou irritado consigo mesmo, mas colocou mais combustível no fogão. Ele usou dois gravetos para pegá-lo, talvez sentisse uma resistência instintiva a tocar esterco de ovelha com as mãos nuas, mesmo estando seco.

— Podem usar quaisquer ferramentas que eu tenha pela casa. Se usarem minha comida, eu agradeceria se pudessem me dar algumas moedas por ela. Eu vivo bem no limite — disse Nianzhen.

— Obrigada, senhor — disse Maomao.

— Vou dormir um pouco — disse Nianzhen, deitando-se na cama rudimentar. Ele parecia resistente, mas era um homem velho, e dias seguidos trabalhando nos campos cobravam seu preço.

— Batatas-doces ficam mais doces quando cozidas lentamente, certo? — perguntou Maomao.

— Sim! Você não pode simplesmente assá-las sobre uma chama grande e forte!

Então ele não entende só de cultivo de batatas. Também entende de como cozinhar batatas.

Parecia que Lahan vinha contando bastante com o irmão do Lahan para inventar maneiras de usar batatas-doces. O irmão do Lahan podia ser duro com o irmão mais novo, mas, no fundo, era uma pessoa decente… decente até demais. A maneira como fazia questão de contrariar tudo sugeria uma fase rebelde comum, embora tardia.

— Não sou uma cozinheira muito versátil. O que você acha que podemos fazer com os ingredientes que temos aqui? — perguntou Maomao.

— Por que está perguntando para mim?!

— Porque a senhorita Chue é mais do tipo que come, e o Mestre Basen não vai ajudar em nada.

Chue parecia capaz de fazer mingau de arroz se realmente fosse necessário, mas, quando se tratava de pratos mais elaborados, ela se concentrava no consumo, não no preparo.

— Bem, não sei — disse o irmão do Lahan, secamente. Ele desviou o olhar dela, mas estava obviamente mentindo.

— Entendo — disse Maomao. — Desculpe... Eu só esperava preparar algo de que eles realmente gostassem.

Ela olhou novamente para a porta, onde algumas crianças espiavam. A multidão de crianças que acompanhava o irmão e a irmã tinha crescido bastante.

— Ah, vejam quantos amigos vocês têm — disse ela, falando diretamente com as crianças, algo que não costumava fazer. — Aposto que todos estavam esperando ganhar alguma coisa especial. Alguma coisa deliciosa.

— O quê? — perguntou a irmã, à beira das lágrimas. — Quer dizer... quer dizer que não vamos comer batatas?

— Ah, vão sim, vão sim. É só que... desculpem. Sozinha, não vou conseguir deixá-las muito gostosas.

— Por quê? Você não sabe cozinhar? — perguntou outra criança.

— Ah, eu queria tanto comer batatas. Parece que não vamos ganhar nenhuma — lamentou uma terceira criança.

O irmão do Lahan parecia cada vez mais desconfortável. Ele se curvou, manteve as costas voltadas para elas, mas apenas por um instante. Então soltou um longo suspiro, virou-se e levantou um dedo. — Escutem, seus pestinhas. Vocês querem comida? Então ajudem a cozinhar. Quem não trabalha, não come. Mas quem trabalhar... vai ganhar a melhor comida que já comeu na vida!

As crianças comemoraram, e o irmão do Lahan provou ser o filho mais velho por excelência.

Que coração mole! pensou Maomao enquanto espetava uma batata na panela a vapor com os hashis.

Quando Maomao e seu grupo terminaram de cozinhar, o santuário estava completamente decorado. Chue colocou a panela cheia de ovos de gafanhoto bem no centro, sobre uma pequena, mas bem construída, pilha de tijolos que servia como uma plataforma improvisada.

O modesto santuário estava enfeitado com faixas vermelhas, e lâmpadas alimentadas com gordura animal brilhavam aqui e ali. Havia um barulho metálico; Maomao olhou na direção do som e descobriu que duas placas de metal tinham sido amarradas uma à outra para criar um instrumento de percussão. Quando o vento passava por elas, fazia os pratos tilintarem e as faixas esvoaçarem.

As cadeiras e mesas, se é que podiam ser chamadas assim, eram feitas de barris cobertos com feltro. A “mesa” estava coberta com a comida que Maomao e os outros tinham preparado.

Quando tudo ficou pronto, o sol já tocava o horizonte a oeste.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou alguém. Já não eram apenas as crianças… os adultos também começaram a aparecer.

Quando todos estavam presentes, Maomao despejou óleo na enorme panela. Então acenderam uma fogueira, usando grama seca para começar o fogo.

Um cheiro passou pelo ar, que poderia ser agradável ou embrulhar o estômago; era difícil dizer. A panela começou a queimar intensamente, destacando-se na escuridão que se aproximava.

— O que, cof cof, vocês estão fazendo aqui, estimados visitantes? — perguntou o chefe da vila, perplexo. Vários outros moradores estavam com ele.

— Permitam-me explicar — disse Basen, dando um passo à frente. Chue se aproximou dele e mostrou rapidamente um pedaço de papel.

Cartões roteirizados!

Felizmente, os moradores não perceberam.

— Esta vila foi fundada há muito tempo para realizar um ritual — disse Basen.

— Sim, já ouvimos falar dele — disse o chefe. — Você está falando do “ritual” de revirar a terra que ninguém entende. Agora, só Nianzhen o realiza.

— Isso mesmo. E sei muito bem que vocês não o compreendem. O motivo de termos vindo até vocês hoje é trazer a forma completa e correta do ritual, que vocês conheciam apenas em parte, mas que agora lhes apresentaremos por inteiro.

Muito profundo.

Basen estava recitando um roteiro, e dava para perceber, mas, iluminado pelo fogo por trás, ele ainda conseguia parecer importante, talvez até sagrado. Chue estava muito bem preparada; tinha um maço inteiro de folhas, das quais selecionava as falas apropriadas de acordo com a reação dos moradores.

Ela realmente sabe lidar com o irmão mais novo.

O irmão do Lahan segurava o pato nos braços: deixá-lo andando atrás de Basen poderia estragar a imagem reverente que estavam tentando criar.

O irmão do Lahan cutucou Maomao.

— Isso é verdade? — sussurrou ele. O momento tinha sido tão convincentemente encenado que ele também tinha caído na história, assim como o público.

— Agora é. Tente entrar no clima.

— Espera... não é verdade? — Ele pareceu escandalizado. Enquanto isso, Basen continuou falando com os moradores.

— É mesmo? Vejo que estão preparados para realizar o ritual agora... mas posso fazer uma pergunta antes? — arriscou o chefe da vila.

— O que gostaria de saber?

— Foi apenas Nianzhen quem recebeu a responsabilidade por esse dever, não é? O restante de nós foi trazido para cá pelo governador como colonos… ninguém nos falou sobre ritual algum.

Houve um grande estalo vindo de dentro da panela.

O chefe parecia dizer que os visitantes eram muito bem-vindos para realizar o ritual, mas os moradores não tinham intenção alguma de participar. Pela expressão em seu rosto, estava claro que ele achava que Basen estava tentando impor alguma coisa a eles, e ele não queria isso.

Chue parou de pular de um lado para o outro por um instante, pensativa, e então mostrou outro cartão a Basen.

— Entendo sua objeção. Não precisa ser você quem realiza o ritual. — Basen olhou para Maomao. Atrás dele, Chue lhe deu uma piscadela exagerada. — Mas posso entender, então, que você não se importa com o que acontecer como resultado?

Basen apontou diretamente para Maomao. (Isso também foi orientação de Chue.)

Eles estão tentando jogar essa responsabilidade para mim! Ele parecia estar indicando que deixariam o ritual por conta de Maomao, mas aquilo era muito mais do que ela tinha aceitado fazer. Que diabos eles querem que eu faça?!

Ainda assim, ela precisava entrar no jogo. Ela caminhou para a frente, dando um passo lento e solene de cada vez, em direção à grande panela.

Tem que haver alguma coisa que eu possa tentar. Algum pequeno blefe, alguma coisa para enganá-los...

Maomao colocou as mãos diante do peito, aproveitando a oportunidade para vasculhar as dobras de suas vestes. Ela não carregava tanta coisa quanto Chue, mas tinha algumas ervas e ferramentas de costura. Ela caminhou o mais devagar que conseguiu, tentando pensar em um roteiro. Por fim, chegou diante do caldeirão e baixou a cabeça.

— Este fogo leva nossas oferendas aos deuses. Houve uma época em que outros seres humanos eram nossos sacrifícios, mas os deuses falaram conosco e revelaram que não era essa a forma de sacrifício que desejavam.

Ela tinha pegado aquelas palavras emprestadas de um romance que tinha feito sucesso no palácio interno. No original, elas soavam ainda mais grandiosas, mas Maomao não conseguia se lembrar exatamente de todas as palavras.

— O deus desta terra assume a forma de um pássaro; portanto, foi decretado que a divindade deveria receber uma oferenda de acordo com o alimento preferido de sua manifestação.

Ela tinha avistado uma das galinhas dormindo no galpão.

— Uma divindade pássaro? Mas nós adoramos um deus das pastagens...

— O quê? Quer dizer que, depois de todo esse tempo como agricultores, vocês ainda adoram o seu antigo deus? — perguntou Chue, exagerando de propósito. — Isso explica tudo! Agora entendo por que o trigo de vocês cresce tão mal. Deixe-me adivinhar: fica pior a cada ano, não é? Bem, quem pode culpá-lo, quando as pessoas que vivem aqui nem sequer adoram o deus desta região?

Isso fez os moradores começarem a murmurar entre si. Maomao suspeitava que era verdade que as colheitas estavam piorando cada vez mais; com um cultivo tão negligente, a própria terra acabaria se degradando. Diferentemente do cultivo de arroz em áreas alagadas, os cereais precisavam de um solo bem cuidado, ou a plantação murcharia.

Acho que isso está dando certo?

Parecia bastante promissor. Até que:

— Isso é um monte de bobagem. Acho que a terra está simplesmente esgotada. Toda essa conversa sobre deuses... quem sabe se eles sequer existem? — gritou um dos jovens da vila.

Ah, vamos lá, tenham um pouco de fé! pensou Maomao, ignorando a própria atitude.

Outros moradores começaram a se manifestar:

— Estamos aqui todo esse tempo. Por que falar de deuses e rituais agora?

— É, também não precisamos de uma boa colheita… não com um governador tão compassivo e generoso cuidando de nós!

— Ele tem razão! Não sabemos se os deuses existem, mas sabemos que o governador existe, e sabemos que ele vai cuidar de nós!

Houve um murmúrio geral de concordância.

Só acreditem no que podem ver. Aham. Justo. Maomao simpatizava com eles; não podia dizer que teria feito diferente se estivesse no lugar deles. Mas ela tinha um trabalho a cumprir.

Maomao baixou a cabeça e riu.

— Heh, heh!

— O que é tão engraçado? — exigiu saber um dos moradores.

— Ora, nada. Apenas parece que todos vocês estão sofrendo de um mal-entendido. Permitam-me repetir: não precisa ser vocês quem realiza o ritual — disse ela, repetindo as palavras de Basen. Então ela virou as costas para os moradores, aproveitando a oportunidade para vasculhar as dobras de suas vestes. Ela tomou o cuidado de não deixar que nenhum deles a visse.

Vejamos. O que precisamos é...

Ela fez um grande movimento com as mãos, e a chama no caldeirão disparou e dançou.

— Olhem! O fogo! — exclamou alguém.

As chamas tinham ficado amarelas.

— O que é isso?!

Maomao carregava mais do que apenas ervas medicinais escondidas nas vestes: ela também levava álcool desinfetante. Sem mencionar que ainda tinha uma pitada do sal usado anteriormente na cozinha. Chue também carregava um pouco; ela tinha explicado que era um item de luxo por ali.

Ahh, isso me traz lembranças.

Aquilo mesmo já havia sido, certa vez, a causa de um mistério no palácio interno: o sal queimava com uma chama amarela.

— Vocês não conseguem ver a vontade de Deus? — Maomao pegou o espelho que ficava no santuário. Chue tinha conseguido poli-lo um pouco, mas apenas o suficiente para remover o pior da ferrugem.

Isso é perfeito.

Ela pingou um pouco de álcool no espelho e transferiu parte do fogo da panela para sua superfície. Agora o fogo queimava em um tom azul-esverdeado.

Maomao se virou e colocou seu sorriso de “negócios”.

— Parece que o deus está zangado e entristecido.

O espelho de bronze estava ficando bastante quente com o fogo sobre ele, então ela o colocou ao lado da panela.

Um burburinho começou entre os moradores quando viram as chamas mudando de cor.

— Agora, eu entendo que vocês não participarão do ritual. — Ela olhou para a comida disposta sobre os barris. — Mas parece que preparamos comida demais esta noite. Por que não comem um pouco antes que esfrie?

— Eba! — disseram as crianças, erguendo as mãos. Não seria certo fazê-las ajudar o dia inteiro e depois não lhes dar comida.

Os adultos estavam mais hesitantes, intimidados pelo fogo colorido, mas era inegável que estavam atraídos pela comida incomum, do tipo que nunca tinham visto antes. Quando todos estavam olhando para a mesa, Maomao cutucou Chue. — Não me coloque em uma situação dessas de novo — ela murmurou. Francamente, ela tinha começado a suar frio.

— Eu tinha fé que você conseguiria, senhorita Maomao — disse Chue, inocentemente. Então, sorrindo, ela entrou na confusão geral em torno do banquete.

Espero mesmo que funcione.

Maomao estava exausta. Ela decidiu deixar Chue e os outros cuidarem das coisas dali em diante, ela voltaria para a tenda para descansar.

Fim da leitura

Capítulo 10.09 concluído

Volume 10 – Capítulo 9 – Capítulo 9: Rito e Ritual