Diários de uma Apotecária — Capítulo 10.11: Volume 10 – Capítulo 11 – Capítulo 11: O Feitouman (Parte 1)

Diários de uma Apotecária
Cap. 10.11
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Diários de uma Apotecária

Volume 10 – Capítulo 11 – Capítulo 11: O Feitouman (Parte 1)

Capítulo 10.11

4.772 palavras~21 min de leitura

O feitouman, a cabeça voadora, apareceu pela primeira vez cerca de dois meses atrás. A primeira pessoa a testemunhá-lo foi um criado. Ele tinha terminado seu trabalho e caminhava tranquilamente sob a luz da lua quando viu algo pálido surgir flutuando. Ele olhou mais de perto e descobriu que era uma máscara branca.

O homem presumiu que alguém estivesse pregando uma peça, mas estava cansado demais para brincadeiras naquele momento. Estava prestes a simplesmente passar direto… quando a máscara se virou e olhou para ele. Assustado, e depois apavorado, o homem saiu correndo.

Na manhã seguinte, quando estava mais calmo, o homem percebeu que devia ter imaginado tudo. Mas, quando foi até o lugar onde tinha visto a máscara na noite anterior, não encontrou nenhum vestígio de nada.

Depois disso, outras pessoas começaram a relatar a misteriosa máscara também. Alguns disseram que se viraram ao ouvir um barulho estranho e encontraram a máscara sorrindo para eles; outros disseram que ela estava flutuando pelo ar.

Por fim, mais recentemente, começaram a circular histórias sobre a cabeça desencarnada de uma mulher voando pela mansão, o que levou alguns a dizer que ela só podia ser um feitouman.

— Então você também viu, mocinha? — perguntou Lihaku, com a boca cheia de mingau.

Maomao estava no consultório médico, comendo com os outros, e durante o café da manhã contou a eles o que tinha visto na noite anterior.

— Hã! O que você estava fazendo andando pela casa no meio da noite, Niangniang? — Tianyu tinha mesmo que estragar uma conversa perfeitamente boa. A refeição dele consistia inteiramente em um pouco de suco; aparentemente, ele não era uma pessoa matinal.

— Sim! Quem sabe o que pode estar à espreita lá fora à noite? Se não consegue dormir, pelo menos deveria ficar no seu quarto — disse o médico charlatão, que tinha preparado para si um farto café da manhã com mingau, leite de cabra e pão frito.

— Desculpe. Foi meio que... de repente. A senhorita Chue me convidou.

O pedido de desculpas de Maomao não pareceu particularmente arrependido. Ela ainda estava cansada da viagem e, além disso, tinha voltado tarde do passeio noturno e depois testemunhado aquela “cabeça voadora”. No fim das contas, ela quase não conseguiu dormir. Ela não estava com muito apetite e teria ficado satisfeita com um café da manhã de suco, assim como Tianyu, mas o charlatão insistiu que ela tomasse pelo menos um pouco de mingau, então ela estava tentando engolir algumas colheradas à força. O que ele era, sua mãe?

— A propósito, Mestre Lihaku, o que você quer dizer com “também”?

— Ah, alguém veio me perguntar sobre o feitouman.

— Nossa! Ninguém me contou sobre isso! — O charlatão estremeceu. Se ainda tivesse o bigode, ele estaria tremendo como os bigodes de peixe.

— Achei que fosse melhor não contar. Fantasmas não são exatamente seu assunto favorito, não é? — disse Lihaku. Ele conhecia bem o charlatão.

— Quem foi que te perguntou sobre isso? — Agora Maomao estava curiosa. Tudo tinha acontecido tão tarde na noite anterior que ela decidiu se preocupar com aquilo no dia seguinte e se despediu rapidamente de Chue.

— Um dos garotos que trabalham aqui. Dei um pouco de doce para ele e agora somos amigos.

Ele fala deles como se fossem cachorro ou gato!

As visitas frequentes de Lihaku à Casa Verdigris tinham lhe ensinado como conquistar a simpatia das crianças. Afinal, se os aprendizes não forem com a cara dele, eles nunca levarão suas mensagens para Pairin.

Por que se dar ao trabalho de demonstrar seu novo talento tão longe, na capital do oeste? Era isso que Maomao queria saber. Talvez ficar na companhia daquele charlatão simplesmente lhe tivesse deixado com tanto tempo de sobra.

— Não estou dizendo que acredito em espíritos ou coisa assim — acrescentou Lihaku. — Quando perguntei se você tinha visto, não quis dizer... Bem, eu sei que você nunca leva esse tipo de coisa a sério.

— Agora que eu vi, estou interessada em descobrir o que isso realmente é.

— Ficarei feliz em ajudar — disse Lihaku. — Mas estou de folga hoje. Se alguma coisa acontecer, me acorde. — Ele terminou sua tigela e foi para seu quarto no primeiro andar dormir. Até homens que pareciam ter resistência infinita precisavam descansar. Dormir bem depois de uma noite de vigia fazia parte do trabalho de Lihaku. Um guarda de apoio ficou do lado de fora do consultório médico.

[Noelle: Até o tom dele com Maomao nos passa uma amizade né? Sou suspeita, pois qualquer palavra dele, o tom derrete aqui kkkk acho ele tão inteligente, sério e educado.]

Quando Lihaku estava saindo, uma criança pequena se aproximou do consultório.

— Onde está o senhor soldado? — perguntou ela, olhando ao redor, com o rosto pálido. Aparentemente, o militar que estava de guarda na porta não contava.

Maomao percebeu rapidamente o que ela queria dizer. — Se você está procurando o Mestre Lihaku, ele está de folga — disse ela. Aquela devia ser a criada que Lihaku tinha mencionado. Ela parecia ter uns dez anos.

— O-Oh... — A menina pareceu decepcionada e se recusou a olhar nos olhos de Maomao.

Maomao olhou para Tianyu e para o charlatão. — Quer que eu o chame? — perguntou ela.

— Você vai incomodar um soldado que está de folga? — Tianyu explodiu. Ele era irritante, mas estava certo. Não seria nada bom se o guarda estivesse privado de sono quando alguma coisa acontecesse… mas Lihaku tinha dito para acordá-lo caso precisassem dele.

Lihaku estava acordado e devia ter ouvido a conversa barulhenta, porque saiu imediatamente do quarto.

— E aí! — disse ele.

— Senhor soldado! — A menina foi direto até ele. — Nós vimos de novo!

— Ah, viram? O que vocês viram?

— Uma cabeça! A cabeça de uma mulher!

De algum jeito, tudo continuava voltando para aquela história de fantasma.

— Onde vocês viram? — perguntou Lihaku.

— Lá fora! O jardineiro mal conseguia ficar de pé, de tão assustado que estava!

— Certo, estou ouvindo. Onde está o jardineiro agora?

— Ele está trabalhando no jardim. Mas está branco como uma folha!

— É bom saber. Tome, aqui estão alguns doces para você.

— Eba! — A menina saiu saltitando do consultório médico.

Maomao olhou para Lihaku. — Posso lhe perguntar uma coisa, Mestre Lihaku?

— Sim? O quê?

— Você não está fazendo isso só por curiosidade pessoal, está? Esta é uma investigação oficial.

— Eu sabia que você era esperta.

Lihaku não fez nenhum esforço para esconder isso. Ele acreditava que havia uma chance de que essa “cabeça voadora” fosse realmente alguém que pudesse representar um perigo. Além disso, se ele estava investigando, provavelmente era por ordem de outra pessoa.

— Aquele Tianyu é um problemão — murmurou Lihaku para Maomao. Era raro ver esse soldado alegre e bem-humorado reclamar desse jeito.

O charlatão cantarolava uma melodia enquanto lavava a louça. Tianyu tinha terminado seu café da manhã e estava escovando os dentes, um médico superior tinha ordenado que a equipe médica não tivesse dentes podres; não pegaria bem. E esse médico, por sinal, era o Dr. Liu.

Parece que Lihaku e Tianyu não se dão bem. Maomao já desconfiava disso.

— Vocês dois não se dão bem? — perguntou ela.

— Acho que não. Tianyu e eu... somos feitos de materiais diferentes, talvez. Não é como se fôssemos sair brigando, mas não sei como conversar com ele. Você entende o que quero dizer?

Maomao realmente entendia o que ele queria dizer. Normalmente, esses problemas podiam ser resolvidos mantendo distância da pessoa em questão, mas aquilo não era uma opção ali.

— Você está dizendo que normalmente não seria um problema, mas estamos tão próximos aqui que isso dificulta as coisas. E talvez não fosse tão ruim se fosse alguém com quem você pudesse resolver as coisas numa briga, mas Tianyu obviamente não é esse tipo de pessoa. Estou certa?

— Eu sabia que você era esperta! Não é que eu não consiga lidar com ele, mas... não sei o que existe no fundo dele. É como se eu conseguisse enxergar os galhos, mas não o tronco. — Lihaku parecia ter compreendido Tianyu apenas por puro instinto.

— Já você, mocinha, tem uma lógica no jeito de agir. Não importa o que faça, pode apostar que existe veneno ou droga por trás.

— Poderia pelo menos dizer “remédios ou veneno”, por favor — respondeu Maomao. — Quanto ao Tianyu, você tem razão ao dizer que a personalidade dele tem algumas peculiaridades, mas não acho que seja algo com que devamos nos preocupar demais. Afinal, ele conseguiu se tornar médico e, com a equipe reduzida ou não, nunca o teriam trazido para a capital do oeste se não tivessem investigado minuciosamente o passado dele.

— Certo, entendo. Desculpe. Sou um soldado… acho que estou sempre pensando em termos de batalha.

— Batalha? Como assim?

— A única coisa que sei com certeza é que jamais confiaria nele para proteger minhas costas.

Puro instinto. Não havia nada que Maomao pudesse dizer sobre isso.

Ela decidiu deixar o assunto Tianyu de lado. — De qualquer forma, posso perguntar: as ordens para investigar o feitouman vieram do Príncipe da Lua?

— Sim, isso mesmo. O Mestre Jinshi me mandou investigar.

Era um nome que Maomao não ouvia muito de outras pessoas ultimamente. Queria que ele tivesse me contado. Por outro lado, Maomao preferia fazer as coisas com o mínimo absoluto de conversa.

— Desculpe, eu deveria ter contado? Eu conheço você… quando alguma coisa desperta seu interesse, você se esforça tanto que se esquece de comer ou dormir. E minhas ordens incluem não deixar você se acabar de tanto trabalhar.

Maomao achou que tinha mantido seu monólogo apenas em pensamentos, mas aparentemente as palavras saíram de sua boca, e agora Lihaku estava se desculpando em nome de Jinshi.

Não deixe eu me acabar de tanto trabalhar, hein?

Nesse caso, ela poderia desejar que ele não a chamasse para seu quarto. Para alguém que nunca parava de lhe fazer novas exigências, Jinshi às vezes tentava ser atencioso das maneiras mais estranhas.

E agora tem uma cabeça flutuante envolvida.

Ele sempre aparecia com problemas que pareciam ter saído diretamente de uma história de fantasmas.

— Mas é estranho — disse Lihaku.

— O que é estranho? — perguntou Maomao. — Além da cabeça voadora, quero dizer.

— É exatamente isso. Quando ouvi a história pela primeira vez, as pessoas falavam de uma máscara flutuante. Mas, nas últimas três semanas ou mais, parece que muita gente começou a relatar uma cabeça voadora.

— Um ponto interessante. O que eu vi parecia mais uma máscara do que uma cabeça. — Ela só tinha conseguido vê-la de relance, então não podia ter certeza, mas essa foi sua primeira impressão.

— É disso que vocês estavam falando no café da manhã? Difícil ignorar, hein?

Maomao se virou ao ouvir a voz atrás deles. Era Tianyu, de volta depois de escovar os dentes. Ele estava sorrindo.

Lihaku não pareceu muito surpreso, parecia ter percebido que Tianyu estava ali. — Ficar escutando a conversa dos outros é falta de educação, sabia? — disse ele.

— Escutar a conversa dos outros? Eu? Não, não. Só estava curioso para saber quanto tempo vocês dois continuariam tagarelando juntos assim. Um homem e uma mulher solteiros!

— Acredite, não é nada disso! — Maomao e Lihaku responderam em uníssono.

— Acredite em mim, eu não acho que seja. — Quanto Tianyu tinha ouvido?

— Então, essa cabeça voadora. Que história, hein? E aí? Que tal? Querem me contar?

— De jeito nenhum — rebateu Maomao.

O rosto de Tianyu ficou desanimado. — Ah, por quê não?

— Porque você vai contar para alguém.

— Não vou.

— Porque vai ficar entediado no meio e desistir.

— Isso talvez eu faça.

Lihaku ficou em silêncio, deixando Maomao lidar com Tianyu. Ele realmente não gostava de lidar com aquele sujeito.

— Eu posso ser útil! — disse Tianyu. — Se você acha que não posso, ou que sou um risco ou coisa assim, é só porque você não sabe como me usar. Você também se recusa a usar uma tesoura porque pode se cortar com ela?

Maomao olhou para Lihaku. Ele olhou de volta, como se dissesse que a decisão era dela.

Depois de um longo momento, Maomao disse: — Só não fique no nosso caminho.

— Oba! — Havia um leve brilho nos olhos de Tianyu.

Maomao e Tianyu começaram indo até o pátio onde Maomao tinha visto o feitouman na noite anterior.

— Então! O que acontece agora? — perguntou Tianyu, embora parecesse não se importar muito.

— O que acontece agora é você nos mostrar o quão útil consegue ser, senhor Tesoura — disse Maomao, olhando ao redor do pátio. Ela tinha dito a Lihaku para dormir um pouco, já que ele tinha ficado de serviço na noite anterior, mas conseguiu convencê-lo a deixar com ela o mapa da mansão com ela.

Enquanto isso, eles disseram ao charlatão que só fariam uma pequena tarefa, então a investigação precisava ser rápida.

— Você precisa dizer à tesoura qual papel quer que ela corte. Embora você possa usá-la para esfaquear qualquer coisa pelas costas.

Maomao não respondeu. Parecia que Tianyu estava irritado porque ela e Lihaku não confiavam nele.

Mas ele é quem é. Seu comprometimento com a ética parecia, bem, pouco entusiasmado.

— Que tal começarmos olhando todas as áreas onde dizem que o espírito apareceu? — sugeriu Maomao.

— Sim, claro.

O pátio era o lugar onde a misteriosa máscara era avistada com mais frequência. — A maioria dos relatos diz que ela aparece perto daquela árvore ou em cima daquele prédio — disse Maomao, olhando para suas plantas. Para um “anexo”, aquele lugar era bem grande.

— Hoh! — disse Tianyu, olhando da árvore para o prédio e de volta. Era a mesma árvore da qual Chue tinha ficado pendurada na noite anterior. Ainda havia um monte de folhas debaixo dela, sugerindo que o jardineiro ainda não tinha limpado o local.

— Alguma coisa chamou sua atenção? — perguntou Maomao.

— Nada. E você, Niangniang? — Era assim que ele sempre a chamava. Ela tinha desistido de tentar corrigi-lo, mas, ultimamente, até os outros médicos estavam começando a fazer o mesmo. Era muito frustrante.

— Algumas coisas. — Primeiro, ela olhou para a árvore. — Essa árvore não é bem como as outras que vi crescendo na capital do oeste. Ela é maior e mais alta.

— É? E daí?

— Isso não deixa você curioso? Tipos diferentes de plantas significam diferentes medicamentos que podemos produzir com elas! Mas precisamos chegar um pouco mais perto para ter certeza do que estamos vendo.

— Certo. E isso tem o que a ver com o motivo de estarmos aqui?

Aquele Tianyu... se ele não estivesse especificamente interessado em alguma coisa, não havia jeito de fazê-lo mover um dedo por ela. Maomao concluiu que ele não tinha graça nenhuma, lançando-lhe um olhar azedo.

— E qual é a outra coisa? — perguntou Tianyu.

— A outra coisa é que o feitouman relatado dentro da casa parece assumir a forma de uma máscara ou de um rosto. Lá fora, porém, as pessoas dizem ver uma cabeça.

— Desculpe, mas qual é a diferença entre uma cabeça e um rosto? E o que você viu, afinal, Niangniang?

— Eu diria que uma máscara. Eu a vi justamente quando desapareceu na esquina daquele corredor em direção a este pátio. — Ela apontou para o local.

— Uma máscara... Então não parecia uma cabeça para você?

— Não, definitivamente uma máscara ou um rosto. Mas alguns relatos a descrevem como uma cabeça. — A discrepância incomodava Maomao.

— Uma cabeça é basicamente a versão tridimensional de uma máscara, não é? — disse Tianyu. Ele era esperto e imediatamente percebeu algo importante.

— Não tenho certeza se podemos colocar dessa forma, mas não pude deixar de pensar nisso. Eu estava pensando em investigar aquela árvore.

— Vá em frente. Precisa de alguma coisa de mim? — A tesoura sem fio finalmente tinha decidido ficar afiada.

— Se puder fazer isso, por favor. — Maomao tirou um lenço das dobras do manto e o enrolou em torno de uma pedra que encontrou no chão. — Jogue isso nos galhos para mim.

— Sim, claro. Você faz parecer tão fácil. — Apesar da reclamação, Tianyu lançou a pedra perfeitamente, fazendo o tecido ficar preso em um galho. Não era exatamente apropriado que uma dama da corte subisse em uma árvore. Um lenço levado pelo vento seria uma desculpa conveniente.

Maomao foi até o tronco da árvore. A planta era uma espécie de folhas largas com quase seis metros de altura.

— Osmanthus — observou ela. Uma árvore que produzia uma abundância de pequenas flores de aroma intenso, que podiam ser usadas para fazer vinho de osmanthus ou chá de flores.

Maomao segurou o tronco e mal tinha tirado os pés do chão quando exclamou: — Eca! — Sua mão estava coberta de cocô de passarinho meio seco. Aquela coisa estava espalhada por toda a árvore.

— Que nojo — comentou Tianyu.

— Guarde isso para você, por favor — disse Maomao. Ela examinou a sujeira em sua mão e então a cheirou vigorosamente.

— Você está... cheirando isso? — perguntou Tianyu, incapaz de ignorar o que estava vendo.

Maomao, porém, apenas ficou olhando para o chão e então cutucou com um graveto alguma coisa que viu ali.

— Ei, o que você está fazendo? — perguntou Tianyu, mais confuso do que nunca.

Maomao pegou dois gravetos pequenos e os segurou como se fossem hashis.

— Hã? Você está pegando isso? Você está... pegando alguma coisa do cocô usando hashis. — Ele deu um passo para trás, lançando-lhe um olhar profundamente desconfiado.

Maomao não estava exatamente feliz por fazer aquilo, mas havia muita coisa que se podia aprender com fezes de animais. Além dos excrementos de pássaro ainda não completamente secos, o espaço sob a árvore abrigava algo que parecia uma bola de pelos. Elas vinham de certos tipos de pássaros, alguns deles regurgitavam aquilo que não conseguiam digerir.

— Esse pássaro parece se alimentar principalmente de insetos — disse Maomao, desmontando a bola de pelos com um graveto. Dentro dela, encontrou asas e pernas de insetos.

— Bem, claro. Pássaros costumam fazer isso, não é?

— Também há pelos aqui. Provavelmente de um rato ou coisa parecida. — Ela também viu alguns ossos junto dos pelos e dos restos de insetos.

— Então ele come ratos? Provavelmente é de um falcão ou de alguma outra ave de rapina.

Insetos eram uma coisa, mas, se aquele pássaro estava comendo ratos, então precisava ter um certo tamanho.

[Noelle: Rostinho de nenê dele gente kkkk]

— Sim. Mas... — Maomao olhou ao redor. A abundância de água e vegetação naquela casa atraía um bom número de pássaros, mas ela não viu nada que parecesse grande o bastante para comer ratos, pelo menos não naquele momento. De qualquer forma, um pássaro desses teria espantado seus primos menores.

Maomao pensou por mais um instante e então olhou para o prédio.

— Não é possível subir naquele telhado, é?

— Não sei. Quer que eu jogue outro lenço lá em cima?

— Acha que consegue chegar tão longe?

— Duvido.

Aquilo não parecia estar levando a lugar algum. Maomao estava pensando que era hora de voltar quando algo se moveu no canto de sua visão. Ela olhou naquela direção e viu uma decoração de treliça sob o beiral do telhado.

— Mudei de ideia. Eu quero subir até o telhado.

— O quê? Mas não tem como subir!

— Tem que haver algum jeito. Vamos procurar uma escada.

— Fácil falar. Provavelmente vamos ter que pedir ao jardineiro... — Tianyu não parecia nem um pouco disposto a fazer isso. Seu interesse parecia estar diminuindo.

O jardineiro? Era o velho que tinha dito que tinha visto a cabeça no dia anterior, não era?

Maomao foi até onde o jardineiro estava limpando. — Com licença! Poderíamos pegar uma escada emprestada?

— O quê? Você acha que pode simplesmente chegar aqui e exigir uma coisa dessas? — O jardineiro parecia bastante contrariado. Ele parecia abatido de modo geral, talvez por causa do estranho encontro que teve no dia anterior. — Mandaram a gente ser educado com os visitantes, mas nunca disseram que tínhamos que ajudar vocês a subir e ficar mexendo nos telhados!

— E estavam certos mesmo — disse Tianyu.

De que lado ele está?!

Obviamente, Tianyu não ajudaria em nada. Maomao teria que convencer aquele homem sozinha.

— Acho que há um pássaro fazendo ninho debaixo do telhado — disse ela.

— Fazendo ninho? Sabe que, agora que você mencionou, tem havido muitas fezes de pássaro por aqui ultimamente.

— Sim, senhor. Ter ninhos de pássaros por perto só significa mais trabalho, então pensei que talvez pudesse limpá-lo. Eu ficaria perfeitamente satisfeita se pudesse ficar com quaisquer ovos que encontrasse… eles são ingredientes medicinais, sabe.

— Medicinais? Você nem sabe que tipo de pássaro está lá em cima.

— É verdade, senhor, mas a maioria dos ovos é muito nutritiva, independentemente da espécie.

Maomao estava meio que inventando as coisas conforme avançava. A maioria dos ovos era comestível, pelo menos, se fosse cozida.

Então ela acrescentou um último empurrãozinho. — Acho que talvez eu saiba o que está por trás do fantasma que tem aterrorizado todo mundo ultimamente.

— V-Você sabe?! De verdade?! — disse o jardineiro.

— Sim, senhor — respondeu ela, confiante de que conseguiria resolver pelo menos metade do mistério.

O jardineiro encontrou uma escada para eles rapidamente, mas ela era velha, frágil e balançava quando a colocaram no chão.

— Deixe-me adivinhar. Você quer que eu suba no telhado? — disse Tianyu.

— Você fala isso quase como se não quisesse.

— Não quero mesmo.

Nem Maomao achava que poderia impor ao velho jardineiro a tarefa de subir até o telhado, então decidiu fazer isso sozinha. O único problema era o grupo de criados e funcionários que começou a se formar assim que a grande escada foi colocada no pátio. (Será que eles não tinham nada melhor para fazer?)

Infelizmente, nenhum deles se ofereceu para subir no lugar de Maomao; eles apenas ficaram parados, observando. Um deles, aliás, era justamente o funcionário que tinha tempo de sobra: Jinshi estava lá. Todos os outros deram alguns passos para trás com a chegada desse VIP.

Jinshi olhou horrorizado para o que estava acontecendo e então disse alguma coisa a Basen. Basen assentiu e veio até Maomao, com seu pato seguindo-o educadamente.

— Parece que você vai subir naquela escada. Deixe que eu faça isso. O que você precisa lá em cima?

— Você vai subir por mim, Mestre Basen?

Francamente, se essa era a escolha, Maomao preferia ir ela mesma. A habilidade atlética de Basen não estava em questão, mas ela temia que ele talvez não... improvisasse rápido o bastante.

Além disso, sabe-se lá o que ele poderia fazer com aquela força absurda?

O pato bateu as asas como se estivesse torcendo por ele. A inquietação de Maomao só aumentou.

— Não precisa se incomodar. Eu posso fazer isso — ela disse com firmeza, mas Basen não se deixou convencer.

— Eu disse que vou subir. Pode contar comigo! O que você precisa que eu faça?

Basen claramente estava ali com a intenção de cuidar daquela tarefa. Maomao teria que ceder.

— Eu acho... acho, agora, que um pássaro fez um ninho nas vigas do telhado. Se encontrá-lo, acha que consegue pegar o pássaro para mim?

— Um pássaro? Ah, pássaros, eu sei como lidar com eles — disse ele, lançando um olhar para seu pato. Patos domésticos, porém, não voavam.

— Suspeito que esse pássaro seja noturno, então provavelmente ele está dormindo agora. Se puder subir bem silenciosamente, para não acordá-lo, por favor. Se conseguir alcançá-lo, pegue-o.

— Entendido. — Basen estava ansioso para começar. Maomao se sentia cada vez menos segura com aquilo.

— Mestre Basen, não se pode entrar no Paraíso quando se tira uma vida sem necessidade, lembra? Tente não estrangular o coitado.

— Tentar não estrangulá-lo... — Basen imediatamente pareceu, bem, menor.

Isso é muito, muito ruim.

Ela definitivamente sentiu uma onda sinistra de presságio. Considerou seriamente acordar Lihaku e pedir que ele cuidasse daquilo, mas então olhou novamente para as vigas. Ele jamais conseguiria passar entre elas.

— Sabe, considerando o tamanho do espaço lá em cima, acho que definitivamente eu deveria fazer isso — disse ela.

— N-Não, não, eu vou. Pode contar comigo! — respondeu Basen.

Então ele começou a subir a escada, enquanto a ansiedade de Maomao aumentava a cada degrau. Se havia algum lado positivo naquela situação, era que Basen era tão robusto que não se machucaria caso caísse.

Basen chegou ao topo da escada e espiou através da treliça ao longo da borda do telhado. Ele fez um gesto para Maomao dizendo que estava tudo bem.

Então isso quer dizer que há um ninho lá em cima.

A treliça tinha sido projetada para ser removível, e Basen a desprendeu. Ele passou uma corda por ela e a baixou até o chão, depois se enfiou no espaço do telhado.

Toda a multidão reunida, incluindo Maomao, engoliu em seco. Todos pareciam estranhamente silenciosos… então Maomao percebeu que Chue tinha aparecido em algum momento e segurava uma placa onde estava escrito Silêncio, por favor.

Por um longo momento, nada aconteceu, e então houve um estrondo.

— Droga! Ele escapou! — exclamou Basen.

Ah, qual é!

Maomao ficou desesperada… mas Chue largou a placa e subiu correndo pela escada. O que ela estava fazendo? Ela se posicionou diante do espaço aberto no telhado e, quando um pequeno objeto saiu disparado, ela o pegou com uma rede.

Todos, mais uma vez incluindo Maomao, ficaram em silêncio, atônitos diante da agilidade de Chue.

De onde ela tirou essa rede? perguntou-se Maomao.

— Peguei! — gritou Chue, erguendo a rede. Ela parecia tão orgulhosa de si mesma que era difícil não ficar um pouco irritada.

Ela sempre adorou ser o centro das atenções e tinha encontrado uma oportunidade perfeita.

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Um alvoroço se espalhou pelo pátio, mas, quando Jinshi, a pessoa mais importante ali, mandou todos voltarem ao trabalho, eles obedientemente se dispersaram. Depois que os curiosos foram embora, os demais puderam ver exatamente o que havia na rede de Chue.

— O que diabos é isso, afinal? — perguntou Jinshi. Ele e Basen pareciam igualmente surpresos. A julgar pela reação de Basen, o pássaro tinha escapado dele antes que ele conseguisse ver exatamente como era.

Chue tinha capturado uma coruja de cerca de trinta centímetros. Ela não parecia uma coruja normal, porém… o mais impressionante era seu rosto, que era estranho e inquietante, redondo e branco. As penas ao redor de seu rosto eram pretas e, se estivesse em algum lugar escuro com as asas recolhidas, ela poderia muito bem parecer uma máscara branca.

No entanto...

— Não é meio pequena? — perguntou Tianyu, sem se impressionar. Ele não hesitou em se meter na conversa apesar da presença de Jinshi — o próprio Príncipe da Lua. Maomao deu uma cotovelada nele.

— Opa! Príncipe da Lua, senhor. Não percebi que o senhor estava aqui. Sinto muito.

Maomao começava a achar que Tianyu não se preocupava muito com etiqueta. Não que ela estivesse em posição de julgá-lo.

A expressão de Jinshi estava um tanto rígida, mas, superficialmente, ele usava um sorriso digno de alguém que “vivia acima das nuvens”, um nobre.

— Com toda essa confusão, seria difícil não perceber. Mas o que exatamente vocês estavam fazendo? — perguntou ele.

Vai fingir que não sabe de nada hein? pensou Maomao. Ele tinha até mandado Basen fazer o trabalho sujo.

Maomao, preocupado com o que Tianyu diria se fosse deixado por conta própria, deu um passo à frente antes que ele pudesse falar. — Senhor. Há rumores de que um fantasma tenha sido visto dentro e nos arredores desta casa ultimamente. O soldado designado para acompanhar os médicos me contou que soube disso por meio de uma criada e que tem investigado o assunto durante suas rondas pela mansão. A mesma criada voltou a procurá-lo esta manhã, mas, como nosso soldado estava de guarda ontem à noite, hesitei em fazê-lo lidar com isso sozinho.

Maomao presumiu que Chue já teria contado a Jinshi sobre o que aconteceu na noite anterior.

— Na verdade, eu mesma encontrei o que acredito ser esse espírito ontem à noite, então quis ajudar a descobrir o que estava acontecendo.

— Hum. E quanto a esse médico que está com você? Presumo que ele tenha obrigações médicas a cumprir. — Jinshi olhou friamente para Tianyu.

Merda. Ela sabia que não tinha sido uma boa ideia deixar Tianyu se envolver. Ela lançou-lhe um olhar irritado. Ele, porém, deu um passo à frente com uma expressão inocente. — Peço minhas mais humildes desculpas — disse ele, da maneira mais elaboradamente educada que conseguiu. — Eu implorei para que ela me deixasse acompanhá-la. Maomao aqui é muito mais habilidosa do que eu na preparação de medicamentos e tem sido gentil o bastante para me ensinar muitas coisas. Quando ela disse que queria examinar o pátio, simplesmente presumi que pretendia procurar ervas e outros ingredientes e a acompanhei.

Ora seu pequeno...

Ele estava sendo excepcionalmente educado e nem sequer estava errando o nome dela!

Maomao achou que os olhos de Jinshi brilharam ainda mais. — Hoh, entendo. Acho que sei o que está acontecendo aqui. Você acredita que esse pássaro é o suposto espírito?

— Sim, senhor. De qualquer forma, essa é metade da resposta. — Maomao olhou para a coruja.

— Este lugar é muito exposto — disse Jinshi. — Talvez eu pudesse fazer mais algumas perguntas em outro lugar.

— Certamente, senhor — disse Maomao, e os dois partiram.

Fim da leitura

Capítulo 10.11 concluído

Volume 10 – Capítulo 11 – Capítulo 11: O Feitouman (Parte 1)