Diários de uma ApotecáriaVolume 10 – Capítulo 10 – Capítulo 10: Resultados Reportados
Capítulo 10.1O ar estava impregnado pelo cheiro de chá e doces. O anfitrião dessa reunião de chá tinha a pele tão lisa quanto a de um bebê, e o ambiente estava repleto de uma conversa agradável.
Por essa descrição, talvez você esteja imaginando uma reunião de chá cheia de jovens mulheres animadas… mas você estaria totalmente equivocado.
— Olá, mocinha! Bem-vinda de volta!
O anfitrião dessa reunião era um homem mais velho… e, ainda por cima, um eunuco. Mais especificamente, era o médico charlatão. Ele conversava com Tianyu, colocando tâmaras chinesas secas na boca entre uma conversa e outra. Lihaku estava encostado na parede, de vigia, mas devia estar tudo bastante tranquilo, porque ele tinha algumas nozes e, sempre que podia, quebrava as cascas discretamente.
Essas são nossas nozes medicinais? pensou Maomao, mas decidiu começar cumprimentando o médico.
— Obrigada. Acabei de voltar. Vejo que isto está começando a parecer um consultório médico de verdade.
O consultório, na realidade, era um prédio adaptado no anexo de Gyokuen, agora tinha mais prateleiras e camas do que antes, além de divisórias.
Maomao tinha ficado cerca de dez dias longe do consultório, visitando a vila, e ficou feliz ao descobrir que os outros pareciam ter trabalhado de verdade enquanto ela estava fora.
— Também conseguimos mais móveis para o seu quarto, mocinha. Não se preocupe, está tudo no lugar onde você deixou.
— Certo, obrigada.
Dez dias antes, seus aposentos não tinham nada além de uma cama simples. Ela esperava que, pelo menos, tivessem conseguido arrumar uma escrivaninha e uma estante de livros para ela.
— Não se preocupe, não mexemos em nenhum dos seus pertences — disse o charlatão. — Só dei uma arrumada. Seu quarto estava tão triste e vazio. Acho que agora deve estar bem mais agradável de ficar nele!
Ele parecia estranhamente motivado. A impressão que Maomao teve foi de que ele tinha tido tempo de sobra para redecorar.
— Esse rostinho de bebê aqui realmente se empenhou em deixar o lugar com cara de lar — comentou Tianyu, sem demonstrar mais reverência do que de costume. Maomao estava tendo um pressentimento muito ruim sobre isso.
— Devo entender que não houve nenhum problema sério? — perguntou ela enquanto deixava sua bagagem de lado e começava a abrir as gavetas do novo armário de medicamentos. Seu coração se alegrou ao sentir, depois de tanto tempo, o cheiro de remédios que realmente cheiravam a remédio. Ela também tinha conseguido obter o cavalo-marinho de Basen; teria que prepará-lo mais tarde.
— Hum, não, nada digno de nota — disse o charlatão. — Continuamos fazendo os exames do Príncipe da Lua. De vez em quando aparecia um paciente...
— Na maioria das vezes, eram apenas resfriados comuns. As mudanças de temperatura no navio deixaram algumas pessoas debilitadas — interrompeu Tianyu, frustrado com o jeito relaxado e cheio de rodeios do charlatão. Maomao também preferia ouvir a história da maneira mais direta possível, então seu olhar ia de Tianyu para o armário de medicamentos enquanto continuava conferindo o estoque. — Tivemos uma pessoa que foi picada por um escorpião, mas ficou bem. Um homem que estava com ele tratou-o logo depois da picada, então parece que ele não corria risco de morrer, mesmo tendo agido como se estivesse prestes a morrer.
Tianyu contou aquilo como uma história que tinha ouvido de outra pessoa, provavelmente porque aquela área não era sua especialidade. Certamente não tinha sido o charlatão quem tratou o homem… então quem foi? Alguém que conhecia o veneno de escorpião?
— Temos alguém conosco que entende de veneno de escorpião? — Maomao pegou um pouco de swertia de uma gaveta, arrancou um pedaço e o lambeu. Ela imediatamente se arrependeu: era de um amargo desagradável, embora o sabor certamente remetesse a um remédio.
— Eles lidam com veneno de escorpião o tempo todo por aqui. Uma das mulheres do refeitório nos ensinou como tratá-lo. E, devo acrescentar, ela perguntou em voz alta se nós éramos mesmo médicos.
— Vocês sabiam que eles fritam escorpiões e comem por aqui? — disse o charlatão. — Que ideia assustadora! — Ele franziu a testa.
— Temos que experimentar isso! — disse Maomao, animando-se. Ela colocou as ervas secas de volta na gaveta. Estava ansiosa para descobrir se as plantas que tinha coletado durante a viagem possuíam propriedades medicinais.
— O quê? Não, não! — disse o charlatão, estremecendo.
Pelo comportamento dos dois médicos, Maomao decidiu que tudo parecia estar bem. Ela queria passar mais algum tempo aproveitando os medicamentos, mas uma dúvida persistente a levou até seu quarto. — Vou guardar minhas coisas — disse ela.
Seu quarto ficava bem no topo da escada e, assim que entrou, entendeu por que Tianyu estava segurando o riso.
— Mas que diabos...
Seu antigo quarto simples e sem adornos agora tinha um dossel rosa-cereja sobre a cama. Era fofo demais para ser uma simples rede contra insetos, além de ter bordados aqui e ali. Sua escrivaninha estava coberta por uma toalha de mesa, também bordada, e sua cadeira tinha uma almofada de renda vazada em estilo do oeste. Cortinas do mesmo estilo cobriam a janela, e uma tapeçaria com estampa de flores decorava a parede.
Ela também sentiu cheiro de incenso, uma fragrância floral feminina demais para ela. Para completar, flores secas tinham sido espalhadas por vários cantos do quarto.
Por um segundo, ela ficou em silêncio absoluto. Então começou a tremer.
Ela teria gostado de arrancar toda aquela decoração naquele mesmo instante, mas o charlatão vinha logo atrás e agora a observava, cheio de expectativa.
— Ah! Você está apreciando o bordado, não é? O comerciante me garantiu que seria perfeito para uma jovem dama — disse ele. E talvez fosse mesmo. Mas estavam falando de Maomao. Que, em termos de idade, diga-se de passagem, já estava praticamente na idade de uma solteirona. — O que acha, senhorita? Gostou? — perguntou o charlatão, aproximando-se dela com os olhos brilhando de esperança.
[Noelle: kkkkkkkkk eu amo o charlatão kkkk tão puro]
Maomao soltou um leve som sufocado. Ela franziu profundamente a testa e então deixou os ombros caírem. Atrás deles, Lihaku observava com simpatia, enquanto Tianyu sorria. Maomao decidiu colocar swertia no chá dele naquela noite.
Depois do jantar, Maomao voltou ao quarto, sentindo-se um pouco melhor depois de ter conseguido se vingar de Tianyu como ele merecia. A expressão que ele fez ao beber o chá de swertia... bem, não era algo que se via todos os dias.
Por que ele está tão chateado? É medicinal!
No distrito dos prazeres, misturavam swertia à tinta preta usada nas sobrancelhas; dizia-se que ela ajudava a prevenir a queda de pelos. Também era eficaz contra indigestão, diarreia e dores de estômago, mas era tão amarga que raramente era usada no consultório médico da corte.
Então por que tinham aquilo com eles então? Tinha menos a ver com o estômago e mais com a prevenção da queda de pelos. As pessoas gostavam dessa parte.
De vez em quando aparecem pessoas preocupadas com problemas relacionados aos cabelos.
É claro que, ao contrário do charlatão, Maomao não fornecia informações pessoais, mas não deixava de aproveitar a oportunidade para pedir um favor ao paciente em troca.
Maomao só conseguia suspirar diante daquele quarto exageradamente feminino. Se simplesmente colocasse tudo de volta como estava, o charlatão ficaria triste. Ela teria que mudar as coisas aos poucos, para que ele não percebesse.
Talvez começasse no dia seguinte. Aquilo parecia trabalho demais naquele momento. Ela estava justamente trocando de roupa para dormir quando ouviu uma batida na porta.
— Pode entrar? — disse ela.
— E uma ótima noite para você!
Chue apareceu, agora vestida com o traje comum de uma dama de companhia, em vez das calças que tinha usado durante a viagem.
— Nosso querido charlatão já fez o exame, e agora as damas de companhia gostariam do delas! — Em outras palavras, Jinshi estava convocando Maomao. Chue ofereceu a desculpa sem nem piscar.
Já se passaram dez dias...
Maomao se perguntou como estava o ferimento de Jinshi. Deveria estar bem sem ela, desde que ele não ficasse coçando.
— Ele está muito interessado em saber como foram as coisas na vila agrícola — disse Chue.
— Eu teria imaginado que você já tivesse contado tudo para ele — disse Maomao. Entre Chue e Basen, certamente não havia muito que ela pudesse acrescentar.
— Ah, mas o Príncipe da Lua gosta de ouvir todos os tipos de perspectivas. Diferentes pontos de vista trazem diferentes visões!
— Acho que você não está errada...
Era uma boa filosofia, mas, nesse caso, Maomao achava que seria melhor ele convocar o irmão do Lahan. Por outro lado, ao contrário do restante deles, Maomao suspeitava que Jinshi não conseguiria tolerá-lo.
Eles provavelmente passariam um tempão conversando sem chegar a lugar nenhum.
De qualquer forma, se aquilo era uma ordem direta, Maomao não tinha escolha senão ir. Pelo visto, ela teria que trocar de roupa outra vez.
Chue foi saltitando à frente de Maomao com uma lamparina, a luz balançando junto com seus passos e iluminando o espaço ao redor delas em ângulos estranhos.
— Lugar assustador, hein! Nada como uma mansão enorme e velha no meio da noite!
— Nem me diga… — Maomao se lembrou de seus dias no palácio interno, das histórias assustadoras e da concubina que dançou sobre o muro externo. Na verdade, ela tinha saído bastante à noite naquela época.
— Sabe, dizem que há um fantasma nesta casa — disse Chue, segurando a lanterna diante do rosto.
— Um fantasma? Oh — foi tudo o que Maomao disse.
Chue fez um biquinho. — Aww, você não está nem um pouquinho assustada, senhorita Maomao?
— Já ouvi muitas histórias desse tipo. — Não havia motivo para ter medo agora. Mas para Chue, ainda parecia que Maomao tinha estragado sua diversão. Então Maomao disse: — Só por curiosidade, que tipo de fantasma é?
— Ooh! Quer saber? Quer saber, senhorita Maomao? — Os olhos de Chue começaram a brilhar. — Dizem que ele aparece bem aqui!
— O quê aparece?
— Uma cabeça voadora!
— Hã?
Aquilo não fazia sentido. Uma cabeça era, bem... uma cabeça. Elas não voavam.
— Tem um feitouman por aqui!
Um feitouman… certo, Maomao já tinha ouvido falar deles. Eram uma espécie de monstro sobrenatural que, segundo as histórias, parecia uma cabeça que voava por conta própria.
— Ah, senhorita Maomao. Você não parece estar acreditando em mim.
— É porque não acho que exista nenhum feitouman por aqui. Mas você estava torcendo para que tivesse, não estava, senhorita Chue?
Elas logo chegaram em segurança aos aposentos de Jinshi, sem nenhum monstro à vista.
— Que chato. Sem graça — disse Chue.
— Eu sei, eu sei. Vamos fazer o que viemos fazer. — Elas fizeram uma reverência ao guarda da porta, cujo nome Maomao não sabia, e entraram no quarto. A essa altura, a suntuosidade dos aposentos já podia ser considerada garantida. Suiren e Gaoshun estavam lá dentro.
— Boa noite — disse Maomao, fazendo outra reverência. Ela olhou ao redor do quarto. Está meio solitário aqui, pensou ela. Não havia muita gente por perto. Ela presumiu que Jinshi estivesse ali, mas não viu Taomei nem Basen. Baryou poderia estar ali ou não. Chue estava cutucando uma cortina próxima, então talvez ele estivesse atrás dela.
— Taomei está ocupada dando uma bronca em Basen — disse Suiren, respondendo à pergunta de Maomao enquanto preparava o chá.
Eu nem perguntei! A velha dama de companhia era mesmo assim tão perspicaz. Ela sabia exatamente o que Maomao estava pensando. Mas não acho que ele tenha feito alguma coisa muito errada na vila.
Na verdade, Maomao achava que Basen parecia mais maduro do que antes. Ele parecia ter ficado um pouco mais nervoso, mas ela imaginou que ele estivesse com muitas coisas para lidar.
— Fofo ou não, ele simplesmente não pode ter um pato no quarto — acrescentou Suiren.
O pato? É disso que se trata?
Pelo menos agora ela sabia o que estava acontecendo. Pelo visto, Basen não conseguiu deixar a ave com o irmão do Lahan, que tinha ficado na vila agrícola para ensinar aos moradores um pouco de agricultura de verdade.
— Agora, Xiaomao, você poderia levar isto ao Príncipe da Lua? — perguntou Suiren, entregando-lhe a bandeja de chá com um sorriso radiante.
— Se não houver problema em eu fazer isso — disse ela.
Gaoshun assentiu, indicando que não havia problema. O atarefado assistente de Jinshi segurava uma única pena branca na mão. Gaoshun sempre gostou de coisas adoráveis. O pato devia ter tido um efeito revigorante sobre ele.
Todas as pessoas que estavam no quarto naquele momento sabiam, basicamente, o que estava acontecendo com Jinshi… exceto a despreocupada Chue. Ela estava se comportando da melhor maneira possível no momento, provavelmente porque Suiren estava ali.
— Muito bem, então. — Maomao se virou em direção ao aposento interno. Quando abriu a porta, o ar trouxe um cheiro revigorante de incenso que fez cócegas em suas narinas. Jinshi costumava preferir sândalo, mas naquele dia estava usando madeira de ágar.
Tenho certeza de que ele usa o melhor que o dinheiro pode comprar. A madeira de ágar tinha propriedades medicinais, e Maomao adoraria colocar as mãos em um pouco, mas o incenso que Jinshi usava provavelmente custava uma fortuna. Ela não podia simplesmente implorar para que ele lhe desse um pouco.
— É você, Maomao? — Jinshi estava curvado sobre a escrivaninha, escrevendo alguma coisa. Estava cercado por papéis.
— Sim, senhor. — Maomao colocou a bandeja sobre a mesa e serviu o chá. Suiren tinha usado água fervente, então, quando Maomao se acomodou, o chá estava perfeitamente infusionado. Ela encheu igualmente duas xícaras e pegou uma para si. — Se me permite.
Ela tomou um gole. Ela realmente não achava que Suiren tivesse preparado um chá envenenado, mas protocolo era protocolo. Ela descobriu um chá preto de fermentação intensa que não apenas umedecia a garganta, como também promovia a circulação sanguínea.
— Aqui está.
— Obrigado. — Jinshi largou o pincel e se espreguiçou se alongando.
— Como está sua saúde, senhor?
— Indo direto ao ponto, não é? Ah, bem, tudo bem. Você pode me contar sobre a viagem enquanto faz o exame.
Jinshi tirou a parte de cima do manto. Maomao sentiu que, antigamente, ele demorava um pouco mais para fazer aquilo, mas, depois de ter sido submetido a tantos exames, já não hesitava. Ela também não podia se dar ao luxo de fazer cerimônia, então simplesmente retirou a bandagem.
— Vejo que você ficou bom em trocar os curativos — disse ela.
— Bem, quando se faz uma coisa todos os dias...
Uma flor carmesim perfeita desabrochava na lateral do corpo de Jinshi. Uma nova camada de pele estava se formando sobre a queimadura, deixando-a de um vermelho vivo, como uma rosa ou uma peônia. Maomao talvez até tivesse admirado sua beleza, se não soubesse que aquilo tinha sido motivado por questões políticas.
Eu diria que está praticamente curado. A cicatriz provavelmente nunca desapareceria completamente… ela perderia o vermelho e ficaria rosada, mas provavelmente não muito mais do que isso. Caramba. Queria poder tirar um pouco de pele da bunda dele e colocar aqui. Ela lançou um olhar para as nádegas de Jinshi.
— Sabe, não consigo deixar de pensar que, ultimamente, durante nossos exames, você parece olhar tanto para minhas costas quanto para minha frente — disse Jinshi.
— É imaginação sua, senhor.
Maomao passou uma nova camada de pomada na lateral de Jinshi, menos para tratar a queimadura e mais para evitar que a pele ressecasse. Mais tarde, ela pretendia começar a acrescentar algumas ervas que removeriam manchas.
— Pronto. Terminei.
Ela colocou uma bandagem nova, e esse foi todo o tratamento de Jinshi. Tudo terminou tão rápido que o chá ainda estava soltando vapor. Maomao tomou mais um gole.
— Realmente é muito mais rápido quando é você quem faz — disse Jinshi. Ele tornou a vestir o manto e bebeu o chá que estava sobre a mesa. Quando Maomao se preparou para servir uma segunda xícara, ele fez um gesto para que não se desse ao trabalho. Em vez disso, pegou um livro da escrivaninha e se sentou na cama.
— Você parece muito ocupado — observou ela.
— Principalmente porque ainda estou tentando descobrir o que estou fazendo aqui. Uma terra nova significa muita coisa para aprender. — Então eram os estudos, e não o trabalho, que o mantinham ocupado. — Dê-me seu relatório — disse ele. Aparentemente, ele pretendia ouvi-la enquanto lia o livro. Um mal necessário para quem tinha pouco tempo.
— Quão detalhado você quer que seja, senhor?
— Quero todas as opiniões e observações que você puder me dar. Não economize nos detalhes só porque já ouvi Basen e Chue.
— Sim, senhor. Nesse caso, eu...
Jinshi a interrompeu, dando tapinhas no espaço ao lado dele na cama.
Maomao não disse nada.
— Seria cansativo para você ficar aí em pé durante toda a nossa conversa. Sente-se.
— Claro. Vou buscar uma cadeira...
Ela estava prestes a fazer isso, mas Jinshi agarrou seu pulso. Ele estava usando seu sorriso capaz de fazer um país inteiro se curvar aos seus pés. — Sente-se. — Justo quando ela tinha pensado que ele estava se comportando bem naquele dia.
Maomao teve pouca escolha além de se sentar ao lado de Jinshi. Então ela começou a contar a história da visita deles à vila. Contar aquilo para outra pessoa lhe dava a oportunidade de organizar as coisas em sua própria mente. Ela descreveu como os bandidos os atacaram na estrada. Falou sobre os agricultores que não demonstravam nenhum interesse especial em trabalhar. Explicou sobre a tribo dos Leitores do Vento e os servos.
Ela até mencionou o clã Yi.
Jinshi parecia comparar mentalmente o que ela dizia com o que tinha ouvido dos outros dois. Frequentemente, ele acenava com a cabeça; às vezes, inclinava a cabeça para o lado, como se algo lhe parecesse estranho.
— Acho que isso é tudo o que posso lhe contar, senhor. Tem alguma pergunta?
— Hum. Acho que o que mais me incomoda é a tribo dos Leitores do Vento.
— Sei o que quer dizer. Uma tribo de celebrantes de rituais que vagava pelas planícies, controlando pássaros e arando a terra?
— Controlando pássaros… — Jinshi parecia fixado na mesma coisa que tinha chamado a atenção de Maomao.
— Temos certeza de que os pássaros em questão não eram patos, senhor? — perguntou Maomao.
— Sim. Eu me sinto um pouco mal por fazer isso com Basen...
Basen estava, naquele momento, em maus lençóis com sua mãe, Taomei, por causa daquele pato. Como tinha sido Jinshi quem originalmente ordenou que ele criasse os animais, ele sentia uma certa culpa. Além disso, parecia que ele tinha instruído Taomei a dar alguns toques no filho de vez em quando para fazê-lo manter distância durante os exames de Jinshi. Todos estavam preocupados que, se Basen, que não era exatamente o homem mais discreto do mundo, descobrisse sobre a marca, talvez não conseguisse guardar o segredo.
— Que tipo de pássaro você acha que eles usavam? — perguntou Jinshi. Basen estava convencido de que deviam ser patos, mas Maomao tinha outra ideia.
— Talvez pombos — disse ela.
Maomao já tinha estado na capital do oeste, um ano antes. Naquela viagem, a ex-concubina Lishu foi atacada, e o meio usado para coordenar aquele ataque foram pombos-correio.
Era assim que a Dama Branca agia.
Ela não conseguia deixar de pensar se havia alguma ligação.
— Sim, pombos. Eu pensei a mesma coisa. — Jinshi se levantou da cama e desapareceu atrás de uma divisória, de onde saiu carregando uma gaiola com um pássaro dormindo dentro.
— Você tem um pombo bem aqui — observou Maomao.
— Tenho mesmo. Comecei a usá-los para comunicações simples.
Jinshi parecia mais velho do que seus vinte e um anos, mas ainda era jovem o suficiente para adaptar o seu modo de pensar, uma mente flexível; aprendia coisas novas rapidamente.
— Já faz cerca de vinte dias que chegamos aqui, e não fiz nada além de participar de banquetes e fazer cumprimentos oficiais. Mas isso proporcionou oportunidades para reunir informações.
Jinshi começou a contar a Maomao o que tinha feito enquanto ela estava fora. O pássaro dormia profundamente, ignorando o milho em seu comedouro.
Jinshi contou sobre todos os seus jantares com a elite da capital do oeste, sobre como lhe mostraram todos os lugares importantes da região e até sobre como algumas pessoas importantes ocasionalmente se aproximavam dele em nome de suas filhas ou parentes.
— Perdemos por pouco a filha do senhor Gyoku-ou — disse ele. — Ela estava indo para a capital quando nosso grupo chegou.
— Ahh, sim.
— Ele perguntou se eu queria ela como minha esposa, mas fingiu que estava brincando.
— É claro, senhor.
Maomao manteve qualquer emoção cuidadosamente fora da voz. Jinshi respondeu puxando suas bochechas.
— Quero dizer, que ousadia, essa hein?
— Concordo. — Ele soltou suas bochechas, e Maomao as esfregou.
— O que pretende fazer? — perguntou ela.
— Comecei enviando imediatamente uma carta à Imperatriz Gyokuyou. Tenho a resposta dela aqui.
— Já, senhor? Achei que a viagem de ida e volta levasse pelo menos um mês.
Jinshi tirou uma carta e mostrou a ela. Para uma mensagem da Imperatriz, estava em um estado bastante lamentável.
— Você usou um pombo — disse Maomao.
— Só tinha essa forma.
Parecia que Jinshi estava disposto a deixá-la ler a carta, então Maomao deu uma olhada.
— Ela diz para deixá-la cuidar das coisas com a sobrinha.
Esse era o sentido geral, de qualquer forma. Se Gyoku-ou realmente fosse meio-irmão da Imperatriz Gyokuyou, então sua filha seria sobrinha dela.
O que será que ela pretende fazer...?
A Imperatriz não parecia exatamente estar nos melhores termos com o seu meio-irmão. Maomao tinha certeza de que ela tinha seus próprios planos. Enquanto isso, Maomao e os outros precisavam lidar com o problema que tinham diante de si.
— Se os Leitores do Vento usavam pombos, isso daria mais credibilidade à história daquele homem, Nianzhen — disse Jinshi.
— Você acha que os Leitores do Vento conseguiam compartilhar informações pelas planícies?
— Teriam que conseguir. Pragas de insetos são como incêndios… o problema é chegar até elas no momento em que começam.
Jinshi jogou para Maomao o livro que estava lendo, e ela descobriu que não continha texto, mas colunas de números. Registros de algum tipo.
— Estas são as pragas que ocorreram nas últimas décadas. Lahan descobriria os números em um instante, mas para mim tem sido mais difícil.
Os registros indicavam os locais, seguidos por números relacionados aos enxames. Era o suficiente para causar dor de cabeça em qualquer pessoa que não fosse especialista.
— O senhor acha que existe algum tipo de padrão? Algo suspeito?
— Eu não poderia ter certeza apenas pelos registros das colheitas, mas, graças à sua investigação, agora sei. A província de I-sei está relatando números de colheitas falsamente inflados.
— Inflados? Não entendo. Por que fariam isso?
Normalmente, números maiores significariam apenas impostos maiores. Se estivessem declarando colheitas menores do que as reais, ela entenderia.
— Ainda não sei. Mas, se desastres naturais estão acontecendo em lugares que não aparecem nos registros, então todas estas páginas são inúteis. — Jinshi balançou a cabeça, parecendo desanimado. — A única maneira de ter certeza é ir até lá pessoalmente. Não apenas à vila que você visitou; às outras também.
Mas isso não era fácil para o irmão mais novo do Imperador. Embora ainda estivesse dentro de seus próprios territórios, naquela terra distante ele tinha menos poder do que em casa e havia menos pessoas à sua disposição.
— Mais alguma coisa chamou sua atenção? — perguntou ele.
— Talvez uma coisa...
— Sim? O quê?
— Não há muitas ervas medicinais por aqui, senhor. — Ela olhou diretamente para Jinshi, deixando até mesmo um pouco de sua irritação aparecer no rosto. — Eu gostaria de uma enciclopédia das plantas locais. Haverá um limite para a quantidade de remédios que posso preparar usando apenas o que trouxemos de casa.
O mais fácil seria Maomao ir pessoalmente a uma livraria, mas não parecia que teria essa oportunidade. Certamente ela não se meteria em encrenca por pedir que ele cuidasse de um pequeno recado.
— Muito bem. Mais alguma pergunta?
— Posso perguntar uma coisa de natureza pessoal?
— Pode.
— Quem era o clã Yi?
Aquilo era pura curiosidade da parte de Maomao. Ela sabia que o clã Yi tinha sido exterminado dezessete anos antes por ordem da imperatriz reinante, mas não sabia o que eles tinham feito.
— O clã Yi... Hum — murmurou Jinshi.
— O que foi, senhor? É algo sobre o qual não pode falar?
— Não é bem isso. Eu simplesmente não tenho certeza. Sei que eles serviam à corte ao lado do clã Shi desde os tempos da Mãe Real. E ouvi dizer que seguiam um sistema de descendência matrilinear.
A “Mãe Real”, Wang Mu, era a mulher que, segundo a lenda, fundou Li. Às vezes diziam que ela era a mãe do primeiro imperador.
— Matrilinear, senhor?
Maomao ficou surpresa. O patriarcalismo tendia a ser a norma em Li, e ela esperava que essa tendência fosse ainda mais forte na província de I-sei, que abrigava tantas tribos nômades.
— Sim, é isso mesmo. Um informante revelou a traição do clã Yi, e então eles foram destruídos. Uma teoria diz que eles exerceram influência indevida sobre a família imperial... mas Gaoshun me disse que nem ele sabe ao certo.
— Nem mesmo o senhor Gaoshun sabe?
— Não. Tentei consultar os registros daquela época, mas são tão resumidos e superficiais que não adiantou nada.
Aquilo parecia estranho. Descuidado, até. A recusa de Jinshi em afirmar algo com certeza talvez mostrasse o quanto daquilo que ele contava era composto por rumores e boatos.
— Entendo, senhor. — Ela limpou a pomada e juntou as bandagens usadas.
— Você já vai embora? — Jinshi cerrou os punhos e olhou para ela como um cachorrinho triste.
— Sim, senhor. Eu mesma acabei de voltar da viagem e estou muito cansada. Gostaria que me deixasse dormir um pouco.
— Nesse caso… — Jinshi começou a falar, mas então balançou a cabeça.
— O que foi, senhor?
Maomao tinha uma boa ideia do que era, mas fingiu não saber.
— Não. É melhor não. Depois de uma grande violação das regras, até uma pequena transgressão é vista com severidade.
Uma violação das regras, hein? Maomao olhou para o flanco de Jinshi. Talvez eu não esteja sendo muito justa.
Jinshi era um homem que poderia ter tudo e qualquer coisa que desejasse. E, ainda assim, ele era tão direto que isso o fazia dar voltas como essa. Ele não queria seguir o caminho mais curto para conseguir o que queria, mas aquele que fosse melhor para a outra pessoa.
Pena que isso não existe aqui.
Então Maomao fingiu não saber, mesmo sabendo. Não era nada justo da parte dela.
— Nesse caso, vou indo, senhor.
Ela tentou esboçar um leve sorriso, para amenizar um pouco a injustiça da situação.
O braço de Jinshi ainda estava estendido, mas ele não saiu da cama.
Chue acompanhou Maomao de volta ao seu quarto. Dessa vez, ela não contou nenhuma história de fantasmas; em vez disso, reclamou da bronca que Suiren tinha dado nela enquanto Maomao estava ocupada com Jinshi.
— Ufa! Quem limpa no meio da noite? Ninguém, é claro! O que acha, senhorita Maomao?
Maomao descobriu que Chue tinha sido obrigada a polir o chão.
Desculpe, senhorita Chue...
Provavelmente tinha sido uma maneira conveniente de impedir que Chue invadisse o quarto de Jinshi. Suiren era, como sempre, uma aliada de Jinshi.
Chue tinha respeito suficiente para não fazer nenhuma pergunta sobre o que tinha acontecido enquanto Maomao e Jinshi estavam sozinhos, então aparentemente ela sabia onde ficava o limite para uma dama de companhia. Mesmo que sua aparência e seu comportamento sugerissem exatamente o contrário.
— Depois que eu deixar você no quarto, senhorita Maomao, vou voltar para o meu. As travessuras com meu marido podem esperar outro dia.
— Senhorita Chue, nós não compartilhamos os detalhes íntimos de nossa vida conjugal com outras pessoas.
— Mas isso não é novidade para você, é?
— Não é; isso é verdade.
Maomao já precisou ficar de guarda durante as “brincadeiras” do Imperador e da Imperatriz, sem mencionar tudo o que as mulheres do distrito dos prazeres faziam com seus clientes. Francamente, ela estava mais acostumada com travessuras humanas do que com acasalamento de insetos.
— Então por que se preocupar com… — Chue e Maomao estavam justamente virando a esquina do corredor quando algo que parecia uma máscara branca passou rapidamente diante delas.
— O quê?!
O cérebro de Maomao não processou aquilo de imediato. Parecia um rosto flutuante e sorridente.
— Senhorita Maomao? — perguntou Chue, que estava virada para ela. Ela rapidamente percebeu que havia algo errado e se virou, apontando a lamparina para o local. Então saiu correndo atrás da máscara branca, com Maomao logo atrás.
Quando Maomao alcançou Chue, ela estava pendurada nos galhos da grande árvore no pátio central. — Sinto muito! Perdi ela de vista! — disse, arrastando as palavras. Então pulou para o chão, com os cabelos cheios de folhas. — Uau! Quem diria que eles realmente tinham fantasmas aqui? — Ela parecia genuinamente intrigada. — Então isso é um feitouman.
Maomao certamente nunca esperou testemunhar um pessoalmente, mas, considerando todas as descrições, era exatamente o que pareciam ter diante de si. Uma verdadeira cabeça voadora.
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