Diários de uma ApotecáriaVolume 10 – Capítulo 18 – Capítulo 18: Desastre (Parte 2)
Capítulo 10.18O primeiro apareceu quando cerca de setenta por cento da colheita já tinha sido recolhida. Era mais escuro que um gafanhoto comum, com pernas mais compridas. Alguém o esmagou e matou. Outra pessoa gritou para não perderem tempo com aquilo… precisavam continuar a colheita.
Tochas foram acesas. Aquilo mal seria uma gota naquele oceano, mas já era alguma coisa.
As mulheres e as crianças entraram nas casas e tentaram cobrir todas as frestas com barro ou tecido. As casas ficaram escuras por dentro, mas elas receberam ordens rigorosas para não acender nenhum fogo e também para deixar comida pronta que pudesse ser consumida sem preparo. Também receberam ordens para matar qualquer inseto que conseguisse passar pelas frestas.
Na casa de Nianzhen, não havia espaço suficiente para guardar tudo, então começaram a armazenar grãos no santuário. Lá, as fendas estavam tão cheias de terra que quase não entrava ar.
Todas as casas que podiam ser consideradas dignas desse nome foram pulverizadas com inseticida, embora eles não soubessem se aquilo serviria para alguma coisa. As tendas tinham aberturas demais para servirem como áreas de armazenamento. Em vez disso, seriam pontos de evacuação temporários para os moradores da vila.
Basen carregava uma enorme rede. Talvez ela tivesse sido usada para pescar, mas ele a girava sobre a cabeça com uma velocidade tremenda, capturando os gafanhotos dentro dela. Depois, despejava-os em um enorme balde de água, matando eles.
Chue distribuía bolsas de couro. Em vez de comida, elas continham leite de cabra adoçado. Ela estava se preparando para uma longa batalha.
Nianzhen vestia várias camisas por cima uma da outra, e os outros moradores da vila o imitavam.
Rikuson ia de casa em casa, tranquilizando os moradores cujas vozes ansiosas conseguia ouvir através das aberturas de ventilação. Sempre que encontrava insetos entrando por alguma fresta, esmagava-os e preenchia a abertura. O pato bicava os gafanhotos e depois os cuspia de volta. Talvez fossem intragáveis.
Então os moradores da vila começaram a gritar.
Tudo pareceu ficar mais escuro, passando do claro e brilhante para a cor cinza e, depois, para um cinza que lembrava a Maomao um rato, até que tudo ficou praticamente preto.
Era impossível abrir os olhos, quanto mais andar. Os insetos esbarravam nas pessoas, mordiam e as dilaceravam. As pessoas não conseguiam abrir a boca; tudo o que podiam fazer era cobri-la com trapos. Suas camisas sobrepostas foram rasgadas e despedaçadas, e o bater das asas abafou todos os outros sons. Um zumbido ensurdecedor dominava tudo, de modo que era impossível entender o que alguém estava dizendo. Logo, nem mesmo os gritos podiam mais ser ouvidos.
Maomao cobriu o rosto com as mãos e então abriu os olhos o mínimo possível. Conseguiu ver Basen, ainda girando a rede sobre a cabeça. Ela se enchia quase instantaneamente, e então ele a batia contra o chão. O balde havia transbordado de gafanhotos fazia muito tempo.
Um homem enlouqueceu por causa das picadas dos insetos. Ele uivava a plenos pulmões e balançava uma tocha em uma mão e uma foice na outra. Não adiantou nada; os gafanhotos sobreviveram ao seu contra-ataque e continuaram atacando os aldeões.
Chue se aproximou sorrateiramente do homem enlouquecido e varreu seus pés, fazendo-o cair. No momento em que ele tocou o chão, ela o amarrou com uma corda.
Rikuson continuava correndo de casa em casa, gritando. Algumas pessoas enlouqueceram por causa do desaparecimento da luz. Outras estavam lúcidas, mas simplesmente não conseguiam ouvi-lo.
Fogo irrompeu de uma das casas, e uma mulher idosa e algumas crianças saíram correndo da construção que, até então, estava selada. Uma das crianças segurava uma pederneira.
O trigo recém-colhido dentro da casa era o combustível perfeito, e o fogo se espalhou rapidamente. O ar seco da estação seca tornou as condições ainda mais favoráveis às chamas.
Basen reagiu imediatamente, dando um chute em uma das colunas da casa. O lugar já não passava de um barraco, e logo desabou.
Maomao conseguia ouvir Basen gritando, embora não conseguisse entender as palavras. Talvez ele estivesse dizendo que a fonte de água ficava longe demais para combater as chamas e que precisavam destruir a casa. Ele ficava em seu estado elementar nos momentos de crise.
[Noelle: O Basen fica melhor ainda nos momentos de crise, esse é o estado elemental dele, onde ele fica top top, isso que quer dizer o sentido dessa última linha! “Meu estado natural é o caos…”]
Ele praticamente já tinha derrubado o lugar sozinho; e então ele correu até lá com o balde cheio de gafanhotos flutuando e o despejou sobre a casa. Chue levou rapidamente as crianças malcriadas e a senhora idosa para a barraca. O lugar estava cheio de gafanhotos, assim como em todos os outros lugares, mas era melhor do que ficar lá fora.
Quanto tempo já tinha passado? Maomao não sabia. Podiam ter sido trinta minutos. Podiam ter sido horas.
Todos na vila tremiam diante dos insetos, como nunca tinham visto antes; eles amaldiçoavam as criaturas e…
— Maomao!
Ela achou que sentiu alguém tocar em seu ombro. Ela se virou e encontrou Rikuson. Gafanhotos mastigavam seus cabelos e suas roupas. Ela estendeu a mão, pensando em afastá-los.
— Por favor, pare de fazer pesticida. Sua mão vai ficar inutilizada!
Ela olhou para a mão que tinha levantado; estava vermelha e inchada.
Ah...
Sua mistura não conseguia proporcionar nenhum alívio contra aquele enxame. Ela estava misturando pesticida e espalhando-o o mais rápido que conseguia, colocando-o em todos os lugares que conseguia imaginar, mas nunca era suficiente; os gafanhotos simplesmente continuavam chegando.
Por quê? Por que não funcionava?
Funcionava. Havia simplesmente insetos demais. Os insetos famintos chegavam a comer as ervas venenosas. Mordiam as pessoas, mastigavam as roupas e até tentavam comer as colunas das casas. Como se isso não bastasse, os insetos que caíam no chão começavam a comer uns aos outros. Havia insetos demais, e aquilo os levou a um frenesi.
Maomao também estava praticamente no limite, agarrando desesperadamente todas as ervas que pudessem ajudar a combater os insetos e cozinhando-as. Gafanhotos flutuavam na enorme panela. Maomao arrancava plantas com raiz e tudo e as jogava dentro. Sua mão estava inchada por arrancar as plantas do chão com as próprias mãos ou pelas propriedades tóxicas do pesticida?
Rikuson olhou para o céu, ainda escuro por causa do enxame. Os insetos estavam por toda parte, mas ele parecia estar olhando para algum lugar além deles, acima deles.
— Dizem que uma calamidade expulsa outra... Quem dera tivéssemos essa sorte.
Maomao não sabia o que ele queria dizer, mas também encarou a escuridão.
— Ai! — ela exclamou. Algo duro tinha batido nela. Ela olhou para o chão, tentando imaginar o que poderia ter sido, e encontrou um pedaço de gelo.
A dor veio novamente, dessa vez nas costas e, depois, no ombro.
Tum, tum, tum.
O ar tinha ficado muito frio.
— Granizo? — disse ela.
Entre os grandes pedaços de gelo e o ar congelante, os gafanhotos começaram a se mover visivelmente mais devagar.
— Uma calamidade expulsa outra, hein? — disse Maomao. Não, aquilo não era uma calamidade. Era um presente dos céus… uma conclusão à qual Maomao normalmente não chegaria. — Sim! Caiam! Deixem o granizo cair sobre nós!
Agora sua loucura estava tomando outra direção. Ela se inclinou para frente enquanto o granizo caía em meio ao enxame. Não era exatamente uma dança da chuva, mas sim uma dança do granizo.
Ela não sentia a dor dos insetos mordendo-a, nem a do granizo atingindo-a. Ela estava tomada pelo desejo, pela esperança de que alguma coisa, qualquer coisa, pudesse acontecer para ajudá-los a lidar com aquele enxame incontável de insetos.
Tum! Dessa vez, ela sentiu um golpe especialmente forte, bem na cabeça.
— Maomao!
Ela se lembrou de Rikuson correndo até ela, mas então tudo ficou preto.
[Noelle: Gente do céu, que desastre em? Quem diria que teríamos algo tão obscuro e detalhado, parece até real da forma como foi contado! E não sei vocês, mas senti a química do Rikuson com Maomao daqui hehehe ]
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