Diários de uma ApotecáriaVolume 10 – Capítulo 12 – Capítulo 12: O Feitouman (Parte 2)
Capítulo 10.12Jinshi estudou o animal dentro da gaiola. — Nunca vi um pássaro com um rosto exatamente assim antes. Nunca imaginei.
Eles tinham ido para os aposentos de Jinshi, onde ele estava sentado no lugar de honra, com Suiren, Taomei e Chue ao seu redor, além de Basen como seu guarda-costas. Maomao suspeitava que o irmão mais velho de Basen, Baryou, também estivesse por perto, mas não esperava vê-lo de fato em nenhum momento. Gaoshun estava ausente; ela não sabia se ele estava de folga ou ocupado com alguma outra tarefa. Por algum motivo, Tianyu também estava ali, sorrindo sem parar.
Finja que tem trabalho ou alguma coisa assim e vá embora! Maomao pensou com raiva, mas se parecesse que algo interessante estava acontecendo, Tianyu faria questão de se envolver.
— O que fez você pensar que um pássaro como este poderia ser a verdadeira identidade do nosso feitouman? — perguntou Jinshi.
Maomao fechou os olhos. Ela teria que tomar cuidado para não dar a Tianyu nenhuma informação que pudesse fazê-lo perceber alguma coisa.
— Senhor. A primeira coisa que me pareceu estranha foi a palavra “máscara”. As pessoas disseram que a tinham visto perto da árvore ou no telhado do prédio, então meu primeiro pensamento foi procurar perto da árvore. Meu encontro com a suposta aparição também tomou a forma de uma máscara.
Chue também tinha notado a árvore. A investigação de Maomao encontrou fezes de pássaro, e não de um pássaro pequeno, mas de uma ave carnívora relativamente grande.
— Vi pássaros pequenos voando pela casa durante o dia, então pensei que, se houvesse um predador por perto, ele provavelmente seria noturno.
— Hum. Então foi aí que você percebeu que havia um pássaro por trás dessas aparições. Como provou isso?
— Assim que soube da existência desse pássaro, senhor, foi relativamente fácil fazer uma suposição. Nunca vi um pessoalmente, mas já tinha ouvido falar de pássaros com rostos que parecem máscaras. Havia uma ilustração de um deles na enciclopédia de animais que consegui na loja onde eu trabalhava. Embora eu admita que não dei muita atenção a ele quando o vi pela primeira vez.
Ela confiava que Jinshi saberia a qual enciclopédia ela estava se referindo: um dos livros trazidos da fortaleza do clã Shi. No momento, o livro estava sob os cuidados de Jinshi; se ele o tivesse levado para a capital do oeste, talvez pudesse consultá-lo.
— Uma enciclopédia? — disse Jinshi, lançando um olhar para Taomei. Ela trouxe uma pilha de livros, com Chue ajudando a carregar aqueles que não cabiam em seus braços. Entre os livros estavam a enciclopédia de ervas medicinais, além de outras sobre insetos e animais. Aqueles eram livros do clã Shi, mas havia vários outros que Maomao nunca tinha visto.
Pelo visto, ele não perdeu tempo procurando por eles depois do que aconteceu ontem.
Ela ficou impressionada com a rapidez com que ele trabalhava.
— Isso é o que chamam, apropriadamente, de uma coruja-mascarada — disse ela. — Nenhuma coruja normal daria a impressão de ser uma máscara voadora, e esta tem uma coloração incomum. Essa coruja possui penas tão escuras que são quase pretas. Normalmente, mesmo os pássaros com o corpo de cores escuras tinham penas brancas na barriga, mas, fora o rosto, esta é de um marrom-escuro uniforme. Seria fácil não notá-la à noite.
— Uma coruja-mascarada? É esta aqui, não é? — perguntou Jinshi, abrindo a enciclopédia do clã Shi na página correspondente. Tirando a coloração, o rosto inquietante, semelhante a uma máscara, certamente combinava com o pássaro na gaiola.
Tianyu levantou a mão. — Posso perguntar uma coisa?
— Pode. — Jinshi soou um pouco mais autoritário do que de costume.
— Concordo que parece estar usando uma máscara, mas não parece um pouco pequena? É um pouco menor do que deveria ser para ter o tamanho do rosto de uma pessoa.
Tianyu espiou dentro da gaiola, observando o pássaro. O animal não estava tentando escapar; na verdade, parecia sonolento. Se colocassem algum material para fazer um ninho ali dentro, talvez ele cochilasse.
— O olho humano não é confiável — respondeu Maomao. — Pode ser que só a parte branca seja visível flutuando no ar, mas acho que pareceria maior do que realmente é. — Então Maomao tirou um pedaço de papel das dobras do manto. Ela estava procurando algo para escrever quando Chue tirou alguns instrumentos de escrita e os ofereceu a ela. Ágil, isso ela certamente era. Aliás, ela não tinha poupado os olhares irritados para Basen, que quase deixou o pássaro escapar.
Maomao fez quatro pontos no papel, exatamente onde ficariam os olhos, a boca e o nariz de uma pessoa, e o ergueu para Jinshi e Tianyu.
— As pessoas vão interpretar qualquer coisa como um rosto humano, desde que os pontos estejam no lugar certo. É como quando às vezes enxergamos rostos nos nós dos pilares de madeira.
— Então agora sabemos o que era a misteriosa máscara — disse Tianyu. Ele enfiou a mão na gaiola e cutucou a coruja, que não reagiu muito.
Taomei apareceu carregando um pequeno prato com carne de frango crua. Parecia ser mais generosa com corujas do que com patos. Talvez dois predadores se reconhecessem.
Então o pássaro ganha carne?
Taomei pegou um pedaço de frango com um par de hashis e o estendeu; a coruja imediatamente o pegou. Não demonstrou nenhuma aversão à comida oferecida por humanos.
— Mas e a cabeça? Você disse que resolveu metade do mistério. Isso significa que acha que a cabeça é outra coisa? — Tianyu não era nenhum tolo; ele lembrava exatamente do que Maomao tinha dito.
— Uma máscara e uma cabeça? O que isso significa? — perguntou Jinshi.
Maomao começou a explicar, aproveitando a oportunidade para rever tudo o que sabia. — As testemunhas começaram a relatá-la há cerca de dois meses. Na época, algumas pessoas disseram ter visto uma máscara e outras disseram ter visto uma cabeça, mas, nas últimas três semanas ou mais, a maioria das testemunhas relatou uma cabeça. Além disso, elas dizem tê-la visto do lado de fora da mansão. No meu caso, eu vi a máscara, mas nenhuma cabeça.
— Então você acha que a máscara e a cabeça são coisas diferentes. Se esse pássaro explica a máscara, então o que é a cabeça? — perguntou Jinshi.
— Quanto a isso... — Maomao olhou para Chue.
— Sim? O que você precisa? Tem alguma coisa que queira da senhorita Chue?
— Não é você, senhorita Chue?
Maomao considerou a linha do tempo. A cabeça começou a ser vista cerca de vinte dias antes ou, em outras palavras, justamente na época em que Maomao e os outros chegaram à capital do oeste. E havia um membro do grupo deles que parecia especialmente propenso a fazer coisas incomuns.
— Como você pode dizer isso, senhorita Maomao? A senhorita Chue não esteve com você nos últimos dias?
Maomao teve que admitir que aquilo era verdade. Elas tinham trabalhado juntas nos campos.
— Foi apenas uma hipótese — disse ela. — Mas sinto que essa coruja me deu uma grande peça do quebra-cabeça. — Enquanto a coruja comia o frango, ela olhou para sua perna. Ali, avistou um pequeno anel de metal bem trabalhado. — Acho que não vai demorar nada para descobrirmos a verdade sobre a cabeça. Só precisamos preparar uma pequena armadilha.
Ela sorriu para a coruja de rosto inquietante e fez um carinho em sua cabeça.
No dia seguinte, Chue apareceu no consultório médico. Maomao tinha terminado de arrumar tudo depois do café da manhã e estava ajudando o charlatão a preparar alguns medicamentos. Uma olhada na enciclopédia de ervas de Jinshi tinha lhe dado uma ideia de quais dos espécimes que coletou poderiam ser úteis, e elas estavam fazendo alguns experimentos.
— A senhorita Maomao é uma profetisa? — perguntou Chue, piscando.
— Presumo que você tenha capturado o culpado. Não foi muito bruta com ele, não é?
— Do que vocês duas estão falando? Estou tão confuso — disse o charlatão, que não fazia parte daquela conversa de jeito nenhum. Parecia dar muito trabalho explicar tudo a ele, então Maomao decidiu simplesmente fazê-lo continuar trabalhando nos medicamentos. Quando terminasse, ela suspeitava que ele faria chá para elas.
Chue não precisou de convite para se sentir em casa; sentou-se em uma cadeira e esperou que o charlatão lhe trouxesse alguns doces. A conversa com Maomao parecia quase secundária diante de seu objetivo principal: conseguir guloseimas.
— Não se preocupe. Foi exatamente como a senhorita Maomao disse. Ficamos de olho na gaiola da coruja durante a noite inteira e, quando o pássaro de repente começou a fazer uma algazarra, procuramos por toda a propriedade. Foi a coisa mais estranha! Encontramos uma mulher vestida toda de preto e usando uma máscara esquisita.
Chue contou tudo isso com a maior alegria, enquanto também dava um gole no chá que o charlatão preparou educadamente. Os acompanhamentos eram frutas secas, uma iguaria bem típica da capital do oeste.
— Sério? Uau, quem diria? — disse Maomao, um pouco surpresa ao descobrir que sua previsão tinha acertado em cheio. — Então, essa era a pessoa que estava cuidando da coruja?
— Bingo! — Chue fez um grande círculo com os dois braços, num gesto de confirmação.
Maomao pensou na coruja que tinham capturado.
— Era bastante óbvio que era um pássaro doméstico. Pelo que tinha na perna, pelo fato de não se incomodar por estar numa gaiola e por comer frango que já tinha sido cortado. Não acho que seja um animal que ela estava mantendo temporariamente. Ela o tem há bastante tempo.
— Hoh, hoh.
— Além disso, há uma coisa nos depoimentos das testemunhas que está me incomodando.
Mais especificamente, uma semelhança entre os relatos da máscara, que começaram dois meses atrás, e os relatos da cabeça, que começaram vinte dias atrás.
— Dois meses atrás... Não seria mais ou menos a época em que a famosa sobrinha da Imperatriz Gyokuyou estava prestes a partir para a capital?
— Oh! — disse Chue, evidentemente entendendo onde Maomao queria chegar.
— Suponha que a coruja estivesse destinada a ser uma das oferendas que seriam levadas para a Cidade Imperial, mas, de alguma forma, ela tenha escapado — disse Maomao.
— Hoh, hoh! Quer dizer que talvez ela estivesse tentando capturá-la para ter outra chance de oferecê-la à família imperial agora que um membro veio até aqui? Certo, mas e a máscara? Ela estava tentando esconder a identidade?
Maomao tinha uma ideia sobre isso, embora não fosse uma resposta clara ou certa, apenas uma de suas suposições.
— Senhorita Maomao — disse Chue. — A senhorita Chue pode agir feito uma boba, mas não é boba. Ela entenderia que sua opinião é apenas uma possibilidade e jamais a aceitaria sem questionar.
Era a maneira indireta de Chue dizer Fala logo de uma vez. Maomao viu que não tinha muita escolha a não ser atender.
— Suspeito que a máscara e a roupa preta seja para fazer essa pessoa parecer mais com a mãe da coruja.
Chue inclinou a cabeça.
— Você conhece o conceito de imprinting? — perguntou Maomao.
— Ah, sim. A senhorita Chue sabe tudo sobre isso. Significa que, quando um pássaro sai do ovo, ele pensa que a primeira coisa que vê é sua mãe. Do mesmo jeito que aquele pato se sente em relação ao meu cunhadinho.
— Exatamente. Acho que talvez quem criou a coruja pretendesse devolvê-la à natureza e quisesse garantir que ela não desenvolvesse uma ligação com um rosto humano.
— Hoh…
[Noelle: interessante né? Mas esse termo aí me lembra de crepúsculo kkkkkkkkkkkkkkk mais alguém lembra do imprinting? kkk]
A julgar pelas fezes da coruja, ela estava capturando a própria comida, o que significava que sabia caçar.
— No entanto, ela aceita e vai aceitar carne oferecida por uma mão humana — disse Maomao. — Domestique um pássaro de aparência interessante como esse, e uma pessoa rica pode comprá-lo por curiosidade, ou ele pode ser oferecido como presente à nobreza.
— Mas quem cuidava dela não queria que ela acabasse assim, então a soltou — ou talvez ela tenha escapado?
— Lembre-se de que isso é apenas uma hipótese. — Maomao se recusou a falar com certeza.
— Foi azar dela, porém, que a coruja tenha escolhido morar justamente no anexo do Mestre Gyoku-ou! E, quando um membro da família imperial chegou para ficar lá... bem, que coisa terrível!
— Hipótese! — repetiu Maomao.
— Ela percebeu que a coruja viria até ela mais rápido se se vestisse como quando a estava criando. Então, quando a pegasse, pretendia soltá-la em algum lugar distante, onde ninguém jamais a encontraria.
— Hipóte... suspiro.
— Não se preocupe, eu sei!
Talvez a cuidadora tivesse usado algum tipo de apito para pássaros. A coruja tinha respondido, mas não tinha saído.
Independentemente da suposição de Maomao estar correta ou não, ela lhes rendeu uma coisa.
— A pessoa de preto é a cuidadora da coruja, não é? — perguntou Maomao.
— Isso mesmo! — cantou Chue.
As duas sorriram uma para a outra. O charlatão, ainda sem entender nada, parecia visivelmente intimidado por duas pessoas que, aos olhos dele, pareciam estar tramando alguma coisa.
Se Maomao estivesse certa ao supor que aquela pessoa criou o pássaro desde que ele era filhote, isso os aproximaria de resolver um problema específico. Nianzhen, o antigo servo, tinha falado sobre a tribo dos Leitores do Vento e sobre como o clã Yi havia concedido proteção à tribo.
Mas aposto que eles não conquistaram a proteção de um clã importante simplesmente fazendo desenhos ritualísticos na terra.
Havia também a questão de como eles realmente tinham se livrado dos insetos que encontraram. Maomao sentiu que estava sendo conduzida a uma conclusão: os Leitores do Vento criavam pássaros. Como havia sugerido a Jinshi, talvez usassem essas criaturas para se comunicar. Um meio rápido e confiável de transportar mensagens seria muito valioso.
Para começar, Maomao decidiu que queria conhecer aquela estranha mascarada.
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